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1 BC - BASE DE CONHECIMENTOS TUTORIA A Base de Conhecimentos (BC) da Tutoria foi criada para oferecer uma formação teórica e metodológica para quem irá contribuir com sua implementação na escola. Com exemplos, casos e convites à reflexão, ela irá ajudá-lo a se apropriar dessa prática pedagógica tão importante para as escolas do Programa Ensino Integral (PEI) e, assim, realizar uma Tutoria de excelência. Aproveite essa oportunidade de formação! Introdução da BC - Base de Conhecimento Durante a sua adolescência, você recebeu algum tipo de apoio para analisar seus comportamentos, buscando desenvolver suas habilidades e construir um projeto de vida? Se sim, o que essa experiência lhe ensinou? Se não, como você acha que teria sido essa etapa da sua vida se tivesse recebido esse tipo de apoio? Vamos começar! Pesquisas contemporâneas revelam que adolescentes que recebem o apoio dos adultos durante essa fase da vida, apresentam melhores resultados em relação à saúde mental, bem- estar psicológico, desempenho acadêmico, maiores chances de conquistar seus objetivos e de desenvolver a resiliência necessária para se adaptar às circunstâncias da vida. Se apoiá-los parece ser tão benéfico, por que ainda não temos uma cultura de Tutoria bem estabelecida em todas as instituições de ensino? Para entender essa questão, faremos um mergulho nas nossas crenças. Quais crenças você tem sobre a adolescência e os adolescentes? Para refletir... Você já parou para pensar que as nossas crenças são responsáveis, em grande medida, pela forma como nos sentimos e agimos? Veja, se você acredita que a adolescência é uma fase turbulenta e que os adolescentes não querem nada da vida, é muito provável que a Tutoria seja entendida por você como uma missão impossível, uma causa perdida. E que, por isso, você não se sinta encorajado nem motivado a realizá-la. Agora, se você acredita que a adolescência é uma fase de muito potencial exploratório e que os adolescentes são capazes de fazer escolhas e criar coisas incríveis e surpreendentes, a Tutoria será uma prática que irá lhe motivar e lhe trazer muita satisfação. Se você faz parte do primeiro grupo, seria muito interessante que pudesse se aproximar dos adolescentes, ouvir suas histórias, seus dilemas, suas conquistas e seus sonhos para o futuro. Se permita ser afetado por seus relatos, pois eles podem lhe oferecer experiências potentes de transformação de crenças. Aproveite e leia o relato a seguir. BC - BASE DE CONHECIMENTOS TUTORIA 2 Após esse relato, podemos partir de um ponto comum: a crença de que os adolescentes são capazes de aprender e de se inserir de forma saudável e positiva na sociedade, certo? Mas não é apenas a crença sobre os adolescentes que irá impactar o processo de Tutoria. Um caso perdido? Todo professor e toda escola já conheceu, em algum momento de sua trajetória, um adolescente considerado “um caso perdido”. Agora, imagine uma política pública educacional que decidisse reunir todos esses estudantes em uma escola criada para eles, com o objetivo de virar esse jogo! Foi isso o que a região da Catalunha, na Espanha, fez: criou as Unidades de Ensino Compartilhadas, que funcionam no contraturno para compartilhar a responsabilidade da formação desses jovens com as escolas regulares. O que eles fazem de diferente? Confiam nesses estudantes. Confiam tanto que lhes atribuem a tarefa de escutar os desejos da comunidade escolar e do entorno e atendê-los, enquanto desenvolvem as competências curriculares. Alguns exemplos: Cozinhas para a educação infantil: as crianças da educação infantil tinham poucos brinquedos na escola e pediram aos adolescentes para lhes fazerem “cozinhinhas” de madeira. As aulas de trigonometria foram o alicerce para a construção dos móveis pensados exclusivamente para as crianças, que claro, amaram os presentes! Andar de bicicleta: as pessoas com deficiência de uma instituição localizada no bairro da escola queriam aprender a andar de bicicleta. No parque do bairro, os adolescentes lhes ensinaram sobre frequência cardíaca, consciência corporal, regras de trânsito e claro, cada um deles ensinou alguém a andar de bicicleta. Uma bela conquista!Você consegue imaginar quais são os resultados das Unidades de Ensino Compartilhadas? Você consegue imaginar quais são os resultados das Unidades de Ensino Compartilhadas? Adolescentes que eram vistos pela comunidade como “casos perdidos” passam a ser vistos como responsáveis, confiáveis, competentes e talentosos. A mudança da visão que os outros têm sobre eles, muda a percepção que têm de si mesmos. Antes, se viam como pouco inteligentes e pouco capazes e se sentiam excluídos e fracassados. Depois, se viam como capazes, merecedores, reconhecidos e incluídos. Essa é a prova de que as crenças que os educadores têm sobre os estudantes são cruciais para uma escolarização exitosa. Então, que tal avaliar suas crenças sobre os adolescentes e se abrir para a possibilidade de torna-las mais positivas? sobre os adolescentes e se abrir para a possibilidade de torna-las mais positivas? BC - BASE DE CONHECIMENTOS TUTORIA 3 As crenças que temos sobre nós mesmos e a capacidade de ajudar os adolescentes, também interferem no processo de Tutoria. Veja, se você acredita que não tomou boas decisões em sua vida e que não é capaz de fazer isso, ou que não possui jeito para lidar com adolescentes, provavelmente você não conseguirá ser um tutor que confia em si mesmo e em sua capacidade de orientar a vida de alguém mais jovem que você. Agora, se você crê que toma as decisões possíveis diante das oportunidades e desafios da vida e que tem condições de acolher e orientar os adolescentes para que eles analisem seus comportamentos e tomem atitudes que irão lhes ajudar a construir um percurso formativo consistente e coerente com seus objetivos, a Tutoria tenderá a fluir com naturalidade. Talvez você ainda não se sinta plenamente seguro e confiante, e é exatamente por isso que estamos realizando essa formação. Sabemos que ser professor é diferente de ser tutor e que por isso, você precisará desenvolver as competências específicas para essa atividade. Com o estudo e a prática você irá construir uma nova identidade: a de tutor, e isso poderá ampliar a percepção que você tem de si mesmo e do seu papel no mundo, fortalecendo seu senso de pertencimento, reconhecimento e responsabilidade. Se você chegou na Base de Conhecimento da Tutoria, já sabe que ela é uma prática pedagógica baseada na relação entre um estudante e seu tutor, que o acolhe, escuta, orienta, acompanha e o desenvolve. Mas você sabe o significado de cada uma dessas ações? E você, acredita que é capaz de orientar os adolescentes em seu percurso escolar, visando a construção do seu futuro? Para refletir... Para melhor aproveitar essa leitura, sugerimos que reserve 30 minutos em sua agenda em um local tranquilo. Anotações são muito bem-vindas, pois exigem um nível mais avançado de reflexão e produzem um aprendizado mais eficiente (você sabe!). Por fim, mas não menos importante: aproveite sua formação! Vamos lá? é criar um clima de integração e proximidade, no primeiro e em todos os demais momentos de contato. Acolher BC - BASE DE CONHECIMENTOS TUTORIA 4 Chame o estudante pelo nome, desde o primeiro dia. Deseje que ele tenha um bom dia. Cumprimente o estudante, com bom humor e usando palavras amigáveis. Faça perguntas para captar o estado emocional do estudante. Ofereça um copo de água e uma cadeira, demonstrando que se preocupa com o bem-estar do estudante. Seja gentil, oferecendo um sorriso, um olhar carinhoso, um aperto de mãos, entre outros gestos de cuidado e apoio. Parabenize o estudante pelos bons resultados e acolha seus sentimentos em relação aos resultados menos positivos. Demonstre que você confia no estudante e na sua capacidade, dizendo isso explicitamente para ele. É assim que se faz! Olhe em seus olhos e não faça nada além de prestar atençãono que ele diz. Pergunte como o estudante está e permita que ele responda livremente, demonstrando atenção e legitimando seus sentimentos. Verifique se o estudante quer começar contando alguma coisa, antes de iniciar perguntas. Ao fazer perguntas, cuide para não o intimidar, de modo que ele não sinta que deveria ter sempre respostas prontas. Pergunte sobre temas que o ajudem a conhecê-lo melhor: seus interesses, sonhos, desafios, vida escolar, vida familiar, sentimentos etc. Se desejar anotar algo, peça licença para isso, explicando que é uma informação importante que você gostaria de registrar para retomar em outros momentos. É assim que se faz! é ouvir com atenção e empatia, sem julgamentos. Escutar BC - BASE DE CONHECIMENTOS TUTORIA 5 é construir de modo colaborativo um percurso de metas a serem atingidas e formas de fazer isso. Orientar Analisem juntos o desempenho acadêmico do estudante e seus comportamentos na vida pessoal e escolar, entendendo o que deve ser mantido e o que precisa ser mudado. Estabeleçam uma ordem de prioridades para o que precisa mudado. Estabeleçam metas de curto, médio e longo prazo para o que precisa ser mudado. Dê exemplos e/ou pesquisem de formas de mudar comportamentos e melhorar o desempenho acadêmico e escolham juntos as que serão inicialmente. É assim que se faz! Mantenha o estudante ciente de que você irá observá-lo e buscar informações com outras pessoas sobre seu comportamento e que isso tem a finalidade de ajudá-lo, não de controlá-lo. Lembre-o que o maior interessado em seguir o plano feito na Tutoria é ele. Observe nos encontros de Tutoria, mas também nos demais espaços escolares, se o comportamento do estudante está coerente com o que planejaram. Converse com os professores e familiares que possam lhe dar informações sobre as ações do estudante após o início da Tutoria. Registre nos documentos da Tutoria, informações que o ajudem a elogiar e incentivar o estudante, assim como pontos de melhoria sobre os quais será preciso conversar. Ao comunicar observações negativas, não demonstre decepção ou faça qualquer tipo de punição. Pelo contrário, acolha o estudante perguntando por que ele acha que está agindo dessa forma, e retorne para a etapa de orientação. É assim que se faz! é observar as ações do estudante, identificando se ele está atingindo as metas combinadas e quais são suas dificuldades. Acompanhar BC - BASE DE CONHECIMENTOS TUTORIA 6 Essas ações, em conjunto, tem o objetivo de contribuir com a integração dos aprendizados dos estudantes, visando desenvolver o protagonismo, a formação integral e o Projeto de Vida deles. A integração é necessária para que o estudante tenha visibilidade das habilidades que já possui e das que necessita desenvolver, fazendo uma análise acurada sobre seu processo de aprendizagem de modo geral, dentro e fora da escola. Mas você sabe de onde vieram essas ideias e essa definição de Tutoria? Um pouco de história A Tutoria é uma prática pedagógica amplamente defendida pelo educador e filósofo Antônio Gomes da Costa, que criou o modelo de Ensino Integral implementado em todo o território nacional. Para ele a Tutoria é mais que um recurso técnico para melhorar o desempenho dos estudantes, ela é um modo de oferecer o acompanhamento individualizado e contínuo necessário para valorizar os estudantes e fortalecer o vínculo deles com a escola e com o aprendizado. Criem juntos um instrumento de registro e acompanhamento para o estudante, que pode ser um portfólio, um diário, um planner, entre outras possibilidades. Ensine-o a usá-lo. Ao definirem uma estratégia para atingir um objetivo, testem-na juntos para verificar o entendimento do estudante e demonstrar como se faz. A cada encontro, avaliem a pertinência de manter as metas e as estratégias. Peça para que ele lhe ensine as estratégias definidas e explique por que definiram cada um dos objetivos. Pergunte se ele está satisfeito com o que está sendo abordado na Tutoria ou se gostaria de focar em outro aspecto. É assim que se faz! é fazer junto com o estudante, de modo que ele tenha uma referência quando precisar agir sozinho. Desenvolver 7 BC - BASE DE CONHECIMENTOS TUTORIA Veja a seguir algumas de suas frases sobre a tutoria, presentes nas obras “Pedagogia da presença: da solidão ao encontro” e “Protagonismo juvenil: adolescência, educação e participação”. A tutoria é a arte de acompanhar o outro na construção de um projeto de vida. A tutoria é um exercício de cuidado e, portanto, de transformação. Todo adolescente precisa de um adulto que lhe diga: ‘eu acredito em você’. A tutoria é essa forma de dizer com ações. A escola deve ser um lugar onde os adolescentes possam ser reconhecidos em sua dignidade e potencial. A tutoria é uma estratégia para isso. E para onde vamos? Agora que já conhecemos com a definição e os objetivos da Tutoria, vamos nos dedicar a compreender o papel do tutor nessa prática. Ou seja, quem é o bom tutor? Para isso, iremos recorrer à ideia de “bom profissional” formulada pelos renomados pesquisadores Howard Gardner da Universidade de Harvard, William Damon, da Universidade Stanford e Mihaly Csikszentmihalyi, da Universidade de Chicago, todas localizadas nos Estados Unidos. Para eles o bom profissional apresenta três características, também conhecidas como três “E’s”, devido ao fato de todas iniciarem com a letra “E”. Os três E’s: Excelência é atingir um objetivo mantendo altos padrões técnicos e éticos. Observar que suas orientações, ao serem colocadas em prática pelos estudantes, fazem com que eles atinjam seus objetivos. Na vida do tutor é... BC - BASE DE CONHECIMENTOS TUTORIA 8 Ética é lidar com situações complexas agindo de modo consciente e responsável em relação a si mesmo e aos demais. Engajamento é o envolvimento profundo com uma atividade, que é nutrido pela motivação gerada por ela ou por seus resultados. Preparar os encontros de Tutoria previamente, motivado pelos efeitos que estão tendo na vida dos estudantes. Na vida do tutor é... Construir vínculos de confiança e respeito mútuo, mesmo diante de desafios e frustrações. Na vida do tutor é... O Project Zero, que deu origem à ideia de que um bom profissional precisa apresentar excelência, engajamento e ética, foi explicado pela equipe do Porvir. Conheça mais BC - BASE DE CONHECIMENTOS TUTORIA 9 Elena é uma estudante do primeiro ano do Ensino Médio. Durante uma seção de Tutoria, ela contou que estava com dificuldade de organizar sua rotina: tinha muitas atividades para fazer e temas para estudar, mas não conseguia usar o momento de Orientações de estudos para fazer essas atividades. Seu tutor pediu que ela descrevesse como esses momentos estavam sendo e, entre muitas coisas, ela disse que ficava envolvida com as atividades que os colegas consideravam prioritárias, mas que para ela não eram e que isso a deixava sobrecarregada depois. A assertividade do tutor identificou que a dificuldade de Elena era anterior à organização, pois o que a prejudicava era a dificuldade de se posicionar no grupo ou até mesmo de se afastar dele para realizar atividades de modo mais individualizado. Então ele sugeriu que ela pedisse para o grupo para começar a organizar a rotina deles, estabelecendo atividades coletivas e individuais. Juntos, eles construíram uma programação coletiva que atendesse à necessidade da maioria. Quem não era atendido, usava esse tempo para priorizar suas atividades. O resultado disso foi que todos passaram a agradecer Elena pela iniciativa, pois sentiam o mesmo que ela. Além disso, ela passou a assumir uma postura de liderança no grupo, postura essa muito diferente daquela que originou essa medida. Seu tutor ficou bastante satisfeito ao perceber que foi assertivo ao identificar a causa da dificuldade de Elena e de propor uma ação que transformou o modo como Elena via a si mesma dentro de seu grupo. Ponto para o tutor e o tutorado! Aconteceuna escola BC - BASE DE CONHECIMENTOS TUTORIA 10 Agora é com você! Um tutor de respeito não apenas ajuda os estudantes a alinharem seus comportamentos de modo a conquistarem seus objetivos, como também olha para si mesmo, buscando ter mais coerência pessoal e profissional. Por isso, aproveite esse momento para cuidar do que importa para você. Comece analisando seus comportamentos em relação a: Depois, estabeleça objetivos em relação a cada uma dessas áreas e um plano de execução e acompanhamento para atingi-los. E não se esqueça, buscar ajuda, é sempre válido! Você também pode ser acompanhado por alguém. Converse com seus colegas e Vice-diretor sobre isso. Esse documento formativo se encerra aqui. Esperamos que ele tenha ajudado você a compreender o processo de Tutoria e quais ações pode realizar para torná-la uma prática geradora de mudanças positivas dentro da sua escola! Para saber ainda mais sobre esse tema, acesse os documentos e vídeos da Tutoria para ajudá-lo a aprimorar cada vez mais a sua prática! Até lá! Autocuidado ações que uma pessoa realiza para cuidar de si mesma, englobando o bem- estar físico, mental, emocional e social. 1 Família ações de atenção, proteção e promoção do bem-estar de todos os membros da família, abrangendo aspectos físicos, emocionais, sociais e espirituais. 2 Trabalho ações de atenção e cuidado com as tarefas e responsabilidades no trabalho, buscando a qualidade e a excelência em seu desempenho. 3 BC - BASE DE CONHECIMENTOS TUTORIA 11 Referências Costa, Antonio Gomes da. Pedagogia da presença: da solidão ao encontro. São Paulo: Editora Global, 2002. Costa, Antonio Gomes da. Protagonismo juvenil: adolescência, educação e participação. Editora Odebrecht, 2010. García, Xus Martín; Puig, Josep Maria. As sete competências básicas para educar em valores. São Paulo: Summus, 2010. Gardner, Howard. Good work: theory and practice. Cambridge: The Good Work Project, 2010.