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Introdução à Tutela Jurisdicional Executiva 
 
1. Premissa Fundamental: A Efetividade da Jurisdição 
 
A estrutura do ordenamento jurídico contemporâneo repousa sobre um 
princípio basilar: a jurisdição não se exaure na mera declaração do direito. O 
Estado-Juiz, ao monopolizar a solução dos conflitos (vedando a autotutela), 
assume o ônus correspondente: não basta proclamar quem tem razão; é 
imperioso tornar prática e efetiva essa razão reconhecida. É nesse hiato entre 
o ´´direito declarado´´ e o ´´direito realizado´ ́ que se insere a ´´Tutela 
Jurisdicional Executiva´´. 
 
Podemos conceituá-la, em uma primeira aproximação, como o complexo de 
atividades jurisdicionais voltadas à satisfação coativa de um direito já 
reconhecido (seja por sentença, seja por título extrajudicial) que não foi 
cumprido voluntariamente pelo obrigado. Enquanto a ´´tutela cognitiva´´ (ou 
de conhecimento) pergunta "quem tem o direito?", a ´´tutela executiva´´ 
responde à pergunta "como fazer valer esse direito?". É a fase da "prática", 
da materialização da prestação devida. 
 
 2. A Natureza do Processo de Execução: Autonomia e 
Instrumentalidade 
 
Um dos debates clássicos da ciência processual gira em torno da natureza do 
processo executivo. Historicamente, predominou a teoria ´´unitária ou 
monista´´, que via a execução como mera continuação ou fase do processo 
de conhecimento. A sentença seria o título, e a execução, sua consequência 
natural. Contudo, a evolução doutrinária consagrou a teoria ´´dualista ou 
binária´´, que reconhece a ´´autonomia´´ do processo executivo em relação 
ao de conhecimento. 
 
Essa autonomia não significa desconexão, mas sim que o processo executivo 
possui: 
 
 Pressupostos próprios (como a exigibilidade do título e a 
liquidez/liquetabilidade do crédito); 
 Relação jurídica processual própria (com partes, pedido e causa de 
pedir específicos); 
 Procedimento próprio, regido por princípios peculiares. 
 
 
No entanto, essa autonomia é ´´relativa e instrumental´´. O processo 
executivo é ´´instrumental´´ em relação ao direito material que busca 
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realizar. Sua finalidade não é discutir a existência do direito (em tese, já 
definida no título), mas sim operacionalizá-lo no mundo fático. É um 
mecanismo de ´´coação legal´´, uma "máquina" posta à disposição do credor 
para, sob o controle do Estado, compelir o devedor ao cumprimento. 
 
3. Os Pilares da Execução: Título Executivo e Exigibilidade 
 
A atividade executiva não pode ser deflagrada de forma discricionária ou 
arbitrária. Para preservar a garantia do devido processo legal e a segurança 
jurídica, o ordenamento exige a presença de dois pilares fundamentais: 
 
a) Título Executivo: É o documento (judicial ou extrajudicial) que, pela sua 
própria forma e conteúdo, demonstra ´´prima facie´´ a existência de um 
crédito líquido, certo e exigível, apto a ensejar a execução. A lei estabelece 
um ´´numerus clausus´´ de títulos executivos (art. 515, NCPC/2015). Eles se 
dividem em: 
 
 Títulos Judiciais: Sentenças condenatórias transitadas em julgado, 
acordos judiciais homologados, sentenças estrangeiras homologadas, 
etc. 
 Títulos Extrajudiciais: Caracterizam-se pela ´´formalidade´´ e 
´´presunção de veracidade´´. Exemplos: escritura pública, contrato 
com firma reconhecida, nota promissória, cheque, duplicata. 
 
O título é a ´´causa de pedir´´ do processo executivo. É dele que se extrai o 
crédito a ser satisfeito. 
 
b) Exigibilidade: O crédito deve estar ´´vencido e não pago´´. Um direito 
futuro ou sujeito a condição suspensiva não pode ser executado. A 
exigibilidade decorre da própria natureza do título (como um cheque) ou do 
decurso do prazo nele estipulado. 
 
4. O Objeto da Execução: Crédito Líquido e Certo (A Busca da 
Liquetabilidade) 
 
O processo executivo destina-se a ser célere e efetivo. Por isso, 
tradicionalmente exigia-se que o crédito fosse ´´líquido´´ (determinado ou 
facilmente determinável em seu valor monetário) e ´´certo´´ (inequívoco em 
sua existência e extensão). A "liquidez" era condição de admissibilidade: o 
valor devido precisava estar quantificado no título ou ser apurável por mero 
cálculo aritmético, sem necessidade de complexa instrução probatória. 
 
3 
 
O Código de Processo Civil de 2015 (NCPC) operou uma significativa 
flexibilização, substituindo a exigência de "crédito líquido" pelo conceito de 
´´crédito liquetável´´ (art. 783). Isso significa que o processo executivo pode 
ser iniciado mesmo que o valor não esteja previamente quantificado, desde 
que sua apuração possa ocorrer ´´no curso do próprio processo executivo´´, 
por meio de fase incidental de ´´liquidação´ ́ (por cálculo, artigos ou 
arbitramento). Esta foi uma importante inovação na direção da efetividade, 
evitando que o credor fosse obrigado a um longo processo de conhecimento 
apenas para liquidar um crédito incontroverso em sua existência, mas não 
em seu montante. 
 
5. Estrutura Básica do Processo Executivo 
 
O rito executivo, em sua forma típica (execução por expropriação de bens), 
desenrola-se em fases lógicas: 
 
a) Iniciativa (Petição Inicial): O credor, com base no título executivo, 
requer ao juiz a deflagração da execução, indicando o devedor, o valor 
devido (capital, juros, custas) e requerendo as medidas coercitivas cabíveis. 
 
b) Citação do Devedor: O devedor é cientificado da execução. O NCPC 
instituiu a ´´citação para pagamento ou impugnação´´, num prazo único de 
15 dias (art. 805). Nesse ato, ele é informado sobre a penhora já realizada ou 
a realizar-se. 
 
c) A Penhora: É o ato processual pelo qual o juiz, a requerimento do credor, 
´´destina bens do devedor à satisfação do crédito executado´´. A penhora 
opera a ´´indisponibilidade´ ́dos bens, mas não transmite a propriedade. A 
escolha dos bens obedece a uma ordem legal (art. 835, NCPC), que visa 
equilibrar a efetividade da execução com a proteção do devedor (ex: 
poupando bens de uso essencial e de trabalho). 
 
d) A Avaliação: Os bens penhorados são avaliados para que se saiba seu 
valor de mercado. 
 
e) A Expropriação: Subfase destinada a transformar os bens penhorados em 
dinheiro para pagar o credor. Pode ocorrer por: 
 
 Alienação em hasta pública (leilão); 
 Adjudicação (atribuição do bem ao próprio credor, em até o valor do 
crédito); 
 Arrematação (venda a terceiro). 
 
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f) Pagamento ao Credor (Satisfação do Crédito): Com o produto da 
expropriação, o juiz ordena o pagamento ao credor, obedecida a ordem de 
preferência legal (custas, honorários advocatícios, crédito principal). 
 
g) Extinção: Com o pagamento integral, a execução se extingue com 
resolução do mérito. Também se extingue por outras causas, como a 
impossibilidade superveniente de execução. 
 
6. Modalidades de Tutela Executiva 
 
A execução por expropriação de bens é o tipo mais comum, mas não o único. 
O sistema processual oferece um ´´catálogo de técnicas executivas´´, 
adequadas à natureza da obrigação inadimplida: 
 
a) Execução por Quantia Certa: Visa satisfazer créditos pecuniários. É o 
modelo paradigmático descrito acima. 
 
b) Execução por Entrega de Coisa: Aplica-se quando a obrigação é de dar 
coisa certa (móvel ou imóvel). Se o devedor não entrega voluntariamente, o 
oficial de justiça ´´apreende a coisa´´ e a coloca à disposição do credor. 
 
c) Execução por Obrigação de Fazer ou não Fazer: Para obrigações de 
prestar um fato. Se for infungível (só pode ser realizado pelo devedor), o juiz 
pode cominar ´´multa (astreintes)´´ para compelir o cumprimento. Se for 
fungível (pode ser realizado por terceiro), admite-se que o credor o faça 
executar às custas do devedor. 
 
d) Execução de Obrigações Alimentícias: Regime especialíssimo, marcado 
pela ´´urgência´´ e por instrumentos coercitivos potentes, como a ´´prisão 
civil do devedor´´ (CF, art. 5º, LXVII) e a ´´penhora deé vista com 
cautela e tem hipóteses mais restritas. 
 
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Isso se justifica pela própria natureza da execução, que é um processo que 
tende à satisfação rápida e eficaz de um direito já estabelecido, não se 
prestando, em regra, ao debate complexo sobre a existência de relações 
jurídicas entre terceiros. 
 
Diferentemente do que ocorria no CPC/1973, que em regra admitia a 
intervenção apenas no processo de conhecimento, o CPC/2015 ampliou o 
espectro, mas a doutrina e a jurisprudência continuam a aplicar restrições no 
âmbito executivo. Vamos analisar cada modalidade à luz da execução. 
 
2.1. Assistência (Simples e Litisconsorcial) 
 
A assistência (arts. 119 a 124, CPC) é a modalidade pela qual o terceiro 
juridicamente interessado ingressa no processo para auxiliar uma das partes 
a obter uma sentença favorável. 
 
Cabimento na execução: A assistência é, em tese, cabível na execução, 
embora sua aplicação prática seja limitada. O interesse jurídico do assistente 
deve estar relacionado ao próprio processo executivo. Exemplos: 
 
 Assistência simples: O fiador que não foi acionado na execução (por 
exemplo, porque o credor optou por executar primeiro o devedor principal) 
pode ter interesse em assistir o devedor principal. Se o devedor principal for 
executado e não pagar, o fiador poderá ser posteriormente demandado. 
 
Ele tem interesse jurídico em que a execução contra o devedor principal seja 
julgada improcedente (ou, no caso, que o executado se desincumba da 
obrigação), pois isso o eximirá da responsabilidade. Sua atuação é como 
auxiliar, sujeitando-se aos mesmos ônus processuais, mas não podendo, por 
exemplo, reconhecer a procedência do pedido do exequente. 
 
 Assistência litisconsorcial: Ocorre quando a sentença influir na relação 
jurídica entre o assistente e o adversário do assistido. Imagine uma execução 
de dívida condominial movida apenas contra o promitente-comprador 
(possuidor). O proprietário do imóvel (promitente-vendedor), que não foi 
incluído no polo passivo (e, a rigor, não poderia ser, por força do art. 513, 
§5º, para título judicial), mas que poderá ser responsabilizado caso a 
execução contra o possuidor seja infrutífera (em razão do caráter propter 
rem da dívida), pode intervir como assistente litisconsorcial, pois a sentença 
que reconhecer a dívida influenciará diretamente sua relação com o 
condomínio. 
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Limitações: Apesar de cabível, a assistência não pode tumultuar a execução. 
O assistente recebe o processo no estado em que se encontra (art. 119, 
parágrafo único) e não pode requerer a repetição de atos já praticados. 
 
2.2. Denunciação da Lide 
 
A denunciação da lide (arts. 125 a 129, CPC) é o mecanismo pelo qual uma 
parte, em ação movida contra si, chama ao processo um terceiro, garantindo 
o exercício do direito de regresso, caso seja vencida. 
 
Cabimento na execução: A doutrina e a jurisprudência são praticamente 
unânimes em considerar incabível a denunciação da lide na execução. O 
fundamento é simples: a denunciação da lide tem por objetivo resolver, em 
um único processo, uma pretensão de regresso que surge de uma relação 
jurídica de direito material. No entanto, na execução, não há "lide" a ser 
denunciada. 
 
A obrigação do executado já está cristalizada no título. Discutir, na execução, 
se um terceiro (por exemplo, o vendedor de um bem com defeito) é quem 
deverá, em regresso, arcar com o prejuízo, implicaria desvirtuar a natureza 
da execução, transformando-a em um processo de conhecimento incidental, 
com ampla dilação probatória, o que afrontaria os princípios da celeridade e 
efetividade que regem a execução. 
 
A única via possível para o executado exercer seu direito de regresso é 
ajuizar uma ação autônoma de regresso contra o terceiro responsável. 
 
2.3. Chamamento ao Processo 
 
O chamamento ao processo (art. 130, CPC) é uma faculdade do réu, em 
processo de conhecimento, de chamar ao feito os demais coobrigados 
(devedores solidários, fiadores, etc.) para que a dívida seja rateada ou para 
que a sentença os atinja. 
 
Cabimento na execução: Assim como a denunciação da lide, o 
chamamento ao processo é considerado incabível na execução. O art. 130 é 
claro ao se referir ao "réu" no processo de conhecimento. A execução não 
comporta essa integração forçada de novos sujeitos para debate da 
responsabilidade. Se o exequente optou por executar apenas um dos 
devedores solidários, não pode o executado exigir que os demais sejam 
chamados para dividir o pagamento. 
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A solidariedade confere ao credor o direito de exigir a dívida de qualquer um 
dos devedores, por inteiro. Ao executado que pagar a dívida, caberá a ação 
de regresso contra os demais coobrigados, em processo autônomo. 
 
2.4. Incidente de Desconsideração da Personalidade Jurídica (IDPJ) 
 
O Incidente de Desconsideração da Personalidade Jurídica, previsto nos arts. 
133 a 137 do CPC/2015, é, sem dúvida, a mais relevante inovação no que 
tange à interação entre partes e terceiros na execução. Ele não é, 
tecnicamente, uma modalidade de intervenção de terceiros, mas sim um 
incidente processual que visa incluir um terceiro (o sócio ou a pessoa 
jurídica de um grupo) no polo passivo da execução ou excluí-lo, 
desconsiderando, para aquele caso concreto, os efeitos da personalidade 
jurídica. 
 
Cabimento na execução: O IDPJ é perfeitamente cabível e extremamente 
comum na execução (arts. 133, caput, e 134, §4º). Ele pode ser instaurado 
tanto na fase de cumprimento de sentença (título judicial) quanto na 
execução fundada em título extrajudicial. 
 
Fundamentos: A desconsideração visa combater o desvio de finalidade (uso 
da pessoa jurídica para fins ilícitos) ou a confusão patrimonial (falta de 
clareza entre o patrimônio da sociedade e o de seus sócios). Em algumas 
situações específicas (relações de consumo e direito ambiental, por 
exemplo), a teoria menor da desconsideração pode ser aplicada, exigindo-se 
apenas a prova da insolvência da pessoa jurídica em prejuízo do credor (art. 
28, §5º, do CDC). 
 
Procedimento (Art. 135, CPC): O procedimento do IDPJ é um dos grandes 
acertos do CPC/2015, pois garante o contraditório e a ampla defesa do 
terceiro que se pretende atingir, evitando decisões surpresa. O rito é o 
seguinte: 
 
1. Requerimento da parte ou do Ministério Público: O exequente deve 
requerer a instauração do incidente, com a exposição dos fundamentos e a 
juntada de provas que demonstrem, em tese, a existência dos pressupostos 
para a desconsideração (desvio de finalidade ou confusão patrimonial). 
2. Suspensão do Processo (principal): Com a instauração do incidente, a 
execução é suspensa (art. 134, §3º). Essa suspensão é fundamental para que 
não sejam praticados atos de constrição contra o patrimônio da sociedade 
que possam prejudicar a futura defesa do sócio ou vice-versa. 
 
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3. Citação/Intimação do terceiro: O sócio ou a pessoa jurídica a ser atingida 
será citado (na execução de título extrajudicial) ou intimado (no 
cumprimento de sentença) para, querendo, apresentar defesa no prazo de 15 
dias. 
4. Defesa e instrução: O terceiro poderá apresentar sua defesa, requerer provas 
e produzir documentos. O incidente seguirá o rito comum, com possibilidade 
de audiência de instrução, se necessária. 
5. Decisão: Finda a instrução, o juiz decidirá por meio de decisão 
interlocutória. Se acolher o pedido, a penhora e demais atos executórios 
poderão recair sobre os bens do sócio ou da empresa do grupo. Se rejeitar, a 
execução prossegue apenas contra a pessoa jurídica original. 
 
Aplicação prática: O IDPJ é a ferramenta diária do advogado que se depara 
com a "tela societária" vazia, sem bens penhoráveis. Em vez de 
simplesmente requerer a penhora de bens dos sócios com base em uma 
alegação genérica (como se fazia antes de 2015), é necessário instaurar o 
incidente, comprovando, aindaque em cognição sumária, os indícios de 
abuso. 
 
Ignorar o procedimento e pedir diretamente a penhora de bens de sócio pode 
levar à nulidade dos atos e à responsabilização do exequente por litigância 
de má-fé. O STJ tem reiterado a necessidade de instauração do IDPJ como 
condição para atingir o patrimônio de terceiro não participante da fase de 
conhecimento ou do título executivo. 
 
2.5. Amicus Curiae 
 
O amicus curiae (art. 138, CPC) é um auxiliar do juízo, que ingressa no 
processo para fornecer subsídios técnicos ou jurídicos em casos de relevância 
social, econômica ou jurídica. 
 
Cabimento na execução: Em tese, é possível, embora extremamente raro e 
excepcional. Uma execução de grande vulto envolvendo uma tese repetitiva 
sobre a forma de cálculo de correção monetária de precatórios poderia 
justificar a oitiva do amicus curiae. No entanto, a natureza satisfativa da 
execução torna esse instituto praticamente incompatível com a maioria dos 
casos concretos. 
 
 
 
 
 
 
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3. A Exclusão do Terceiro: Embargos de Terceiro 
 
Se o IDPJ é a via de inclusão forçada do terceiro, os Embargos de Terceiro 
(arts. 674 a 681, CPC) são a via de exclusão voluntária. Trata-se da ação 
autônoma de que dispõe aquele que não é parte no processo, mas sofre 
constrição judicial sobre bens de sua propriedade ou posse, em virtude de 
decisão proferida em processo do qual não participou. 
 
Fundamento: O art. 674 é claro: "Quem, não sendo parte no processo, sofrer 
constrição ou ameaça de constrição sobre bens que possua ou sobre os quais 
tenha direito incompatível com o ato constritivo, poderá requerer seu 
desfazimento por meio de embargos de terceiro". 
Legitimidade: O terceiro possuidor ou proprietário do bem penhorado. 
Também pode ser o cônjuge ou companheiro, para defender a posse de bens 
próprios ou de sua meação (art. 674, §2º, I). O adquirente de um bem em 
hasta pública, que sofre turbação na posse, também pode manejar os 
embargos. 
 
Hipóteses comuns na prática forense: 
 
 Penhora de bem imóvel que pertence a terceiro, mas está registrado em nome 
do devedor. 
 Penhora de veículo alienado ao terceiro de boa-fé, mas cujo registro não foi 
transferido perante o órgão de trânsito. 
 Penhora de bem móvel (ex.: máquinas) que está na posse do devedor em 
virtude de comodato, mas é de propriedade de terceiro. 
 Penhora da meação do cônjuge do devedor em dívida contraída 
exclusivamente por este, sem que a dívida tenha revertido em benefício da 
família. 
 
Procedimento: Os embargos de terceiro têm natureza de ação de 
conhecimento, com procedimento especial. Eles podem ser distribuídos por 
dependência ao juízo da execução. O prazo para ajuizamento é de 5 dias a 
contar da data da constrição judicial (art. 675). Admite-se a caução para a 
suspensão liminar da execução (art. 678). Se procedentes, os embargos 
determinam o levantamento da constrição sobre o bem do terceiro. 
 
Aplicação prática: Os embargos de terceiro são a principal arma processual 
para a defesa da propriedade contra o ímpeto da execução. O advogado do 
terceiro deve juntar a documentação que comprove a propriedade (escritura, 
nota fiscal, contrato) e demonstrar que a constrição é indevida. A demora no 
ajuizamento pode levar à perda do bem em hasta pública, restando apenas a 
discussão sobre o valor arrecadado. 
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PARTE III – A RESPONSABILIDADE DO TERCEIRO E A TUTELA 
DO CREDOR: FRAUDE À EXECUÇÃO E RESPONSABILIDADE 
PATRIMONIAL 
 
1. Fraude à Execução 
 
A fraude à execução é um dos institutos mais complexos e debatidos na 
interface entre partes e terceiros. Ela se caracteriza quando o devedor, já 
existindo uma demanda contra si, aliena ou onera seus bens, tornando-se 
insolvente ou agravando sua insolvência, com o objetivo de frustrar os 
direitos do credor. 
 
A grande questão prática sempre foi: como provar que o terceiro adquirente 
do bem tinha conhecimento da fraude? O CPC/2015 e a jurisprudência do 
STJ (Súmula 375) tentaram trazer mais segurança. 
 
1.1. Requisitos e a Súmula 375 do STJ 
 
A Súmula 375 do STJ estabelece: "O reconhecimento da fraude à execução 
depende do registro da penhora do bem alienado ou da prova de má-fé do 
terceiro adquirente". 
 
Essa súmula criou duas situações distintas para a caracterização da fraude: 
 
1. Bens sujeitos a registro (imóveis, veículos, etc.): Se o credor já tiver 
promovido a averbação da penhora na matrícula do bem (art. 844, CPC) 
ou a averbação da própria ação de execução (art. 828, CPC), qualquer 
alienação posterior será considerada fraudulenta, independentemente de o 
terceiro adquirente ter ou não conhecimento da constrição. A averbação gera 
presunção absoluta de má-fé (presunção juris et de jure) . 
2. Bens não sujeitos a registro ou na ausência de averbação: Se o bem não 
é sujeito a registro, ou se o credor não efetuou a averbação, a fraude à 
execução dependerá da prova da má-fé do terceiro adquirente. Aqui, a 
presunção é relativa. 
 
O credor precisará demonstrar que o terceiro tinha conhecimento da 
existência da execução contra o devedor. Essa prova pode ser feita por 
qualquer meio, como a demonstração de que a ação era pública e notória, ou 
de que o terceiro tinha relações próximas com o devedor que indicavam 
ciência da dívida. 
 
 
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1.2. O Art. 792 do CPC/2015 e a Inversão do Ônus da Prova 
 
O CPC/2015, em seu art. 792, elenca as hipóteses de fraude à execução. O 
§2º deste artigo trouxe uma inovação significativa, especialmente para bens 
não sujeitos a registro, que impacta diretamente o entendimento da Súmula 
375. O dispositivo estabelece: "No caso de aquisição de bem não sujeito a 
registro, o terceiro adquirente tem o ônus de provar que adotou as cautelas 
necessárias para a aquisição, mediante a exibição das certidões pertinentes, 
obtidas no domicílio do vendedor e no local onde se encontra o bem". 
 
Na prática, isso significa que, para bens móveis em geral (exceto veículos, 
que têm registro), a lei passou a exigir uma postura ativa do adquirente. Ele 
deve provar que, antes de comprar, foi ao cartório e tirou certidões em nome 
do vendedor para verificar se havia ações judiciais contra ele. Se não o fez, 
presume-se que não agiu com a cautela necessária, caracterizando-se a má-
fé e, consequentemente, a fraude à execução. Esse dispositivo, na visão de 
parte da doutrina, teria o condão de mitigar ou até mesmo superar a segunda 
parte da Súmula 375, que exigia que o credor provasse a má-fé. 
 
Aplicação prática: O advogado do exequente deve, sempre que possível, 
requerer a averbação da execução (art. 828) e da penhora (art. 844) nos 
registros de bens do devedor. Isso "acende a luz amarela" para o mercado e 
protege o crédito. Se não o fizer, terá um trabalho hercúleo para provar a má-
fé do terceiro. 
 
Já o advogado do terceiro adquirente deve, em uma negociação, orientar seu 
cliente a exigir todas as certidões negativas do vendedor (federais, estaduais, 
municipais e, principalmente, as certidões dos distribuidores cíveis dos 
últimos 5 anos no domicílio do vendedor). Se essas certidões forem 
negativas, o terceiro terá uma prova robusta de sua boa-fé e poderá se 
defender com sucesso em eventual alegação de fraude à execução. 
 
2. Responsabilidade Patrimonial e o Terceiro 
 
O princípio basilar da execução é o da responsabilidade patrimonial: o 
devedor responde com todos os seus bens presentes e futuros para o 
cumprimento de suas obrigações (art. 789, CPC). No entanto, a execução não 
pode recair sobre bens de terceiros. As exceções a essa regra, como vimos, 
dependem de um incidente próprio (IDPJ) ou da comprovação de que a 
alienação do bem de terceiro se deu em fraude à execução. 
 
 
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A questão se torna mais delicada quando se trata de grupos econômicos. É 
cada vez mais comum que empresas de um mesmo grupo (holding, 
controladora, controladas,coligadas) atuem de forma integrada. A 
jurisprudência do STJ, especialmente no âmbito do direito do consumidor e 
do direito do trabalho, tem admitido a desconsideração da personalidade 
jurídica para atingir empresas do mesmo grupo econômico, desde que 
presentes os requisitos legais. No entanto, o procedimento é o mesmo: é 
preciso instaurar o IDPJ para que a empresa do grupo, que é terceira na 
execução, possa se defender da alegação de confusão patrimonial ou abuso. 
 
PARTE IV – DIÁLOGO DAS FONTES E PROBLEMAS 
CONTEMPORÂNEOS 
 
1. A Execução e o Terceiro no Direito de Família e Sucessões 
 
Problemas recorrentes no dia a dia forense envolvem a execução de dívidas 
e o direito de família. A meação do cônjuge do devedor não pode ser atingida 
se a dívida não foi contraída em benefício da entidade familiar (art. 1.643 e 
1.644 do Código Civil). Na prática, isso gera uma infinidade de embargos de 
terceiro. 
 
Cabe ao exequente, na petição inicial da execução, demonstrar que o débito, 
ainda que contraído individualmente por um dos cônjuges, reverteu em prol 
da família (ex.: reforma do imóvel familiar, aquisição de bens comuns). Se 
não o fizer, a penhora deverá limitar-se à metade do patrimônio do devedor. 
 
2. A Execução contra o Herdeiro e o Espólio 
 
Como visto, o herdeiro responde pelas dívidas do de cujus, mas apenas até 
as forças da herança. O advogado que executa um herdeiro precisa ter cautela 
para não permitir que a execução atinja bens particulares do herdeiro, que 
não se confundem com o patrimônio herdado. A correta qualificação das 
partes e a especificação da responsabilidade são essenciais. 
 
3. A (Im)possibilidade de Redirecionamento da Execução para o Sócio 
sem IDPJ 
 
Antes do CPC/2015, era comum que o exequente, ao não encontrar bens da 
pessoa jurídica, simplesmente requeresse a citação dos sócios para, no 
mesmo processo, penhorar seus bens. 
 
 
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O STJ já firmou jurisprudência no sentido de que, após o CPC/2015, esse 
procedimento é inválido. A inclusão do sócio na execução depende da 
instauração do Incidente de Desconsideração da Personalidade 
Jurídica, com a suspensão da execução e a oportunidade de defesa para o 
sócio . Ignorar essa exigência é erro grosseiro que pode levar à nulidade de 
todos os atos subsequentes. 
 
4. O Terceiro de Boa-Fé e o Constrangimento Indevido 
 
Por fim, a prática forense é rica em exemplos de constrições indevidas contra 
terceiros: o bloqueio via Sisbacen (BacenJud) da conta corrente de um 
homônimo do devedor; a penhora do imóvel do locador para pagar dívida do 
locatário; a penhora do veículo que estava apenas cedido ao devedor. Nesses 
casos, a rapidez na defesa é fundamental. O advogado deve ingressar com o 
pedido de desbloqueio ou com os embargos de terceiro o mais rápido 
possível, juntando a documentação cabal da propriedade do bem ou da 
titularidade da conta. A simples alegação de que o bem é de terceiro, sem a 
devida comprovação, não é suficiente para afastar a constrição. 
 
CONCLUSÃO 
 
O estudo das partes e terceiros na execução revela a tensão permanente entre 
dois valores fundamentais do processo civil: a efetividade da 
execução (satisfação rápida do crédito) e a segurança jurídica (garantia do 
contraditório e proteção da propriedade de quem não é parte). 
 
O CPC/2015 buscou um equilíbrio sofisticado. De um lado, ofereceu ao 
credor instrumentos poderosos para atingir o patrimônio de quem, direta ou 
indiretamente, se beneficia ou oculta-se por trás da personalidade jurídica 
(IDPJ) ou para anular negócios fraudulentos que dilapidam a garantia do 
crédito (fraude à execução). 
 
De outro lado, fortaleceu as garantias do terceiro de boa-fé, seja exigindo um 
procedimento claro e contraditório para sua inclusão no polo passivo (IDPJ), 
seja facilitando sua defesa quando sofre constrição indevida (embargos de 
terceiro), seja invertendo o ônus da prova para proteger aquele que adquire 
um bem com as cautelas necessárias. 
 
Para o advogado, o domínio desse tema é indispensável. Errar na escolha do 
legitimado passivo, tentar incluir um terceiro sem observar o procedimento 
do IDPJ, ou ignorar as nuances da fraude à execução pode significar o 
insucesso da demanda e a responsabilização do profissional. 
43 
 
O conhecimento profundo dos arts. 778, 779, 133 a 137, 674 a 681 e 792 do 
CPC, aliado à compreensão da jurisprudência consolidada (notadamente as 
Súmulas 375 do STJ e os precedentes sobre o IDPJ), é a bússola que guiará 
o operador do direito pelos meandros da execução civil, assegurando que se 
faça justiça, tanto para o credor que busca o que é seu, quanto para o terceiro 
que não deve ser molestado em seu patrimônio sem o devido processo legal.verbas salariais´´ 
com percentuais elevados. 
 
7. Princípios Específicos da Tutela Executiva 
 
Além dos princípios gerais do processo, a execução é regida por diretrizes 
próprias: 
 
 Princípio da Maior Disponibilidade da Vontade do Credor 
(Dispositivo): É o credor quem decide se, quando e como executar. O 
juiz age predominantemente a requerimento. 
 Princípio da Efetividade (da Utilidade): O processo deve conduzir 
a um resultado prático e satisfativo. A execução é o domínio da 
pragmática jurídica. 
5 
 
 Princípio da Menor Onerosidade para o Devedor: A coerção deve 
ser proporcional. Busca-se primeiro atingir dinheiro, depois bens 
móveis, depois imóveis, poupando sempre os bens impenhoráveis (art. 
833, NCPC). 
 Princípio da Celeridade: O rito é mais sumário que o de 
conhecimento. Há prazos reduzidos e supressão de formalidades para 
acelerar o resultado. 
 Princípio da Substitutividade: O Estado age no lugar do devedor 
inadimplente para satisfazer o credor, seja alienando seus bens, seja 
realizando o fato devido por intermédio de terceiro. 
 
8. A Defesa do Executado: Os Embargos à Execução 
 
A autonomia do processo executivo não significa que o devedor fique 
indefeso. Ele pode opor-se à execução por meio dos ´´embargos do devedor´´ 
(art. 914 e ss., NCPC). Contudo, a defesa é ´´limitada´´: não cabe reabrir a 
discussão sobre o mérito do direito já acertado por título judicial transitado 
em julgado. Os embargos só podem versar sobre: 
 
 Nulidades da execução (vícios formais); 
 Inexigibilidade do título (prescrição, pagamento, novação, etc.); 
 Invalidade do título (no caso de títulos extrajudiciais, pode-se 
discutir sua falsidade ou inexistência do débito); 
 Causas impeditivas, modificativas ou extintivas do crédito que 
supervenham ao título; 
 Penhora indevida ou excessiva; 
 Questões processuais (como ilegitimidade de parte). 
 
Os embargos têm ´´efeito suspensivo´´ sobre os atos expropriatórios 
(alienação/adjudicação), mas ´´não sobre a penhora´´, que geralmente 
permanece. 
 
9. Conclusão: A Tutela Executiva como Garantia de Paz Social 
 
A Introdução à Tutela Jurisdicional Executiva revela um universo processual 
complexo e tecnicamente sofisticado, mas cuja razão de ser é profundamente 
humana e social. Sem um mecanismo estatal eficiente de realização coativa 
dos direitos, a declaração jurisdicional transformar-se-ia em letra morta, 
corroendo a credibilidade do Poder Judiciário e, por extensão, do próprio 
Estado Democrático de Direito. 
 
6 
 
A execução é, portanto, a ´´ultima ratio´´ do sistema de solução de conflitos. 
É a demonstração de que o direito não é uma mera abstração, mas uma força 
ativa e ordenadora da vida em sociedade. O equilíbrio entre a ´´efetividade 
necessária´´ para compelir o cumprimento e as ´´garantias processuais´´ que 
protegem o devedor de abusos constitui o grande desafio permanente do 
Direito Executivo. 
 
O estudo aprofundado de seus institutos — títulos executivos, penhora, 
expropriação, modalidades executivas — é essencial não apenas para o 
operador do direito, mas para qualquer cidadão que almeje compreender 
como, em última instância, se assegura a força normativa da Constituição e 
das leis no cotidiano das relações jurídicas. A tutela executiva é, em síntese, 
a ´´materialização da justiça´´. 
 
Responsabilidade Patrimonial e Fraude: Mecanismos de Coerção e 
Proteção da Efetividade Processual 
 
1. Introdução: A Execução como Instrumento e o Patrimônio como 
Objeto 
 
A execução forçada representa a fase culminante da atividade jurisdicional. 
É o momento em que o Estado, substituindo-se à vontade do particular, atua 
coercitivamente para tornar efetivo um direito que foi reconhecido em um 
título executivo (judicial ou extrajudicial). 
 
Diferentemente do processo de conhecimento, que visa a declaração ou 
acertamento de uma relação jurídica, a execução tem natureza satisfativa. O 
seu êxito, contudo, depende de um elemento fático essencial: a existência de 
bens penhoráveis no patrimônio do devedor. 
 
Nesse contexto, a responsabilidade patrimonial surge como o princípio 
fundamental que rege a atividade executiva. Trata-se da sujeição dos bens 
do devedor (e, excepcionalmente, de terceiros a ele vinculados) ao poder do 
Estado-juiz para a satisfação do crédito exequendo. 
 
O devedor não responde com seu corpo ou liberdade (salvo a hipótese 
específica e constitucionalmente mitigada do devedor de alimentos), mas 
sim com seu patrimônio, presente e futuro. 
 
No entanto, a história judiciária é repleta de exemplos de devedores que, 
cientes dessa dinâmica, tentam subtrair seus bens da constrição judicial. 
Surge, assim, o fenômeno da fraude como o principal obstáculo à 
efetividade da execução. 
7 
 
 
Seja através de atos simulados, alienações a terceiros ou a dissimulação 
patrimonial, o executado busca tornar ineficaz a atividade jurisdicional, 
transferindo seus bens para terceiros ou os ocultando. 
 
A disciplina da "Responsabilidade Patrimonial e Fraude" é, portanto, o 
núcleo duro do direito processual executivo. Compreender seus contornos, a 
distinção entre os institutos da fraude contra credores (matéria de direito 
civil) e fraude à execução (matéria de direito processual), bem como os 
mecanismos legais para combatê-las, é essencial para o operador do direito 
que busca a entrega da tutela jurisdicional efetiva. 
 
2. A Responsabilidade Patrimonial no Sistema Processual Civil 
 
2.1. Natureza Jurídica e Evolução Histórica: Do Corpo ao Patrimônio 
 
A evolução do instituto da execução é uma crônica da humanização do 
direito. No direito romano arcaico, a execução era pessoal. Pela manus 
iniectio, o credor poderia levar o devedor inadimplente para sua casa, mantê-
lo preso em cárcere privado, vendê-lo como escravo ou até mesmo matá-lo 
e esquartejá-lo, dividindo seu corpo entre os credores. O devedor respondia 
com seu próprio corpo. 
 
Com a evolução social e a influência de valores éticos e cristãos, a execução 
deslocou-se da pessoa para o patrimônio. A moderna ciência processual 
consagra que a obrigação (débito) é distinta da responsabilidade. O débito é 
a dívida, o dever de prestar. 
 
A responsabilidade, por sua vez, é a situação de sujeição do patrimônio do 
devedor ao poder do credor insatisfeito. Nas palavras de Carnelutti, a 
responsabilidade é como "um grande halo ao redor da obrigação", 
representando a garantia genérica que o patrimônio do devedor oferece a 
todos os seus credores. 
 
2.2. O Princípio da Responsabilidade Patrimonial (Art. 789 do CPC) 
 
O Código de Processo Civil de 2015, em seu art. 789, positivou de forma 
clara e direta esse princípio milenar: "O devedor responde com todos os 
seus bens presentes e futuros para o cumprimento de suas obrigações, 
salvo as restrições estabelecidas em lei." 
 
 
8 
 
A redação do dispositivo, que é uma transposição do art. 591 do CPC/1973, 
estabelece uma regra de abrangência máxima. A expressão "todos os seus 
bens" denota a universalidade da garantia, enquanto a menção a "bens 
futuros" implica que a responsabilidade não se limita ao momento da 
execução, mas se projeta no tempo, alcançando bens que ainda irão ingressar 
na esfera patrimonial do devedor. 
 
Trata-se de uma cláusula geral de sujeitação, que confere ao credor uma 
expectativa real de satisfação, ainda que o devedor esteja momentaneamente 
insolvente. 
 
2.3. A Extensão Subjetiva da Responsabilidade: Bens em Poder de 
Terceiros e Sucessores 
 
A responsabilidade patrimonial não se limita, contudo, aos bens que estão 
estritamente em nome do devedor. O art. 790 do CPC amplia o espectro da 
execução, sujeitando ao processo bens que, embora não integrem 
formalmente o patrimônio do executado principal, estão a ele afetos por 
razões legais. São sujeitos à execução: 
 
 Bens do sucessor (art. 790, I): Osucessor a título singular (ex.: aquele que 
comprou um imóvel específico) pode ser executado se a dívida for fundada 
em direito real ou obrigação reipersecutória (aquela que segue a coisa, 
independentemente de quem a possua). 
 Bens do sócio (art. 790, II): Nos termos da lei (ex.: art. 1.024 do CC para 
sociedades simples; art. 50 do CC para abuso da personalidade jurídica), os 
bens dos sócios podem responder por dívidas da sociedade. 
 Bens em poder de terceiros (art. 790, III): Se o devedor possui bens, mas 
estes estão na posse ou domínio de terceiros (ex.: em mãos de um 
depositário, comodatário ou em nome de um "laranja"), podem ser atingidos, 
desde que comprovada a propriedade do executado. 
 Bens do cônjuge ou companheiro (art. 790, IV): A meação ou os bens 
particulares do cônjuge respondem pelas dívidas contraídas em benefício da 
família ou da sociedade conjugal. 
 Bens alienados em fraude à execução (art. 790, V): Ainda que o bem já 
não esteja mais em nome do devedor, se a alienação foi considerada 
fraudulenta, o bem retorna à execução. 
 Bens do responsável pela desconsideração da personalidade jurídica 
(art. 790, VII): Superada a "véu societário", os bens dos sócios ou 
administradores passam a responder diretamente . 
Além disso, o art. 796 estabelece a responsabilidade do espólio e, após a 
partilha, dos herdeiros, mas estes apenas "dentro das forças da herança", ou 
seja, limitados ao valor dos bens que receberam . 
9 
 
2.4. Limites à Responsabilidade: Impenhorabilidades e Proteção do 
Mínimo Existencial 
 
A regra do art. 789 traz a ressalva "salvo as restrições estabelecidas em lei". 
A principal restrição ao alcance da execução é o rol de bens impenhoráveis, 
previsto nos arts. 832 e 833 do CPC. Essas hipóteses legais consagram a 
proteção da dignidade da pessoa humana e do mínimo existencial. 
 
São absolutamente impenhoráveis, por exemplo, os vencimentos, soldos e 
salários (regra com exceções para dívidas alimentares), os instrumentos 
necessários ao exercício da profissão, o bem de família (protegido por lei 
própria - Lei 8.009/90), entre outros. 
 
Essas limitações representam a ponderação que o ordenamento faz entre o 
direito do credor à satisfação do crédito e o direito do devedor a uma 
existência digna. A execução não pode levar o devedor à miséria ou privá-lo 
de condições mínimas de subsistência. 
 
3. Fraude como Óbice à Satisfação do Crédito 
 
Estabelecida a regra de que o patrimônio do devedor garante a dívida, o passo 
seguinte é analisar as condutas do devedor que violam essa garantia. A 
fraude, nas suas duas modalidades principais, é a tentativa deliberada de 
esvaziar o patrimônio para frustrar a execução. 
 
3.1. Conceito de Fraude no Direito Obrigacional 
 
A fraude, no contexto das obrigações, é um vício social. Conforme ensina 
Silvio de Salvo Venosa, é considerada o mais grave ato ilícito no âmbito das 
relações civis, pois visa destruir a base de confiança sobre a qual se assenta 
o crédito. 
 
Ela se manifesta pela prática de atos de disposição patrimonial (alienar, doar, 
renunciar, onerar) que tenham como consequência a redução do devedor à 
insolvência, prejudicando a satisfação dos credores. A principal dificuldade 
prática reside em distinguir as duas figuras afins: a fraude contra credores e 
a fraude à execução. 
 
 
 
 
 
 
10 
 
3.2. Fraude contra Credores (Direito Material) 
 
3.2.1. Previsão Legal e Requisitos (Consilium Fraudis e Eventus Damni) 
Disciplinada pelos arts. 158 a 165 do Código Civil, a fraude contra credores 
é um instituto de direito material. Ela se configura independentemente de 
qualquer processo judicial em andamento. Seus requisitos são clássicos e 
cumulativos: 
 
1. Existência de um crédito anterior: A dívida deve ser anterior ao ato de 
alienação. A jurisprudência, no entanto, admite que a relação jurídica que 
deu origem ao crédito já existisse, ainda que o título executivo ou a sentença 
sejam posteriores. Basta que o "princípio" do crédito seja anterior. 
2. Eventus Damni (Dano): É o prejuízo efetivo ao credor. O ato praticado pelo 
devedor deve tê-lo reduzido à insolvência, ou seja, após a alienação, ele não 
possui mais bens suficientes para quitar suas dívidas. 
3. Consilium Fraudis (Intenção de Fraudar): Exige-se a má-fé, o conluio 
entre o devedor e o terceiro adquirente para prejudicar o credor. No caso de 
doações ou renúncias (atos gratuitos), a lei presume a fraude se o doador já 
era insolvente ou se ficou insolvente com a doação (art. 158, caput, do CC). 
Já nos atos onerosos (vendas), exige-se a prova de que o terceiro tinha 
conhecimento da situação de insolvência do devedor, ou seja, a prova 
do consilium fraudis (art. 159 do CC) . 
 
3.2.2. Ação Pauliana: Natureza, Cabimento e Procedimento 
 
O remédio jurídico para combater a fraude contra credores é a ação 
pauliana (ou revocatória). Trata-se de uma ação de conhecimento, de 
natureza constitutiva negativa, que visa anular o negócio jurídico fraudulento 
praticado entre o devedor e o terceiro. 
 
A ação deve ser proposta no prazo decadencial de 4 anos da celebração do 
ato (art. 178, II, do CC). O polo passivo é composto pelo devedor e pelo 
terceiro que com ele contratou, sendo que, em caso de subalienações, os 
subadquirentes de má-fé também devem integrar a lide (art. 161 do CC). 
 
3.2.3. Efeitos da Procedência e a Questão da Boa-fé do Terceiro 
 
Julgada procedente a ação pauliana, o ato é declarado ineficaz em relação ao 
credor autor da ação (e, por extensão, a todos os credores quirografários, 
conforme entendimento jurisprudencial). 
 
 
11 
 
O bem retorna ao patrimônio do devedor para responder pela dívida. Se o 
terceiro adquirente estava de boa-fé, ele terá direito de regresso contra o 
alienante (devedor) para reaver o preço pago, mas perderá o bem. Se estava 
de má-fé, além de perder o bem, não terá direito a qualquer indenização. 
 
3.3. Fraude à Execução (Direito Processual) 
 
3.3.1. Fundamento e Interesse Público na Preservação da Jurisdição 
 
A fraude à execução é considerada uma figura mais grave que a fraude contra 
credores. Seu fundamento não reside apenas na proteção do interesse 
particular do credor, mas principalmente no prestígio da função jurisdicional 
e na autoridade da coisa julgada. 
O Estado-juiz tem interesse público em que o processo, uma vez instaurado, 
produza resultados úteis. Quando o devedor aliena seus bens para frustrar a 
execução, ele não está apenas lesando o credor, mas desafiando o próprio 
poder estatal, praticando um atentado à dignidade da justiça (art. 774, 
parágrafo único, do CPC). 
 
3.3.2. Hipóteses de Caracterização (Art. 792 do CPC) 
 
O art. 792 do CPC elenca taxativamente as situações em que a alienação ou 
oneração de bens é considerada fraude à execução: 
 
I - Quando sobre o bem pender ação fundada em direito real ou com 
pretensão reipersecutória, desde que a pendência do processo tenha sido 
averbada no respectivo registro público (ex.: ação de reinvindicação); 
II - Quando tiver sido averbada, no registro do bem, a pendência do processo 
de execução, na forma do art. 828 (a chamada averbação premonitória); 
III - Quando tiver sido averbado, no registro do bem, hipoteca judiciária ou 
outro ato de constrição judicial originário do processo onde foi arguida a 
fraude; 
IV - Quando, ao tempo da alienação ou da oneração, tramitava contra o 
devedor ação capaz de reduzi-lo à insolvência; 
V - Nos demais casos expressos em lei. 
 
3.3.3. A Súmula 375 do STJ e o Elemento Objetivo da Averbação 
 
O grande divisor de águas na aplicação prática da fraude à execução é 
a Súmula 375 do Superior Tribunal de Justiça: "O reconhecimento da 
fraude à execução depende do registro da penhora do bem alienado ou da 
prova de má-fé do terceiro adquirente." 
 
12 
 
Essa súmula criou um requisito objetivo fundamental, especialmentepara 
bens imóveis, que dependem de registro público para a transmissão da 
propriedade. A simples existência de uma ação contra o devedor não é mais 
suficiente, por si só, para caracterizar a fraude em relação ao terceiro 
adquirente. 
 
É necessário que a constrição (penhora) ou a própria existência do processo 
esteja averbada na matrícula do imóvel, dando publicidade e ciência 
inequívoca a eventuais interessados. 
 
Na ausência desse registro, a fraude só poderá ser reconhecida se o exequente 
provar que o terceiro adquirente agiu de má-fé, ou seja, que tinha 
conhecimento da existência da demanda capaz de levar o alienante à 
insolvência. 
 
Essa diretriz jurisprudencial visa proteger o terceiro de boa-fé que confia na 
aparência de propriedade transmitida pelos registros públicos. 
 
3.3.4. Regras Específicas para Bens Móveis e o Ônus da Prova da Boa-
fé 
 
Para bens móveis, que não possuem um sistema de registro público tão 
abrangente, a regra é invertida. O art. 792, §2º, do CPC estabelece que, na 
aquisição de bem não sujeito a registro, o ônus da prova recai sobre o terceiro 
adquirente. 
 
Ele deve demonstrar que adotou as cautelas necessárias para a aquisição, 
mediante a exibição de certidões obtidas no domicílio do vendedor e no local 
onde se encontra o bem. A falta de diligência (culpa in vigilando) impede a 
alegação de boa-fé. 
 
4. Quadro Comparativo: Fraude contra Credores vs. Fraude à 
Execução 
 
Para facilitar a compreensão e fixação dos conceitos, apresenta-se o seguinte 
quadro comparativo: 
 
Característica Fraude contra Credores Fraude à Execução 
Natureza Direito Material (Civil) Direito Processual (Civil) 
Previsão Legal 
Arts. 158 a 165 do Código 
Civil 
Art. 792 do Código de Processo Civil 
Interesse Prejudicado 
Interesse particular do 
credor 
Interesse público na autoridade da 
justiça 
13 
 
Momento do Ato 
Antes de qualquer 
demanda judicial 
Após a instauração de demanda (fase de 
conhecimento ou execução) 
Requisitos 
Eventus damni e consilium 
fraudis (má-fé do terceiro) 
Demanda em curso + averbação/registro 
da constrição ou prova de má-fé 
Natureza do Ato 
Ato anulável (depende de 
ação pauliana) 
Ato ineficaz em relação ao exequente 
(reconhecido nos próprios autos) 
Via de Impugnação 
Ação autônoma (Ação 
Pauliana) 
Incidente nos autos (ou embargos de 
terceiro) 
 
5. Instrumentos de Prevenção e Combate à Fraude 
 
O CPC/2015, atento às dificuldades práticas da execução, trouxe importantes 
ferramentas para prevenir e combater as fraudes. 
 
5.1. Averbação Premonitória (Art. 828 do CPC) 
 
Trata-se de um mecanismo de publicidade processual. O exequente, ao 
propor a execução, pode requerer ao juiz a expedição de ofício para 
averbação da existência do processo nos registros de bens do executado 
sujeitos a alienação ou oneração. 
 
Essa averbação (que pode ser feita em registros de imóveis, de veículos, etc.) 
tem o condão de dar ciência a terceiros de que contra aquele proprietário 
corre uma execução. Assim, se o bem for alienado após a averbação, a fraude 
à execução estará automaticamente caracterizada (inciso II do art. 792), 
independentemente de prova da má-fé do adquirente, que agora tem o dever 
de consultar os registros. 
 
5.2. Hipoteca Judiciária 
 
Prevista no art. 495 do CPC, a hipoteca judiciária é um efeito da sentença 
condenatória que recai sobre os bens imóveis do vencido, 
independentemente de qualquer requerimento. 
 
Embora sua eficácia prática dependa de registro, ela funciona como uma 
garantia real e uma forma de alerta a terceiros sobre a existência de uma 
dívida que pode levar à excussão dos bens. 
 
 
 
 
 
 
 
14 
 
5.3. Incidente de Desconsideração da Personalidade Jurídica 
 
A separação entre o patrimônio da pessoa jurídica e de seus sócios é a regra. 
No entanto, quando a pessoa jurídica é utilizada como instrumento para 
fraude, abuso de direito ou confusão patrimonial, o art. 50 do CC e o art. 133 
e seguintes do CPC permitem a desconsideração da personalidade 
jurídica. 
 
O CPC/2015 criou um incidente processual específico, com contraditório 
diferido (primeiro se ouve o sócio, depois se decide), para que a 
responsabilidade seja estendida aos bens particulares dos sócios ou 
administradores. Trata-se de uma ferramenta essencial para combater a 
blindagem patrimonial fraudulenta. 
 
6. Aplicação Prática e Temas Controversos 
 
6.1. A Fraude em Matéria Tributária e a Regra Especial do CTN 
 
No âmbito das execuções fiscais, o regime é mais rigoroso para o devedor. 
O art. 185 do Código Tributário Nacional (CTN) estabelece a figura da 
fraude à execução fiscal de forma objetiva. 
 
A redação dada pela Lei Complementar 118/2005 determina que a alienação 
de bens por devedor inscrito em dívida ativa é presumida como fraudulenta. 
A jurisprudência do STJ consolidou o entendimento de que, em matéria 
tributária, é desnecessária a prova de má-fé do terceiro ou a averbação da 
penhora, bastando a comprovação de que a alienação ocorreu após a 
inscrição em dívida ativa. 
 
O interesse público na arrecadação e a natureza especial da lei fiscal 
justificam esse tratamento diferenciado. 
 
6.2. Paternalismo Jurisprudencial versus Efetividade da Execução 
 
A Súmula 375 do STJ, embora vise proteger a boa-fé objetiva e a segurança 
jurídica dos registros públicos, é alvo de críticas por parte da doutrina. 
Estudos empíricos citados por Gilberto Gomes Bruschi e outros autores 
apontam que a exigência de prova da má-fé do terceiro ou do registro da 
penhora torna a declaração de fraude à execução bem-sucedida em menos de 
8% dos casos. 
 
 
15 
 
Isso configuraria uma "prova diabólica" para o credor, que muitas vezes não 
tem acesso aos meios de provar a má-fé subjetiva do adquirente. Parte da 
doutrina defende que a melhor interpretação seria exigir do terceiro a prova 
de que adotou as cautelas necessárias (exibição de certidões), invertendo o 
ônus da prova com base no princípio da cooperação e na distribuição 
dinâmica da prova (art. 373, §1º, do CPC). 
 
6.3. A Lei 13.097/2015 e a Concentração de Atos na Matrícula do Imóvel 
 
A Lei 13.097/2015, que estabelece a "concentração de atos na matrícula do 
imóvel", reforçou a necessidade de registro para a oponibilidade de ações 
contra terceiros de boa-fé. 
 
Ela determina que, mesmo nas ações reais e reipersecutórias (inciso I do art. 
792), a alienação do imóvel só será ineficaz em relação ao credor se a ação 
tiver sido averbada na matrícula. 
 
Essa lei aumenta a segurança do adquirente, mas também impõe uma carga 
ainda maior de diligência ao exequente, que deve imediatamente levar a 
registro qualquer ação que possa afetar o patrimônio do devedor, sob pena 
de ver o bem ser alienado a terceiros e perder a possibilidade de constrição. 
 
7. Conclusão: A Busca pelo Equilíbrio entre a Proteção do Crédito e a 
Segurança Jurídica 
 
A temática da responsabilidade patrimonial e da fraude está no centro do 
dilema do processo civil contemporâneo: como equilibrar, de um lado, o 
direito fundamental do credor à efetividade da jurisdição e à satisfação do 
crédito e, de outro, o direito do devedor e de terceiros à segurança jurídica, 
à proteção da propriedade e à dignidade? 
 
O Código de Processo Civil de 2015 deu passos importantes. Ao mesmo 
tempo em que consolidou a responsabilidade patrimonial como cláusula 
geral de sujeição do patrimônio do devedor (art. 789), estabeleceu um regime 
mais transparente e objetivo para a caracterização da fraude à execução, 
exigindo publicidade e registro como forma de dar segurança ao tráfego 
negocial. 
 
A criação da averbação premonitória (art. 828) e o aprimoramento do 
incidente de desconsideração da personalidade jurídica são exemplos dessa 
busca por efetividade sem arbítrio. 
 
16 
 
No entanto, a prática forense revela as tensões existentes. A rigidezda 
Súmula 375 do STJ, se por um lado protege o terceiro de boa-fé, por outro, 
pode servir de estímulo a devedores inescrupulosos que, contando com a 
morosidade da justiça e a dificuldade de registro, conseguem se desfazer de 
seus bens antes que qualquer ônus recaia formalmente sobre a matrícula. 
 
Caberá à doutrina e à jurisprudência o contínuo aperfeiçoamento desses 
institutos, evitando-se tanto o "paternalismo" que protege terceiros 
indiligentes quanto o rigor excessivo que inviabiliza o comércio jurídico. O 
objetivo final é assegurar que a execução, instrumento de realização concreta 
do direito, não seja uma etapa vazia, mas sim o efetivo cumprimento da 
obrigação, seja ela resultante de uma sentença judicial ou de um título 
extrajudicial, preservando-se a confiança nas relações econômicas e a 
autoridade da prestação jurisdicional. 
 
TÍTULO EXECUTIVO: A Chave para a Efetividade da Prestação 
Jurisdicional 
 
INTRODUÇÃO: A Busca pela Efetividade e o Papel Central do Título 
Executivo 
 
No Estado Democrático de Direito, a garantia de acesso à justiça, insculpida 
no artigo 5º, inciso XXXV, da Constituição Federal, não se esgota na mera 
declaração de um direito. O provimento jurisdicional deve ser efetivo, capaz 
de entregar ao vencedor o bem da vida almejado, transformando a realidade 
substancial. 
 
É nesse ponto que o Direito Processual Civil revela sua faceta mais 
imperativa: a execução forçada. O processo de execução, ou a fase de 
cumprimento de sentença, representa a atividade estatal de agressão ao 
patrimônio do devedor para satisfazer o crédito do exequente, e essa 
atividade não pode ser arbitrária. 
 
Para que o Estado-juiz possa legitimamente invadir a esfera patrimonial de 
um indivíduo, retirando-lhe bens ou valores, é imprescindível um 
fundamento jurídico incontestável. Esse fundamento é o título executivo. 
Longe de ser um mero documento, o título executivo é a própria garantia do 
devido processo legal na fase executiva. 
 
Ele atua como uma "chave" que desbloqueia as medidas coercitivas e sub-
rogatórias do poder judiciário, assegurando que o devedor só terá seu 
patrimônio agredido se existir uma prova pré-constituída e qualificada pela 
lei da obrigação e da sua inadimplência. 
17 
 
Nas palavras do processualista Alexandre Câmara, citado no artigo da 
Advbox, "o título executivo é o ato jurídico capaz de legitimar a prática dos 
atos de agressão a serem praticados sobre os bens que integram um dado 
patrimônio, de forma a tornar viável sua utilização na satisfação de um 
crédito. A exigência de que exista um título executivo para que possa 
desenvolver-se a execução é um mecanismo de proteção do demandado". 
 
Este texto propõe uma análise detalhada e abrangente do título executivo no 
ordenamento jurídico brasileiro. Abordaremos seu conceito, sua evolução 
histórica, a base legal consolidada no Código de Processo Civil de 2015 (Lei 
nº 13.105/15), a classificação entre judicial e extrajudicial, os requisitos 
intrínsecos da certeza, liquidez e exigibilidade, e, por fim, sua aplicação 
prática no cotidiano forense, incluindo os desafios contemporâneos e as 
inovações tecnológicas. 
 
PARTE I - CONCEITOS FUNDAMENTAIS E EVOLUÇÃO 
HISTÓRICA 
 
1.1 Conceito de Título Executivo 
 
Em termos jurídicos, título executivo é o documento (físico ou eletrônico) 
formalmente qualificado pela lei como suficiente para embasar um processo 
de execução ou a fase de cumprimento de sentença. Ele é a materialização 
de uma obrigação certa, líquida e exigível, cuja existência é presumida ou já 
foi reconhecida pelo Poder Judiciário, dispensando, em regra, uma nova fase 
de conhecimento para sua apuração. 
 
O título executivo não se confunde com a obrigação em si, mas é o seu 
invólucro formal. É ele que confere ao credor a actio executio, ou seja, o 
direito de invocar a tutela jurisdicional executiva. Sem ele, o credor está 
relegado ao processo de conhecimento, mais lento e complexo, para, ao final, 
obter um título e então executá-lo. Portanto, a existência do título executivo 
é o principal critério de distinção entre a execução e o processo de 
conhecimento. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
18 
 
1.2 Evolução Histórica e a Unificação Processual 
 
Historicamente, o processo civil brasileiro, influenciado pelo sistema 
italiano e pelo Código de Processo Civil de 1973, mantinha uma rígida 
separação entre o processo de conhecimento e o de execução. Essa 
dicotomia, no entanto, gerava um formalismo excessivo e atrasos 
desnecessários. O devedor era citado para pagar em autos apartados, e a 
defesa se dava por meio de embargos, formando-se uma nova relação 
processual. 
 
O Código de Processo Civil de 2015 representou uma mudança de paradigma 
ao unificar o procedimento para as execuções fundadas em títulos judiciais. 
Criou-se o "cumprimento de sentença" como uma mera fase subsequente ao 
processo de conhecimento (arts. 513 a 519), eliminando a necessidade de 
uma nova ação autônoma . Essa alteração concretiza os princípios da 
celeridade e da efetividade, pois o processo é uno, e a fase executiva é seu 
desdobramento natural. 
 
Para os títulos extrajudiciais, manteve-se a ação de execução autônoma (arts. 
771 a 796), dado que estes não são precedidos de um processo judicial, mas 
o rito também foi simplificado, buscando maior eficiência na satisfação do 
crédito. 
 
PARTE II - BASE LEGAL E CLASSIFICAÇÃO DOS TÍTULOS 
EXECUTIVOS 
 
A base legal do título executivo no ordenamento pátrio está solidamente 
ancorada no Código de Processo Civil de 2015, que dedica livros inteiros à 
matéria, e em leis extravagantes. O CPC/2015 adotou uma técnica de 
"numerus clausus" (rol taxativo) para definir o que é título executivo, ou seja, 
só é título executivo aquilo que a lei assim define. A seguir, analisamos as 
duas grandes espécies: títulos executivos judiciais e extrajudiciais. 
 
2.1 Títulos Executivos Judiciais (Art. 515 do CPC) 
 
Os títulos executivos judiciais são aqueles que emanam de uma atividade 
jurisdicional, seja ela estatal ou equiparada (como a arbitragem). Eles gozam 
de maior credibilidade e estabilidade, pois o direito neles contido já foi 
objeto de cognição judicial ou de homologação de acordo. O artigo 515 do 
CPC elenca um rol de 9 incisos que os define. 
 
 
 
19 
 
O rol do art. 515: 
 
I - As decisões proferidas no processo civil que reconheçam a 
exigibilidade de obrigação de pagar quantia, de fazer, de não fazer ou 
de entregar coisa: Esta é a hipótese mais comum. Abrange as sentenças 
condenatórias proferidas no processo de conhecimento, bem como as 
decisões interlocutórias de mérito que, antecipando a tutela, já reconhecem 
a obrigação e a tornam exigível. 
 
II - A decisão homologatória de autocomposição judicial: Quando as 
partes, durante um processo, chegam a um acordo e este é homologado pelo 
juiz, essa decisão se torna um título executivo judicial. Exemplo: a 
homologação de um acordo em uma audiência de conciliação. 
 
III - A decisão homologatória de autocomposição extrajudicial de 
qualquer natureza: Inovação do CPC/2015. Se as partes realizam um 
acordo extrajudicial (por exemplo, em um centro de mediação privada) e o 
levam ao Judiciário para homologação, o termo homologado se torna título 
judicial. 
 
IV - O formal e a certidão de partilha: No processo de inventário e 
partilha, o documento que formaliza a divisão dos bens entre os herdeiros 
(formal de partilha) e que individualiza o crédito de cada um (certidão de 
partilha) é título executivo judicial. Ele permite que um herdeiro cobre de 
outro as obrigações decorrentes da partilha (ex: tornas). 
 
V - O crédito de auxiliar da justiça, quando as custas, emolumentos ou 
honorários tiverem sido aprovados por decisão judicial: Peritos, 
depositários, administradores e outros auxiliares da justiça que têm seus 
honorários fixados por decisãojudicial podem executar esse crédito com 
base neste título. 
 
VI - A sentença penal condenatória transitada em julgado: A sentença 
da esfera penal que reconhece o crime e condena o réu a reparar o dano (arts. 
63 e 64 do CPP) constitui título executivo judicial no cível. É importante 
notar que apenas a sentença definitiva (transitada em julgado) tem essa força, 
não cabendo execução provisória nesse caso, conforme destaca a doutrina. 
 
VII - A sentença arbitral: A Lei de Arbitragem (Lei 9.307/96) equipara a 
sentença arbitral à sentença judicial. Portanto, ela é um título executivo 
judicial e pode ser executada no Poder Judiciário independentemente de 
homologação. 
 
20 
 
VIII - A sentença estrangeira homologada pelo Superior Tribunal de 
Justiça (STJ): Decisões proferidas por tribunais de outros países, para 
produzirem efeitos no Brasil, precisam ser homologadas pelo STJ. Após a 
homologação, tornam-se títulos executivos judiciais. 
 
IX - A decisão interlocutória estrangeira, após a concessão 
do exequatur à carta rogatória pelo Superior Tribunal de 
Justiça: Hipótese similar à anterior, mas para decisões que não são sentenças 
finais, que dependem de cumprimento por meio de carta rogatória. 
 
2.2 Títulos Executivos Extrajudiciais (Art. 784 do CPC) 
 
Os títulos executivos extrajudiciais são documentos produzidos pela vontade 
das partes ou por agentes dotados de fé pública, sem a participação direta do 
Poder Judiciário na sua formação. A lei, considerando a segurança e a 
formalidade inerentes a esses documentos, confere-lhes a mesma força 
executiva de uma decisão judicial, justamente para agilizar a cobrança de 
dívidas incontroversas. 
 
O rol do art. 784: 
 
I - A letra de câmbio, a nota promissória, a duplicata, a debênture e o 
cheque: São os títulos de crédito típicos. A nota promissória é a promessa 
de pagamento; a letra de câmbio e a duplicata são ordens de pagamento; e o 
cheque é uma ordem de pagamento à vista. Todos são considerados títulos 
executivos. 
II - A escritura pública ou outro documento público assinado pelo 
devedor: Documentos lavrados por tabelião em cartório, que gozam de fé 
pública. Um contrato de compra e venda de imóvel feito por escritura pública 
é título executivo. 
 
III - O documento particular assinado pelo devedor e por 2 (duas) 
testemunhas: Esta é uma das hipóteses mais utilizadas na prática. Um 
contrato de empréstimo, uma confissão de dívida, desde que assinados pelo 
devedor e por duas testemunhas, adquirem força executiva. A presença das 
testemunhas visa atestar a veracidade e a livre manifestação de vontade no 
momento da assinatura. O §4º do art. 784 moderniza essa regra ao admitir 
assinatura eletrônica para esses documentos, dispensando testemunhas 
quando a integridade for conferida por provedor de assinatura. 
 
 
 
21 
 
IV - O instrumento de transação referendado pelo Ministério Público, 
pela Defensoria Pública, pela Advocacia Pública, pelos advogados dos 
transatores ou por conciliador ou mediador credenciado por 
tribunal: Acordos extrajudiciais que contam com a chancela dessas 
autoridades ou profissionais ganham força de título executivo extrajudicial. 
 
V - O contrato garantido por hipoteca, penhor, anticrese ou outro 
direito real de garantia e aquele garantido por caução: A existência de 
uma garantia real (que recai sobre um bem) ou fidejussória (pessoal, como a 
caução) confere maior segurança e, por isso, a lei atribui força executiva ao 
contrato. 
 
VI - O contrato de seguro de vida em caso de morte: O beneficiário pode 
executar a seguradora com base na apólice, que é título executivo. 
 
VII - O crédito decorrente de foro e laudêmio: Obrigações típicas de 
enfiteuse (direito real sobre imóvel próprio). 
 
VIII - O crédito, documentalmente comprovado, decorrente de aluguel 
de imóvel, bem como de encargos acessórios, tais como taxas e despesas 
de condomínio: O contrato de locação, quando não cumprido, pode gerar 
créditos de aluguel e encargos que, se comprovados documentalmente 
(contrato, comprovantes de vencimento), autorizam a execução. 
 
IX - A certidão de dívida ativa da Fazenda Pública da União, dos 
Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, correspondente aos 
créditos inscritos na forma da lei: A CDA é o título executivo extrajudicial 
que embasa as execuções fiscais. É um documento de alta carga formal e, 
uma vez emitida, inverte o ônus da prova, cabendo ao contribuinte 
demonstrar sua ilegalidade. 
 
X - O crédito referente às contribuições ordinárias ou extraordinárias 
de condomínio edilício, previstas na respectiva convenção ou aprovadas 
em assembleia geral, desde que documentalmente 
comprovadas: Inovação do CPC/2015. A simples inadimplência da taxa de 
condomínio, comprovada por meio do boleto e da convenção/ata da 
assembleia que aprovou o orçamento, permite a execução, agilizando a 
cobrança para os condomínios. 
 
XI - A certidão expedida por serventia notarial ou de registro relativa a 
valores de emolumentos e demais despesas devidas pelos atos por ela 
praticados: Tabelionatos e cartórios podem executar os valores devidos por 
seus serviços com base nessa certidão. 
22 
 
XII - Todos os demais títulos aos quais, por disposição expressa, a lei 
atribuir força executiva: É a chamada "cláusula aberta" que, embora o rol 
seja taxativo, a lei remete a outros diplomas legais que podem criar novos 
títulos executivos (ex: a cédula de crédito bancário, regida por lei específica). 
 
PARTE III - OS REQUISITOS ESSENCIAIS: CERTEZA, LIQUIDEZ 
E EXIGIBILIDADE 
 
Não basta que o documento esteja previsto em um dos incisos dos arts. 515 
ou 784. Para que a execução seja deflagrada, é imprescindível que a 
obrigação nele contida seja certa, líquida e exigível, conforme determina o 
caput do art. 783 do CPC: "A execução para cobrança de crédito fundar-se-
á sempre em título de obrigação certa, líquida e exigível". 
 
3.1 Obrigação Certa 
 
A certeza da obrigação diz respeito à sua existência e à identificação de seus 
elementos essenciais. O título deve deixar claro quem é o credor (exequente), 
quem é o devedor (executado) e qual é a natureza da prestação devida (pagar 
quantia, entregar coisa, fazer ou não fazer). Em outras palavras, não pode 
haver dúvida sobre a existência do vínculo obrigacional. O título deve 
representar, com fidedignidade, a relação jurídica material que originou a 
dívida. 
 
3.2 Obrigação Líquida 
 
A liquidez se refere à determinação do objeto da obrigação. No caso de 
obrigação de pagar quantia, ela exige que o valor devido esteja 
expressamente determinado no título ou seja determinável mediante simples 
cálculo aritmético. 
 
O artigo 786 do CPC estabelece que "a execução pode ser instaurada caso o 
devedor não satisfaça a obrigação certa, líquida e exigível, consubstanciada 
em título executivo". Se o título for ilíquido, o credor precisará, antes, 
liquidá-lo, o que pode ocorrer por simples cálculo (do contador judicial) ou 
por procedimento comum (quando depender de fatos novos ou provas). 
 
Por exemplo, uma sentença que condene ao pagamento de "perdas e danos a 
serem apuradas em liquidação de sentença" não permite, de imediato, o 
cumprimento de sentença. Será necessária a fase de liquidação. 
 
 
 
23 
 
3.3 Obrigação Exigível 
 
A exigibilidade está relacionada ao termo ou à condição para o cumprimento 
da obrigação. Uma obrigação é exigível quando é pura e simples e já está 
vencida, ou quando, sendo condicional ou a prazo, a condição se 
implementou ou o prazo já se esgotou. 
 
Assim, não se pode executar uma dívida cujo prazo de pagamento ainda não 
venceu, a menos que haja vencimento antecipado previsto em contrato (ex: 
cláusula de debt acceleration em caso de falência ou inadimplemento de 
outras parcelas). Da mesma forma, obrigações sujeitas a condição suspensiva 
não podem ser exigidas antesdo implemento dessa condição. 
 
Se faltar qualquer um desses três requisitos, a execução não poderá ser 
iniciada. A ausência de liquidez, por exemplo, impede a citação do devedor 
para pagar quantia certa. O título ilíquido é um título imperfeito para fins 
executivos. 
 
PARTE IV - APLICAÇÃO PRÁTICA NO COTIDIANO JURÍDICO 
 
A teoria ganha vida nos escritórios de advocacia e nos fóruns de todo o país. 
A compreensão do título executivo é essencial para a estratégia de cobrança 
e para a defesa do devedor. Vejamos como isso se desenrola na prática. 
 
4.1 O Ciclo de Vida da Execução 
 
a) Título Judicial - O Cumprimento de Sentença: 
 
1. Trânsito em julgado: A sentença condenatória torna-se definitiva, não 
cabendo mais recursos. 
2. Requerimento do Exequente: O credor apresenta um requerimento nos 
próprios autos do processo de conhecimento, iniciando a fase de 
cumprimento de sentença (art. 513). 
3. Intimação do Devedor: O devedor (executado) é intimado na pessoa de seu 
advogado ou, não tendo representante nos autos, por carta com aviso de 
recebimento. 
4. Prazo para Pagamento Voluntário: O devedor tem 15 dias para pagar a 
dívida. Se o fizer, extingue-se a obrigação. Se não pagar, o débito será 
acrescido de multa de 10% e honorários advocatícios de 10% (art. 523, §1º). 
5. Penhora e Atos Executivos: Não havendo pagamento, o juiz, a 
requerimento do exequente, determinará a penhora de bens para satisfazer o 
crédito. 
 
24 
 
b) Título Extrajudicial - A Ação de Execução: 
 
1. Petição Inicial: O credor (exequente) propõe uma nova ação, a ação de 
execução, instruindo-a com o título executivo extrajudicial. 
2. Citação do Executado: O devedor (executado) é citado para, no prazo de 3 
dias, pagar a dívida (art. 829). Se não pagar, no mesmo ato de citação já pode 
ocorrer a penhora de bens (art. 829, §1º). 
3. Embargos à Execução: O devedor pode opor-se à execução por meio dos 
Embargos à Execução (art. 914), que são uma ação autônoma de 
conhecimento, distribuída por dependência aos autos da execução. Neles, o 
devedor poderá alegar qualquer matéria defensiva (pagamento, prescrição, 
nulidade do título, etc.). 
 
4.2 Casos Práticos e Problemáticas Comuns 
 
a) O Cheque como Título Executivo: O cheque é título executivo 
extrajudicial (art. 784, I). No entanto, sua força executiva tem prazo de 
decadência. O credor tem até 6 meses (contados do fim do prazo de 
apresentação, que é de 30 ou 60 dias) para ajuizar a execução. Após esse 
prazo, o cheque perde a executividade, mas ainda pode ser usado para 
embasar uma ação monitória ou uma ação de cobrança pelo rito comum, para 
obter um novo título (judicial). 
 
b) O Contrato sem Testemunhas: Um contrato particular de empréstimo, 
assinado apenas pelo devedor e pelo credor, mas sem duas testemunhas, não 
é título executivo (art. 784, III). O credor não poderá propor ação de 
execução. Ele terá que ingressar com uma ação de cobrança pelo 
procedimento comum. Nesse processo, o contrato será a prova da dívida, 
mas o juiz terá que, após a instrução, proferir uma sentença condenatória, 
que só então se tornará título judicial para execução. 
 
c) A Execução de Aluguéis: O crédito de aluguel pode ser cobrado por 
execução com base no art. 784, VIII. O locador deve instruir a petição inicial 
com o contrato de locação e os comprovantes da inadimplência. Contudo, se 
durante a execução houver discussão sobre o real valor do aluguel ou sobre 
a existência de benfeitorias a descontar, o juiz pode remeter as partes à 
liquidação ou à arbitramento, suspendendo a execução até que a questão 
incidental seja resolvida. 
 
 
 
 
25 
 
d) A Exceção de Pré-Executividade: Trata-se de um instrumento 
processual de defesa do executado que não demanda a oposição de embargos 
(autos apartados). Ela é cabível para questões de ordem pública, que o juiz 
pode conhecer de ofício, como a ausência dos requisitos da certeza, liquidez 
e exigibilidade do título, a ilegitimidade das partes ou a prescrição. No 
exemplo do contrato sem testemunhas, o executado poderia opor exceção de 
pré-executividade alegando a ausência de título executivo válido, levando à 
extinção da execução sem a necessidade de embargos. 
 
4.3 A Execução na Era Digital e os Desafios Contemporâneos 
 
O CPC/2015 e a prática forense moderna estão cada vez mais integrados à 
tecnologia para dar efetividade à execução. 
 
a) Títulos Eletrônicos e a Dispensa de Originais: O art. 425 do CPC 
estabelece que as reproduções digitalizadas têm o mesmo valor probante dos 
originais. Em sintonia com isso, o STJ já decidiu (REsp 2.013.526-MT) que, 
na execução de título cartular (físico) em processo eletrônico, a exigência de 
apresentação do título original só deve ocorrer se houver alegação concreta 
e motivada do devedor sobre a falta de exigibilidade, liquidez ou certeza do 
título, ou sobre sua circulação indevida. Isso agiliza as execuções e evita 
formalismos procrastinatórios. 
 
b) Ferramentas Eletrônicas de Constrição (SISBAJUD, RENAJUD, 
INFOJUD): O cumprimento de sentença e a execução moderna contam com 
poderosos sistemas eletrônicos. O SISBAJUD (antigo BacenJud) permite ao 
juiz, em minutos, bloquear valores em contas bancárias do executado. 
O RENAJUD possibilita a restrição de veículos. O INFOJUD dá acesso à 
base de dados da Receita Federal para localizar bens e declarações de renda. 
Essas ferramentas são essenciais para a efetividade, permitindo que a 
constrição de bens ocorra de forma célere. 
 
c) Medidas Executivas Atípicas (Art. 139, IV): Uma das grandes 
inovações do CPC/2015 é a cláusula geral de poder do juiz para "determinar 
todas as medidas indutivas, coercitivas, mandamentais ou sub-rogatórias 
necessárias para assegurar o cumprimento de ordem judicial, inclusive nas 
ações que tenham por objeto prestação pecuniária" (art. 139, IV). Com base 
nisso, a jurisprudência tem admitido medidas como: 
 
 Suspensão da Carteira Nacional de Habilitação (CNH); 
 Apreensão de passaporte; 
 Bloqueio de cartões de crédito. 
 
26 
 
Essas medidas são extremamente controvertidas e devem ser aplicadas com 
proporcionalidade e razoabilidade, mas representam uma mudança de 
paradigma, buscando pressionar o devedor a pagar, especialmente nos casos 
em que ele possui meios, mas oculta seu patrimônio. 
 
PARTE V - A DEFESA DO DEVEDOR E OS LIMITES DA 
EXECUÇÃO 
 
O título executivo, embora seja um atestado de certeza, não é infalível. O 
sistema processual garante ao devedor o direito de defesa, respeitando o 
contraditório e a ampla defesa (art. 5º, LIV e LV, CF). 
 
5.1 Impugnação ao Cumprimento de Sentença (Título Judicial) 
 
No cumprimento de sentença, a defesa do devedor se dá por meio 
da Impugnação (art. 525), no prazo de 15 dias. O rol de matérias que podem 
ser alegadas é mais restrito do que nos embargos, pois o mérito da decisão já 
foi discutido no processo de conhecimento. Pode-se alegar, por exemplo: 
 
 Falta ou nulidade da citação no processo de conhecimento. 
 Inexequibilidade do título ou inexigibilidade da obrigação. 
 Excesso de execução ou cumulação indevida de execuções. 
 Qualquer causa impeditiva, modificativa ou extintiva da obrigação, como 
pagamento, prescrição ou compensação, desde que supervenientes à 
sentença. 
 
5.2 Embargos à Execução (Título Extrajudicial) 
 
Para a execução fundada em título extrajudicial, a defesa se dá por meio 
dos Embargos à Execução (art. 914), que devem ser opostos no prazo de 15 
dias, contados da juntada do mandado de citação cumprido aos autos. Nos 
embargos, a defesa é mais ampla, podendo o executado alegar qualquer 
matéria útil à sua defesa, como: 
 
 Nulidade formal do título. 
 Ilegitimidade de parte. 
 Prescrição ou decadência. 
 Pagamento, novação, compensação, transação. 
 Ausência dos requisitos de certeza, liquidez e exigibilidade. 
 
 
 
 
27 
 
5.3 Penhorae Impenhorabilidades 
 
A fase executiva culmina na penhora, que é o ato de constrição judicial que 
individualiza e apreende bens do devedor para garantir a execução. A lei 
estabelece uma ordem de preferência para a penhora (art. 835), priorizando 
dinheiro em espécie ou em aplicação financeira. No entanto, a lei também 
prevê bens absolutamente impenhoráveis (art. 833), protegendo a dignidade 
do devedor. São exemplos: o bem de família (Lei 8.009/90), os salários e 
verbas alimentares (com exceções), os instrumentos de trabalho, entre 
outros. 
 
CONCLUSÃO: O Título Executivo como Instrumento de Pacificação 
Social 
 
O título executivo é, portanto, uma peça fundamental na engrenagem do 
processo civil. Ele é a síntese da dupla função da jurisdição: reconhecer 
direitos e efetivá-los. Ao longo deste texto, vimos que ele não é um simples 
documento, mas sim um complexo instituto que equilibra a necessidade de 
agilidade na satisfação do crédito com a segurança jurídica do devedor. 
 
O Código de Processo Civil de 2015, ao ampliar o rol de títulos 
extrajudiciais, ao simplificar o cumprimento de sentença e ao dotar o juiz de 
poderes para utilizar medidas atípicas e ferramentas tecnológicas, reafirmou 
o compromisso com a efetividade da prestação jurisdicional. 
 
O desafio que se impõe aos operadores do Direito é o de manejar esses 
instrumentos com técnica e sensibilidade, compreendendo que atrás de cada 
título executivo há uma história de uma obrigação não cumprida, e que a 
execução, embora agressiva, deve sempre observar os princípios 
constitucionais da dignidade da pessoa humana e da proporcionalidade. 
 
Dominar a teoria do título executivo, conhecer seus requisitos e entender sua 
aplicação prática é condição sine qua non para o advogado que busca o 
melhor resultado para seu cliente, seja na posição de exequente, buscando 
receber o que lhe é devido, seja na de executado, protegendo seu patrimônio 
contra investidas indevidas. É nesse equilíbrio que se constrói a verdadeira 
justiça. 
 
 
 
 
 
28 
 
Partes e Terceiros na Execução: Sujeitos Processuais, Intervenção e 
Responsabilidade Patrimonial 
 
Introdução 
 
O processo de execução, seja ele fundado em título executivo judicial 
(cumprimento de sentença) ou extrajudicial, representa o momento 
culminante da atividade jurisdicional. É na execução que o direito 
reconhecido ou o documento que a lei empresta força executiva busca sua 
concretização no mundo dos fatos, transferindo-se da potencialidade da 
norma para a realidade patrimonial do devedor. No centro dessa dinâmica, 
encontram-se as figuras do exequente (credor) e do executado (devedor), os 
sujeitos parciais do contraditório que compõem a relação jurídica processual 
executiva. 
 
No entanto, a dinâmica da execução civil não se esgota na relação bipolar 
entre credor e devedor. Frequentemente, o sucesso ou o fracasso da 
satisfação do crédito depende da compreensão adequada de quem pode 
figurar nos polos da execução, de como terceiros podem ser atingidos pelos 
atos executórios, ou de como podem a eles se integrar para proteger 
interesses próprios. A distinção entre "parte" e "terceiro" na execução é, 
portanto, uma questão de transcendental importância prática e teórica, pois 
envolve garantias constitucionais como o contraditório, a ampla defesa e o 
devido processo legal, além da própria efetividade da jurisdição. 
 
O Código de Processo Civil de 2015 (CPC/2015) trouxe inovações 
significativas nesse campo, notadamente com a sistemática do incidente de 
desconsideração da personalidade jurídica, a regulamentação mais rigorosa 
da fraude à execução e a delimitação dos sucessores e responsáveis pelo 
débito. Este texto propõe-se a explorar, com profundidade, o regime jurídico 
das partes e terceiros na execução civil. Iniciaremos com a conceituação 
fundamental de parte e terceiro no processo executivo, distinguindo-a do 
processo de conhecimento. 
 
Em seguida, analisaremos a base legal e as hipóteses de intervenção de 
terceiros especificamente no âmbito da execução, um campo de aplicação 
restrita que exige atenção redobrada do operador do direito. Por fim, 
abordaremos a aplicação prática no dia a dia forense, com foco nos 
problemas recorrentes: a legitimidade para a execução, a responsabilidade 
patrimonial de sócios e grupos econômicos (via desconsideração), a defesa 
do terceiro de boa-fé (embargos de terceiro) e o delicado tema da fraude à 
execução. 
29 
 
O objetivo é fornecer ao leitor — advogado, magistrado, membro do 
Ministério Público ou estudante avançado — uma visão abrangente e 
sistemática, capaz de subsidiar a atuação prática com segurança técnica, à 
luz da doutrina especializada e da jurisprudência dos tribunais superiores. 
 
PARTE I – PARTES NA EXECUÇÃO: CONCEITO, 
LEGITIMIDADE E SUCESSÃO 
 
1. Conceito de Parte no Processo Executivo 
 
No processo civil, "parte" é o sujeito parcial do contraditório, aquele que 
pede e contra quem se pede uma tutela jurisdicional. No processo de 
execução, essa definição mantém sua essência, mas adquire contornos 
específicos. Diferentemente do processo de conhecimento, onde se busca a 
declaração, constituição ou condenação relativa a um direito, na execução 
busca-se a satisfação de um direito já estabelecido (no título executivo). A 
parte, aqui, é definida em função do título que lastreia a execução. 
 
O artigo 778 do CPC/2015 estabelece, de forma taxativa, quem pode 
promover a execução (legitimidade ativa), enquanto o artigo 779 define 
quem pode figurar no polo passivo (legitimidade passiva). Pode-se afirmar, 
portanto, que a parte na execução é, em regra, aquela indicada no título 
executivo como credor e devedor, ou seus sucessores. Essa vinculação ao 
título é uma característica marcante do processo executivo, conferindo-lhe 
segurança e previsibilidade. 
 
2. Legitimidade Ativa (Art. 778, CPC) 
 
A legitimidade ativa para a execução é a qualidade para ocupar o polo credor 
(exequente). O caput do art. 778 é claro: "A execução pode ser promovida 
contra:". A doutrina majoritária aponta um pequeno equívoco na redação, 
uma vez que o dispositivo, na verdade, elenca os legitimados ativos. São 
eles: 
 
I - O credor a quem a lei confere título executivo: É a hipótese mais 
comum. Refere-se à pessoa física ou jurídica que figura no título executivo 
(judicial ou extrajudicial) como a beneficiária da obrigação. Por exemplo, o 
beneficiário de uma nota promissória, o locador em um contrato de locação, 
ou o autor vitorioso em uma sentença condenatória. 
 
 
 
30 
 
II - O Ministério Público: O parquet tem legitimidade para promover a 
execução de suas próprias decisões (como nas condenações em honorários 
sucumbenciais em ações civis públicas que patrocinou) ou quando a lei lhe 
atribuir especificamente essa função, atuando como substituto processual na 
defesa de interesses metaindividuais. 
 
III - A Defensoria Pública: Seguindo a mesma lógica do MP, a Defensoria 
Pública pode promover a execução para cobrar seus honorários 
sucumbenciais ou quando atua na defesa de direitos de necessitados, em 
nome próprio ou como substituta processual. 
 
IV - O sucessor do credor, a título universal ou singular: Esta é uma 
hipótese de grande relevância prática. A morte da pessoa física ou a extinção 
da pessoa jurídica não extingue, via de regra, as obrigações. Os sucessores 
universais (herdeiros, no caso de pessoa física; a sociedade que absorve o 
patrimônio da extinta, no caso de pessoa jurídica) assumem a posição ativa 
na execução. Da mesma forma, o sucessor singular (aquele que adquire um 
crédito específico, por exemplo, mediante cessão de crédito) pode promover 
a execução, desde que faça a devida prova da sucessão nos autos. 
 
V - O cessionário, quando o direito resultante do título executivo lhe for 
transferido por ato entre vivos: Trata-se de uma explicitaçãoda sucessão 
singular inter vivos. A cessão de crédito é um negócio jurídico bilateral pelo 
qual o credor (cedente) transfere a outrem (cessionário) a titularidade do 
crédito. O CPC/2015, no §1º do art. 778, simplificou o procedimento ao 
permitir que o cessionário promova a execução, desde que, juntando o 
instrumento de cessão, requeira sua habilitação e intime o devedor para se 
manifestar no prazo de 15 dias. Se o devedor não impugnar, a habilitação é 
automática; se impugnar, instaura-se um incidente processual. 
 
VI - O sub-rogado nos direitos do credor: A sub-rogação ocorre quando 
um terceiro paga a dívida do devedor, assumindo, por força de lei ou do 
contrato, todos os direitos, ações, privilégios e garantias do credor originário 
(art. 346 do Código Civil). É o caso do fiador que paga a dívida e se sub-
roga nos direitos do credor (geralmente o locador) para executar o devedor 
afiançado, ou da seguradora que indeniza o segurado e sub-roga-se no direito 
deste de ação contra o causador do dano. 
 
Aplicação prática: Um advogado que patrocina uma causa trabalhista e 
obtém êxito tem seu crédito de honorários sucumbenciais constituído no 
título. 
 
31 
 
Com o trânsito em julgado, ele pode executar tal verba em nome próprio, 
com base no inciso II (quando atua como membro da Defensoria ou do MP?) 
ou, na advocacia privada, há discussão se seria aplicável o inciso I como 
credor por força de lei, ou o inciso VI se considerarmos uma sub-rogação 
legal. 
 
Na prática, o advogado deve peticionar nos autos requerendo o cumprimento 
de sentença em seu favor, juntando a procuração e demonstrando que a verba 
sucumbencial lhe pertence por força do art. 85 do CPC. Em caso de morte 
do credor original, os herdeiros deverão promover a habilitação nos autos 
antes de prosseguir com a execução. 
 
3. Legitimidade Passiva (Art. 779, CPC) 
 
A legitimidade passiva define quem pode sofrer o processo executivo, ou 
seja, quem pode ser executado. O art. 779 estabelece um rol que, embora 
exemplificativo na prática, é bastante abrangente: 
 
I - O devedor reconhecido no título executivo: É a regra fundamental. A 
execução deve ser promovida contra aquele que consta no título como 
responsável pela dívida. É o sacador da nota promissória, o locatário no 
contrato, o réu condenado na sentença. 
 
II - O espólio, os herdeiros ou os sucessores do devedor: Com a morte do 
devedor, a obrigação transmite-se a seus herdeiros, dentro das forças da 
herança (art. 1.792 do Código Civil). A execução não se extingue; ela 
prosseguirá contra o espólio (se ainda em aberto o inventário) ou diretamente 
contra os herdeiros (após a partilha). É importante destacar que a 
responsabilidade dos herdeiros é limitada ao valor do quinhão hereditário 
recebido. 
 
III - O novo devedor que assumiu, com o consentimento do credor, a 
obrigação resultante do título executivo: A assunção de dívida é um 
negócio jurídico previsto nos arts. 299 a 303 do Código Civil. Se o credor 
anuir expressamente com a substituição do devedor original por um novo 
devedor, a execução poderá ser promovida diretamente contra este último. A 
prova da assunção e da anuência do credor deve ser inequívoca. 
 
IV - O fiador do débito constante em título extrajudicial: O fiador é 
coobrigado pela dívida. O CPC/2015, no entanto, estabelece uma distinção 
crucial em relação ao título judicial. Se a execução for fundada em título 
extrajudicial (ex.: contrato de locação com fiança), o fiador pode ser incluído 
no polo passivo desde o início, pois sua obrigação decorre do próprio título. 
32 
 
Já na execução de título judicial (cumprimento de sentença), o §5º do art. 
513 veda expressamente que o cumprimento seja promovido em face do 
fiador, coobrigado ou corresponsável que não tiver participado da fase de 
conhecimento. Essa vedação visa preservar o contraditório e a coisa julgada. 
 
V - O responsável tributário, assim definido em lei: Esta hipótese remete 
à legislação tributária (CTN, arts. 134 e 135), que define os casos de 
responsabilidade de terceiros (sócios, administradores, contadores, etc.) por 
débitos fiscais. O reconhecimento dessa responsabilidade, no entanto, 
frequentemente depende da comprovação de infração à lei ou ao contrato 
social, o que pode exigir dilação probatória. 
 
Aplicação prática: A principal dificuldade do dia a dia forense reside na 
inclusão de novos sujeitos no polo passivo da execução. Um erro comum é 
tentar incluir o cônjuge do devedor na execução sem a devida comprovação 
de que a dívida foi contraída em benefício da família ou da meação. Outro 
erro frequente é direcionar a execução contra o sócio retirante sem observar 
o prazo de 2 anos contados da averbação da alteração do contrato social (art. 
1.003, parágrafo único, do Código Civil) ou o prazo de 5 anos para as dívidas 
fiscais. A segurança na identificação do legitimado passivo evita a nulidade 
dos atos executórios e a condenação em honorários sucumbenciais em 
eventual embargos à execução. 
 
4. Sucessão das Partes na Execução 
 
A sucessão processual é o fenômeno pelo qual uma pessoa assume a posição 
de parte no processo, em substituição a outra. Na execução, a sucessão é 
regulada pelos arts. 778, IV e V, e 779, II e III, já mencionados. É crucial 
distinguir a sucessão da mera intervenção de terceiros. Na sucessão, o 
terceiro substitui a parte original, ocupando seu lugar no processo; na 
intervenção, ele se integra ao processo ao lado da parte (assistência) ou em 
litisconsórcio com ela (chamamento ao processo), sem excluir a parte 
original. 
 
A sucessão pode ser: 
 
 Inter vivos: Cessão de crédito (ativo) ou assunção de dívida (passivo). 
 Causa mortis: Morte do credor ou do devedor. 
 
 
 
 
33 
 
O procedimento para a sucessão, especialmente a habilitação de herdeiros, 
deve observar o disposto nos arts. 687 a 692 do CPC, que tratam da 
habilitação incidental. Trata-se de um procedimento que visa garantir a 
segurança da identificação dos sucessores e a delimitação da 
responsabilidade de cada um. 
 
PARTE II – TERCEIROS NA EXECUÇÃO: INTERVENÇÃO, 
EXCLUSÃO E TUTELA 
 
1. A Posição do Terceiro em Relação ao Processo Executivo 
 
"Terceiro" é todo aquele que não é parte no processo. É o sujeito estranho à 
relação jurídica processual instaurada . No entanto, a qualidade de "terceiro" 
não é absoluta. A doutrina classifica os terceiros em relação ao grau de 
afetação que o processo pode causar em sua esfera jurídica: 
 
 Terceiros desinteressados: São aqueles totalmente alheios à relação 
jurídica deduzida em juízo. A sentença ou os atos executórios não lhes 
causarão nenhum prejuízo ou benefício direto. 
 Terceiros interessados: São aqueles que, embora não sejam partes, podem 
ser indiretamente afetados pela decisão ou pelos atos de execução. O 
interesse pode ser: 
o Interesse econômico ou moral: A decisão pode repercutir na esfera do 
terceiro, mas sem vínculo jurídico direto. Exemplo: O credor de um credor 
(subcredor) tem interesse econômico no sucesso da execução promovida por 
seu devedor contra um terceiro, pois isso aumentará o patrimônio de seu 
devedor, garantindo seu futuro pagamento. Este interesse, por si só, não 
legitima a intervenção. 
o Interesse jurídico: É aquele em que o terceiro é titular de uma relação 
jurídica que pode ser direta ou indiretamente atingida pela decisão. O 
interesse jurídico é o que autoriza, em regra, a intervenção do terceiro no 
processo, inclusive na execução, nas hipóteses legalmente admitidas. 
 
2. A Intervenção de Terceiros na Execução: Um Campo de Aplicação 
Restrita 
 
Uma das mais importantes distinções entre o processo de conhecimento e o 
de execução reside na possibilidade de intervenção de terceiros. Enquanto 
no conhecimento as modalidades são amplas e visam integrar todos os 
interessados na solução da lide, na execução a intervenção

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