Prévia do material em texto
Organizadores Marcia Tassinari Wagner Durange PLANTÃO EA CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA Editora CRVo livro Plantão e a Clínica da Urgência Psicológica vem Organizadores Marcia Tassinari demarcar os 50 anos da iniciativa Wagner Durange da Dra. Rachel Rosenberg, na criação do primeiro Serviço de Plantão Psicológico. Nesse meio PLANTÃO E A CLÍNICA século, os pesquisadores têm avançado em reflexões, pesqui- sas e experimentações, que são DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA sistematizadas neste quarto livro sobre o Plantão, contemplando a clínica da urgência psicológica, temas inéditos e fundamenta- ções teóricas que conversam ousada e criativamente com a Abordagem Centrada na Pessoa. Editora Editora CRV CRVMarcia Tassinari Wagner Durange (Organizadores) PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA Editora CRV Curitiba - Brasil 2019Copyright © da Editora CRV Conselho Editorial: Comitê Científico: Editor-chefe: Railson Moura Aldira Guimarães Duarte Domínguez (UNB) Andrea Vieira Zanella (UFSC) Diagramação e Capa: Editora CRV Andréia da Silva Quintanilha Sousa (UNIR/UFRN) Christiane Carrijo Eckhardt Mouammar (UNESP) Foto da Capa: Sain-Légier La Chiésaz, Suíça, Antônio Pereira Gaio Júnior (UFRRJ) Edna Lúcia Tinoco Ponciano (UERG) de Hermano Shigueru Taruma Carlos Alberto Vilar Estêvão (UMINHO PT) Edson Olivari de Castro (UNESP) Revisão: Os Autores Carlos Federico Dominguez Avila (Unieuro) Érico Bruno Viana Campos (UNESP) Carmen Tereza Velanga (UNIR) Fauston Negreiros (UFPI) Celso Conti (UFSCar) Francisco Nilton Gomes Oliveira (UFSM) DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) Cesar Gerónimo Tello (Univer. Nacional Ilana Mountian (Manchester Metropolitan CATALOGAÇÃO NA FONTE Três de Febrero Argentina) University, MMU, Grã-Bretanha) Eduardo Fernandes Barbosa (UFMG) Jacqueline de Oliveira Moreira (PUC-SP) P696 Elione Maria Nogueira Diogenes (UFAL) Marcelo Porto (UEG) José Corá (UFFS) Marcia Alves Tassinari (USU) Elizeu Clementino de Souza (UNEB) Plantão e a clínica da urgência psicológica / Marcia Tassinari, Wagner Maria Alves de Toledo Bruns (FFCLRP) Fernando Antônio Gonçalves Alcoforado (IPB) Durange (organizadores) Curitiba CRV, 2019. Mariana Lopez Teixeira (UFSC) Francisco Carlos Duarte (PUC-PR) Monilly Ramos Araujo Melo (UFCG) 180 p. Gloria Fariñas León (Universidade Olga Ceciliato Mattioli (ASSIS/UNESP) de La Havana Cuba) Regina Célia Faria Amaro Giora (MACKENZIE) Bibliografia Guillermo Arias Beatón (Universidade Virgínia Kastrup (UFRJ) ISBN 978-85-444-3167-2 de La Havana Cuba) DOI 10.24824/978854443167.2 Jailson Alves dos Santos (UFRJ) João Adalberto Campato Junior (UNESP) 1. Psicologia 2. Plantão psicológico 3. Abordagem centrada na pessoa Josania Portela (UFPI) 4. relações humanas I. Tassinari, Marcia. org. II. Durange, Wagner. org. Leonel Severo Rocha (UNISINOS) III. Título IV. Série. Lídia de Oliveira Xavier (UNIEURO) Lourdes Helena da Silva (UFV) CDU 150 CDD 158.3 Marcelo Paixão (UFRJ e UTexas US) Índice para catálogo sistemático Maria de Lourdes Pinto de Almeida (UNOESC) Maria Lília Imbiriba Sousa Colares (UFOPA) 1. Psicologia 150 Maria Cristina dos Santos Bezerra (UFSCar) Paulo Romualdo Hernandes (UNIFAL-MG) ESTA OBRA TAMBÉM ENCONTRA-SE Renato Francisco dos Santos Paula (UFG) DISPONÍVEL EM FORMATO DIGITAL. Rodrigo Pratte-Santos (UFES) Sérgio Nunes de Jesus (IFRO) CONHEÇA E BAIXE NOSSO APLICATIVO! Simone Rodrigues Pinto (UNB) Solange Helena Ximenes-Rocha (UFOPA) DISPONÍVEL NO Baixar na Sydione Santos (UEPG) Google Play App Store Tadeu Oliver Gonçalves (UFPA) Tania Suely Azevedo Brasileiro (UFOPA) 2019 Foi feito depósito legal conf. Lei 10.994 de 14/12/2004 Proibida a reprodução parcial ou total desta obra sem autorização da Editora CRV Este livro foi avaliado e aprovado por pareceristas ad hoc. Todos direitos desta edição reservados pela: Editora CRV Tel.: (41) 3039-6418 E-mail: sac@editoracrv.com.br Conheça os nossos lançamentos: www.editoracrv.com.brÀ Rachel agradecemos sua c que nos abriu o car potencial doSUMÁRIO APRESENTAÇÃO 11 Marcia Tassinari PREFÁCIO 17 Vera Engler Cury CAPÍTULO 1 PLANTÃO PSICOLÓGICO CENTRADO NA PESSOA: um diálogo sobre a teoria e a prática 21 Marcia Tassinari Wagner Durange CAPÍTULO 2 CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA: a radicalidade do encontro como processo de promoção da saúde 43 Marcia Tassinari Wagner Durange CAPÍTULO 3 TEMPOS IDOS, TEMPOS VIVIDOS, TEMPOS MARCADOS: 50 anos do Plantão Psicológico e do Serviço de Aconselhamento Psicológico da USP 61 Maria Cristina Rocha CAPÍTULO 4 E ALTERIDADE: Kierkegaard e Lévinas no Plantão Psicológico 75 Sandra Souza Alice Vasconcelos Thayana Marinho Marcela FigueiredoCAPÍTULO 5 APRESENTAÇÃO SOFRIMENTO ÉTICO-POLÍTICO EM UM SERVIÇO DE PLANTÃO PSICOLÓGICO Marcia Tassinari CENTRADO NA PESSOA 93 Cláudia Monteiro Mariana Silva Trabalhar com a temática do Plantão desde 1998 tem sido Edson Bezerra uma aventura repleta de surpresas e reflexões, que foram ini- CAPÍTULO 6 cialmente sistematizadas na dissertação de Mestrado¹, na Tese ATITUDE LÚDICA NO ATENDIMENTO INFANTIL de Doutorado² e em palestras pelo Brasil e no exterior. A partir EM PLANTÃO PSICOLÓGICO CENTRADO de 2011, tenho sido acompanhada por jovens profissionais, que NA PESSOA 107 têm trazido as ousadias e o frescor próprios da juventude e que Edson Bezerra têm me provocado o suficiente para trilhar outros caminhos ao Cláudia Monteiro redor do tema. Sarah Santos Inicialmente, acompanhada por Ana Paula Cordeiro e Wag- ner Durange coordenamos o livro sobre o Plantão Psicológico (o CAPÍTULO 7 CARTOGRAFIAS DO PLANTÃO PSICOLÓGICO segundo no Brasil), quando apresentamos nossas perplexidades e convidamos outros autores para compartilhar as experiências PARA ADOLESCENTES EM CONTEXTO ESCOLAR 121 e reflexões que vinham se desenvolvendo em diversas partes Severina Araújo do Brasil. Estas se encontram no livro Revisitando o Plantão Luciene Rocinholi Psicológico Centrado na Pessoa³. CAPÍTULO 8 Desde então tenho o parceiroamigo Wagner Durange⁴ A CLÍNICA DOS EXTREMOS: tecendo aproximações (coautor deste livro) para repensar para onde os trabalhos de- entre a atuação em desastres e no Plantão Psicológico 141 senvolvidos nos diversos Serviços de Plantão apontam e en- contramos na reflexão sobre a Clínica da Urgência Psicológica Ticiana Paiva Karoline Pereira sua melhor expressão. CAPÍTULO 9 1 TASSINARI, Marcia Alves. Plantão Psicológico Centrado na Pessoa como promo- ção de Saúde no contexto escolar. Dissertação (Mestrado) Instituto de Psicologia. METAPLANTÃO: a riqueza da experiência formativa UFRJ, Rio de Janeiro, 1999. entre plantonistas 155 2 TASSINARI, Marcia Alves. A Clínica da urgência psicológica: contribuições da Aborda- gem Centrada na Pessoa e da Teoria do Caos. Tese (Doutorado) Instituto de Psicologia. Marcia Tassinari UFRJ, Rio de Janeiro. 2003. Andre Nerys 3 TASSINARI, M.; CORDEIRO, A. DURANGE, W. T. (Orgs.). Revisitando o Plantão Psicológico Centrado na Pessoa. Curitiba, PR: CRV, 2013. Adriana Abreu 4 Sou eternamente grata aos meus ex-estagiários, que têm me ajudado a repensar tanto Davi Moraes as questões da prática quanto da teoria e destaco aqueles que mais se empenharam em ir além do estágio supervisionado no curso de graduação: Adriana Abreu, Andre Nerys, SOBRE OS AUTORES 175 Camila Moreira, Davi Ferreira, Larissa Lamoglia, Lucas Pantaleone Arcuri, Marcia Carla Guimarães, Maria Cristina Letra de Oliveira.12 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 13 Escrevemos vários artigos e apresentamos estas ideias lhor parte do outro com o propósito de curar a mente, o corpo e a natureza, a essência da psicoterapia está, em eventos científicos no Brasil, Rússia, Romênia, Argentina de fato, sendo redefinida (p. 8). e Viena, tendo tido boa receptividade, sendo convidados para publicações em revistas internacionais, o que nos deixa felizes, Os organizadores ofereceram em 2013 o segundo livro por considerar que estamos expressando o que outros profissio- específico com a temática do Plantão, conforme mencionado nais percebem e necessitam. anteriormente. Nesse momento, a fundamentação teórica da Wagner, meu parceiro, provocador e ousado, me convenceu Abordagem Centrada na Pessoa foi privilegiada, já que nesta que era hora de outra publicação, de atualização dos trabalhos dos década, outros pesquisadores preferiram buscar diferentes funda- profissionais brasileiros e de consolidarmos nosso estudo sobre mentações teóricas de matizes mais existenciais, especialmente a clínica da urgência psicológica. E assim nasceu este volume: a partir de Heidegger. Estes autores continuaram se interessando O Plantão e a Clínica da Urgência Psicológica, contando com pela prática do Plantão, escreveram anteriormente a partir da a colaboração de outros parceiros ousados. Abordagem Centrada na Pessoa, mas agora entendem que Hei- Para os leitores interessados em conhecer um pouco mais degger fornece melhor apoio reflexivo à prática deles. dessa proposta do Plantão, como ela começou e por onde ela Em seguida, em 2015, os profissionais da Universidade tem caminhado até agora, remetemos às principais publicações Federal da Paraíba, liderados pela Dra. Sandra Souza, aden- em formato de livro, que reúne as reflexões mais importantes traram em diferentes contextos urbano e rural, com recursos das épocas de publicação. Ressaltamos aqui o primeiro artigo didáticos do teatro do fantoche, por exemplo, onde a inserção específico do Dr. Miguel Mahfoud, publicado em ainda do Plantão está fazendo uma grande diferença nas vidas das que a experiência do Plantão já tivesse adentrado no cenário Psi comunidades envolvidas, implementando ações para explorar, desde o final da década de 60. Vale a pena consultar a base de compreender, avaliar e praticar as possibilidades dos Serviços dados para conhecer as dissertações de Mestrado e as Teses de de Plantão, especificamente no nordeste, região ainda pouco doutorado disponíveis, além de artigos publicados em Revistas. contemplada pelas políticas públicas. Essas reflexões foram Em 1999, o Dr. Miguel Mahfoud organiza a obra Plantão então organizadas e publicadas no terceiro livro brasileiro: Psicológico: Novos onde apresenta reflexões dele Plantão Psicológico: Ressignificando humano na experiência e de vários pesquisadores, trazendo uma contribuição original da escuta e do no campo do Plantão. No prefácio Dr. Wood parecia tão entu- Ninguém melhor do que a Dra. Vera Cury, orientadora de siasmado, que afirmou: dezenas de dissertações de Mestrado e Teses de Doutorado, que gentilmente aceitou nosso convite para prefaciar o livro, con- Assim, ambos os participantes o plantonista e o templando ao mesmo tempo o momento conturbado no Brasil indagador(a) participam e se beneficiam de uma educação intuitiva cujo objetivo é a auto-realização. desde a criação do Plantão no final da década de 60, e o que está Em um encontro de pessoa a pessoa como este, onde acontecendo em nosso país na atualidade. Vera nos oferece um se procura dirigir a melhor parte de si mesmo a me- texto forte, contundente, que nos emociona, ao mesmo tempo em que denuncia as fragilidades das nossas políticas públicas. 5 MAHFOUD, Miguel. A vivência de um desafio: plantão psicológico. In: ROSENBERG, Rachel (Org.). Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa. São Paulo: EPU, 1987. (Temas Básicos de Psicologia, V. 21). 7 Organizadores: Sandra Souza, Francisco Bento da Silva e Liana Aparecida de Andrade 6 Publicado em São Paulo pela C.I. Montenegro. Curitiba, PR: Editora CRV, 2015.14 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 15 Citamos aqui a última frase do Prefácio, que ecoa fortemente do desespero e alteridade vão buscar em Kierkegaard e Lévinas em nossos corações e mentes e que representa nossa mensagem boas inspirações que complementam o legado de Rogers. principal aos leitores: Que esperança e otimismo nunca lhes E no capítulo 5, a reflexão de Cláudia Monteiro et al. nos faltem porque nas novas gerações depositamos nossos sonhos, presenteia o conceito de sofrimento ético-político de Sawaia, nossas lutas, nossa história. conceito este criado na interface entre subjetividade e sociedade, Este livro celebra meio século da criação do Plantão Psi- constituindo-se como uma categoria de análise da dialética cológico, que se inseriu de forma vigorosa no final da década exclusão/inclusão social. de 60, no Instituto de Psicologia da USP, sob a maestria da Dra. Edson Bezerra et al., no capítulo 6, apresentam um tema Rachel Rosenberg e seus alunos desejosos e esperançosos por ainda inédito nas publicações sobre o Plantão: atendimento in- uma Psicologia mais humana, que pudesse dar conta de tanto sofrimento da população desfavorecida. Somos eternamente fantil, quando compartilham os desafios que foram encontrando gratos à ousadia criativa da Dra. Rachel Rosenberg, do Dr. e, com sabedoria, mostram como algumas afirmações correntes Miguel Mahfoud, da Especialista Raquel Wrona, pioneiros, na Psicologia estão distantes do Plantão, por exemplo, pensar que nos brindaram com novos horizontes. que qualquer elaboração mais significativa em um atendimento Maria Cristina Rocha, no capítulo 3, faz uma reverência psicológico exige um tempo mais longo, duvidando-se da po- acurada destes 50 anos de atuação do Plantão no SAP Serviço tência de um único encontro; assim como a fantasia de que a de Aconselhamento Psicológico do IPPUSP, propondo-se resposta institucional ou devolutivas do plantonista iria iluminar a refletir sobre os grandes desafios do Plantão na atualidade, decisiva e absolutamente as questões trazidas para o atendimento. a saber: Como manter-se voltado para a experiência? Como O capítulo 7, através do trabalho de conclusão de curso das amparar a escuta privilegiando o tempo existencial? Como sus- autoras Severina Araújo e Luciene Rocinholi, estica limites tentar a proposta de plantão sem negar o modo de vida vigente da compreensão teórica do Plantão no contexto escolar, através e hegemônico? de uma abordagem esquizoanalítica e transdisciplinar, a partir Os dois primeiros capítulos, contribuição dos organizado- da utilização do método cartográfico para acompanhar a pro- res, ratificam nossa caminhada dos últimos cinco anos, através cessualidade da adolescência em suas singularidades reveladas de nossas reflexões sobre a clínica da urgência psicológica, que no plantão psicológico. encontra nas práticas do Plantão Psicológico seu melhor acolhi- Ainda nesta parte de temáticas não contempladas anterior- mento. Assim, oferecemos um diálogo no capítulo 1, apresentando mente, compartilhamos o trabalho de Ticiana Paiva e Karoline minha inserção no Plantão, destacando como o percurso do Rogers abriu passagem para desenvolvermos a radicalidade do encontro Pereira, no capítulo 8, direcionado às aproximações entre a clí- único, tema do segundo capítulo. Relendo as principais obras nica do Plantão Psicológico e a clínica dos extremos, mostrando de Carl Rogers, percebemos que a sua proposta de clínica, que as reflexões mais recentes na atuação em desastres e catástrofes. fundamentou toda a concepção teórica e as suas melhores ideias, Para fechar esta seção, os trabalhos dos meus ex-estagi- também apontava nesta mesma direção, só esperando quem po- ários em Plantão, Adriana, Andre e Davi, apontam a riqueza deria organizar e sistematizar melhor esse percurso. da facilitação da aprendizagem, no capítulo 9, apresentando Esse quarto livro sobre o Plantão Psicológico abrange fun- com originalidade e paixão os benefícios da ajuda mútua entre damentações e temáticas não contempladas anteriormente, por os plantonistas, no que eles denominaram de Metaplantão e a exemplo, no capítulo 4, Sandra Souza et. al, ao tratar da temática relação com a formatividade.16 Por último, mas não menos importante, agradecemos o PREFÁCIO aceite de nosso convite a todos os coautores, que nos doaram horas de suas aprendizagens e reflexões para compor o nosso canto "mágico" sobre os percursos, percalços e conquistas com Vera Engler Cury⁸ o Plantão Psicológico. E mais uma vez, parafraseando Dra. Vera Cury: Que esperança e otimismo nunca lhes faltem porque nas novas gerações depositamos nossos sonhos, nossas lutas, A publicação de uma obra comemorativa dos 50 anos da nossa história. implantação dos primeiros atendimentos de Plantão Psicológico no Brasil, tem o mérito de reconhecer a importância histórica Rio de Janeiro, fevereiro de 2019. desta modalidade de intervenção para a Psicologia em nosso país. Uma intervenção psicológica que se caracteriza por acolher demandas emergenciais das pessoas, sem intermediações e no momento imediato da busca por algum tipo de ajuda, pode não fazer muito sentido, nem ser necessária, em países mais desen- volvidos. Mas nos contextos brasileiros de saúde pública, espe- cialmente naqueles abertos à comunidade, problemas crônicos como a carência de profissionais, as dificuldades estruturais, a insuficiência de recursos, a escassez de verbas provenientes de municípios, estados e união e, infelizmente, a má gestão das políticas públicas, convergem para gerar demandas de difícil condução, se considerarmos as práticas psicológicas tradicio- nais. E foi assim que numa época tumultuada para a sociedade brasileira, num cenário político e econômico preocupante, no Serviço de Aconselhamento Psicológico da Universidade de São Paulo SAP um grupo de técnicos e de estagiários de psicologia perceberam e se sensibilizaram com a procura das pessoas da comunidade por algum tipo de atendimento imediato e sem exigências burocráticas. A escuta que eles começaram a disponibilizar de maneira espontânea e improvisada, sem agendamento, no momento 8 Doutora em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP; mestre em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo; es- pecialista em psicologia clínica pelo CRP/06, psicoterapeuta. É docente titular da Fa- culdade de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, PUC-Campinas. Exerce, desde fevereiro de 2018, 0 cargo de Coordenadora do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia da PUC-Campinas. Exerceu 0 cargo de Pró Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação da PUC-Campinas por duas gestões consecutivas, no período de 2006 a 2013, e de Pró Reitora de Extensão e Assuntos Comunitários no período de 2010 a 2017.PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 19 18 mesmo em que a pessoa solicitava ajuda, teria sido facilmente psicológico desencadeado no cliente, são bons indicadores para desconsiderada não fosse Dra. Rachel L. Rosenberg a Coorde- tal análise. Como professora universitária, pesquisadora, psicó- nadora desse Serviço à época. O que a distinguia? Uma sólida loga clínica e entusiasta deste tipo de intervenção, eu teria bons formação como docente universitária e pesquisadora, assim como argumentos para subsidiar uma resposta afirmativa. seu engajamento com os norteadores teóricos e epistemológicos Mas, enquanto escrevia este prefácio, o repentino rompi- da psicologia humanista. As diversas experiências vividas em mento de uma barragem, sob responsabilidade de uma grande grupos de encontro e encontros de comunidade, liderados por empresa mineradora, abateu-se sobre a linda e bucólica cidade Carl Rogers e sua equipe de colaboradores no Center for Studies mineira de Brumadinho, tornando-a irreconhecível. Mais uma of the Person em La Jolla na California, e em diversos outros tragédia anunciada, temida, desnecessária e cruel que em minu- lugares e países, incutiram-lhe um profundo respeito pela singu- tos sepultou com lama e detritos minerais centenas de pessoas, laridade e autonomia das pessoas e um compromisso ético com animais e plantas. Ceifou vidas, sonhos e projetos, destruiu fa- o exercício da profissão, devotando especial atenção às pessoas mílias, arruinou córregos, matou plantações, ainda ameaça rios; e grupos mais vulneráveis da sociedade. Rachel estava sempre manchou com um feio e monótono tom marrom avermelhado a aberta a novas propostas no âmbito das práticas psicológicas, paisagem antes rica em vegetação e cores. Atônita e desorien- trazendo em si o desassossego e o inconformismo que fomentam tada, entrei em contato com colegas da UFMG e da PUC-Minas. ações inovadoras. Acima de tudo, era alguém que se importava com o sofrimento humano em suas múltiplas expressões e para Respondeu-me imediatamente Dr. Miguel Mahfoud, o mesmo quem formar psicólogos implicava em valorizar as vivências que como psicólogo recém graduado e contratado como técnico pessoais dos alunos, colocando suas à prova na do Serviço de Aconselhamento da USP nos idos da década de prática cotidiana dos estágios em contextos naturais. Por estas e setenta, foi um dos primeiros a atuar e escrever sobre o Plantão por outras razões, mas acima de tudo, em função das pessoas e Psicológico numa obra publicada em 1987 intitulada "Acon- das características e especificidades do próprio serviço, emergiu selhamento Centrado na Pessoa". Amigo de tantas parcerias a semente do Plantão Psicológico do rico solo do SAP. desde a Pós-Graduação da USP, coautor em livro, criador do Desde então, muitos de nós fizemos parte de iniciativas site "ao pé do fogo" que discorria sobre experiências vividas semelhantes em outros contextos, áreas e finalidades, que con- nos plantões psicológicos em escolas e clínicas e, atualmente, tribuíram para constituir e consolidar o plantão como um tipo colega no Grupo de Trabalho da ANPEPP, intitulado "Psicolo- de atenção psicológica específica e qualificada que vem sendo gia e ele contou-me que muitos psicólogos já implementada e praticada nas últimas décadas, além de ser tema haviam se dirigido espontaneamente a Brumadinho para dispo- de dezenas de dissertações de mestrado e teses de doutorado, nibilizar plantão psicológico aos sobreviventes e aos familiares gerando artigos publicados em revistas científicas nacionais e das pessoas falecidas ou dadas como desaparecidas. internacionais e inúmeros capítulos de livros. Esta obra acres- Lembrei-me, então, de muitos outros amigos, psicólogos centa mais uma produção pertinente e atual sobre o tema. humanistas, com os quais convivo há muito tempo e cujas ativi- O Plantão Psicológico pode ser considerado como uma mo- dades precursoras na supervisão a alunos estagiários, orientação dalidade de intervenção psicológica inovadora? Esta pergunta é a mestrandos e doutorandos, assessoramentos, consultorias e recorrente nas publicações acadêmicas e científicas. Suas caracte- na condução de pesquisas científicas sobre plantão psicológico rísticas, os contextos nos quais foi implantado, a relação interpes- têm contribuído para trazer protagonismo e criatividade à nossa soal vivida entre plantonista e cliente, o processo de crescimento profissão em muitas instituições brasileiras: Marcia Tassinari20 no Rio de Janeiro, Virgínia Moreira e Georges Boris no Ceará, CAPÍTULO 1 Henriette Morato em São Paulo, Mauro Amatuzzi em Campi- nas, Elza Dutra no Rio Grande do Norte, Carmem Barreto em PLANTÃO PSICOLÓGICO Pernambuco, e para além deles, as diversas gerações de alunos CENTRADO NA PESSOA: que nos sucederam. Somos todos herdeiros do legado da Abordagem Centrada um diálogo sobre a teoria e a prática na Pessoa (ACP) que nos impactou para sempre por meio do pioneirismo e dedicação de Carl R. Rogers, John Wood, Maureen O'Hara e Rachel Rosenberg. Professores universi- Marcia Tassinari tários, pesquisadores e psicólogos clínicos que sonharam um Wagner Durange mundo mais livre e uma Psicologia mais justa e igualitária. Inexoravelmente psicólogos, sentimo-nos incapazes de silen- Introdução ciar diante do sofrimento humano ou de nos omitirmos face às injustiças sociais. Neste trabalho, vamos compartilhar aspectos básicos da Este livro intenta demarcar um período e consolidar uma teoria e da prática do Plantão Psicológico modalidade de prática. Foi escrito a muitas mãos e apresenta iniciativas e atendimento psicológico que tem sido pesquisada e aplicada análises interessantes e pertinentes sobre o plantão psicológico por outros autores (ROSENBERG, 1987; MORATO, 1997; em suas mais diversas versões e contextos, inventando e rein- MAHFOUD, 1999; TASSINARI, 1999; TASSINARI, 2003; ventando de maneira semelhante àquela vivida intensamente TASSINARI; CORDEIRO; DURANGE, 2013; SOUZA; SILVA pelas gerações anteriores. Que suas páginas possam ser lidas FILHO; MONTENEGRO, 2015) desde 1969. por graduandos, profissionais, pesquisadores, gestores e por Partindo do seu surgimento no Brasil, através de inspirações todos aqueles que se interessam pelo bem-estar humano e que norte-americanas e nos pressupostos da Abordagem da Pessoa se sentem pessoalmente compelidos a desenvolver ações trans- de Carl Rogers, serão tratados aspectos nos quais acreditamos formadoras de cunho solidário. serem basicamente os mais relevantes para a compreensão do Que os ideais que nos conduziram até aqui encontrem plantão psicológico: sua natureza e fundamentação; os seus interlocução e morada naqueles que iniciam suas trajetórias tipos operativos; experiências em sua implantação; o que temos profissionais como psicólogos num momento tão conturbado e aprendido, através do ensino, da prática, pesquisas e publicações. incerto da vida nacional. Que esperança e otimismo nunca lhes Este capítulo é uma revisão do trabalho apresentado pelos faltem, porque nas novas gerações depositamos nossos sonhos, autores sob o título: A Clínica da Urgência Psicológica: A ra- nossas lutas, nossa história. dicalidade da relação na atenção Em setembro de 2018, um dos autores apresentou a conferência: Mas allá de Campinas, fevereiro de 2019. la psicoterapia: la atención psicológica de las urgências em contextos desfavorecidos¹⁰. 9 XII Fórum Brasileiro da Abordagem Centrada na Pessoa, em Maringá, PR, em 2017. 10 Colóquio Mexicano de Investigación en Desarrollo Humano, Universidade Veracruzana, Xalapa, México.22 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 23 Para apresentarmos este capítulo, utilizaremos o formato de ou Serviço de Psicologia Aplicada. Posteriormente, ao ler a pri- diálogo, e convidamos com entusiasmo o leitor a participar desta meira publicação sobre o Plantão Psicológico (ROSENBERG, "roda de conversa" sobre o plantão psicológico. Esperamos que 1987) e, em conversas pessoais com a Psicóloga Raquel Wrona, seja um diálogo significativo para todos nós. que ofereceu o Primeiro Serviço de Plantão Psicológico aberto à comunidade (MAHFOUD, 1999), fui me encantando com esta A natureza e a fundamentação do Plantão Psicológico possibilidade de escuta potente em situações variadas. Por outro lado, ficava atenta ao sofrimento de meus es- Durange: É uma grata satisfação, continuarmos com o tagiários em função do alto índice de abandono dos clientes diálogo sobre o plantão psicológico. Espero que se torne um em psicoterapia, o que os deixava inseguros e sem saber o que texto vivo e interessante para os leitores. fizeram de errado, pois a maioria desses clientes não retornava Tassinari: Essa sua ideia de refletirmos em forma de diálogo foi uma boa provocação, que nos convida a uma organização para dar algum feedback. Meus colegas supervisores também observavam o mesmo fenômeno e entendiam que era devido das ideias de maneira mais criativa e talvez mais motivadora à resistência dos clientes e também à ansiedade dos estagiá- para os leitores. Este tema do plantão psicológico tem sido precioso para nós dois. rios, portanto não podíamos fazer nada. Mesmo concordando Durange: Ter sido estagiário de plantão psicológico foi parcialmente com meus colegas, achava que devia haver outra muito enriquecedor e determinante para a minha carreira de variável que pudesse ser responsável pela desistência precoce dos psicólogo e psicoterapeuta. Olhando para trás, posso dizer que, clientes. Achei subsídios em Talmon (1990, 1993), pesquisador ter estudado e praticado o plantão psicológico desde a gradua- americano, que desenvolveu o trabalho de Terapia de Sessão ção, fez total diferença em minha compreensão (e atuação) com Única, baseado nas seguintes constatações: todas as terapias relação à atenção psicológica. começam na primeira sessão; frequentemente uma única sessão é Tassinari: Depois de experimentar algumas alternativas fui suficiente; a primeira sessão tende a ser a mais efetiva, poderosa aprendendo que iniciar a formação do estagiário na Abordagem e importante, independente da duração da terapia. Centrada na Pessoa (ACP) pelos atendimentos no Serviço de Por um período de cinco anos, este autor realizou um survey Plantão Psicológico potencializa a escuta clínica na psicoterapia, a partir de 100.000 consultas e comparou-o com outros estudos propiciando assim uma melhor familiaridade com os princípios semelhantes (KOGAN; BLOOM; SILVERMAN; BEECH apud norteadores da ACP, através da aprendizagem significativa. TALMON, 1990). Posteriormente fez entrevistas de follow-up Durange: E como foi o seu primeiro contato com o plan- com 200 de seus clientes particulares, que decidiram não retornar tão psicológico? após a primeira sessão, mesmo tendo sido orientados a fazê-lo. Tassinari: Iniciei meu percurso de psicoterapeuta logo O terceiro tipo de pesquisa baseou-se em 60 tentativas de forne- após a graduação em Psicologia, em 1975, quando fundamos cer Terapia de Sessão Única, "onde cliente e terapeuta estavam o Centro de Psicologia da Pessoa, no Rio de Janeiro. No ano cientes dessa condição, mas com a opção de terapia em longo seguinte, iniciei a carreira docente, quando cursava o primeiro prazo se e quando indicada" (Op. cit., p. 11). Mestrado. Em 1989 conheci o trabalho do Professor Miguel Para surpresa desse pesquisador, 88% de seus clientes do Mahfoud sobre o Plantão Psicológico em escola (MAHFOUD, estudo de follow up relataram ter obtido o que desejavam na- 1989) e, nesta época estava atenta ao número elevado de pessoas quela única consulta. O autor considera também que as pesquisas que desistiam precocemente da psicoterapia nas clínicas-escola representam um desafio para os psicoterapeutas, no sentido24 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 25 de tentar maximizar e planejar o potencial extraordinário da alguns querendo desenhar, ou contar piadas ou acompanhar os primeira entrevista. colegas e outros sem explicitar o que queriam. No meio da alga- Essa modalidade de atendimento psicológico parece zarra, comecei a colocar alguns limites e convidei-os a decidir o funcionar no sentido de atender à urgência das pessoas que que faríamos, já que os interesses eram conflitantes e as cadeiras necessitam ser ouvidas naquele momento especial. Nota-se e material expressivo eram insuficientes. Decidimos que iríamos que, mesmo diante da possibilidade de retornos, as pessoas nos apresentar (eu já conhecia alguns) e R., me ajudou a manter os escolhem apenas uma sessão, quando se sentem atendidas limites (falar um por vez, não empurrar). Após as apresentações, naquilo que foram buscar. começamos a conversar, o que foi logo em seguida interrompido Durange: Pelo visto, a ousadia desta proposta deve ter te por outro aluno, avisando que a professora já estava em sala e fascinado, pois tanto em sua dissertação de mestrado quanto todos saíram correndo. R. avisou-me que retornaria. Quinze em sua tese de doutorado você abordou a temática do plan- minutos depois, reaparece R., acompanhado da sua professora, tão psicológico. que me pediu que conversasse um pouco com ele. Perguntei se Tassinari: Como praticante da Abordagem Centrada na ele também queria, consentiu sorrindo e encaminhou-se direto à Pessoa (psicoterapeuta, professora, supervisora e facilitadora mesa para desenhar. Tentando saber porque veio trazido pela pro- de grupos) e atenta à atualização e desenvolvimento da própria fessora, recebi respostas evasivas: "Vim porque sou compositor Abordagem, resolvi retornar aos bancos escolares na década de da turma", "A Professora gosta de mim porque respeito ela". Mas 90 para aprofundar o que vinha percebendo na prática, ou seja, R. queria mesmo era desenhar a bandeira brasileira, e começou será que a psicoterapia conforme a entendemos e praticamos, a tarefa, enquanto cantarolava algo que eu não entendia. Tentei é suficientemente boa para todas as pessoas sempre? Será que explorar sua faceta de compositor e ele cantou uma música que podemos oferecer outras modalidades de atenção psicológica fez para a professora e, em seguida, se ofereceu para fazer uma efetiva? Uma conjunção formativa de fatores encaminhou-me música para mim, compondo um rap cujo conteúdo básico era a para experimentar a possibilidade de estudar as fertilidades de finalidade do Plantão: "aqui é um lugar de 'conversamento', de um espaço de escuta no ambiente escolar, o que gerou um estudo fazer experiências e a tia Marcia pode me de caso no contexto escolar, temática principal da dissertação Continuando a desenhar a bandeira, pediu-me para escrever de Mestrado (TASSINARI, 1999). Neste contexto eu era tanto "aquela frase que tem na bandeira, que eu esqueci". Suspei- a plantonista quanto a supervisora e a pesquisadora. A pesquisa tei que seu pedido fosse por não saber escrever e, então, falei na escola durou quatro meses, mas eu e minha equipe perma- "Ordem e Progresso". R. insistiu para que eu escrevesse a frase necemos lá por mais dois anos. Foi lá que realmente aprendi a em seu desenho, pois lápis cera não estava muito firme". importância do atendimento no momento da necessidade, sobre Perguntei diretamente se ele precisava de minha ajuda por não a empatia relacional e o que estamos agora aprofundando: a saber escrever muito bem. Ele desconversou, cantarolando radicalidade do encontro. outra música e aí tive um insight: comecei a conversar com ele Para ilustrar, apresento um atendimento especial, que tive o também cantarolando, no mesmo ritmo (rap). R. olhou para mim privilégio de vivenciar como plantonista e que foi publicado em com uma expressão mista de surpresa e cumplicidade, sorriu e Carrenho, Tassinari e Pinto (2010). Trata-se de um menino, R., de continuamos a conversar cantando. 12 anos, da série do ensino fundamental, que veio a primeira A partir deste momento, R. pôde falar de si (cantando), vez acompanhado de um grupo de quatro meninos e duas meninas, de sua família, de seu parceiro musical, que o acompanhou ao26 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 27 "Programa famoso de TV" para cantar, e que depois foi assassi- estou interessada não quer saber de mim". Disse-me também nado na chacina no Rio de Janeiro. Falou que já havia fugido de do interesse que tem em desenhar, mas não pode frequentar as casa duas vezes, que tinha três irmãs e uma havia sido vendida aulas de artes por não saber escrever. Antes de sair fez o meu (sic) pela avó quando a mãe fora baleada e agora tinha uma irmã coração (sic), cor de rosa, com meu nome escrito no centro. recém-nascida (22 dias) de quem gostava muito. Falou da ver- Como R. apresentava dificuldade para escrever, fui soletrando, gonha que tem por não saber escrever direito e que precisou sair ele escrevendo, demonstrando muito prazer em fazê-lo correta- da escola na época da chacina, vindo morar em próximo à escola mente. O quarto desenho levou de presente para a mãe. (em um bairro da zona sul) com a mãe, o padrasto e a irmã mais Minha emoção ficou evidente, ao perceber que, cantando, nova. Olhava-me com ternura, dizendo "seu nome é parecido com ao invés de conversar, estabeleci uma "ponte" entre nós, criando de minha mãe, que se chama M... e vocês são até parecidas." uma linguagem comum. Não estávamos mais isolados. Interes- Terminou o desenho e fez mais duas bandeiras, variando sante notar que, cantar para mim, é extremamente constrangedor, as cores e, agora, copiando a frase "Ordem e Progresso", de- pois sou muito desafinada. Pude ousar por também me sentir monstrando certo orgulho em estar sendo capaz de copiá-la aceita por ele. A percepção de R. de que eu o compreendia sem "direitinho" (sic). Uma bandeira seria para levar para a mãe julgamentos, levou-o a falar de si cantando. Antes estava se e a outra, me deu de presente. Ao sair disse-me que era muito esquivando, dando respostas evasivas, não me permitindo entrar bom ir ao Plantão, poder contar os segredos e desenhar. Saiu em seu mundo interno. saltitante, dizendo que voltaria na próxima semana. O meu interesse genuíno em acolher sua experiência levou A solidez de nosso vínculo interpessoal foi legitimada na à maior autenticidade de R., na atualização de suas potenciali- semana seguinte, quando encontrei R. me procurando na escola dades. Em um curto espaço de tempo, ao redor de 25 minutos, e, meio zangado, disse: "A sala do Plantão já está aberta desde às oito horas e pensei que você não viesse hoje." Neste dia, o estávamos próximos. A partir disso, ele pôde se revelar mais, colégio havia organizado a feira de ciências e a maioria dos alunos clarear seu pedido de ajuda, ser mais ele mesmo, falar de suas estava ocupada nas diversas barracas. Como não conseguia achar facetas pouco aceitas (não saber escrever, ter fugido de casa, não o inspetor responsável pela chave da sala, fiquei passeando pela conseguir conquistar a garota que deseja, não poder frequentar feira, julgando que não haveria alunos interessados no Plantão, a aula de artes e ser repetente) e também das coisas que gosta, nesse dia. Fomos juntos para a sala do Plantão e agora R. podia de seus valores (da irmã recém nascida, da forte ligação com a conversar mais abertamente, através do desenho, não necessitando mãe, ser torcedor do Flamengo, gostar de cantar e de compor de usar somente a música para se expressar. músicas, de desenhar, da professora que o valoriza, da sala do Nesse atendimento desenhou quatro corações, cortados por Plantão etc.). flechas, dois deles chorando (gotas escorrendo). Comentei, num O retorno ao Plantão, explicitando o desejo de R. em con- tom brincalhão: "Você sabia que desenho fala?". Confirmou tinuar clareando sua aflição demonstra a possibilidade desse com a cabeça, sorrindo. Quando fez o segundo coração, que serviço como gerador de movimentos, funcionando como uma chorava menos (quantidade menor de lágrimas escorrendo), referência existencial. É como se R. tivesse percebido que en- comentei: "Agora que você pode falar de sua tristeza, coração contraria um espaço de liberdade, onde poderia se expressar, ser está menos triste". Ele não respondeu e, em seguida falou: "Você entendido, começar a se aceitar e avançar no autoconhecimento: não sabe que desenho fala?" e complementou: "A garota que "Somos agentes de mudança social quando colaboramos em28 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 29 planejamentos institucionais, quando oferecemos nossa presença psicológico e temos percebido que a diferença é bem sutil por no cotidiano da comunidade.." (ROSENBERG, 1987, p. 11). um lado, mas que o paradigma que regula uma e outro é bem Durange: É um relato de atendimento fascinante! Fica diferente. Enquanto entendermos a psicoterapia como trata- evidente a potência terapêutica de um encontro centrado na mento, que necessita ser feito com um ritmo semanal, durante pessoa. Este exemplo ressalta também três dos critérios pro- um tempo relativamente longo, para todas as pessoas que nos postos por Wood (2010) de definição do que é Abordagem procuram, pensamos o plantão psicológico como um atendimento Centrada na Pessoa: a intenção de ser eficaz em seus objetivos, que tem no encontro o seu eixo principal e, assim, pode ocorrer uma flexibilidade de pensamento e ação e uma tolerância com em qualquer tempo e duração e em qualquer local e contexto. a incerteza e a ambiguidade. O movimento da saúde parece ser o motor que dirige a pessoa Tassinari: Sim, e com os desdobramentos que essa experi- tanto para a psicoterapia quanto para o plantão psicológico, ência me proporcionou, adentrei no plano mais teórico, quando com a diferença que a frequência neste ocorre mais espon- fui procurar subsídios na Teoria do Caos, complementando a taneamente, no momento da necessidade-urgência, enquanto Abordagem Centrada na Pessoa (ROGERS, 2009), tema de que na psicoterapia, com as consultas pré-agendadas, cria-se a minha tese de doutorado (TASSINARI, 2003), para melhor fun- necessidade-urgência. damentar a complexidade do encontro que provoca movimento Os psicoterapeutas que se aventuraram pelo caminho do de saúde nas partes envolvidas e até na instituição/contexto. plantão psicológico precisaram renunciar aos esquemas prévios A partir disto, esbocei a primeira aproximação para uma e protegidos da psicoterapia para se lançar em terrenos pouco clínica da urgência psicológica, procurando fundamentar a conhecidos com a única certeza que, do encontro pode emergir importância do momento inicial do processo de mudança psico- múltiplas possibilidades com as mesmas atitudes facilitadoras lógica, através da Teoria do Caos em sua intenção de trabalhar de congruência, compreensão empática e consideração positiva com fenômenos complexos que apresentam dependência em incondicional, partindo do postulado das Tendências Atualizante relação às condições iniciais. Utilizei a Teoria do Caos como e Formativa (ROGERS, 2009). Esses princípios norteadores, potente metáfora para compreender de que maneira esse mo- descritos por Rogers e colaboradores em inúmeros livros e mento inicial pode ser significativo a longo prazo, trazendo artigos serão apenas mencionados aqui, e a bibliografia cor- alterações de perspectivas, muitas vezes deflagradas em uma respondente será devidamente oferecida, especialmente Wood única consulta psicológica. (2010) e Carrenho, Tassinari e Pinto (2010). Durange: Compreendo. É importante destacarmos que Durange: Apesar de o plantão psicológico ter se expandido a clínica da urgência psicológica conforme a entendemos, é a para diversas partes do país, e atualmente ter ganhado espaço clínica baseada em um paradigma da complexidade, da forma- nas apresentações de fóruns, publicações de livros, artigos e tividade e quântico, que rompe com o tempo e espaço, portanto, teses, e ser trabalhado em cursos e palestras, o seu surgimento é uma clínica da radicalidade do encontro, que tem emergido ocorreu em 1969 na USP. através dos atendimentos do plantão psicológico. Neste sentido, Tassinari: Sim, e é interessante ressaltar que esta modalidade um encontro pode ser o suficiente para deflagrar mudanças e de atendimento psicológico demorou cerca de quatro décadas perspectivas promovendo o movimento contínuo da saúde. para florescer. Foi devido à superação de alguns paradigmas so- Tassinari: Exatamente. Anteriormente nos preocupamos cioculturais, viabilizada pelo advento da pós-modernidade, que em elucidar algumas diferenças entre psicoterapia e plantão o plantão psicológico começou a ser utilizado como proposta de30 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 31 atenção psicológica. É um tipo de serviço com muitos elemen- nota-se um número crescente de profissionais e instituições tos pós-modernos, o que possibilitou o seu ressurgimento no inovando seus atendimentos, encontrando no plantão psico- século XXI. Conforme afirmamos anteriormente (TASSINARI; lógico resposta a muitas de suas inquietações, em especial a DURANGE, 2012): aplicabilidade da Psicologia em instituições. Tassinari: Sim, é verdade. É importante fazermos outro [...] o plantão psicológico nasceu póstumo pois a destaque, e adotarmos aqui, as pistas oferecidas pelos trabalhos sua natureza emerge e ganha sentido somente com o acadêmicos (TASSINARI, 1999, 2003) para uma aproximação da advento da pós-modernidade em seu berço liquefeito. Podemos dizer que somente agora, o seu verdadeiro definição de plantão psicológico como um tipo de atendimento potencial rompe as barreiras, escoando e causando mo- psicológico, que se completa em si mesmo, realizado em uma bilizações, o que vêm contribuindo significativamente ou mais consultas sem duração predeterminada, objetivando para a transformação da psicologia moderna (p. 10). receber qualquer pessoa no momento quase exato de sua neces- sidade para ajudá-la a compreender melhor sua urgência e, se É como se esse espaço de escuta não pudesse ter flores- necessário, encaminhá-la a outros serviços. Tanto o tempo da cido no solo da clínica psicológica clássica. Assim entendemos consulta, quanto os retornos dependem de decisões conjuntas que, após as primeiras experiências na década de 60, ele foi (plantonista/pessoa) no decorrer do atendimento. É exercido por retomado na década de 80 por Wrona e Mahfoud (1999), em psicólogos que ficam à disposição das pessoas que procuram contextos diferenciados da clínica psicológica: um voltado para espontaneamente o Serviço em local, dias e horários preesta- a comunidade e outro na escola, respectivamente. Nas palavras belecidos, podendo ser criado em diversos locais e instituições. de Tassinari & Durange (2012): O atendimento em Plantão não visa somente uma catarse, ainda que a inclua, mas objetiva facilitar uma maior compreensão Neste sentido, talvez, uma das explicações para os poucos da pessoa e de sua situação imediata. O plantonista e o cliente vão brotos e flores que o plantão psicológico tenha ofertado na era moderna foi a de que as sementes foram jogadas juntos procurar no "momento-já" as potencialidades inerentes em "solo-clima" pesado, rústico e duro (a modernidade). que podem estar adormecidas ou que precisem ser deflagradas Mas, além desta terra estéril, podemos refletir sobre quatro a partir de uma relação calorosa, sem julgamentos, onde a es- coadjuvantes desta esterilidade: à Psicologia como uma cuta sensível e empática, a expressividade do plantonista e seu invenção da modernidade; a ditadura militar brasileira; genuíno interesse em ajudar, desempenham papel primordial. à cultura brasileira vigente; e as reformulações teórico- -prática da ACP (p. 6). Durange: Conforme aprendemos através das pesquisas que você desenvolveu, entende-se o plantão psicológico como Vale ressaltar que a primeira dissertação de mestrado (TAS- um ato de promoção da saúde, já que a escuta do plantonista SINARI, 1999) é defendida no final da década de 90, na mesma visa possibilitar que a pessoa se situe melhor naquele momento, época do lançamento do primeiro livro (MAHFOUD, 1999), e consiga clarear para si mesma o que necessita. Acreditamos apresentando as experiências que estavam sendo desenvolvi- que ser atendida no momento mais próximo de sua necessidade- das em São Paulo, Campinas e Belo Horizonte, todas inseridas -urgência, por iniciativa própria, estimula o cuidado consigo em ambientes acadêmicos, insinuando assim seu melhor solo: mesma, atingindo assim os objetivos da prevenção primária. instituição e comunidade. Tassinari: Além disso, um aspecto importante da natureza Durange: E a primeira sistematização pública apareceu no do plantão psicológico é o entendimento sobre a dimensão final da década de oitenta (ROSENBERG, 1987). Atualmente, psicológica de urgência e emergência. necessário esclarecerPLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 33 32 a utilização da ideia de urgência para expressar a amplitude que a pessoa configure melhor sua urgência, seus recursos, suas da reflexão. As palavras urgência, emergência e crise possuem ações e amplie o cuidado consigo mesma, atingindo os objeti- significados semelhantes, indicando aparecimento repentino vos da promoção da saúde. Como desdobramento desse pronto de algo que necessita de uma ação imediata, conforme nos atendimento, podem-se construir em conjunto encaminhamentos apresenta o Dicionário Petit Robert (1990). Por outro lado, para outros serviços. a palavra urgência, também derivada do latim urgere, puxar, Em minha tese de doutorado (TASSINARI, 2003), aproveito pressionar, indica necessidade de agir rapidamente. Do ponto a metáfora da Teoria do Caos e dos novos paradigmas da ciência de vista médico, Goldim (2003) distingue emergência da urgên- para reforçar a ideia de que o plantonista precisa ter "em mente cia, reafirmando maior gravidade para a primeira. Na história que cada momento do encontro pode deflagrar mudanças a longo da Psiquiatria, vemos que a ideia de emergência e urgência, prazo, que a vivência de desordem instaurada pela urgência pode relacionadas à enfermidade e periculosidade, legitimavam a levar à ordem e ambas ordem e desordem podem coexistir. internação psiquiátrica (DE PLATO, 2003). Implica também o consentimento das verdades tateantes. Assim, Algumas universidades americanas oferecem Serviço de em um mesmo atendimento, vivências contraditórias podem Emergência ou intervenção em crise, "através dos centros de encaminhar uma síntese construtiva. Acolher a urgência não aconselhamento, diferenciando crise emergente de crise urgente, tem como intenção principal ajudar. Se, a partir daí, a pessoa se sendo a primeira definida em função do risco que a pessoa pode sentir ajudada, será uma consequência direta das transformações estar causando a si própria ou a outros, a partir de overdose ou de operadas por ela a partir do (e durante o) atendimento" (p. 131). um surto psicótico. Consideram a urgência psicológica quando a pessoa se encontra perturbada emocionalmente ou é incapaz Tipos operativos do plantão psicológico de se cuidar, criando respostas adversas em seu meio ambiente. Conclui-se, assim, que a urgência é menos grave do que a emer- Durange: Além da clínica escola e do consultório, tive a gência" (TASSINARI, 2003, p. 130). oportunidade de realizar atendimentos de plantão psicológico Durange: Esta diferenciação é sutil e importante. Mas em projetos sociais nas comunidades. São experiências incrí- entendo que devemos superar o paradigma psicopatologizante veis. E a cada dia, vemos o plantão psicológico inserido em influenciado pelo tradicional modelo médico de diagnóstico- novos contextos. Os que mais têm me chamado a atenção são -doença, e avançarmos numa dimensão própria da experiência os atendimentos realizados nas praças, nas ruas, e agora por psicológica e promoção da saúde. E como você tem enfatizado: meio da Intenet (CFP, 2018), ampliando a atenção psicológica a pessoa que está vivenciando algum desconforto emocional (de radicalmente, algo que era inimaginável há poucos anos. qualquer magnitude) tem seu centro de poder deslocado e que Tassinari: Através das publicações entramos em contato com a diversidade de contextos onde o Serviço de Plantão (com procura por um pronto atendimento, está ciente de sua urgência. Tassinari: Neste sentido, propomos uma clínica da urgência nomes diferenciados) tem sido criado. Incialmente surgiu na psicológica e não da emergência, no intuito de esvaziar o viés clínica-escola como a porta de entrada dos usuários e depois foi adentrando em outros locais, tais como: escola desde o ensino psicopatologizante da emergência (ou crise), e de repensar a função do psicólogo como um agente promotor da saúde, que tem fundamental das redes privada e pública, na comunidade, no o cuidado como seu guia principal. Esse acolhimento, pautado CREAS/SUAS, no centro de convivência à terceira idade, na pelos princípios da Abordagem Centrada na Pessoa, possibilita Saúde Privada (convênio com Plano de Saúde), no hospital geral34 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 35 e no hospital psiquiátrico, no CTI, nas Instituições de Defesa problemas, o serviço de plantão psicológico visa a promoção e de Direito (Varas de família, Presídios, Defensoria Pública, de saúde (individual e coletivo). Conselho Tutelar), em parcerias com projetos sociais (Dançando Tassinari: Talvez, isso ocorra pelo entendimento da psico- para não dançar; mulheres vítimas de violência doméstica, Ins- logia apenas como psicoterapia, como um método de tratamento tituto Transformar), no consultório particular, na ouvidoria etc. visando uma cura ou correção e ajustamentos de comportamentos (TASSINARI; CORDEIRO; DURANGE, 2013). etc. Vale lembrar, que o próprio Rogers (1946), em suas experi- Nestes contextos temos aprendido muito sobre o humano ências com veteranos de guerra, não se apropriou da fecundidade e sobre as nossas ações enquanto profissionais da saúde. Na do que ele próprio denominou como Contato Casual no trabalho segunda experiência de Plantão aberto à comunidade, Rosenthal com veteranos de guerra. (MAHFOUD, 1999) oferece ótimo esclarecimento da proposta: Experiências em sua implantação "Precisamos esclarecer que nossa proposta não era criar um serviço para emergências psiquiátricas e sim ofere- cer escuta imediata, recebendo a pessoa no momento Durange: Devido a estas e outras questões, criar um serviço da dificuldade, sem que necessariamente a dificuldade de plantão psicológico não é algo tão simples quanto parece. tivesse atingido um ponto crítico que representasse ameaça Mas, os tipos de plantão psicológico citados anteriormente iminente à sua integridade ou à de outros. [...] O Plantão são boas fontes de inspiração para os interessados neste tipo Psicológico não foi concebido como uma alternativa de intervenção. 'tampão' para acabar com filas de espera em serviços de Tassinari: Exatamente. Em cada ambiente, precisará assistência psicoterapêutica, já que não pretende substituir criar estratégias específicas, desde sua divulgação (processo a psicoterapia" (p. 19). de sensibilização à comunidade) até sua relação com a própria instituição/local. A autora Rosenthal (MAHFOUD, 1999), a partir desta expe- Durange: Poderia explicar um pouco mais sobre a criação riência de quase dois anos, encarada como um programa-piloto, do plantão psicológico? Talvez, expor o que você considera acredita que o plantão psicológico preencheu quatro funções: fundamental, poderia auxiliar quem esteja interessado em iniciar um projeto numa instituição/local. "ajuda no reconhecimento de problemas e conflitos ainda não identificados; apoio em situação de isolamento na Tassinari: Basicamente, considero alguns pontos impor- cidade grande; orientação e esclarecimento de natureza tantes: 1) Que a coordenação compreenda o papel do plantão quase didática e oportunidade de desmitificação do papel psicológico para a sua respectiva instituição, e assuma a res- do psicólogo, como ocasião de esclarecimento de fantasias ponsabilidade conforme definido em acordo com os planto- ou preconceitos em relação à sua atuação" (p. 8). nistas. 2) Que os colaboradores da instituição também sejam sensibilizados, de forma a facilitar o processo como um todo. 3) Durange: Comumente, ouvimos alguns profissionais destas Sensibilização constante na instituição, para que o serviço ganhe instituições afirmarem, que ter um psicólogo de plantão ajudaria visibilidade e abrangência. 4) Sempre manter um bom canal de a resolver os problemas. Esta é uma visão equivocada, por dois comunicação entre todos. 5) Treinamento prévio dos plantonis- motivos: 1) uma coisa é ter um psicólogo de plantão com uma tas, pois cada instituição tem a sua particularidade história e postura de psicoterapeuta, outra, é um psicólogo de plantão cultura. 6) Que o local reservado para os atendimentos sejam com uma postura de plantonista. 2) Mais do que tentar resolver com as melhores condições possíveis.PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 37 36 Durange: Sem dúvidas, a criação de um projeto claro e bem Tassinari: Você ressaltou aspectos fundamentais. Um diz estruturado, facilitará a oferta e o desenvolvimento do serviço. respeito à possibilidade de atender várias pessoas em um curto Este projeto precisa definir ações para o antes, o durante e o espaço de tempo, o que demanda abertura para adentrar em depois, no que se refere aos processos. mundos diversos, voltar ao seu mundo e se disponibilizar para adentrar em outra morada. Para os estagiários iniciantes, isso que temos aprendido? parece ser um grande desafio, que os convida a ousar subjetiva e objetivamente, a se esvaziar para estar novamente inteiro. Durange: Além das questões operativas, temos adquirido Vale ressaltar que os estagiários têm presente a necessidade de aprendizados em vários aspectos com o plantão psicológico. elaborar a versão de sentido e criar subsídios para os relatórios. Tassinari: De fato, o plantão psicológico tem possibilitado bons aprendizados e descobertas interessantes, que vão desde Cada atendimento demanda a compreensão de três mundos a criação de um Serviço de Plantão Psicológico até a formação distintos: o da pessoa que saiu do atendimento, o do estagiário- de plantonistas capacitados a lidar com situações diversas, -plantonista e o da próxima pessoa a ser atendida. Essa fusão que pedem posicionamentos específicos. Nossa experiência de mundos demanda uma plasticidade para surfar entre estas como psicólogos psicoterapeutas nos levou a experimentar a subjetividades, pois o estagiário está lidando com apreensões escuta empática para outros locais além do consultório e para idiossincráticas. Uma vez que exige-se esta alternância entre lá levamos nossas aprendizagens e tivemos que repensar em mundos, a supervisão clínica oferece-se como um horizonte que que consiste verdadeiramente uma relação de ajuda efetiva, possibilita um retorno à sua inteireza. Além disso, a interação promotora de mudanças. entre plantonistas confirma a aprendizagem significativa, já que Durange: Exatamente. Gostaria de destacar alguns pontos: apresenta-se uma cumplicidade entre pares que facilita o aco- o primeiro, diz respeito ao ensino e aprendizagem para a for- lhimento da urgência (este transitar entre mundos) no momento mação do plantonista. A dinâmica de aprendizagem é diferente, em que ela se presentifica. Podemos dizer que, na supervisão, o serviço possibilita a realização de muitos atendimentos em o nível experiencial centrado no plantonista é priorizado em um período menor, lançando o aluno numa diversidade cultural relação aos níveis didático centrado no cliente, didático centrado e experiências intensivas. Além disso, lidar com o inesperado, no terapeuta e experiencial centrado no cliente (BUYS, 1987). com o que emerge, com uma atitude centrada na pessoa, tem Durange: O segundo ponto refere-se à atenção psicoló- se mostrado uma aprendizagem significativa para o plantonista. gica, que para o psicólogo-plantonista assume uma perspectiva E neste processo experiencial a criação, a verbalização e a diferente a do psicólogo-psicoterapeuta, conforme dialogamos reflexão [da versão de a supervisão clínica (facilita- anteriormente. ção do professor ou do profissional mais experiente), a co-visão Tassinari: Tenho procurado explicitar esta diferença em clínica entre os alunos (a facilitação grupal), e o MetaPlantão¹², termos conceituais, e parece-me que a melhor definição torna-se são potentes elementos formativos. possível pela utilização das próprias palavras que escolhemos É uma versão que procura captar a experiência imediata após cada evento (consulta, para diferenciar um e outro. Ambos serão psicólogos, e no nicho 11 entrevista, sessão, supervisão, aula etc.). Significa então escrever livremente como a que nos referimos, Centrados na Pessoa. Isso implica que nós você está imediatamente após 0 evento, qual o sentido que este evento teve para você. "Como produção, uma VS é a fala, mais autêntica possível, que toma como refe- veremos as atitudes facilitadoras como norteadores da atualiza- rência intencional um encontro vivido, pronunciada logo após sua ocorrência. Como produto, a VS será um texto expressivo, escrito ou gravado por iniciativa da própria ção da pessoa. Para o psicólogo-psicoterapeuta, a atualização pessoa, ou solicitado por um interlocutor" (AMATUZZI, 2001, 81). ocorre através da reorganização da personalidade a curto e médio 12 Ver capítulo 9.38 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 39 prazo. Com o psicólogo-plantonista, se oferece esta atualização Considerações finais no motivo explicitado na urgência do atendimento. Em outras palavras, a diferença não será conceitual, mas sim a intenção Durange: Sou grato pela oportunidade de dialogar sobre o do encontro. Outras diferenças menos significativas podem ser plantão psicológico, e neste caso em particular, numa dimensão resumidas: o atendimento no plantão dispensa mediadores, a bem mais abrangente do que em outras ocasiões. Espero que, consulta não tem duração predeterminada, não é necessário assim como nós, os interessados neste tema continuem explo- agendar previamente, a pessoa pode ser atendida por profissio- rando esta modalidade de atendimento psicológico, criando bons nais diferentes, o atendimento não implica em continuidade, projetos para promoverem saúde acima de tudo. o plantonista interessa-se por qualquer material (e não apenas Tassinari: Foi uma boa oportunidade para esclarecer de pelos conflitos psicológicos) e mantém-se presente no presente, uma forma fluida vários aspectos que tangenciam e penetram os pois não conta com os próximos atendimentos¹³. conceitos básicos presentes na clínica da urgência psicológica. Durange: E o terceiro ponto, que sempre compartilho, é Discussões como esta aproximam o leitor e nos instiga a avançar uma experiência que tive na clínica escola. Quando estagiário, na construção teórica e no conhecimento vivencial de todo este muitas vezes me angustiava por não saber se o atendimento rico processo do encontro de pessoa a pessoa. havia sido importante para a pessoa/ usuária do serviço de Durange: No próximo capítulo deste livro, vamos descrever plantão psicológico. Foi então que, numa conversa com uma mais detalhadamente o que temos compreendido sobre a clínica supervisora de estágio/ de outra equipe de supervisão, descobri da urgência psicológica. que das pessoas encaminhadas para a sua equipe para realizar psicoterapia, as que mais tinham aderência à psicoterapia, eram as que tinham sido atendidas pelo serviço de plantão psicoló- gico. Confesso que naquela época, ter tido esta constatação foi de muito alívio (risos). Tassinari: As pessoas que passaram pelo serviço de plan- tão e se sentiram acolhidas, experimentaram a potência de um encontro pautado pelo acolhimento das condições facilitadoras. Esse fator pode desencadear uma motivação, um engajamento ao processo terapêutico em si. Por se tratar de um plantão, a natureza do serviço o acolhimento da urgência explicitada raramente possibilitará um feedback do alcance que este atendimento teve para o cliente, motivo pelo qual o estagiário iniciante pensa não ter parâmetros para validar sua capacidade e efetividade terapêutica. Durange: Exato. É importante que estes pontos sejam compreendidos pelo plantonista. 13 Agradeço a preciosa colaboração do colega Andre Nerys.40 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 41 REFERÊNCIAS MORATO, H. T. P. Aconselhamento psicológico centrado na pessoa: novos desafios. 2. ed. São Paulo: Casa do Psicó- logo, 1997. AMATUZZI, Mauro. Por uma Psicologia humana. Campinas, SP: Editora Alínea, 2001. ROSENBERG, Rachel (Org.). Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa. São Paulo: EPU, 1987. (Temas Básicos BUYS, Rogério C. Supervisão de Psicoterapia: na abordagem de Psicologia, V. 21). humanista centrada na pessoa. SP: Summus, 1987. ROSENTHAL, R. W. Plantão Psicológico no Instituto Sedes CARRENHO, E.; TASSINARI, M.; PINTO, M. A. Praticando Sapientiae: uma proposta de atendimento aberto à comunidade. a Abordagem Centrada na Pessoa: dúvidas e perguntas mais In: MAHFOUD, M. (Org.). Plantão Psicológico: novos hori- frequentes. São Paulo: Carrenho, 2010. zontes. São Paulo: C.I, 1999. CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução CFP ROGERS, Carl. Manual de Counselling. Lisboa: GATF/En- n. 11/2018. Disponível em: . Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 2009. DE PLATO, Giovanni. Los Desafios de la emergência y la urgência. Revista al tema del hombre, 2003. SOUZA, S; SILVA FILHO, F. B; MONTENEGRO, L. A. A. (Orgs.). Plantão Psicológico: ressignificando o humano na expe- DICIONÁRIO. Petit Robert. Paris: Ed. Le Robert, 1990. riência da escuta e acolhimento. 1. ed. Curitiba, PR: CRV, 2015. GOLDIM, José Roberto. Aspectos Éticos em situações de emer- TALMON, Moshe. Single Session Solutions: a guide to practi- gência e urgência. 2003. Disponível em: . Publish, 1993. MAHFOUD, M. Desafios sempre renovados: Plantão Psicoló- Single Session Therapy: maximizing the effect of gico. In: TASSINARI, M. A; CORDEIRO, A. P. S; DURANGE, the first (and often only) therapeutic encounter. San Francisco: W.T. (Orgs.). Revisitando o Plantão Psicológico Centrado Jossey-Bass, 1990. na Pessoa. Curitiba, PR: CRV, 2013. TASSINARI, M. A. A Clínica da Urgência Psicológica: con- Plantão Psicológico em Escolas. Trabalho apresentado tribuições da abordagem centrada na pessoa e da teoria do no IV Fórum Internacional da Abordagem Centrada na Pessoa. caos. 2003. 231 f. Tese Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1989. Rio de Janeiro, UFRJ/ Instituto de Psicologia, 2003. (Org.). Plantão Psicológico: novos horizontes. São Plantão Psicológico Centrado na Pessoa como pro- Paulo: C.I, 1999. moção da Saúde no contexto escolar. 1999. 149 f. Dissertação42 Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, UFRJ/ CAPÍTULO 2 Instituto de Psicologia. CLÍNICA DA URGÊNCIA TASSINARI, M. A. Prefacio. In: SOUZA, S; SILVA FILHO, F. B; MONTENEGRO, L. A. A. (Orgs.). Plantão Psicológico: PSICOLÓGICA: a radicalidade ressignificando o humano na experiência da escuta e acolhi- do encontro como processo mento. 1. ed. Curitiba, PR: CRV, 2015. de promoção da saúde TASSINARI, M. A; CORDEIRO, A. P. S; DURANGE, W. T. (Orgs.). Revisitando o Plantão Psicológico Centrado na Pessoa. Curitiba, PR: CRV, 2013. Marcia Tassinari Wagner Durange TASSINARI, M. A.; DURANGE, W. T. Plantão Psicológico: o florescimento da psicologia pós-moderna o drama de uma Introdução transmutação. Revista Enfoque Humanístico, Buenos Aires A atividade de psicoterapia no Brasil tem sido desenvolvida (ARG), V. 1, 2012. por psicólogos e médicos com formação específica desde a década de 60 e, atualmente podendo ser exercida por qualquer profissio- WOOD, John, Keith et al. (Orgs.). Abordagem Centrada na nal que faça uma formação específica, uma vez que não existe a Pessoa. Vitória, ES: UFES, 2010. profissão de psicoterapeuta no país. O interesse pela psicoterapia como tratamento, realizada em consultórios particulares tem sido questionada como prática elitista, que atende apenas 10% da po- pulação brasileira. Desde a entrada do pensamento de Carl Rogers no Brasil, muitos profissionais, especialmente os psicólogos, têm se pre- ocupado em criar espaços promotores de saúde em contextos desfavorecidos. Entre estas iniciativas, destacamos os Serviços de Plantão Psicológico (um tipo de sessão única ou um pronto atendimento), oferecendo acolhimento em diferentes contextos, abrangendo grupos mais amplos, que se beneficiam de uma escuta clínica breve, pontual e profunda. Revendo a contribuição de Carl Rogers, nosso principal inspirador, percebemos vários pontos de aproximação com nossa reflexão, desde o início dos trabalhos dele e da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP). Essa reflexão tem sido apresentada e desenvolvida em outros eventos e publicações¹⁴. 14 XII Fórum Brasileiro da Abordagem Centrada na Pessoa, setembro/2017, em Maringá, PR, Brasil; XVIII Encuentro Ibero Americano del Enfoque Centrado en la Persona,44 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 45 Neste capítulo será oferecida uma conceituação sobre a clí- Psicologia Clínica, desde seus primórdios, quase que invaria- nica da urgência psicológica e a radicalidade do encontro, com velmente respondeu ao sofrimento de um paciente com a ideia o intuito de contribuirmos com processos de desenvolvimento de tratamento, através da psicoterapia individual, feita de três humano e as iniciativas de promoção da saúde. a cinco vezes por semana em um consultório particular, por um longo período, muitas vezes por vários anos, baseado principal- Desenvolvimento da Psicoterapia mente em Psicanálise, liderada por um especialista (psicólogo ou psicanalista), trabalhando principalmente com classes sociais Em 2003, Tassinari (2003) defende a tese de doutorado: mais abastadas, enfatizando os conflitos intrapsíquicos. "A clínica da urgência psicológica: contribuições da Aborda- No entanto, a nova concepção de clínica visa responder de gem Centrada na Pessoa e da Teoria do Caos", onde esboça a maneira mais adequada às novas demandas de nossos tempos, incompletude dos tratamentos psicoterápicos e aponta o Plantão incluindo a possibilidade de servir e beneficiar todas as classes Psicológico como uma possibilidade fértil para acolher a urgên- sociais. Agora vemos a ampliação da clínica, saindo da sala cia. Desde então, viemos experimentando práticas e oferecendo privada para ver as pessoas onde elas estão. reflexões que possam nos apontar para uma psicologia mais Um fato relevante em relação à psicoterapia é a alta taxa social, mais democrática, e mais contextualizada. O psicólogo Lightner Witmer utilizou pela primeira vez de abandono de clientes em todos os tipos de ambientes de o termo "Psicologia Clínica" em 1896. Ele adotou a ideia do psicoterapia, abandono precoce após a primeira, a segunda campo da medicina, considerando-a o melhor termo para defi- ou a terceira entrevistas. Normalmente, os psicoterapeutas nir o método de avaliação do desenvolvimento mental e físico atribuem naturalmente a responsabilidade pela interrupção do das crianças. processo ao cliente (sua falta de vontade ou atitude defensiva) Lembremo-nos que a etimologia da palavra "clínica", de ou a ineficácia do profissional. No entanto, a voz do cliente, o origem grega, refere-se a "sofá" ou "cama" e "inclinar-se", e ator principal deste "drama", nunca foi ouvida. designa o cuidado médico dispensado aos pacientes acamados, É interessante que os clientes que abandonam, geralmente o que implica a recepção/acolhimento. são descritos pelos pesquisadores como "resistentes" ou "perso- A Psicologia Clínica começou enfatizando uma avaliação nalidade ou "eles não estão prontos para a psico- das demandas do cliente e, em seguida, acrescentou um aspecto terapia" ou "eles não têm motivação para ou "estão de cura através do tratamento da fala de Sigmund Freud. No inclinados a negar sua doença". Psicoterapeutas que abandonam entanto, normalmente é realizada em consultórios privados e os clientes são descritos como "menos experientes" ou "mais beneficia basicamente uma parcela muito pequena da população, especialmente em países em desenvolvimento como o Brasil. "menos pessoal" ou "carente de calor" etc. Esse conceito clássico ou tradicional de clínica foi in- fluenciado pelo modelo médico por meio da psicanálise, onde Desenvolvimento da Clínica da Urgência o profissional atuou como especialista e restringiu sua clientela Passamos a pensar que a psicoterapia individual de longo às classes sociais mais abastadas. Assim, podemos ver que a prazo não serve para todas as pessoas o tempo todo, embora as pessoas precisem de alguém com quem conversar de vez em maio/2018, em Chapala, Guadalajara, México; Conferência Mundial de Psicoterapia Centrada na Pessoa, Experiencial e Aconselhamento, julho/2018, em Viena, Áustria. E quando. Elas podem se beneficiar de um único encontro, como publicada no livro Fundamentos de la accion profesional en desarrollo humano. México: vamos explicar mais tarde. Instituto de Psicologia y Educacion de la Universidad Veracruzana, 2018.46 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 47 Apresentamos a seguir os passos de Carl Rogers desde a do problema para a pessoa; da avaliação para a relação; e do década de 20, ressaltando algumas de suas frustrações com a resultado para o processo. Psicologia vigente nos EUA, que não parecia preparada para É nesse sentido que o aconselhamento psicológico pode acolher o sofrimento. Rogers, desde o início, já apontava para ser empregado, provendo situações de atenção pontual que a importância da relação de acolhimento à urgência, mas ainda requerem atenção breve, que possam conduzir a um alívio emo- não tinha elementos para sua formulação. Precisava amadurecer cional e psicológico sem a utilização de rebuscadas técnicas de essa ideia, então revolucionária. investigação da personalidade. Quando Rogers foi contratado como psicólogo no "Child Em 1946, Rogers escreve o livro Counseling with returned Study Departament" da Associação para a Proteção à Infância e propôs, no capítulo 9, o conceito de contato em Rochester, Nova York, no final da década de 1920, percebeu casual para distingui-lo do aconselhamento ou psicoterapia. sua primeira frustração com a prática da Psicologia, pois neces- Rogers, ao trabalhar com os retornados da guerra, per- sitava diagnosticar e planejar os casos. Ele começou a perceber cebe que a compreensão da aflição do outro podia ocorrer em que esses procedimentos não davam conta da compreensão do qualquer ambiente (no jardim, na lanchonete, na biblioteca). sofrimento e da urgência ali esboçada. Tratava-se de um melhor aproveitamento de um instante casual Posteriormente, Rogers relata outro incidente que o frus- trou, pois não conseguia convencer a mãe de um adolescente de conversa, onde não se pretendia solucionar o problema, mas agressivo, que esse comportamento dele era resultado da rejeição oferecer uma escuta qualificada, interessada e calorosa a quem dela. Ele desistiu de continuar atendendo-a. A mãe concordou, se aproximasse. Com isso, Rogers percebeu que os contatos mas perguntou: "Também faz aconselhamento para adultos casuais ofereciam três benefícios para a pessoa: 1) A libertação aqui?". Tendo lhe respondido afirmativamente, ela disse para emocional, e, desta forma, alcançar uma espécie de catarse; 2) Rogers: "Pois bem, gostaria que me ajudasse". Ela voltou para A oportunidade para esclarecer sua situação, e ter pensamentos cadeira de onde havia se levantado e começou a "derramar" seu mais realistas e uma melhor compreensão de si mesmo e de seus desespero sobre seu casamento, sobre suas relações perturbadas problemas; 3) Poder até incentivar a pessoa a procurar outro tipo com o marido, seu sentimento de fracasso e de confusão, tudo de contatos e de se envolver em alguma outra forma de terapia aquilo muito diferente da estéril "história de caso" que antes ou aconselhamento (TASSINARI, 2015). tinha fornecido para ele, [...] "iniciou-se então, uma real terapia Parece que Rogers percebeu que o acolhimento à urgência que acabou por ser bem-sucedida" (ROGERS, 2009, p. 13). psicológica dispensava o famoso setting terapêutico, e que a Nota-se que Rogers percebeu a urgência desta mãe, mas, urgência podia ser atendida a partir das atitudes inicialmente, não tinha como formular um acolhimento, e quis encerrar o processo. No segundo momento, "apenas ouvindo" a não limitadas pelas variáveis tempo (duração) e espaço (ambiente urgência da mãe, Rogers começou então a aprender a lidar com o físico), tão caras ao modelo tradicional de atendimento. imprevisível, através da disponibilidade para acolher a urgência. A entrada de Rogers no campo do Aconselhamento Psico- 16 Traduzido para português: ROGERS, C. R.; WALLEN, J.L. Manual de Counselling. Trad. Bertina Tomé e Silvina Vida Larga. Lisboa: GAFT Gabinete de Aconselhamento, lógico provocou uma reviravolta, já que ele girou os três eixos Terapia e Formação, 2000. principais, aproximando aconselhamento da 17 Congruência, Compreensão Empática e Aceitação Incondicional. "Quando essas con- dições são alcançadas, torno-me uma companhia para meu cliente, acompanhando-o nessa busca assustadora de si mesmo, onde ele agora se sente livre para ingressar" 15 N.T: Nos altos da década de 30, a psicoterapia era uma atividade que só poderia ser (ROGERS, 2009, p. 37-39). realizada por médicos.48 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 49 Recentemente, tivemos a grata oportunidade¹⁸ de conhecer No famoso projeto de pesquisa Three approaches to psycho- a reflexão de Seeman (2008) e, para nossa surpresa, ele também therapy (SHOSTROM, 1965), Rogers entrevista Glória e mantém se refere às potencialidades de um contato breve e casual com correspondência com ela por 15 anos, interrompida apenas pela clientes, em seu artigo The power of the brief encounter. Seeman morte dela, informada pela filha. Este é um bom exemplo que aponta as entrevistas de demonstração, iniciadas por Rogers e atendimento à urgência pode ter efeitos duradouros e manter abaixo descritas, apresentando resultados positivos muito além ecoando a "radicalidade do encontro". E foi apenas um encontro do que se esperaria em contatos breves. Seeman compartilha de meia hora! sua experiência pessoal com encontros breves, que resultaram Rogers não podia imaginar o impacto que causava na vida em mudanças pessoais profundas e significativas. Este autor dessas pessoas após uma única entrevista de demonstração, analisou algumas destas entrevistas e os feedbacks dos clientes, realizada na frente de uma plateia, até que começou a receber pois percebeu que os resultados positivos (obtidos após um, dois cartas e feedbacks da própria audiência e das pessoas que haviam ou três encontros) desafiava o conceito normativo do processo sido entrevistadas. terapêutico. Suas conclusões apontam que os benefícios obti- Hofmeister (1987) oferece um feedback público impressio- dos pelos clientes relacionavam-se à alta motivação e o desejo nante sobre os efeitos de uma entrevista de demonstração reali- de ajuda claramente experienciado. Além disso, esses clientes zada com ela, por Carl Rogers, em 1983, durante um workshop experimentaram seus terapeutas como presença disponível, não na Suíça. O título do artigo Carl Rogers influence on the birth julgadora, o que os fez se sentirem profundamente compreen- of my children já indica a influência que essa única entrevista de didos. Esses encontros breves colocaram em ação processos 25 minutos (na frente de uma audiência de 120 pessoas), teve duradouros de autoexploração e autoconsciência ampliada. Os na sua vida. Parece que este tipo de situação terapêutica fornece clientes relataram de se sentirem legitimados enquanto pessoas, os nutrientes para que a criatividade possa emergir. o que gerou um sentimento de confiança em seus próprios sen- A partir da década de 1960, Rogers direciona suas energias timentos e percepções, levando à sensação de liberdade ou de e interesses para os trabalhos com grupos. Trata-se da descoberta poder pessoal. do potencial terapêutico direto de cada membro do grupo em Nos anos de 1950 a 60, Rogers inicia trabalhos de entrevis- relação aos outros participantes. Rogers sugere, e comprova o tas de demonstração (ex: o caso Jim Brown e Mary Jane Tilden) fato, que ao facilitador cabe permitir, tanto quanto possível, a ex- e outra filmada para propósito de pesquisa e aprendizagem (ex: pressão plena e livre das tendências individuais, que neste clima o caso Glória). Estes trabalhos têm um grande valor para os permissivo se concretizarão em recursos de ajuda mútua para o estudos da psicoterapia, e demonstram a incrível qualidade de crescimento. Segundo Buys (1987), nos Grupos de Encontro, sua presença, expressada em seu olhar, sua postura e seu tom por exemplo, a função do facilitador é facilitar a emergência de voz, a qual era indubitavelmente um elemento central de sua dos sentimentos mais profundos, menos claros, mais difíceis, terapia. Em muitas ocasiões o essencial não era o que dizia ou o que fazia, mas como o dizia e o modo como tratava ao cliente e ajudar o grupo a lidar com eles. (BOWEN, 1996). Estas experiências estão estreitamente ligadas à erupção de "laboratórios" (workshops) intensivos como fórmula bastante 18 Dr. Jean Marc-Priels, enviou mensagem particular (e-mail) à autora, sugerindo a leitura bem-sucedida. Embora muito discutidas e discutíveis quanto a do artigo (After your semi-plenary session in Vienna, found article in my library at home. Perhaps you know this article of Julius Seeman. Perhaps this rejoin you concept and seus efeitos, tais vivências breves em grupo podem favorecer practice of 'Plantao setting').PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 51 50 mudanças pessoais significativas e enriquecedoras (ROGERS, Plantão Psicológico como possibilidade para uma 1970). Isto porque, a realidade do aqui e agora do funcionamento Clínica da Urgência Psicológica dos grupos de encontro e suas características (ser um grupo fechado, ter duração curta e/ou prevista, tem um processo nítido A clínica da urgência psicológica encontrou sua melhor há um começo, um meio e um fim bem delineados, o grupo se expressão nos atendimentos dos Serviços de Plantão Psicoló- autorregula tendo em vista o seu término e também, talvez, gico, aqui entendido como uma modalidade de atendimento pelos mesmos motivos que levam as pessoas a procurá-lo) é psicológico, e potente para lidar com o sofrimento humano, em extremamente pregnante, extremamente absorvente daí, diversos locais e contextos. justamente, seu poder de reestruturação e renovação (BUYS, Um dos inspiradores do Plantão Psicológico foi Talmon 1987). Sendo assim, por meio de experiências breves de grupos, (1990), que desenvolveu o trabalho de Terapia de Sessão Única, é possível identificarmos a presença de elementos da Clínica baseado nas seguintes constatações: todas as terapias começam da Urgência. na primeira sessão; frequentemente uma única sessão é sufi- Para finalizarmos este percurso, gostaríamos de citar a ciente; a primeira sessão tende a ser a mais efetiva, poderosa e recente pesquisa sobre atenção psicológica, onde Vasconcelos importante, independente da duração da terapia. (2014) investigou a experiência de psicólogos que atuaram Essa modalidade de atendimento psicológico parece em diversos contextos considerados como situações extremas, funcionar no sentido de atender à urgência das pessoas que incluindo as denominadas abruptas desastres ambientais e necessitam ser ouvidas naquele momento especial. Nota-se acidentes aéreos e as crônicas conflitos armados, guerras que, mesmo diante da possibilidade de retornos, as pessoas escolhem apenas uma sessão, quando se sentem atendidas e epidemias¹⁹. Segundo a pesquisadora, uma narrativa-síntese emergiu do naquilo que foram buscar. conjunto de narrativas individuais dos psicólogos, apontando Ainda que a atividade do Plantão Psicológico não seja nova no Brasil (surgiu em 1969), a primeira sistematização pública elementos de natureza interpretativa em relação ao fenômeno apareceu no final da década de oitenta (ROSENBERG, 1987). estudado. E um destes principais elementos aponta que a atenção Atualmente nota-se um número crescente de profissionais e ins- psicológica se desenvolve em sintonia com as especificidades tituições inovando seus atendimentos, encontrando no Plantão e demandas da situação, constituindo-se a partir de atitudes de resposta a muitas de suas inquietações, em especial a aplicabi- empatia e aceitação às pessoas, assim como de autenticidade em lidade da Psicologia em instituições. Hoje temos quatro livros relação a si próprio. publicados²⁰ que tratam especificamente do tema (desenvolvido Em nosso entendimento, esta pesquisa demonstra alguns e liderado por pesquisadores brasileiros), além de dezenas de aspectos da clínica da urgência, pois a atuação do psicólogo em artigos, dissertações de Mestrado e Tese de Doutorado. situações extremas está voltada em sua disponibilidade para - o Adota-se aqui, as pistas oferecidas pelos trabalhos acadê- cuidado ampliado, o contato pontual/casual, a escuta qualificada, micos (TASSINARI, 1999, 2003) para uma aproximação da o processo intermitente, o imprevisível, as urgências possibili- definição de Plantão Psicológico como um tipo de atendimento tando a emergência do acontecer clínico de forma diferenciada. Este tema será abordado com mais profundidade no capitulo 8. 20 Contando com a publicação deste volume organizado pelos autores. 1952 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 53 psicológico, que se completa em si mesmo, realizado em uma Clínica da Urgência Psicológica: a radicalidade ou mais consultas sem duração predeterminada, objetivando do encontro receber qualquer pessoa no momento exato de sua necessi- dade para ajudá-la a compreender melhor sua urgência e, se A expressão urgência psicológica foi escolhida para mi- necessário, encaminhá-la a outros serviços. Tanto o tempo da nimizar o viés psicopatológico, orientando esta clínica para consulta, quanto os retornos dependem de decisões conjuntas promover a saúde em todas as circunstâncias. A proposta visa (plantonista/pessoa) no decorrer do atendimento. É exercido por acolher a urgência vivenciada pela pessoa, independentemente psicólogos que ficam à disposição das pessoas que procuram de sua magnitude. Essa recepção baseada nos princípios da espontaneamente o Serviço em local, dias e horários preesta- ACP permite que a pessoa configure melhor suas necessidades, belecidos, podendo ser criado em diversos locais e instituições. recursos, ações e aumente o autocuidado (TASSINARI, 2003). Em cada ambiente, precisará criar estratégias específicas, desde Propomos a clínica da urgência psicológica com o objetivo de enfatizar o papel principal do psicólogo como promotor de sua divulgação (processo de sensibilização à comunidade) até saúde, que toma o cuidado como seu guia central. Tal cuidado sua relação com a própria instituição/local. que se desenvolve em momentos específicos das urgências, re- O atendimento em Plantão não visa somente uma catarse, quer uma postura diferenciada do psicólogo ao que chamamos ainda que a inclua, mas objetiva facilitar uma maior compre- de "natureza essencial / radical do encontro". ensão da pessoa e de sua situação imediata. O plantonista e o Entendemos que a pessoa que está passando por algum cliente vão juntos procurar no "momento-já" as potencialidades desconforto emocional de qualquer magnitude tem seu centro inerentes que podem estar adormecidas ou que precisem ser de poder deslocado. Assim, podemos dizer que urgência psi- deflagradas a partir de uma relação calorosa, sem julgamen- cológica é o que surge como desconforto o momento em que tos, onde a escuta sensível e empática, a expressividade do um grau significativo de incongruência irrompe na experiência plantonista e seu genuíno interesse em ajudar, desempenham organísmica, levando a pessoa a sentir seu centro de poder des- papel primordial. locado, vulnerabilidade e ansiedade. Além disso, entende-se que o Plantão Psicológico é uma Como consequência, a pessoa entra em contato e vivencia potente aplicação da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), a sua urgência de forma indiscriminada. Nosso trabalho de permeado pelas atitudes de consideração positiva incondicional, acolher a pessoa neste momento e facilitar a compreensão de compreensão empática e congruência ou autenticidade, que sua experiência tem mostrado grande mobilização e eficácia fornecem um ambiente facilitador para a autoexpressão, bem terapêutica. Na maioria das vezes, não é necessário que a pessoa como a possibilidade de, em até um único encontro, a pessoa faça um acompanhamento psicológico, embora precise fazer conseguir clarear sua demanda, ou seja, uma compreensão uma pausa para entender o que está acontecendo. Quando essa mais nítida de como se compreende em determinada situação. pessoa tem alguém para ouvir profundamente com empatia e Fundamenta-se, assim como a Abordagem, no postulado central sem julgamento, ela adquire uma visão mais ampla de onde ela da Tendência Atualizante/Formativa, isto é, na hipótese que está e do que ela quer fazer. assume o ser humano como um organismo vivo, global, digno O que está sendo proposto para a clínica da urgência psi- de confiança, com capacidade natural de desenvolvimento de cológica, é que ela se constitui no processo de radicalidade do encontro. E, necessariamente, são três os elementos mais suas potencialidades.54 ANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 55 significativos desta radicalidade a autenticidade; momento grega kairós (tempo). Segundo a mitologia grega, em nenhum único; o acolhimento. momento kairós refletiria o passado ou o futuro; ele simboliza Na autenticidade, a pessoa em sua fala, surpreende e melhor instante presente: o instante em que se consegue afas- fórmula seus pensamentos ou inquietações presentes "pela tar o caos e abraçar a felicidade. Ainda, é o tempo não linear, e primeira vez". Neste caso, a pessoa está improvisando, está que não se pode determinar ou medir; uma oportunidade ou até dando forma ao que ela está sendo e sendo o que fala. Sua fala mesmo a ocasião certa para determinada coisa. Em outras pala- é nova (AMATUZZI, 1989). vras, o momento certo, o momento oportuno. Refere-se a uma Buber (2014) aponta pelo menos quatro condições para a experiência temporal, na qual percebemos o momento oportuno autenticidade: a primeira é a genuinidade de seus participantes em relação a determinado objeto, processo ou contexto. Kairós nesse sentido de se deixarem guiar pelo que são, ou melhor, de revela o momento certo para a coisa certa, a melhor oportuni- serem o que são no encontro, cada um deles. A segunda é uma dade, o momento crítico para agir, a ocasião certa e apropriada. condição de percepção que cada um veja o parceiro como ele Sendo assim, é um termo que representa o tempo existencial e é em sua totalidade e concretude. É tomar conhecimento íntimo de natureza qualitativa. dele como outro. É só através desse conhecimento íntimo do Seeman (2008) já apontara a necessidade de explorar os múl- outro enquanto tal, junto com sua aceitação, que eu o legitimo tiplos significados do tempo na psicoterapia: "Em nossa cultura como parceiro de um encontro genuíno. A terceira condição é pragmática, os terapeutas que se deparam com um período de a liberdade é que, de certa forma, seu curso é imprevisível, tempo muito limitado para se envolver com os clientes, tendem exatamente porque é em seu ato que os interlocutores se pre- a sentir-se pressionados a 'fazer algo' para cumprir sua respon- sentificam como pessoas. A quarta condição é a ação que os sabilidade... Mas um dos aspectos significativos dos encontros parceiros devem viver uma situação, também objetivamente, na qual não lhes seja vedada a participação ativa. Do contrário, o é que, em nenhum caso, o terapeuta recorreu a essa estratégia encontro está morto em sua raiz (AMATUZZI, 1989). para acelerar o processo ou para usar o próprio tempo como um O segundo elemento que viabiliza a radicalidade do en- fator limitante" (p. 73). O autor ressalta que a palavra presença contro é o momento único. De fato, a consciência de que o já contém o sentido de tempo: "Estou completamente com você encontro pode ser único, torna-se um grande fator de mobilização agora", o que mostra a dimensão qualitativa do tempo. tanto para o cliente quanto para o psicólogo. O encontro tende Por fim, o terceiro e último elemento que viabiliza a ra- a ser mais intenso justamente pela consciência do seu limite; dicalidade do encontro é o acolhimento. Ele se estabelece consciência esta (não necessariamente, mas frequentemente) radicalizando a disponibilidade para atender as pessoas no potencializadora quando acompanhada de cuidado e tomada momento em que faz sentido para elas, valorizando a tomada de posição pessoal. Evidentemente, não se trata de tematizar o de decisão por buscar ajuda psicológica como um importante limite com o cliente, mas a consciência do psicólogo, de que a passo do processo de elaboração da experiência. Acentua-se a possibilidade de ajuda se dá radicalmente no momento presente, perspectiva de facilitação do processo em ato (MAHFOUD, provoca a ambos no sentido de se implicarem efetivamente na 2013). Acolhimento aqui entendido com receptividade à in- elaboração atual (MAHFOUD, 2013). tegralidade da pessoa e sua situação imediata, incluindo suas Por outro lado, podemos compreender este segundo elemento lutas fracassadas para confrontar suas contingências de natureza da radicalidade do encontro, por meio do significado da palavra psicológica, social e cultural. O acolhimento é uma ação genuína56 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 57 do psicologo, integrada pelas atitudes de compreensão empática consultas dos serviços de Plantão Psicológico, dentro e fora do e de incondicionalidade. psicoterapêutico. No entanto, aqui foi esboçada a epis- Na dimensão relacional Eu-Tu, Buber (2013, p. 13) diz que: temologia desta clínica, inclusive, por meio de três elementos "O Tu chega ao meu encontro. Mas sou eu quem entra em relação necessários ao processo da radicalidade do encontro: a auten- direta e imediata com ele. Assim, a relação significa escolher e ticidade; o momento único; o acolhimento. ser escolhido. É um encontro ao mesmo tempo ativo e passivo". Interessante ressaltar que, assim como o atendimento clí- Segundo o autor, toda vida verdadeira é encontro (BUBER, nico através dos Serviços de Plantão Psicológico levou quase 2013). Neste sentido, a clínica da urgência psicológica é uma 40 anos para amadurecer, a clínica da urgência psicológica perspectiva de ação na qual o psicólogo experiencia e facilita também percorreu um longo caminho, desde o final da década a radicalidade do encontro o que há de mais genuíno numa de 20 para se configurar como uma possibilidade necessária e relação para promover saúde à pessoa que está a sua frente. adequada aos tempos atuais. Temos aprendido na prática e nas reflexões e, em algumas Considerações Finais pesquisas, que oferecer o melhor de nós, dirigido ao melhor Por meio de uma análise cronológica dos trabalhos de Carl do outro pode dar nascimento a algo de valor inestimável, que Rogers (e consequentemente, do desenvolvimento da ACP), nenhum dos dois conseguiria sozinho. Agradecemos a Wood é possível identificar a existência de uma clínica da urgência (2010) esta recomendação, que agora se encaixa tão bem no psicológica. Apesar de Rogers não ter feito nenhuma referência acolhimento à urgência. direta sobre uma teoria ou prática da urgência psicológica, ele percebeu que o acolhimento à urgência dispensava o famoso setting terapêutico, e que a urgência podia ser compreendida a partir das atitudes facilitadoras, não limitadas pelas variáveis tempo (duração) e espaço (ambiente físico). Com isso, abriu um horizonte, possibilitando que a atenção psicológica adquirisse uma dimensão ampla e flexível de atuação. Como anteriormente mencionado, optamos pela expressão urgência psicológica para minimizar o viés psicopatologizante das expressões crise e emergência, e para reiterar essa clínica para a promoção da saúde em qualquer circunstância (TASSINARI, 2003). Percebemos que este acolhimento pontual no momento quase exato da necessidade da pessoa, reestabelece o seu po- der pessoal e ativa o cuidado consigo mesma, orientando ações mais saudáveis. O caminho para melhor fundamentar uma clínica da urgên- cia psicológica ainda precisa avançar tanto na reflexão quanto na pesquisa, para dar conta dos fenômenos evidenciados nas58 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 59 REFERÊNCIAS ROSENBERG, Rachel (Org.). Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa. São Paulo: EPU, 1987. (Temas Básicos de Psicologia, V. 21). AMATUZZI, M. M. resgate da fala autêntica. Campinas, ROGERS, C.R. Counseling and psychotherapy. Boston Hou- SP: Papirus, 1989. ghton Miffin, 1942. BOWEN, M. V.B. Preface. In: The Psychotherapy of Carl Grupos de Encontro. São Paulo: Martins Fontes, 1970. Rogers: cases and commentary. The Guilford Press, 1996. Psicoterapia e consulta psicológica. São Paulo: Mar- BUBER, M. Do dialogo e do dialógico. São Paulo: Perspec- tins Fontes, 2005 [1942]. tiva, 2014. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 2009. Yo y Tu. 1. ed. Buenos Aires: Nueva Vision, 2013. BUYS, Rogério C. Supervisão de Psicoterapia: na abordagem ROGERS, C. R; ROSENBERG, R.L. A pessoa como centro. humanista centrada na pessoa. SP: Summus, 1987. São Paulo: E.P.U, 1977. DICIONÁRIO. Petit Robert. Paris: Ed. Le Robert, 1990. SEEMAN, Julius. Psychotherapy and the fully functioning person. Bloomington, IN: Author-House, 2008. FARBER, B.A. Introduction. In: The Psychotherapy of Carl Rogers: cases and commentary. The Guilford Press, 1996. SHOSTROM, E. (Org.). Three Approaches to Psychotherapy. Filme n. 1 Sonoro. Califórnia: Psychological Films, 1965. HOFMEISTER, Beate. Carl Rogers's influence on the birth of my children. Person-Centered Review, San Diego, Sage, V. 2, TALMON, Moshe. Single Session Therapy: maximizing the n. 3, p. 315-328, 1987. effect of the first (and often only) therapeutic encounter. San Francisco: Jossey-Bass, 1990. MAHFOUD, M. Desafios sempre renovados: plantão psicoló- gico. In: TASSINARI, M. A; CORDEIRO, A. P. S; DURANGE, TASSINARI, M.A. A Clínica da Urgência Psicológica: con- W.T. (Orgs.). Revisitando o Plantão Psicológico Centrado tribuições da abordagem centrada na pessoa. 2003. 231 f. Tese na Pessoa. Curitiba, PR: CRV, 2013. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, UFRJ/ (Org.). Plantão Psicológico: novos horizontes. São Instituto de Psicologia, 2003. Paulo: C.I, 1999. Plantão Psicológico Centrado na Pessoa como pro- MORATO, H. T. P. Aconselhamento psicológico cen- moção da Saúde no contexto escolar. 1999. 149 f. Disserta- trado na pessoa: novos desafios. 2. ed. São Paulo: Casa do ção Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Psicólogo, 1997. UFRJ/Instituto de Psicologia.60 TASSINARI, M. A. Prefacio. In: SOUZA, S; SILVA FILHO, CAPÍTULO 3 F. B; MONTENEGRO, L. A. A. (Orgs.). Plantão Psicológico: ressignificando o humano na experiência da escuta e acolhi- mento. 1. ed. Curitiba, PR: CRV, 2015. TEMPOS IDOS, TEMPOS VIVIDOS, TEMPOS MARCADOS: 50 anos do TASSINARI, M. A; CORDEIRO, A. P. S; DURANGE, W. T. (Orgs.). Revisitando o Plantão Psicológico Centrado na Plantão Psicológico e do Serviço de Pessoa. Curitiba, PR: CRV, 2013. Aconselhamento Psicológico da USP TASSINARI, M. A.; DURANGE, W. T. Plantão Psicológico: Maria Cristina Rocha o florescimento da psicologia pós-moderna o drama de uma transmutação. Revista Enfoque Humanístico, Buenos Aires (ARG), V. 1, 2012. "Compositor de destinos Tambor de todos os ritmos VASCONCELOS, T.P. Atenção psicológica em situações ex- Tempo, Tempo, Tempo, Tempo Entro num acordo contigo tremas: compreendendo a experiência de psicólogos. Campinas: Tempo, Tempo, Tempo, Tempo". PUC-Campinas. 2014. 150 f. Tese Pontifícia Universidade (Caetano Veloso) de Campinas. WOOD, J. K. et al. (Orgs.). Abordagem Centrada na Pessoa. O Serviço de Aconselhamento do Instituto de Psicologia Vitória, ES: UFES, 2010. (SAP) da USP completou 49 anos! São muitas as histórias a serem contadas, histórias que acompanham gerações de estu- dantes de psicologia, de pessoas atendidas em seus plantões, de psicólogas e psicólogos que por lá passaram. Compartilho aqui um pouco da minha história no SAP como aluna e profissional. Durante a graduação em psicologia, cursei três disciplinas vinculadas ao SAP, me formei, e parece que elas caíram no esquecimento. Após três anos, voltei para fazer um curso de aprimoramento, estava confusa, trabalhando como educadora de rua, não encontrava suporte que me oferecesse conforto, confiança e abertura às compreensões geradas em minha atuação profissional. Reler textos da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), e conhecer novos escritos me alimentou. Reencontrei as ideias de Carl Rogers, agora com sentidos mais encarnados. Cinco anos depois, prestei concurso, e passei a compor a equipe do Serviço de Aconselhamento Psicológico do Instituto de Psi- cologia da Universidade de São Paulo. De lá para cá já se vão 22 anos e 10 meses!!! Quase metade de sua existência.62 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 63 Como tudo começou São muitos os movimentos militantes, reconhecidamente po- líticos, de formação do profissional de psicologia, de criatividade Estranha coincidência escrever sobre o plantão, provavel- no contato com o humano que vão se sucedendo ou convivendo mente, sobre o fechamento de um ciclo de trabalho com plantão, nesse caldo, o plantão se estabelece como modalidade de aten- em tempos tão próximos do contexto político nacional em que dimento em psicologia diferente da psicoterapia. Potente, fértil ele foi criado. legitimado por quem o procura e por quem o oferece. Era 1969 quando Rachel Rosenberg, Oswaldo de Barros e Yara Yavelberg, professores e aluna do curso de psicologia, se dispuse- Sua principal característica é a disponibilidade para atendi- ram a abrir um espaço de escuta para estudantes de um cursinho mento no momento mais próximo da necessidade da pessoa, do pré-vestibular, popular, na Universidade de São Paulo. Ano em momento em que compartilhar sua vida, seus questionamentos, que o país estava sob a égide militar, em que a expressão de ideias seus conflitos, suas conquistas com um profissional de psicologia era marcada pela censura. Discussões em grupo, questionamentos (no caso do SAP) se faz presente. do estabelecido não eram posturas bem vindas. Na psicologia, era hegemônico o trabalho psicoterápico por tempo indeterminado. Procura Espontânea As incertezas sobre o futuro e o medo do presente fervilhavam na A busca pelo plantão está atrelada ao tempo da existência, universidade, foi então que surgiu a ideia de oferecer escuta para no tempo do vivido, ao tempo da pessoa. Encaminhamentos não os estudantes. Escreve Eisenlohr (1999): são proibidos e nem ignorados, mas o incentivo é para a busca "Se pensarmos naquele momento histórico, podemos dar- espontânea, para o momento de abertura em que voltar-se para -nos conta de como a implantação deste Serviço foi revolu- si com o outro faz sentido. cionária e de como trazemos em nossa história, refletindo-se O tempo é uma variável importante, fundante no plan- em nossa prática, esta característica marcante de inovação. tão. O tempo de proximidade com a necessidade de escuta e Damo-nos conta com que frequência temos nos colocado compartilhamento das pessoas, o tempo de duração da sessão no contra fluxo das práticas estabelecidas usualmente no trabalho psicológico ou educacional [...]. O que hoje parece e o tempo de duração do processo de plantão. Os contextos óbvio, como por exemplo, não apoiarmos nossa prática em que se oferta o plantão e aquele em que vive a pessoa que clínica em nenhum tipo de psicodiagnóstico, foi fruto de procura por ele estão em constante negociação. A atenção e a trabalho de um grupo de profissionais que teve a coragem construção do encontro leva em consideração o espaço físico e de romper com o estabelecido, e propor uma nova forma tempo cronológico disponíveis e as aberturas do plantonista de atendimento psicológico tão criteriosa quanto, só que diferente" (p. 136). da pessoa que pede uma escuta. Aqui se coloca e se compre- ende a plasticidade do plantão, possível na medida em que é o Nesse momento de existências angustiadas, o plantão surge plantonista em estado de plantão que caracteriza o atendimento despretensiosamente compromissado como abertura e criação e não, preponderantemente, as condições físicas e temporais de uma nova possibilidade de escuta. Logo se transformou como tradicionalmente estamos habituados a considerar. em estágio para os estudantes de psicologia e foi ampliando a Nessa medida, a procura espontânea torna-se figura impor- clientela atendida. A escuta como resistência, como acolhida e tante, pois tende a garantir esse movimento próprio de quem se como reconhecimento do sofrimento em todas as suas dimensões, reconhece e conhece sua necessidade. O espontâneo, portanto, incluindo aí, a militância política, vai ganhando força e espaço define-se pela decisão de procurar o plantão, e não pelo momento no curso. E assim nasce o plantão psicológico. cronológico da busca.64 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 65 Agendamentos Esse ponto foi motivo de incômodo e reflexão. Tendo atendimentos agendados, as faltas frequentes, novidade para a O agendamento da sessão tem sido polêmico como se equipe habituada a trabalhar com plantão organizado em dias descaracterizasse a proposta. Ora, se compreendemos o tempo horários fixos, geravam sensação de perda de tempo e pre- existencialmente, o momento da procura pode caber, cronolo- ocupação com as pessoas que poderiam ter sido atendidas no gicamente, no momento presente de um dia ou no momento horário que se constituiu em espera. Decidimos por mudar nossa presente de um período de vida. organização e oferecer os horários de supervisão como momentos No Serviço de Aconselhamento Psicológico, tradicional- de acolhimento para as pessoas que entravam em contato com mente, às quartas pela manhã havia plantonistas disponíveis para projeto. A divulgação era feita exclusivamente para quem atender quem nos procurasse. Essa organização sustentou-se nos procurava por e-mail ou telefone, evitando a exposição como prioritária e característica do SAP por toda a sua existên- das pessoas e deixando aberta a possibilidade de nos procurar cia. O mesmo se dava nos projetos de plantão realizados junto quando pudesse e não em função do agendamento da sessão. a outras instituições em parceria com o SAP: Conselho Tutelar As experimentações foram acontecendo em resposta à do Butantã, Defensoria Pública de São Paulo, Fundação Casa procura, à disponibilidade das plantonistas, à necessidade de (então FEBEM), Centro de Saúde Escola Butantã. não expor as pessoas. O sentido do acolhimento manteve-se Em Agosto de 2017 criamos o Projeto Trilhar que atende como plantão psicológico, focando na disponibilidade e aber- pessoas que vivem ou viveram relações abusivas em função tura do plantonista e não, necessariamente, nos dias e horários do gênero. Sendo esse um assunto tabu com o qual as pessoas de atendimento. evitam identificar-se, optamos por oferecer canais de contato (e- Essa é nossa mais recente experiência de plantão psicológico -mail e telefone) que evitassem a exposição da clientela, saindo no SAP, bastante diferente do que fazíamos tradicionalmente, do modelo de plantão mais comum e conhecido para a equipe mas bastante alinhada com a abertura para experimentações, do SAP. Tendo em vista que o plantão do SAP estava suspenso atenção para a necessidade da população e do contexto e, so- em função de estarmos com equipe de supervisoras reduzida, bretudo, para aquilo que caracteriza o plantão psicológico. criar um plantão para o Trilhar seria tornar público o motivo da busca por atendimento de cada pessoa que nos procurasse! Assim, Abertura escolhemos agendar os pedidos de acolhimento. A oferta de atendimento por agendamentos não descarac- A que questões o plantão se abre? teriza a proposta de plantão como o atendimento no momento A escuta é aberta à pessoa que traz suas experiências, seus da procura, no entanto coloca outras variáveis como a falta à sentidos e não, prioritariamente, focada no problema que a sessão agendada, por exemplo, inexistente quando não há um mobiliza. Dessa perspectiva, há espaço para todos os assuntos, compromisso previamente marcado. Outra questão é a organi- com suas dores, urgências, confusões, necessidade de compar- zação da agenda. Tradicionalmente, no plantão, os plantonistas tilhamento. O plantão, portanto: estão disponíveis num determinado período devidamente di- responde à necessidade de acolhimento e compreensão; vulgado, enquanto os agendamentos são realizados em função recebe a pessoa no momento da angústia, em que algo das disponibilidades das pessoas que buscam atendimento e peculiar emerge; daqueles que as atendem.66 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 67 privilegia a escuta da experiência, sem desconsiderar o evocando sentidos que o próprio cliente não conseguiria aces- problema em questão. Rogers ressiginifica essa relação, reconhecendo o poder de um e de outro e não de um sobre o outro. Diz ele (1977): Rogers (1977), com a Abordagem Centrada na Pessoa, marca "[...] a perspectiva centrada-na-pessoa altera drasticamente o um deslocamento fundamental no olhar clínico. Ressalta que relacionamento terapeuta-paciente [...]. A terapeuta torna-se a 'parteira' da mudança, não sua criadora". "esta abordagem [...] tem como objetivo direto uma maior Esse deslocamento marca profundamente toda sua proposta independência e integração do indivíduo, ao invés de teórico/prática. O terapeuta não dá ou tira poder do cliente, esperar que tais resultados derivem do auxílio dado pelo apenas o reconhece, trabalhando, então, no sentido de que sua orientador à solução do problema. O foco é o indivíduo e não o problema. O objetivo não é resolver um problema potência, que geralmente está fragilizada quando procura aten- particular, mas auxiliar o indivíduo a crescer, de modo dimento psicológico, ocupe seu espaço e que a autonomia e o que possa enfrentar o problema presente e os posteriores crescimento possam se expandir. de uma maneira mais integrada" (p. 15). O plantonista tem sua atenção concentrada na: narrativa da história do cliente; O Plantão Psicológico, criado na perspectiva da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), carrega esse olhar, essa atenção para compreensão de como a pessoa tem cuidado das ques- a pessoa povoada pelos problemas que provocam sofrimento, tões que a incomodam; mas também pela tendência à realização, pela tendência ao construção de um projeto de cuidado pleno de sentido desenvolvimento. Reconhecendo a complexidade do viver e as e sustentado por recursos pessoais e comunitários. afetações como o tempero que diferencia cada ser e cada situa- Todo esse processo se dá a partir do encontro, da relação ção vivida, oferece-se como o momento de compartilhamento, facilitadora estabelecida entre terapeuta e cliente. Aceitação compreensão e de apontamentos a partir de diferentes e novos positiva incondicional, empatia e congruência constituem as olhares. Em termos práticos, também atitudes necessárias na criação e sustentação dessa comunicação de intimidades. "[...] requer uma disponibilidade constante para sua rein- Da compreensão do momento, do reconhecimento da his- venção. Pois, a medida de sua abertura para as demandas tória vivida e dos projetos, caminhamos para o encerramento tem como contrapartida a criatividade e a flexibilidade nos modos de responder, bem como o diálogo constante do plantão, para o que nomeamos de desfecho. com as dimensões socioculturais que se apresentam e se configuram como abertura" (SCHMIDT, 1990, p. 101). Desfecho Pompéia (2000) apresenta-nos o encerramento de um pro- Poder cesso psicoterapêutico também como abertura. Rito de passagem, Quem detém o poder na relação cliente/terapeuta? marca morte e nascimento. No processo de ressignificação e de Estamos habituados a compreender os processos psico- ampliação de olhares, criatividade e fechamento se misturam. terapêuticos como aqueles em que alguém, o terapeuta, sabe Algo se assenta na história, torna-se passado, algo se presentifica mais sobre o outro do que ele mesmo. Desse lugar, conseguiria e projeta o futuro numa dança de marés e ondas, vai e vem, gira, saber quais as tramas estão sendo ou foram tecidas invocando/ puxa, acolhe e acalma. Ou agita!68 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 69 O desafio está em construir o novo, ainda que de novo. Essa atenção retrata dois pontos muito caros à equipe do SAP: Ressignificar o acontecido traz em si o frescor e a originalidade a complexidade do humano e a multiplicidade do cuidar. da experiência presente; afasta-nos da repetição, do automatismo Considerar que o desfecho pode ser um encaminhamento sem sentido, que prende num movimento curto, murado. Mas para outro serviço ou modalidade de atendimento não des- também nos permite dar um contorno para o sentido que já não qualifica o plantão, outrossim, demonstra a intensidade da é. Fecho e des-fecho. Contorno e abertura. Assim descreve Pom- compreensão e abertura para o inesperado. Cabe, aqui, trazer péia (2000): "como experiência humana, o desfecho é sempre outra característica do plantão: a instabilidade. Não sabemos fecho e des-fecho, sempre encerra e propõe, tira alguma coisa e que história nos será apresentada, de que maneira, com quais coloca outra no lugar. Esta nova coisa é um jeito de ser diferente expectativas e, por não se tratar de psicoterapia, o processo não do anterior" (p. 39). será longo. Portanto, há uma tensão impulsionadora no plantão, Tal compreensão conversa harmonicamente com a proposta um mergulho em profundidades nas quais não podemos ou de Rogers de atenção para a pessoa, seu jeito de ser e compre- não queremos permanecer por condições do contexto ou das ensão de si, dos outros, do mundo. Reconhecer um contorno, pessoas envolvidas. independente da espessura de suas linhas e de sua sinuosidade, Encontro Único ajuda-nos a nos reconhecer, a rever espaços e tempos, guardar e reavivar experiências, movimentar-se em vários sentidos. A abertura que se constitui a partir do plantão pode apon- Como pode um atendimento psicológico pontual ser sig- tar para necessidades e anseios a serem garimpados em ou- nificativo ou profundo? A compreensão de que o tempo é condição para a pro- tros lugares, com outras pessoas, a partir de escolhas pontu- fundidade no trabalho clínico é quase unanimidade. No tempo adas pelo contexto, ou seja, pelo que há disponível, pelo que cronológico, os encontros, os reconhecimentos, os comparti- pode ser transformado, pelo que pode ser criado. Toda escolha lhamentos, a confiança podem ir se construindo aos poucos: é contextualizada! quanto maior a extensão do atendimento, mais possibilidades No plantão do SAP, muitas vezes, o desfecho implicava na de adentramentos, explorações e contato se apresentam. Sem busca de outros serviços. A grande maioria das pessoas procurava negar esse olhar, precisamos resgatar o tempo existencial que ou se descobria querendo um processo psicoterápico. O desafio, se apresenta em outro ritmo, concentradamente mais intenso, então, era manter a escuta afiada para perceber e ouvir os pedi- quase um arrebatamento. A experiência é de mergulho. dos por outras formas de cuidado que poderiam ser opacizadas Na relação humana, no encontro, profundo é o que nos pelo automatismo do encaminhamento para psicoterapia. Nossa toca intimamente, em um lugar restrito, pouco compartilhado, incompletude, então, se evidenciava e transpor nossos limites pouco acessível, por vezes. a experiência de ressignificação, era condição para manter essa ligação com as pessoas atendidas de encontro de novos sentidos. A profundidade, então, seria aberta a tantas possibilidades quanto fossem reveladas. Como dada pelo que nos afeta. já mencionado, grande parte da clientela buscava psicoterapia, O plantão coloca, radicalmente, o tempo existencial em mas meditação, dança, estudos escolares, contato com amigos, cena. O encontro o define. Encontro que é delineado pela com- caminhadas, artes plásticas etc. são encaminhamentos que efe- preensão, pela proximidade da experiência do outro. Dessa tivamente aconteceram como desfecho de processos de plantão. perspectiva, o plantão, pode gozar de profundidade traduzidaPLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 71 70 pelo toque, pela afetação, pelo contato e pela compreensão, Desfechando independente de seu tempo de duração! A proposta de atendimento em plantão psicológico como a Rogers (1946) relata sobre uma conversa breve que nomeia vivemos no SAP é simples, e exigente ao mesmo tempo. Cabe de contato casual. Conta-nos o quão difícil é promover encontros com encaixe perfeito na vida como dispositivo que pouco se formais de counselling em situações de guerra em contraposição prende a limites preestabelecidos de enquadre: sala, cadeira, aos muitos contatos casuais em que problemas são revelados. mesa, tempo da sessão. No entanto, traz para o psicoterapeuta, então, se alguma ajuda pode ocorrer na condição de plantonista, 0 lugar de facilitador centrado, radi- em contatos breves não planejados. Responde positivamente calmente, na relação, constituindo a partir dela e das condições deixando explícito que não se trata de reorientar uma vida, mas físicas e temporais dadas pelo mundo, o enquadre possível. de, efetivamente, proporcionar oportunidade de um indivíduo Nessa perspectiva, o plantão desloca-se da definição-padrão sentir-se em condições de lidar com algumas de suas questões. modelada na medicina e apresenta-se como a experiência do Apresenta-nos, como um contato exemplar, a conversa de um plantonista que vive essa condição de abertura para o outro, de counsellor com um militar em um clube. Compartilha uma disposição para acompanhar o outro por um momento: o plantão descoberta: um encontro único pode ser extremamente com- é caracterizado pela disposição e abertura do plantonista para preensivo e operar movimento, reflexões, emoção. outro. O plantonista está de plantão! O texto traz algumas de suas ideias, ainda embrionárias, Tanto o serviço oferecido no espaço físico do Serviço como os três elementos importantes de ajuda (liberdade emocio- de Aconselhamento Psicológico quanto nas instituições onde nal, compreensão do problema, abertura para contatos posteriores estabelecemos parcerias para estágios e atendimento à popula- e ainda mais profundos), sistematizadas e apresentadas mais ob- jetivamente como caminho para que a conversa seja significativa. ção o plantão foi nosso carro-chefe, nossa menina dos olhos. O tempo cronológico vivido em sessões mais longas ou Experiência inédita na formação dos estudantes, às vezes só numerosas oferece a possibilidade de construção ritmada de podia ter sua potência reconhecida após a graduação, quando se inseriam em serviços públicos de atendimento à população, ajustes, de buscas, de tentativas de intimidade, mas não as define. A abertura, sim, tem papel primordial, é condição para quando se deparavam com limites para uma modelo de clínica o encontro e para a profundidade desencadeada, às vezes, por hegemônica, tanto pelas condições físicas e de tempo em con- traposição à grande demanda, quanto à indisposição da clientela uma faísca. Pode um único encontro operar alguma mudança? O que para atendimentos de longo prazo, em que voltar à sessão toda semana no mesmo horário é uma rotina desprovida de sentido. é mudança? Tendemos a definir mudança no mundo psi como algo Há diferenças de expectativas, necessidades e desejos. Julgar muito próximo de cura, de ausência de doença ou de problema. a legitimidade do encontro pelo tempo dispendido na sessão Mas podemos pensar como deslocamento, como movimento. ou o número de sessões afasta-nos do outro, desconsidera seu Olhar de outra perspectiva, questionar conclusões cristalizadas, poder, desaloja o encontro. afastar-se das relações estritamente causais é outra maneira Nesse sentido, o plantão é uma modalidade de atendimento de considerar a mudança. Não se trata, necessariamente, de que guarda suficiência como tal, como tempo e relação ocupa- mudar um ato, um comportamento como é a expectativa da dos pela compreensão, pela narrativa, pela experiência e por maioria das pessoas que procura atendimento psicológico, deslocamentos nesses campos. Dele podem decorrer inúmeras mas de deslocar a perspectiva, ressignificar as experiências. formas de cuidado, sendo o próprio plantão uma delas.72 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 73 Agora, sementes REFERÊNCIAS Desde 2016, vivemos uma crise institucional em função da qual temos usado toda a nossa criatividade e a plasticidade AMATUZZI, M. Por uma Psicologia Humana. Campinas: do plantão para mantê-lo vivo no SAP. A redução da equipe de 2001. profissionais colocou-nos um limite intransponível. No entanto, nesses 49 anos de existência, o plantão tem se multiplicado em BELÉM, D. Carl Rogers: do diagnóstico à Abordagem Centrada outros estados, cidades, universidade Brasil afora. Mais recen- na Pessoa. Recife: Edições Bagaço, 2000. temente, chegou à Argentina. Profissionais têm sido formados e o plantão continua vivo. EISENHLOR, M. G. V. Serviço de Aconselhamento Psicológico do IPUSP: breve histórico de sua criação e mudanças ocorri- das na década de 90. In: MORATO, H. T.P. Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa: novos desafios. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1999. GOBBI, S.L. et al. Vocabulário e Noções Básicas da Abor- dagem Centrada na Pessoa. São Paulo: Vetor, 2005. POMPÉIA, J. A. Desfecho encerramento de um processo. In: DASEINSANALYSE. Associação Brasileira de Dasein- sanalyse. São Paulo: A Associação, 2000. n. 9. ROCHA, M. C. Plantão Psicológico: desafios e potencialidades. In: BRESCHIGLIARI, J.; ROCHA, M. C. Serviço de Aconse- Psicológico: 40 anos. São Paulo: SAP/IPUSP, 2009. Plantão Psicológico e Triagem: aproximações e distan- ciamentos. Revista do Nufen, ano 3, V. 1, jan./jul. 2011. ROGERS, C.R. A Pessoa Como Centro. São Paulo: EPU- EDUSP, 1977. A política das profissões de ajuda. In: SOBRE o Poder Pessoal. São Paulo: Martins Fontes, 1978. A Utilização do Contacto Casual. In: MANUAL de Counselling. Lisboa: Gabinete de Aconselhamento, Terapia e Formação, 2000.74 ROGERS, C.R. Sobre Poder Pessoal. 2. ed. São Paulo: Martins CAPÍTULO 4 Fontes, 1986. E ROSENBERG, R. Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa. São Paulo: EPU, 1987. ALTERIDADE: Kierkegaard e Lévinas no Plantão Psicológico SCHMIDT, M. L. Aconselhamento Psicológico e Instituição: algumas considerações sobre o Serviço de Aconselhamento Sandra Souza Psicológico do IPUSP. In: MORATO, H. T.P. Aconselhamento Alice Vasconcelos Psicológico Centrado na Pessoa: novos desafios. São Paulo: Thayana Marinho Casa do Psicólogo, 1999. Marcela Figueiredo WOOD, J. K. et al. Abordagem Centrada na Pessoa. Vitória: Editora Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1994. No Brasil, tem-se percebido uma demanda crescente, no serviço público, da atuação do profissional de Psicologia, gerando uma maior inserção dos psicólogos na rede pública de atendimento no usuário. O surgimento dessa demanda resulta em trabalhos e intervenções junto a uma população com características diferentes da psicologia tradicional (ANDRADE; MORATO, 2004). Por sua vez, as práticas clínicas emergentes ou atuais, como apontado por Dutra (2004), despertariam para um maior interesse e preocupação com o contexto social. Isto implica alterações na concepção de sujeito e nas interpretações das teorias psicoterápicas. A recente concepção de clínica na psicologia passa, então, a buscar uma articulação mais concreta entre a clínica e o social. Estar a serviço do outro, portanto, é o que se espera de quem trabalha em um "serviço de Oferecer um lugar para outro lugar este que desde sempre já seria dele -, abrindo portas e janelas para sua visitação, oferecendo o melhor cômodo e a melhor comida, garantindo-lhe um espaço de habitabilidade. Essa imagem da Etica enquanto habitação, que diz respeito à casa que cada um de nós precisa erguer para si mesmo no mundo, corrobora também quando comparada ao serviço de psicologia (FREIRE, 2003). Diante da proposta de proporcionar ao outro um ambiente facilitador e de crescimento, Rogers (1983) afirma que os indi- víduos possuem dentro de si, vastos recursos para a autocom- preensão e para a modificação de seus autoconceitos, de suas76 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 77 atitudes e comportamento autônomo. Podem, inclusive, ser evidenciou a possibilidade de produzir conhecimento pela via ativados se houver um clima, passível de definição, de atitudes da sensibilidade" (PINHEIRO; VIEIRA, 2011, p. 169). Nesse psicológicas facilitadoras. De que homem estamos falando que sentido, é possível perceber que a construção teórica da ACP vai em busca de um serviço como o plantão psicológico? É pos- se deu pela via do encontro com o Outro, a partir da relação sível estabelecer diálogo com alguns pensadores existenciais no surgida no ambiente terapêutico, mostrando a implicação ética processo de desenvolvimento de um atendimento emergencial do terapeuta com a alteridade. dessa natureza? Sendo assim, este capítulo parte da ideia de que é pos- Este capítulo tem por objetivo trazer à baila a discussão sobre fazer aproximações entre o arcabouço teórico da ACP e a angústia/desespero, fenômeno tão atual nos nossos atendimentos pensamento existencialista de alguns filósofos. O Plantão psi e, ao mesmo tempo, tão enraizado na existência humana. Aliado Psicológico se propõe a atender o cliente em sua demanda a essa discussão, o tema da responsabilidade com o Outro que se emergencial em "uma ou mais consultas" (TASSINARI, 2003, presentifica diante de nós enquanto alteridade, na maior parte das P. 11), em que o plantonista cria uma atmosfera favorável à vezes com o traçado da angústia ou desespero, enriquece o diálogo reorganização do indivíduo diante de sua experiência imediata. das principais demandas que têm surgido no contexto de plantão Com base em suas influências histórico-filosóficas, a ACP se psicológico na contemporaneidade. Para discutir essas questões, insere, para alguns teóricos, no panorama das abordagens hu- Kierkegaard e Lévinas nos ajudam a compreender o momento, o manistas fenomenológicas (MOREIRA, 2009); em contrapar- instante em que o Outro nos chega angustiado nos entrelaçamentos tida, outros teóricos a situam em uma perspectiva existencial de uma urgência psicológica, pedindo socorro para suas queixas humanista (FEIJOO; MATTAR, 2016). Embora não seja mérito profundamente sentidas, porém muitas vezes desconhecidas na teia deste capítulo defender uma ou outra perspectiva, tomaremos de sentidos de sua cotidianidade. No contexto da ética pensada a como lugar dessa discussão a ACP enquanto uma abordagem partir da alteridade, os pensadores supracitados apresentam a dis- humanista existencial. É nesse contexto em que Kierkegaard cussão da responsabilidade com o Outro. Kierkegaard discute o e Lévinas contribuem com a compreensão do indivíduo que tema da proximidade (o próximo) e da alteridade, e Lévinas abarca chega ao Plantão Psicológico, considerando as queixas de essa temática tratando da alteridade e da responsabilidade, a partir angústia/desespero acolhidas pelos plantonistas. do encontro com o Outro (FERREIRA, 2006). Nesse sentido, algumas perguntas se tornam centrais. Como As aproximações entre o pensamento dos teóricos que norteiam podemos receber o Outro, muitas vezes com sofrimentos tão in- este capítulo são encontradas, de início, em Rogers quando faz tensos, que, de modo inesperado, aborda o plantonista com um menção a Kierkegaard em sua obra, como em trechos de Tornar-se universo emocional, diversas vezes, ainda não percebido em suas Pessoa (1961, 1987), por exemplo, destacando a proximidade de próprias vivências ou detalhadamente lido nos manuais de psi- pensamento com esse filósofo. Lévinas, por sua vez, como destaca cologia? Para a compreensão dessas demandas, será possível um Almeida (2011), afirma, em algumas Conferências, a influência diálogo mais íntimo com a filosofia existencialista? E como essa de Kierkegaard na construção de seu pensamento sobre a ética mesma filosofia pode dar luz ao tema do encontro com o Outro tão da alteridade. diferente de mim e que o vínculo estabelecido tem uma duração Essa perspectiva da responsabilidade com o outro tem tão pequena em termos de processo? intrínseca relação com o sentido do plantão psicológico e os É nossa intenção, pois, estimular tal debate como forma de pilares da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP). Indo de en- contro à racionalidade das ciências naturais para a construção abrir um espaço de discussão entre as atitudes facilitadoras do plan- do conhecimento científico, "a experiência clínica rogeriana tonista, preconizadas pela ACP e o esteio filosófico de Kierkegaard78 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 79 e Lévinas. Com essa convocação, as respostas a essas perguntas vários pensadores, como, Jaspers, Heidegger, Sartre, Buber, entre enriquecem um campo de diálogo que marcará compreensivamente outros. Ao estar preocupado com o indivíduo, o filósofo abriu não apenas o vivido do cliente, mas, não menos importante, o fa- espaço para se conhecer os elementos que fazem parte da cons- zer psi no trato relacional do plantonista em sua prática de escuta tituição do ser, como a angústia (JANZEN; HOLANDA, 2012). profunda com o cliente, que passa a ser um radicalmente Outro Segundo Janzen e Holanda (2015), a angústia na clínica diante do imprevisível. aparece para muitas abordagens como infinitas possibilidades para se enfrentar os problemas do dia a dia, e ainda acrescentam: Kierkegaard e a psicologia "Kierkegaard nos auxiliou no conhecimento de nós mesmos, a Kierkegaard, filósofo dinamarquês, considerado o pai do compreender questões universais como a angústia e o desespero, existencialismo (JANZEN; HOLANDA, 2012), traz um cará- mas também como elas estão atreladas à individualidade de cada ter peculiar à filosofia da época (meados do século XIX), por um" (p. 593). Na mesma direção em que o filósofo dinamarquês acreditar que os problemas filosóficos devem representar uma se preocupou com o distanciamento do homem de si mesmo, preocupação com a existência concreta do indivíduo, o que vem na clínica, o psicólogo tem como proposta facilitar o encontro a ter um grande destaque também na filosofia contemporânea do indivíduo com ele mesmo ou com sua singularidade, em (OLIVEIRA, 2015). Nesse sentido, trata-se de um filósofo com- situação, na maior parte das vezes, de desespero ou angústia prometido com a vida, cujo desenvolvimento pessoal se deu em (FEIJOO et al., 2013). Não é assim que o cliente se encontra um contexto de grande religiosidade e, segundo Oliveira (2015), frente ao plantonista em seu momento de urgência psicológica? esse ambiente foi um habitat natural desde a infância. Embora o Não seria essa a função do plantonista ao acolher o cliente? esteio do desenvolvimento do filósofo tenha sido nesse contexto É nesse panorama que se pauta o pensamento kierkegaar- religioso, Protasio (2015) aponta para o fato de que Kierkegaard diano. É sob este ponto de vista que a filosofia de Kierkegaard questionava a teologia doutrinária ou a vivência do cristianismo vai se aproximar das abordagens fenomenológicas existenciais, naquele recorte histórico. visto que o indivíduo aqui compreendido, é aquele que não Importa lembrar, contudo, o que Protasio (2015) reflete pode ser abarcado pelos sistemas explicativos, mas sim pela sobre o problema do si mesmo em Kierkegaard. Para a autora, existência onde a vida acontece (FEIJOO et al., 2013) no essa questão será contemplada pelo filósofo diante do pano- imediato de uma urgência psicológica. rama histórico do cristianismo de sua vivência no século XIX, Feijoo et al. (2013) consideram duas das principais obras porém, a autora ressalta o tornar-se cristão como algo bastante de Kierkegaard que muito se aproximam da psicologia: 1) atual diante dos problemas que vivenciamos. Essa atualidade O conceito de angústia (de 1844), e 2) A doença mortal, que foi se dá na nossa existência a partir do horizonte histórico pelo traduzida para o Brasil como O desespero humano (1849). Na qual somos atravessados, destacando que o tornar-se si mesmo primeira obra, a angústia surge como o possível da liberdade, é um problema da existência e não de uma época específica, diretamente relacionada com a ética da existência no que se uma vez que essa questão é presentificada com a historicidade refere à responsabilidade pelas escolhas, como possibilidade da de um momento. consciência de si mesmo e do seu vivido. Diante da angústia, pensamento kierkegaardiano apresenta uma grande apro- o indivíduo se aproxima da interioridade e adquire compreen- ximação com a psicologia, especialmente por ter sido o primeiro são, podendo expandir cada vez mais sua liberdade. Não tendo autor a evidenciar a subjetividade do ser humano, influenciando a compreensão, não se tem liberdade. Aqui vale destacar a80 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 81 aproximação com o caráter da urgência no plantão, em que o na direção de fugir de ter de ser o si mesmo, cuja experiência é sentido de clarear a demanda trazida pelo cliente, devolve-lhe singular e pessoal. Janzen e Holanda (2012) nos alertam para o a liberdade de ação e escolha em sua vida. Como ressaltam as fato de que Kierkegaard compreende o desespero de não querer autoras sobre a angústia: ser si mesmo e o de querer ser si mesmo. Na emergência de uma demanda trazida ao plantão, em que momento o cliente se Nesta perspectiva, a questão do psicólogo é acompanhar desespera nesse paradoxo de ser si mesmo e não querer ser si essa atmosfera de angústia, espaço em que se dá o salto mesmo? Na clareza da demanda, cabe ao plantonista e cliente descrito como o movimento que o indivíduo faz a cada escolha e que não se constitui nunca num contínuo, uma o lugar desse conflito e, por meio da empatia, o planto- vez que não vai se dando em um somatório. A escolha é nista pode facilitar o processo de libertação do cliente em sua um salto e, portanto, o ontem não importa tanto para o que condição de ser si mesmo. o hoje se estabeleça, uma vez que a existência constitui-se em movimento e o homem, a qualquer momento, pode dar um salto e este salto implica descontinuidade (p. 36). Lévinas em relação com a psicologia Na literatura atual, encontram-se poucas referências a estudos O caráter da descontinuidade pode ser percebido também que aproximem a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), de Carl na própria definição do Plantão Psicológico, quando Tassinari Rogers, aos conceitos do Outro levinasiano. Ao todo, no cenário (2003) afirma que é nacional e internacional (abrangendo os idiomas: português, inglês, espanhol e francês), foram encontradas 31 publicações Um tipo de atendimento psicológico que se completa em si mesmo, realizado em uma ou mais consultas sem duração que datam de 1987 a 2017, a partir de uma pesquisa realizada, pré-determinada, objetivando receber qualquer pessoa no entre abril e agosto de 2018, nas bases de dados on-line do Goo- momento exato (ou quase exato) de sua necessidade, para gle Acadêmico, PePsic, Scielo, Periódicos CAPES, Pubmed e ajudá-la a compreender melhor sua emergência [...] (p. 11). Lilacs com os descritores: "Carl Rogers", "Emmanuel Lévinas", "psicoterapia", "ACP", "abordagem centrada na pessoa", "person O fato de o indivíduo chegar com uma emergência, nor- centered approach" e "psychology". malmente carregada de angústia e/ou desespero, parece indicar O autor austríaco Peter Schmid é um dos nomes que mais se a possibilidade de ampliação da compreensão de si mesmo, de destacam ao proporcionar um diálogo entre Rogers e Lévinas, com sua interioridade, facilitada pelas atitudes do plantonista na 17 do total das publicações, de 1998 a 2013. É importante destacar vivência das condições ideais para a apropriação da liberdade que não foram consideradas, nesta pesquisa, as publicações na pelo cliente, agora apto a fazer suas escolhas. língua alemã, o que pode ter limitado o acesso aos escritos de Na segunda obra, o desespero humano, o filósofo afirma que Schmid. No Brasil, a maior parte dos trabalhos surge a partir de homem se constitui pelo desespero" (FEIJOO et al., 2013, estudos realizados pelo prof. Dr. José Célio Freire que, de 1987 p. 41). Protásio (2015) assinala que o desespero está relacionado a 2017, publicou cinco artigos como autor e coautor, além de ter com a tensão como constituinte da existência entre finitude e orientado duas dissertações. Freire também tratou da temática em temporalidade e infinitude e eterno. Nesse paradoxo, a autora sua dissertação de mestrado, em 1989, e em sua tese de doutorado, alerta que a experiência do desespero se trata de uma vivência em 2000, não encontradas como disponíveis nas bases de dados universal experienciada de modo individual. Quando se percebe pesquisadas. Para ele, a ACP vem negligenciando a alteridade desesperado, o homem dá-se conta de que sempre se movimentou radical postulada por Lévinas (ARAÚJO; FREIRE, 2017).82 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 83 Emmanuel Lévinas foi um filósofo franco-lituano que Contudo, como aponta Freire (2003), os conceitos levinasia- dedicou seus estudos às questões da Ética e do Outro, fa- nos acabam por distanciar-se da perspectiva mais tradicional da zendo críticas à filosofia ocidental que, para ele, exibe uma ACP. Vieira e Freire (2006) trazem o questionamento da dimensão tendência de tentar reduzir todas as coisas a uma condição de ética da ACP, baseado na ética da alteridade radical de Lévinas. inteligibilidade, a noções racionais, lógicas e controláveis. Para os autores, é preciso repensar a abordagem em uma excen- Para além de um crítico da racionalidade ocidental moderna, tricidade da pessoa, em sua dimensão que é estranha. Embora Lévinas se debruça sobre a questão negligenciada da ética essa questão seja primordialmente epistemológica, acaba por (HUTCHENS, 2009). culminar no questionamento do quê fazer da práxis psicológica É a partir da ideia de uma "ética da que o filósofo atual (FREIRE, 1987). traz a noção de Outro: este Outro está sempre além daquilo que é passível de ser conhecido e, apesar de inalcançável, se faz Em torno de Lévinas sempre presente (HUTCHENS, 2009). Dessa forma, a subje- Para Freire (2003), as teorias e práticas psicológicas, nas tividade se constrói no relacionamento com o Outro, em uma especificidades de cada abordagem, possuem uma determinada relação vertical, que não pode ser sintetizada. Em direção con- compreensão do que é ser humano que está atrelada à própria trária ao pensamento moderno, Lévinas não tenta se aproximar fenomenalidade do sujeito; em outras palavras, cada abordagem do indivíduo, mas questioná-lo. Esse processo se dá através do é criadora de seu próprio sujeito. Para o autor, esta constatação conceito da primazia do Outro na relação com a subjetividade, nos leva a tratar da dimensão ética da psicologia, de estar a o qual justifica a denominação de sua teoria como a ética da serviço de Outrem, para ele e por ele. alteridade radical (VIEIRA; PINHEIRO, 2013). A vinda do Outro, em sua alteridade radical, exige uma Para Lévinas (1985), a subjetividade deve ser descrita em responsabilidade indeclinável, uma implicação do eu, não so- termos éticos, e responsabilidade é a sua estrutura primordial e fundamental. Em seus termos, a responsabilidade é pelo Outro, mente me convocando, mas possibilitando a minha existência ou seja, responsabilidade por algo que não é meu, mas que é singular apenas eu posso responder ao chamado do Outro e encontrada pelo eu como um Rosto, para a qual a única resposta ninguém pode assumir meu lugar (FREIRE, 2003; BLEICHER; possível é "Eis-me". O eu não é responsável como um simples FREIRE; SAMPAIO, 2014). Partir da alteridade radical é ouvir atributo da subjetividade: a responsabilidade já existia em si Outro em seu sofrer, aproximando-se desse sofrimento, sem própria, pois a subjetividade não é para si mesma, mas para anular ou o minimizar na busca por um ajuste (CARVALHO; outrem. Nesse sentido, a ética é anterior à ontologia. A relação FREIRE; BOSI, 2009). Acreditamos que tal escuta seja aquela com a alteridade é, necessariamente, assimétrica (VIEIRA; que toma vida na dinâmica do plantão: o encontro entre aquele PINHEIRO, 2013). Em outras palavras, o eu deve responsabi- que sofre e aquele que, no serviço psicológico, o serve, tão lidade ao Outro sem esperar por reciprocidade. próximos quanto distantes. Em um editorial publicado no European Journal of Psycho- A direção do 'en-contro', onde o Outro também se posiciona therapy, Counselling and Health em 2005, Loewenthal e Kunz 'contra', ou em oposição a mim, parte do Outro para o eu em afirmaram: "[Lévinas] agora está começando a ser seriamente um chamado de responsabilidade. Assim, o estar com o Outro considerado na psicologia" [tradução nossa] (LOEWENTHAL; proporciona o encontro com uma realidade que afeta aquele que KUNZ, 2005, p. 2). é confrontado (SCHMID, 2001a). Para Schmid (2001a, 2005),84 LANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 85 a base existencial das atitudes básicas da ACP é a presença. Ao Psicológico, possibilitam ao profissional a construção de uma citar Lévinas, ele aponta que o desafio do encontro é manter-se dimensão diferente em sua atuação clínica e em suas concepções desperto por um enigma. Contrário a uma rotina, ouvir aberta- de psicoterapia (MIRANDA, 2012). A discussão sobre a alteri- mente significa estar aberto para o inesperado e o dissonante dade nesses locais do fazer psicológico pode fornecer parâmetros (SCHMID, 2001b). Na urgência psicológica, o plantonista se políticos, técnicos e éticos para o debate do lugar de uma clínica depara sempre com o inesperado; é o momento do instante de rogeriana situada em um contexto que parte da realidade social um encontro que não sabe o que vai acontecer, quem vem a sua de um Outro (VIEIRA, 2017). procura, mas é preciso estar já pronto para ouvir esse Outro que A psicologia clínica vivencia processos de mudança me chama para a responsabilidade dessa relação. (VIEIRA, 2017) que perpassam questões como, a contextu- Vieira e Pinheiro (2015) também questionam as possi- alização social dos clientes; a flexibilidade diante das neces- bilidades de abertura para a diferença na ACP, a partir de um sidades únicas dos atendimentos; a duração das sessões; e a diálogo com a filosofia de Lévinas, e apontam que os encontros desconstrução do setting terapêutico tradicional (MIRANDA, e desencontros cotidianos são os mecanismos propulsores pri- 2012). Como pontua Vieira (2017), é necessário que a clínica mordiais para se pensar os lugares concedidos à alteridade na brasileira se reinvente, acolhendo e encontrando a alteridade; prática psicológica. uma das possibilidades de reinvenção apontada pelo autor é Freire (2003) destaca que os serviços de psicologia devem justamente o Plantão Psicológico, por fazer uma interlocução ser constituídos como maneiras de estar a serviço do Outro, entre a psicologia clínica e as políticas públicas. O Plantão oferecendo-lhe o melhor lugar, um ethos, ou seja, uma morada Psicológico surge dessas reflexões que abrem caminhos para a de confiança, espaço de renovação antes de retomar suas dores formação de profissionais mais voltados aos dilemas dos clien- no mundo. Assim, prossegue o autor, a psicologia precisa se tes, em um maior acolhimento de necessidades específicas, e aproximar da questão da justiça social, onde a qualidade de vida aproximando-se do conceito de responsabilidade levinasiana também se relaciona com a cidadania e os direitos democrá- (MIRANDA, 2012). ticos. É exatamente nesse contexto que o Plantão Psicológico Gantt (2000) enfatiza que, a partir de uma conceitualização se configura como uma clínica social, distanciando-se de uma da perspectiva levinasiana, o trabalho real da terapia ocorre na clínica tradicional de psicoterapia (SOUZA; FARIAS, 2015). resposta do terapeuta ao dever ético de 'sofrer-com' o Outro, Entretanto, é possível afirmar que a constituição tradicional na imediatez do aqui-e-agora de seu sofrimento, nas inevitá- da psicologia clínica, majoritariamente restrita aos atendimen- veis vicissitudes da vida. Nesse sentido, é possível entender tos em consultórios particulares, falhou em atender a questões o Plantão Psicológico como o lugar de acolhida à alteridade apresentadas pela sociedade. As demandas psicossociais cres- radical, onde o sujeito desponta como Outro que, em seu so- centes, que conclamam a resposta da Psicologia como uma frer, conclama a responsabilidade indeclinável do plantonista. ciência relevante, não conseguem ser respondidas pela clínica A urgência do plantão deixa o terapeuta diante do Rosto do tradicional (PINTO; ROLDÃO, 2018). cliente, sem técnicas, rótulos diagnósticos ou perspectivas de Partindo da necessidade de atender às demandas sociais, 'cura', tendo como única possibilidade a resposta tão enfatizada experiências em práticas clínicas diferenciadas como o Plantão por Lévinas: "Eis-me".86 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 87 Considerações finais um vínculo de confiança, que permite criar uma relação segura, possibilita que o cliente sinta-se livre na relação. Cada um [plan- Tecer o diálogo da prática clínica, realizada no formato tonista] responde ao pedido em sua direção e ninguém poderá de Plantão Psicológico, com o tema da ética da alteridade no assumir esse lugar (FREIRE, 2003; BLEICHER; FREIRE; atendimento das urgências psicológicas comunicadas como SAMPAIO, 2014). Por fim, o Plantão Psicológico é o espaço angústia e desespero; eis o intento deste estudo. Nas confabula- de tematizar e se demorar na angústia/desespero para o salto na ções teóricas entre Rogers, Kierkegaard e Lévinas, foi possível direção da liberdade de ser si mesmo, em uma profunda entrega identificar a aproximação dos fundamentos clínicos rogerianos e confiança diante da alteridade radical. com a discussão filosófica dos outros dois autores. Não se trata de argumentar em defesa de uma teoria centrada na pessoa que seja também, e ao mesmo tempo, levinasiana e kierkegaardiana, mas, sim, levantar um diálogo entre esses pensadores, cujas perspectivas sobre estar em relação com o Outro têm semelhança. Nesta disposição, foi possível ampliar a reflexão acerca do fazer clínico na Psicologia, caracterizado por uma postura de disponibilidade do terapeuta para o Outro, em uma relação que se constrói diante do desconhecido, do ines- perado, por meio de uma escuta ética dessa alteridade radical. Considerando as limitações circunstanciais do formato desta produção, aponta-se a possibilidade de maior aprofundamento nesse debate, a partir de um mergulho mais demorado nas obras desses autores. Pontua-se, portanto, que novas percepções podem surgir, ampliando o horizonte discursivo e, quiçá, construindo a cartografia de outros caminhos à articulação teórica proposta. O serviço do plantão, além da busca em proporcionar uma escuta atenta, um ambiente seguro, de acolhimento, objetiva também e, acima de tudo, propiciar a cada indivíduo a liberdade de ser si mesmo. Essa compreensão vai além de um setting terapêutico, na medida em que proporciona a cada pessoa que procurou e confiou no plantão uma escuta genuína, um encontro existencial, sendo o que pode ser naquele momento. Estar com o outro, acolhendo sua urgência, em uma relação empática e de aceitação incondicional expressa a responsabi- lidade com a experiência que ali se apresenta, em um único atendimento que traz o Outro desconhecido. A construção dePLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 89 88 REFERÊNCIAS FERREIRA, Sandro de Souza. próximo de Kierkegaard, o outro de Lévinas e a condição animal. Dissertação (Mestrado) Universidade Vale do Rio dos Sinos, 2006. ALMEIDA, Jorge Miranda de. Educação, alteridade e ética em Kierkegaard e Lévinas. In: IX COLÓQUIO DO MUSEU FREIRE, José Célio. A ética da psicologia centrada na pessoa. PEDAGÓGICO. Anais... V. 9, n. 1, p. 1215-1235, 2011. Rev. psicol., (Fortaleza, Impr.), V. 5, n. 1, p. 77-91, 1987. ANDRADE, Ângela Nobre; MORATO, Henriette Tognetti A psicologia a serviço do outro: ética e cidadania na Penha. Para uma dimensão ética da prática psicológica em ins- prática psicológica. Psicologia: ciência e profissão, V. 23, n. 4, tituições. Estudos de Psicologia, V. 9, n. 2, p. 345-353, 2004. P. 12-15, 2003. ARAÚJO, Cavalcante; FREIRE, José Célio. Peter Schmid GANTT, Edwin E. Levinas, psychotherapy, and the ethics e a alteridade radical: retomando o diálogo entre Rogers e Lé- of suffering. Journal of humanistic psychology, V. 40, n. 3, vinas. Revista da Abordagem Gestáltica: phenomenological P. 9-28, 2000. studies, V. 23, n. 2, 2017. HUTCHENS, Benjamin C. Compreender Lévinas. Petrópolis: BLEICHER, Taís; FREIRE, José Célio; SAMPAIO, José Jack- Vozes, 2009. (Original publicado em 2004). son Coelho. Avaliação de política em saúde mental sob o viés da alteridade radical. Physis: revista de saúde coletiva, V. 24, JANZEN, Marcos Ricardo; HOLANDA, Adriano. Elementos para p. 527-543, 2014. uma psicologia no pensamento de Soren Kierkegaard. Estudos e Pesquisas em Psicologia, V. 12, n. 2, p. 572-596, 2012. CARVALHO, Liliane Brandão; FREIRE, José Célio; BOSI, Maria Lúcia Magalhães. Alteridade radical: implicações para LÉVINAS, Emmanuel. Ethics and infinity. Dusquene Univer- o cuidado em saúde. Physis: revista de saúde coletiva, V. 19, sity Press, 1985. p. 849-865, 2009. DUTRA, Elza. Considerações sobre as significações da psico- LOEWENTHAL, Del; KUNZ, George. Special issue: Levinas and logia clínica na contemporaneidade. Estudos de Psicologia, the Other in psychotherapy and counselling. European Journal V. 9, n. 2, 2004. of Psychotherapy, Counselling and Health, V. 7, n. 1-2, 2005. FEIJOO, Ana Maria Lopez Calvo et al. O pensamento de MIRANDA, Carmen Silvia Nunes de. Ética Radical e Psico- Kierkegaard e a clínica psicológica. Rio de Janeiro: IFEN, 2013. terapia Centrada na Pessoa: a abertura à alteridade radical na relação terapêutica a partir de discursos de psicoterapeutas FEIJOO, Ana Maria Lopez Calvo; MATTAR, Cristine Monteiro. sobre o inusitado em sua prática clínica. Dissertação (Mestrado) Encontros e desencontros nas perspectivas existenciais em psi- Universidade Federal do Ceará, 2012. cologia. Psicologia em Revista, V. 22, n. 2, p. 258-274, 2016.90 ANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 91 MOREIRA, Virginia. A Gestalt-terapia e A Abordagem Cen- SOUZA, Sandra; FARIAS, Arethusa Eire Moreira de. Plantão trada na pessoa são enfoques fenomenológicos? Revista da psicológico: a urgência da acolhida. In: SOUZA, Sandra; SILVA- Abordagem Gestáltica, V. XV, n. 1, p. 3-12, 2009. FILHO, Francisco Bento da; MONTENEGRO, Liana Aparecida de Andrade (Org.). Plantão psicológico: ressignificando o hu- OLIVEIRA, André Luiz Holanda. Soren Kierkegaard: por uma mano na experiência da escuta e acolhimento. Curitiba: CRV, filosofia da existência. Ágora Filosófica, n. 1, p. 169-194, 2015. 2015. p. 15-32. PINHEIRO, Francisco Pablo Huascar Aragão; VIEIRA, Emanuel TASSINARI, Marcia Alves. A clínica da urgência psicológica: Meireles. Convergências entre a abordagem centrada na pessoa contribuições da Abordagem centrada na pessoa e da teoria do e Sören Kierkegaard. Psicologia Argumento, V. 29, n. 65, 2011. caos. Tese (Doutorado) Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2003. PINTO, Isadora Macedo Freitas; ROLDÃO, Flávia Diniz. A re- levância do Plantão Psicológico no acolhimento a vítimas de VIEIRA, Emanuel Meireles. Ética e psicologia: uma investi- violência doméstica: um relato da experiência no juizado de vio- gação sobre os ethoi da terapia centrada na pessoa. Tese (Dou- lência doméstica e familiar. In: Anais... torado) Universidade Federal de Minas Gerais, 2017. 3, n. 1, p. 286-286, 2018. Ethics and the person-centered approach: a dialogue with radical alterity. Theory & Psychology, V. 25, n. 6, p. 798- PROTASIO, Myriam Moreira. si mesmo e as personificações 813, 2015. da existência finita: comunicação indireta rumo a uma ciência existencial. Rio de Janeiro: IFEN, 2015. VIEIRA, Emanuel Meireles; FREIRE, José Célio. Alteridade e psicologia humanista: uma leitura ética da abordagem centrada ROGERS, Carl Ransom. Um jeito de ser. São Paulo: EPU, 1983. na pessoa. Estudos de psicologia, V. 23, n. 4, p. 425-432, 2006. SCHMID, Peter F. Authenticity: the person as his or her own VIEIRA, Emanuel Meireles; PINHEIRO, Francisco Pablo Huas- author. Dialogical and ethical perspectives on therapy as an car Aragão. Person centered psychotherapy: an encounter with encounter relationship. And beyond. Rogers' therapeutic con- oneself or a confrontation with the other? Estudos de Psicologia, ditions: evolution, theory and practice, V. 1, p. 213-228, 2001a. (Campinas), V. 30, n. 2, p. 231-238, 2013. Comprehension: the art of not-knowing. Dialogical and ethical perspectives on empathy as dialogue in personal and person-centred relationships. Empathy, p. 53-71, 2001b. Facilitative responsiveness: non-directiveness from an anthropological, epistemological and ethical perspective. B. Levitt (Hg.), Embracing non-directivity, (S. 74-94), Ross-on- Wye, PCCS Books, 2005.CAPÍTULO 5 SOFRIMENTO ÉTICO-POLÍTICO EM UM SERVIÇO DE PLANTÃO PSICOLÓGICO CENTRADO NA PESSOA Cláudia Monteiro Mariana Silva Edson Bezerra A realidade do nosso Serviço de Plantão Psicológico Centrado na Pessoa Toda e qualquer ação de assistência e cuidado psicológico deve levar em consideração, do planejamento à execução, a realidade em que ocorre, de sua concretude às suas implicações subjetivas. E quando essa ação é embasada em uma abordagem que prima por relações horizontalizadas e pela crença na poten- cialidade humana em ser autônoma e livre (ROGERS, 1978), como a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), uma realidade de acentuada e naturalizada desigualdade social e com relações verticalizadas pode gerar muitas questões práticas e éticas no cotidiano, que suscitam reflexões teórico-conceituais. Um Ser- viço de Plantão Psicológico Centrado na Pessoa, a partir de agora chamado sinteticamente de Plantão, que oferece gratuitamente atendimento clínico em Psicologia, atrai pessoas de diferentes modos e meios de vida²¹, mas, especialmente, aquelas que não têm acesso fácil, pelo seu capital econômico ou facilitado pelo Estado, a esse tipo de serviço, uma vez que subjetividade é palavra usada por intelectuais ou privilegiados da nossa elite²². 21 Quando utilizamos 0 termo "modo e meio de vida", estamos referindo-nos a orientações ideológicas (que implicam em orientações políticas, religiosas, afetivas, sexuais etc.) e ao lugar que a pessoa ocupa na dinâmica capital-trabalho em prol de sua subsistência (pessoal e familiar), respectivamente. 22 Em nosso texto, usaremos a palavra elite para designar qualquer pessoa que tenha acesso a bens e serviços por meio de negociações financeiras. São as pessoas que podem pagar por bens e serviços, mesmo que sejam aquela classe média endividada,94 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 95 A maior parte da população, que vive na pobreza e na O Serviço de Plantão Psicológico Centrado na Pessoa alienação, sequer tem noção de seu direito a cuidados em São Luís deriva do Projeto de Extensão desenvolvido no gicos. E o Estado brasileiro oferece precariamente os serviços Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ma- da Psicologia a essa população, que é ouvida em condições ranhão (UFMA) "Plantão Psicológico Centrado na Pessoa: precárias após longas filas de espera. Psicólogas/os que atendem Democratizando o Acesso Público à Psicologia". A idealização nessas políticas públicas, muitas vezes, adoecem ou murcham dessa prática extensionista ocorreu nas discussões do Grupo de em cotidianos de tanto descaso, de nosso sistema social, com Estudos em Abordagem Centrada na Pessoa (GEACP), bem pessoas que sequer se veem com poder de enfrentamento, dada a como na história de sua coordenadora com a Psicologia Social Comunitária. Democratizar o acesso à Psicologia, em especial a (praticamente) inexistente educação política em nosso país, que mantem na alienação a maior parte da população, que se submete sua prática clínica, sempre foi mais que um desejo, compondo o a qualquer serviço, a qualquer tratamento, já que "é de nosso compromisso social, inclusive enquanto categoria profis- sional, com a realidade de maior parte da população brasileira. Santos, Mota e Silva (2013) chegam a falar em subcidadania, Hoje, atendemos no espaço físico da Defensoria Pública ao tentar entender a dimensão subjetiva da desigualdade social do Estado do Maranhão (DPE-MA) e no Núcleo de Extensão e seu processo de retroalimentação no Brasil. da Vila Embratel/UFMA (NEVE/UFMA). A escolha desses dois São Luís, capital do Maranhão, como outras cidades brasilei- órgãos públicos foi em função de seu alcance populacional. ras, exibe clara e ferozmente em sua urbanidade, essa realidade de A DPE-MA, enquanto instituição de defesa de direitos e fruto extrema desigualdade social. Falta água todos os dias em algum principalmente de movimentos sociais, parece-nos o espaço mais ponto da cidade, mas só pobres vivem isso, já que a elite contrata lógico para democratizar o acesso público à Psicologia, seja a sua serviços de caminhão-pipa para seus condomínios fechados. prática clínica, seja para mobilizações comunitárias com fins de Restaurantes caros têm clientes ditos brancos e empregados com potencializar pessoas e grupos que sofrem com a desigualdade a pele mais escura, pois, sim, a desigualdade social brasileira é social. NEVE/UFMA representa uma política educacional atravessada por questões étnicas, especialmente o racismo. Mu- pública e gratuita, sendo uma presença de ações comunitárias lheres são claramente o maior alvo de violência e, se for negra já reconhecida pela população de seu entorno, alcançando uma e pobre, mais ainda. Poderíamos continuar enumerando dados grande área. Esses dois órgãos públicos possibilitaram-nos dessa desigualdade social feroz que produz tantas situações de iniciar o nosso esforço de democratizar a Psicologia por serem exclusão social e, consequentemente, sofrimento. Mas, paramos ainda locais de livre acesso populacional, em que as pessoas, por aqui, já que, acreditamos, ter conseguido, introduzir quem inclusive, não são constrangidas por normas excludentes, como está lendo este texto na realidade em que nosso Plantão, gratuito e "só ocorrerá atendimento mediante ou "não idealizado para democratizar o acesso à Psicologia, foi implantado pode entrar com bermuda e/ou sandálias de borracha", por e está sendo implementado. exemplo. Para a implantação do nosso Plantão, o acesso de- mocrático ao local é importante, bem como a nossa autonomia que têm acesso a versões de bens e serviços de uma elite socioeconômica "verdadeira". no gerenciamento do nosso Serviço. É condição sine qua non, Um bom exemplo disso são planos de saúde, que oferecem serviços melhores que sistema público, e piores que das negociações particulares. para a existência de nosso Serviço de Plantão Psicológico Cen- 23 As aspas são para enfatizar quanto os serviços oferecidos pelo Estado para a popula- trado na Pessoa, que a sua realidade tenha espaço para relações ção não são, moralmente falando, gratuitos, uma vez que existe uma política tributária, quiçá um dia uma justiça tributária em uma concepção democrática do fundo público, que embasa a política social, fazendo com que a sociedade tenha direito à assistência 24 Evidentemente, que a DPE-MA tem a sua organização própria para seus numerosos estatal. Não iremos aprofundar esse raciocínio neste capítulo, por mais relevante que atendimentos, que inclui agendamentos, mas, é um órgão público acessível à popula- ele nos pareça para a sua temática, por uma questão de foco na discussão proposta. ção e que absorveu a nossa dinâmica de busca espontânea do Plantão.96 PLANTÃO E A CLÍNICA DA URGÊNCIA PSICOLÓGICA 97 horizontalizadas e para a crença na potencialidade humana em Isto nos leva ao desafio de, diante de nossa reflexão crí- ser autônoma e livre. Isso nem sempre é simples, exige muitas tica e desejo de transformação social, não recair ao extremo de e muitas reuniões e reafirmações, mas, para nossa satisfação, tornar o Plantão um ambiente ditador à pessoa atendida, com tem se mostrado possível. conteúdos e formas elaboradas pela²⁷ plantonista e transmitidas sob a intenção de encorajar o empoderamento sob sua ótica. (nosso) sofrimento ético-político no Plantão Há de se considerar que, socialmente, a Psicologia é posta sob A democratização do acesso público à Psicologia vai além pilar resolutivo, no sentido de que as "doutoras", enquanto "detentoras do saber", sempre concederão as melhores respostas dos aspectos econômicos associados a um serviço sem custos. Perpassa, principalmente, pela possibilidade de um acolhimento para favorecer a adaptação da pessoa aos contextos, eliminando ativo, responsável e sensível às nuances da história e contexto de seus incômodos por serem, de alguma maneira, cada pessoa que busca o Plantão. É a oportunidade de, na constru- por seu sentir. ção de uma relação que valoriza as vivências da pessoa enquanto Ressaltamos que esta armadilha social mantém a subser- foco, possibilitar o contato e empoderamento de potências. viência característica do sentimento de exclusão. Novamente, Nessa construção, a vivência de ser plantonista é direta- estaríamos, portanto, mesmo que na melhor das intenções, fa- mente atravessada, em humanidade e coletividade, propiciando vorecendo o rebaixamento da potência de cada pessoa e de suas um intenso contato com nossos limites e possibilidades. Re- vivências, pela promoção de uma relação desigual no contexto do cordamos continuamente, em nossas reuniões de supervisão atendimento. Havendo o risco de ser o Plantão mais um espaço clínica²⁵, atendimentos nos quais nos dávamos conta que nos de manutenção de desigualdades, através do fortalecimento de sentíamos pessoalmente tocados, movidos a encontrar alter- relações verticalizadas e do enfraquecimento da confiança na nativas de resolutividade dos contextos e, quase que sequen- autonomia do sujeito, na medida em que este saber legitimado cialmente, mergulhados na sensação de frustração. sobrepõe suas vivências. Experienciar o quão significativos são para as pessoas atendidas Em uma realidade de insuficiência da rede de cuidado e de contextos que, jurídica e/ou socialmente, são reduzidos à pobreza, garantia de direitos, em que, por mais incrível que pareça, um negligência e infrações, nos leva a perceber o embate entre genera- serviço público de assistência social não trabalha em parceria lizações próprias de nossa sociedade, que tende a demarcar como sistemática e contínua com outro de saúde (por exemplo), é uma desajustamento, passividade ou como falas de menor valor àquelas tentação para a plantonista tutelar a pessoa atendida, assumindo advindas de minorias²⁶; ao mesmo passo que nos leva a ponderar para si decisões e encaminhamentos resolutivos para o sofrimento que nós, plantonistas, mesmo que sensíveis a tais contextos, somos trazido e, frequentemente, frustrando-se diante do descaso do po- parte de uma mesma cultura capitalista que tende a reproduzir e der público com o sofrimento das minorias. Sawaia (2013) chama sustentar explorações e generalizações, mesmo que de forma sutil. esse sofrer da classe trabalhadora de sofrimento ético-político, o que faz muito sentido para nós, plantonistas de serviços gratuitos 25 Reunião em que procuramos estabelecer com a equipe uma relação de valorização da e acessíveis²⁸, que encaramos corajosamente demandas espontâ- capacidade da plantonista em atuar por si mesmo, sem a dependência da tutela da super- neas de vivências cotidianas relacionadas, segundo a autora e de visora, como uma figura de autoridade que não facilita 0 processo de abertura às experiên- cias do outro e de si mesmo (VIEIRA et al., 2018). 26 0 termo "minoria" será aqui utilizado por ser de entendimento comum para designar a 27 Usaremos 0 gênero feminino como genérico por serem as autoras mulheres, mas, evi- parcela da população cujos direitos são negligenciados, ou mesmo questionados em dentemente, as reflexões incluem todo e qualquer gênero. sua legitimidade. Porém, afirmamos a nossa concepção de que, na realidade brasi- 28 Fazemos questão de pontuar "gratuitos e acessíveis" por entender que podem haver leira, essa população excluída compõe a sua maioria, que vive as mazelas da dialética serviços que exigem negociações financeiras e são, portanto, menos acessíveis à maio- exclusão/inclusão. ria da população.