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Resumo N2 - Portugues jurídico Parágrafos: Descritivos - Definição de Descrição: é a reprodução de uma realidade por meio da representação verbal de um aspecto ou sequência de aspectos, com o objetivo de provocar no receptor uma impressão sensível e fazer com que o leitor 'veja' na sua mente um objeto material ou um processo espiritual. - Objetivo da Descrição:Compor um "retrato" de uma ideia através da representação simbólica da imagem por meio de palavras. Isso pode incluir pessoas, ambientes ou naturezas (física, emotiva, espiritual), utilizando a linguagem para permitir ao receptor "ver" o que está sendo descrito. Tipos de Descrição: - Técnica ou Informativa: Captura os elementos essenciais do objeto de forma a permitir ao leitor representá-los mentalmente. Utiliza linguagem denotativa e impessoal. - Literária: Permite ao emissor inserir impressões subjetivas sobre o objeto, utilizando uma linguagem que pode retratar objetivamente ou subjetivamente. ● Exemplos de Descrição Técnica: Verbetes do Pequeno dicionário brasileiro da língua portuguesa:** - "Olho abrolho s.m. 'Nome comum a várias plantas rasteiras e espinhosas...'" - "Olho acaso s.m. 'Conjunto ordenado de fases em que um indivíduo ou um grupo de indivíduos se transformam em seus aspectos físicos, espirituais e intelectuais.'" ● Exemplos de Descrição Literária: 1. Trecho de Braga (1963, p. 72): - Descrição vívida e detalhada de uma paisagem em transformação, utilizando linguagem poética e rica em imagens sensoriais. 2. Outro Trecho Literário: - Descrição de um cenário abandonado com foco nos detalhes sensoriais e emocionais, evocando a atmosfera de desolação e abandono. 3. Trecho de Graciliano Ramos, apud Carreter et al., 1963, p. 29: - Descrição detalhada de uma rua, suas características físicas e habitações, destacando a variedade de construções e suas aparências. 4. Trecho de Armando Fontes, apud Garcia, 1975, p. 459: - Descrição vívida e dinâmica de um gaúcho, suas ações e presença imponente, utilizando linguagem rica em movimento e emoção. 5. Trecho de Cunha, 1956, p. 106: - Descrição de um jagunço, enfatizando sua vida dupla e sua participação em lutas armadas, destacando a normalidade de sua figura em contraste com a percepção dos outros. 6. Trecho de Lins, 1952, p. 136: - Descrição de um jagunço e seu cotidiano, sua vestimenta e ações durante as vaquejadas, reforçando a ideia de que no sertão todos nascem corajosos. 7. Trecho de Moraes, 1962, p. 99: - Descrição de uma casa materna e suas memórias associadas, com foco nos detalhes sensoriais e sentimentais, criando uma atmosfera nostálgica. Características Básicas da Estrutura Descritiva: 1. Frases Curtas e Elípticas: Muitas elipses verbais, criando uma maior impressão de continuidade e movimento. 2. Uso de Verbos Predominantemente no Presente e no Imperfeito do Indicativo: O presente para indicar ações contínuas e o imperfeito para sugerir uma fantasia ou ações repetitivas.. 3. Abundância de Adjetivação: Adjetivos denotativos ou conotativos funcionam como atributos do ser ou da coisa descritos. 4. Vigor nas Especificações: Esforço em captar a essência do objeto descrito. Diferença entre os Tipos de Descrição: Postura do Redator e do Objeto Descrito: - **Texto 1:** Rubem Braga descreve as cataratas do Iguaçu mergulhando nas sensações espirituais e na majestade da cena. A descrição é rica em metáforas e verbos no gerúndio, dando vida e movimento. - **Texto 2:** Graciliano Ramos usa verbos no perfeito, dando um toque narrativo à descrição objetiva. Adjetivos como "deserto", "arruinado", "mortas", "vazio", "murchas" enfatizam a fatalidade no nordeste. - **Texto 3:** Armando Fontes faz uma descrição objetiva e denotativa, com uma linguagem rápida e elíptica, registrando a cena sem interferências emocionais. - **Texto 4:** Euclides da Cunha utiliza uma descrição vigorosa, direta e rica, cheia de símbolos e metáforas. A linguagem é regionalista e sentimental, porém objetiva. - **Texto 5:**Wilson Lins apresenta uma descrição dissertativa, didática e quase jornalística, descrevendo objetivamente o quadro com comentários que permitem ao leitor compor o retrato mentalmente. - **Texto 6:** Vinicius de Moraes esboça uma descrição lírica e mística da casa materna, utilizando uma linguagem carregada de emoções e lirismo, com foco no sentimento e nostalgia. O Parágrafo Descritivo na Redação Jurídica ● Descrição na Redação Jurídica: - Importância: A descrição é amplamente utilizada na redação jurídica, pois a narrativa dos fatos é construída por meio da descrição detalhada desses fatos, buscando elementos e pormenores que pintam o quadro, segundo a versão da parte processual. Exemplo de Jurisprudência: - Trecho: "A defesa do esbofeteado, injustamente, em público, não reclama em revide a morte, mas se o indivíduo, sem possibilidade de refletir, no auge da dor moral, maior que a física, no ato de repulsa, utilizar-se do único meio encontrado e matar o agressor, não se lhe pode negar a legítima defesa." (RT, 170:333) Análise: - A descrição de como o crime foi cometido, tanto oralmente quanto por escrito, é crucial para que os julgadores formem uma imagem mental favorável ou desfavorável ao réu. Obra Referenciada: - Valda Oliveira Fagundes (1987):** Em "O discurso no júri: aspectos linguísticos e retóricos", demonstra que as narrativas da acusação e da defesa são construídas pela descrição dos fatos e que esses elementos descritivos funcionam como argumentos. Exemplo de Discurso da Acusação: - Trecho (p. 43-45):** "Este é o acusado. Um acusado que vem aqui e mente, se Vossas Excelências observarem, hoje ele diz que é casado, consta no outro interrogatório que ele estava separado, procura modificar aquilo que já declarou para o próprio juiz, procurando confundi-lo, procurando inverter pequenos detalhes para se amoldar a uma possível e imaginária tese de defesa. É um elemento perigoso, mesquinho, mesquinho porque quando de uma discussão com um funcionário da SAMAE, por uma questão de água, sacou de um revólver e também atirou." Nota: - A irregularidade da pontuação é intencional, refletindo o objetivo da autora de analisar os recursos fonéticos e fonológicos presentes nas gravações das sessões do Tribunal do Júri de Blumenau, Santa Catarina. Dados Descritivos do Réu: - Características: Mesquinho, perigoso, mentiroso, cruel, mau caráter, violento. - Função:Criar uma imagem simbólica do acusado como elemento pernicioso à sociedade, merecendo punição. Versão da Defesa (p. 81-83):** Trecho: - "Às vezes escapou que, ao invés de justiçar, passa a castigar. É o caso, senhores, típico do acusado. Hoje pintaram um quadro aqui, que se não houvesse alguém para rebater, o acusado apodreceria na cadeia. Excelências, nós vamos nos referir ao acusado, o cidadão. Honesto, trabalhador, não é vadio, não é malandro. O acusado foi vítima das circunstâncias. Aconteceu um fato na vida do acusado. O acusado tem uma vida anterior ao crime, e tem uma vida posterior como vou mostrar a Vossas Excelências. Não é como disse a nobre promotoria que o acusado só praticou crimes. É o primeiro. Ele é primário. É o primeiro delito do acusado. O outro, ele já pagou, Excelências." Análise: - A defesa descreve características positivas do acusado (honesto, trabalhador, não vadio, não malandro), criando uma imagem benigna e refutando o retrato da acusação. Espera-se convencer o Conselho de Sentença a aceitar uma nova visão do acusado. Reflexão sobre a Primariedade: - A defesa usa o conceito de primariedade do réu para reforçar a argumentação de que ele não merece ser tratado com severidade, desafiando implicitamente o conceito de justiça punitiva (jus sperneandi). Conclusão sobre a Descrição Jurídica: - A descrição é uma técnica fundamental no âmbito jurídico, apoiando juízos dissertativos e robustecendo a narrativa dos fatos. É empregada em diversas peças jurídicas, como denúncias, alegações finais, e sentenças. - A descrição deve ser animada e bem fundamentada, usando recursostécnicos para transmitir a essência dos eventos e das personalidades envolvidas, ajudando a formar a percepção dos julgadores sobre o caso. Narrativos - Exposição de fatos (reais ou fictícios) que se passam em determinado lugar e com certa duração, em uma atmosfera carregada de elementos circunstanciais. Elementos Estruturais da Narrativa: - a) O que: o fato que se pretende contar. - b) Quem: as partes envolvidas. - c) Como: o modo como o fato aconteceu. - d)Quando: a época, o momento, o tempo do fato. - e)Onde: o registro espacial do fato. - f)Por que: a causa ou motivo do fato. - g) Por isso: resultado ou consequência do fato. Características da Narrativa: - Tipo de Narrativa: Depende da presença dos elementos acima. Narrativas reais destacam o **consummatum est**, o verbo no perfeito do indicativo indicando fato consumado. Contos de fadas usam o imperfeito para criar fantasia. - Clímax: Momento de ápice que conduz ao desfecho ou solução. - Trama: Fundamental para a narrativa eficaz, composta de incidente, complicação ou interesse temático. - Unidade: Fatos devem estar inter-relacionados e em íntima conexão, garantida pela coerência textual. Exemplo de Narrativa: 1. Trecho de Amado (1958, p. 134): - "Aos seis anos de idade partia, em cima de meu cavalo, para o que, naquele tempo, era longe, viagem comprida, de Itaporanga à Bahia..." Comentário: A narrativa relata um fato da infância do autor, utilizando o imperfeito do indicativo para criar uma sensação de memória e imaginação. Conclusão: - A narrativa deve ser bem estruturada, contendo todos os elementos necessários para criar uma história coesa e envolvente. A disposição dos fatos e a utilização adequada dos tempos verbais são cruciais para a eficácia narrativa. ● Uso na Redação Jurídica: - Importância:A presença da narrativa nas peças jurídicas é essencial para a compreensão detalhada dos fatos. A divisão de capítulos e a estrutura organizada da linguagem ajudam a formar uma narrativa globalizadora. - Exemplos: Utilizada em Petição Inicial, Denúncia, Reclamação Trabalhista, onde os verbos estão no perfeito indicativo, indicando ações reais. A narrativa deve ser objetiva, sem adjetivações excessivas. ● Exemplo de Petição Inicial: 1. "No dia 15 de maio do corrente ano, o Autor, tendo vendido ao Réu o imóvel constituído do apartamento nº 56, do prédio denominado 'Monte Castelo'... não conseguia o Autor a retirada do referido aparelho telefônico… Análise: - Estrutura: Períodos curtos, no perfeito do indicativo, indicando o início dos acontecimentos e demais circunstâncias. A narrativa revela como e por que os fatos ocorreram, levando a uma conclusão lógica. Relatórios de Sentenças: - Objetividade:A narrativa deve contar os acontecimentos processuais com precisão e objetividade. Expressões ou adjetivações que prejudiquem a decisão devem ser evitadas. Alegações Finais do Processo Penal: - Exemplo de Alegação:"Configura-se a qualificadora de surpresa quando a morte da vítima se verificou, estando ela a barbear-se deitada, na cadeira do barbeiro, sem ter visto o réu que a apunhalou por trás..." - Análise: A narrativa utiliza atributos e circunstâncias com intenção dissertativa para formar a argumentação. Conclusão sobre a Narrativa Jurídica: A narrativa nas peças jurídicas deve ser clara, objetiva e bem estruturada, usando períodos curtos e verbos no perfeito indicativo para garantir precisão e evitar ambiguidades. A descrição detalhada dos fatos ajuda na compreensão e na tomada de decisões jurídicas. ● Exemplo de Alegações Finais Trecho: "surpresa. Porque ele pegou a vítima inopinadamente e realmente de surpresa. E não é o primeiro caso, que aqui eles haviam se desentendido, estavam há quinze dias em franco desentendimento; então ele poderia, como ele mesmo admite, como a família mesmo admite, que eles tinham medo do próprio acusado (g. n.)." Análise: - Intenção Argumentativa:O advogado procura indicar circunstâncias narrativas para formar um argumento persuasivo. - Erro Linguístico:*A autora nota erros gramaticais no trecho, mas destaca que a entonação do orador ajudou a dar sequência lógica aos fatos, evidenciando elementos importantes do processo narrativo. Conclusão Geral sobre a Narrativa Jurídica: - Em qualquer situação, o fato é o centro da narrativa. Informações específicas são imprescindíveis para contar a história de maneira clara e precisa, permitindo que a narrativa cumpra seu papel de maneira eficaz. Considerações Finais: - A narrativa jurídica deve ser clara, objetiva e bem estruturada, focando na precisão dos fatos e evitando ambiguidades. O uso adequado dos tempos verbais, a construção de frases estratégicas e a entonação correta são cruciais para transmitir a essência dos eventos e influenciar a percepção dos julgadores. Dissertativos 1. Complexidade da Dissertação - A dissertação é o gênero redacional mais complexo. - Exige um posicionamento do redator sobre um tema, expressando opinião ou postulando uma tese. 2. Desenvolvimento do Raciocínio - Necessidade de um raciocínio lógico bem estruturado. - Uso de razões, exemplos, definições e contrastes relacionados à ideia central. 3. Conhecimento e Argumentação - Impossibilidade de dissertar sobre um tema sem conhecimento e sem tomar uma posição apoiada em argumentos. 4. Texto Dissertativo - Desenvolve a capacidade crítico-reflexiva. - Redator deve explanar com logicidade suas ideias. 5. **Predomínio de Palavras Abstratas** - A dissertação predomina pelo uso de palavras abstratas, diferente do texto descritivo-narrativo. 6. Uso dos Verbos - Verbos têm papel decisivo, evitando formas subjetivas como "podemos dizer" ou "penso". - Exemplo: - (a) "O descaso com o bem público resulta graves prejuízos à comunidade." - (b) "Penso que o descaso com o bem público é prejudicial à comunidade." 7. Estrutura Frásica - Comparação entre estrutura frásica: - (a) "É preciso que o governo busque soluções de baixo custo no combate à fome." - (b) "Cumpre ao governo viabilizar soluções de baixo custo no combate à fome." 8. Exposição do Ponto de Vista - Estrutura dissertativa exige exposição de um ponto de vista. - Dispensa o uso de expressões que esclarecem ser a opinião do redator. 9. Exemplos de Estrutura - Exemplo correto: "A sociedade brasileira sofre os reflexos da recessão econômica." - Exemplo inadequado: "Na minha opinião, a sociedade brasileira sofre os reflexos da recessão econômica." 10. Expressões de Ponto de Vista - Evitar uso de expressões como "a meu parecer", "a meu entender". O Parágrafo Dissertativo 1. **Uso de Expressões** - Em situações de opinião ou consenso, usar expressões como: "todos reconhecemos que", "tornou-se comum dizer", "tem-se dito que". 2. **Defesa de Opinião - A dissertação deve defender uma opinião, ponto de vista ou tese. - Predominância de períodos subordinativos para realçar a ideia principal. - Diferente da descrição, que utiliza coordenação para percepções simultâneas. 3. **Período Subordinado - Não deve ser entendido como orações longas e labirínticas. - Evitar frases extremamente curtas ou excessivamente longas. - Manter harmonia de concordância e regência, com parágrafos bem pontuados e organizados. Tipos de Dissertação 1. Dissertação Expositiva - Discussão de uma ideia, assunto ou doutrina. - Intenção do redator é expor e comentar o assunto. - Não há defesa explícita de um ponto de vista, mas pode estar implícito pela seleção das ideias. - Exige conhecimento robusto do assunto e levantamento de ideias. - Parágrafos devem manter relação semântica e unidade textual. - Exemplo de clareza e profundidade no desenvolvimento de ideias. 2. DissertaçãoArgumentativa - Redator utiliza técnicas de persuasão para convencer o leitor. - Pode ser aliada à dissertação expositiva, objetivando influenciar a opinião do leitor. - Na atividade jurídica, é essencial para a natureza persuasiva do discurso. - Deve ser realizada com seleção criteriosa de argumentos e raciocínio lógico. - 2.1 Força Persuasiva dasIdeias - A força persuasiva depende da clareza e sustentação das razões. - Provas são essenciais para robustecer o plano argumentativo. - 2.2 Exemplo Ilustrativo - Advogado de defesa focando em legítima defesa: - (a) Três testemunhas viram o cliente provocando a vítima. - (b) Policiais afirmam que a vítima estava desarmada. - (c) Laudo médico indica ataque inesperado e pelas costas. - Necessidade de reformulação da defesa diante das evidências processuais. - 2.3 Função das Provas - Provas são o termo médio da fórmula silogística. - Exemplos: - (a) "O homem moderno desgasta seu físico e mente na vida competitiva." - (b) "Melhor será ao homem a serenidade de espírito." - 2.4 Relação de Causa e Efeito - Construção civil ameaçada pela carência de mão de obra. - Importância de explicitar causa (carência de mão de obra) e efeito (construção civil ameaçada). - 2.5 Provas Inadequadas** - Provas que não apoiam a conclusão são inoperantes e falaciosas. - Exemplo de prova inadequada: - "Meu cliente é pai extremoso, trabalhador honesto, cidadão cumpridor de seus deveres." - Provas inadequadas não são definitivas para determinar a autoria de um crime. - 2.6 Argumentos Prejudiciais - Vida pregressa do acusado não prova inocência. - Aceitar acontecimentos como armadilhas do destino não é argumento lógico. - Argumentação prejudicada por opiniões generalizadas e apressadas, e.g., preconceitos sobre nordestinos. - 2.7 Visão Preconceituosa - Generalizações carecem de verossimilhança. - Definir meta profissional não é argumento lógico e é inadequada. - Argumento preconceituoso enfraquece a argumentação, tornando o texto inexpressivo e sem força persuasiva. Estrutura da Dissertação - Exórdio: Parte introdutória, enuncia a ideia e propõe a tese. - Estabelecer a ideia geral. - Situar o assunto no contexto. - Motivar o destinatário. - Apresentar a proposta temática. - Desenvolvimento: Explicação das ideias e provas, fase de reflexão e fundamentação. - Discurso jurídico distingue entre verdadeiro e verossímil. - Peroração: Conclusão, coroamento discursivo, reforça o tópico frasal. - Demonstrar importância da conclusão. - Utilizar uma "chave de ouro" para finalizar, e.g., conclusão de uma sentença. - A sentença, seja absolutória ou condenatória, é parte da conclusão, chamada dispositivo, que resolve as situações. Raciocínio e Argumentação - Definição de raciocínio por Ch. Lahr: "operação do espírito que, de uma ou de várias relações conhecidas, conclui, logicamente, uma outra relação." - Elementos do raciocínio: - Abstração: opera no espírito. - Estrutura sistêmica: relaciona ideias e juízos. - Estrutura silogística: parte do particular para o geral. - Atuação de inferências: deduções e conclusões. Relação entre Raciocínio e Argumentação - A expressão verbal do raciocínio é o argumento. Tipos de Raciocínio - Apodítico: Verdade absoluta, sem possibilidade de contestação. - Exemplo: "Quem crer e for batizado será salvo." - Dialético: Aberto a discussões e controvérsias. - Exemplo: Propaganda do detergente "Limpol" por C. Moreno. - Retórico: Concilia dados racionais e emocionais, preferido por políticos e advogados. - Silogístico: Estrutura de silogismo com premissas e conclusão. - Exemplo: "Todo círculo é redondo" (premissa maior), "Nenhum triângulo é redondo" (premissa menor), "Logo, nenhum triângulo é círculo" (conclusão). - Estrutura de um silogismo conforme Magalhães Noronha: - Índice: ferramenta para explicar e facilitar o acompanhamento do raciocínio. Regras de Silogismo na Filosofia - Premissas afirmativas levam a conclusão afirmativa. - Premissas negativas não geram conclusão. - Conclusão não pode ser maior que as premissas. - Premissa afirmativa + negativa = conclusão negativa. - Duas premissas particulares não têm conclusão. Argumentação - Derivada do latim "argumentum" (indicar, acusar). - Relaciona-se ao termo "arguto" (claro, preciso). - Tipos de argumentação: - Por exclusão - Pelo absurdo - De autoridade - Ad hominem: visa argumentos de alguém. - Ad personam: visa diretamente a pessoa do adversário. - A posteriori: do efeito para a causa. - Por silogismo Tipos de Argumentação - Por Exclusão: Elimina hipóteses uma a uma até fixar-se no objetivo. - Utilizado no direito e no mundo literário. - Pelo Absurdo: Refuta uma assertão mostrando a falta de cabimento. - Exemplo: Fábula do lobo e do cordeiro. - De Autoridade: Confirmação por declarações de especialistas. - Comum no discurso jurídico e religioso. Outras Formas de Argumentação - Ad hominem: visa os argumentos de alguém. - Ad personam: ataque direto e específico ao adversário. - Experimental (a posteriori): parte do efeito para conhecer as causas. - Silogismo do tipo sorites: encadeia proposições sucessivas para concluir que todas são verdadeiras ou falsas. Falácias da Argumentação - Confusão entre fato e argumento: Evitar conclusões sem base argumentativa sólida. - Raciocínios abstratos**: Devem ressaltar no concreto e específico. - Contradição: Evitar afirmações e negações sobre o mesmo objeto. - Falsa analogia: Extensão inadequada de particularidades de uma ideia. - Petição de princípio: Argumento que assume como verdade o que precisa provar. - Exemplo: "O réu cometeu homicídio porque matou a vítima." - Falsa causa: Interpretação errônea de fatos por meros indícios. - Exemplo: Condenação sem prova cabal da culpa. - Generalização inadequada: Tomar o acidental pelo essencial, de forma equivocada. Parágrafo Dissertativo na Redação Jurídica - Importância da dissertação na comunicação jurídica para solucionar conflitos e persuadir. - Em todas as áreas do Direito, a argumentação é crucial para convencer e postular teses. - A motivação de sentenças não deve narrar fatos, mas argumentar tecnicamente. 1. Natureza Persuasiva do Discurso Jurídico - O discurso jurídico deve descrever fatos de forma a demonstrar a aceitabilidade do ponto de vista do redator. - Consciência da natureza persuasiva contribui para o emprego preciso dos vocábulos ideológicos e das relações formais e materiais na enunciação silogística. 2. Direito e Lógica Formal - O Direito não é Lógica Formal, mas utiliza técnicas dissertativas de alto efeito persuasivo. 3. Elementos Dissertativos no Discurso - Não há discurso sem elemento dissertativo, pois a neutralidade absoluta é inexistente, até nas ciências sociais. - A prevalência de opiniões diferentes sobre um mesmo fato depende da força argumentativa no discurso jurídico. Procuração: Conceitos e Tipos 1. Definição de Mandato e Procuração - Art. 653 do Código Civil: Mandato é quando alguém recebe poderes de outrem para praticar atos ou administrar interesses em nome deste. - Procuração é o instrumento do mandato. 2. Conceito de Mandato - Alguém (mandante) outorga poderes a outrem (mandatário) para, em seu nome, praticar atos ou administrar interesses. - A definição legal não menciona a natureza jurídica, permitindo mandato extrajudicial. 3. **Origem da Palavra Mandato** - Deriva do latim "manus data" (mão dada), simbolizando o gesto de firmar um acordo. - No Direito Romano, "manus" sempre evocou poder (e.g., "manu militari"). 4. Diferença entre Mandato e Mandado - Mandato: Ordem para praticar atos administrativos ou jurídicos. - Mandado: Ordem do juiz em processo, e.g., mandado de citação, intimação. 5. Natureza do Mandado - Sempre escrito, expedido por autoridade judicial. - Pode designar ação intentada por alguém que se vê ameaçado ou violentado em direito líquido e certo. 6. Expressão "Líquido e Certo - Refere-se a direito específico e plenamente conhecido, sem dúvidas. - Exemplo: candidato classificado em concurso público que perdeu a vaga e busca reverter judicialmente. 7. Mandante no Contexto Penal - Refere-se ao autor intelectual de um crime, como no caso de mandante de homicídio. - Usado também para quem contrata alguém para praticar atos em seu nome. 8. Diferenças Semânticas - Importância de distinguir claramente os termos mandato e mandado para evitar ambiguidadesjurídicas. TIPOS DE PROCURAÇÃO 1- Quanto a Natureza: - 1.a) Procuração Judicial: destinada para procurar em juízo; - 1.b) Procuração Extrajudicial: para os negócios em geral. 2- Quanto ao Instrumento: - 2.a) Procuração Pública: passada em cartório, no livro próprio, chamando-se traslado a cópia original deste registro. As demais cópias são dadas em forma de certidão; - 2.b) Procuração Particular: quando outorgada pelo próprio mandante em documento escrito com firma reconhecida. 3- Quanto a Finalidade: - 3.a) Geral: quando o mandante oferece poderes para todos os seus negócios; - 3.b) Especial: quando especifica o negócio (os negócios) expressamente (artigo 660, CC). 4- Quanto a Extensão os Poderes: - 4.a) Amplos: confere liberdade ampla ao procurador; - 4.b) Restritos: o procurador fica sujeito a decisões do outorgante. PROCURAÇÃO AD JUDICIAl 1- O mandato (ou Procuração) judicial é chamado de Procuração Ad Judicia (note-se que em latim não há hífen). 2- O mandato (ou procuração) extrajudicial é chamado de Procuração Ad Negotia (pronuncia-se negócia - na pronúncia tradicional). 3- O instrumento do mandato (procuração) pode ser particular, salvo se a lei o determinar obrigatoriamente público, e.g., transcrição de imóvel. 4- O mandato em termos gerais só confere poderes de administração. Para alienar, hipotecar, transigir ou praticar atos que exorbitam da administração ordinária, os poderes têm de ser expressos (art. 1.295, Código Civil). O mandato judicial confere poderes ad judicia para o foro em geral. Os poderes especiais são elencados taxativamente no art. 38 do Código de Processo Civil e devem estar obrigatoriamente expressos. PROCURAÇÃO AD NEGOTIA Reza o art. 654, § 1º, Código Civil: "O instrumento particular deve conter a indicação do local onde foi passado, a qualificação do outorgante e do outorgado, a data e o objetivo da outorga com a designação e extensão dos poderes conferidos." 1º Nome do documento: Procuração ou Procuração Ad Negotia; 2º Qualificação do outorgante (nome completo, nacionalidade, estado civil, profissão, documentos pessoais, residência e domicílio) em analogia aos elementos individuadores da Petição Inicial, paradigma para especificações; 3º Presença dos verbos nomear e constituir (indica o outorgado ou procurador e investe nele os poderes); 4º Qualificação do outorgado (vide item 2º); 5º Finalidade da procuração; 6º Extensão dos poderes; 7º Local e data; 8º Assinatura do outorgante com firma reconhecida. Outras Modalidades Caução de Rato: Procuração Ad Judicia por instrumento público. - Advogado assina termo, comprometendo-se a apresentar a procuração. - Sob pena de serem havidos como inexistentes os atos praticados e responder pelos prejuízos causados. - Uso: Para ingressar em juízo para intentar ação ou contestá-la em casos urgentes. - Significado dos Termos: Caução: Garantia. Rato: Ratificação. - Requisito: Requerimento simples, dirigido ao juízo competente ou da causa, indicando o motivo do pedido. Apud Acta Modalidade pública de procuração ad judicia, não prevista em lei, mas aceita pelo costume. - Outorga dos poderes do mandato judicial no cartório da vara onde corre o processo, na presença de duas testemunhas que assinam juntamente com o outorgante. - Lavrada pelo escrivão que funciona na causa. - Equiparação: Equivale à procuração judicial por instrumento público, dispensando a entrega de outra procuração. - Distinção: Não deve ser confundida com a Procuração Ad Hoc, que indica substituto ocasional para um ato processual. REQUERIMENTO É o mais formal na 3ª pessoa, vedado o emprego de palavras de gentileza ou agradecimentos, próprias da redação comercial. Requerer é pedir deferimento a uma solicitação feita por alguém – Requerente – a uma autoridade competente para dela conhecer. ● ESTRUTURA DO REQUERIMENTO 1- Vocativo: autoridade que tem competência ratione materiae (a natureza da matéria). Não se coloca o nome, e sim o cargo ou a função; 2- Qualificação do Requerente: dados suficientes para identificá-lo; 3- Presença do verbo requerer ou de seus sinônimos, e.g., solicitar; 4- O pedido e suas especificações; 5- Fecho; 6- Local e data; 7- Assinatura do Requerente ● Simples: Não pode ser polêmico, apoia-se em norma legal, pode ser Judicial ou Extrajudicial É redigida em um único parágrafo gráfico, em linguagem objetiva e concisa. ● Complexo: Cuida-se de pedido articulado, distribuindo a narrativa dos fatos e argumentos em parágrafos gráficos. É tipo de requerimento – judicial ou extrajudicial – para casos em que o pedido não é manso ou pacífico, ou não se encontra apoiado cabalmente em norma legal ou administrativa. Requerimento e Petição Inicial 1. Petição Inicial - A Petição Inicial (ou Exordial) é um requerimento complexo, que solicita de forma articulada um pedido ao juiz, iniciando a atividade jurisdicional do Estado para tutela de um direito. - Conforme a doutrina, a Petição Inicial é a concretude do direito geral e abstrato de agir, com o intuito de formular uma pretensão perante um sujeito passivo. 2. Estrutura da Petição Inicial - Contém tanto um pedido quanto um requerimento. - Pedido: Destinado a citar o réu para tomar conhecimento da ação. - Requerimento: Além das provas, destina-se a conhecer a ação ajuizada. 3. Histórico da Petição Inicial - No passado, o pedido e o requerimento eram formulados separadamente. - Pedido: Citação do réu (peça Inicial). - Requerimento: Petição escrita contendo a pretensão do autor (conhecida como libelo). - Hoje, ambos são formulados em uma única estrutura, denominada Petição Inicial. 4. Vocábulo "Libelo" - O termo "libelo" é antiquado, mas ainda é usado no âmbito do Ministério Público em crimes dolosos contra a vida. Aspectos Linguísticos e Estruturais - Art. 2º do Código de Processo Civil: "O processo começa por iniciativa da parte e se desenvolve por impulso oficial, salvo as exceções previstas em lei." - A Petição Inicial deve atender aos requisitos do art. 319 do CPC/2015, incluindo vocativo, qualificação do autor, etc. ● Estrutura Exigida pelo Art. 319 do CPC/2015 1. Vocativo - Indicação do juiz ou tribunal a que se dirige a petição. - Cabeçalho com nome do juiz ou tribunal, conforme a competência da ação. 2. Qualificação do Autor - Exigências do art. 319, II, do CPC/2015: - Nomes, prenomes, estado civil, existência de união estável, profissão, número de inscrição no CPF ou CNPJ, endereço eletrônico, domicílio e residência do autor e do réu. - Dados são essenciais para individualizar o interessado na tutela jurisdicional. 3. Presença do Verbo Propor - Individualização do autor e indicação da ação com seus dispositivos legais. - Ausência ou equívoco dos artigos legais não invalida a inicial, mas a ação deve ser claramente definida. 4. Qualificação do Réu - Informações exigidas ao autor também aplicáveis ao réu. - Em caso de desconhecimento dos dados do réu, deve-se fornecer informações que o distingam e esclareçam a residência ou domicílio. 5. Narrativa dos Fatos e Fundamentos Jurídicos do Pedido - Exposição clara e objetiva da causa petendi. - Argumentos deduzidos pelas inferências dos dispositivos legais, que podem estar ausentes mas compreendidos pelo juiz. - Teoria da substanicação: indicação da causa próxima e remota do pedido. 6. O Pedido e Suas Especificações - Objeto da ação deve ser claro, indicando providências a serem satisfeitas, incluindo "consectários legais". - Exposição dos fatos e fundamentos jurídicos deve decorrer logicamente, conforme art. 330, § I, III, do CPC. - Pedido deve ser determinado e não genérico, atendendo às necessidades do autor. 7. As Provas para Demonstração do Alegado - Exigência de provas para fundamentar o pedido e demonstrar a veracidade dos fatos alegados. - Autor deve provar o alegado, sendo fundamentais provas testemunhais, documentais ou periciais. - Na Petição Inicial, não é necessário especificar a prova a ser produzida in concreto, apenas comunicar a intenção de produzir provas. 8. Requerimentopara a Citação do Réu - Réu deve ter conhecimento do pedido para poder defender-se. - Princípio constitucional do contraditório completa a constituição da relação processual. 9. Valor da Causa - Importante para determinar competências, ritos e medidas processuais. - Deve ser certo e constar na inicial, conforme art. 291 do CPC. - Critérios para avaliação do valor da causa estão nos arts. 292 e 293 do CPC. 10. Documentos para Instrução da Exordial - Conforme art. 320 do CPC, a inicial deve ser instruída com documentos indispensáveis à sua proposição (e.g., contrato de locação). - Procuração com cláusula Ad Judicia deve ser juntada, exceto no primeiro documento. Alguns Comentários Sobre a Estrutura da Inicial 1. Endereço do Réu - Recomendado escrever o endereço por extenso e com letras maiúsculas. 2. Numeração dos Parágrafos - Não há necessidade de numerar os parágrafos da inicial, recomendando-se espaço maior entre eles. 3. Uso de Termos como Autor e Réu - Crescente abandono de termos como Autor e Réu, substituídos por Requerente/Requerido. 4. Simplificação Linguística (Braquiologia) - Fenômeno linguístico que consiste em simplificar a expressão, eliminando-se o substantivo e substanvizando-se o adjetivo. - Exemplo: "Requerente/Requerido" em vez de "Autor/Réu".