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ACT: MARCADORES SÉRICOS DE FUNÇÃO ÓSSEA Visão geral: O tecido ósseo está em remodelação constante: osteoclastos reabsorvem osso antigo e osteoblastos formam osso novo. O sangue funciona como um “espelho” parcial desse processo. Por isso, alguns exames laboratoriais mostram se o problema do paciente é falta de mineral, excesso de reabsorção, falha de mineralização ou doença sistêmica (renal, hormonal, tumoral). Em prova, gostam muito de te dar um conjuntinho de cálcio, fósforo, fosfatase alcalina e paratormônio e perguntar qual é o diagnóstico. Cálcio sérico: O cálcio é o marcador central. Ele participa de excitabilidade neuromuscular, contração cardíaca, coagulação, secreção hormonal e, claro, mineralização do osso. No sangue, o cálcio existe em três formas: uma fração livre, chamada cálcio ionizado, que é a única realmente ativa; uma fração ligada a proteínas, principalmente à albumina; e uma fração complexada com ânions como fosfato e citrato. Em condições normais, cerca de metade do cálcio total está na forma ionizada. O rim, o intestino e o osso formam um tripé que mantém o cálcio estável. O parato hormônio aumenta o cálcio sérico estimulando reabsorção óssea, aumentando a reabsorção de cálcio no túbulo renal e ativando a vitamina D no rim, o que por sua vez aumenta a absorção intestinal de cálcio. A vitamina D ativa, portanto, faz a ponte entre intestino e osso, garantindo que o cálcio absorvido possa ser incorporado à matriz óssea. Quando o cálcio sérico cai, aparece o quadro de hipocalcemia. As causas clássicas são hipoparatireoidismo (pós-cirurgia de tireoide, doenças autoimunes das paratireoides), deficiência de vitamina D, doença renal crônica com redução de síntese de vitamina D ativa e retenção de fósforo, pancreatite aguda, síndrome da lise tumoral e hipomagnesemia importante. O quadro clínico é dominado por aumento de excitabilidade neuromuscular: parestesias, câimbras, tetania, sinais de Chvostek e Trousseau, convulsões, além de intervalo QT prolongado no eletrocardiograma. Na hipercalcemia, o problema é oposto: cálcio demais deprimindo sistema nervoso e músculo. As causas que você precisa saber de cor são: hiperparatireoidismo primário, hipercalcemia maligna (tumor secretando substância semelhante ao parato hormônio ou metástases ósseas destrutivas), intoxicação por vitamina D, sarcoidose, imobilização prolongada, síndrome leite e álcali e hiperparatireoidismo terciário em doença renal crônica avançada. Clinicamente, pense em “stones, bones, abdominal groans e psychiatric overtones”: cálculos renais, dor óssea, sintomas gastrointestinais, alterações cognitivas e psiquiátricas, além de encurtamento do intervalo QT. Um detalhe muito cobrado é que o cálcio total depende da albumina. Se a albumina estiver baixa, o cálcio total cai mesmo que o cálcio ionizado esteja normal. Isso gera a chamada pseudohipocalcemia, típica em cirrose, síndrome nefrótica e desnutrição. Por isso, em qualquer prova, paciente com cálcio “baixo” mas sem sintoma neuromuscular e com albumina muito reduzida deve acender a luz de pseudohipocalcemia. Fósforo sérico: O fósforo é componente fundamental da hidroxiapatita (cristais de cálcio e fosfato no osso), além de entrar na composição de ATP, fosfolipídios de membrana e ácidos nucleicos. O organismo usa o fósforo como “parceiro” do cálcio. Quando o rim não funciona bem, o fósforo tende a se acumular, gerando hiperfosfatemia. Esse fósforo em excesso se liga ao cálcio, reduzindo o cálcio livre, o que estimula a secreção de parato hormônio. Com o tempo, isso leva ao hiperparatireoidismo secundário típico da doença renal crônica. Na deficiência de vitamina D, o fósforo sérico costuma ficar baixo, porque a vitamina D é necessária para absorção intestinal de fósforo. Assim, os quadros de raquitismo e osteomalacia geralmente apresentam cálcio normal baixo ou baixo, fósforo baixo e fosfatase alcalina elevada. Outro grupo importante de causas de hipofosfatemia são as perdas renais de fósforo, como na síndrome de Fanconi ou nos raquitismos hipofosfatêmicos, em que o rim “desperdiça” fósforo na urina, atrapalhando a mineralização óssea. Fosfatase alcalina total e fração óssea: A fosfatase alcalina é uma enzima presente em vários tecidos, especialmente fígado e osso. Os osteoblastos produzem uma isoforma específica, chamada fosfatase alcalina óssea. Essa enzima está ligada à formação de osso novo, pois participa da liberação de fosfato e favorece a deposição de cristais de hidroxiapatita na matriz. Quando há aumento de formação óssea ou de remodelação, a fosfatase alcalina sobe. É por isso que ela fica elevada em osteomalacia e raquitismo (em que o organismo tenta formar osso, mas falta mineralização adequada), na doença de Paget (onde há remodelação caótica e intensa), em consolidação de fraturas e em algumas metástases ósseas, principalmente as osteoblásticas. Em prova, é comum a seguinte lógica: paciente com dor óssea, radiografia alterada e fosfatase alcalina alta sugere doença óssea ativa. Como a mesma enzima existe no fígado, sempre que a fosfatase alcalina estiver elevada o raciocínio deve separar origem hepática e origem óssea. No contexto de doença hepática colestática, a fosfatase alcalina sobe junto com gama-glutamil transferase. Já nas doenças ósseas, a gama-glutamil costuma estar normal e o caso vem acompanhado de alterações ósseas clínicas ou radiológicas. Fosfatase ácida: A fosfatase ácida é produzida por osteoclastos e foi por muito tempo estudada como marcador de reabsorção óssea. Atualmente é menos usada que outros marcadores modernos, mas ainda é cobrada em questões teóricas como “exemplo de marcador de atividade osteoclástica”. Além do osso, ela aparece em outros tecidos, tendo sido clássica em tumores de próstata antes da popularização do antígeno prostático específico. Em resumo, quando as provas citam “fosfatase ácida tartrato resistente”, querem que você associe a atividade de osteoclastos. Ela marca o lado da reabsorção óssea, enquanto a fosfatase alcalina marca a formação. Magnésio: O magnésio é frequentemente esquecido, mas é crucial para o metabolismo ósseo porque interfere diretamente na secreção e na ação do parato hormônio. Em hipomagnesemia grave, o parato hormônio não consegue ser secretado adequadamente e os tecidos também respondem mal ao hormônio que ainda é produzido. Na prática, isso se traduz em hipocalcemia que não melhora enquanto o magnésio continuar baixo. É uma situação clássica em alcoolistas, desnutridos, pacientes em uso crônico de diuréticos de alça ou em síndrome de má absorção. Laboratorialmente, você vê cálcio baixo, parato hormônio baixo ou inadequadamente normal e magnésio baixo. Em provas, aparece muito como “hipocalcemia refratária à reposição de cálcio”, onde a chave é lembrar de dosar e corrigir o magnésio. Vitamina D: A vitamina D tem três formas principais que interessam: ● A forma produzida na pele, colecalciferol, derivada do colesterol após exposição solar. ● A forma circulante de depósito, chamada vinte e cinco hidroxivitamina D, produzida no fígado a partir da vitamina D da dieta ou da pele. É essa forma que é dosada na prática para avaliar “estoque” de vitamina D. ● A forma ativa, um vírgula vinte e cinco dihidroxivitamina D, ou calcitriol, produzida no rim sob estímulo do parato hormônio e de níveis baixos de cálcio e fósforo. O principal efeito da vitamina D ativa é aumentar a absorção intestinal de cálcio e de fósforo. Sem vitamina D, mesmo que o paciente coma cálcio, ele praticamente não entra no organismo. A longo prazo isso gera defeito de mineralização da matriz óssea. Em crianças, o resultado é raquitismo, com deformidades ósseas; em adultos, osteomalacia, geralmente com dor óssea difusa e fraqueza muscular. O padrão laboratorial clássico da deficiência de vitamina D é: cálcio baixo ou mais frequentemente normal baixo, fósforo baixo, fosfatase alcalina alta (pela intensatentativa de formação óssea) e parato hormônio elevado de forma compensatória. Esse padrão aparece o tempo todo em questões de prova. O que mais cai em prova desse tópico? Primeiro, o reconhecimento de padrões laboratoriais: deficiência de vitamina D com cálcio baixo ou limítrofe, fósforo baixo, fosfatase alcalina alta e parato hormônio aumentado; hiperparatireoidismo primário com cálcio alto, fósforo baixo ou normal baixo e parato hormônio alto. Segundo, a ideia de pseudohipocalcemia por hipoalbuminemia, na qual o cálcio total está baixo mas o cálcio ionizado está normal e o paciente não tem sinais de tetania. Terceiro, a associação de fosfatase alcalina elevada a doenças ósseas de alta remodelação, como Paget, consolidação de fraturas, osteomalacia e metástases ósseas. Quarto, a lembrança de que hipocalcemia refratária deve fazer pensar em hipomagnesemia. E, por fim, o fato de que a forma de vitamina D dosada como “estoque” é a vinte e cinco hidroxivitamina D, enquanto a forma realmente ativa é o calcitriol produzido no rim. DIFERENCIAR CÁLCIO DE CÁLCIO IÔNICO 1. O QUE É O CÁLCIO TOTAL? Quando o laboratório te entrega “cálcio sérico”, ele está falando de cálcio total. Esse valor soma tudo o que está no sangue: 1. uma parte ionizada, 2. uma parte ligada à albumina, 3. uma parte complexada a ânions como fosfato e citrato. Ele reflete “quanto cálcio existe no sangue”, mas não reflete quanta parte é realmente ativa para interagir com: ● neurônios, ● músculos, ● coração, ● potencial de membrana, ● coagulação. Por isso o cálcio total é um bom dado de triagem, mas pode enganar MUITO, especialmente quando albumina ou pH estão alterados. 2. O QUE É O CÁLCIO IÔNICO? O cálcio ionizado (Ca²⁺ livre) é a fração biologicamente ativa, ou seja: ● é a única que entra em canais iônicos, ● a única que participa de contração muscular, ● a que determina excitabilidade neurológica, ● a que ativa coagulação, ● e a que regula PTH. Se o cálcio ionizado cai → o paciente desenvolve tetania, convulsão, estridor laríngeo, prolongamento de QT. Se o cálcio ionizado sobe → há depressão neurológica, constipação, encurtamento de QT, arritmias. O cálcio TOTAL pode estar normal e o paciente estar sintomático. Quem manda no corpo é o IONIZADO, não o total. 3. POR QUE O CÁLCIO TOTAL E O IÔNICO PODEM FICAR “DESALINHADOS”? Existem duas causas principais: A) ALTERAÇÃO DE ALBUMINA A albumina é o principal “carregador” de cálcio no sangue. Quase metade do cálcio total está grudado nela. Quando a albumina cai (cirrose, síndrome nefrótica, desnutrição, queimaduras): ● o cálcio ligado diminui; ● o cálcio total parece baixo; ● mas o cálcio ionizado fica normal. Isso cria a famosíssima: PSEUDOHIPOCALCEMIA O aluno vê Ca total de 7,2 mg/dL e entra em desespero, mas o paciente está bem → porque o ionizado está normal. → Albumina baixa → cálcio total NÃO presta → confie no cálcio ionizado. Ao contrário: Quando a albumina está muito ALTA (mieloma múltiplo, macroglobulinemia), o cálcio total parece normal ou baixo, mesmo com cálcio ionizado ALTO → isso causa hipercalcemia subestimada. B) ALTERAÇÃO DO pH O pH modifica a carga elétrica da albumina. ALCALOSE (hiperventilação, vômitos, ventilação mecânica mal ajustada): ● a albumina fica mais negativa, ● ela CAPTURA mais cálcio, ● isso reduz o cálcio ionizado, ● mas o cálcio total NÃO se altera. Resultado: O paciente pode ter tetania, parestesia perioral, câimbras, espasmo carpopedal, mesmo com cálcio TOTAL normal. Isso cai MUITO em emergência: Paciente ansioso hiperventilando → tetania → cálcio total normal → é alcalose! ACIDOSE: ● a albumina perde cargas negativas; ● ela larga cálcio; ● o cálcio ionizado sobe; ● o cálcio total fica igual. Por isso acidose NÃO dá tetania, mesmo com cálcio total “baixo”. 4. QUAIS SÃO AS IMPLICAÇÕES CLÍNICAS? Agora o que a prova realmente quer: “Quando é que eu preciso pedir cálcio ionizado?” Você vai pedir cálcio ionizado sempre que: 1. a albumina estiver muito baixa; 2. paciente crítico de UTI; 3. grandes flutuações de pH; 4. hiperventilação; 5. cirrose avançada; 6. síndrome nefrótica; 7. mieloma múltiplo; 8. choque séptico; 9. grandes transfusões (citrato captura cálcio); 10. paciente com sintomas de hipocalcemia mas cálcio total normal. Prova AMA o seguinte cenário: ✦ Cálcio TOTAL normal. Paciente com tetania. pH alto (alcalose respiratória) → Cálcio ionizado BAIXO (é esse que importa). 5. COMO ISSO ALTERA A INTERPRETAÇÃO DO PTH? O corpo mede só o cálcio ionizado, nunca o total. ★ Se o ionizado está baixo → PTH sobe. ★ Se o ionizado está alto → PTH cai. Isso explica por que em pseudohipocalcemia: ● cálcio total baixo ● PTH normal Porque o corpo não vê o total — ele só vê o ionizado. E também explica hipercalcemia subestimada (total normal, ionizado alto): PTH vem suprimido, mesmo com cálcio total aparentemente “ok”. 6. CASOS CLÍNICOS CLÁSSICOS (QUE MAIS CAEM) Caso 1 — Hiperventilação Paciente ansioso → alcalose respiratória → cálcio ionizado cai → tetania → cálcio total normal. Caso 2 — Cirrose avançada Albumina cai → cálcio total cai → cálcio ionizado normal → paciente sem sintomas → pseudohipocalcemia. Caso 3 — Mieloma múltiplo Albumina alta / proteínas anormais → cálcio total normal → cálcio ionizado alto → sintomas de hipercalcemia → PTH baixo. Caso 4 — UTI, choque, acidose Acidose → cálcio ionizado aumenta → paciente SEM tetania → cálcio total normal. Caso 5 — Hipocalcemia refratária Cálcio total e ionizado baixos. PTH baixo ou normal inadequado. Magnésio baixo → nada melhora até repor magnésio. 7. A DIFERENÇA FUNDAMENTAL: ✦ CÁLCIO TOTAL mede tudo. ✦ CÁLCIO IÔNICO mede o que importa. O cálcio ionizado manda em: ● sintomas, ● eletrocardiograma, ● secreção hormonal, ● excitabilidade, ● conduta clínica. Ele é quem define se o paciente deve ser tratado. PAPEL DOS HORMÔNIOS NA REGULAÇÃO DO METABOLISMO ÓSSEO O esqueleto está em remodelação contínua: osteoclastos reabsorvem osso antigo e osteoblastos formam osso novo. Mas esse processo não é aleatório — ele obedece a um controle hormonal extremamente refinado, especialmente pelo paratormônio (PTH) e pelos hormônios tireoidianos (T4 e T3). Esses hormônios, apesar de atuarem no mesmo tecido, exercem ações completamente diferentes e são cobrados em prova justamente porque muita gente mistura os efeitos. PARATORMÔNIO (PTH) — O “COMANDANTE” DO CÁLCIO: O PTH é o principal regulador da homeostase do cálcio. Ele é secretado pelas paratireoides quando o cálcio ionizado cai — não o cálcio total, mas o ionizado, que é a fração ativa. As paratireoides possuem receptores CaSR, que percebem flutuações mínimas de cálcio no sangue e ajustam a secreção de PTH em minutos. O objetivo do PTH é normalizar rapidamente o cálcio sérico. Para isso, ele age em ossos, rins e intestino, mas de formas diferentes. 1. Ação do PTH no OSSO: como ele “convoca” os osteoclastos O PTH NÃO age diretamente no osteoclasto — isso é uma pegadinha clássica de prova. Quem possui receptores PTH1 é o osteoblasto. Quando o PTH se liga ao receptor do osteoblasto, este: ● aumenta a expressão de RANKL; ● diminui a produção de OPG (“Osteoprotegerina”, que normalmente inibe osteoclastos); ● permite que RANKL ative RANK nos precursores de osteoclasto; ● isso os transforma em osteoclastos maduros extremamente ativos. Ou seja, o PTH não “come” o osso — ele ativa a maquinaria osteoclástica via osteoblasto. Resultado: ● reabsorção óssea aumenta; ● cálcio e fósforo são liberados para o sangue. Esse é o mecanismo-chave por trás do hiperparatireoidismo primário → osteoporose cortical + cálcio alto; Essa é uma das duplas mais cobradas. 2. Ação do PTH no RIM: retenção de cálcio e eliminação de fósforo O rim é onde o PTH faz uma parte crítica da sua função. O PTH: ● aumenta reabsorção de cálcio no túbulo distal;● DIMINUI reabsorção de fósforo (faz o fósforo ser eliminado); ● ativa a enzima 1α-hidroxilase, que transforma vitamina D inativa em calcitriol (vitamina D ativa). Essas três ações juntas: ● elevam cálcio; ● reduzem fósforo; ● aumentam a absorção intestinal de cálcio e fósforo via vitamina D. Esse trio de efeitos gera o padrão: PTH alto → cálcio alto → fósforo baixo, que define o hiperparatireoidismo primário em 90% das provas. 3. Ação do PTH no INTESTINO: indiretamente via vitamina D ativa O PTH não age diretamente no intestino. Mas ao ativar a vitamina D, ele aumenta: ● absorção intestinal de cálcio; ● absorção intestinal de fósforo. É por isso que deficiência de vitamina D provoca: ● cálcio normal baixo; ● fósforo baixo; ● PTH alto (tentando compensar); ● fosfatase alcalina alta. Esse padrão é a assinatura da osteomalácia. RESUMO FISIOLÓGICO DO PTH (da forma mais útil para prova) 1. PTH sobe quando o cálcio ionizado cai. 2. PTH aumenta atividade osteoclástica via osteoblasto. 3. PTH aumenta reabsorção renal de cálcio e perde fósforo. 4. PTH ativa vitamina D → aumenta a absorção intestinal. O resultado líquido é: ● cálcio SÉRICO sobe; ● fósforo SÉRICO desce. O osso vira o primeiro “banco de cálcio” ativado. HORMÔNIOS TIREOIDIANOS (T4 E T3): Os hormônios tireoidianos, especialmente o T3 (forma ativa), atuam no metabolismo do osso de forma COMPLETAMENTE diferente do PTH. Eles não querem regular cálcio — eles querem regular velocidade metabólica. E o osso responde a isso porque ele é um tecido altamente sensível ao hormônio tireoidiano. 1. COMO T3 E T4 AGEM NO OSSO: T3 e T4 aumentam a taxa metabólica de praticamente todos os tecidos, inclusive o ósseo. Eles aceleram o ciclo de remodelação: ● osteoclastos trabalham mais rápido; ● osteoblastos também, mas os osteoclastos aceleram MAIS; ● o ciclo de remodelação fica encurtado; ● forma-se osso novo rápido demais, mas imperfeito; ● perde-se mais do que se ganha. O resultado: perda de massa óssea, especialmente trabecular, como a da coluna lombar. É por isso que hipertireoidismo é uma causa clássica de osteoporose secundária. 2. HIPERTIREOIDISMO: o osso “gasto” demais No hipertireoidismo: ● TSH está suprimido; ● T3 e T4 estão altos; ● a remodelação óssea dispara; ● a reabsorção osteoclástica supera a formação; ● o cálcio liberado pode causar hipercalcemia leve; ● o rim aumenta calciúria; ● o paciente pode ter nefrolitíase. Clinicamente: ● fraqueza muscular; ● intolerância ao calor; ● taquicardia; ● perda de peso; ● risco aumentado de fraturas. No DXA: ● osteoporose de alto turnover, predominando na coluna e quadril. Os exames normalmente mostram: ● cálcio normal ou discretamente alto; ● PTH baixo ou normal baixo (suprimido pela leve hipercalcemia); ● FA levemente aumentada (turnover acelerado). 3. HIPOTIREOIDISMO: remodelação lenta demais No hipotireoidismo: ● TSH alto; ● T3 e T4 baixos; ● a remodelação óssea desacelera; ● tanto formação quanto reabsorção ficam lentas; ● a densidade pode até estar normal ou aumentada, mas o osso é metabolicamente lento, mais rígido e menos adaptável. O ponto para prova: ✦ HIPERtireoidismo causa osteoporose. ✦ HIPOtireoidismo NÃO causa osteoporose (no máximo piora qualidade). COMPARANDO PTH, T3 E T4 — A VISÃO CIRÚRGICA, CLÍNICA E FISIOLÓGICA: ✦ PTH regula cálcio. T3/T4 regulam velocidade de remodelação. ● PTH decide se o corpo deve “tirar cálcio do osso” ou não. ● T3 e T4 decidem “quão rápido” esse processo ocorre. ✦ PTH mexe na quantidade de osso disponível. T3 e T4 mexem no ritmo do ciclo. ✦ PTH altera cálcio e fósforo. T3 e T4 alteram turnover e densidade. São papéis completamente diferentes e complementares. RELACIONAR O PAPEL DOS ACHADOS DE IMAGEM (DENSITOMETRIA ÓSSEA) COM OS MARCADORES SÉRICOS A densitometria óssea (DXA) mede densidade mineral, não formação, não reabsorção, não qualidade da matriz. Ela mostra “quanto mineral está ali”. Já os marcadores séricos mostram por que aquele mineral está diminuído ou aumentado. A prova quer que você combine os dois como se estivesse “lendo a alma do osso”. A densitometria mostra o resultado final. Os marcadores mostram o processo fisiopatológico que levou ao resultado. Para relacionar imagem com laboratório, você precisa entender três ideias: 1. DXA sozinha não te diz o tipo de doença. 2. Marcadores séricos te dizem exatamente qual doença causou aquele achado. 3. O conjunto (DXA + marcadores) fecha diagnósticos que caem todo ano na prova. A LÓGICA PRINCIPAL: O DXA TE MOSTRA O ESTRAGO; O LAB TE MOSTRA O MECANISMO: Na densitometria, você vê: ● T-score (comparação com adulto jovem) ● Z-score (comparação com idade) ● sítios medidos (coluna, quadril, rádio distal) Mas a DXA NÃO diz por que o osso perdeu massa. Por isso sempre, SEM EXCEÇÃO, ao ver densidade baixa você precisa olhar: ● cálcio ● fósforo ● fosfatase alcalina ● PTH ● vitamina D ● função renal (às vezes) ● TSH/T4 se suspeitar tireoide Aí vem a parte que prova ama: cada padrão laboratorial corresponde a um tipo DE REMODELAÇÃO. E isso explica por que a densidade caiu. 1. OSTEOPOROSE — DXA RUIM + LABORATÓRIO NORMAL Essa é a regra de ouro: se a densitometria está ruim e TODOS os marcadores estão normais, isso é osteoporose primária. A osteoporose primária (da pós-menopausa ou senil): ● tem T-score reduzido, ● mas não altera cálcio, nem fósforo, nem FA, nem PTH, nem vitamina D. Por quê? Porque a osteoporose é uma doença de microarquitetura, não de mineralização. O organismo não “percebe” essa perda óssea como um distúrbio sistêmico de cálcio. Então o sangue permanece normal. É uma perda silenciosa. Quando você vê: ● T-score baixo na coluna e/ou quadril ● cálcio normal ● fósforo normal ● FA normal ● PTH normal Isso = osteoporose primária até prova em contrário. 2. OSTEOMALÁCIA — DXA RUIM + FÓSFORO BAIXO + FA ALTA A densitometria da osteomalácia geralmente mostra densidade reduzida, às vezes mais acentuada em áreas trabeculares. Mas o grande truque é que a osteomalácia não é perda de osso — é falha de mineralização. O DXA não consegue te dizer “isso aqui é mineralizado ou não”. Ele só mostra “tem pouco mineral”. Por isso o laboratório é O MAPA: ● cálcio baixo ou normal baixo ● fósforo BAIXO ● fosfatase alcalina ALTA ● PTH alto (tentando compensar) ● vitamina D baixa Osteomalácia SEMPRE tem fósforo baixo + FA alta. Esse padrão é tão clássico que é praticamente diagnóstico. Se o DXA mostra osteoporose e o laboratório vem com esse padrão → é osteomalácia e NÃO osteoporose primária. 3. HIPERPARATIREOIDISMO — DXA RUIM NO RÁDIO DISTAL + CÁLCIO ALTO + PTH ALTO O hiperparatireoidismo primário destrói preferencialmente osso cortical, porque o PTH ativa muito a reabsorção cortical. Por isso o local mais afetado no DXA é: → rádio distal (1/3 distal) O padrão é lindo e clássico: ● T-score muito baixo no rádio ● cálcio alto ● fósforo baixo ● PTH alto Se você esquecer tudo na vida, só lembre isso: rádio distal + cálcio alto + PTH alto = hiperparatireoidismo primário É uma das associações mais cobradas no Brasil. 4. OSTEODISTROFIA RENAL — DXA RUIM + FÓSFORO ALTO + CÁLCIO BAIXO + PTH MUITO ALTO A doença renal crônica destrói o metabolismo mineral. O DXA da osteodistrofia renal mostra perda difusa, tanto de osso cortical quanto trabecular, mas DXA sozinho não distingue o tipo. O laboratório é que revela tudo: ● fósforo alto (rim não excreta) ● cálcio normal baixo ● PTH MUITO ALTO ● vitamina D ativa baixa Se o DXA está ruim e fósforo está ALTO → isso não é osteoporose primária; isso é DOENÇA RENAL. 5. DOENÇA DE PAGET — DENSIDADE ALTERADA + FOSFATASE ALCALINA MUITO ALTA Paget pode até ter densidade aumentada nas áreas afetadas (porque o osso fica espesso e denso), ou pode ter densidade baixa nas fases ativas. Mas no laboratório aparece: ● fosfatase alcalina MUITO alta ● cálcio normal(exceto em repouso prolongado) ● fósforo normal Quando vê densidade anormal e FA escandalosamente alta → é Paget, não é osteoporose. Se o enunciado mencionar deformidade, aumento de temperatura local ou dor localizada → matou. 6. METÁSTASES ÓSSEAS — DXA DESTRUÍDA, MAS A CHAVE ESTÁ NO CÁLCIO E NA FA A densitometria não serve para diferenciar metástase lítica de metastática blástica. Ela apenas mostra: ● densidade muito baixa (lítica) ● densidade aumentada/localmente alta (blástica) Mas no laboratório: METÁSTASE OSTEOLÍTICA (mama, mieloma): ● cálcio MUITO alto ● FA normal ou discretamente aumentada ● anemia (no mieloma) ● insuficiência renal (mieloma) METÁSTASE OSTEOBLÁSTICA (próstata): ● FA altíssima (às vezes > 1000) ● cálcio normal ou baixo ● dor intensa Ou seja: DXA NÃO diferencia tumor. Marcadores SÉRICOS diferenciam. 7. HIPERTIREOIDISMO — DXA RUIM + TSH SUPRIMIDO A densitometria mostra osteoporose difusa de alto turnover, mas quem denuncia a causa é: ● TSH baixo ● T4/T3 altos ● cálcio normal ou levemente alto ● FA levemente aumentada O hiper deixa o osso “rápido demais” e o turnover enlouquece. O QUE MAIS CAI EM PROVA DESSE OBJETIVO? 1. Que osteoporose primária SEMPRE tem laboratório normal. 2. Que osteomalácia SEMPRE tem fósforo baixo + FA alta. 3. Que hiperparatireoidismo primário destrói rádio distal. 4. Que fósforo alto é praticamente igual a DRC em osteometabolismo. 5. Que Paget dá FA muito alta, mesmo sem alteração de cálcio. 6. Que metástase osteolítica causa hipercalcemia com FA normal. 7. Que metástase osteoblástica causa FA altíssima com cálcio normal/baixo. 8. Que TSH baixo + DXA ruim = osteoporose secundária por tireoide. 9. Que FA normal + lesão lítica = mieloma. COMPREENDER O PAPEL DA FOSFATASE ALCALINA (FA) NA INVASÃO NEOPLÁSICA ÓSSEA A fosfatase alcalina (FA) é uma enzima produzida principalmente por osteoblastos e por células do trato hepatobiliar. Quando o tumor invade o osso, a FA funciona como um marcador de atividade osteoblástica, ou seja, mostra se o osso está tentando se reparar, produzir ou depositar matriz mineral. A prova AMA isso: o padrão da FA depende do tipo de invasão tumoral (lítica ou blástica). Essa é a ideia fundamental. 1. ENTENDA A “GUERRA BIOLÓGICA” ENTRE O TUMOR E O OSSO: Quando uma célula tumoral chega ao osso (via circulação), ela encontra um ambiente riquíssimo em: ● cálcio, ● citocinas, ● fatores de crescimento, ● células progenitoras, ● sistema RANK/RANKL/OPG. Esse microambiente é perfeito para o tumor crescer. Dependendo do tumor, ele pode provocar dois tipos de resposta óssea: ↪ METÁSTASE OSTEOLÍTICA — tumor ativa osteoclasto → destrói osso Ex.: mama, rim, pulmão, melanoma, tireoide, mieloma múltiplo. ↪ METÁSTASE OSTEOBLÁSTICA — tumor ativa osteoblasto → forma osso desorganizado Ex.: próstata (a estrela das provas), alguns tumores GI, carcinoides. Cada uma dessas respostas produz padrões completamente diferentes de fosfatase alcalina, cálcio e imagem. 1. METÁSTASES OSTEOLÍTICAS — QUANDO O TUMOR DERRETE O OSSO Esse é o tipo mais clássico em câncer de mama e mieloma múltiplo. O tumor secreta: ● PTH-rP (proteína relacionada ao PTH), ● IL-1, IL-6, TNF, ● fatores osteoclastogênicos. Isso ativa RANK/RANKL → gera osteoclastos hiperativos. O osso é destruído rapidamente. Grande quantidade de cálcio entra na circulação → hipercalcemia tumoral. Agora o ponto mais importante: ↪ A fosfatase alcalina não sobe muito. Por quê? porque osteoblasto NÃO está trabalhando. Não há formação óssea, só destruição. Essa é a armadilha de prova: Metástase osteolítica → Cálcio ALTO + FA normal ou pouco alta. Isso é literalmente a assinatura do mieloma múltiplo e de metástases osteolíticas de mama. É por isso que veremos: ● dor intensa e localizada, ● lesões líticas em punção de coelho (raio-X), ● hipercalcemia severa, ● FA normal (ou levemente elevada pela reação reparativa mínima). Prova pega muito aluno assim: “Lesão lítica + cálcio alto + FA normal” → isso é mieloma até que se prove o contrário. 2. METÁSTASES OSTEOBLÁSTICAS — QUANDO O TUMOR FAZ O OSSO “ENLOUQUECER” Aqui entra o monstro da prova: câncer de próstata. Esse tumor secreta fatores que ativam os osteoblastos: ● endotelin-1, ● BMPs (bone morphogenetic proteins), ● TGF-β, ● IGF-1, ● outros fatores osteoindutores. O osso começa a PRODUZIR matriz desesperadamente, mas essa matriz é desorganizada, dura, densificada, mas mecanicamente péssima. É o famoso “osso esclerótico”, e o osteoblasto produz FA — MUITA FA. Por isso: - Metástase osteoblástica = FA MUITO elevada. É o maior valor de FA entre todas as doenças ósseas benignas e malignas. Várias vezes a FA fica acima de 1000, 1500, 2000 U/L. Os achados típicos: ● dor intensa, ● áreas hiperdensas no esqueleto axial (coluna, pelve), ● densidade aumentada no DXA localmente, ● cálcio normal ou BAIXO (o osso “puxa” cálcio para formar osso desorganizado). 3. POR QUE A FA SOBE NA DOENÇA ÓSSEA NEOPLÁSICA? Isso é muito importante! a FA não sobe por causa do tumor; a FA sobe por causa da resposta do osteoblasto ao tumor. O tumor não produz FA, e sim o osteoblasto. Quando o osso tenta se reparar, reconstruir ou reagir: ● aumenta síntese de matriz, ● aumenta atividade de osteoblastos, ● sobe FA. Ou seja: FA é marcador de atividade osteoblástica, não de tumor. 5. DOENÇAS MISTAS: OSTEOLÍTICA + OSTEOBLÁSTICA (mama) Alguns tumores, como mama, fazem lesões mistas. Nessas situações: ● FA vem moderadamente elevada, ● cálcio pode oscilar e a imagem mostra áreas líticas e áreas escleróticas. 6. COMO ISSO CAI JUNTO COM DENSITOMETRIA? A DXA NÃO distingue lítico de blástico. Mas: ● lesão lítica → densidade baixa ● lesão blástica → densidade aumentada localmente Por isso, para diferenciar tumores, você precisa da FA. A prova AMA colocar: “DXA com áreas de densidade aumentada”, “FA de 2000”, “Paciente homem de 72 anos” → Diagnóstico: metástase óssea de próstata. Outro exemplo clássico: “DXA mostra perda difusa”, “Cálcio 13,5 mg/dL”, “FA normal” → mieloma múltiplo. 7. OUTROS PONTOS IMPORTANTES QUE PROVA ADORA ● A FA alta indica atividade osteoblástica, não tamanho do tumor. ● A FA baixa numa lesão lítica sugere mieloma, um dos mais importantes diferenciais. ● Metástase de próstata é o principal diagnóstico de FA muito elevada em adulto idoso. ● Metástase lítica pode causar fratura patológica com FA normal. ● Metástase blástica pode causar hipocalcemia por aprisionamento de cálcio. DESCREVER O MECANISMO DE AÇÃO DOS BISFOSFONATOS Os bisfosfonatos são a base do tratamento da osteoporose e também uma arma contra dor óssea e complicações esqueléticas em metástases. Mas para entender o mecanismo real, você precisa enxergar duas camadas: 1. A camada química: como eles se ligam ao osso. 2. A camada celular: como eles matam ou inibem osteoclastos. Quando você junta isso, entende exatamente porque diminuem fraturas, por que funcionam em metástases, por que fazem hipocalcemia e por que podem causar osteonecrose de mandíbula. 1. A QUÍMICA DO BISFOSFONATO — POR QUE ELE GRUDA NO OSSO: Todos os bisfosfonatos têm uma estrutura central com dois grupos fosfonatos (P–C–P). Essa estrutura é química e estruturalmente parecida com o pirofosfato, que o corpo usa na mineralização óssea. Quando você administra um bisfosfonato: ● ele circula no sangue, ● chega ao osso, ● e “cimenta-se” nos cristais de hidroxiapatita, ● especialmente nas regiões onde o osteoclasto está trabalhando. Osteoclasto é uma célula que come osso liberando ácido — o meio fica muito ácido no lacúnulo de Howship. E adivinha? Os bisfosfonatos são estáveis em ácido. Então eles ficam lá, quietos, acumulados, esperando o osteoclasto engolir. É literalmente uma “armadilha molecular”. 2. OSTEOCLASTO ENGOLE O BISFOSFONATO — E A CÉLULA MORRE: Quando o osteoclasto está reabsorvendo osso, ele dissolve a hidroxiapatitae, junto com ela, engole os bisfosfonatos depositados ali. É nesse momento que a mágica (e a prova) acontece. Existem dois tipos de bisfosfonatos, com mecanismos diferentes: A) BISFOSFONATOS NÃO-NITROGENADOS (Ex.: etidronato, clodronato) Eles são metabolizados dentro do osteoclasto em ATP não funcional (ATP tóxico). Esse ATP falso: ● paralisa processos energéticos da célula, ● causa apoptose (morte programada) do osteoclasto. Assim, menos osteoclasto = menos reabsorção de osso. B) BISFOSFONATOS NITROGENADOS (os mais usados) (Ex.: alendronato, risedronato, ibandronato, zoledronato) Esses são os campeões — muito mais potentes. Eles inibem diretamente a enzima farnesil-pirofosfato sintase (FPPS), da via do mevalonato. Essa via é a mesma que produz: ● colesterol, ● isoprenoides (geranylgeranil, farnesil), ● moléculas necessárias para prenilação de proteínas intracelulares. Sem essa via, o osteoclasto: ● perde citoesqueleto, ● perde borda em escova, ● perde capacidade de aderência, ● perde capacidade de acidificar, ● entra em apoptose. Ou seja: bisfosfonatos nitrogenados matam osteoclastos impedindo a via do mevalonato. Esse mecanismo é MUITO cobrado. 3. O RESULTADO FISIOLÓGICO: O TORPOR DO TURNO-OVER ÓSSEO Quando o osteoclasto morre ou é inativado o ciclo de remodelação óssea fica mais lento, a reabsorção diminui, a formação fica relativamente preservada, o balanço fica positivo, a densidade óssea aumenta ao longo dos meses. Isso leva à redução de fraturas de vértebra, quadril e punho. E isso é uma das bases do tratamento da osteoporose. 4. APLICAÇÕES CLÍNICAS — POR QUE FUNCIONAM TÃO BEM EM METÁSTASES? Nas metástases osteolíticas: ● o tumor ativa osteoclastos → destruição óssea → dor → fraturas → hipercalcemia tumoral. ● bisfosfonatos inibem osteoclastos → quebram o ciclo → tratam dor → tratam hipercalcemia → previnem fraturas. Nas metástases osteoblásticas, paradoxalmente: ● mesmo que a lesão seja blástica, existe atividade osteoclástica ao redor, ● então o mecanismo ainda ajuda em dor e estabilidade. Por isso, zoledronato é usado em CÂNCER DE PRÓSTATA com metástase blástica, mesmo não sendo lítica. 5. FISIOLOGIA QUE AS PROVAS COSTUMAM COBRAR: Bisfosfonatos nitrogenados interferem na via do mevalonato, a mesma via que as estatinas modulam. Mas a inibição NO OSTEOCLASTO leva à perda de proteínas preniladas essenciais para a movimentação celular, organização do citoesqueleto, e adesão ao osso. É isso que realmente “desliga” os osteoclastos. Outro detalhe crítico: O bisfosfonato fica preso ao osso por anos. Sua meia-vida no esqueleto pode ultrapassar 10 anos. Por isso existe “feriado terapêutico” após uso prolongado. ANTICORPOS MONOCLONAIS COMO IMUNOBIOLÓGICOS E SUAS PARTICULARIDADES 1. O QUE É UM ANTICORPO MONOCLONAL? O anticorpo monoclonal (mAb — “monoclonal antibody”) é uma proteína altamente específica, criada em laboratório, que reconhece e se liga a um único antígeno, de forma precisa e seletiva. Enquanto um remédio químico tradicional é uma molécula pequena, que interage com enzimas, canais ou receptores de forma mais “geral”, um anticorpo monoclonal é: ● enorme, ● extremamente específico, ● com estrutura complexa, ● desenhado para “encaixar” perfeitamente no alvo. Ele funciona como um míssil guiado molecularmente. Esse alvo pode ser: ● uma citocina, ● um receptor, ● uma proteína de membrana, ● um ligante solúvel, ● ou qualquer molécula envolvida em uma via fisiológica ou patológica. Por isso se chamam imunobiológicos: eles usam mecanismos do próprio sistema imune (especificidade de anticorpo) para modular uma resposta. 2. TIPOS DE ANTICORPOS — POR QUE ISSO IMPORTA: Os anticorpos monoclonais são classificados de acordo com sua origem: ● -omab → murino (totalmente de camundongo) ● -ximab → quimérico (parte camundongo, parte humano) ● -zumab → humanizado (maior parte humana, pequena parte murina) ● -umab → totalmente humano O denosumabe termina com -umab → é totalmente humano. Isso significa: ● menos risco de reações infusionais, ● menos anticorpos anti-droga, ● maior meia-vida, ● melhor tolerabilidade. Esse detalhe cai MUITO em provas, especialmente de imunologia, reumatologia e terapias biológicas. 3. COMO FUNCIONA UM ANTICORPO COMO IMUNOBIOLÓGICO A ideia é simples: 1. Você identifica uma via fisiológica que está hiperativa (ex.: osteoclastos hiperativos causando perda óssea). 2. Você encontra a molécula exata que ativa essa via (ex.: RANKL). 3. Você produz um anticorpo que neutraliza essa molécula. 4. O anticorpo bloqueia aquela via → doença é controlada. Não mexe no DNA. Não mexe na célula toda. Não mexe no metabolismo geral. Ele desarma uma peça específica da via. É como desligar um único interruptor. 4. AGORA ENTRA O HERÓI: DENOSUMABE: O denosumabe é um anticorpo monoclonal totalmente humano (-umab) que se liga a uma molécula chamada RANKL. Para entender isso, você precisa entender a via: ● Osteoblasto produz RANKL. ● Osteoclasto tem o receptor RANK. ● Quando RANKL se liga ao RANK → o osteoclasto amadurece, se ativa, gruda no osso e o reabsorve. ● OPG (osteoprotegerina) é a “falsa fechadura” produzida pelo osteoblasto que impede RANKL de ligar em RANK. ✦ RANKL → ativa osteoclasto ✦ OPG → INIBE osteoclasto É o eixo RANK/RANKL/OPG. 5. O DENOSUMABE IMITA A OSTEOPROTEGERINA! Essa é a sacada mais importante do mecanismo. O denosumabe funciona como uma OPG sintética superpoderosa. Ele: ● se liga ao RANKL, ● impede que RANKL se ligue ao receptor RANK, ● bloqueia a diferenciação e ativação de osteoclastos, ● reduz drasticamente a reabsorção óssea. Ele NÃO é incorporado ao osso, como os bisfosfonatos. Ele NÃO é engolido pelo osteoclasto. Ele NÃO mexe na via do mevalonato. Ele age fora da célula, neutralizando a “chave” que ativaria o osteoclasto. 6. POR QUE O MECANISMO DO DENOSUMABE É DIFERENTE DOS BISFOSFONATOS? Diferença crucial: Bisfosfonatos: ● entram no osso ● são engolidos pelo osteoclasto ● matam o osteoclasto por apoptose ● ficam anos incorporados na matriz óssea Denosumabe: ● fica na circulação ● não entra no osso ● bloqueia RANKL (não deixa o osteoclasto se ativar) ● efeito desaparece quando a droga é suspensa ● não tem meia-vida óssea Isso significa que, se o paciente interromper o denosumabe, os osteoclastos voltam com FÚRIA (rebound) → risco de fraturas vertebrais múltiplas e rápidas. Esse fenômeno é MUITO cobrado. 7. IMPLICAÇÕES CLÍNICAS DIRETAS DO MECANISMO A) Potente inibidor da reabsorção óssea: Melhora densidade e reduz fraturas em vértebras, quadril e rádio; B) Excelente para pacientes com doença renal crônica porque ele NÃO é excretado pelo rim e NÃO é nefrotóxico; por isso é ideal quando o paciente tem osteoporose e creatinina alta. C) Risco de HIPOCALCEMIA muito maior que nos bisfosfonatos; Por quê? Porque quando você bloqueia RANKL, você “desliga” quase todos os osteoclastos de uma vez. O organismo não consegue mobilizar cálcio do osso → o cálcio sérico cai. Por isso: ● precisa corrigir vitamina D antes ● precisa corrigir cálcio ● evitar usar em hipoparatireoidismo D) Osteonecrose de mandíbula e fratura atípica de fêmur: assim como bisfosfonatos, mas por outra razão: turnover ósseo fica MUITO baixo. 8. POR QUE O DENOSUMABE É USADO EM CÂNCER? Porque em tumores que ativam muito osteoclasto (mama, mieloma, tumor lítico): ● o bloqueio de RANKL reduz dor, ● atrasa fraturas, ● reduz hipercalcemia tumoral. O mecanismo do denosumabe atinge DIRETAMENTE a via usada pelo câncer para corroer o osso. 9. DETALHE FINO QUE CAI MUITO: Denosumabe é administrado subcutâneo, a cada 6 meses. Isso aumenta adesão e facilita uso em idosos. E MAIS IMPORTANTE: ✦ se suspender → risco de rebound de reabsorção → fraturas em cascata. Por isso, se parar denosumabe, precisa trocar imediatamente para um bisfosfonato para “segurar” o osso. CARACTERIZAR AS QUINOLONAS RESPIRATÓRIASAs quinolonas respiratórias são uma subclasse de fluoroquinolonas com atividade aprimorada contra os principais patógenos respiratórios, especialmente o Streptococcus pneumoniae, incluindo cepas com alta resistência a penicilina. Essa é a diferença crucial entre elas e as quinolonas mais antigas (ciprofloxacino). 1. QUAIS SÃO AS QUINOLONAS RESPIRATÓRIAS? Existem duas principais: ● Levofloxacino ● Moxifloxacino E às vezes se inclui: ● Gemifloxacino (menos usada no Brasil) Essas drogas foram desenvolvidas para ter atividade contra germes respiratórios, especialmente pneumococo resistente. 2. POR QUE ELAS SÃO CHAMADAS DE “RESPIRATÓRIAS”? Porque elas atingem níveis ALTÍSSIMOS no tecido pulmonar e têm forte ação contra o S. pneumoniae, algo que o ciprofloxacino NÃO faz. Quinolonas antigas (como ciprofloxa) têm: ● excelente ação contra gram-negativos entéricos, ● MAS têm péssima ação contra pneumococo. Então ciprofloxacino não serve para pneumonia adquirida na comunidade. Já levo e moxi têm alta potência contra: ● Streptococcus pneumoniae (incluindo PRP — pneumococo resistente à penicilina) ● Haemophilus influenzae ● Moraxella catarrhalis ● Atípicos respiratórios (Mycoplasma pneumoniae, Chlamydophila pneumoniae, Legionella pneumophila) É por isso que são usadas na pneumonia. 3. MECANISMO DE AÇÃO – EXATAMENTE O QUE ELAS FAZEM As fluoroquinolonas atuam inibindo enzimas bacterianas essenciais de replicação: ● DNA-girase (topoisomerase II) ● Topoisomerase IV Mas a particularidade das quinolonas respiratórias é: ● afinidade maior por topoisomerase IV em gram-positivos ● maior penetração pulmonar ● maior atividade intracelular Isso explica: ● sua eficácia contra pneumococo (gram-positivo), ● sua eficácia contra atípicos (bactérias intracelulares), ● sua ação rápida em tecidos de alta vascularização como pulmão. 4. ESPECTRO DE AÇÃO — O QUE ELAS MATAM? Gram-positivos (excelente para pneumococo) ● Streptococcus pneumoniae ● Staphylococcus aureus sensível (não MRSA) Gram-negativos respiratórios ● H. influenzae ● Moraxella catarrhalis ● Haemophilus parainfluenzae Atípicos respiratórios (isso cai MUITO) ● Mycoplasma pneumoniae ● Legionella pneumophila ● Chlamydophila pneumoniae Cobertura de anaeróbios ● Moxifloxacino tem ação contra anaeróbios (inclusive Bacteroides). ● Levofloxacino NÃO tem boa cobertura anaeróbia. Gram-negativos entéricos ● Moxifloxacino: fraco para gram-negativos entéricos. ● Levofloxacino: razoável, mas inferior ao ciprofloxacino. ● Ciprofloxacino é o melhor para gram-negativos (mas ruim para pneumococo). 5. PRINCIPAIS INDICAÇÕES CLÍNICAS DAS QUINOLONAS RESPIRATÓRIAS 1. Pneumonia adquirida na comunidade (PAC): Especialmente quando: ● risco de resistência a macrolídeo, ● comorbidades importantes, ● falha terapêutica prévia, ● alergia a beta-lactâmicos, ● suspeita de pneumonia por Legionella. São drogas excelentes para PAC grave. 2. Exacerbação aguda de DPOC: Principalmente se houver risco de: ● H. influenzae resistente ● Moraxella ● Pneumococo resistente 3. Sinusite bacteriana grave: Quando não pode usar amoxi-clav. 4. Pneumonia “mista” ou dúvida entre típica e atípica: Elas cobrem as duas. 5. Infecções respiratórias em pacientes com múltiplas comorbidades 6. Tratamento de Legionella: As melhores drogas, junto com macrolídeos. E POR QUE O CIPROFLOXACINO NÃO É QUINOLONA RESPIRATÓRIA? Porque o ciprofloxacino tem: ● potência fraca contra pneumococo, ● não cobre bem gram-positivos respiratórios, ● não tem penetração adequada em tecido pulmonar, ● é excelente para gram-negativo entérico e pseudomonas, mas péssimo para PAC. Por isso: ✦ NUNCA tratar pneumonia adquirida na comunidade com ciprofloxacino. Questão clássica de prova. 6. PARTICULARIDADES FARMACOLÓGICAS Levofloxacino ● Excelente para gram-positivos respiratórios ● Moderado para gram-negativos ● Baixa ação anaeróbia ● Excelente disponibilidade oral (> 98%) ● Opção em DRC (ajusta dose) Moxifloxacino ● Melhor para anaeróbios ● Excelente intracelular (ótima para Legionella) ● NÃO pode ser usado em DRC grave (eliminação hepática → risco de acúmulo) ● Contraindicado em infecções urinárias (porque não é eliminado na urina) 7. EFEITOS COLATERAIS: Fluoroquinolonas têm efeitos clássicos, sempre cobrados: ● Tendinopatia e ruptura de tendão (especialmente tendão de Aquiles) ● Prolongamento de QT (pior com moxifloxacino) ● Risco de arritmia ● Fototoxicidade ● Neuropatia periférica ● Efeitos sobre SNC (delírio, convulsão) ● Hipoglicemia ou hiperglicemia ● Aneurisma e dissecção de aorta (alerta FDA) ● Clostridioides difficile ● Contraindicado em gestantes e crianças ● Contraindicado com corticoide (aumenta risco de ruptura de tendão) 8. POR QUE AS QUINOLONAS RESPIRATÓRIAS SÃO PERIGOSAS EM PACIENTES COM RISCO CARDÍACO? Porque prolongam o intervalo QT, especialmente: ● moxifloxacino ● levofloxacino menos, mas também prolonga Risco: Torsade de pointes. Então são contraindicadas em: ● QT já alongado, ● uso de antiarrítmicos classe I ou III, ● hipocalemia e hipomagnesemia, ● insuficiência cardíaca avançada. 9. RESUMO MENTAL RÁPIDO PARA PROVA ● Levofloxacino = pneumococo + atípicos + moderado gram-negativo ● Moxifloxacino = pneumococo + atípicos + anaeróbios ● Nenhum deles serve para ITU complicada (exceto levo em alguns casos) ● Ciprofloxacino NÃO serve para pneumonia ● Legionella = macrolídeo OU fluoroquinolona respiratória CONHECIMENTO PRÉVIO: FUNÇÃO RENAL NA ABSORÇÃO DE CÁLCIO Para entender o metabolismo do cálcio, você precisa enxergar o rim como um “regulador fino” do cálcio, não como a principal via de absorção (que é o intestino). O rim controla quanto cálcio o corpo mantém e quanto elimina. E isso é essencial para: ● manter o cálcio ionizado estável, ● ativar vitamina D, ● regular fósforo, ● permitir funcionamento adequado do PTH, ● sustentar a mineralização óssea. Se o rim falha, toda a fisiologia do cálcio quebra. 1. O RIM E O MANEJO DO CÁLCIO O cálcio sérico vem de três fontes: 1. Intestino (absorção dependente de vitamina D) 2. Osso (liberação pela remodelação) 3. Rim (reabsorção do cálcio filtrado) O rim filtra diariamente cerca de 10 gramas de cálcio, mas o corpo não pode excretar tudo isso, então reabsorve 99%. Essa reabsorção acontece em quatro segmentos distintos: ● Túbulo proximal (65%) — reabsorção passiva, segue sódio e água. ● Alça de Henle (ramo espesso) (25%) — regulada pelo gradiente elétrico e pelo NKCC. ● Túbulo distal (8%) — reabsorção fina, controlada pelo PTH. ● Ductos coletores (pequena parte). A parte que interessa para a prova é o túbulo distal, porque é ali que o PTH age e onde ocorre o ajuste fino do cálcio sérico. 2. COMO O PTH AGE NO RIM PARA AUMENTAR O CÁLCIO? Quando o cálcio ionizado cai: ● o PTH sobe, ● vai ao rim, ● aumenta a reabsorção de cálcio no túbulo distal, ● faz o corpo reter cálcio filtrado, ● evitando que o cálcio seja perdido na urina. Além disso, o PTH: ● reduz reabsorção de fósforo (faz perder fósforo), ● estimula a 1α-hidroxilase, ● ativa vitamina D → aumenta absorção intestinal de cálcio. Ou seja: Sem rim funcionando, o PTH não consegue manter cálcio normal. 3. O RIM É A FÁBRICA DE VITAMINA D ATIVA: A vitamina D ingerida ou produzida no sol vira vitamina D 25-OH no fígado (marcador de estoque), mas ela está inativa ainda. A forma ativa é → 1,25-diOH-vitamina D (calcitriol). E onde isso acontece? → No rim, pela enzima 1α-hidroxilase. → A enzima é estimulada por PTH. → É inibida por fósforo alto. Então → se o rim falha, não produz calcitriol, o intestino não absorve cálcio, o cálcio sérico cai e o PTH dispara. Esse é o início do hiperparatireoidismo secundário da DRC. 4. O RIM CONTROLA O FÓSFORO — E O FÓSFORO CONTROLA O CÁLCIO: O rim é o único órgão com capacidade de excretar fósforo. Se ele falha → fósforo sobe, fósforo alto “amarra” cálciona forma CaPO₄, cálcio ionizado cai, PTH sobe. Resultado: → PTH muito alto, → cálcio normal baixo, → fósforo alto. Esse padrão é a “assinatura bioquímica” da DRC e é fundamental para diferenciar osteoporose, osteomalácia, hiperpara primário e hipoparatireoidismo. 5. DOENÇA RENAL CRÔNICA — COMO ELA DESTRÓI A FISIOLOGIA DO CÁLCIO Agora junta tudo: Quando o rim perde função: 1. Não ativa vitamina D → intestino não absorve cálcio 2. Não excreta fósforo → fósforo sobe 3. PTH sobe demais → hiperpara secundário 4. Osso é reabsorvido → osteodistrofia renal 5. Cálcio sérico tende a cair ou ficar no limiar 6. Cálcio permanece anormal mesmo com suplementação isolada Portanto: → Função renal é ESSENCIAL para absorção eficaz de cálcio — porque sem calcitriol, o intestino não funciona. O intestino depende 100% da vitamina D ativa (produzida no rim). Por isso o paciente com DRC: ● tem hipocalcemia leve, ● tem hipovitaminose D ativa, ● precisa de calcitriol ou alfacalcidol (formas ativas), ● desenvolve doença óssea pela hiperatividade do PTH. 6. IMPLICAÇÕES FARMACOLÓGICAS — CAI MUITO Bisfosfonatos: Contraindicar se o rim está muito ruim → risco de nefrotoxicidade. Denosumabe: Excelente em DRC porque não é excretado pelo rim e não depende dele para ser metabolizado, mas causa hipocalcemia mais forte porque impede mobilização de cálcio do osso em um paciente que já não absorve bem cálcio pelo intestino. Vitamina D ativa (calcitriol): Obrigatória em DRC avançada porque a vitamina D comum não funciona sem o rim.