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Revisionismos postos a nu

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Dois Trabalhos de Hércules: Revisionismos Postos a Nu
	O livro conjunto de Cesar Aprile e Márcio representa um grande avanço para a assimilação do marxismo no Brasil. O que tem vicejado no Brasil, via internet, é o que Aprile chama de “marxistas razoáveis”: ao evocarem o “socialismo” iugoslavo, demonstram querer um “nacional-socialismo”, um “marxismo nacional” que mantenha o país ligado a Estados Unidos e Europa, com grandes investimentos de capital desses países. Exorciza-se Stalin, enquanto entroniza-se os dois polos: trotskismo (com Teotônio dos Santos e Teoria Trotskista da Dependência) e trabalhismo (com a doçura freiriana do “socialismo moreno” de Darcy Ribeiro e Brizola tornado indigesto pelo tempero fétido do fascismo bolsonarista de um Aldo Rebelo). Isto posto, o “caminho florido das posições” estaria aberto a Krepe e Jones.
	Tarefa também bastante complexa coube ao camarada Márcio ao deslindar o revisionismo de Enver Hoxha, talvez o revisionismo mais insidioso, juntamente com o de Deng Siaoping. O revisionismo chinês seduziu intelectuais como Varoufakis e Losurdo, mas Hoxha costumeiramente é motivo de piada por parte de um Jones Manoel, que ridicularizou a terminologia hoxhaísta de “farol do comunismo”, como ele chamava a Albânia, para depois, descaradamente, aproveitar o termo “farol” para nomear o seu canal “Farol Brasil”. Igualmente, Jones cometeu o desplante de atribuir ao maoismo a transição do PC do B brasileiro para a organização apodrecida e degenerada que ele é hoje, praticamente uma tendência externa do PT que aceitou ser anzol do social-imperialismo chinês no Brasil. Um fim de carreira horrendo. Coloquemos as cartas na mesa: quem encaminhou o PC do B para a degeneração e o apodrecimento atuais foi Enver Hoxha.
	A Albânia de Hoxha construiu o socialismo, realizou a industrialização e contou sempre com as próprias pernas. Márcio reconhece tudo, mas dialetizando, Hoxha não conseguiu assimilar as contribuições de Mao Tsé Tung: em especial, Hoxha não aceitou a luta de duas linhas, a revolução cultural, o fato de que a luta de classes se aprofunda no socialismo. Hoxhaistas encontram frases falando desses pontos, mas isso sempre foi apenas retórica no hoxhaísmo. E isso antes de 1978, quando Hoxha sente-se à vontade para romper com o maoismo, e pior, considerando maoistas os golpistas ligados a Deng Siaoping e, literalmente, tomando a nuvem por Juno e jogando a criança junto com a água suja do banho.
Enquanto isso, posando de comunista e administrando essa prosperidade aliado a um setor da burguesia, estaria um “partido comunista” versátil que seria chamado comunista não por sua prática, mas por conveniência política por parte de quem, graças a ele, manteria cargos rendosos no estado. São os marxistas razoáveis, dispostos a conciliar com políticos reacionários de ontem e hoje. O “marxista razoável” é aceitável por um Frederico Krepe, esse que proclama não ser marxista enquanto compõe com trotskistas e fascistas ao mesmo tempo, num amálgama social-fascista malcheiroso, mas que faria a delícia de seu mestre Trotsky.
	Aprile denuncia que Tito, ao mesmo tempo em que fuzila sumariamente e de forma espetacular o baixo escalão que colaborou com o nazismo, reaproveita os quadros fascistas mais preparados e armados, os chetniks, em suas fileiras, sem reeducação e sem mais. A mesma tendência apresentou-se em Cuba: ao mesmo tempo em que se exorciza Stalin e seus julgamentos de Moscou como espetáculos injustos, faz-se fuzilamento-show que futuramente inspirará o programa de verão orwelliano big brother. Enquanto metralhava a arraia-miúda sem julgamento, manejando uma dupla moral, reaproveitou-se, no alto escalão, um ex-ministro de Batista como Rafael Rodriguez, do degenerado PC de Cuba (PSP, qualquer semelhança com o nosso PPS, Partido da Pepsi Social, não é mera coincidência).
	Em nome do combate contra a OTAN, o nome da Iugoslávia e de Milosevic foi muitas evocado como um antiimperialista. Quando vi a palestra de Fidel Castro na UNE em 1999 em Belo Horizonte, um dos temas abordados por ele foi o ataque da Otan contra a Sérvia de Milosevic, o que tornava esse líder sérvio um aliado a ser defendido. Bastante corretamente, Aprile desmascarou a forma solerte como Milosevic posou de comunista internacionalmente, enquanto na guerra fazia uso de táticas tais como os estupros em massa de mulheres muçulmanas e albanesas. Mais uma vez, é importante não pintar o nacionalismo de vermelho. É fundamental lembrar o quanto o caminho entre a revolução democrática e a socialista é cheio de armadilhas –e o principal deles é o caminho do nacionalismo; ele é sempre a ideologia de um setor da burguesia do país. Ao incentivar nacionalismo chauvinista, o revisionismo de Tito pode ser corretamente responsabilizado pelos trágicos acontecimentos.
	O estudo de Aprile é muito importante para que compreendamos um caso em que o revisionismo levou a uma desagregação nacional, demonstrando os perigos desse falso marxismo. Ele destaca vários fatores, entre os quais o desenvolvimento econômico diferenciado entre as regiões. A Eslovênia e a Croácia apresentaram melhores resultados econômicos, mas o poder político ainda estava muito concentrado na Sérvia, o que provocou ressentimentos.
	Embora o tema do revisionismo iugoslavo pareça distante, esse revisionismo foi muito influente no Brasil. Carlos Nelson Coutinho era um dos que falava em autogestão, possivelmente influenciado pela propaganda do regime de Tito, que dizia que estavam num socialismo mais avançado e não num capitalismo de estado. Até José Chasin comentou isso comigo em uma aula, sem contestar. Como o comunismo era um sistema autogestionário, a Iugoslávia estaria mais avançada do que a União Soviética! É muito importante que tenhamos Aprile para desmentir essa patranha de uma vez por todas.

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