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9 VÁRIAS HISTÓRIAS (1896), DE MACHADO DE ASSIS VÁRIAS HISTÓRIAS (1896) O livro selecionado pela UFRGS como leitura obrigatória para o vestibular 2023 é o terceiro livro de contos da fase realista de Machado. Nele, há histórias que adentram em várias coletâneas de narrativas curtas do autor, como, por exemplo, o conto que abre o livro, A Cartomante. Em Várias Histórias, Machado esquadrinha as atitudes humanas, distanciando-se da ideia pedagógica. Aliás, a força da sua literatura está justamente em sugerir, não explicar. Assim, Machado entrega ao leitor a oportunidade de investigar temas como vaidade, obsessão, perversidade, adultério, entre outros. Seu pessimismo diante do caminho que a humanidade segue, faz-se presente em grande parte dos contos de Várias Histórias. Esse pessimismo é construído sempre com certo grau de prazer sarcástico na análise dos equívocos dos personagens. Esse contentamento machadiano em cima do sofrimento do outro, Olavo Bilac definiu como “espetáculo das torturas alheias”. Abaixo, o resumo das curtas, mas profundas histórias desse que é um dos melhores livros escrito por Machado. SOBRE O AUTOR Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no ano de 1839. Filho de um pintor de paredes e de uma imigrante portuguesa, Maria Leopoldina, criou-se no Morro do Livramento, realizando em uma escola pública em São Cristóvão os seus primeiros estudos. Tornou-se amigo de um padre, Silveira Sarmento, auxiliando-o nas missas, e, assim, conhecendo a língua latina. Aos dez anos, sua mãe morreu e Machado mudou- se com seu pai para São Cristóvão. Em 1854, seu pai casou-se novamente com uma doceira, Maria Inês da Silva. Ainda adolescente, Machado já se arriscava escrevendo alguns versos. Aos 15 anos, Machado é empregado por Manuel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um Sargento de Milícias, na Tipografia Nacional. O fato era surpreendente, pois em um país escravagista, Machado fora empregado mesmo sendo mestiço. Aos 16 anos, um poema seu, Ela, será publicado no jornal Marmota Fluminense. Depois disso, nunca mais parou de publicar e se aproximar de intelectuais e políticos cariocas. Em 1864, publicou seu primeiro livro, Crisálidas, de poesia. Casou-se com Carolina Xavier de Novais em 1869. Entre romances, contos, poemas, peças de teatro e contribuições críticas para a literatura, em 1881, Machado publica Memórias Póstumas de Brás Cubas e inicia sua fase madura, inaugurando o Realismo brasileiro. A partir daí, Machado empilhou uma série de criações que modificaram profundamente a história da literatura nacional, vindo a ser considerado por grande parte da crítica o maior escritor da história do país. Machado muitas vezes foi descrito como alguém de saúde frágil, visto que sofria com epilepsias e outros problemas menores. No entanto, em 1908, em sua casa no Cosme Velho, Machado 10 acabou falecendo, provavelmente devido a um agravamento de uma úlcera cancerosa na boca. RESUMO DE VÁRIAS HISTÓRIAS (1896), DE MACHADO DE ASSIS A CARTOMANTE Narrado em 3ª pessoa, o conto inicia com um diálogo entre dois personagens, Rita e Camilo. A moça conta que havia ido fazer uma consulta a uma cartomante, pois andava insegura na relação e queria descobrir se um dia seria abandonada. Camilo, embora lisonjeado pela preocupação de Rita, desdenha da superstição envolvendo a cartomancia. Rita, sem saber, parafraseia o personagem Hamlet de William Shakespeare: “havia muita coisa misteriosa e verdadeira neste mundo”. Em seguida, o narrador nos informa de outro personagem importante para a trama: Vilela. Amigo de infância de Camilo, Vilela havia partido pra província onde exercera a magistratura. Lá havia se casado com uma mulher “formosa e tonta”. Quando retornou para a capital, Vilela, Camilo e sua esposa tornaram-se íntimos. Aos poucos, Camilo e a esposa de Vilela passaram a se gostar além da amizade. Logo ficamos cientes que a esposa de Vilela era a personagem já citada: Rita. A situação se torna muito incômoda para Camilo após receber uma carta anônimo, que lhe atribuía a categoria de traidor do amigo, além de deixar explícito que muita gente já estava à parte da situação. Camilo começa a diminuir as visitas ao amigo Vilela. O narrador nos conta que Rita, então, havia ido à cartomante nessa época, pois, como já explicado, sentia medo de perder Camilo. A cartomante acalmou Rita, dizendo que não corria o risco de perder seu amado. Ainda assim, as cartas anônimas seguem sendo enviadas, deixando Camilo e Rita nervosos com o medo de Vilela ficar sabendo do romance clandestino. Um dia, Camilo recebe uma carta de Vilela com os seguintes dizeres: “Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora”. O nervosismo toma conta de Camilo, que se dirige à casa do amigo com medo da descoberta ter se concretizado. Aliás, Camilo teme ser assassinado pelo amigo. No caminho, passa pela casa da cartomante que Rita havia consultado. O medo faz com que Camilo busque o caminho da adivinhação e resolve sondar o que as cartas dizem. A cartomante adivinha o motivo de ele ter aparecido e o acalma: “Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo”. Ainda assim, recomendou muita cautela, pois havia muita inveja em torno dele e de Rita. Por fim, Camilo pagou um valor acima do comum pela consulta e saiu mais tranquilo em direção à casa de Vilela. No caminho, Camilo pensa, inclusive, em retomar as visitas ao amigo com mais frequência. Se a cartomante havia adivinhado que ele tinha um caso com a mulher de Vilela, seria bem possível que a leitura das cartas, de fato, estivesse correta e que nada aconteceria com ele e Rita. Finalmente, estava diante da casa de 11 Vilela, que o recebe com um ar transtornado e em silêncio. Quando Camilo chega em uma sala interna, não consegue segurar um grito de horror diante da imagem de Rita ensanguentada e morta. Então, Vilela o segura pela gola e dispara dois tiros, deixando Camilo morto no chão. ENTRE SANTOS Narrado em 1ª pessoa por um padre ancião, a narrativa gira em torno de um evento passado em sua época de capelão. O padre nos conta que, em uma noite, quando se recolhia pra dormir, fez, como de costume, a verificação do fechamento das portas da igreja. Extraordinariamente, percebeu que havia uma luz incomum por baixo das portas. Tenso, resolveu verificar o que se passava. O medo tomou conta do jovem sacerdote, principalmente de encontrar algum tipo de ladrão. Depois, sentiu certo receio dos espíritos, pois, na época, os cadáveres eram sepultados dentro da igreja. A tensão vai crescendo cada vez que o padre adentra mais na igreja. De repente, começa a escutar vozes, ainda que não consiga compreender o teor das conversas. Percebe que a luz e o som têm origem no centro da igreja. Benze-se e adentra no local. Então, encontra uma cena que jamais esquecerá: alguns santos haviam descido de seus nichos para conversar. Suas proporções não mantinham o tamanho escultural: tinham tamanho de homens. São José, São Miguel, São João Batista e São Francisco Sales falavam rodeados pela luz misteriosa que parecia vir de parte alguma. Completamente assustado, o narrador encontra um dos poucos locais escuros e resolve se refugiar ali para escutar mais atentamente o diálogo. Entende, então, que os santos tinham a plena capacidade de adentrar na alma e nos pensamentos dos fiéis. Por isso, São José andava muito descrente dos frequentadores da igreja. São Francisco Sales, por sua vez, contradiz São José ao afirmar que, naquele mesmo dia, teve um bom exemplo da bondade que ainda habita nos homens. Todos os santos, incluindo o narrador espião, resolvem prestar atenção na história. São Francisco Sales diz que um fiel com seu mesmo nome, Sales, apareceu na igreja clamando por uma intervenção na situação de sua mulher. A consorte encontrava-se em um estado de saúde grave, sendo a morte um evento iminente. Acontece que ninguém acredita na tristeza de Sales, poisele só pensava em dinheiro. São Francisco não nega que o fiel fosse avaro e usurário, mas acreditou em seu sofrimento e no amor pela mulher enferma. A primeira prova estava no primeiro pensamento do fiel: caso curasse a sua esposa, São Francisco Sales receberia uma perna de cera. No entanto, a promessa não era nunca concretizada, pois, no momento de efetuá-la, a imagem da perna surgia ao lado da quantia de dinheiro que seria gasto nessa recompensa. A primeira tentativa de pedido de intervenção a São Francisco Sales não saiu da boca do marido sofrido pavor de pensar no valor de uma mísera perna de cera. Porém, a ideia de que sua mulher poderia estar naquele momento expirando de vez, 12 fez o homem se precipitar: “que lhe salvasse a mulher, e prometia-me trezentos, - não menos, - trezentos padre-nossos e trezentas ave-marias”. De repente, subiu o número para quinhentos. Um pouco depois, chegou a mil padre-nossos e mil ave- marias. O que mais chamou atenção nessa promessa é que ele via a imagem da quantia em algarismos e repetia sem cessar: “mil, mil, mil, mil...”. Francisco Sales, então, diz aos santos que eles estão autorizados a rir. Consequentemente todos acabam a história sorrindo. O narrador, por sua vez, no fim da história, acabou caindo no chão e acordando somente no outro dia para abrir novamente a igreja. UNS BRAÇOS Narrado em 3ª pessoa, o conto aborda a história envolvendo Inácio, um menino de 15 anos, que o pai havia colocado para ser auxiliar do autoritário solicitador Borges com a esperança de um dia ver o filho trabalhando no foro. Nos intervalos para as refeições, Inácio se juntava ao patrão e sua esposa, Dona Severina. À noite, dormia em um quarto na casa do patrão. Desde sempre, o menino não conseguia deixar de notar que Dona Severina trazia sempre os braços à mostra, o que causava certos pensamentos eróticos em Inácio. Inácio tomava cuidado para não se mostrar interessado por aqueles braços, pois, além de não querer ser desrespeitoso com Dona Severina, temia o raivoso patrão. No entanto, certa feita, Dona Severina notou os olhares do auxiliar de seu marido. Primeiramente, resolveu tratar de forma ainda mais fria o garoto, mas depois passou a ter umas atitudes mais atenciosas e meigas, causando certa agitação em Inácio: não conseguia mais tirar aquela senhora de seu pensamento. Incomodado com a situação, Inácio resolveu ir embora da casa de Borges pra nunca mais voltar, mas não conseguia cumprir com esse desejo. Em uma tarde de domingo, Inácio, cansado da vida, resolveu esticar-se na rede e acabou dormindo. Dona Severina foi até o quarto do rapaz e, vendo o menino dormir, sentiu uma excitação. Encantada, fitou Inácio por um certo tempo. O narrador, então, lamenta o fato de que não possamos ver os sonhos uns dos outros, pois, se isso fosse possível, Dona Severina teria visto que o menino sonhava exatamente com a imagem dela vendo-o dormir ali na rede, pegando as mãos jovens do rapaz e colocando em seu peito até que tocasse sua boca nos lábios de Inácio em um beijo proibido. O sonho de Inácio, de forma extraordinária, havia coincidido com a realidade. Dona Severina, depois do ocorrido, transformou-se em uma pessoa preocupada. Temia que o menino não estivesse dormindo quando resolveu lhe beijar. À noite, quando Inácio acordou, juntou-se ao casal para jantar e reparou que, pela primeira vez, Dona Severina usava um xale cobrindo os braços. O clima da casa estava diferente, alguma coisa havia acontecido naquele domingo, mas o garoto não sabia dizer. No sábado seguinte, Borges chamou Inácio e comunicou que ele estava 13 despedido. Ainda que não fique evidente, tudo indica que seu desligamento do serviço foi realizado por influência de Dona Severina. UM HOMEM CÉLEBRE Narrado em 3ª pessoa, o conto aborda a história de Pestana, um pianista compositor de músicas de ritmos populares. Por onde passa, Pestana se sente incomodado ao ser aclamado por fãs, escutar pessoas assoviando a melodia de suas quadrilhas, polcas etc. As pinturas que decoram a casa de Pestana, em parte, explicam a irritabilidade com seu sucesso como músico popular: pelas paredes, há retratos de Beethoven, Mozart, Bach, Schumann, entre outros. Por isso, podemos concluir que, embora seja um aclamado compositor de música popular, seu apreço se dá pela música erudita. Seu sonho é compor sonatas, suítes, tocatas ou algo parecido, que tenha valor fora do âmbito popular. Para isso, insiste diariamente em sentar-se ao piano à espera da criatividade, mas sem sucesso. Em contraste à resistência criativa para as músicas consideradas elevadas por ele, quando Pestana se sentava ao piano, as polcas, como Senhora Dona, Guarde o Seu Balaio, título dado pelo editor de todas suas polcas, saiam facilmente e logo faziam um tremendo sucesso. Pestana não conseguia ficar por muito tempo contente, logo pegava um ódio de si mesmo, da sua falta de capacidade para a arte clássica: “- As polcas que vão para o inferno fazer dançar o diabo, disse ele um dia, de madrugada, ao deitar-se”. Certo feita, resolveu se casar com Maria, uma viúva de vinte e sete anos, que era cantora e tísica. Por trás desse seu ato, estava a crença de que seu celibato era o responsável pela falta de capacidade criativa para as “obras sérias” Logo nos primeiros dias após o casamento, Pestana resolveu compor um noturno que se intitularia Ave, Maria. O processo de criação é acompanhado pela esposa, que, chamada pelo marido para ouvir sua composição, indaga: “- Acaba, disse Maria, não é Chopin?”. Pestana havia sido traído pela memória. Acreditou, como em outras vezes, ter criado algo que já existia. Triste, pensa até mesmo em cometer suicídio. No entanto, desistiu da morte e continuou, escondido da mulher, compondo polcas publicadas, agora, com pseudônimos, enquanto as tosses de Maria pioravam. Em uma noite de natal, Maria morre nos braços do marido desesperado. A dor aumenta, pois, na casa ao lado, uma festa acontecia ao som das polcas de Pestana. Agora viúvo, Pestana toma uma decisão: iria compor um Réquiem no primeiro aniversário de morte de Maria e depois abandonaria a “arte assassina e surda”. A missão não é realizada, mesmo que sua dedicação tenha sido descomunal. Dois anos depois da morte da esposa, o editor de suas polcas resolve fazer um novo contrato para que o compositor retome suas criações: vinte polcas durante doze meses, mas com uma porcentagem maior na venda. Pestana aceita e se consolida como o maior compositor de polcas, “mas o primeiro lugar da aldeia não contentava 14 a este César, que continuava a preferir-lhe, não o segundo, mas o centésimo em Roma”. No mesmo ano que assinou o contrato com o editor, Pestana contraiu uma febre, que, aos poucos, foi evoluindo. O editor, que não sabia da doença, certa feita, foi à casa do músico cobrar-lhe o trabalho firmado. Quando percebeu a situação, não quis cobrar música alguma, mas Pestana insistiu e soube do que se tratava. O editor estava ali para pedir uma polca em alusão à subida dos conservadores ao poder. Pestana, que nunca fizera uma única brincadeira em sua vida, disparou de forma sarcástica: “Olhe, como é provável que eu morra por estes dias, faço-lhe logo duas polcas; a outra servirá para quando subirem os liberais”. Na madrugada seguinte, Pestana, que viu durante a vida inteira sua ambição perder para a vocação, acabou falecendo. A DESEJADA DAS GENTES A narração apresenta estrutura de diálogo, recorrente em alguns contos do autor. Em A Desejada das Gentes, um conselheiro conta a um amigo a sua história com uma moça de nome Quintília. Inicia lembrando que a moça morreu em 1855 quando tinha cerca de trinta anos. Quintília era uma mulher que chamava muita atenção pela beleza, riqueza e elegância. No entanto, era considerada uma fortaleza, pois muitos apaixonados tentaram cortejá-la, mas sem sucesso. Foi então que João Nóbrega, um amigo do conselheiro, propôsuma tentativa de assalto à fortaleza. Iniciaram de forma amigável a experiência de conquistar Quintília, mas, enfeitiçados pelo poder da moça, acabaram brigando um mês depois. Logo depois da briga, Nóbrega partiu a trabalho para os sertões da Bahia, onde morreu como um Werther, completamente apaixonado. O conselheiro seguiu suas tentativas de conquista, mas sentia muito ciúmes de tantos pretendentes. Ainda assim, sentia que ela lhe dava preferência. Suas investidas não pareciam vãs, pois, volta e meia, a moça parecia amolecer o coração diante do conselheiro. Quando um tio muito querido de Quintília faleceu, o conselheiro viu no triste ocorrido muitas semelhanças com a morte de seu pai e, por isso, padeceu muito. Quintília notou e entendeu o duplo motivo da tristeza do conselheiro. Após esse episódio, acreditando que o momento havia chegado, o conselheiro fez o pedido de casamento a Quintília. A resposta da moça foi negativa, pois não via motivos para modificar a relação que era amizade, além de se sentir velha. A conversa prosseguiu e o conselheiro resolveu contar da sua briga com seu falecido amigo Nóbrega. Quintília escutou tudo e lamentou o ocorrido, dizendo não ter valido a pena o conflito. Tempos depois, o conselheiro recebeu uma carta de Quintília, querendo reestabelecer o contato. A esperança de casar com a moça surgiu novamente no coração do conselheiro. Eis que Quintília adoeceu e teve a companhia do fiel conselheiro sempre ao lado de seu leito. A intimidade ia crescendo cada vez mais 15 justamente nesse momento dramático. Certa da sua morte, Quintília resolveu ceder e informou o conselheiro que aceitava o casamento. Dois dias depois, logo após o casamento no leito de morte, Quintília faleceu. O primeiro abraço de casados ocorreu em um momento em que a moça já havia se tornado um cadáver. Por fim, o conselheiro conclui que, muito provavelmente, Quintília tinha uma aversão física ao casamento, pois isso se casou meio defunta. A CAUSA SECRETA Narrado em 3ª pessoa, a história aborda a relação de um jovem médico chamado Garcia com um casal composto por Fortunato e Maria Luísa. Quando ainda era estudante de Medicina, Garcia viu seu vizinho, Gouvêa, que havia sido esfaqueado por capoeiras, ser auxiliado por um capitalista benevolente. Esse capitalista era Fortunato, que se prestou a levar amparar Gouvêa, levá-lo pra casa e chamar um médico. Após o ocorrido, Garcia, que já conhecia Fortunato de vista, ficou extremamente curioso para entender melhor quem era Fortunato. Esse interesse se deu porque seu vizinho Gouvêa, após melhorar, dirigiu-se a Catumbi para agradecer Fortunato. O capitalista recebeu Gouvêa e ouviu com ar de entediado. Por fim, para mortificar de vez Gouvêa, ainda disse sorrindo: “- Cuidado com os capoeiras”. Tempos depois, já formado, Garcia encontrou Fortunato na rua. Os dois conversaram brevemente. Por fim, Fortunato convidou o mais novo médico a jantar em sua casa. No dia combinado, Garcia conheceu Maria Luísa, esposa de Fortunato. A diferença de personalidade entre marido e esposa, chamou a atenção de Fortunato: enquanto o capitalista apresentava um ar sempre frio, Maria Luísa era delicada e bela. Nessa mesma noite, Fortunato propôs abrir uma casa de saúde. Garcia, sem saber como agir, acabou recusando, mas Fortunato tinha o traço da obsessão em sua personalidade e acabou investindo nessa empreitada. Maria Luísa, uma mulher frágil e nervosa, não pode esconder o descontentamento de saber que o marido estaria, a partir daquele momento, em contato direto com enfermidades humanas. Fortunato passou a ter uma dedicação extraordinária com os enfermos de sua clínica. Maria Luísa, por sua vez, passou a desenvolver um aspecto mais triste e enfermiço. Garcia, desde que iniciou os trabalhos na clínica de Fortunato, tornou-se um frequentador assíduo da casa do casal. Dessa forma, apaixonou-se de forma profunda e calada por Maria Luísa. Fortunato não percebeu nada disso. Sua obsessão em estudar doenças e tratamentos, em uma tentativa de auxiliar os médicos, fez com que sua esposa fosse se tornando cada vez mais frágil. Inclusive, certa feita, Fortunato iniciou estudos de anatomia e passou a envenenar cães e gatos. Maria Luísa pediu para Garcia interceder. Prontamente, os estudos cessaram. Certa noite, Garcia foi jantar com o casal. Assim que chegou, viu Maria Luísa extremamente nervosa fugindo do gabinete de Fortunato. Garcia se aproximou do local e assistiu estarrecido Fortunato torturar um rato em cima de uma espiriteira. Seu sadismo era visível em seu rosto cada vez que cortava uma a uma as patas do 16 animal, o focinho, até que, finalmente, acabou com aquele horror ao lançar o roedor dentro das chamas. Garcia concluiu prontamente que Fortunato castigava pelo prazer perverso de ver a dor alheia. A cena pavorosa tocou profundamente a alma de Maria Luísa, que havia adquirido uma tosse frequente. Garcia, ao assistir o padecimento de Maria Luísa, concluiu que sua paixão platônica estava desenvolvendo alguma doença pela convivência com o marido. Logo veio um diagnóstico: Maria Luísa estava com uma doença tísica. O empenho do marido para reverter o quadro foi em vão. Maria Luísa acabou falecendo rapidamente. No velório, Garcia, em um determinado momento, ficou sozinho com o cadáver, enquanto Fortunato descansava em cômodo ao lado. Quando acordou, dirigiu-se novamente à sala, mas estacou na porta, pois deparou-se com Garcia contemplando profundamente o rosto de Maria Luísa. Calado viu mais: o médico, extremamente emocionado, entre lágrimas, tirou o véu da defunta e beijou-lhe a testa. Fortunato pensou em um caso adúltero em que ele seria a vítima, mas, mesmo assim, não se indignou: “à porta, onde ficara, saboreou tranquilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa”. TRIO EM LÁ MENOR O conto presente é narrado em 3ª pessoa e é dividido em quatro movimentos musicais. A primeira parte chama-se Adagio Cantabile (referência a um andamento musical lento) e apresenta Maria Regina, uma jovem moça que morava com sua avó e era considerada esquisita e desmiolada pelas amigas de colégio. Sua característica principal era ser sensual e cobiçosa. A parte inicial do conto foca justamente nas lembranças da jovem acerca da visita de Maciel (27 anos) e Miranda (50 anos). Cada um tinha suas qualidades segundo Maria Regina. Ambos cortejavam a moça. Em meio à conversação, Maria Regina executou uma sonata, que fez a avó cochilar. A segunda parte intitula-se Allegro Ma Non Troppo (referência a um movimento musical razoavelmente mais rápido). Nela, Maria Regina e sua avó, que haviam visitado uma amiga na Tijuca, retornavam para casa quando uma criança quase foi atropelada pelos cavalos da carruagem que as conduzia. A sorte dessa criança é que havia um herói por perto, que se atirou, arriscando sua vida, para salvá- la. Esse herói era Maciel. Maria Regina e sua avó admiraram muito a atitude do moço e o convidaram a jantar. Na janta, em meio às falas de admiração tanto da avó como da neta, Maria Regina olhava apaixonada para Maciel. A terceira parte leva o título de Allegro Appassionato (referência a um movimento musical leve e ligeiro). Aqui, o jantar com Maciel é pormenorizado. As conversas banais entre o mancebo e a avó de Maria Regina fluem naturalmente até que Maciel resolve ir embora. Quando está saindo, chega Miranda. Nota-se a diferença de idade entre ambos. Miranda é marcado por rugas e por uma consequente expressão cansada. Ainda assim, combina muito com Maria Regina, pois 17 ama música. Inclusive, Maria Regina encerra a noite sentada ao piano para executar uma sonata, um sonífero para a avó. A quarta e última parte chama-se Minueto (referência a esse tipo de dança graciosa, como a valsa, de compasso ternário). Aos poucos, Maciel e Miranda passaram a se odiar. A falta de decisão de Maria Regina levou os dois namorados aodiarem também a situação. Assim, aos poucos foram abandonando Maria Regina. No dia em que percebeu que havia perdido os dois, a jovem havia lido que existem estrelas duplas, que parecem apenas uma. Como não viu nenhuma no céu nublado da noite, pôs-se a pensar nessas duas estrelas. Ficou encantada com elas separadas, mas ainda mais com elas juntas formando um único astro. Dormiu pensando nessas estrelas e sonhou que morria. No sonho, uma voz surgia dizendo: “- É a tua pena, alma curiosa de perfeição, a tua pena é oscilar por toda a eternidade entre dois astros incompletos, ao som dessa velha sonata do absoluto: lá, lá, lá...”. ADÃO E EVA A história é narrada em 3ª pessoa e se passa na Bahia do século XVIII. Uma senhora de engenho, Dona Leonor, anuncia à mesa, em meio aos convidados, a um certo doce. Um homem guloso quer logo saber do que se trata. Assim, inicia-se uma discussão acerca da responsabilidade da perda do paraíso. Quem seria o culpado: Adão ou Eva? Todos davam sua opinião. As mulheres acusavam Adão e os homens Eva. O juiz de fora, Sr. Veloso, e Frei Bento eram os únicos que se mantinham quietos na discussão. Após um silêncio, o juiz de fora resolve falar. Inicia dizendo que sabe a versão original. Começa, para espanto de todos, dizendo que fora o Diabo quem criou o mundo. Deus, nesse caso, tem apenas o trabalho de atenuar a obra. Segue exemplificando: no primeiro dia, o Tinhoso criou as trevas e Deus a luz. O sexto dia apresenta uma informação muito importante para a tese do Sr. Veloso: no sexto dia foi criado o homem, mas somente com maus instintos. Deus, então, infundiu-lhes a alma. Então o senhor informou que ali viveriam, podendo comer todos os frutos, menos o de determinada árvore, que á da ciência do Bem e do Mal. No Jardim das Delícias, Adão e Eva contemplavam tudo com muito prazer expressando encanto e prazer. Essa atmosfera era avessa às ideias do Diabo. Foi por isso que chamou uma serpente para ser sua embaixatriz. O diabo, então, instrui a serpente a ir até Adão e Eva e fazê-los comer do fruto proibido. A serpente já mostrara ódio mortal ao casal, mas gostava ainda menos de Eva. Logo Eva surge e a serpente faz o convite para que ela coma o fruto que lhe dar o segredo da vida. Eva nega, assim como Adão, que chega logo depois. Deus, que via tudo, chama o anjo Gabriel para que desça ao paraíso e traga Adão e Eva para a bem-aventurança eterna após terem frustrado o plano diabólico. Assim, Adão e Eva foram levados à estância eterna. A terra ficara entregue ao reinado da serpente maléfica. Quando Veloso encerrou sua fala, Dona Leonor desdenhou e se 18 dirigiu ao Frei Bento como quem clama por uma intervenção verdadeira em cima de uma mentira. Frei Bento, sorrindo, disse que quem sabia era o juiz. O conto se encerra com Veloso comendo o doce e dizendo que acredita que nada daquilo que disse tenha acontecido. Ainda que, se tivesse acontecido, não estariam todos ali saboreando o delicioso doce de Dona Leonor. O ENFERMEIRO Narrada em 1ª pessoa por Procópio José Gomes Valongo, essa história, segundo o narrador, poderá ser divulgada somente após a sua morte. O ocorrido se deu no ano de 1860 quando o narrador tinha quarenta e dois anos. Morava de favor na casa de um padre de Niterói, antigo colega de colégio. O benefício da morada era retribuído pelo narrador, que copiava os exercícios de teologia do dono da casa. Até que, um dia, chegou uma carta ao padre, questionando se não havia uma pessoa conhecida que pudesse trabalhar como enfermeiro para um tal de Coronel Felisberto. Informado da carta, o narrador, que já andava cansado de citações latinas e fórmulas eclesiásticas, resolveu encarar essa nova aventura. Segundo Valongo, o coronel não lhe tratou mal quando chegou, embora Felisberto tivesse uma má fama: homem insuportável até para os amigos, gastava mais com enfermeiros, que tratava muito mal, do que com remédios. No entanto, as animosidades começaram no oitavo dia. As inúmeras doenças que Felisberto carregava eram desculpa para que tratasse Valongo com humilhação. A gota d’água se deu no dia em que Felisberto jogou em Valongo sua bengala, fazendo com que o narrador da história decidisse ir embora definitivamente do local. No entanto, o coronel, ao receber a informação da partida de Valongo, acabou fazendo-o ficar com argumentos, que, à primeira vista, carregavam um teor cínico. O tempo foi passando e nada se modificou. As agressões continuaram, incluindo um arremesso de moringa no rosto de Valongo. Essa agressão perturbou a razão do narrador, que se jogou contra o coronel doente, lutando e, por fim, matando-o esganado. Quando percebeu que o velho havia falecido, atordoado, saiu do quarto. Esperava que tudo fosse um sonho ou um pesadelo, mas não era. Logo passou a ouvir vozes que lhe chamavam de assassino. Enxergou vultos que pareciam criar uma emboscada para prendê-lo. No dia seguinte, voltou ao quarto do falecido coronel e mandou chamar um homem escravizado para avisar que a morte havia vencido a guerra contra Felisberto. Ficou para todos os preparativos funerários. Auxiliou, observou as pessoas no intuito de capturar algum grau de desconfiança, mas nada encontrou. No dia do enterro, Valongo fechou o caixão com as mãos trêmulas e foi notado por uma pessoa que comentou: “- Coitado do Procópio! Apesar do que padeceu, está muito sentido”. Sete dias após retornar para casa, Valongo recebeu uma carta: fora achado o valioso testamento do coronel, que havia lhe deixado como herdeiro universal. Pensou em recusar, mas não quis levantar suspeitas. Então resolveu que aceitaria, 19 mas doaria, aos poucos, toda a quantia. Antes de buscar a herança, tentou se acertar com a própria consciência, criando justificativas e suposições que lhe isentavam do crime. No local, todos os moradores da região que conheciam o coronel passaram a contar histórias perversas do falecido. De fato, Felisberto era muito malvisto por todos, o que fez Valongo modificar seu estado de espírito. Passou a ter um certo prazer no que fizera e restringiu o plano de doar toda a herança: distribuiu uma pequena parte aos pobres, fez doações a um hospital, mandou levantar um belo túmulo ao coronel e o resto pegou para si. O DIPLOMÁTICO Narrado em 3ª pessoa, a história se inicia na casa de João Viegas em uma noite de São João no ano de 1854 na rua das Mangueiras, zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. João Viegas era escrivão, marido de Dona Adelaide com quem tinha uma filha chamada Joaninha. Toda noite de São João, ele se reunia com pessoas do seu círculo social para comer, beber, brincar e tirar a sorte em um livro adivinhatório. A maioria das sortes tiradas diziam respeito às relações amorosas. Sr. Rangel, conhecido como O Diplomático, era, para sua desilusão, solteiro aos 41 anos. Sonhou acordado inúmeras vezes com seu grande amor, mas nunca fizera nada objetivamente para tê-lo. Era ele quem lia o livro e, como o narrador nos relata, há alguns meses, andava completamente apaixonado por Joaninha, filha de João. Nessa noite, Rangel trazia consigo uma carta de amor para entregar para Joaninha. O tempo foi passando naquela noite e nada da entrega da carta acontecer. Para piorar, um belo rapaz chamado Queirós, empregado da Santa Casa, de mais ou menos vinte e seis anos, passou a roubar a atenção de todos, incluindo de Joaninha. Rangel, enciumado, não conseguiu esconder seu desconforto nem do próprio Queirós. Na ceia, Rangel conseguiu colocar-se em frente a Joaninha, afugentando a imagem de Queirós. A imaginação de Rangel então voou alto: imaginou Joaninha casada com ele, vivendo uma bela vida feliz e abastada. No momento de fazer uma saudação antes do início da comilança, Rangel foi convocado por todos, pois era costume seu falar à beira da mesa saudando à família de João Veiga. No entanto, no momento de falar notou que todos olhavam para ele, menos Joaninha, que desviava os olhospara Queirós. A voz ficou emperrada na garganta e o discurso não saiu grandioso como gostaria. No fim da festa, inicia-se um jogo de cartas. Rangel, que estava muito desanimado e pensando em deixar a festa, é convidado por Joaninha para montarem um par no jogo. Sua animação foi recobrada logo. Ambos, durante o jogo, olhavam as cartas um do outro, cochichavam, trapaceavam. Assim, não aguentando mais, Rangel pegou Joaninha pela cintura e saiu dançando uma valsa apaixonada acompanhados apenas das estrelas. Pena que a valsa era apenas parte da imaginação de Rangel. Logo a festa acabou e ele partiu para casa chorar desgraçado por mais um amor malsucedido. Seis meses depois, ainda teve que assistir ao casamento de Joaninha e 20 Queirós. Nem esse fato fez o diplomático homem mudar suas atitudes. Quando rompeu a Guerra do Paraguai, Rangel pensou em se alistar como voluntário. “Não o fez nunca; mas é certo que ganhou algumas batalhas e acabou brigadeiro”. MARIANA O conto é narrado em 3ª pessoa e é dividido em três capítulos. O primeiro narra o retorno de Evaristo ao Brasil em 1889. Dezoito anos antes, ele havia partido pra Europa pra uma breve visita de conhecimento, mas, em Paris, acabou ficando. Quando o Brasil se torna uma república, ele resolve voltar pra presenciar as mudanças ocorridas, mas algo a mais lhe despontava curiosidade: “Que será feito de Mariana?”. Mariana tinha sido um amor seu, que ele havia deixado no ano de 1872. Descobre que ela se localizava no Engenho Velho, região entre a zona sul e oeste da cidade do Rio de Janeiro. Há meses que não era vista por causa de uma doença letal que seu marido enfrentava. No segundo capítulo, Evaristo vai à casa de Mariana. É encaminhado pelo criado da moça à sala para que aguarde a chagada da antiga amada. Ali, fita um retrato de Mariana, que logo se materializa em sua frente. O reencontro é emotivamente intenso. Mesmo após dezoito anos, ambos ainda se amam. No entanto, Mariana é casada com Xavier e a comunhão desse casal foi conquistada com muita luta devido à resistência dos pais da moça. No início, Mariana e Xavier se amaram loucamente, mas logo a apatia tomou conta da relação. Foi nesse momento que Evaristo surgiu e roubou o coração da moça para depois partir para a Europa. Agora, de volta ao Brasil, Xavier e Mariana fazem juras de amor. A moça nega amar o marido e promete amar Evaristo. Os dois se beijam, olham-se profundamente, trocam frases de amor, mas são interrompidos pelo criado de Mariana, que convidava alguém para adentrar na casa. No terceiro e último capítulo, entende-se que o reencontro era somente fruto da imaginação de Evaristo, pois, naquele exato momento, o criado convidava Evaristo para adentrar no quarto de Xavier, que estava, de fato, à beira da morte. Rapidamente, a memória de seu caso com Mariana veio à mente. Os seus ciúmes de Xavier, os encontros clandestinos, a descoberta do caso pela mãe da moça, a separação de ambos, seguida de uma tentativa de suicídio de Mariana. As lembranças são deixadas pra trás e a realidade do momento apresenta, ao pé do leito de morte de Xavier, Mariana, que mal interage com Evaristo. O semblante da moça é de profunda tristeza. Entende que o amor de Mariana por ele acabara, então retira- se do local e retorna uma semana depois em tempo de ver a morte de Xavier. Após o fatídico desfecho de seu antigo rival, Evaristo tenta fazer visitas à moça, que se nega a receber qualquer pessoa devido à tristeza da morte do marido. Por fim, menos de um mês depois, Evaristo deixa novamente o Brasil e retorna à capital francesa. 21 CONTO DE ESCOLA Em uma segunda-feira de maio de 1840, o narrado da história, Pilar, um jovem estudante, que reflete sobre o local que gostaria de brincar pela manhã. Após breve ponderação, desiste e se dirige para a escola onde estudava. O motivo da desistência se deu porque Pilar havia levado uma surra após o pai, um velho empregado do Arsenal de Guerras, descobrir que, na semana anterior, ele havia matado aula duas vezes para se divertir na rua. O sonho paterno era ver Pilar bemsucedido no comércio, por isso corrigia violentamente as peraltices do filho. Na escola, o narrador imagina os amigos na rua e se arrepende de ter ido à aula. No entanto, algo fora da ordem corriqueira ocorreria naquele dia. Durante aula do mestre Policarpo, seu colega Raimundo, que também era filho desse professor, lhe oferece uma moeda de prata em troca de lições sobre sintaxe. Policarpo era um professor rude, tendo sempre a palmatória à mão para repreender alunos considerados malcriados. Imagina-se, portanto, o que Raimundo não sofria nas mãos do pai e mestre malvado. Pilar aceitou a moeda pelos ensinamentos. No entanto, havia um obstáculo: Curvelo, mais velho e conhecido pelas maldades. Enquanto Pilar escrevia em bilhetes as explicações sobre as lições, Curvelo observava a dupla de forma maligna. Inesperadamente, o professor Policarpo invocou o nome de Pilar, que erguei a cabeça e viu Curvelo ao pé de sua mesa. Chamado pelo professor, o narrador foi interrogado em frente a todos os alunos: “- Então o senhor recebe dinheiro para ensinar as lições aos outros?”. Policarpo lançou uma série de impropérios, jogou a moeda pela janela e logo chamou seu filho para cumprir o terrível castigo junto a Pilar em frente a toda a turma: 12 bolos na palma da mão. O castigo se deu e a raiva de Pilar floresceu grandiosamente. Planejou, na saída da aula, castigar Curvelo. No entanto, o delator foi mais esperto e conseguiu desaparecer da visão de Pilar. Em casa, sonhou com a moedinha de prata. Foi até à escola no outro dia com intenção de encontrá-la na rua. No entanto, na rua, ouviu um tambor marcial e logo viu soldados marchando. Pilar sentiu uma comichão nos pés e inconscientemente entrou a marchar junto aos soldados, faltando mais uma vez à aula. Voltou pra casa sem moeda nem ressentimentos. “E contudo, a pratinha era bonita e foram eles, Raimundo e Curvelo, que me deram o primeiro conhecimento, um da corrupção, outro da delação, mas o diabo do tambor”. UM APÓLOGO Narrado em 3ª pessoa, o apólogo, história moral com personagens inanimados, centra-se em um diálogo entre uma agulha e um novelo de linha. A discussão se dá através de acusações vaidosas: quem, de fato, cose? A agulha que fura o pano ou a linha que une os pedaços do tecido? Essa discussão se dava na casa de uma baronesa. Logo a costureira dos nobres chegou ao local e iniciou o trabalho 22 com os dois objetos orgulhosos. O vestido foi sendo cosido em silêncio, pois o novelo de linha havia parado de responder às provocações da agulha. Após o término do vestido, a costureira guardou os utensílios de trabalhos. Mas, antes disso, a linha trabalhada no vestido, cheia de si, disparou para o agulha: “Ora, agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância?”. Não houve resposta, mas um alfinete, de cabeça grande, murmurou à agulha: “Anda, aprende, tola”. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico”. D. PAULA Narrado em 3ª pessoa, o conto traz a personagem central, D. Paula, que vivia no alto da Tijuca e descia raramente para visitar amigos e familiares. Em uma dessas vezes, mais precisamente em maio de 1882, visitou a irmã e, logo depois, se dirigiu à casa da sobrinha. Chegando no local, Venancinha chorava de soluçar, pois ela e seu marido, Conrado, havia brigado feio. Na noite anterior, em um baile, Venancinha dançou muito alegre com um homem que o marido time ciúmes doentios. Foi o bastante para, em casa, uma série de impropérios serem desferidos de ambas as partes. D. Paula, informada do caso, resolve sair e ir até o escritório de Conrado para acalmar a situação. Na conversa com Conrado, D. Paula descobre que esse não erao primeiro alvoroço por causa do homem que alimentava ciúmes no marido da sobrinha. Várias brigas já haviam se dado e Conrado tinha certeza que Venancinha e o tal homem eram namorados. D. Paula foi acalmando a fera aos poucos até que resolveu propor um acordo numa tentativa de regeneração da relação: levaria Venancinha consigo por um ou dois meses. Nesse tempo, daria os melhores conselhos para a sobrinha. Conrado aceita, não sem antes revelar o nome do homem que supostamente cobiçava e era cobiçado por Venancinha: Vasco Maria Portela. D. Paula, quando escuta esse nome, empalidece, pois conhecera o pai desse rapaz. Vasco Maria Portela, o velho, fora um amor arrebatador de D. Paula. Ambos se amaram clandestinamente, distante dos olhos do falecido marido de D. Paula. As memórias dos bailes, dos beijos escondidos, dos afagos passam a vir na cabeça da tia de Venancinha. Essas lembranças atrapalhavam seu projeto de reparação da sobrinha, pois, como comenta o narrador: “na constância do pecado é que se pode desejar que os outros pequem também, para descer de companhia ao purgatório”. No entanto, D. Paula recompõe-se e passa a trabalhar em cima da reestruturação de Venancinha e Conrado. Certo dia, no portão da chácara, quando tia e sobrinha estavam prontas para um passeio, Venancinha avistou um rapaz, deu um grito e correu para se esconder. D. Paula entendeu tudo e resolveu conferir as feições do moço: elegante, ombros largos, olhos redondos e profundos, exatamente como o pai. À noite, tocada pela emoção, 23 Venancinha resolveu contar o que aconteceu com Vasco Maria Portela. Então, D. Paula escuta a sobrinha falar de encantamentos, olhares ardentes, encontros e declarações de amor. As palavras da sobrinha acendiam a memória de um passado ardente vivido pela tia. Por fim, D. Paula torna-se séria e fala para Venancinha sobre castidade, respeito público, amor ao marido, entre outras sugestões de ajustes morais. Culpada, Venancinha escuta tudo melancolicamente e se retira pro quarto. D. Paula fica ali saboreando o chá e lembrando do passado secreto e prazeroso. VIVER! O conto é apresentado por uma voz em 3ª pessoa, mas é sustentado quase que inteiramente no formato de diálogo. A conversação se dá entre dois personagens mitológicos: Ahasverus, o judeu errante, e Prometeu, o titã. No fim dos tempos, Ahasverus, sentado em uma rocha, acredita ser o último homem vivo na terra, permitindo-se, por isso, ir de encontra à morte. No entanto, escuta a voz de Prometeu, que quer saber o motivo da pressa para Ahasverus acabar com sua vida. O judeu diz seu nome e explica que vivia em Jerusalém na época de Cristo, que, quando estava prestes a ser crucificado, passou em frente à sua casa, momento em que afrouxou o passo. Ahasverus, então, empurrou Jesus e bradou-lhe que permanecesse andando até a colina onde seria crucificado. Por isso, uma voz dos céus anunciou que aquele ato lhe renderia a eterna penitência de permanecer andando até o fim dos tempos. Prometeu acha grave a culpa de Ahasverus, mas crê que a pena foi benéfica, pois, por mais que tenha visto muito sofrimento, Ahasverus viveu infinitos capítulos belos da história. O judeu errante trata com indiferença as palavras de Prometeu acusando-o de não saber nada da vida humana, pois, ao viver a história da humanidade, os acontecimentos acabaram por cansá-lo. O tédio e a ociosidade são seus maiores carmas. Prometeu, então, mais uma vez, diz ter sido leve o seu castigo, pois ele, foi condenado por Júpiter a ficar acorrentado contra uma rocha. Para piorar, uma águia uma águia, todos os dias, aparece para comer parte do seu fígado sem nunca o consumir por completo. Tudo isso apenas porque criou a existência humana e, depois, roubou o fogo dos deuses e para dar aos homens. O judeu errante, indignado, diz que Prometeu deveria estar cumprindo até hoje o castigo, pois foi o criador dos homens. Por mais que careça de piedade, segundo Ahasverus, Prometeu foi o culpado pela existência humana, e, consequentemente, da sua desgraçada penitência de ter que viver caminhando até o fim dos tempos. Ahaverus descobre que Hércules havia soltado os grilhões que prendiam Prometeu à rocha. Então, num ato de ódio, resolve prender novamente o titã. Prometeu deixa-se prender, mas tenta dizer algumas frases que Ahasverus não compreende direito. Quando o judeu vingativo termina o trabalho, Prometeu diz que tem o cargo de escolher quem será o homem que fará o elo entre o divino e o humano, pois uma 24 nova raça povoará a terra e há necessidade de um representante. Prometeu, após essa breve explicação, diz que o escolhido é Ahasverus para ser o rei, o governante dos homens que irão povoar novamente a terra. Ahasverus, arrependido, passa desata as correntes de Prometeu, que, enquanto isso, vai explicando ao pobre errante quais serão suas missões como governante dos novos homens. Extasiado, Ahasverus vê-se recompensado por todo seu sofrimento e pede para que Prometeu o siga falando sobre seu futuro reinado. Enquanto sonha, duas águias se aproximam. Uma delas, diz que Ahasverus está morrendo e ainda sonha com a vida. A outra águia responde que ele não odiou a vida, senão porque a amava muito. O CÔNEGO OU METAFÍSICA DO ESTILO Narrado em 3ª pessoa, a narrativa concentra-se em Cônego Matias, quarenta anos de idade, pregador efetivo. A história começa quando uma festa religiosa está próxima e os organizadores encomendam a Matias um sermão. A princípio o cônego nega, mas devido às insistências, acaba aceitando. Os festeiros, então, mandam avisar nos jornais que o sermão estava na mão de um dos maiores ornamentos do clero brasileiro. Cônego Matias ao ver a expectativa, ficou irritado e passou a trabalhar em cima do sermão. Primeiro com impaciência, mas logo com amor. O problema se dá quando o cônego escreveu um adjetivo e apagou. Escreveu outro e apagou novamente. As tentativas de criar um adjetivo para complementar um substantivo vão se sucedendo, por isso, o narrador convida a nós leitores para que adentramos na cabeça de Matias. No cérebro do cônego, o narrador nos apresenta uma grande descoberta: a divisão dos vocábulos, dentro da cabeça, faz-se por motivo de diferença sexual. Ou seja, as palavras se aproximam por atração, casando-se. Os adjetivos ficam em um hemisfério, enquanto os substantivos em outro. O substantivo, então, é batizado de Sílvio, enquanto o adjetivo de Sílvia. O amor entre ambos é predestinado, mas é necessário certo esforço do cônego para que eles se unam. Após reflexões, tentativas e descansos, Cônego Matias, após ir até a janela espairecer, senta-se novamente para continuar as tentativas. Sílvio e Sílvia estão muito próximos e, enfim, ofegantes, encontram-se em um abraço de amor. Assim, a pena completa o substantivo com o adjetivo. Sílvio e Sílvio poderão ir ao prelo juntinhos no momento da pregação. Isso se o cônego conseguir concluir o sermão.