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AULA 2 ANÁLISE DE CENÁRIOS FINANCEIROS Prof. Thiago Fernandes Antunes 2 CONVERSA INICIAL Anteriormente, delimitamos alguns conceitos essenciais para o entendimento do assunto, abrangendo a real finalidade de um planejamento estratégico, o modo como esse deve ser elaborado considerando um processo de análise de cenários, e todos os instrumentos existentes para auxiliar nesse estudo, como análise SWOT, GUT e as cinco forças de Porter. Nesta aula, iniciaremos o estudo de um assunto muito importante com relação ao planejamento e análise de cenários: as estruturas de mercado e as políticas neste ambiente. Por esse motivo, nos temas iniciais explanaremos as estruturas de mercado existentes e, em seguida, nos debruçaremos sobre a análise das políticas monetária, fiscal e cambial que influenciam significativamente os destinos dos mercados. Por fim, destacaremos alguns elementos importantes da política monetária. Desse modo, essa aula foi estruturada da seguinte forma: 1. Estrutura de mercado; 2. Política monetária (taxa de juros, inflação câmbio); 3. Política fiscal e política cambial; 4. Oferta e demanda; 5. Indicadores econômicos. Ao final desta aula, esperamos que você seja capaz de: entender as diversas estruturas de mercado existentes e sua influência no âmbito concorrencial; compreender os principais pontos em uma política monetária, o funcionamento da inflação e da taxa de juros; a influência da política fiscal no mercado, e como a gestão realizada pode afetar diretamente as empresas nacionais; o funcionamento da política cambial e como seu equilíbrio é fundamental para a manutenção de uma economia estável e próspera; e, por fim, entender a importante lei da oferta e da demanda, o que facilitará a compreensão dos motivos pelo quais o mercado tende a variar. TEMA 1 – ESTRUTURAS DE MERCADO Com a evolução social e tecnológica, é cada vez mais difícil inserir-se em um determinado mercado, e é ainda mais complicado manter-se nele. Por esse motivo, o empresário, antes de iniciar um empreendimento, deve pesquisar e 3 identificar em qual estrutura de mercado seu negócio melhor se enquadra. Isso vai variar de acordo com a característica do produto ou serviço oferecido, pois cada um possui uma formatação já existente no mercado (estruturas de mercado). A compreensão desse sistema é importante, pois será o ponto inicial para a formulação de preços, quantidade de produção e análise da concorrência. Assim, a empresa, ao identificar em que estrutura se encontra, e quem são os seus concorrentes, poderá formular estratégias específicas para superar os adversários. 1.1 Mercado competitivo e não competitivo Entre as diversas estruturas, há mercados mais competitivos que outros. No mercado competitivo, é comum a existência de muitas empresas, as quais oferecem produtos e serviços muito parecidos, por isso, o diferencial entre elas acaba sendo o preço. Desse modo, o consumidor que sempre compra da empresa X, ao perceber que o preço desta sobe, passará a consumir o produto da empresa Y sem pestanejar; ou seja, os clientes não são fiéis a uma determinada marca. O preço, nesse tipo de mercado, segue a lei da oferta e da demanda, sobre a qual estudaremos mais adiante. O exemplo clássico de um mercado competitivo é o das commodities, em que os produtos são sempre os mesmos, e seu diferencial está no preço. Uma das maneiras dessas empresas se destacarem em um mercado competitivo é investindo na diferenciação de seus produtos; a partir do momento que seu produto possui características diferenciadas e um alto valor agregado, o processo de fidelização tem início, o que dificulta que o cliente troque de produto. Assaf (2012, p. 173) afirma: “A melhor medida do sucesso empresarial em mercado competitivo é a criação de valor a seus proprietários”. Uma das principais referências na fidelização é a Apple, que mesmo com preços acima da média, consegue vender mais do que empresas que comercializam produtos com valor muito mais baixo. Já o mercado não competitivo é composto por um número pequeno de companhias, entretanto de maior tamanho. Por mais que não possuam nenhuma relação entre si, é comum a realização de acordos que dificultem (ou que criem obstáculos) à entrada de novos participantes. Em razão disso, esse mercado tende a ter preços estáveis. 4 Esse mercado geralmente é formado por oligopólios, isto é, quando no mercado há vários compradores para poucos produtores. Os produtos podem ser iguais ou diferentes entre si, porém, pelo fato de as empresas oligopolistas dominarem determinado mercado, há uma grande barreira para novos entrantes. Trata-se de um mercado único, pois não serão os consumidores que farão os preços (por meio da oferta e da demanda), mas sim os produtores, muitas vezes por conluios entre as empresas. Além dos oligopólios, há outras estruturas de mercado conhecidas. Vamos conhecê-las: • Monopólio – Quando existe apenas um produtor de um bem ou serviço e o mercado passa a depender dele totalmente para conseguir aquilo que deseja. No monopólio, a dificuldade para entrar é muito grande. Entre os obstáculos, estão: já haver uma companhia dominando o mercado; capital inicial exorbitante; patentes; controle de matérias-primas; concessões e liberações dos poderes públicos; e, acesso a tecnologia de ponta. Podemos destacar as empresas de energia elétrica, que possuem monopólio estatal, e exercem seu poder monopolista dentro de um estado específico. • Concorrência perfeita – Nenhuma empresa ou consumidor tem poder de influência na definição de preços; trata-se de um mercado extremamente competitivo. Aqui, quem faz o preço são os consumidores, de acordo com o seu próprio interesse, uma vez que possuem uma gama extensa de vendedores de produtos idênticos. Consiste no modelo perfeito de competitividade, uma vez que eleva a eficiência e transparência da economia. Outro ponto importante a ser mencionado é a inexistência de barreira de entrada; logo, há entrada e saída corriqueira das empresas. • Concorrência monopolista – É uma estrutura de mercado intermediária entre a concorrência perfeita e o monopólio, uma vez que contém características de ambas. O produto ou serviço se diferencia e se sobressai por sua marca, como ocorre com McDonald’s e Burguer King: ambos oferecem produtos semelhantes, porém capazes de serem diferenciados; sua distinção se dá, majoritariamente, pela marca e pelas estratégias de marketing aplicadas, uma vez que as duas tentam atingir o mesmo público. Há outras estruturas de mercado não tão conhecidas: 5 • Monopólio bilateral – Um vendedor apenas para um comprador. Neste caso, ambas as partes exercem influência sobre o preço; assim, esse fator dependerá do poder de negociação das partes. • Monopsônio – Muitos vendedores para apenas um comprador. • Oligopsônio – Muitos vendedores para poucos compradores, de modo que a determinação dos preços fica na mão dos compradores. TEMA 2 – POLÍTICA MONETÁRIA Antes de apresentarmos o que é a política monetária nacional, é importante entendermos o sistema no qual o mercado está inserido. Há, em nosso país, o chamado Sistema Financeiro Nacional, responsável pela existência da estrutura hierárquica que faz com que a economia do país funcione da maneira mais eficiente possível. No topo dessa pirâmide, como órgão normativo está o Conselho Monetário Nacional, incumbido de definir as diretrizes do funcionamento do mercado. No meio da pirâmide, estão a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) – controle e fomento da bolsa de valores –, e o Banco Central (BACEN) – um organismo normativo secundário, executor e controlador do sistema financeiro. Na base da pirâmide, estão as instituições financeiras, abrangendo bancos comerciais/múltiplos, bancos de investimento, corretoras de valores mobiliários,entre outros responsáveis pelo aspecto operacional do mercado. No entanto, nessa aula, mergulharemos em uma importante atividade de competência do BACEN, realizada pelo Comitê de Política Monetária (COPOM): a execução da política monetária do governo. Tal política, basicamente, consiste no conjunto de atitudes adotadas para promover o controle da moeda dentro do país, ou seja, o dinheiro em circulação no mercado. Tal atitude é realizada pela definição da taxa de juros que impacta diretamente a inflação (conceitos estes que estudaremos em breve), tanto estimulando como retraindo a economia, visando superar crises ou manter a inflação sobre controle. Há duas políticas monetárias que podem ser adotadas: uma expansionista (aumento da moeda em circulação e diminuição da taxa de juros, de modo a ampliar o consumo/poder de compra), e outra contracionista (aumento da taxa de juros, diminuindo a busca por crédito junto aos bancos e, consequentemente, diminui o consumo/poder de compra reduzindo a inflação naquele período). 6 Vejamos como cada instrumento da política monetária é utilizado em cada uma destas situações: Quadro 1 – Usos dos instrumentos da política monetária Contracionista Expansionista Depósito compulsório (parcela que os bancos devem obrigatoriamente depositar no Banco Central) Com o aumento do depósito compulsório dos bancos, menor será o valor disponível no mercado (menor liquidez), o que gera maiores juros. Logo, menos pessoas buscam crédito = menos consumo = menor inflação. Com a diminuição do recolhimento compulsório, sobra mais valores para os bancos. Logo, eles concedem crédito com menos juros = mais crédito no mercado = maior consumo = maior inflação. Operação de redesconto (são os empréstimos concedidos pelo BACEN às instituições financeiras) Se o BACEN aumentar a taxa de redesconto, logo os bancos pagarão juros maiores dos empréstimos feitos no BACEN. Assim, diminui o dinheiro em circulação no mercado e, consequentemente, a inflação diminui. Se o BACEN diminui a taxa de juros dos empréstimos pedidos pelos bancos, há um aumento do dinheiro em circulação, o que gera crescimento da inflação. Open market (atuação do BACEN no mercado financeiro por meio da compra e venda de títulos públicos federais) Quando o BACEN vende títulos, retira dinheiro do mercado e, consequentemente, diminui a inflação. Quando o BACEN realiza a compra de títulos, ele está injetando dinheiro no mercado, o que gera um aumento do consumo e da inflação. 2.1 Taxa de juros Em síntese, quando falamos de taxas de juros, estamos nos referindo ao custo do dinheiro no tempo. Assaf (2012, p. 352) detalha da seguinte maneira: A taxa de juros reflete, portanto, o preço do sacrifício de poupar, o que equivale, em outras palavras, à remuneração exigida por um agente econômico ao decidir postergar o consumo, transferindo seus recursos a outro agente. Entretanto, é importante mencionar que a taxa de juros não é apenas um instrumento de controle da política monetária nacional, mas também uma forma de influenciar as relações entre os particulares. Podemos citar, por exemplo, a situação em que a taxa de juros se encontra em um período de baixa: é o momento mais oportuno para que uma empresa em busca de capital de terceiros realize esse tipo de captação; para o investidor, não é uma das melhores opções, pois o retorno da aplicação não será proveitoso. O juro dessa captação realizada pela empresa irá refletir o custo de oportunidade do seu capital: basicamente o preço a ser pago pelo capital tomado emprestado e aplicado em suas decisões internas. 7 É necessário compreendermos que as taxas de juros estão diretamente atreladas à denominada taxa Selic (Sistema Especial de Liquidação e Custódia). A Selic pode, portanto, ser subdividida em: • Taxa Selic Over: consiste na taxa efetivamente praticada no mercado, que representa a média diária da negociação de títulos públicos federais na Selic. • Taxa Selic Meta: trata-se da taxa definida pelo COPOM, justamente para manter a política monetária sobre controle. Essa taxa é definida visando alcançar a meta de inflação e, consequentemente, controlar a quantidade de dinheiro disponível no mercado (liquidez). A definição dessa taxa meta é feita a cada 45 dias, em reuniões ordinárias realizadas pelo COPOM. Em casos de extrema urgência, é possível que haja reuniões extraordinárias. Após estudarmos essa taxa de juros basilar, precisamos conhecer quais as possibilidades das taxas de juros presentes no mercado. A primeira que podemos destacar é a taxa de juros livre de risco (risk free), entendida como a taxa que não tem risco, ou seja, o titular desse ativo tem a certeza de sua realização. O exemplo que mais se aproxima desse tipo de taxa são os juros reais pagos por títulos públicos federais (mantendo uma aproximação ainda maior nos casos de ausência de inflação). Já a taxa de juros praticada no mercado, ou seja, aquele valor pago pelo “aluguel” do dinheiro (tomadores versus investidores), irá variar de acordo com alguns fatores. Brigham (2001) apresenta quatro deles: 1. Retorno das oportunidades de investimentos dos tomadores de recursos: quanto mais rentáveis forem as oportunidades de investimento das empresas, mais elas pagarão pelo empréstimo. Empresas com pouca rentabilidade, por sua vez, pagarão menos pelos empréstimos (taxa menor). 2. Preferências temporais de consumo: quanto mais as pessoas consomem, menos haverá poupança disponível na economia; logo, mais difícil será para as empresas captarem recursos, fato esse que eleva as taxas de juros. Contudo, se o volume de poupança no mercado for elevado, haverá maior oferta de dinheiro disponível na economia e uma taxa de juros menor. 8 3. Risco do empréstimo: é o risco de inadimplência do devedor. Quanto maior for a demonstração de incapacidade para arcar com o pagamento dos juros na data pactuada, mais altos serão os juros. 4. Inflação futura: no momento em que a inflação esperada no futuro se eleva, a taxa de juros exigida pelos poupadores também irá aumentar, pois trata- se de uma forma de compensar esse risco de depreciação monetária. Desse modo, podemos concluir que a taxa de juros básica de economia é a taxa mínima que trará retornos inferiores àqueles de ativos que não sejam títulos governamentais. Já a taxa de juros estabelecida livremente pelo mercado é a taxa que levará a retornos variáveis conforme os fatores apresentados, variando também por questões políticas, econômicas, sociais e cambiais. Assaf (2012, p. 353) destaca: O Governo, por seu lado, tem enorme poder sobre a fixação da taxa de juros. As autoridades econômicas controlam certos instrumentos de política monetária que permitem regular os níveis das taxas de juros no mercado, sempre que for julgado recomendável para a economia. 2.2 Inflação Conceituando de maneira isolada, a inflação é a elevação dos preços de bens e serviços em geral, o que ocasiona a degradação do poder aquisitivo da moeda. Justamente por esse motivo que um investidor sempre deve considerar a inflação antes de tomar uma decisão de investimento; é nesse ponto que diferenciamos a taxa de juros real (que considera a inflação em seu cálculo) da taxa de juros nominal. A elevação exacerbada da inflação faz com que o BACEN tenha de realizar uma intervenção por meio do aumento da taxa de juros, diminuindo a disponibilidade de crédito no mercado e, consequentemente, refreando o consumo, o que causa a diminuição da inflação. Assim, o investidor utiliza essa ferramenta de política monetária a seu favor, uma vez que expectativas de aumento nos índices de preços são capazes de antecipar uma elevação nas taxas de juros do mercado e, como consequência, esta será uma opção melhor de investimento (Assaf, 2012, p. 354).9 2.3 Na prática Imaginemos que João Donald atualmente possua um saldo de R$ 100.000,00 em sua poupança, e resolva aplicar o dinheiro em um investimento com taxa de juros nominal anual de 10%. Consideremos que a inflação nesse mesmo período foi de 11% (medido pelo IPCA). Quanto essa aplicação renderia realmente? Consideremos a seguinte fórmula: 𝑇𝑇𝑇𝑇𝑇𝑇𝑇𝑇 𝑅𝑅𝑅𝑅𝑇𝑇𝑅𝑅 𝑑𝑑𝑅𝑅 𝐽𝐽𝐽𝐽𝐽𝐽𝐽𝐽𝐽𝐽 = ( 1 + Taxa Nominal 1 + IPCA ) − 1 𝑇𝑇𝑇𝑇𝑇𝑇𝑇𝑇 𝑅𝑅𝑅𝑅𝑇𝑇𝑅𝑅 𝑑𝑑𝑅𝑅 𝐽𝐽𝐽𝐽𝐽𝐽𝐽𝐽𝐽𝐽 = �1+0,10 1+0,11 � − 1 => 𝑇𝑇𝑇𝑇𝑇𝑇𝑇𝑇 𝑅𝑅𝑅𝑅𝑇𝑇𝑅𝑅 = − 0,00909091 Dessa forma, é possível concluir que a real rentabilidade do investimento naquele ano todo foi, na verdade, negativa (-0,90%), em decorrência da alta inflação daquele período. Mesmo que o valor aplicado ao final tenha totalizado R$ 111.000,00, durante este período de 12 meses a desvalorização do dinheiro (perda do poder compra) nessa mesma época fez, na realidade, o capital diminuir em 0,90%. Por esse motivo, em um momento de baixa taxa de juros e de inflação alta, é possível que pessoas que mantenham seu dinheiro em aplicações ruins, ao invés de ganhar, percam dinheiro. Por mais que, em números, o valor aumente, o poder de compra do investidor pode ser reduzido entre o momento da aplicação dos recursos e a data do recebimento do montante principal acrescido dos juros. TEMA 3 – POLÍTICA FISCAL E POLÍTICA CAMBIAL A política fiscal consiste no conjunto de atos pelos quais o governo arrecada receitas e efetua despesas. Desse modo, ele visa, dentro do orçamento previsto, obter as rendas indispensáveis para a satisfação das despesas públicas e cumprir três funções: a estabilização macroeconômica, a redistribuição de renda e a alocação de recursos. A primeira função busca promover o crescimento econômico que assegure baixo desemprego e estabilidade de preços. Já a segunda objetiva à distribuição igualitária de renda, o que complementaria a estabilidade de preços. Por fim, a alocação de recursos trata do investimento em fornecimento de bens e serviços públicos, equilibrando possíveis falhas do mercado. 10 Para identificarmos se uma política fiscal está sendo executada de maneira efetiva, podemos analisar duas perspectivas diferentes. A primeira é por meio da mensuração da qualidade do gasto público, ou seja, verificar se os valores estão sendo remanejados para as áreas com maior carência de recurso, como mão de obra e matéria-prima. O segundo trata da identificação do impacto dessa política no bem-estar dos cidadãos, ou seja, se o governo, por meio de uma boa gestão financeira, está conseguindo ampliar a qualidade dos serviços essenciais prestados à população. Em relação à identificação da boa gestão dos recursos arrecadados pelo Tesouro Nacional, é possível mensurá-la por intermédio de um indicador de fluxos primário e nominal. Para auxiliar esse entendimento, formulamos o esquema da Figura 1. Figura 1 – Indicadores de fluxo primário e nominal 3.1 Política cambial Trata-se da política conduzida pelo BACEN para controlar a relação do preço de nossa moeda com o de moedas estrangeiras. Manter essa relação equilibrada é importante para a gestão da inflação e da dívida pública federal no mercado externo. Quando falamos em equilíbrio, é porque podemos identificar duas situações: 1. Real valorizado (BRL 1,00 = USD 1,00): os brasileiros passam a comprar mais produtos de fora (aumento da importação), em razão da tecnologia nacional não apresentar o mesmo nível dos produtos das grandes potências mundiais. Esse aumento da importação enfraquece o consumo 11 interno e, consequentemente, a indústria nacional, gerando desemprego e diminuindo a arrecadação do governo. 2. Real desvalorizado (BRL 5,00 = USD 1,00): trata-se do popular “o dólar está caro”. Imaginemos um produtor pecuário que venda a arroba do boi para o mercado externo a US$ 100, ou seja, o equivalente a R$ 500,00. Assim, esse mesmo produtor terá de vender para o mercado interno no valor mínimo de R$ 500,00. Portanto, quanto mais desvalorizado o real, mais cara será a carne, do mesmo modo para outros produtos, para nós brasileiros, ou seja, consumidores internos. Outro impacto causado por tal desvalorização está relacionado às dívidas das grandes empresas e do Governo Federal, uma vez que, em sua grande maioria, são precificadas em dólar; logo, quanto mais desvalorizado o real, mais caras as dívidas. Por exemplo, com o dólar a R$ 5,00, uma dívida que seja de 1 milhão de dólares equivalerá a uma dívida de 5 milhões de reais. Todas essas questões geram um aumento da inflação (aumento do preço dos produtos internos), assim como elevação do preço dos impostos (o Governo Federal terá sua dívida externa ampliada, de modo que necessita arrecadar um valor elevado). Assim, notamos que o Banco Central possui uma grande responsabilidade na gestão dessa política, pois não pode deixar o real muito valorizado, tampouco permitir que a moeda nacional fique demasiadamente desvalorizada. Para cumprir esse objetivo, o Brasil adota a política cambial flutuante suja sem banda cambial. E o que isso significa? • Política cambial flutuante: considera a lei da oferta e da demanda, ou seja, o preço irá flutuar de acordo com as demandas do mercado. Assim, se o mercado demandar por mais dólar, o preço dessa moeda aumentará, desvalorizando a moeda nacional. Se os agentes estiverem ofertando mais dólar do que o mercado é capaz de demandar, ocorrerá uma valorização demasiada do real. • Suja: é considerada suja por ocorrer uma intervenção do BACEN. O Brasil não permite que a taxa de câmbio flutue livremente (limpa), de modo que ocorre um controle por parte do governo. Tal gestão acontece pela compra e venda de dólares, sendo esse um dos motivos da existência das reservas internacionais. 12 • Sem banda cambial: a existência de uma banda cambial consiste na fixação, por parte da instituição monetária, de uma faixa na qual o câmbio pode flutuar livremente. O regime adotado pelo nosso país não considera essa faixa livre. TEMA 4 – OFERTA E DEMANDA A lei da oferta e demanda possui grande importância e influência no mercado. Em uma explicação breve, nada mais é do que um grupo de compradores e vendedores de certo produto ou serviço. O grupo de compradores irão determinar a demanda, e o conjunto de vendedores irá precisar a oferta. A importância dessa lei pode ser exemplificada pela influência que a oferta e a demanda têm na determinação das taxas de câmbio (Gitman, 2012, p. 704). Para entendermos melhor, faremos primeiro uma análise, levando em consideração o Ceteris Paribus (“todo o resto é constante”), ou seja, não consideraremos nenhum fator que possa influenciar a teoria. Quando falamos de oferta e demanda, há uma série de fatores que podem intervir no resultado desse estudo. Por esse motivo, ao final desse tema destacaremos alguns deles. 4.1 Lei da demanda A demanda possui relação direta com o consumidor. Em síntese, consiste na quantidade que os consumidores estão dispostos a comprar de determinado bem ou serviço. Essa teoria afirma que quanto menores os preços dos produtos, maior é o número de pessoas interessadas em adquiri-lo, do mesmo modo que preços elevados diminuem a procura pelo produto. É por esse motivo que a curva de procura e demanda é decrescente. Observe o Gráfico 1. Gráfico 1 – Lei da demanda R$0,00 R$20,00 R$40,00 R$60,00 R$80,00 R$100,00 R$120,00 QUANTIDADE: 05 peças 10 peças 15 peças 20 peças Vestido marca XXZ 13 Nesse gráfico, há, na linha horizontal, a quantidade de produtos, e, na faixa vertical, o valor deles. É possível perceber que quanto mais barato o vestido XXZ, mais procurado ele é, ou seja, maior é a quantidade comprada. De modo que se o vestido custasse R$ 100,00, haveria apenas umademanda por 5 peças; caso o valor caísse para R$ 80,00, teríamos então uma demanda maior, de 10 peças, e assim por diante. Isso mostra que, nesse mercado – sem levar em consideração qualquer outro fator além do preço –, conforme o valor do produto, diminui ou aumenta a quantidade de consumidores. Outra constatação é que se o vestido custasse R$ 40,00, aumentaria demasiadamente a demanda, ocasionando um excesso de demanda. 4.2 Lei da oferta Na lei da oferta, a relação é direta com o vendedor, uma vez que, quanto mais elevado o preço do produto, maior será o esforço dos vendedores em comercializar quantidades maiores, assim, haverá uma curva crescente, que está representada no Gráfico 2. Gráfico 2 – Lei da oferta Assim, o vendedor do vestido XXZ, visando ao aumento de seus lucros, quanto maior for o preço, mais elevada será a quantidade que ele buscará vender. Portanto, vendendo 5 peças a R$ 40,00, ele obterá um lucro de R$ 200,00; vendendo 10 peças a R$ 60,00, o lucro será de R$ 600,00, e assim por diante. Entretanto, ao realizar a venda de 20 peças custando R$ 100,00, com lucro de R$ 2.000,00 estaremos diante de um excesso de oferta. Desse modo, quanto maior o preço do produto, mais disposto o vendedor estará em produzir mais. R$0,00 R$20,00 R$40,00 R$60,00 R$80,00 R$100,00 R$120,00 05 peças 10 peças 15 peças 20 peças Vestido XXZ 14 4.3 Equilíbrio Nesse momento, vamos considerar as duas teorias em conjunto. Suponhamos que a loja “A” esteja vendendo o vestido XXZ pelo preço de R$ 40,00, e a loja “B” vende a mesma peça por R$ 100,00. • Loja A: em razão do baixo preço, produziu poucas peças; entretanto, o baixo valor da peça fez com que a procura fosse muito grande; assim, não sobrou nenhuma peça, ou seja: houve baixa oferta e alta demanda. • Loja B: o alto valor fez com que a loja produzisse muitas peças, porém, o alto preço não atraiu compradores. Desse modo, o estoque está cheio, isto é: há alta oferta, mas baixa demanda. Assim, o mercado precisa encontrar uma forma de equilibrar essas relações, para que não haja falta de produtos e tampouco sobra demasiada. E como resolver esse problema? No caso da loja “A”, há necessidade de aumentar o preço do vestido, de modo a diminuir a demanda demasiada (procura pelo produto) e aumentar a oferta por parte do vendedor (produção de uma quantidade maior de peças). Quanto à loja “B”, há a necessidade de reduzir o valor do produto, gerando a diminuição da oferta (produção de uma quantidade menor de peças), e aumento da demanda (com o preço mais baixo, a procura pelo produto será maior). Gráfico 3 – Oferta e demanda Dessa maneira, por meio da intersecção presente nesse gráfico, é possível identificar que o equilíbrio está na venda do produto pelo valor de R$ 70,00, de modo que não haverá oferta elevada tampouco demanda acentuada. R$0,00 R$20,00 R$40,00 R$60,00 R$80,00 R$100,00 R$120,00 05 peças 10 peças 15 peças 20 peças LOJA A LOJA B 15 4.4 Outros fatores relevantes Além do preço, há diversas outras variáveis que podem influenciar os gráficos elaborados acima. Neste subtema iremos destacar algumas variáveis que entendemos serem mais importantes. Em relação à demanda, podemos destacar, em primeiro lugar, a renda: se a população tem um aumento em sua renda, e tem interesse em gastar, consequentemente haverá um aumento da demanda, dada a elevação do nível de consumo. Outro ponto que podemos citar é o preço dos bens relacionados: supondo que um indivíduo possua uma loja de brigadeiro de chocolate com granulado, se houver aumento do preço do granulado, automaticamente o brigadeiro, como um todo, também sofrerá esse aumento; assim, a demanda de um, influencia o outro. Os gostos também podem gerar alteração nos gráficos: imaginemos que grande parte da população consuma manteiga: entretanto, começa a haver a disseminação de notícias na internet destacando que tal alimento faz mal à saúde, e que a margarina seria mais benéfica; logo, a demanda de manteiga irá diminuir. A expectativa é outro fator importante. Para facilitar o entendimento, imaginemos que há uma greve de caminhoneiros prestes a iniciar, sendo certo que haverá falta de gasolina nas bombas durante esse período. Dessa forma, grande parte da população irá correr para os postos de gasolina, aumentando excessivamente a demanda. Por fim, o número de compradores é outro fator que pode influir na demanda: consideremos que, durante o segundo semestre de 2021, o aumento da taxa de natalidade foi de 50%; assim, também podemos esperar a ampliação da demanda por produtos relacionados a recém- nascidos. Quanto aos fatores relacionados à oferta, mencionaremos os três que entendemos como mais importantes. O preço dos insumos: imaginando o mesmo exemplo do brigadeiro, se o preço do leite condensado subir, consequentemente, o preço do brigadeiro também irá aumentar. A tecnologia: podemos mencionar o caso de uma empresa de sapatos que adquiriu uma máquina de produção mais eficiente, gerando uma produção diária maior de sapatos, aumentando a oferta, portanto. O número de produtores também é um elemento fundamental, pois a oferta no mercado aumenta ou diminui conforme o número de vendedores fornecendo o produto em um dado ramo. 16 4.5 Na prática Leitura obrigatória Leia a reportagem intitulada “Aumento nos preços se espalha por vários setores da economia mesmo com a população comprando menos”, publicada pelo G1 em 12 de outubro de 2021. Ela divulga o aumento dos preços em diversos setores da economia, mesmo com a diminuição do consumo. Disponível em: . Acesso em: 18 fev. 2022. É possível perceber que o aumento dos preços não teve nenhuma relação com o aumento da demanda, mas pela influência de diversos outros fatores. O primeiro deles é o custo de produção, que se tornou mais elevado. A explicação elaborada pelo economista José Roberto Mendonça é que, durante a pandemia, com o fechamento das fábricas, a produção veio a zero; quando o consumo voltou, a demanda cresceu demasiadamente, se distanciado muito da oferta e desarranjando todo o mercado. Nesse momento, regularizar a situação se torna algo mais difícil (lei da oferta e demanda). Um segundo fator importante é a desvantagem na hora de realizar negócios em razão da desvalorização da moeda nacional, além do fato de que os países estrangeiros retomaram a economia de forma mais acelerada (política cambial). Por fim, mesmo o baixo consumo da população durante o período de pandemia, muito por conta do isolamento social, não foi suficiente para inibir o aumento da inflação. Ainda assim, buscando uma melhora nesse ponto, o governo realizou o aumento da taxa básica de juros (inflação e taxa de juros). TEMA 5 – INDICADORES ECONÔMICOS Estudamos, anteriormente, alguns indicadores econômicos fundamentais para o mercado e para a economia. Nesse último tema, iremos complementar esses indicadores principais, de modo a ampliar nossa visão sobre o tema, para que possamos entender o assunto como um todo. 17 5.1 Produto Interno Bruto (PIB) O PIB consiste na soma de todos os bens e serviços finais produzidos no país durante determinado período. Em síntese, o PIB mede a riqueza de uma nação. Sua medição pode ser feita em real ou dólar; normalmente, irá considerar o período de um ano. É importante frisar que o PIB não vai considerar a produção de bens e serviços intermediários, a fim de evitar que o mesmo produto seja calculado duas vezes. Por exemplo, no caso da produção de um pão de forma, a farinha de trigo utilizada não será contabilizada para fins de cálculo do PIB, pois este apenas leva em consideração os serviçose produtos finais. Aqui destacamos o chamado PIB agregado, que apenas refletirá o valor agregado, desconsiderando o que for gasto com insumos. Supondo que uma indústria tem, por unidade de produto um custo de R$ 1.000,00, e o vende por R$ 1.800,00, será considerado como contribuição para o PIB o valor de R$ 800,00 por produto vendido. Além do PIB agregado, há também o PIB nominal (bens e serviços finais, mas sem considerar o desconto da inflação), e o PIB real (que somente considera eventual evolução após a realização do desconto da inflação no cálculo do indicador). O cálculo do PIB considera a seguinte equação: • C: consumo (bens duráveis, não duráveis e serviços); • I: investimentos (na cadeia produtiva, em empresas, variação de estoque); • G: gastos do Governo; • NX: exportações líquidas (exportações – importações). 5.2 Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) O IPCA é o índice responsável pelo acompanhamento das metas estabelecidas pelo sistema de inflação. Em resumo, é o índice oficial de inflação do Brasil. Ele é calculado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), e trata-se de índice verificado mensalmente, com período de coleta entre o 1º e o 30º dia do mês de referência. Seu objetivo é a população que aufere rendimentos mensais entre 1 e 40 salários-mínimos, residente nas seguintes PIB = C + I + G + NX 18 áreas urbanas: Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, São Paulo, Belém, Fortaleza, Salvador, Curitiba, Distrito Federal e Goiânia. O IPCA é utilizado como referência para a meta de inflação definida pelo Conselho Monetário Nacional. O IBGE pesquisa, todos os meses, os preços de alimentos, transporte, comunicação, despesas pessoas, entre outros, e chega a uma média ponderada. Quanto maior a variação positiva do IPCA no período, menor será o poder de compra do brasileiro e, consequentemente, mais elevada será a inflação. 5.3 Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) O IGP-M é um índice calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), visando atender necessidades privadas, ou seja, é um indicador independente e sem relação com o Estado. Ele irá abranger todos os setores da economia, como o atacado e a construção civil. Desse modo, podemos entender que o IPCA é a forma de o governo calcular a inflação; o IGP-M tem a mesma função, porém é o método usado pela iniciativa privada. Quadro 2 – Índices e médias ponderadas para cálculo do IGP-M 60% de IPA Índice de Preços no Atacado 30% de IPC Índice de Preços ao Consumidor 10% de INCC Índice Nacional de Custo de Construção O prazo de coleta do IGP-M é diferente do IPCA. Ele é realizado entre o dia 21 do mês anterior ao de referência, ao dia 20 do mês de referência. 19 REFERÊNCIAS ASSAF, A. N. Estrutura e análise de balanços: um enfoque econômico- financeiro. São Paulo: Atlas, 2012. AUMENTO nos preços se espalha por vários setores da economia mesmo com a população comprando menos. G1, 12 out. 2021. Disponível em: . Acesso em: 18 fev. 2022. BRIGHAM, E. F.; GAPENSKI, L. C.; EHRHARDT, M. C. Administração financeira. São Paulo: Atlas, 2001. FGV – Fundação Getulio Vargas. IGP-M: resultados 2021. 4 jan. 2021. Disponível em: . Acesso em: 18 fev. 2022. GITMAN, L. J. Princípios de administração financeira. 12. ed. São Paulo, Pearson Prentice Hall, 2010. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Painel de indicadores, 2022. Disponível em: . Acesso em: 18 fev. 2022.