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Aula: 01 Temática: A Arqueologia e Etnologia e sua relação com a História As Ciências Sociais possuem papel significativo para os estudos históricos notadamente após o movimento francês que originou a Nova História e desembocou em novas abordagens do passado como a História das Mentalidades, História Cultural ou História do Cotidiano. Mais do que colocar a “cultura” como foco da investigação histórica, a História das Mentalidades é o resultado, principalmente, da união entre a História e a Antropologia. Diversos e importantes estudiosos elegeram paradigmas de uma nova forma de investigação e concentraram-se no cotidiano como “fio condutor” do processo histórico. Dessa maneira, áreas de estudo, como a História Medieval, cresceram em importância e novas luzes foram lançadas para o entendimento do processo histórico. A Arqueologia e a Etnologia são áreas de estudo pertencentes às Ciências Sociais e que muito contribuíram para a História. Seu ponto em comum é o estudo da cultura. A primeira privilegia a cultura material como fonte em sua produção de conhecimento. A segunda privilegia o patrimônio intangível, isto é, aquilo que não se registra em pedra ou papel, como alerta Strauss, mas que apresenta demasiada importância no entendimento do processo histórico. Este curso procura estabelecer, em linhas gerais, as bases destas duas áreas de conhecimento humano e esclarecer o modo como essas ciências contribuem para o entendimento do processo histórico. Com a utilização do carbono 14 como técnica de datação, a partir de 1950, diversos acontecimentos históricos foram recalibrados em sua antigüidade, novos dados e possibilidades de comparação surgiram ampliando as possibilidades de construção de conhecimentos históricos. Na outra ponta, a utilização da memória por meio de testemunhos e depoimentos de atores do processo histórico serviram de subsídios para a fundação de uma nova especialidade em História, a História oral. Não há conflitos entre as três ciências, ao contrário, há um trabalho de colaboração mútua, desembocando em especialidades novas como a Etnoarqueologia e a Etnohistória. Portanto, o objetivo principal do nosso cursoé demonstrar as principais características de ambas as ciências a fim de proporcionar aos alunos de História uma visão inicial desses estudos. Ambas as ciências, Arqueologia e a Etnologia, trabalham o tempo todo com a cultura, o que configura uma de suas principais contribuições aos estudos de História. (A cultura) Diz respeito a todos os aspectos da vida social, e não se pode dizer que ela exista em algunscontextos e não em outros (...) é uma construção histórica, não decorrência de leis físicas ou biológicas. (SANTOS, 2002). Aula: 02 Temática: Arqueologia – origens e conceitos O fascínio que as culturas do passado exercem sobre as populações do presente é bem mais antigo do que se pode imaginar. Em civilizações arcaicas, não são raras as citações de grandes coleções de objetos antigos que eram guardados não apenas pelo seu valor — no caso de jóias —, mas também por representarem tradições ou origens do passado.Geralmente, associa-se o fazer arqueológico a grandes descobertas, como monumentos, câmaras mortuárias, tesouros, objetos em grande parte relacionados às antigas e misteriosas civilizações da África ou do oriente próximo ou distante. Entretanto, a aura de mistério que recobre essas civilizações, da mesma forma que ajuda a divulgação destas culturas, também contribui para destruição do patrimônio cultural, pois provoca um espécie de “caça ao tesouro”, em que a perspectiva de enriquecimento rápido e a fama súbita atraem pessoas despreparadas que acabam comprometendo a integridade da cultura material contida nos sítios arqueológicos. Muitas vezes, tais “aventureiros”, são confundidos com arqueólogos. Antes de mais nada, a Arqueologia é uma ciência preocupada com a compreensão da cultura dos povos do passado. Interessa ao arqueólogo tanto o monumento de grande porte — tais como as construção arquitetônicas mortuárias representadas pelas pirâmides — como também os pequenos objetos de uso cotidiano pertencentes às pessoas comuns do passado, ou seja, aquelas que, afinal, construíram os grandes monumentos, como lembra o poema de Bertold Brecht Perguntas de um trabalhador que lê: Quem construiu a Tebas de sete portas? Nos livros estão nomes de reis. Arrastaram eles os blocos de pedra? E a Babilônia várias vezes destruída Quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas Da Lima dourada moravam os construtores? Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China pronta? [...] (www.vermelho.org.br) Há, ainda, ocasiões em que os estudos arqueológicos são ofuscados por teorias especulativas que tendem a associar as antigas construções à presença de seres extraterrestes no planeta ou a outras teorias de natureza esotérica. Entretanto, enquanto ciência, a Arqueologia não se ocupa dessas teorias, pois dedica-se, antes, a demonstrar as possibilidades e a tecnologia utilizada nessas construções feitas, no seu entender, pelas mãos humanas. A Arqueologia é uma ciência social que busca a compreensão das culturas do passado por meio do resgate e da análise da cultura material. O homem é um ser social que age em grupo e que interage com o meio-ambiente eproduz vestígios, intencionais ou não, que constituem a matéria-prima do Arqueólogo. Para este cientista, interessa saber como os povos do passado se relacionavam entre si, quais eram as estruturas sociais, como cultuavam a morte, em que deuses acreditavam, a base de sua economia, as relações de parentesco, sua arte, tecnologia,visão de mundo, como se relacionavam com outros povos, em que época viveram, como era o meio-ambiente no momento em que se processaram as relações sociais, qual o tamanho da área de captação de recursos destes povos, enfim, qual sua cultura. Sabemos que a maior parte destas perguntas nunca serão respondidas com absoluta precisão, pois o arqueólogo trabalha com poucos dados. Boa parte dos restos materiais produzidos pelos grupos humanos do passado é de origem orgânica (ossos, palha, cestaria, penas, madeira), ou seja, de rápida decomposição. A cada nova resposta descoberta pelo arqueólogo, novas perguntas são formuladas, e é nesse devir que se produz o conhecimento arqueológico. Além das dificuldades inerentes à Arqueologia, há também as diferentes escolas arqueológicas, das quais emergem diversas definições, objetivos e perspectivas, que se aproximam em alguns pontos e afastam-se em outros. Também não podemos esquecer de que, ao mudar o tipo de material, cultura, e o tipo de sítio arqueológico, é preciso alterar os métodos de pesquisa e, evidentemente, a natureza das respostas obtidas. Segundo o Arqueólogo Philip Rahtz, Arqueologia é o estudo da cultura material em suarelação com o comportamento humano – as manifestações físicas das atividades do homem, seu lixo e seu tesouro, suas construções e seus túmulos. Ela se ocupa também do ambiente em que o gênero humano se desenvolveu e no qual o homem ainda vive. Isso pode incluir fatores sobre os quais ele tem pouco ou nenhum controle, como as manchas solares, o climae as marés; pode incluir também o modo como o homem, entre outros animais (mas numa extensão muito maior do que, por exemplo, os castores), transformou a paisagem, o mundo animal e, recentemente, a atmosfera; e a química do mar, dos lagos e dos rios. E, nos dizeres de Gaspar M., de um modo mais sintético: A Arqueologia é a ciência que estuda as culturas e partir do seu aspecto material, constrói suas interpretações através da análise dos artefatos, seus arranjos espaciais e sua implantação na paisagem. Além dos problemas inerentes ao fazer arqueológico, temos também as limitações do cientista. A Arqueologia é uma ciência que já nasce interdisciplinar e o arqueólogo deve saber dialogar com diversos ramos do conhecimento durante os trabalhos de escavação, de laboratório, de análise dos dados e de divulgação dos resultados. Dessa forma, conhecimentos de geologia, geomorfologia,biologia, botânica, cartografia, física (datações), antropologia, geografia, museologia e história são imprescindíveis para a arqueologia. É claro que o grau de conhecimento nestas diversas áreas é adequado ao tipo de trabalho ao qual o arqueólogo se dedica, porém o mais importante é saber dialogar com estas ciências e com os diversos especialistas, pois ninguém faz arqueologia sozinho. É verdade que o número de arqueólogos tem aumentado, mas a informação aumenta muito mais rapidamente. As escavações e os achados fortuitos contribuem para este crescimento, mas são, sobretudo, as técnicas modernas que proporcionam a descoberta de informações inéditas, particularmente, graças às ciências naturais. Esta situação é ainda agravada pela desproporção, que parece difícil de ultrapassar, entre os meios postos à disposição dos arqueólogos para reunir os dados e os meios que se lhe atribuem para tratá-los e publicar. Este paradoxo deve-se a uma superstição perniciosa corrente também entre os arqueólogos: pensar que um resultado arqueológico consiste numa escavação ou num achado. A verdade é muito diferente: um achado é apenas um começo, o início de um processo pelo qual o arqueólogo é responsável, ou seja, a enorme acumulação de dados inutilizáveis que caracteriza esta orientação científica já tem efeitos paralisantes. Podemos então perceber que a Arqueologia é uma ciência de grande rigor, interdisciplinar desde a origem, cujo principal objetivo é o entendimento das culturas do passado por meio do resgate e da compreensão da cultura material. Nas palavras de Louis Frédéric: A fim de poder colocar, num dado contexto, a vida de um indivíduo ou de um grupo, é preciso, com efeito, possuir conhecimentos extremamente extensos em todos os domínios da atividade humana, tanto da evolução do pensamento, como das condições materiais da existência, o que supõe uma vida cheia de experiência e de reflexão. O arqueólogo deve ser um filósofo, um homem ‘que conhece a vida’. Deve poder interpretar num sentido humano a menor das suas descobertas [...] E, um pouco mais adiante, diz o mesmo autor: São primordiais os conhecimentos históricos que, necessariamente, têm de ser sérios, mas o são igualmente os conhecimentos das línguas atuais e antigas da região estudada, bem como uma formação geral de etnólogo Aula: 03 Temática: Um Panorama da Arqueologia A busca pela compreensão racional do passado começou a ter um rosto a partir do Renascimento, na Idade Moderna, quando o interesse pela cultura greco-romana e seus valores científicos foram revitalizados em clara oposição ao pensamento teocêntrico vigente no período medieval. A busca por vestígios materiais da antigüidade greco-romana se caracterizou pela tentativa de encontrar os monumentos e locais descritos nos textos clássicos que, graças aos árabes, foram preservados e voltaram a ser lidos na Europa. Em termos sociais, o movimento de revalorização da cultura clássica antiga em seus escritos e produções artísticas e arquitetônicas era um modo de criar sustentação ou justificativas históricas para a proposta de um novo tipo de cultura centrada na razão e não mais na fé, como fora na Idade Média. Do ponto de vista material, o grande salto, viria séculos depois com a descoberta das ruínas de Herculano (1738) e de Pompéia (1743), cidades italianas que haviam sido soterradas pela erupção do Vesúvio, no primeiro século da era cristã. Esta descoberta proporcionou aos arqueólogos uma visão bastante realista de um modo de vida clássico em seu cotidiano: casas, utensílios domésticos, modos de vida, roupas, adornos, tornando-se um patrimônio da humanidade e, ainda hoje, bastante estudado. A Europa desse período vivia a época da expansão colonialista de dominação de terras e mercados nos outros continentes. Tal expansão foi acompanhada de uma onda de “expedições arqueológicas” européias. É bastante famosa a espoliação do Egito (1798) pelo exército napoleônico, Inúmeros artefatos, obras de arte, até partes de templos e palácios foram levados do Egito para a França. Tais objetos, hoje, fazem parte do acervo dos principais museus do ocidente, o que, na contemporaneidade, fez acender o debate sobre uma possível devolução de tais objetos a seus países de origem. As descobertas arqueológicas fizeram aumentar o conhecimento sobre o tempo de existência humana na Terra, incitando a elaboração de diversas teorias associando as ocupações humanas a glaciações. Os acalorados debates que se seguiram desembocaram na elaboração da teoria das “três idades” — amplamente utilizada para períodos pré-históricos e de grande valor para a Europa. As três idades são: o período da pedra lascada (Paleolítico), o da pedra polida (Neolítico) e a Idade dos Metais. Segundo Carl-Axel Moberg: O debate endureceu rapidamente e a resistência a estas idéias foi muito forte até Boucher de Perthes. Foi efetivamente ele quem elaborou, em 1859, a primeira teoria correta sobre a época das últimas glaciações, o período da pedra antiga ou Paleolítico� A importância da teoria das três idades para o desenvolvimento da Arqueologia é inegável, mas é igualmente importante perceber que esta é uma formulação, de certo modo, ingênua e não se aplica às outras regiões do globo, pois as especificidades locais e das culturas envolvidas exigem outras interpretações e técnicas para sua compreensão. Estas particularidades serão abordadas na próxima unidade. No entanto, estes estudos trouxeram progressos aos estudos arqueológicos como as primeiras grandes classificações cronológicas, principalmente a partir dos estudos de numismática (moedas), em que destacamos os trabalhos de Thomsen (1824) no Museu de Copenhagen. O rigor científico do século XIX, a decifração dos hieróglifos egípcios por Champolion, que estudou o “acervo” egípcio francês “coletado” por Napoleão, fomentou o aparecimento de novas técnicas, novos arqueólogos e trabalhos arqueológicos produzidos fora da Europa, nos E.U.A, Rússia, China, e América Latina, acompanhados de preocupações e mudanças de conduta quanto à importância da preservação e musealização da cultura material. Aula: 04 Temática: Especialidades da Arqueologia A Arqueologia possui áreas distintas de especializações, em função de diferentes culturas, locais e épocas. Nesta aula, apresentamos um panorama de algumas das principais áreas de atuação. Também apresentamos os principais conceitos que, em linhas gerais, são adotados na maioria das especializações. Arqueologia Pré-histórica Arqueologia pré-histórica é a parte da Arqueologia que procura decifrar um dos grandes dilemas da humanidade: a sua própria origem. As pesquisas nessa área concentram-se na busca de evidências do aparecimento do homem na Terra. Até o momento, , os chamados hominídeos constituem a evidência mais antiga desse aparecimento, há cerca de 12 milhões de anos. Entretanto, no que se refere à cultura, principal característica do ser humano, supõe-se que estes grupos tenham se tornado “produtores de cultura” há, aproximadamente, 5,5 milhões de anos. Além da existência de cultura, dois outros traços são fundamentais na caracterização do ser humano e na sua distinção em relação aos outros primatas superiores: o andar bípede e o polegar opositor que proporcionaram ao homem a capacidade de construção de artefatos. Segundo Lê Roi Ghouran, conta-se, na verdade, com diferentes espécies de seres-humanos: A seguir, alguns exemplos: Ramaphitecus: 12 milhões de anos. Trata-se do antropóide mais antigo e habitante da África. Andava de maneira bípede e se acredita que foi o primeiro a descer das árvores. Na verdade, pouco ou quase nada se sabe a respeito deste primeiro ancestral. Australopithecus: 5 milhões de anos Uma série de espécies recebem este nome em função de diferenças anatômicas e genéticas. São classificados como Australopithecus Bolsei, Australopithecus Africanus, Australopithecus Afarensis entre outros. Homo Erectus: 1 milhão de anos. Também conhecido como Pithecantropus, é apontado como o responsável pela ocupação humanada Ásia e da Europa, a partir da África . Homo Neanderthalensis: 250 mil anos. Foi encontrado no vale de Neander na Alemanha. Durante muito tempo, foi considerado o antecessor imediato do Homo sapiens. Atualmente, sabe-se que eram espécies distintas. Pereceu há apenas 30 mil anos, o que levantou hipóteses de que as duas espécies coabitaram em espaços e época semelhantes.. O dado mais interessante desta espécie é que pintavam as paredes dos abrigos e cavernas e que sepultavam seus mortos. Homo sapiens: 100 mil anos. É o homem moderno. A partir desta espécie ocorreram as modificações geradoras da atual diversidade de tipos humanos. Egiptologia Trata-se de outra especialidade da Arqueologia que estuda, especificamente, o Egito antigo em todas suas fases. A decifração dos hieróglifos, ou seja, a forma de escrita egípcia, contribuiu muito para o estudo de algumas épocas da civilização do Nilo. Arqueologia Clássica Esta área estuda as culturas greco-romanas, em todas as suas fases, inclusive a fase de Creta e das civilizações Micênica e Minóica. A arqueologia clássica é uma das mais conhecidas e desenvolvidas, devido à existência de uma grande quantidade de textos antigos, o que facilitou o cruzamento de informações literárias, históricas, artísticas e filosóficas. Arqueologia Pré-Colombiana Este ramo da arqueologia engloba os estudos de todas as culturas do continente americano antes do período da conquista. A exceção é a Arqueologia Brasileira que possui uma especificidade própria. As principais culturas estudadas são as do antigo vale do México:Tolteca, Olmeca, Chichimeca e a Asteca. Na América Central, temos a cultura Maia. E, na América do Sul, na área conhecida como o Peru Antigo, temos as culturas Mochica, Nazca e a Inca. Arqueologia Histórica Abarca o estudo de todas as civilizações que possuíam escrita, como a greco-romana, egípcia ou bíblica. No Brasil, a arqueologia histórica se ocupa do período posterior à chegada dos europeus e envolve estudos das construções históricas, como engenhos, fortalezas, igrejas, casarios, entre outras. As áreas de estudo mencionadas nesta aula representam apenas algumas especialidades da Arqueologia. Existem outras áreas como a Arqueologia Africana ou a Chinesa. Na próxima aula, estudaremos alguns conceitos básicos para o trabalho arqueológico. Aula: 05 Temática: Conceitos do fazer arqueológico Nesta aula, enumeramos alguns conceitos utilizados pela Arqueologia e que, apesar das diferenças das especificidades, são utilizados de uma maneira ampla e generalizada. Citaremos apenas alguns exemplos dos termos mais comuns: Cultura Material: Todo produto, intencional ou não, é oriundo da interação do homem com o meio-ambiente. Inclui desde artefatos de uso cotidiano ou religioso até o lixo produzido pelos grupos humanos. Sítio arqueológico: Local em que se processaram as relações sociais do passado e no qual se encontram a grande maioria dos vestígios arqueológicos. Escavação: Técnica amplamente aplicada nas pesquisas arqueológicas e nos sítios arqueológicos com finalidade de obtenção dos testemunhos das ocupações humanas. Não busca apenas os objetos, mas todas as informações pertinentes à coleta de dados, como análise das camadas estratigráficas, solo, rochas, entre outras informações. Decapagem: Técnica aplicada durante as escavações que consiste na retirada de camadas por níveis estratigráficos artificiais (quando sua espessura é arbitrada pelo arqueólogo, por exemplo, de 10 em 10 cm.) ou naturais (obedecendo às camadas estratigráficas do solo). Testemunhos São os objetos materiais existentes nos sítios arqueológicos, como artefatos de todos os tipos de matéria-prima orgânica ou inorgânica (lítico, metal Vestígios Objetos encontrados nos sítios arqueológicos, inclusive os fragmentos, como estilhas (restos de rocha bastante pequenos produzidos no momento de lascamento de um artefato, como um polidor, lâmina de machado...), lascas (restos líticos, também produzidos no momento do lascamento; muitas vezes, as próprias lascas já eram utilizadas como ferramentas pelos grupos humanos). Sepultamentos Enterramentos intencionais — podem ser individuais ou não. Muitas vezes, os corpos sepultados são encontrados juntamente com material associado ao(s) indivíduo(s), como ferramentas, armas ou objetos de adorno. Indícios Qualquer sinal que indique a existência de um sítio arqueológico: restos de material que sofreram ações antrópicas (humanas) na superfície do solo, marcas de estaca (bastante comum na arqueologia brasileira, indica a construção de habitações, cabanas ou vestígios de antigas habitações), modificações na paisagem, como sinais de derrubada de vegetação, marcas de fogueira entre outras. Sondagem Técnica de pequenas perfurações para determinar a extensão do sítio arqueológico. Podem ser trincheiras, além de uma busca do evidenciamento de um perfil arqueológico, o que permite ao arqueólogo a observação das camadas estratigráficas do sítio, fundamental para entender o processo de ocupação do local. Quadriculamento Após a determinação da extensão do sítio arqueológico, seu devido mapeamento com a determinação de sua cota altimétrica (altura em que se encontra em relação ao nível do mar), orientação, inclinação, mapeamento, plotagem em cartas, entre outros registros como fotos e filmagens. O sítio é quadriculado artificialmente para auxiliar o processo de escavação. Cada sítio arqueológico possui uma característica própria, e cabe ao arqueólogo a escolha das melhores técnicas e procedimentos a serem utilizados em função dos objetivos da pesquisa arqueológica que está sendo desenvolvida. Toda escavação é uma destruição e, após a retirada de qualquer material arqueológico, o processo é irreversível.l, osso, cerâmica). Datações Existem diversos métodos de datação: termoluminescência; comparativos — quanto os estilos de fabrico de técnicas de fabrico —: por provas textuais; estratigrafia; ou cronologias relativas (com bases geológicas, petrográficas, paleontológica, bem como através das amostras de guano ou vermitídeos ) etc. Dentre todos, o método de datação absoluta para qualquer material orgânico é o Carbono �4. Segundo Louis Frédéric: Sabe-se que os vegetais, ao absorver o gás carbônico da atmosfera, CO, transformam-no retendo nos seus tecidos um isótopo de carbono 12 (...) chamado carbono �4, o qual é introduzido na atmosfera pela ação dos raios cósmicos ao bombardear o azoto com nêutrons lentos, (...). Este C 14 combina-se com o oxigênio atmosférico para formar CO� radiativo. Todos os seres vivos são formados por carbono, tirado mais ou menos diretamente das plantas (...) e contém, por isso, também, carbono �4 radiativo e, conseqüentemente, sujeito a uma desintegração. Durante a sua vida, os seres ou plantas absorvem C �4 com o CO� atmosférico. À sua morte cessa esta absorção e a quantidade de C �4 contida nos tecidos começa a diminuir (desintegrar-se) enquanto a de carbono �� permanece constante. A desintegração do carbono �4 segue a de todos os corpos radiativos e é calculada em �meia-vida’, o que quer dizer que perde metade do peso atômico no espaço de cerca de 5700 anos. A metade restante leva ainda 5730 anos para se desintegrar, e assim sucessivamente até o desaparecimento quase total. Ficam sempre traços infinitesimais, não detectáveis3 . (FRÉDÉRIC, 1982, p. �6�).Excremento das aves guaneras como o albatroz e a gaivota. Muito útil na Arqueologia Pré-colombianaGastrópodos sésseis encerrados em tubos calcários irregulares.3 FRÉDÉRIC, Louis. Manual Prático de Arqueologia. Coimbra: Livraria Almeida, 1982, p.�6� Resumo - Unidade I Nesta unidade foi abordada a relação entre a História, Arqueologia e Etnologia, bem como o nascimento da Ciência Arqueológica, suas especialidades, principais áreas de atuação, dificuldades e interdisciplinaridade. Foi abordada também a Arqueologia Internacional com suas principais especializações e seus conceitos fundamentais. Esta unidade abordou, ainda, as principais técnicas de tratamento da cultura material,assim como os conceitos mais comumente encontrados em trabalhos específicos da área, o que facilitará ao aluno o ingresso nesta fascinante área de conhecimento humano. Aula: 06 Temática: Breve História O fato de no Brasil não existirem monumentos ou construções antigas de grandes proporções faz com que muitas pessoas ignorem o trabalho arqueológico, que, no entanto, tem sido realizado há algum tempo. Desde a época do império, a arqueologia conquistou admiradores. D. Pedro II, que era um homem interessado nos progressos das ciências, era um arqueólogo amador. Nesta aula, estudaremos, sucintamente, alguns dos principais momentos do trato com o patrimônio arqueológico do país. Os primeiros registros de sítios arqueológicos foram encontrados nos textos dos cronistas do séc. XVI e XVII. Evidentemente, tais registros eram desprovidos de qualquer preocupação ou noção de arqueologia, apenas faziam menções à existência de estruturas bastante antigas, anteriores aos “brasis indígenas” em que esses cronistas conviveram. Os registros mais comuns faziam referência aos sítios arqueológicos do tipo sambaqui. Os relatos a respeito dos montes de conchas erguidos ao longo da costa brasileira são tão antigos quanto as anotações acerca do próprio litoral do Brasil. Todavia, como já dissemos, o interesse dos colonizadores não era de natureza científica. As conchas dos grandes morros construídos pelos grupos humanos que habitaram o litoral do Brasil, desde tempos remotos, foram utilizadas pelos colonizadores europeus para edificação das primeiras construções coloniais. Os sambaquis constituíam-se em depósitos de cal utilizada na composição da argamassa dos edifícios coloniais. Desta maneira utilitária, os sambaquis foram inseridos no contexto de dominação-culturação do continente recém descoberto, como se pode perceber nessa carta do século XVI: Esperamos também resposta de Vossa Reverendissima para começar o collegio do Salvador na Bahia, no qual não tanto gastaremos como pensaes, porém com cem crusados se poderão fazer moradias de taipa que bastem para principiar.Os estudantes com pouco se manterão. Poder-se-hia até fazel-as de pedra, si assim parece a Vossa Reverendissima, porque agora ha muito boa cal. (Nobrega [1550], 1988, p.111) Nos séculos pós-conquista, o patrimônio arqueológico era registrado de forma causal, sempre em função de seu caráter “exótico” ou associado a relatos acerca de outros assuntos: econômicos, religiosos ou sobre populações locais tratadas como selvagens. Contudo, o século XIX foi marcado pela diversificação da produção literária e pelo aumento da curiosidade e do conhecimento sobre o Brasil e os brasileiros . Na história do pensamento arqueológico brasileiro houve um intenso debate acadêmico a respeito da artificialidade ou da naturalidade dos sambaquis. Em 1852, o Paleontólogo Lund foi consultado por uma comissão oficial para opinar acerca da origem dos montes de conchas do litoral brasileiro. Na ocasião comparou os “sambaquis” brasileiros — que reputava terem sido feitos pelos índios — aos depósitos de conchas da Dinamarca, sobre os quais, em 1850, J.A. Worsaae levantara a hipótese de serem, na realidade, depósitos de lixo humano — Kjoekkmmondding (restos de cozinha). A controvérsia poderia ter sido resolvida nessa época. Mas, infelizmente, isso não ocorreu, pois alguns teóricos importantes do período insistiram na teoria da origem natural dos “sambaquis”, mesmo depois do trabalho de Worsaae e da corroboração de Lund que reforçou a tese da origem humana. A insistência acabou por atrasar, em algumas décadas, os estudos arqueológicos no Brasil. A teoria sobre a definição dos Kjoekkmmondding de Worsaae foi aclamada por Angyone Costa (1934) no primeiro manual de Arqueologia do Brasil como sendo a compreensão dos “sambaquis” em “seu justo significado científico” e como a solução para problema cujo ensinamento “(...) Vierado norte da Europa” (COSTA, 1934, p. 61) . Um exemplo ilustrativo deste momento são os trabalhos de Peter Wilhelm Lund que, no início do século (1834-1844), desnudava o Brasil para a Paleontologia européia, ao publicar na Dinamarca e França suas pesquisas na região de Lagoa Santa, Minas Gerais,onde investigou mais de 800 grutas e cavernas das quais retirou centenas de milhares derestos ósseos de uma fauna há muito extinta. Encontrou, inclusive, restos ósseos humanosfossilizados associados à fauna extinta em uma destas cavernas (Sumidouro). Hoje em dia, a origem natural dos “sambaquis” nos parece absurda, mas o debate entre os partidários da origem natural dos “sambaquis” e os defensores da origem artificial dos“sambaquis” ocupou grande parte do cenário acadêmico da época. Esse fato ilustra a dependência cultural em relação à Europa que a Arqueologia brasileiraainda carregava no início do séc. XX. Contudo, apesar do bom-senso de autores importantes do período, em pleno século XIX, ainda era possível encontrar, nas publicações acadêmicas e interdisciplinares, explicações sobre a origem natural dos sambaquis surgidos a partir de uma hecatombe diluviana. Essa tese negava aos construtores dos sambaquis o status de agentes históricos, produtores e possuidores de cultura. Esse posicionamento teórico mudou radicalmente pouco mais de duas décadas depois, em 1874, quando Carlos Rath admitiu a possibilidade de os sambaquis serem cemitérios indígenas. Paulo Duarte (1969) registrou a importância dessa opinião: (...) Uma das poucas, de fato importantes, dentre as mais antigas, está a de Carlos Rath, publicada em 1874. Apesar de tachado de ingênuo, foi o único que deu traços exatos dos sambaquis brasileiros, considerando- os depósitos arqueológicos, procurando até a etimologia da palavra: “casa do espírito”, talvez melhor do que a de Teodoro Sampaio: tamba e qui, monte de ostras. (DUARTE, 1969, p. 30). A partir da segunda metade do século XIX, ocorreu um grande desenvolvimento nos estudos sobre Arqueologia. Nomes como os de Fritz Müller (1868) e Virchov (1872), Karl von Steinen (1887), Carlos Wiener (1876), Cândido Mendes de Almeida (1876), J.B. Lacerda (1885), Domingos Ferreira Penna (1880), Von Iehring, Alberto Löfgren (1893) e Ricardo Krone (1911) apresentaram seus estudos. Na modernidade, destacamos os trabalhos do PRONAPA, na segunda metade do século XX. Entre os autores, destacamos os trabalhos de Ab`Saber, Guidon, Pallestrini, Paulo Duarte, Paul Rivet (ROHR, 1959), Garcia, (1972), Uchôa (1970 e 1973), Lina Maria Kneip, Tania Andrade Lima (1991) , Maria Dulce Gaspar, Prous e Piazza (1977), Neves (1988), Barreto (1988), Rohr(1973), entre outros. Aula: 07 Temática: Os sambaquis e os sítios arqueológicos conchíferos Os sítios arqueológicos construídos por grupos de coletores–pescadores são chamados genericamente de sambaquis. Onome varia de acordo com a região em que se localizam, tais como sernabis, concheiros ou casqueiras. Trata-se de um tipo de sítio arqueológico caracterizado pelo acúmulo de material orgânico, principalmenterestos de conchas, ostras, carapaças de moluscos e berbigões, além derestos de ossos de animais e de peixes e siris e caranguejos. Ultimamente,o termo sambaqui é usado para os sítios arqueológicos com uma morfologia clássica, colinar e de base oval. Os outros sítios caracterizados peloacúmulo de conchas são chamados de sítios conchíferos. Há, também, ossambaquis chamados de fluviais, quando ocorrem ao lado de rios. Do ponto de vista cronológico, SCHMITZ (1991) informa que a ocupaçãomais antiga do litoral se iniciou, há, aproximadamente, 6000 anos, noscinco atuais estados brasileiros localizados mais ao sul. Essa data é umaaproximação e sobre ela pode haver controvérsias. No Rio de Janeiro,existe um sítio arqueológico isolado com uma datação de aproximadamente8000 anos; em São Paulo, na ilha do Cardoso, o “Sambaqui do Cambriú Grande” data de 5390 anos — no topo — e 7870 anos — abaixodo cume (DEMARTINI, 2003). Com base nas datações disponíveis, SCHMITZ (op.cit.) supôs uma ocupação continuada para o litoral do Brasil, sendo a mais antiga a situadano setor mais setentrional, e as mais recentes localizam-se conforme sevai em direção ao sul. Para ele, a abundância e tamanho dos acúmulos indicam que esta região “tenha sido uma das áreas mais bem abastecidas do território, o que levou a uma densidade populacional grande e poucas vezes atingida antes do neolítico” (op.cit:11). Atualmente, não há dúvidas de que os primeiros habitantes do litoral brasileiro ocuparam a costa por cerca de sete mil anos, sendo que as datações mais antigas conhecidas, até então, são as do Sambaqui de Camboinhas, no município de Niterói no estado do Rio de Janeiro, com 7958 +/- 224 anos AP (KNEIP et al, 1981, 1994); do Sambaqui Maratuá em Santos (São Paulo), com 7803 +/- 1300 e 7327 +/- 1300 anos AP (LAMING, EMPERAIRE, 1968); (MUEHE e KNEIP, 1995); do Sambaqui Taperinha, baixo Amazonas, perto de Santarém no Estado do Pará com impressionan tes 10500 +/- 1500 anos AP (ROOSEVELT, 1991), a datação mais antiga(KNEIP, 1998, p. 59). Somam-se a esses os dados do Sambaqui Cambriú Grande — mencionado anteriormente — do Sambaqui do Prefeito em Iguape (São Paulo) com 5820 anos AP a 2,1m do topo (BONETTI, 1997) e do Sambaqui do Coveiro I, também em Iguape com 5790 +/- 70 anos APpara o topo (BONETTI, 2004). Estes grupos de coletores-pescadores possuíam grande mobilidade. Os sambaquis sugerem que possuíam uma base fixa de moradia. Mas, por outro lado, a carência de matérias-primas para confecção dos artefatos líticos na região de Iguape sugere que os grupos exploravam uma grande área de captação dos recursos ou que mantinham contatos com grupos vizinhos, fazendo supor que tal matéria-prima poderia ter sido importada das margens próximas ao planalto ou à encosta da Serra — havendo, ainda, um forte indício da disposição de algum tipo de embarcação . Atualmente, a intencionalidade dessas construções feitas a partir de carapaças de moluscos é pouco questionada. Além dos aspectos morfológicos, revelam intenção à própria escolha do ambiente estuarino e à inserção destes sítios arqueológicos na paisagem, sempre em locais elevados, nas encostas de morros, numa cota altimétrica sempre maior que a do entorno. Tal disposição tem sido entendida como uma estratégia para atender auma função prática, como permitir a observação da entrada de cardumes de peixes. No entanto, é possível que a verdadeira motivação da disposição-inserção do sítio arqueológico na paisagem, bem como a sua própria estrutura constituinte e morfologia, esteja num ponto eqüidistante de uma função prática (econômica) e outra cultural (simbólica). A idéia de intencionalidade na construção dos sambaquis não é nova. Duarte (1955, p. 614) já havia mencionado a “[...] própria importantíssima observação sobre a presença de moluscos inteiros formando camadas completas” nas bases de certos sambaquis. Se pensarmos na utilização das carapaças de moluscos como material construtivo e que as áreas onde se localizam, sempre próximas a estuarinos, rios, baías, teremos uma possibilidade de explicação para tal constatação de Duarte, já que as conchas, como material de construção, possibilitam um alto grau de drenagem num ambiente extremamente úmido, o que facilitaria em muito a ocupação deste tipo de habitat O caráter monumental dos sambaquis constitui um traço cultural primordial, configurando assim a possibilidade de se pensar sobre eles como artefatos. Esta hipótese é reputada a Prouss (1992), que afirmou a possibilidade de estudá-los como tal, construídos paulatinamente com técnicas construtivas que refletem a intencionalidade de criação de uma estrutura que se destacasse da paisagem. Tal idéia foi reformulada mais tarde por Gaspar & De Blasis (1992) ao verem nestes sítios arqueológicos uma “arquitetura” ou um “sistema de edificação”. Aula: 08 Temática: A litoraneidade dos grupos pescadores-coletores Compreendemos o sítio arqueológico do tipo sambaqui como um artefato, intencionalmente construído pelos gruposde coletores-pescadores ao longo de séculos, com o intuito edificador de um marco territorial-costeiro que, além de se destacarda paisagem, propiciaria aos seus habitantes um espaço multifuncional, ao mesmo tempo moradia para os vivos e “casa do espírito” . Nesse local se processaria a maior parte das relações sociais, os ritos de comunhão com os antepassados, sendo, portanto, o lugar onde se forjou o caráter identitário dessa cultura como senhores do mar . A íntima relação com o mar faz com que os grupos coletores-pescadores possam ser entendidos culturalmente como detentores de um universo simbólico prenhe de significados a ele relacionados. Diegues (1993) reflete que, durante muito tempo, os mares foram considerados erroneamente como “grandes espaços vazios”, habitados somente por peixes e outros animais sem considerar a presença humana de pescadores e navegadores que os habitam, há séculos, e sobre os mares criaram símbolos culturais e míticos. O conhecimento que os grupos de coletores-pescadores possuíam do mar é indissociável do universo simbólico . Conhecer os fenômenos naturais como a migração de peixes é tão importante quanto o domínio das técnicas para capturá-los, e envolve o controle de zonas econômicas exclusivas, bem como formas engenhosas de conservação destes habitats marinhos, tal como ainda fazem as comunidades de pescadores tradicionais contemporâneas. Essas comunidades costumam estabelecer áreas onde o próprio homem não pode penetrar por serem consideradas sagradas, ou seja, “locais onde habitavam divindades que não deveriam ser perturbadas” (op. cit.:13). Se observarmos o comportamento geral do homem arcaico, verificaremos que apenas os actos humanos propriamente ditos, os objectos do mundo exterior, possuem valor intrínseco autônomo. Um objecto ou uma acção adquirem um valor e, deste modo, tornam- se reais, porque de qualquer forma participam de uma realidade que os transcende. Entre muitas outras pedras, uma torna-se sagrada – e, por conseqüência, fica imediatamente impregnada de ser -, porque constitui uma hierofania, ou porque possui um maná, ou porque a sua forma reflecte um certo simbolismo, ou ainda porque comemora um acto mítico etc (ELIADE, 1969, p. 18). Desse modo, pensamos que os grupos coletores-pescadores podem ser compreendidos como povos costeiros, como “gente do mar”, detentores de uma cultura calcada no acúmulo de informações oriundas das observações-interações com o mar e que se iniciou quando “o homem primitivo começou, da terra, a observar o mar e os seres que nele viviam” (DIEGUES, 1993, p. 6). No entanto, ressalve-se que não consideramos os grupos de coletores-pescadores que inicialmente ocuparam o baixo vale do Ribeira de Iguape como “pescadores marítimos”, mas como comunidades de pescadores litorâneos que obtinham seus recursos por meio de incursões freqüentes no ambiente estuarino lagunar, utilizando frágeis embarcações e que, eventualmente, incursionavam por mar aberto. Estamos tratando de comunidades recém chegadas ao baixo vale e que encontraram um mar raso, salpicado de ilhas onde dispunham de grande quantidade de alimento. Acredita-se que estes grupos desenvolveram algum tipo de “armadilha” de espera, nos moldes do “cerco”, bastante eficiente e que aprisionava grande quantidade de peixes queabundavam neste ecossistema, ou, ao menos, armas de arremesso como lanças ou flechas. Mais ainda, concebemos que toda prática social dos grupos coletores-pescadores foi estruturada para uma sobrevivência costeira, e que a compreensão da cultura que edificou propositadamente as estruturas sambaquieiras passa necessariamente por um entendimento dessa litoraneidade. O sambaqui, como local de moradia, proporciona a seus habitantes um espaço ao mesmo tempo de posse, proibido a forças adversas, de refúgio seguro, louvado e amado, isto é, uma casa, um lar. Bachelard (1957) em A poética do espaço, destacou que a casa, além de ser o primeiro universo e o primeiro mundo, abriga o devaneio, protege o sonhador e o permite sonhar em paz, carrega em si a imagem de um espaço feliz (topofilia),no qual convivem as lembranças e lendas da casa natal com a consciência eo enriquecimento incessante de novas imagens. No caso dos sambaquis, uma grande dificuldade é que trabalhamos com restos de uma cultura material fortemente biodegradável inseridos numa área extremamente úmida que destrói a maioria dos possíveis vestígios. Na realidade, nosso maior testemunho é uma grande ausência de objetos vinculados à pesca, como redes, ou mesmo pesos de rede, cestarias que podem ter sido utilizadas como armadilhas, restos de canoas, armamentos de arremesso como lanças ou flechas. Utensílios que ajudariam a explicar a imensa quantidade de peixes que foram amplamente consumidos por estes grupos de coletores-pescadores, como atestam os significativos restos ósseos de uma vasta fauna ictiológica. Após a manutenção de um modo-de-vida que durou ao menos 5000 anos, baseado inicialmente na coleta de moluscos e depois na pesca, constituiu-se uma das economias mais estáveis de que se tem notícia. Os povos construtores de sambaquis desaparecem, dando lugar a outras formas de sociedades na região do baixo vale do rio Ribeira de Iguape. Tradicionalmente, os grupos coletores-pescadores foram substituídos por grupos ceramistas que chegaram ao litoral. Não se conhece o processo de transformação de um modo de vida baseado na pesca e coleta para um modo de vida horticultor, apenas podemos inferir, mediante dados existentes, a chegada de novos grupos ao baixo vale do Ribeira. RATH, C. (1874), Apud DUARTE, P. (1969), que considera a melhor tradução etimológica da palavra sambaqui do que a de SAMPAIO, T. que considera tamba e qui como monte de ostras. GASPAR, M. D., (2000). Não devemos esquecer que para o homem antigo não há uma distinção clara entre uma função prática e outra simbólica. Mircea Eliade afirma que “Podemos dizer, de um modo geral, que o mundo arcaico ignora as atividades “profanas”: qualquer acção com significado determinado – caça, pesca, agricultura, jogos, conflitos, sexualidad, etc., - participa, de certo modo, no sagrado” (ELIADE, 1969, p. 42). Aula: 09 Temática: Os sítios arqueológicos com pinturas rupestres São chamadas de “pinturas rupestres” as pinturas, desenhos ou inscrições feitas em paredes sob abrigos rochosos e em cavernas. Os motivos gravados nas pinturas rupestres são bastante variados. Desde grafismos geométricos, passando por cenas como danças, cenas de caça, guerras, sexualidade, representações da fauna e flora do local e da época em que foram produzidos. Um dos grandes problemas no estudo da arte rupestre está exatamente na interpretação ou entendimento das cenas retratadas, pois a interpretação envolve a “subjetividade” do arqueólogo, principalmente em função da(s) teoria(s) que constituem a base de sua formação. Claro que se procura a compreensão destas cenas de uma maneira mais próxima da realidade, no entanto, sua real função ou representação é de difícil entendimento. No Brasil, André Prous (apud Madu Gaspar, 2003) sistematizou oito grandes tradições de arte rupestre. Tradição Meridional, localizada no sul do país e feita com a técnica de incisão ou polimento. As cores principais são: preto, branco, marrom e roxo. Tradição Litorânea Catarinense são testemunhos que vão do litoral até as ilhas com quinze quilômetros de distância. É caracterizado por inscrições em rocha (granito) com quatorze temas estudados por Prous que vão de antropomorfos a geométricos. Tradição Geométrica: presente desde o planalto sul, atravessa Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Goiás, Mato Grosso até o nordeste. Dada sua extensão, Prous os subdivide em Meridional e Setentrional. Tradição Planalto: passa pelo Planalto Central, pelos estados de Minas Gerais. Paraná até a Bahia. Inscrições principalmente de animais em vermelho,preto amarela e raramente em branco. Nesta região, encontra-se o famoso sítio arqueológico de Lagoa Santa (MG), local de origem do fóssil humano mais antigo do território nacional e que foi escavado por Lund. O fóssil, conhecido como Luzia, foi estudado principalmente por Walter Nevesque, depois de estudos paleogenéticos, atribui-lhe a origem negróide Tradição Nordeste: localizada nos estados de Minas Gerais, Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Piauí. Nesta tradição. São enquadradas as pinturas encontradas no principal sítio arqueológico do Brasil, o Sítio Boqueirão da Pedra Furada (PI), cuja ocupação foi pesquisada por Niéde Guidon e datada em até cinqüenta mil anos AP. Dada a complexidade destasrepresentações, pesquisadoras como Anne Marie Pessis e Gabriela Martin,além da própria Niéde Guidon, estabeleceram subtradições nessa área. Tradição Agreste: localizada nos estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Possui pinturas geométricas e antropóides,além de representações da fauna. Tradição São Francisco: apresenta-se nos estados de Minas Gerais, Bahia,Sergipe, principalmente o vale do Rio São Francisco, com formas humanas e de animais como peixes, pássaros e répteis da região. Tradição Amazônica que é caracterizada por desenhos antropomorfos e geométricos. Há representações nas margens dos rios Cuminá, Puri e Negro. Esta parte da Arqueologia Brasileira, muito estudada, possui grandes dificuldades inerentes a sua especialidade. Muitas vezes, há uma clara representação de algum tipo de cerimonial com cenas de dança e culto, mas é difícil precisar a que cerimonial se refere. Em geral, a compreensão dos significados é mais distante do que tem sido, por exemplo, a identificação de espécies de fauna retratadas nos grafismos, inclusive com suas variações. A datação também apresentaproblemas, uma vez que, a grosso modo, apenas os pigmentos de origem orgânica podem ser datados. No entanto, a especialidade em pinturas rupestres é uma das mais fascinantes da Arqueologia Brasileira. Aula: 10 Temática: Os sítios arqueológicos líticos Esta aula é dedicada aos sítios arqueológicos cuja principal característica é a presença de testemunhos materiais em rocha: os artefatos líticos. Nesse caso, fica claro o porquê de a periodização clássica das três idades não se aplicar ao Brasil. Há diversos sítios líticos onde há, simultaneamente, a presença de artefatos líticos lascados e polidos. Esses sítios foram produzidos por grupos de caçadores-coletores e possuem cerca de onze mil anos. Ocupam, basicamente, todo o território nacional. Essa indústria lítica é representada principalmente por pontas de flechas e uma variada gama de raspadores. Do ponto de vista cultural, podemos destacar quatro grandes grupos de caçadores-coletores: (...) a Tradição Umbu, nas florestas e planaltos do sul do Brasil, a Tradição Itaparica, que caracteriza os caçadores-coletores do planalto central, os caçadores- pescadores das dunas do litoral nordestino e a Tradição dos Sambaquis, que é definida pelos remanescentes de culturas muito bem adaptadas aos ambientes litorâneos . Nota-se que os grupos pescadores-coletores, também chamados de construtores de sambaquis, são considerados parte integrante destes sítios arqueológicos de caçadores-coletores. Muitos autores consideram os construtores de sambaquis como grupos de caçadores que se adaptaram ao ambiente litorâneo, numa adaptação econômica e cultural ao ambiente de estuarinos-lagunares, ou, como quer Madu Gaspar, sempre próximos a grandes corpos d’água. Para a tradição arqueológica americana e brasileira, encontramos, em geral, três grandes períodos: Período Paleoíndigena: equivale aos vestígios arqueológicos provenientes do final do período geológico chamado Pleistoceno cuja transição para o período (De Blasis. Da Era das Glaciações às origens da Agricultura. In: Brasil: 50 mil anos: uma viagem ao passado pré-colonial. Catálogo. Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. Edusp, 2001, p.18). atual, o Holoceno, costuma situar-se entre 15 e 11 mil anos atrás [...] Período Arcaico: corresponde, grosso modo, à maior parte do período holocênico, quando os climas e paisagens adquirem, com algumas variações, a configuração que temhoje (...), corresponde a uma ampla diversificação das sociedades de caçadores, ocupando até os mais remotos rincões das Américas e adaptando- se às variadas feições ecológicas e ambientais presentes através do continente (...) nos planaltos do centro e do sul do Brasil, situa-se entre 10.000 e 2.500 anos atrás [...] Período Formativo: a partir de aproximadamente dois mil anos atrás até a chegada dos primeiros colonizadores europeus, o cenário arqueológico brasileiro é marcado pelos vestígios de sociedades com uma economia não mais baseada na caça e na coleta, mas plenamente agrícola [...] . Os sítios arqueológicos líticos ocorrem em praticamente todo o Brasil e se extinguem com a mudança para outra base econômica, a agricultura. Essa mudança foi incipiente, inicialmente, mas, depois, tornou-se a base da sobrevivência da comunidade. As conseqüências foram brutais. A domesticação, principalmente, da mandioca, fez com que os grupos humanos se tornassem sedentários, o que aumentou a densidade demográfica. Como principal representante desta nova cultura temos os tupi. Parque Nacional Serra da Capivara O Parque Nacional Serra da Capivara está localizado no sudeste do Estado do Piauí, ocupando áreas dos municípios de São Raimundo Nonato, João Costa, Brejo do Piauí e Coronel José Dias. A superfície do Parque l é de 129.140 ha e seu perímetro é de 214 Km. A cidade mais próxima do Parque Nacional é Cel. José Dias, sendo a cidade de São Raimundo Nonato o maior centro urbano. A distância que o separa da capital do Estado, Teresina, é de 530 Km. A maneira mais rápida de chegar ao Parque é através de Petrolina, cidade do Estado de Pernambuco, da qual dista 300 Km. A cidade de Petrolina dispõe de um aeroporto onde opera atualmente a Gol, e a BRA, ligando a região com Recife, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. A criação do Parque Nacional Serra Capivara teve múltiplas motivações ligadas à preservação de um meio ambiente específico e de um dos mais importantes patrimônios culturais pré-históricos. As características que mais pesaram na decisão da criação do Parque Nacional são de natureza diversa: - culturais - na unidade acha-se uma densa concentração de sítios arqueológicos, a maioria com pinturas e gravuras rupestres, nos quais se encontram vestígios extremamente antigos da presença do homem (100.000 anos antes do presente). Atualmente estão cadastrados 912 sítios, entre os quais, 657 apresentam pinturas rupestres, sendo os outros sítios ao ar livre (acampamentos ou aldeias) de caçadores-coletores, são aldeias de ceramistas-agricultores, são ocupações em grutas ou abrigos, sítios funerários e, sítios arqueo-paleontológicos; - ambientais - área semi-árida, fronteiriça entre duas grandes formações geológicas - a bacia sedimentar Maranhão-Piauí e a depressão periférica do rio São Francisco - com paisagens variadas nas serras, vales e planície, com vegetação de caatinga ( o Parque Nacional Serra da Capivara é o único Parque Nacional situado no domínio morfoclimático das caatingas), a unidade abriga fauna e flora específicas e pouco estudadas. Trata-se, pois, de uma das últimas áreas do semi-árido possuidoras de importante diversidade biológica; - turísticas - com paisagens de uma beleza natural surpreendente, com pontos de observação privilegiados. Esta área possui importante potencial para o desenvolvimento de um turismo cultural e ecológico, constituindo uma alternativa de desenvolvimento para a região. Em 1991 a UNESCO, pelo seu valor cultural, inscreveu o Parque Nacional na lista do Patrimônio Cultural da Humanidade. Em 2002 foi oficializado o pedido para que o mesmo seja declarado Patrimônio Natural da Humanidade. O Parque Nacional Serra da Capivara é subordinado à Diretoria de Ecossistemas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), tendo sido concluída a sua demarcação em 1990. Em torno do Parque foi criada uma Área de Preservação Permanente de dez quilômetros que constitui um cinto de proteção suplementar e na qual seria necessário desenvolver uma ação de extensão. Em 1994 a FUMDHAM assinou um convênio de co-gestão com o IBAMA em 2002 um contrato de parceria com a mesma instituição. Depois de criado, o Parque Nacional esteve abandonado durante dez anos por falta de recursos federais. Análises comparativas das fotos de satélite evidenciaram esse fato. Durante este período a Unidade de Conservação foi considerada “terra de ninguém” e como tal, objeto de depredações sistemáticas. A destruição da flora tomou dimensões incalculáveis; caminhões vindos do sul do país desmatavam e levavam, de maneira descontrolada, as espécies nobres. O desmatamento dessas espécies, próprias da caatinga, aumentou depois da criação do Parque, em decorrência da falta de vigilância. A caça comercial se transformou numa prática popular com conseqüências nefastas para as populações animais que começaram a diminuir de forma alarmante. Algumas espécies, como os veados, emas e tamanduás praticamente desapareceram. Estes fatos tiveram conseqüências negativas na preservação do patrimônio cultural. A falta de predadores naturais provocou um crescimento descontrolado de algumas espécies, como cupim ou vespas cujos ninhos e galerias destroem as pinturas. As causas desta situação são em parte externas à região, mas também decorrem da participação da população que vive em torno do Parque. São comunidades muito pobres, algumas das quais exploravam roças no interior dos limites atuais do Parque. Estas populações dificilmente compreendem a necessidade de proteger espécies animais e vegetais uma vez que os seres humanos apenas logram sobreviver. Assim, a população local depredava as comunidades biológicas e o patrimônio cultural do Parque Nacional e áreas circunvizinhas, pela caça, desmatamento, destruição de colméias silvestres e a exploração do calcário de afloramentos, ricos em sítios arqueológicos e paleontológicos. Aula: 11 Temática: Sítios cerâmicos Como vimos na aula anterior, os grupos caçadores-coletores foram substituídos por grupos de horticultores. Essa mudança econômica e cultural provocou a alteração dos os vestígios arqueológicos: o aparecimento da cerâmica, usada em utensílios de uso cotidiano e em rituais. Vários cronistas descreveram essa utilização. Destacamos a descrição de Hans Staden de ritos antropofágicos entre os tupinambá — ritos nos quais ele mesmo participou como prisioneiro a ser devorado. Além da utilidade prática, a cerâmica permitiu aos horticultores o desenvolvimento de técnicas de fabricação, cozimento, preparação da liga, servindo também como suporte para manifestações artísticas, como a pintura. Os vasos de Santarém e a cerâmica Marajoara, encontrados na região Norte, contêm grande carga simbólica e são apontados por alguns autores como os mais complexos do Brasil. . Além da maestria em relação a sua feitura, eles apresentam as figuras duais: representações antropomorfas e de animais, notadamente o urubu-rei. Estas figuras possuem a particularidade de poderem ser contempladas em dois sentidos, de lado e de frente, ou seja, uma mesma figura que, dependendo do ângulo de observação,representa duas formas distintas. O grupo cultural mais representativo, nesse período de ocupação do Brasil, foi o tupi. Os tupis ocuparam a maior parte do imenso litoral brasileiro e tiveram um maior contato com os conquistadores europeus. Acredita-se que a matriz cultural dos tupi tenha se formado há cerca de cinco mil anos em algum ponto da Amazônia. Por volta de 2500 ou 2000 anos, passaram a ocupar todo o território nacional, a partir de dois grandes braços, um rumo ao Leste, descendo pela costa do Atlântico, e outro no sentido Sul até a região dos Pampas, de onde subiram pela costa até algum ponto entre os atuais estados de São Paulo e Paraná. Nessa verdadeira diáspora pelo território nacional, os tupis foram dando nomes a cada acidente geográfico, cada escarpa, serra, rios e, principalmente, construindo caminhos, os peabirus, que tanto serviram aos conquistadores europeus. O próprio local de fundação da cidade de São Paulo corresponde a um ponto de confluência de peabirus. (Ver o trabalho de Aziz Ab’Saber intitulado “O Solo de Piratininga” In: Bueno, E. Os nascimentos de São Paulo”. São Paulo. Ediouro, 2004. O contato dos povos sambaquieiros com os horticultores causou o seu fim. Não se sabe se foram escravizados ou aculturados, o fato é que, a partir desse encontro, o modo de vida dos povos coletores-pescadores definhou até desaparecer. Do ponto de vista dos artefatos encontrados no sítio cerâmico , sabemos que a cestaria e os artefatos em madeira eram numerosos, ambos, porém, bastante perecíveis. Há artefatos líticos, mas a cerâmica é o principal testemunho. Nestes sítios tem sido encontrada uma grande gama de vasilhas, como tigelas, jarros, semi-globulares, globulares e igaçabas. O tipo de cerâmica mais importante em função de sua utilização era a funerária. Entre os grupos da matriz tupi no interior e no sul-sudeste do Brasil havia o sepultamento de indivíduos em urnas funerárias. Provavelmente, descarnavam os indivíduos antes do sepultamento. Tais urnas são decoradas, inclusive com incisões feitas durante sua manipulação. Como exemplo destas incisões, temos o corrugado, ungulado, serrilhado escovado entre outros. Um dos traços culturais mais interessantes dos povos da matriz tupi são os ritos antropofágicos. Entre os tupinambás, tal cerimonial foi amplamente descrito e estudado principalmente por Florestan Fernandes em seu célebre estudo A função social da guerra na sociedade tupinambá . Como estes povos sofreram todo o processo da conquista, os relatos dos cronistas, bem como os trabalhos etnográficos, são de grande valia no processo de conhecimento e compreensão destas culturas. Aula: 12 Temática: Os sítios históricos São todas as edificações datadas do período colonial ou dos períodos posteriores, que, além da arquitetura, guardam testemunhos arqueológicos em seu interior e entorno. São exemplos de sítios históricos os engenhos, as fortalezas, as Igrejas, os casarios, as ruas, vilas, as casas de Administração e até mesmo as praças, largos e senzalas. Este tipo de sítio arqueológico oferece excelente oportunidade de cruzamento de várias áreas de conhecimento, como a Arquitetura, História, ArtesPlásticas, Antropologia, Geografia, entre outras. No Brasil, muitas cidades possuem sítios históricos, alguns deles tombados pelo Patrimônio Histórico. Os mais conhecidos talvez sejam: o Pelourinho em Salvador, as cidades de Ouro Preto e Tiradentes em Minas Gerais e a cidade de Parati no Rio de Janeiro. O interesse nesse tipo de sítio arqueológico, além das questões culturais, históricas e até afetivas, reside nas informações que podem estar guardadas em seu interior e que eventuais escavações podem revelar objetos de uso cotidiano tais como: telhas, cerâmicas, porcelanas, vidros ou pregos e objetos de uso pessoal. Na análise histórica existe uma tendência de considerar a influência da cultura dominante quase com exclusividade. Essa tendência ignora que o processo de conquista e o processo de aculturação possuem “mão dupla”. Da mesma forma que a cultura local é modificada, a cultura do invasor também é. O resultado, em geral, é uma nova cultura. No nosso caso, a nova cultura é a “brasileira” . Temos exemplos claros na culinária, como o uso da mandioca , do milho e muitas outras frutas e modos de preparo dos alimentos. No que se refere à preservação dos sítios históricos , uma recente Portaria do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) destaca a participação da comunidade: Art.2º - O Plano de Preservação de Sítio Histórico Urbano - PPSH Plano de Preservação de Sítio Histórico Urbano - PPSH é um instrumento de caráter normativo, estratégico e operacional, destinado ao desenvolvimento de ações de preservação em sítios urbanos tombados em nível federal, e deve resultar de acordo entre os principais atores públicos e privados, constituindo- se em processo participativo. Aula: 13 Temática: Sítios subaquáticos A Arqueologia subaquática é bastante recente no Brasil. Basicamente, qualquer vestígio arqueológico que esteja submerso faz parte deste tipo de sítio arqueológico. Os naufrágios são as causas mais comuns de formação de um sítio arqueológico subaquático, mas há também construções antigas que sofreram destruição antrópica e natural e que submergiram, totalmente ou em parte. Os sambaquis submersos são um exemplo interessante e raro. A principal característica desse tipo de sítio arqueológico é o grande fascínio que desperta, especialmente, nos chamados “caçadores de naufrágios”, cujas atividades se tornaram uma ameaça para a preservação dos objetos históricos. Os sítios arqueológicos subaquáticos são patrimônio da União e seu saque é crime. Os procedimentos metodológicos são os mesmos de qualquer sítio arqueológico. Envolvem topografia, quadriculamentos, escavações, datações e todos os demais. Claro que a dificuldade é maior em função de sua característica, mas trata-se de uma escavação com o mesmo rigor. Não é uma simples coleta, como uma “caça ao tesouro”, é exatamente o oposto. Segundo Rambelli: O objeto de estudo da Arqueologia Subaquática é a cultura material que se encontra submersa em águas interiores (rios, lagos, represas), marítimas ou oceânicas. Por isso vale esclarecer que, embora se mude o ambiente de pesquisa, não há mudança da ciência em questão. Apenas se adaptam métodos e técnicas de investigação, e, evidentemente, o mergulho para o arqueólogo torna-se imprescindível, pois passa a ser uma ferramenta de seu trabalho. Para saber mais sobre arqueologia subaquática no Brasil, consultar http://www.naufragios.com.br/arqbr.htm No dia 10 de abril de 1912, o navio Titanic partiu de Southampton, na Inglaterra, em direção a Nova York para realizar sua primeira e última viagem. O naufrágio do Titanic é o mais conhecido caso de acidente marítimo. Em 1986, o oceanógrafo americano Bob Ballard conseguiu fotografar o navio submerso, a 3.658 metros de profundidade no Atlântico Norte, perto da Ilha de Terra Nova, no Canadá. Alguns anos depois, Ballard voltou ao local e se surpreendeu: várias peças e objetos haviam sido roubados. Para maiores informações, consultar: http://www.starnews2001.com.br/titanic.html Resumo - Unidade II Esta unidade tratou da Arqueologia Brasileira por meio de um breve histórico e dos tipos de sítios arqueológicos e componentes principais. Abordou, também, de maneira introdutória, as áreas de atuação da arqueologia em território nacional, as datações mais significativas e a antigüidade das ocupações, chegando a 50.000 anos antes do presente no sítio arqueológico “Boqueirão da Pedra Furada”, no Piauí, também rico em pinturas rupestres. Aula: 14 Temática: O Patrimônio Cultural É difícil determinar o que seja um patrimônio. Teoricamente, é tudo aquilo que deve ser preservado e conservado para as gerações futuras. No entanto, quem determina o que deve ser preservado? Quando vemos algum monumento histórico, esquecemos de que ele é o resultado de um processo histórico e que, geralmente, conta a história dos vencedores e não a dos vencidos. A História possui diversos exemplos disso. A destruição das imagens de Buda talhadas na montanha no Afeganistão pelo grupo Taliban pouco antes da invasão norte-americana neste país demonstra que a preservação ou destruição do patrimônio, em muitos casos, obedece ao jogo político — ressaltando que a próprias guerras são razão de destruição do patrimônio histórico e cultural. Entretanto, patrimônio não engloba apenas os monumentos históricos, mas também o meio-ambiente, o “saber-fazer” das comunidades locais, os costumes e as tradições de diversas culturas. Para a Arqueologia brasileira, todo sítio arqueológico é patrimônio da União, protegido por legislação federal, a Lei nº. 3924 de 26/7/1961. Esta lei foi o resultado do esforço de vários estudiosos, principalmente do arqueólogo Paulo Duarte. No entanto, a existência da lei não faz cessar a destruição do patrimônio.Para tanto, é necessário que haja a combinação de esforços fiscalizadores do Estado, dos pesquisadores e da comunidade local onde o sítio arqueológico está inserido. Caso contrário, há proteção apenas no papel. Hughes de Varine-Boham (Apud LEMOS, C.A.C., 1982) elaborou uma tipologia para o Patrimônio Cultural que serviu de base para a classificação da UNESCO, na qual o divide em três grandes categorias. A primeira engloba o patrimônio ligado à natureza e ao meio-ambiente. A segunda diz respeito às tradições culturais relacionadas às técnicas de manufatura, ao saber e ao saber-fazer de grupos culturais que transmitem de pai para filho um conjunto de conhecimentos, cuja cadeia não pode ser quebrada, sob o risco de perda de toda uma tradição e, por fim, os bens culturais que se referem a todos os artefatos e objetos em geral, o que inclui construções arquitetônicas Segundo Lemos o patrimônio cultural de um povo, englobando todos os bens culturais, é incomensurável e não se pode confundir esse patrimônio com o “patrimônio oficial”, que se refere a “aquele que legalmente reúne poucos e escolhidos bens eleitos como preserváveis à posteridade” Como vimos nas aulas anteriores, o artefato isolado de seu contexto revela muito pouco sobre a cultura que o fabricou. Em nossa sociedade, existe o culto ao objeto e a tendência a padronização. Porém, este nível de percepção do artefato dissociado de uma visão cultural ampla é o resultado de um processo que remonta ao nascimento da sociedade moderna — ou pós-moderna, segundo alguns. A partir dos séculos XVI e XVII, na Europa, tornou-se comum a exibição de objetos provenientes de lugares distantes e a sua admiração como “curiosidade” ou objeto exótico. No século XIX, essa prática atingiu o auge ao alcançar as exibições em museus. Pouco interesse havia em relação à cultura que produziu tais artefatos. Muitos acervos de museus tradicionais e, bastante antigos, foram montados a partir de objetos “importantes” ou de caráter simbólico — civil ou religioso — que deveriam ser expostos como afirmação de uma diferença cultural. Assim, havia os “Gabinetes de curiosidades” que exibiam “animais exóticos” juntamente com utensílios particulares de heróis nacionais, ou livros raros, e toda a sorte de objetos. A preservação do patrimônio deve seguir normas internacionais, principalmente de órgãos como a UNESCO. Tais normas foram elaboradas a fim de criar padrões de preservação coerentes com o objetivo de manutenção da diversidade cultural e da própria unidade cultural de um povo, como garantia de auto-afirmação. Aula: 15 Temática: Museologia Museologia não é “ciência dos museus”, assim como Medicina não é “ciência dos hospitais”. Como vimos anteriormente, o interesse em colecionar objetos que, de alguma forma, despertam o interesse de povos e culturas distintas, remonta aos primórdios da humanidade. Waldisa Guarnieri (1990)1 informa que na Antigüidade, a princesa Bel Chalti Nannar da Caldéia registrou o primeiro inventário de objetos de uma coleção de que se tem notícia: os objetos do palácio de seu pai, no século VI a.C. Desde então, muitos acontecimentos relacionados à coleção, exposição e à conservação de objetos têm permeado a história. A primeira especialização dessas coleções foi a pinacoteca: a primeira coleção de pinturas, em uma das alas dos Propileus da Acrópole de Atenas, na Grécia Antiga. A partir de então, toda coleção de pinturas recebeu esse nome. Ainda na Antigüidade, temos o “Museu de Alexandria” e sua famosa biblioteca. Há quem diga que os museus da época moderna buscam ser o que foi este museu, com áreas de descanso e de exposição de objetos, anfiteatro, um parque botânico, um centro de estudos (o embrião de uma universidade) e até um zoológico. De acordo com Guarnieri (1990), o Museu de Alexandria representou o primeiro dos cinco grandes momentos de desenvolvimento históricos dos museus. Segundo Suano (1986), em Roma os museus, além de expressarem o conhecimento, ou mesmo o “gosto” de uma camada privilegiada, tinham a função de demonstrar o poderio do império, suas conquistas, saques, butins. O segundo momento de desenvolvimento dos museus corresponde à Renascença, em que encontramos um misto de “Galeria de arte” com o “Gabinete de Curiosidades” — já mencionado anteriormente. Esse tipo de museu configurava a manifestação do poder dos Príncipes. Os museus renascentistas contaram com curadores como Donatello e Leornardo Da Vinci e com aulas de numa nova disciplina: História da Arte. GUARNIERI, W. Museu, Museologia, Museólogos e Formação.In: Revista de Museologia. SP. IMSP, 1990. (p. 7). O terceiro momento corresponde à passagem do “Museu do Iluminismo” para o “Museu do Romantismo”, ou seja, os museus abandonaram a ilustração caracterizada pelo acúmulo de objetos sem divisões temáticas — como uma grande enciclopédia — substituindo o acúmulo pelas coleções que expressavam os ideais da burguesia. Nesse período, surgiram os grandes museus nas capitais européias (o Louvre, o Museu Britânico ou o Museu do Prado) como expressões do poderio de grandes nações e impérios. Segundo Guarnieri (op.cit.), os “museus dos príncipes” tornaram-se “museus das nações”. O curioso é que este período marcou o início das primeiras preocupações com a origem do acervo. Os acervos desses museus foram obtidos por meio de pilhagens cometidas por Napoleão ou pelo Império Britânico. Este período caracterizou o fazer museal como museografia. Era o domínio dos padrões estéticos burgueses. O quarto momento foi caracterizado pela urbanização, pela especialização e a profissionalização dos museus e a Museologia como uma disciplina acadêmica com um corpo de conhecimentos formalizado. O quinto e último momento é a atualidade, em que a organização museal caracteriza-se por uma estrutura específica, uma filosofia própria e uma ação prática. Sua principal característica, assim como na Arqueologia, é a interdisciplinaridade. Há acontecimentos que merecem destaque na história da museologia. Na Revolução Francesa de 1789, folhetos revolucionários pediam “Museus para o Povo!” Mas, talvez, o fato mais interessante para nós seja que, antes de existir uma Faculdade ou Instituição de Ensino em nível Superior no Brasil, existiu um museu, O Museu Nacional do Rio de Janeiro. A seguir, observe três definições de Museologia:(...) a Museologia apóia-se sobre uma base teórica do ponto de vista gnosiológico e metodológico, pois só assim ela pode cumprir sua missão, não apenas em relação à prática museal, mas, também, dentro do próprio sistema da ciência. (ZBYNEK, S.. Apud. GUARNIERI, W. Museu, Museologia, Museólogos e Formação. In: Revista de Museologia. SP. IMSP, 1990, p. 10 (...) uma disciplina científica em vias de formação, cujo objeto é o estudo da relação específica homemrealidade e isto em todos os contextos nos quais esta se manifestou concretamente. (GREGOROVÁ, Anna. Apud. GUARNIERI, W. Museu, Museologia, Museólogos e Formação.In: Revista de Museologia. SP. MSP, 1990, p. 10) Ciência nova e em formação, cujo objeto é o fato museal ou museológico, relação profunda entre homem, sujeito que conhece, e o objeto, parte de uma realidade da qual o homem também participa, num cenário institucionalizado, o museu. (GUARNIERI, W. Museu, Museologia, Museólogos.- e Formação. In: Revista de Museologia. SP. IMSP, 1990:10) Aula: 16 Temática: Serviço Educativo em Museus Antes de discorrermos sobre a existência de um “serviço educativo em museus”, precisamos tentar entender o “público” dos museus. Inicialmente, o público dos museus na antigüidade era composto, principalmente, por membros da aristocracia e “estudantes”, no caso do Museu de Alexandria, pois havia um “protótipo” do que viria a ser um “centro universitário”. Já no segundo momento, os Museus da Renascença eram freqüentados por aqueles que tinham acesso ou faziam parte do “séqüito” dos reis ou príncipes, principalmente nas cidades italianas. Ou seja, a aristocracia da antigüidade foi substituída pela aristocracia renascentista. O público dosmuseus pouco mudou em relação ao período vinculado à ascensão da burguesia. Os museus desse período procuravam transmitir os ideais burgueses, sua visão de mundo e suas conquistas. Segundo Suano (op. cit.), o público do Museu Britânico em sua abertura em 1759, via em seu acervo extremamente rico, o fruto de uma expropriação sofrida durante séculos.Quanto ao acesso às exposições, é necessário lembrar que as visitações eram pagas e o preço do ingresso bastante elevado, o que promovia uma certa seleção. Em suma, a visitação era aberta, diferentemente do período anterior, mas poucos tinham acesso. No entanto, essa realidade foi mudando, mesmo nos museus da burguesia que perceberam a necessidade de abrir suas coleções, não por uma motivação “humanista”, e sim para exercer a dominação por meio da demonstração de seu poderio, ideais e conquistas. Com o avanço da industrialização, foram criadas muitas mostras e exposições, feiras e eventos, mais acessíveis ao grande público, como o a “Mostra de Todas as Nações”, em 1851, no, então, recém construído “Palácio de Cristal” de Londres (Suano, op. cit.) ou o “Palácio da Eletricidade” em Paris no ano de 1900. O serviço educativo especializado em museus é recente. Como vimos, a mentalidade moderna em relação aos museus, no início da fase de industrialização na Europa, corresponde muito mais a uma propaganda da superioridade nacional — de acordo a visão técnnico-científica do período — após a verdadeira pilhagem do patrimônio cultural da humanidade que foi feito na fase anterior e a partir da qual foram constituídos os acervos dos museus nacionais. Tal é o caso do pilar do templo egípcio de Luxor ou dos mármores Egim que revestiam o Parthenon da Atenas Clássica e que hoje constituem o acervo de museus europeus, o que alimentou a discussão sobre a devolução desses bens culturais aos lugares de origem. A mudança do paradigma museológico começou a se dar com o surgimento da idéia de Estado-Nação. Os museus passaram a ser utilizados como propagadores do ideal nacionalista e, assim, de certa maneira, nasceu a noção de que os museus seriam a ilustração de uma ideologia, inclusive do ponto de vista educacional. Desenvolveu-se, então, o trabalho especializado de visitas a museus, a fim de orientar o público. O uso do museu como afirmação de uma nacionalidade ou cultura não é exclusividade dos países europeus, mesmo porque, a partir do século XIX, houve uma explosão no número de museus pelo mundo, impulsionada pelos processos de independência das colônias latino-americanas. Os museus são também utilizados como afirmação da identidade nacional ou mesmo como pura propaganda de Estado. No Brasil, o caso do Museu Nacional é exemplar. Criado por D. João VI, refletia o desejo do monarca de incutir no povo recém-elevado à categoria de súdito de um efêmero Reino Unido Brasil-Portugal, o significado de monarquia, história, obediência, nobreza, entre outros conceitos tão estranhos ao povo da colônia. Seu acervo era uma mistura de objetos de arte, zoologia, história natural e tudo mais que despertasse a curiosidade dos responsáveis ou que ajudasse a cumprir o seu papel. Foi acrescido de coleções de arqueologia clássica trazidas pela Imperatriz Tereza Cristina em 1853 (Conforme Suano, op.cit.). Por fim, foi vinculado à Universidade do Rio de Janeiro em 1946. O aumento do número de museus no Brasil se deu de maneira oficial nas décadas de 30 e 40 do século passado. Em São Paulo, os Museus Históricos e Pedagógicos sofrem grande aumento nas décadas de 1950 e 1960.Foi também nas década de 1960 e 1970 o início da tentativa de implantação de fato de um serviço educativo em vários museus. Os primeiros pensamentos neste sentido surgiram na década de 1930 com o movimento educacional da Escola Nova Resumo - Unidade III Nesta unidade, abordamos a história da Museologia e o conceito de Patrimônio Cultural cuja evolução está relacionada ao modo de fazer os museus em cada sociedade. Nesta unidade, abordamos também, o fazer museal, a relação com a instituição Museu e o Serviço Educativo em Museus. Essas abordagens foram feitas segundo a perspectiva da Arqueologia e da Etnologia cujo desenvolvimento está intimamente relacionado ao desenvolvimento dos museus. Referências Bibliográficas GUARNIERI, W. Museu, Museologia, Museólogos e Formação.In: Revista de Museologia. São Paulo: IMSP, 1990. LEMOS, C.A.C. O que é Patrimônio Histórico. São Paulo: Brasilense, 1982. SUANO, M. O que é Museu. São Paulo: Brasileiense, 1986. Aula: 17 Temática: A etnologia e o mundo O mundo moderno é cercado por acontecimentos tão espetaculares quanto contraditórios. Por um lado, os avanços tecnológicos baseados na mecatrônica e na genética que apontam para um futuro cada vez mais próspero e confortável, por outro, um planeta que dá sinais evidentes de que não suportará por muito mais tempo nosso modo de vida baseado no consumo excessivo e na produção desproporcional de poluição. Quanto mais estudamos os problemas de nossa época, mais nos damos conta de que não podemos enfrentá-los de modo isolado, uma vez que são parte integrante de um complexo sistema de relações. No atual contexto das sociedades pós-industriais e globalizadas, os fenômenos de natureza cultural vêm ganhando espaço e importância cada vez maiores não apenas nos debates acadêmicos e institucionais, como também nos meios empresariais e nas instâncias mais ou menos organizadas da população mundial. A decifração dos componentes de uma determinada ordem cultural tornou-se peça fundamental na reorganização de métodos produtivos e de rotinas de trabalho, ditada pelas novas tecnologias e pelo surgimento das corporações globais; na criação de uma campanha publicitária qualquer destinada a determinado grupo ou tribo; na elaboração de políticas de governo de combate à fome ou ao aquecimento global. A etnologia estuda os comportamentos dos grupos humanos, as origens da religião, os costumes e as convenções sociais, o desenvolvimento técnico e os relacionamentos familiares, pessoais ou intergrupais. A etnologia ou antropologia cultural se conecta a outros campos de estudo como a Arqueologia, a Lingüística e a Antropologia aplicada. Como vimos anteriormente, nas escavações, os arqueólogos encontram vestígios de prédios antigos, utensílios, cerâmicas e outros artefatos pelos quais o passado de uma cultura pode ser datado e descrito. Podem se concentrar também na análise lingüística que estuda a história e a estrutura da linguagem. A lingüística é especialmente valorizada, porque permite observar os sistemas de comunicação e apreender a visão do mundo das pessoas. A Antropologia aplicada, com base nas pesquisas realizadas pelos antropólogos, assessora os governos e outras instituições na formulação e implementação de políticas para grupos específicos de populações. Ela pode, em certa medida, ajudar governos de países em desenvolvimento a superarem as dificuldades que as populações destes países enfrentam no embate com a complexidade dos fluxos civilizacionais do século XXI. E pode também ser usada pelos governos na formulação de políticas sociais, educacionais e econômicas para as minorias étnicas no interior de suas fronteiras. O trabalho da antropologia aplicada é freqüentemente desenvolvido por especialistas nos campos da economia, da história social e da psicologia. Pelo fato de a Antropologia explorar amplo conjunto de disciplinas para investigar diversos aspectos em todas as sociedades humanas, ela deve apoiar-se nas pesquisas feitas por essas outras disciplinas para poder formular suas conclusões. Entre as disciplinas mais próximas ou afinadas com a Antropologia, encontramos a História, a Geografia, a Geologia, a Biologia, a Anatomia, a Genética, a Economia, a Psicologia e a Sociologia, juntamente com as disciplinas altamente especializadas como a Lingüística e a Arqueologia, anteriormente mencionadas. Uma das metodologias de pesquisa mais importantes para a Antropologia é a coleta de histórias orais do grupo focado resgatando sua poesia,canções, mitos, provérbios e lendas e reconstruindo sua trajetória histórica e identidade. O etnógrafo é aquele que registra, reconstrói ou resgata as relações dos homens com a natureza e entre si que, de outro modo, pela própria natureza volátil e fugaz da memória, poderiam se perder sem deixar marcas aparentes. Deve-se ressaltar que a tradição oral sobrevivia por séculos nas antigas culturas, mas não resistiu ao dinamismo das inovações que caracterizam a sociedade contemporânea. Não podemos também reduzir a etnografia a simples coleta de objetos destinados a figurar nos museus. A cultura não é um objeto, fruto de algum departamento estanque do nosso pensar, prisioneira de momentos e de agentes predeterminados. A cultura é um universo amplo que reflete e incorpora o caráter criativo característicos da ação humana. Esta perspectiva se torna bastante clara para nós aqui no Brasil, quando observamos o crescente peso que as identidades étnicas e culturais têm conquistado na elaboração das recentes políticas compensatórias e de inclusão, como a questão das cotas, da extensão de direitos civis às minorias ou como a garantia de posse de territórios para as populações tradicionais (caiçaras, quilombolas...). É impossível não notar o intenso movimento de fortalecimento das identidades locais através da valorização das manifestações da cultura popular e da política de patrimonialização de seu acervo imaterial. Isso acontece justamente num momento em que globalização econômica proporciona um intenso movimento de comunicação e, conseqüentemente, a mundialização dos modos de ser e de pensar que gera grupos identitários de natureza cultural (Punks, góticos, skaters, clubbers são personagens do mundo). Ao mesmo tempo em que se come sushi em Manaus com a mesma naturalidade com que se toma milk-shakes na Mongólia ou se come cupuaçu no Japão reafirma-se a identidade local. Poucas pessoas se dão conta de que a população indígena nas cidades está crescendo vertiginosamente. Estima-se que, atualmente, cerca de 50 mil indígenas vivam nas cidades brasileiras. Na cidade de São Paulo, maior aglomerado urbano da América do Sul, há quatro aldeias guarani, onde vivem mais de 500 pessoas e mais de 1.000 pankararus, índios originários do estado de Pernambuco que vivem em favelas como a Real Parque e a Paraisópolis, no bairro de Morumbi. Nossa época tem a característica de ser complexa e contraditória . Novas e antigas identidades e formas de viver se combatem e se compõem na construção desta instigante e estranha realidade. Entender a cultura e sua dinâmica, assim como compreender o mundo humano em toda sua complexidade é o objetivo da etnologia, o estudo das culturas. Aula: 18 Temática: O que é etnologia? ”Etnologia” é um termo originário do século XIX para designar estudos comparativos dos modos de vida dos seres humanos. A Etnologia emergiu juntamente com a Arqueologia, a Filologia, a Lingüística histórica, a Paleontologia e a Teoria geral da evolução em Biologia. Nesse período, os europeus ocidentais, em expansão colonial, estavam descobrindo uma variedade imensa de ambientes naturais e de sociedades desconhecidas e radicalmente diferentes. O estudo da etnologia acompanhou a expansão do mundo europeu para o Oriente, África, Austrália, Américas e Oceania. No início confundia-se com o estudo das raças e dos povos conquistados. Aliás, a divisão da humanidade em raças foi uma invenção dos europeus do século XIX que estudavam a desigualdade das raças para justificar seus objetivos colonizadores. A etnografia desenvolveu-se como disciplina científica no final do século XIX e início do século XX. Surgiu como uma tentativa de observação mais objetiva das sociedades e culturas do que a que era feita pelos viajantes. Os relatos de viagens passaram a ser criticados como portadores de preconceitos oriundos da ideologia dos autores. Classicamente, atribuía-se ao termo etno a origem grega, da palavra etnoe, usada para desingnar os outros povos que não eram gregos — os elenoe. Mais recentemente, mantida a origem grega, considera-se, entretanto, uma outra derivação para o termo, a partir do prefixo ethos, isto é, universo ético co-participado por um grupo ou sociedade. A etnologia é, portanto, o estudo sistemático ou científico de outro universo (cultural) diferente do nosso. Diferentes termos são usados para descrever os campos da antropologia, o que acaba criando uma série de confusões terminológicas e mal-entendidos. De uma maneira geral, nos EUA, o termo Antropologia é usado para designar um amplo conjunto de disciplinas divididas em Antropologia Cultural e Física. A Antropologia Cultural é subdividida em histórica, pré-história ou arqueologia pré-histórica e lingüística. Na Europa Ocidental, é mais comum o uso do termo Antropologia Social, pois a etnologia é a área encarregada da descrição histórica e comparada das culturas. Para os nossos estudos utilizaremos a sistematização proposta pelo antropólogo francês Claude Lévi-Straus em seu livro Antropologia Estrutural II. Em sua proposta, a etnografia é o estágio de pesquisa focado na descrição da alteridade cultural através do registro das observações realizadas no trabalho de campo. Representa o primeiro contato com a diversidade e com a tentativa de registrar os modos de viver e pensar de sociedades não ocidentais. O termo grafia vem do grego graf(o) e significa escrever ou escrito. Antes de se iniciar qualquer tipo de análise ou estudo mais sistemático sobre uma determinada sociedade, sua língua, seus costumes, manifestações religiosas, suas formas particulares de caçar, plantar, casar, criar os filhos e cuidar dos idosos devem ser descritos e registrados. Para o antropólogo norte americano Cliffort Geertz, praticar etnografia não se resume, no entanto, a estabelecer relações, selecionar informantes, transcrever textos, levantar genealogias, mapear campos ou manter um diário de campo. O que define o tipo de esforço intelectual que o estudo etnográfico representa é a perspectiva da elaboração de uma “descrição densa”, ou seja, a mais completa possível sobre o que um grupo particular de pessoas faz e o significado das perspectivas imediatas que eles têm sobre o que eles fazem. Esta descrição deve sempre ser transcrita levando-se em conta a comparação etnológica. O objeto da etnografia é o conjunto de significantes ao redor dos quais os eventos, fatos, ações e contextos são produzidos, percebidos e interpretados, e sem os quais não existiriam como categorial cultural. Etnografia é, antes de mais nada, a escrita do visível e, portanto, depende das qualidades de observação, de sensibilidade ao outro, do conhecimento sobre o contexto estudado, da inteligência e da imaginação científica do etnógrafo. Nesta perspectiva, a etnologia é um prolongamento da pesquisa etnográfica, representa um passo em direção à síntese. Embora não exclua a observação direta, ela tende para conclusões mais amplas e comparativas. Esta síntese pode operar-se em três direções: a) geográfica, quando se pretende integrar conhecimentos relativos a grupos vizinhos; b) histórica, quando se visa reconstituir o passado de uma ou várias populações; c) sistemática, quando se isola determinado tipo de técnica, de costume ou de instituição. Por fim, teríamos a Antropologia como a grande disciplina encarregada de reunir todas as outras disciplinas voltadas à compreensão do homem, como a Etologia, estudo do comportamento animal, particularmente dos primatas superiores; a Arqueologia, estudo dos ancestrais humanos; a Et-nologia, estudo da diversidade cultural do presente; a Sociologia, estudo da organização da sociedade urbana-industrial; a Psicologia, estudo da pisque; a, Economia, estudo das relações de produção e consumo. A Antropologia, nessa perspectiva, seria então a verdadeira Ciência Humana. Na moderna etnologia o interesse não está mais centrado nas sociedades diferentes da nossa ou no outro, mas também em nós mesmos, isto é, interessa-se em analisar qualquer forma de variação existente nogrupo focado. Se em uma sociedade qualquer existe mais de uma maneira de organização ou manifestação em relação à linguagem, comportamento e visão de mundo, a etnologia empregará seus instrumentos para tentar analisá-los e interpretá-los. Portanto, de certo modo, a etnologia acaba por validar as diferenças em detrimento da cultura dominante. Nesse sentido, o esforço da etnologia será sempre o de enfrentar ignorância e o preconceito. Aula: 19 Temática: O que é Cultura? O termo cultura possui inúmeras acepções que são utilizadas para as mais diversas finalidades. Quem não ouviu falar de: cultura erudita, cultura científica, cultura popular ou cultura de massa em um concerto de música instrumental ou em uma roda de samba; diante de uma obra artística ou em uma guerra experienciamos o fenômeno cultural? Na verdade, poucos conceitos têm tantas definições; poucas palavras têm tantos usos, poucos fenômenos têm tantas explicações. Tantas e tão diferentes que correm o risco de se anularem. Como então estudar uma realidade que escapa as nossas tentativas de definição? Por isso, torna-se necessário sistematizar alguns esquemas gerais do conceito de cultura que nos permitam estabelecer categorias de análise para o estudo dos fenômenos culturais. Um primeiro esquema diz respeito aos sentidos de que o conceito de cultura adquire nas diferentes perspectivas disciplinares e que, de certa forma, acabam modelando as demais formulações teóricas a seu respeito. O sentido mais comum é o sentido clássico encontrado nas humanidades que atribui ao conceito a idéia de bom gosto artístico, cultivo estético, erudição “Ter cultura”, de acordo com essa concepção, opõe-se a inculto, isto é, a uma pessoa que não tem cultura. E, nesse sentido, cultura se torna um bem, algo que se acumula. . Existe um sentido antropológico de cultura que a entende como aquilo que se opõe à natureza e engloba tudo o que não pertence ao comportamento inato. É o que precisa ser aprendido e decorre da organização social. Um exemplo clássico de comportamento cultural é a proibição ao incesto em oposição à promiscuidade animal. Como decorrência dessa definição, podemos desdobrar sua abrangência e atribuir aos fenômenos culturais tudo aquilo que tem sentido. O exemplo maior seria linguagem articulada, por meio da qual nomeamos o mundo e lhe atribuímos significados. Por meio da linguagem definimos o que é bonito, feio, certo ou errado etc. Os valores de uma cultura podem não servir para outra. Alimentar-se de insetos pode ser repugnante para algumas sociedades ou expressão desofisticação gastronômica para outras. Esse é o fundamento do Relativismo Cultural que abordaremos mais adiante. A partir desta perspectiva podemos compreender o sentido etnográficode cultura: é tudo aquilo que se opõe ao natural. Regras sociais, normas, crenças e valores, modelos de comportamento e de padrões morais transmitidos pela tradição, pela oralidade ou pela educação. Há também um sentido sociológico mais ligado às expressões artísticas, comunicacionais e psico-afetivas de uma organização social. Nesta perspectiva encontraremos as preocupações de ligar estas manifestações com as estruturas sócio-econômicas subjacentes e com as sua funções normativas. Além disso, nesse sentido, podemos avaliar as dinâmicas de suas potencialidades comunicativas como modo de expressão das características das sociedades complexas. Na próxima aula, estudaremos algumas teorias da cultura. Aula: 20 Temática: Teorias da cultura Consideramos, até agora, alguns dos sentidos mais comuns que se tem atribuído para o termo “cultura”. Na mesma perspectiva generalizante, podemos agrupar as teorias da cultura em três grandes correntes ou paradigmas. Esses paradigmas correspondem às correntes do pensamento social que surgiram com o pensamento moderno no decorrer dos séculos XVII e XIX. Em primeiro lugar está o paradigma conservador ou estrutural. Nesta perspectiva, a cultura é tudo aquilo que se opõe à universalidade dos instintos, à natureza e que torna possível a vida social. Sem cultura o homem não teria conseguido organizar-se coletivamente e, portanto, não teria sobrevivido. O exemplo clássico deste paradigma pode ser encontrado na obra de Sigmund Freud, criador da psicanálise, para quem a cultura é responsável pela imposição de regras repressivas aos instintos mais profundos e vitais do indivíduo, tais como a sexualidade, a sobrevivência e agressividade. Sem tais regras toda vida individual e coletiva seria impossível. E, ainda, de acordo com esse paradigma, tais regras e normas são imperceptíveis ou inconscientes para os indivíduos que agem como se seus padrões de comportamento fossem naturais. Cabe lembrar que o termo “conservador” neste paradigma não tem o mesmo significado daquele que é utilizado para o pensamento político, isto é, reacionário à transformação ou ideólogo de tempos passados. Na teoria da cultura, o pensamento é conservador, porque a cultura tem a função de conservar a vida, de organizá-la e normalizá-la (padrão de normalidade) em um conjunto de regras, instituições e padrões de comportamento compartilhados por um grupo ou sociedade. O paradigma conservador está presente nas correntes funcionalistas e estruturalistas no pensamento etnológico. Outro paradigma do pensamento etnológico é o liberal. Esta perspectiva se funda no princípio da liberdade individual com base na idéia de propriedade privada, entre outras: indivíduo só pode ser livre à medida que pode ser considerado proprietário de seu próprio corpo e de seu próprio destino. Nesta perspectiva, a cultura é entendida como acervo cognitivo e intelectual que cada indivíduo é capaz de adquirir e elaborar ao longo de sua existência que lhe permitirá desvendar o mundo e, a partir daí, agir conscientemente na sociedade. Na moderna sociedade democrática, a idéia de liberdade é, talvez, a utopia mais importante e que necessita de uma compreensão especial de ser humano para se realizar, ou seja, um ser apto e disposto a tomar posse de si próprio, de seu corpo e do conhecimento de sua época e civilização para, dessa forma, conscientemente livre, ser capaz de participar da construção e consolidação do ideal de liberdade.. Qualquer sociedade que almeje viver em liberdade deve, necessariamente, responsabilizar-se pela formação de seus indivíduos, tornando-os capazes de enfrentar toda e qualquer forma de heteronomia e insignificância. De acordo com essa concepção, a tarefa da reflexão intelectual é oferecer à sociedade uma forma especialmente preciosa de conhecimento capaz de acessar a totalidade de seu patrimônio cultural e criar os fluxos de sua disseminação. Assim como no paradigma conservador, nesse paradigma o termo “liberal” guarda correspondências com o termo usado no âmbito político, mas não se confunde com ele. O que é importante registrar neste paradigma é a valorização do indivíduo como agente de interpretação do mundo (do sentido do mundo) e o papel da cultura como instrumento de esclarecimento e, portanto, de liberdade. O terceiro paradigma modelador da Teoria da Cultura é o radical. Nesta perspectiva, cultura é entendida como práxis ou processo dinâmico de elaboração de formas coletivas de viver e de produzir existência material. Suas origens remontam a pensadores do século XVIII que, como Rousseau, viam nas civilizações um irremediável processo de alienação de boa parte da população a partir do estabelecimento da propriedade privada. No momento em que os recursos naturais passaram a ser apropriados por um grupo, criou-se uma ruptura na humanidade. Criaram-se duas categorias de homens que, a partir daquele momento, passaram a se compreender mutuamente como seres diferentes. Nesse sentido, os processos culturais foram se constituindo como estruturas de reprodução dessa situação desigual. Para a formação desse paradigma, teve grande influência o pensamento do filósofo alemão Karl Marx, para quem a história é um processo determinado, em última instância, pelo desenvolvimento das forças produtivas.Numa determinada etapa do processo, as forças produtivas entram em contradição com as relações de produção nas quais elas se desenvolveram. Essa contradição abre uma “época de revolução social na qual os homens tomam consciência da contradição no campo da ideologia e o resolvem através da luta de classes”. Aula: 21 Temática: Historiografia cultural Concomitantemente à construção de novos objetos, a histó-ria cultural, tal como se desenvolveu no quadro de uma renovação historiográfica, a partir da década de 1980, trouxe uma outra prerrogativa fundamental: a de fazer depender a delimitação e a compreensão do objeto da operação historiográfica fazendo emergir as noções de complexidade e multifatorialidade. Falar sobre cultura e história cultural é falar sobre a categoria chave para a compreensão do mundo contemporâneo que envolve até mesmo os níveis políticos e ideológicos. Peter Burke, por exemplo, reconhece a atual dificuldade, até mesmo, em definir os territórios, já que as tradicionais fronteiras de pesquisa foram quebradas. Ninguém defende hoje uma história da cultura que não leve em consideração os entrecruzamentos com a história social. O mesmo pode ser dito em relação ao pressuposto da existência de um “espírito da época” ou quanto à ingênua noção de homogeneidade cultural. A própria noção de cultura alargou-se em direção a outras dimensões e outros territórios. A cultura passou a ser relacionada a uma totalidade histórica antes desprezada: como se formaram os mecanismos de dominação e de exploração entre os homens? Como estes mecanismos se confrontam, difundem e se perpetuam? Assim, os símbolos, as imagens, as mentalidades, as práticas culturais foram consideradas lugares de exercícios de poder, de dominação e de conflitos sociais. Para Elias Thomé Saliba, a nova missão dos historiadores deve ser compreender “como os homens do passado se compreendiam”, como eles constituíam a si mesmos, à sua totalidade e à sua própria história. O passado é um feixe de práticas discursivas, uma sucessão de versões que se sobrepõem numa regressão quase infinita. A própria dimensão cultural ganhou novos contornos. A história cultural pode ser redefinida como um estudo dos processos e práticas por meio das quais se constrói um sentido e se forjam os significantes do mundo social. Com a perda da confiança nas certezas da quantificação, com o abandono dos recortes ditos “clássicos”, sejam geográficos ou temáticos, com o questionamento das noções de “mentalidades”, “cultura popular” etc ou das categorias “classes sociais”, com a desconfiança nos modelos interpretativos estruturalistas, marxistas, demográficos etc, a História Cultural obriga-se hoje, cada vez mais, a buscar novos caminhos. Também consideramos problemático descrever a abordagem da atual história cultural como “antropologia histórica ou história antropológica” pelo simples fato de que a noção de cultura e suas respectivas derivações teóricas envolvem uma diversidade de abordagens tão, ou mais, polêmica entre os historiadores. Os métodos etnográficos da antropologia cultural fundados na interpretação dos elementos culturais, essencialmente como textos ou como atos simbólicos, embalaram o trabalho de muitos historiadores. A extensão da noção de “texto” para todos os objetos e temas da história cultural levou Geetz, um dos antropólogos mais notáveis dessa corrente a falar numa “Nova Filosofia”, que ele definiu como estudo da significação fixada e separada dos processos sociais que a engendraram. Tudo passou a ser visto pela grade da textualização, tudo poderia ser tratado como texto, ou seja, como um conjunto potencialmente significativo. Pretensamente munidos do método da descrição densa, os historiadores acabam por passar ao largo da singularidade dos objetos, produzindo generalidades. Encontro cultural, circularidade entre cultura erudita e popular e processo de cotidianização, apontados por Burke como índices de um ponto de vista novo para seu estudo sobre o renascimento, constituem-se, na verdade, em desafios heurísticos para o historiador da cultura que, atualmente, depara-se com o desafio de realizar a busca empírica dessas pluralidades culturais. O historiador deve se esforçar por superar duas das dificuldades mais comuns dos estudos culturais: sair das prisões interpretativas dos “contextos” econômicos ou sociais ou sócio-culturais que a tudo explicam (ou simplificam) e afinar seu diapasão (e sua sensibilidade) para aquilo que Michel De Certau chamou de “artes de fazer”, ou seja, para uma lógica específica de algumas manifestações “populares” — lógica marcada pela contradição e pela ambigüidade e, não raramente, impermeáveis à lógica racional. A história cultural transformou-se, exatamente, na principal fronteira dos estudos históricos na atualidade, porque não há entradas privilegiadas nem exigências prévias para o estudo das culturas. Resumo - Unidade IV Nesta unidade, vimos que o conceito de cultura ganhou nova importância como instrumento de análise e de compreensão da realidade. Parte dessa importância pode ser atribuída aos avanços dos estudos etnográficos e antropológicos. Vimos também que a Antropologia e a Etnografia mantêm relações interdisciplinares com outras ciências ou áreas do conhecimentos das quais retiram informações e conceitos e para as quais fornecem iguais subsídios e materiais teóricos. Vimos, de modo mais detalhado, como se compõe o objeto de estudo etnográfico e as relações com outras disciplinas, especialmente a História e perpassando o conceito de cultura. Vimos, finalmente, que, no âmbito da produção do conhecimento, as diferentes visões de mundo geram diferentes teorias da cultura pautada em variadas concepões do conceito. Referências Bibliográficas AUGÉ, M. A Guerra dos Sonhos. São Paulo: Papirus, 1998. MORIN, E. O Enigma do Homem. 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.________ . Cultura de massas no século XX. Rio de Janeiro/São Paulo. Forense, 1969 Aula: 22 Temática: Simbolismo O foco principal da abordagem simbólica está nos modos pelos quais as pessoas entendem e interpretam o seu ambiente assim como nas ações e na linguagem dos membros de uma sociedade. Essas interpretações formam um sistema cultural de significados compartilhados, ou seja, de compreensões compartilhadas em diferentes graus entre os membros da mesma comunidade. A etnologia simbólica estuda os símbolos e os processos, como os mitos e os rituais por meio dos quais os homens atribuem significados ao mundo e lhe endereçam as perguntas fundamentais a respeito da existência e da vida social. Dessa maneira, a cultura passa a ser entendida como um complexo sistema de significados, uma teia que orienta as ações humanas oferecendo-lhes sentido. Duas premissas principais orientam essa abordagem. A primeira é que as ações humanas tornam-se compreensíveis quando analisadas como parte de um sistema cultural de significados. A segunda premissa diz respeito à possibilidade de interpretação dos significados na decifração não apenas do universo simbólico de uma cultura, como também de suas atividades materiais que permitem compreender o papel dos símbolos na vida cotidiana de um grupo ou comunidade. A perspectiva simbólica pode ser compreendida como uma reação ao estruturalismo, particularmente na formulação que lhe deu o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss. O foco estruturalista, baseado principalmente na lingüística ,estabelece uma precedência do significante nos processos culturais o que, portanto, retiraria do indivíduo a possibilidade de interferir conscientemente na produção da vida social. Rejeitam também as perspectivas radicais, em especial a marxista, que definem a cultura em termos estritamente observáveis de comportamento e na convicção de que fatores tecnológicos e ambientais são primários e fundantes da ação cultural. A etnologia simbólica, ao contrário, vê a cultura em termos de símbolos e condições mentais e rejeita tanto as determinações históricas do estruturalismo quanto às históricas do marxismo. A historicidadeque lhes interessa é aquela que embebe a existência de cada indivíduo e cada cultura em particular, isto é, como vêem, sentem e pensam o mundo. Aula: 23 Temática: Estruturalismo O paradigma estruturalista tem suas raízes históricas na obra do pensador francês Èmile Durkheim e de seu sobrinho o antropólogo Marcel Mauss. De uma forma geral, estes pensadores dedicam-se a compreender a existência de sistemas culturais responsáveis pela organização e modelação da vida social. O conceito de fato social, desenvolvido por Durkheim, sugere a existência de uma espécie de inteligência coletiva acima dos indivíduos particulares que seria responsável por criar e impor as normas de comportamento socialmente aceitas, assim como as sanções determinadas àqueles que por ventura as ignorassem. São exemplos clássicos de sua visão a divisão social do trabalho e as conseqüentes formas de solidariedade desenvolvidas no interior de cada tipo de sociedade. A partir dessa perspectiva, poderíamos explicar, por exemplo, por que em sociedades não ocidentais, os papeis reservados aos sexos são tão diferentes e tão rigidamente fixados. Em sociedades tribais, os homens plantam e caçam enquanto as mulheres coletam e colhem. Poderíamos tentar explicar essa divisão pela suposta competência orgânica de cada sexo: a fragilidade nas mulheres e a robustez no homem. Para esta perspectiva, a explicação não está na biologia, mas na cultura compreendida como sistema operacional social. A função da divisão sexual do trabalho é, antes de mais nada, organizar a vida coletiva em direção a uma maior eficiência do trabalho social. Qualquer ameaça a essa normatização colocaria em risco toda a vida social do grupo. Por esta razão, as punições aos transgressores devem ser rigorosas. Sua formulação mais sistematizada foi realizada pelo antropólogo francês Claude Lévi-Strauss e pode ser resumida da seguinte forma: em primeiro lugar deve-se compreender que os fenômenos culturais têm a mesma natureza dos fenômenos lingüísticos e, portanto, podem ser estudados com a mesma metodologia. Ambos são ao mesmo tempo universais (todas as sociedades têm linguagem) e singulares (cada uma delas tem linguagem própria) A explicação estruturalista sustenta-se em um tripé conceitual: Em primeiro lugar está a atividade universal do espírito, ou seja, os processos de operacionalização do pensamento humano são os mesmos para todas as culturas, e este processo se dá em forma de oposição binária. (sim/não, cru/cozido, quente/frio, cultura/natureza); Em segundo lugar está o pensamento concreto. Isto significa que não existe diferença entre o pensamento do selvagem e o pensamento do homem moderno. Ambos são pensamentos que seguem as mesmas regras cognitivas e operam da mesma forma. A diferença deve ser procurada no estado deste pensamento, entre o pensamento em estado selvagem (que opera a partir das qualidades sensíveis da natureza – tato, paladar, cores...) e o que permanece em estado domesticado pela educação (que opera através das suas qualidades inteligíveis ou abstratas). Desta forma, o pensamento selvagem, ou concreto, está presente em todas as sociedades. Basta observarmos como as pessoas se comportam nas atividades cotidianas ao resolver problemas imediatos. Por último estaria o pensamento mitológico que, antes de ser uma narrativa pré-religiosa e ignorante do mundo, exibe uma capacidade fabulatória na qual está expressa uma outra forma de construção da realidade, não linear ou temporal. Seria uma espécie de bricolagem, termo que designa o construtor que não tem projeto, que faz aquilo que o material que tem nas mãos lhe oferece, retirando pedaços de objetos, descontextualizando-os para utiliza-los como parte de outro completamente diferente. O discurso mitológico operaria de modo semelhante. Aula: 24 Temática: Cultura e personalidade Os estudos de cultura e personalidade buscam compreender o surgimento e o desenvolvimento de identidades individuais e coletivas em relação ao ambiente sócio-cultural circundante. Por meio do exame de personalidades individuais podem ser feitas correlações mais amplas, assim como generalizações sobre a cultura geral do grupo da qual aqueles indivíduos fazem parte. Esta perspectiva sustenta tanto os exames de caráter nacional como os estudos a respeito dos mecanismos de configuração de personalidade. Em sua origem, os estudos de cultura e personalidade representaram uma tentativa de superar os modelos raciológicos e evolucionistas de cultura que caracterizaram a Antropologia do século XIX. Se durante aquela época o debate se dava entre cultura e biologia (raças humanas) e história (evolução cultural), nesta perspectiva houve uma aproximação com a Psicologia. Entre os principais expoentes dessa corrente podemos citar Ruth Benedict (1887-1948), pois começou sua carreira documentando sociedades nativas norte-americanas que se encontravam em rápido processo de desaparecimento ou deterioração cultural.Em seu trabalho mais conhecido, Padrões de Cultura, ela procurou definir diferentes sociedades, isto é, culturas, em termos de quatro padrões: Apolíneo, Dionisíaco, Paranóico e Megalomaníaco. Assim, representaou os quatro modos de viver ou as quatro configurações culturais possíveis.Benedict cita quatro sociedades como representantes daqueles modelos:os Pueblos do Novo México, as nações indígenas das planícies norteamericanas, os Kwakiutls da Costa Noroeste e o povo Dobu da Nova Guiné. Mas admite que nem todas as culturas se ajustam com perfeição a esses modelos, que, no entanto, podem ser usados como tipologia geral para a compreensão dos padrões de cultura. Outro trabalho seu tornou-se um clássico para a etnologia: O crisântemo e a espada (1946). Neste trabalho procurou revelar o caráter nacional do Japão. Não podemos esquecer de que os EUA acabavam de derrotar o Japão na II Guerra Mundial e de que enfrentavam sérias dificuldades na administração do país e em compreender a sua cultura. Embora jamais tenha visitado pessoalmente o Japão, ela utilizou textos que retratavam a vida japonesa e entrevistas com imigrantes. Este trabalho se tornou modelo para estudos de culturas nacionais centradas no ethos ou padrão moral característico, tons estéticos e emocionais específicos. Aula: 25 Temática: Materialismo O Materialismo, enquanto abordagem para compreensão de sistemas culturais, pode ser definido por três princípioschave, materialismo cultural, evolução cultural e ecologia cultural. Embora existam diferentes vieses de abordagens marxistas, com especificidades particulares, elas têm em comum o fato de conceber a cultura como um sistema composto de três sub-sistemas: tecnológico, sociológico e ideológico, dos quais o primeiro é primordial, pois determina a conformação dos outros dois aspectos de cultura. Há muitas variedades de materialismo dos quais podemos destacar o dialético (Marx), o histórico (White) e o cultural (Harris). Embora possa ser localizado desde os gregos, foi Marx o primeiro a aplicar as idéias materialistas às sociedades humanas de uma maneira antropológica. Para Marx, o modo de produção da vida material determina o caráter geral dos processos sociais, políticos e espirituais da vida. Ele dizia que não é a consciência de homens que determina a sua existência, mas, ao contrário, é a existência que determina a consciência. O aspecto materialista da abordagem marxista se manifesta na ênfase colocada na infra-estrutura como determinante primário dos outros níveis. Em outras palavras, a explicações para mudança e a diversidade cultural serão encontradas na dimensão estrutural da sociedade: a econômica. Utilizando e modificando o materialismo de Marx, Marvin Harris desenvolveu o conceito de materialismo cultural. Tal como Marx e White, Harris também vê a cultura composta em três níveis. A infra-estrutura está composta do modo de produção, ou “a tecnologia e as práticas empregadas para expandir ou limitar produção de subsistência básica” e o modo de reprodução ou “a tecnologia e as práticas empregadas para expandir,limitar e manter tamanho” da população (Harris, 1979:52). Harris acredita que o modo de reprodução também deveria estar inserido no nível da infra-estrutura, porque cada sociedade deve enfrentar culturalmente o problema de reprodução e evitar aumentos ou diminuições destrutivas. A estrutura consistiria em dois âmbitos: a economia doméstica e política, e a superestrutura nos produtos recreativos e estéticos e serviços. Leslie White tornou-se conhecido por ter desenvolvido e refinado o conceito de evolução cultural, fortemente influenciado pela teoria econômica marxista como também pela teoria evolutiva darwiniana. Para White, o aparecimento de uma nova tecnologia provoca mudanças profundas numa sociedade em todas as esferas: psíquica, física e sócio-econômica. Esse fenômeno pode ser observado ao longo de toda a história da humanidade, desde o Homo Erectus até o Homo Sapiens. Foi assim com as civilizações, na passagem da tradição oral para a escrita ou com a invenção da imprensa, a difusão do livro e o surgimento dos jornais, da eletricidade do telégrafo, do telefone, do rádio, da televisão, dos computadores e dos satélites que permitem a comunicação a longas distâncias. Aliás, a evolução das tecnologias nada mais é que evolução do pensar humano num esforço para criar formas de vencer obstáculos, sendo o tempo e o espaço as dificuldades mais prementes a serem vencidas. O Determinismo Tecnológico é, atualmente, a teoria mais popular no que se refere à relação entre tecnologia e sociedade. Ela tenta explicar fenômenos sociais e históricos de acordo com um fator principal que no caso é a tecnologia. O conceito de “determinismo tecnológico” foi criado pelo sociólogo americano Thorstein Veblen (1857-1929) e cultivado e aperfeiçoado por Robert Ezra Park, da Universidade de Chicago. Em 1940, Park declarou que os dispositivos tecnológicos estavam modificando a estrutura e as funções da sociedade. Essa noção serviu de ponto de partida para uma corrente teórica e inovadora em todos os aspectos. Aula: 26 Temática: Pós-Modernismo Costuma-se chamar de pós-moderna a condição sócio-cultural do capitalismo avançado, pós-industrial e financeiro. Embora de uso corrente, este é um termo bastante controverso para o qual existem diferentes concepções e definições dependendo da corrente teórica do autor. Pensadores com Fredric Jamenson e Jürgen Habermas consideram que a pós-modernidade é a lógica cultural do atual estágio do capitalismo, de tendências conservadoras políticas e culturais, que procuram combater os ideais iluministas, principalmente os de esquerda. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman considera a pós-modernidade, que ele prefere chamar de modernidade líquida, como a conseqüência sociológica inevitável da modernidade criadora de uma realidade ambígua e multiforme. Para o francês François Lyotard, a condição pós-moderna é aquela em que as metanarrativas modernas foram desacreditadas, e a “ciência” não mais poderia ser considerada a fonte definitiva da verdade, isto é, uma era em que o saber estaria novamente aberto e em permanente construção. Este modo de entender o pós-modernismo pode estar relacionado à visão de fase histórica. O estado atual da vida social é caracterizado pela descentralização das sociedades com uma mudança da política e ética de “global” para “local”, a “saturação” de psiquês e imaginações por uma exibição impressionante de imagens e escritos descontínuos. Para Lyotard, a época atual é marcada pela rejeição e pelo desaparecimento das “grandes metanarrativas”, como liberalismo e marxismo,. O mundo da ciência se desenvolve ao longo de linhas que consideram o caos, a incerteza e a indeterminação, mais do que com uma visão de estrutura unificada da natureza e dos resultados previsivelmente otimistas (e utilitários) do conhecimento científico. No chamado mundo pós-moderno o indivíduo vagueia entre imagens desconexas de escolhas aleatórias e necessidades imediatas sem perspectiva de futuro. Para autores como Giles Lipovetsky ou Marc Augé, por exemplo, o termo pós-moderno não é correto, porque pressupõe que a modernidade acabou ou foi ultrapassada. Lipovetsky prefere o termo hiper-modernidade caracterizada por uma intensificação das características das sociedades ocidentais modernas, tais como o individualismo, o consumismo, a ética hedonista, a fragmentação do tempo e do espaço. Augé, por sua vez, aposta na supermodernidade caracterizada pelas figuras de excesso: superabundância factual concretizada no aceleramento da história provocado pelo excesso de informações e pela interdependência do “sistemamundo” que cria a necessidade de dar sentido ao presente, diferentemente da perspectiva pós-moderna sobre a perda da inteligibilidade da história em função da derrocada da idéia de progresso; a superabundância espacial constituída pelo encolhimento do mundo por meio da concentração urbana, migrações populacionais e produção de não-lugares: aeroportos, vias expressas, salas de espera, centros comerciais, estações de metrô, campos de refugiados, supermercados etc; e, finalmente, na idéia de indivíduo que se crê o centro do mundo e torna-se referência para interpretar as informações que chegam, o que constitui a terceira figura de excesso. O processo amplo de singularização de pessoas, lugares, bens e pertencimentos faz o contraponto com um processo de mundialização da cultura. Finalmente, alguns autores como Morin, Maturana ou Atlan apostam na total mudança paradigmática e propõem uma teoria da complexidade. A deterioração dos ecossistemas, a diversidade dos problemas de saúde, violência, o crescimento descontrolado das cidades, as mudanças nos sistemas produtivos, são alguns exemplos de situações que demandam novas formas de enfrentamento científico. De uma maneira geral, pode-se dizer que a teoria da complexidade se opõe às teorias científicas da simplicidade, ou seja, àquelas fundadas na proposição cartesiana, segundo as quais é preciso decompor uma realidade em unidades mais simples a fim de entendê-la. O termo complexidade tem raiz na expressão plexus, que significa conexão, entrelaçamento, tecido. Neste sentido, não é mais possível decompor a realidade uma vez que ela é composta por relações sistêmicas. Aula: 27 Temática: População Tradicional e Unidade de Conservação O conceito de “população tradicional” e os direitos desses moradores em áreas de preservação são motivos de divergências entre ambientalistas. Os debates se acentuaram com o reconhecimento oficial dessa população principalmente após a promulgação do Projeto de Lei n. 27, de 1999, que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza, e do decreto 4887 de 20 de novembro de 2003, que regulamentou o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos. Leia a seguir algumas considerações da Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável de Povos e Comunidades Tradicionais A implementação de políticas direcionadas a esses segmentos requer uma definição do conceito de comunidades tradicionais. No campo teórico são várias as tentativas de conceituação, partindo da realidade diferenciada desses grupos frente à sociedade envolvente. Busca-se definir em que ponto exatamente a sociedade envolvente se diferencia de todos os povos e comunidades tradicionais clarificando, assim, quais sinais poderiam servir como diacríticos ou elementos identificadores desse conjunto heterogêneo. Invariavelmente, a questão primordial é o acesso a terra, ou, no caso, ao território. Sabe-se que assegurar o acesso ao território significa manter vivos na memória e nas práticas sociais os sistemas de classificação e de manejo dos recursos, os sistemas produtivos, os modos tradicionais de distribuição e consumo da produção. Isso, além de sua dimensão simbólica: no território estão impressos os acontecimentos ou fatos históricos que mantêm viva a memória do grupo; nele também estão enterrados os ancestrais e encontram-se os sítiossagrados. O território também faz parte da cosmologia do grupo, referendando um modo de vida e uma visão de Texto de 01 de setembro de 2006, consolidado com as contribuições apresentadas pelos membros da comissão para a 2a. Reunião Ordinária da CNPCT de 30, 31 de agosto e 01 de setembro de 2006 – Brasília – DFHomem e de Mundo; ele é apreendido e vivenciado a partir dos sistemas de conhecimento, portanto, encerra também uma dimensão lógica e cognitiva. Além de assegurar a sobrevivência dos povos e comunidades tradicionais, os territórios constituem a base para a produção e a reprodução dos saberes tradicionais. Outro ponto que marca a especificidade dos povos e das comunidades tradicionais são as características do seu processo produtivo. Defende-se que tais segmentos se situam num contexto em que a economia – com uma lógica específica de produção e com noções singulares acerca da “necessidade” - está à mercê das relações sociais, enquanto na sociedade envolvente, de tradição Ocidental e modo de produção capitalista, as relações sociais é que estão subordinadas à economia. A discussão sobre a permanência ou retirada das comunidades tradicionais das áreas de preservação passou a ser parte integrante dos projetos que envolvem essas áreas, como o projeto de ecoturismo na Área de Proteção Ambiental do Rio Curiaú, no Macapá. O território é ocupado por descendentes de quilombolas que têm tido participação ativa nas discussões. Antonio Carlos Diegues, diretor do Núcleo de Pesquisa sobre Populações Humanas e Áreas Úmidas do Brasil (Nupaub) e professor de pós-graduação em ciência ambiental da Universidade de São Paulo, é a favor da preservação e garantia de território para as populações tradicionais: “É injusto e antiético retirar as populações tradicionais de seu local de residência. Além disso, é burrice, porque elas garantem a diversidade e a população não cresce, pois a tendência de migrar para as cidades continua”, afirmou. Para Diegues, ao contrário do que pensavam os defensores da concepção do mundo natural, que tem a sua biodiversidade garantida pela intocabilidade humana, a presença da população indígena foi essencial na manutenção da Amazônia e da Mata Atlântica. “Eles manejavam com cultivo itinerante introduzindo plantas frutíferas que deixavam para trás quando se mudavam. A biodiversidade era humanizada e garantida pelas populações tradicionais e diminuirá se estas populações forem expulsas”, explicou. Segundo Diegues, até meados dos anos 1980, o movimento ambientalista ignorava as populações tradicionais, embora 84% dos parques e áreas protegidas da América Latina tenham população moradora. “Este é um conceito de unidade de conservação importados dos Estados Unidos, e não serve para países do Terceiro Mundo”2ROSSI. Daniel Soeiro. Benchmark Amapá. Caderno Virtual de Turismo. Vol 1, nº 1, 2001. Resumo - Unidade V Nesta unidade, refletimos e apresentamos os diversos sentidos que o conceito de cultura adquire, assim como as implicações teóricas destas definições. Três grandes correntes ou paradigmas sustentam as principais correntes da teoria da cultura, que correspondem, de certo modo, às correntes do pensamento social que surgiram com o pensamento moderno: os paradigmas conservador ou estrutural, liberal e radical. Entre as teorias da cultura estudamos o simbolismo, o estruturalismo, o materialismo, o pós-modernismo e as teorias que enfocam a cultura, a personalidade e a questão da sobrevivência das comunidades tradicionais. Referências Bibliográficas Lévi-Strauss, C. A ciência do concreto In O pensamento selvagem. São Paulo: Papirus,1997/Geertz, Clifford. Uma descrição densa: por uma teoria interpretativa da cultura: Pessoa, tempo e conduta em Bali. In A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978./FREUD, S. Sobre os sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 1978.. O mal-estar da civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1987./LARAIA. R. de B. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Zahar, 1989./BOUDIEU, P. Coisas ditas. São Paulo : Brasiliense, 1990. /MARCEL, M. Esboço de uma teoria geral da magia in Sociologia e Antropologia vol.1, Edusp/Epu, SP. 1974 (p.37 a 53)./CARVALHO, E. Antropologia Econômica. São Paulo: Ciências Humanas Ltda, 1978. Aula: 28 Temática: O Brasil indígena I O uso de um único termo – índios – para denominar a diversidade étnica, cultural e sócio-histórica dos habitantes do território brasileiro na época da chegada dos portugueses já é indicativo de quão pouco sabemos sobre estes povos e culturas. A expressão genérica “índio” tem muito pouco conteúdo, uma vez que muitas tribos diferem tanto umas das outras como diferem os chineses dos brasileiros. A figura do índio no Brasil e o espaço que ele ocupa na sociedade têm sido concebidos de diferentes modos muitas vezes contraditórios ao longo da história. Os “índios” foram percebidos pelo discurso acadêmico de modo “ambivalente”..Ora apresentados por imagens da felicidade pura e verdadeira, de uma humanidade boa e livre em estado de natureza, ainda não deformada pela civilização. Ora por imagens que se contrapõem a estas mostrando culturas atrasadas, mergulhadas na ignorância e incapazes, portanto, de participar plenamente de um estado superior de sociedade. Somente a partir da segunda metade do século XX começou a haver uma idéia da dimensão cultural, social, econômica e tecnológica dessas culturas e de sua importância na formação da sociedade brasileira. Esse momento se caracterizou pela perspectiva de uma sociedade em rá- pida expansão para os territórios indígenas a oeste. Os estudos efetuados junto a sociedades indígenas foram, nesta época, análises de culturas em transição, e em que o principal fator de mudança derivava de uma situação de contato com as populações rurais brasileiras. Diante desta realidade, o objetivo da Antropologia não poderia se resumir apenas à descrição das culturas indígenas que iam sendo encontradas no caminho, mas sim o de desvendar a dinâmica e o funcionamento dos processos de mudança cultural. Surgiram, então, estudos que revelavam um universo muito mais complexo que o registrado em nossa história. Os índios brasileiros formavam um conjunto de nações, algumas com as dimensões e com a população equivalente a dos países europeus da época, com costumes, língua e hábitos tão variados como os encontrados nesses países. Apesar de secularmente perseguidos, caçados como animais selvagens, mortos ou escravizados e de muitos deles terem se modificado radicalmente nestes séculos pelo convívio e mestiçagem com a gente brasileira, os indígenas não desapareceram totalmente. Algumas tribos mantêm alguns costumes, tradições e, sobretudo, identidade. Essa percepção tem sido enfatizada por mudanças recentes na sociedade brasileira expressas especialmente na Constituição de 1988 que assegurou aos povos indígenas o direito às terras e à diferença cultural. O grande crescimento populacional indígena observado nos últimos anos, incluiu o reconhecimento de etnias tidas como desaparecidas e o fortalecimento da identidade que fez com que muitos indivíduos se reconhecessem como “índios”, em vez de “brancos” ou “ negros”. A idéia da “sócio-diversidade nativa” propõe a valorização das populações indígenas como parte integrante da sociedade nacional que passa a ser concebida não mais como uma comunidade culturalmente homogênea nem mestiça, mas pluri-étnica. Aula: 29 Temática: O Brasil indígena II Projeções feitas pelo lingüista Aryon Dall’Igna Rodrigues (1987) indicam que na época do descobrimento havia cerca de 1.300 línguas indígenas diferentes, muitas das quais desapareceram sem que tivéssemos oportunidade de registrá-las. Embora bastante diversificadas entre si, existem semelhanças que permitem a classificação de algumas dessas línguas em troncos e famílias lingüísticas. Com base nestas semelhanças, as línguas indígenas brasileiras foram classificadas em dois grandes troncos lingüísticos: o Tupi e o Macro-Jê ;e em várias famílias lingüísticasnão-classificadas em troncos, como Karib, Pano, Maku, Yanoama, Mura, Tukano, Katukina, Txapakura, Nambikwara e Guaikuru. Outras línguas não puderam ser classificadas dentro de nenhuma família e foram classificadas como isoladas, tais como a língua falada pelos Tükúna, a língua dos Trumái, a dos Irântxe etc. A importância do estudo lingüístico deve-se ao fato de ser a língua um dos mais evidentes indicadores de unidade cultural, fundamenta áreas culturais e contribui para a compreensão do mundo indígena brasileiro uma vez que a intensa movimentação destes povos, antes e após a colonização portuguesa, favoreceu a diluição de possíveis fronteiras ‘geográfico-culturais’, conforme Rodrigues (1987) Povos de língua tupi Segundo Diegues e Arruda, a língua indígena mais conhecida e a que teve mais palavras incorporadas ao idioma brasileiro foi o tupinambá, que hoje nomeia lugares, acidentes geográficos e objetos até em regiões onde esses índios nunca viveram.. De uma amostra de 1.000 nomes populares de aves brasileiras, 350 são nomes tupinambá e entre quinhentos nomes populares de peixes, cerca da metade é da mesma origem Os tupis acabaram sendo os índios brasileiros mais conhecidos, porque foram os primeiros a entrar em contato com os europeus. Pela mesma razão, foram também a população que mais violentamente sofreu as conseqüências do contato. De todas as tribos Tupis existentes no litoral na época da chegada dos europeus, restaram no final do século XX apenas algumas tribos pequenas em locais esparsos. Além delas, sobreviveram alguns grupos Guarani, sobretudo na bacia do Paraná e em pontos isolados do país. É de se supor que, à época do descobrimento, as populações tupis estavam fechando um movimento migratório que envolveu o Planalto Brasileiro numa espécie de anel, habitando as matas que cobriam os vales dos grandes rios e também o litoral. Viviam desde a costa do Amazonas e ocupavam toda a costa brasileira, com poucas interrupções, até o Paraguai e o Rio da Prata, subiam pelo Paraguai acima e pelo Guaporé acima até o Amazonas, novamente. Era uma massa imensa de povos, falando línguas de um mesmo tronco, em grande parte compreensíveis umas às outras, mas eram povos, entretanto, incapazes de se unificar, de acordo com a instância histórica em que viviam. Entre as tribos Tupi mais conhecidas estão os Tupinambá, Guarani, Cintas-larga e Gaviões. Povos de línguas Jê As línguas do tronco Macro-Jê, estão espalhadas desde o sul do Maranhão e do Pará passando pelos Estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Os povos do tronco Macro-Jê, em especial os da família Jê, têm difusão mais limitada que os Tupi, habitando, com freqüência, o cerrado, ainda que explorassem intensamente as florestas próximas. Ao todo, já foram catalogadas doze famílias e cerca de quarenta línguas Jê. As tribos mais conhecidas são os Bororo, Xavante, Carajá, Pataxó, Caiapó e Canela. Os estudos sobre hábitos e costumes dos Jê só começaram a ser realizados no século XX, mas ainda não foram disseminados no imaginário popular dominado pelas imagens oriundas da cultura tupi. As línguas Karib As tribos que falam línguas Karib concentram-se, sobretudo, na região setentrional da América do Sul. No Brasil, há alguns grupos no Amapá, Roraima, norte do Amazonas e Pará e em áreas isoladas do Mato Grosso. Até hoje foram identificadas 21 línguas desse tronco, e as tribos mais conhecidas são os Kalapálo, Kuikuru e Waimiri- Atroari Área de línguas Arúak Constituída por cerca de duas dezenas de línguas, a família lingüística Arúak congrega falantes na região oeste do país e no extremo norte da Amazônia. Essa família lingüística foi identificada apenas no início do sé-culo atual. Entre as tribos mais conhecidas que falam as línguas desse tronco estão os Terena (no Amazonas), os Parecis (no Mato Grosso), Yawalapiti e Waurá. Diegues, Antonio Carlos. Arruda, Rinaldo S.V. (Orgs.). Saberes tradicionais e biodiversidade no Brasil - Brasília: Ministério do Meio Ambiente; São Paulo: USP, 2001. Aula: 30 Temática: O Brasil Afro O quilombo constituiu questão relevante desde os primeiros focos de resistência dos africanos ao escravismo colonial, reapareceu com a Frente Negra Brasileira (1930/40) e retornou à cena política na década de 1980, durante a redemocratização do país. Falar dos quilombos e dos quilombolas no cenário político atual é, portanto, falar de uma luta política e, conseqüentemente, uma reflexão científica em processo de construção. Embora pareça pertinente igualar a questão das terras de quilombos às terras indígenas, ambas são semelhantes apenas quanto aos desafios e embates já visíveis no plano conceitual e no plano normativo. Não por acaso há esta relação emblemática entre as lutas indígenas pela demarcação de terras e a dos afrodescendentes pela titulação das áreas que ocupam (ARRUTI, 1977), em alguns casos, há mais de um século. O traçado da fronteira étnico-cultural no interior do Brasil esteve sempre marcado pela preservação do território invadido e ocupado no processo colonial e por inúmeros conflitos de terra que remontam aos dias atuais. Nesse sentido, é possível falar de uma antropologia das sociedades indígenas que enfocou, durante todo o último século, como tema de reflexão a autonomia cultural destes povos e a sua luta pela demarcação das terras. Nos últimos vinte anos, os descendentes de africanos, organizados em Associações Quilombolas, reivindicam o direito à permanência e ao reconhecimento legal de posse das terras ocupadas e cultivadas para moradia e sustento, bem como o livre exercício de suas práticas, crenças e valores considerados em sua especificidade. Em diversas situações, índios e negros lutaram contra os variados procedimentos de expropriação de seus corpos, bens e direitos. Os negros, diferentemente dos índios, enfrentaram muitos questionamentos sobre a legitimidade de apropriarem-se de um lugar cujo espaço pudesse ser organizado conforme suas condições, valores e práticas culturais. A repressão policial aos terreiros de Candomblé e aos bairros periféricos por eles habitados constitui exemplos recentemente discutidos pela História e pela Sociologia Política. A exclusão se deu principalmente em função das práticas sociais que prefiguram o quadro de mobilidade do que propriamente no imaginário social da nação. A primeira Lei de Terras, datada de 1850, exclui os africanos e seus descendentes da categoria de brasileiros, situando-os numa outra categoria separada denominada “libertos”. Desde então atingidos por todos os tipos de arbitrariedades, os afro-descendentes foram sistematicamente expulsos ou removidos dos lugares que escolheram para viver, mesmo quando a terra chegou a ser comprada ou foi herdada de antigos senhores por meio de testamento lavrado em cartório. O quilombo, então, na atualidade, significa um direito a ser reconhecido e não propriamente apenas um passado a ser rememorado. Inaugura uma espécie de demanda na política nacional: afrodescendentes, partidos políticos, cientistas e militantes são chamados para definir o que vem a ser a área remanescente de quilombo e quem são os quilombolas e seus descendentes. A partir da Constituição Federal, promulgada em 1988, o Artigo 68 das Disposições Transitórias prevê o reconhecimento da propriedade das terras dos remanescentes das comunidades dos quilombos. O debate ganhou o cenário político nacional. Por trás de algumas evidências, pistas e provas surgem novos sujeitos, territórios, ações e políticas de reconhecimento. Delineiam-se desde então novas questões de identidade que perpassam as lutas por cidadania e sua versão, trágica e festiva: a folclorização. Aula: 31 Temática: Cultura e meio ambiente Na década de 1970, a ONU realizou várias conferências internacionais centradas nas questões ambientais. As teses defendidas em Estocolmo (1972), Belgrado e Tblisi (1977), entre outras, conhecidas como Relatório Meadows, defendiam a paralização imediata e total do crescimentoeconômico mundial como único meio capaz de evitar uma catástrofe ambiental generalizada que se fazia antever como resultado do modelo de desenvolvimento “a qualquer custo”. Embora o diagnóstico estivesse essencialmente correto, a proposta de crescimento zero era inadmissível tanto para os países industrializados, e, portanto, para as grandes corporações transnacionais cujo único interesse era a preservação de sua taxa de lucros como para os países em desenvolvimento ou mesmo para os subdesenvolvidos. As delegações do Terceiro Mundo defendiam o direito de percorrer mesma a trajetória de desenvolvimento econômico já trilhada pelos países do mundo industrializado. Sem crescimento, como poderiam superar o atraso e a miséria? Nesta perspectiva, era uma proposta no mínimo injusta daqueles que só lembravam da natureza depois de tê-la destruído. Para os países em desenvolvimento, a proposta do chamado Primeiro Mundo significava o congelamento da desigualdade. No entanto, iam se tornando cada vez mais evidentes as conseqüências do desenvolvimento econômico mundial desnudado não apenas pela poluição industrial, mas também pelo crescimento da miséria e pela irracionalidade da violência que pode ser vista em conflitos como o do Vietnã e Biafra, por exemplo Começou a ruir a “mitoideologia global de que as sociedades hiperindustriais conduziriam ao bem-estar generalizado . Na década de 1980, o enfoque se deslocou para a sustentabilidade da atividade humana. O problema ambiental não estaria no desenvolvimento em si, mas no modelo de desenvolvimento (crescimento econômico) incapaz de satisfazer “as necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras satisfazerem as suas”�O relatório de Brudtland procurou sintetizar o que seria, afinal, o desenvolvimento sustentável enquanto conciliação entre as teses de crescimento zero e a dos desenvolvimentistas da década anterior. Os modelos atuais de desenvolvimento foram considerados inviáveis, uma vez que seguem padrões de crescimento econômico insustentáveis (biológica, econômica e socialmente) a longo prazo. Introduziu-se no debate uma dimensão ético-política. Desenvolvimento pressupõe movimento e, portanto, um processo de mudança social e cultural. Por outro lado, a sustentabilidade não pode ser pensada ou avaliada somente em termos “ambientais”. Desenvolvimento sustentável seria, assim, uma espécie de correção de rumo, “uma retomada do crescimento a fim de torná-lo menos intensivo” no consumo de matérias-primas e mais eqüitativo para todos. Bastaria, para tanto, o desenvolvimento e a implantação de políticas públicas e industriais de ajuste baseadas nas chamadas “tecnologias doces” e na inversão do fluxo financeiro via compensação e “ajuda” dos países ricos para os mais pobres. No âmbito da sociedade civil, o movimento ambientalista surgiu como manifesto pela sobrevivência de animais e ecossistemas ameaçados pela ação destruidora do homem moderno. Enquanto movimento social, o discurso ecológico contemporâneo se insere numa crítica mais ampla ao modelo civilizatório da sociedade tecnoindustrial. O processo de destruição ambiental está intrinsecamente ligado à natureza da civilização, processo sócio-histórico no qual, conforme Lévi-Strauss ressaltou: “O Homem se considera Senhor da Natureza, faz com ela o que bem entender..”� Nesse sentido, existe um laço de identidade entre os diversos movimentos sócio-político-culturais contemporâneos. Todos têm como base a crítica a um desenvolvimento civilizacional que não trouxe o equivalente desenvolvimento para o homem nem representou as possibilidades de superação dos seus pesadelos (guerras, violência, alienações...). Pelo contrário, na verdade, apenas os potencializou e instrumentalizou..As lutas pela conservação da natureza, assim como pelos direitos humanos e das minorias ou por melhores condições de trabalho e de vida, não se colocam como movimentos contra o desenvolvimento ou contra o progresso, mas contra um certo desenvolvimento e um certo progresso e contra um modelo de sociedade que produz cada vez mais miséria e destruição. É preciso transformar radicalmente os padrões de produção e consumo da sociedade tecno-industrial ao mesmo tempo em que devemos erradicar a miséria a fim de diminuir exclusões e desigualdades sociais. O meio ambiente não é apenas mais uma variável a ser incorporada às planilhas de custos ou aos “isocertificados” industriais. Não é apenas mais uma disciplina a qual se possa delegar o desvendamento da verdade científica. Reverter o processo de “agonia planetária” pressupõe a construção de uma nova ética, uma nova postura do homem diante da natureza e, portanto, de si mesmo. A partir de então devemos formular alternativas e apontar caminhos que imaginem formas outras de sociabilidade e desenvolvimento. O debate ambiental é, antes de mais nada, a luta pela garantia ao direito a outras formas de vida, bem como de ecossistemas, animais, homens e idéias. O debate deve, ainda, inserir-se nas questões contemporâneas não como um retorno a um passado imaginado, mas renovado diante desta perspectiva e projetado para o amanhã. Procuramos atualmente por novos modelos de “desenvolvimento” baseados em tecnologias menos agressivas, em modelos societários menos agressivos e em uma visão renovada da natureza como única forma de afastar as ameaças de destruição que pairam sobre a vida no planeta. Sem a compreensão também renovada da cultura e dos ensinamentos que ela pode nos oferecer, este desafio será, sem dúvida, intransponível para a racionalidade pragmática. Aula: 32 Temática: Multiculturalismo e identidade Nacional O multiculturalismo pode ser compreendido como um sintoma de transformações sociais ocorridas no mundo após a Segunda Guerra Mundial. Pode ser visto também como uma ideologia de uma sociedade mais justa e igualitária no respeito às diferenças. Conseqüência de múltiplas misturas raciais e culturais provocadas pelo incremento das migrações em escala planetária, pelo desenvolvimento dos estudos antropológicos, do próprio direito e da lingüística, além das outras ciências sociais e humanas, o multiculturalismo é, antes de tudo, um questionamento de fronteiras de todo o tipo, principalmente da monoculturalidade e do conceito de nação nela baseado. O multiculturalismo é hoje um fenômeno mundial. Costuma, porém, ser considerado um fenômeno típico dos países desenvolvidos, porque estes países têm especificidades que são favoráveis à sua eclosão. Essa especificidade é “histórica, demográfica e institucional”. Enquanto ideal de sociedade, este fenômeno surgiu em alguns países europeus, que há muito tempo estão tentando lidar com as diferenças étnicas, raciais e culturais, a partir de um conjunto de medidas públicas. Esses países receberam uma forte imigração, sobretudo a partir do segundo pósguerra, formando as assim chamadas sociedades multiculturais nas quais existe uma relação entre discursos, leis e práticas multiculturais. Segundo Lívio Sansone, nas bases do multiculturalismo nesses países encontram-se três fontes clássicas. Pacto social: É o compromisso do Estado e de parte das elites de cuidar dos excluídos e dos pobres. Nesse sentido, os pobres são pensados como passíveis de medidas legislativas particulares que visam sua incorporação às camadas médias da sociedade. Passado Colonial: Pode-se falar de diferentes estilos de colonialismo: a) o sistema britânico do indirect rule, ou governo indireto; b) o sistema das sociedades plurais como, por exemplo, a do Império holandês, que se baseia na existência de um direito étnico. Assim, no Suriname, até os anos 1930, o direito civil e, em alguns casos, o penal variavam segundo o grupo étnico. Um sistema não muito diferente valia na África do Sul sob o regime do apartheid, não por acaso, uma palavra holandesa; e c) no extremo oposto, existia a versão do colonialismo do Império francês, que era baseada na noção de francité, de universalismo, e na atratividade de uma ocidentalização possível para uma parcela dapopulação “nativa”. Todos esses estilos de colonialismo previam a institucionalização de algum tipo de etnicidade dos direitos e deveres, embora muitas vezes associados a um discurso de igualdade e de respeito à diferença. De qualquer forma, os três estilos levaram a hábitos étnicos e culturais e a consensos que se mostraram tenazes e capazes de influenciar bastante a época pós-colonial. Nos últimos anos, porém, esses sistemas estão sendo colocados em discussão pelo contexto de internacionalização que altera a relação entre colônia e metrópole a partir das grandes migrações e da globalização das culturas. Nas últimas duas ou três décadas, a colônia passou a ir à metrópole e, ao mesmo tempo, a metrópole permaneceu na colônia enraizando-se nela ainda mais. Nunca se falou tanto a língua holandesa no Suriname ou a francesa no Mali como hoje em dia. Regionalismo: Diz respeito às formas de lidar com as diferenças étnicas e regionais internas desses países europeus. Trata-se do dito “regionalismo” de alguns países que se afirmam como Estados-nação na Europa a partir de um compromisso com as diferenças culturais regionalizadas, redistribuindo recursos e poder político para minorias e “colônias” internas. Refiro-me aos catalães, bascos, bretões, gauleses, sardos, corsos etc. É evidente que nem todos os países da Europa são atingidos da mesma forma por esses três fenômenos: pacto social, passado colonial e regionalismo. Um determinado país pode dar prova de generosidade e tolerância com relação ao pacto social, mas não ao regionalismo e vice-versa. O Conselho da Europa, num esforço de pragmatismo e postura ecumênica, optou por dividir, de outra forma, os países europeus com relação à multiculturalidade salientando a variedade. Por um lado, haveria os países onde a nacionalidade seria vista como o começo da integração, como a França. Por outro lado, haveria países, como a Alemanha, em que a nacionalidade seria vista como o resultado final do processo de integração. Na Alemanha, Suíça e França, haveria maior ênfase com relação à cidadania, enquanto na Holanda, Suécia, Noruega e Dinamarca a ênfase estaria no pluralismo cultural. A Inglaterra é um caso a parte, pois a ênfase não é no pluralismo cultural, mas na luta contra o racismo. Nesse sentido, a Inglaterra é o único país europeu em que as agências governamentais falam de relações raciais em lugar de relações interétnicas. De qualquer forma, em todos esses países a diversidade étnica, resultado da imigração, apresentou-se como um choque, porque colocou em discussão o pacto social. Nesse sentido, a imigração em massa tem tido um efeito quase revolucionário sobre a realidade social dos países em questão. Os estudos sobre a situação nos Estados Unidos mostram um descompasso entre os discursos e as práticas, o risco de se utilizarem as bandeiras multiculturalistas como forma de segregação. O multiculturalismo, assim, torna-se paliativo. Isso é compreensível, sobretudo, no quadro histórico em que se deu, desde o século passado, o tratamento da imigração nesse país através do chamado melting pot de alguns povos e do desmantelamento das identidades de outros considerados inassimiláveis. Outros países que não têm, necessariamente, as mesmas condições que os Estados Unidos, ou seja, a existência de instituições democráticas, de uma economia pós-industrial em via de globalização e de forte entrada de imigrantes, também apresentam esse fenômeno. Entre eles encontram-se Canadá, Austrália, México e Brasil especialmente devido à presença de “minorias nacionais autóctones”, por longo tempo, discriminadas. Não podemos esquecer de que na América Latina, as nações não são homogêneas e a modernidade não é linear, mas elas são palco de múltiplas temporalidades. A identidade é fator enriquecedor. O múltiplo e, cada vez mais múltiplo, pertencimento dos indivíduos representado pelas ambivalências e identidades ambíguas que se combinam como a identidade continental, nacional, regional, local, de idade, de gênero, étnica, profissional e de classe. A diversidade cultural e étnica é vista como desafio para a identidade da nação, mas também como fator de enriquecimento e abertura de novas e múltiplas possibilidades. Reconhecer o peso das identidades culturais ou étnicas não significa esquecer o apartheid econômico que compõe a triste realidade cotidiana. Persistem inúmeros obstáculos entre a integração formal dos negros, dos latino-americanos e dos índios das mulheres, dos homossexuais e outros grupos sistematicamente discriminados na sociedade do bem-estar, da democracia e da integração real. O alargamento da base social com a assimilação dos antes considerados “inassimiláveis” provoca uma reconfiguração do quadro econômico e social do país. A partir dos anos 80, assistimos a um movimento de fortalecimento de identidades étnicas como aglutinadores de movimentos sociais reivindicatórios. O MST, o levante indígena de janeiro de 2000 no Equador, o Exército Zapatista de Libertação nacional de Chiapas e a eleição de Evo Morales na Bolívia são alguns indicadores de tentativas de transformação social e signos de uma nova racionalidade que se constrói na América Latina e que procura fazer frente a questões como igualdade, dignidade e respeito à diferença. Resumo - Unidade VI Nesta unidade, estudamos as contribuições da arqueologia, da etnologia e da antropologia para a compreensão das sociedades indígenas pré-coloniais e atuais. Discutimos também as questões relativas a sua integração. Estudamos, ainda, as contribuições dessas disciplinas para o aumento da compreensão da questão da integração dos afro-descendentes na cultura brasileira. Estudamos, finalmente, as principais conseqüências de múltiplas misturas raciais e culturais provocadas pelo incremento das migrações em escala planetária no desenvolvimento das ciências sociais e humanas. Em especial, estudamos o multiculturalismo que é, antes de qualquer coisa, um questionamento de fronteiras de todo o tipo, principalmente da monoculturalidade e, com esta, de um conceito de nação nela baseado. Referências Bibliográficas BALANDIER, G. A Desordem – Elogio do Movimento. São Paulo: Bertrand Brasil, 1997. _____ . Para entender a modernidade in O Contorno. Poder e Modernidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997. RIBEIRO, D. Os índios e a civilização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970.