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Direitos Humanos Prof. Melina Bemfica SURGIMENTO DOS DIREITOS HUMANOS NO TEMPO Inicialmente, é importante destacar os direitos humanos/fundamentais, os quais representam demandas que remontam à antiguidade, ainda hoje não são plenamente aceitos e implementados. Em suma, os direitos humanos, mesmo hoje, não são plenamente aplicáveis. Na visão de Konder Comparato, para entender o surgimento dos direitos humanos, é preciso entender 1) a evolução do conceito de homem; 2) etapas históricas de afirmação dos direitos humanos. Portanto, para compreendermos o surgimento dos direitos humanos, é indispensável entender que eles não nasceram prontos nem sempre existiram como hoje os concebemos. Antes que se pudesse falar em “direitos humanos”, foi necessário construir historicamente a própria ideia de “humano”. Durante longos períodos da história, nem todos eram considerados plenamente humanos. Mulheres, escravizados, povos originários e diversos outros grupos foram vistos como inferiores, incapazes ou destituídos de plena racionalidade. Se alguém não era reconhecido como sujeito humano completo, tampouco podia ser titular de direitos. Assim, a história dos direitos humanos é, antes de tudo, a história da ampliação do reconhecimento da humanidade. Segundo Fábio Konder Comparato, em A Afirmação Histórica dos Direitos Humanos, a ideia de pessoa humana e de dignidade foi sendo construída ao longo de diferentes momentos históricos. Em resumo, precisamos observar para surgir o conceito de direitos humanos precisamos primeiro concordar que fazemos todos parte de uma mesma espécie, a espécie humana. Além disso, precisamos concordar, minimente, que todos somos iguais, mesmo com ocorrência de todas as diferenças individuais ou grupais, de ordem biológica ou cultural. E é crença na igualdade de essência da pessoa que forma o centro do conceito universal de direitos humanos. Além disso, precisamos entender que conceder direito para as pessoas é limitar o poder de determinadas autoridades. As etapas históricas da afirmação dos direitos humanos 1) O reino davídico, a democracia ateniense e a república romana: Não há ainda direitos humanos positivados, mas surgem experiências políticas e religiosas que preparam o terreno para sua formulação futura. A primeira fase histórica dos direitos humanos corresponde à eclosão da consciência de que o poder político não é absoluto e deve estar submetido a princípios superiores de justiça. Essa etapa se manifesta em três experiências fundamentais da Antiguidade: o reino davídico, a democracia ateniense e a república romana. No reino de Israel, o poder do rei estava subordinado à Lei divina, e os profetas exerciam função crítica diante das injustiças, afirmando que a autoridade política não poderia agir contra a justiça. Em Atenas, desenvolveu-se a ideia de participação política dos cidadãos nas decisões da cidade, inaugurando a noção de cidadania e autonomia política, ainda que restrita a uma parcela da população. Em Roma, consolidou-se a importância da lei escrita e da organização institucional do poder, estabelecendo-se mecanismos jurídicos que limitavam a autoridade dos governantes. Embora não houvesse ainda direitos humanos universais, formaram-se os primeiros pilares da limitação do poder. 2) Idade Média: na Baixa Idade Média, ocorre uma reconcentração do poder político nas mãos dos monarcas, o que gera abusos e arbitrariedades. Em reação a essa centralização excessiva, surgem as primeiras manifestações institucionais de limitação do poder real, como a Declaração das Cortes de Leão (1188), na Península Ibérica, e, sobretudo, a Magna Carta inglesa de 1215. Esses documentos não proclamam ainda direitos humanos universais, mas representam um passo decisivo ao impor restrições jurídicas à autoridade do soberano. Nesse momento histórico, começa a despontar, no embrião dos direitos humanos, o valor da liberdade. Contudo, trata-se de uma liberdade restrita e estamental, concedida principalmente ao clero e à nobreza, com algumas concessões ao chamado Terceiro Estado. Não havia ainda a ideia de liberdade geral e igual para todos, que somente seria afirmada no final do século XVIII. Assim, a contribuição da Baixa Idade Média consiste na inauguração da limitação jurídica do poder, ainda que voltada a grupos específicos da sociedade. 3) Século XVII: Generalizou-se a consciência dos perigos representados pelo poder absoluto. Nos séculos que sucederam a Idade Média, a Europa viveu uma profunda “crise da consciência europeia”, marcada pelo questionamento das certezas tradicionais. No campo cultural, surgiu a “querela dos antigos e dos modernos”; na política, movimentos como a revolta dos Levellers e a revolução liderada por Oliver Cromwell reacenderam ideias republicanas e democráticas; na ciência, as descobertas de Galileu, Pascal e Newton provocaram uma verdadeira revolução científica. Foi um período de transformação intelectual e cultural que alterou profundamente a forma de compreender o mundo, o poder e o próprio ser humano. Paradoxalmente, esse mesmo período foi marcado por forte concentração de poder político, com a formulação da teoria da monarquia absoluta por pensadores como Bodin e Hobbes e com a consolidação de impérios coloniais altamente centralizados. A experiência do absolutismo, somada às guerras civis inglesas, despertou a consciência dos perigos do poder ilimitado, fortalecendo o sentimento de liberdade e a necessidade de mecanismos institucionais de contenção da autoridade soberana. Nesse contexto, surgiram importantes garantias jurídicas, como o habeas corpus e o Bill of Rights inglês, que limitaram o poder do rei e reforçaram o papel do Parlamento como instituição central na proteção das liberdades. Embora essas garantias não fossem universais — beneficiando principalmente o clero, a nobreza e, posteriormente, a burguesia — elas representaram avanço decisivo na consolidação das liberdades civis e políticas e criaram as bases institucionais do governo representativo, elemento fundamental para o desenvolvimento posterior do constitucionalismo e dos direitos humanos. 4) Independência Americana e Revolução Francesa: certidão de nascimento dos Direitos Humanos. Documentos essenciais: Declaração de Direito do Povo da Virgínia (16 de junho de 1776) e Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão (1789). As declarações de direitos norte-americanas, juntamente com a Declaração francesa de 1789, representaram a emancipação histórica do indivíduo perante os grupos sociais aos quais ele sempre se submeteu: a família, o clã, o estamento, as organizações religiosas. Nesse contexto, importa salientar que os direitos surgidos em tal período são conectados ao Estado Liberal, que surge entre os séculos XVIII e XIX, especialmente após as revoluções inglesa, americana e francesa. Seu objetivo principal era limitar o poder do Estado e proteger a liberdade individual contra o absolutismo. A lógica central é: O Estado deve intervir o mínimo possível. 5) Direitos sociais e econômicos: Com a ascensão do indivíduo na modernidade e a consolidação da sociedade liberal, houve também a perda das antigas formas de proteção familiar, estamental ou religiosa. O indivíduo tornou-se formalmente livre, mas também mais vulnerável às incertezas da vida econômica e social. A sociedade liberal ofereceu, como contrapartida, a segurança da legalidade e a garantia da igualdade de todos perante a lei. Contudo, essa igualdade meramente formal revelou- se insuficiente diante da realidade de uma crescente massa de trabalhadores submetidos às condições impostas pelo capitalismo industrial. A isonomia jurídica mostrou-se, na prática, incapaz de enfrentar as profundas desigualdades sociais geradas pelo novo modelo econômico. Foi nesse contexto que emergiram as reivindicações por direitos de carátereconômico e social, impulsionadas pelo movimento socialista do século XIX. Diferentemente dos direitos civis e políticos, cujo titular era o indivíduo abstrato, os direitos sociais dirigem-se concretamente aos grupos vulneráveis — trabalhadores, pobres e marginalizados — buscando garantir condições mínimas de existência digna. Os marcos históricos dessa nova etapa foram a Constituição mexicana de 1917 e a Constituição de Weimar de 1919, que incorporaram, de forma pioneira, direitos trabalhistas e sociais ao texto constitucional. Com isso, consolidou-se a compreensão de que a dignidade humana não depende apenas da liberdade formal, mas também de condições materiais adequadas de vida. Nesse contexto, estamos no caminho para o Estado Social, que surge no final do século XIX e início do século XX, como resposta às desigualdades produzidas pelo capitalismo industrial. A lógica agora muda: Não basta garantir liberdade formal; é preciso garantir condições materiais mínimas de dignidade. 6) Internacionalização: Ela teve início na segunda metade do século XIX e findou com a 2ª Guerra Mundial, manifestando-se basicamente em três setores: o direito humanitário, a luta contra a escravidão e a regulação dos direitos do trabalhador assalariado. No final do século XIX e início do século XX, os direitos humanos começaram a ultrapassar as fronteiras dos Estados e a se tornar objeto de acordos internacionais. Um dos primeiros campos em que isso ocorreu foi o chamado direito humanitário, voltado à proteção de vítimas de guerras. A Convenção de Genebra de 1864 foi o primeiro grande documento internacional a estabelecer regras para proteger soldados feridos, prisioneiros e populações civis. Posteriormente, novas convenções ampliaram essa proteção, e foi criada a Cruz Vermelha Internacional, consolidando a ideia de que mesmo em tempos de guerra existem limites jurídicos que devem ser respeitados. Outro avanço importante na internacionalização dos direitos humanos foi a luta contra a escravidão. No final do século XIX, surgiram os primeiros acordos internacionais para combater o tráfico de escravos, ainda que com pouca efetividade inicial. Em 1926, já no âmbito da Liga das Nações, firmou-se nova convenção reforçando o compromisso internacional de erradicar a escravidão. Esse movimento demonstra que certos direitos passaram a ser considerados preocupação da comunidade internacional, e não apenas assunto interno de cada país. Também merece destaque a criação da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 1919, que passou a estabelecer normas internacionais para proteger trabalhadores. Antes mesmo da Segunda Guerra Mundial, a OIT já havia aprovado dezenas de convenções sobre temas como direito de associação, descanso semanal, igualdade de tratamento entre trabalhadores nacionais e estrangeiros, salário-mínimo e proibição do trabalho forçado. Com isso, consolidou-se a ideia de que a dignidade humana inclui também condições dignas de trabalho, reforçando o processo de internacionalização dos direitos humanos. 7) Após 1945: Após as atrocidades da Segunda Guerra Mundial, marcadas pelo fortalecimento dos regimes totalitários e por massacres em escala inédita, a humanidade tomou consciência, de forma mais profunda do que nunca, do valor supremo da dignidade humana. O sofrimento extremo revelou a necessidade de estabelecer limites universais ao poder estatal. Foi nesse contexto que se inaugurou uma nova fase histórica dos direitos humanos, marcada por sua consolidação e expansão no plano internacional. Dois documentos simbolizam esse momento decisivo: a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pela ONU em 1948, e a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio, aprovada no mesmo ano. A partir de então, os direitos humanos deixaram definitivamente de ser assunto interno dos Estados e passaram a integrar a ordem jurídica internacional. Nas décadas seguintes, multiplicaram-se tratados e convenções internacionais, tanto no âmbito da ONU quanto em organizações regionais e na Organização Internacional do Trabalho. Além dos direitos civis e políticos e dos direitos econômicos e sociais, essa nova etapa também reconheceu novas categorias, como os direitos dos povos e os direitos da própria humanidade. Documentos como os Pactos Internacionais de 1966 e a Carta Africana de 1981 afirmaram direitos como autodeterminação, desenvolvimento, paz e preservação do patrimônio comum da humanidade, incluindo a proteção ambiental e os recursos naturais globais. Surge, assim, a perspectiva de uma cidadania mundial fundada na solidariedade ética, colocando a humanidade diante de uma escolha histórica: manter uma união baseada apenas na força e no poder econômico ou construir uma civilização orientada pelo respeito universal aos direitos humanos. Fundamentação Ética: A Dignidade da Pessoa Humana como Valor-Fonte e a Negação da Coisificação do Ser Humano A fundamentação ética dos direitos humanos repousa na ideia de que a dignidade da pessoa humana constitui o valor-fonte de toda a ordem jurídica. Isso significa que a pessoa não é protegida por ser útil ao Estado, à economia ou à coletividade, mas porque possui valor intrínseco. A dignidade não é um atributo concedido pelo poder político; é um valor inerente à condição humana e, por isso, antecede o próprio direito positivo. Essa compreensão alcança sua formulação filosófica mais rigorosa na obra de Immanuel Kant. Para o filósofo, as coisas possuem preço, isto é, valor relativo e substituível. Já o ser humano possui dignidade, que corresponde a um valor absoluto e incomensurável. Por ser dotado de razão e vontade, o homem é capaz de agir autonomamente, escolhendo seus próprios fins. Essa capacidade de autodeterminação impede que ele seja tratado como simples meio para objetivos alheios. Daí decorre a vedação à instrumentalização da pessoa humana. Segundo o imperativo categórico kantiano, o ser humano deve ser sempre tratado como fim em si mesmo, jamais como mero instrumento. A coisificação — isto é, a redução da pessoa à condição de objeto, mercadoria ou ferramenta — representa violação direta à dignidade. Práticas como a escravidão, a tortura, o trabalho forçado ou qualquer forma de exploração desumanizante expressam justamente essa negação ética fundamental. No plano jurídico, a dignidade da pessoa humana opera como princípio estruturante e limite ao exercício do poder. Ela orienta a interpretação das normas e impede que interesses econômicos, políticos ou majoritários prevaleçam sobre o valor intrínseco da pessoa. Assim, a vedação à coisificação não é apenas um ideal moral, mas fundamento normativo que sustenta todo o sistema contemporâneo de direitos humanos. Os Direitos Humanos na visão de Hannah Arendt A reflexão de Hannah Arendt sobre os direitos humanos surge a partir da experiência do século XX, especialmente diante dos regimes totalitários (nazismo e stalinismo) e das consequências da Segunda Guerra Mundial. Em sua obra Origens do Totalitarismo, a autora analisa como milhões de pessoas foram privadas não apenas de seus direitos civis, mas também de sua própria condição política. A partir desse cenário, Arendt formula uma crítica profunda à concepção tradicional de “direitos naturais” ou “direitos do homem”. A Fragilidade dos Direitos Humanos: Arendt observa que, na prática, os chamados direitos humanos revelaram-se frágeis quando indivíduos perderam sua nacionalidade e se tornaram: Refugiados, Apátridas, Pessoas expulsas de seus países. Esses indivíduos continuavam sendo seres humanos, mas não possuíam mais um Estado que garantisse seus direitos. Assim, os direitos humanos, proclamados como universais, mostraram-se dependentes da existência de uma comunidade política que os assegurasse. A partir dessa constatação, Arendt formula sua ideia central: O direitomais fundamental é o “direito a ter direitos”. Isso significa que o primeiro direito da pessoa humana é o direito de pertencer a uma comunidade política organizada. Sem cidadania, os direitos tornam-se meramente abstratos, pois não há autoridade responsável por protegê-los. Dessa forma, Arendt desloca o debate dos direitos humanos do plano puramente moral para o plano político e institucional. Para Arendt, o totalitarismo não destrói apenas a vida física das pessoas, mas também sua condição política. Ao retirar dos indivíduos sua cidadania e sua participação na esfera pública, o regime totalitário transforma-os em seres “supérfluos”, isto é, pessoas sem lugar no mundo político. Essa exclusão representa uma forma extrema de negação da dignidade humana. Enquanto Kant fundamenta os direitos humanos na dignidade racional da pessoa, que deve ser tratada como fim em si mesma, Arendt enfatiza que essa dignidade só se torna efetiva quando existe uma estrutura política capaz de reconhecê-la e protegê-la. Kant oferece um fundamento moral. Arendt destaca a necessidade de garantia política. Em suma, na visão de Hannah Arendt, os direitos humanos não se sustentam apenas na condição abstrata de “ser humano”, mas dependem do pertencimento a uma comunidade política. O direito fundamental é, portanto, o direito de participar de uma ordem jurídica que reconheça e assegure os demais direitos. Sua reflexão contribui para compreender os desafios contemporâneos relacionados a refugiados, apátridas e populações deslocadas, evidenciando que a proteção dos direitos humanos exige tanto fundamento ético quanto estrutura institucional. Referências: COMPARATO, Fabio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. São Paulo: Saraiva, 2015. CABACINHA, Paulo Máximo de Castro. Direitos Humanos. Brasília, CP Iuris, 2026. CABACINHA, Paulo Máximo de Castro. Direito Internacional. Brasília, CP Iuris, 2025. CADERNOS SISTEMATIZADOS. Diretos Humanos. Brasília: Cadernos Sistematizados, 2026. TAVARES, André Ramos. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Saraiva, 2021. * O material acima foi elaborado a partir de trechos das obras dos autores acima citados para fins exclusivamente didáticos.