Prévia do material em texto
AULA 5 NEUROCIÊNCIA, GESTÃO ESTRATÉGICA E INOVAÇÃO Profª Anelise Jensen Prof. Achiles Batista Ferreira Junior 2 TEMA 1 – NEUROCIÊNCIA APLICADA AOS PREÇOS Os estudos da neurociência têm grande relação com os principais elementos e as aplicações voltadas ao composto mercadológico. Nesta aula, vamos identificar e conhecer aspectos relacionados ao valor da experiência na promoção das marcas, assim como no desenvolvimento de produtos e marcas que chamem a atenção e sejam interessantes à mente do consumidor. Vamos desvendar também as diferenças existentes entre o cérebro masculino e feminino, comentando a importância de realizar uma segmentação adequada a cada perfil de público. Com isso, chegaremos até o tema das tendências, apresentando os principais conceitos do assunto e distinguindo as formas e metodologias utilizadas pela neurociência para compreender e antecipar os futuros. A determinação de preços para a gestão estratégica de uma empresa está diretamente relacionada a aspectos como vendas e, consequentemente, lucros que uma organização pode obter. Esta tarefa é uma das principais atividades da área de marketing, que também define estratégias ligadas à promoção, à praça e aos produtos (formando o composto de marketing ou 4 P’s). No que se refere à política de preços de uma empresa, o ajuste adequado do preço às ofertas da marca pode facilitar o processo de compra. É nesta perspectiva que as organizações devem aprender a vender o preço dos produtos (Rodrigues, 2015). Ou seja, é preciso apresentar o custo de formas atrativas ao consumidor, por meio de elementos com as quais a mente também possa se identificar. Deve-se entender, ainda, que há um forte componente subjetivo em tudo isso, pois cada pessoa fará uma leitura diferente e única daquilo que considera caro ou barato em um produto, assim como daquilo que estará disposta a pagar em uma aquisição. Quando o nosso cérebro se depara com algo que, em nossa opinião, tem um preço muito alto, imediatamente, do ponto de vista dos estudos da neurociência, somos remetidos à sensação e à percepção de perda e desvantagem, o que pode afastar os consumidores e impedir as vendas. Da mesma forma, mas em direção contrária, ao visualizar um preço que consideramos baixo, justo ou adequado, nossa mente tem a impressão de 3 estarmos diante de um excelente negócio, ativando áreas ligadas a sensações de prazer e recompensas. Nesse sentido, para a neurociência, temos que: Figura 1 – Impressões de custo Fonte: Adaptado de Rodrigues, 2015, p. 240. Esta representação indica a chamada teoria da prospecção, de Kahnemann e Tversky, segundo a qual os consumidores têm reações mais fortes diante de aumentos de preços do que quando os preços caem (Rodrigues, 2015). É neste contexto que se enquadram as estratégias pricing, que nada mais são do que uma adaptação dos preços ao perfil de consumidor e condições de mercado. Esta flexibilidade nas estratégias de preço acata uma tendência de mercado que busca atender às demandas particulares dos consumidores, já que, hoje em dia, uma empresa não consegue comercializar um produto se o consumidor não precisar ou não se sentir motivado para a compra. Por isso, Ferris (2019, web) considera que o pricing é “fundamental para o sucesso de uma empresa”. Em geral, as decisões relativas a preços são determinadas tendo como base os custos e a concorrência (Braidot apud Rodrigues, 2015), mas ignorando fatores importantes para a neurociência, como a disposição para a compra e o entendimento das comparações que o nosso cérebro faz. Contudo, para Braidot apud Rodrigues (2015, p. 238), as estratégias de preço devem considerar que: • não haverá efetividade em ações que desconhecem os mecanismos cerebrais determinantes da percepção dos consumidores quanto aos preços praticados; • cada consumidor terá uma percepção única acerca da relação preço x valor; • se o consumidor entender que o preço pedido em um produto não agrega valor correspondente, provavelmente não fará a compra. CRENÇA DA RECOMPENSA PERDA DO PAGAMENTO PRAZER ESPERADO 4 É por isso que o conceito de neuropricing se torna decisivo, ao ajudar as empresas a entender a mente dos consumidores, para então elaborar estratégias de preços que sejam de fácil assimilação para o consumidor. Muitas vezes, o consumidor pode estar disposto a pagar até mais do que a empresa cobra pelo produto, mas as empresas desconhecem esse fato. Assim, por meio de varreduras feitas com técnicas como o EEG (eletroencelografia), é possível prever comportamentos com maior precisão, que podem ser mantidos racionalmente ocultos em abordagens de pesquisa tradicionais. Um experimento que exemplifica esta técnica foi conduzido em 2013, na Universidade de Ciências Aplicadas de Munique, Alemanha. O objetivo do estudo era descobrir o preço que os estudantes estavam dispostos a pagar por uma xícara de latte machiatto (um tipo de café) nas máquinas de vendas automática do local. Figura 2 – Latte Machiatto Crédito: Chaithawat Samdaengphai /Shutterstock. Uma equipe montou uma nova máquina de café no campus da universidade, na qual os preços variavam de 0,05 a 4,65 (em euros). Os 35 participantes responderam, em questionários, quanto pagariam pelo produto, e em seguida, sua atividade cerebral foi monitorada via EEG (eletroencelograma). Foram geradas, então, duas previsões: uma com base nos questionários e outra com base nas medições cerebrais, obtendo resultados distintos entre si. A conclusão dos pesquisadores foi de que a avaliação realizada por meio das medições cerebrais foi mais precisa para apontar a real disposição de pagamento dos compradores, entendendo que conhecer tal disposição contribuiu para aumentar a lucratividade da empresa contratante do estudo (Neuromarketinglabs, 2019). 5 Nas prateleiras dos supermercados, o valor de cada espaço nas gôndolas (que é mais caro ou mais barato em função do quanto chama a atenção do consumidor) também é definido com a ajuda da neurociência. Usando a técnica de eye tracking (que verifica para onde a atenção dos olhos é direcionada nos espaços de compras) na observação de clientes no local, o preço de posicionamento nas prateleiras também pode ser determinado (Digitalgreen, 2018). Verificando a grande aplicabilidade desses conceitos para as organizações, devemos reforçar, conforme menciona Rodrigues (2015, p.238) que “o preço é um estímulo que, ao ser processado no cérebro do consumidor, é imediatamente associado a um conjunto de conceitos que incidem na percepção do valor do produto”. É por esta ideia que alguns consumidores acreditam que um carro de luxo vale todo o preço que está sendo pedido nele; enquanto, para outros, o mesmo carro não dispõe de uma precificação considerada justa ou satisfatória. É, sem dúvida, uma questão de valor. Desta forma, se os estímulos são considerados emocionalmente relevantes, existe um encurtamento mental que direciona o consumidor para aquela compra (Damásio apud Rodrigues, 2015). A. K. Pradeep, um dos mais importantes nomes em neurociência no mundo, criou um método científico para mensurar a percepção dos consumidores, intitulado Deep Subconsciuos Response Test (Teste da Resposta Profunda no Subconsciente), no qual se observava, por exemplo, que produtos com preços muito baixos eram entendidos como produtos sem qualidade (o que não necessariamente seria verdade), ao passo que preços muito altos poderiam deixar o consumidor desconfiado em relação à quantidade de dinheiro pedida (Rodrigues, 2015). É quase certo que isto alguma vez já aconteceu com você... Por tudo isso, as organizações devem absorver que é preciso calibrar adequadamente os preços, de acordo com as diferentes possibilidades de percepção do consumidor. Os recursos da neuroprecificação atuam, nesseaspecto, como suporte e guia na tomada de melhores e mais atualizadas decisões. 6 TEMA 2 – DESENVOLVIMENTO DE PRODUTOS E MARCAS ATRATIVAS Se, hoje, as marcas possuem valores, conceitos e personalidade (persona da marca), entende-se que esta aproximação e identificação com as características humanas demandará, cada vez mais, o estreitamento dos vínculos com o consumidor. Sem dúvida, são grandes desafios para as organizações da atualidade. Em perspectiva, é possível notar que algumas delas têm se saído bem diante das demandas do consumidor, atualizando os próprios setores de inovação e portfólio de produtos; enquanto outras (inclusive as de grande porte), por vezes, têm resistências à mudança ou se veem sem saber direito que caminho seguir. Assim, o estímulo e o desenvolvimento dos relacionamentos serão a chave para que este processo aconteça de maneira natural e, ao mesmo tempo, satisfatória para as partes. Além da interação pessoal, segundo o especialista em neurociência A. K. Pradeep, em entrevista à revista Época Negócios (2017, web), os “consumidores querem a estética e a funcionalidade juntas”. Podemos observar, com base nesta fala, a associação dos aspectos comportamentais com os elementos sensoriais. Nestas condições, a neurociência tem desvendado com maior exatidão o perfil dos consumidores, procurando entender em profundidade as conexões cerebrais, que revelam vontades e necessidades muitas vezes ocultas ou não expressas. Atente-se para a complexidade presente ainda em outros pontos deste cenário: o consumidor deseja conhecer a origem dos produtos que consome, a história da marca, incluindo elementos que possam permitir a personalização de seus produtos e, consequentemente, de suas experiências (Época Negócios, 2017). Estes aspectos, quando em conjunto, expressam uma característica marcante do futuro: a de que as marcas serão relacionais, entendendo, na opinião de Rodrigues (2015, p. 207), que estas marcas precisam “ter os mesmos mecanismos de uma relação entre pares”. Se analisarmos o desenvolvimento de marcas e produtos historicamente, antes da industrialização existia um tratamento individualizado, no qual o fabricante oferecia seus produtos diretamente ao consumidor. Havia, portanto, um relacionamento estabelecido com base no conhecimento do cliente e na confiança entre ambos. Depois disso veio um período no qual a orientação das empresas 7 voltou-se para as massas, objetivando pura e simplesmente vender e lucrar até onde fosse possível (Martins, 2016). Porém, com a ampliação da concorrência, tempos mais tarde, as empresas notaram que apenas vender a todo custo não era mais a opção estratégica mais inteligente, e foi assim, sobretudo a partir dos anos 1980, que as empresas absorveram novamente a necessidade de estabelecer relacionamentos, pois, segundo Martins (2016, web), o “desempenho de uma empresa é o resultado não só das suas capacidades, esforços e recursos mas também da qualidade das relações mantidas com a rede dos seus clientes e parceiros.” Este foi então, um fator que passou a destacar empresas em relação aos concorrentes, gerando vantagem competitiva por meio dos vínculos que eram criados. O desenvolvimento tecnológico, hoje, auxilia (e muito!) as empresas a fazerem isso, ao permitir que diferentes formas de comunicação sejam estabelecidas de maneira impessoal e automatizada. Muitos negócios passaram a ser basicamente virtuais, incluindo bancos, seguros, educação e até mesmo alguns ramos da medicina. Apesar disso, o componente humano ainda é fundamental para as trocas entre empresas e pessoas, fazendo toda a diferença no momento de interações com a marca e negociações junto a vendedores. Nesse sentido, algumas organizações souberam explorar com inteligência as atuais possibilidades do mercado, construindo relacionamentos e marcas fortes. São as chamadas lovemarks, um conjunto de marcas amadas e respeitadas pelos consumidores. Com isso, passa-se de um relacionamento de confiança para um patamar no qual estão presentes o amor, a seletividade e a fidelidade em relação a determinadas marcas. Para Rodrigues (2015, p. 207), uma marca que se enquadra nesta categoria “tem como objetivo primordial estabelecer um elo de ligação duradouro com o consumidor, de forma a envolvê-lo num rol interminável de emoções e sensações positivas que fortaleçam sucessivamente esse vínculo entre marca e consumidor”. Se nós analisarmos o mercado hoje, as relações serão cada vez mais desenvolvidas tendo como base tais características, isso porque o consumidor deseja relações transparentes, em que pague um preço justo pelos produtos e seja tratado com cortesia e respeito. Do ponto de vista da neurociência, a gestão de uma lovemark observa que (Rodrigues, 2015): 8 • a existência de lealdade a marcas é revelada (nas técnicas de neuroimagem) por meio da maior ativação de áreas ligadas à recompensa; • a existência de lealdade a marcas é revelada também por meio da ativação de áreas envolvidas na memória e emoção. Figura 3 – Relação memória e emoção Crédito: Satenik Guzhanina/Shutterstock. Por meio da análise e da observação dessas reações neuroquímicas, Rodrigues (apud Zeki; Bartels; Acevedo;e Solis, 2015, p. 209) propôs um modelo, denominado ICN Brand, que define estágios para a criação das lovemarks, de acordo com estas reações: Figura 4 – Estágios da lovemarks Fonte: Adaptado de Rodrigues, 2015, p. 209. A fase da atração seria aquela em que surgem altos índices de dopamina e norepinefrina, elementos produzidos pelo cérebro que geram sensações de prazer. A segunda fase, romantismo, é aquela na qual os níveis de dopamina e norepinefrina se estabilizam, e a serotonina passa a ser liberada, despertando a questão da paixão pela marca. Por fim, na fase da indexação surgem os neurotransmissores oxitocina e vasopressina, que promovem a geração de ATRAÇÃO ROMANTISMO INDEXAÇÃO 9 vínculos duradouros e de longo prazo, favorecendo o sentimento de confiança e fidelidade. Tais sensações já foram estudadas e, comprovadamente, apontam que, quanto mais cedo um consumidor tiver contato com estas marcas, maior será a chance de considerá-las marcas do coração. É isto o que explica, por exemplo, a existência de um esforço comercial direcionado ao público infantil, que consome muito mais ativamente, se comparado a gerações anteriores. As lovemarks são marcas com as quais nós, consumidores, conseguimos nos conectar, emocionalmente falando (Roberts, 2000). Basta pensar em marcas como a Coca-Cola, a Apple ou a Nike, que mostram seu passado e seu presente de forma genuína. Assim, passam a ganhar a confiança do consumidor, exibindo sua paixão pelos próprios produtos, autenticidade e personagens fortes, que, mais cedo ou mais tarde, baterão na porta do seu coração. TEMA 3 – IMPORTÂNCIA DA EXPERIÊNCIA NA PROMOÇÃO DAS MARCAS: TRYVERTISING O mercado está constantemente buscando formas de inovar e oferecer soluções criativas para os consumidores, possibilitando, assim, destacar-se em relação à concorrência. Pensando nisto, uma das formas que as empresas encontraram para se diferenciar e se distanciar dos formatos tradicionais (em sua maioria já saturados) foi a tryvertising, uma associação da promoção de produtos, comunicação e marketing (Fuller apud Rodrigues, 2015). Em outras palavras, trata-se de proporcionar a experimentação de produtos ao mesmo tempo em que se faz propaganda deles. Essa modalidade de comunicação, na opinião de Rodrigues (2015, p. 201), possibilita ofertar “produtos no contexto real de consumo, integrando-os na rotina diária dos consumidores [...] permitindo uma percepção multissensorial do produto/serviço com a antecipação da percepção de ganho/ perda”. Exemplos desta técnica têm sido visto nos clubes que oferecem amostras grátisde produtos. São espaços físicos (ou virtuais) nos quais o consumidor pode experimentar produtos sem o custo da aquisição. Em contrapartida, os usuários devem responder a alguns questionamentos, fornecendo, assim, dados para melhorar os produtos em análise. 10 Saiba mais Conheça mais sobre o assunto no dia a dia nesta reportagem do programa Mundo S/A: . Acesso em: 13 ago. 2019. Há quem desdenhe desta metodologia, alegando que se trata apenas de uma evolução do chamado sampling; a entrega de amostras grátis convencional (Meios e Publicidade, 2006). No entanto, sua efetividade é bastante alta, considerando que é uma comunicação direcionada ao usuário real do produto (usuários finais), ampliando a oportunidade de estreitar ainda mais os laços com o consumidor. A multinacional Procter e Gamble criou a Tremor, uma rede virtual que conecta adolescentes americanos para promover a inovação disruptiva e a experimentação (www.tremor.com). A rede de móveis sueca Ikea mobiliou uma cadeia inteira de hotéis franceses. A fabricante de calcados esportivos Nike, por sua vez, resolveu disponibilizar sapatilhas Runner Lounge (que, na época, era um lançamento) em meio à maratona anual de Vancouver, no Canadá, onde os atletas, além de pararem para se hidratar e se alimentar, podiam experimentar o calçado específico para aquela ocasião. Todos estes exemplos resultam, invariavelmente, em aumento das vendas dos produtos em questão. Note que existe um aspecto em comum em todos casos: é o perfil de chamado de trysumer, o qual a consultoria especializada em tendências Trendwatching (2007) classifica como consumidores imunes à boa parte dos anúncios habituais, com grande acesso à informação, despreocupados com convenções e abertos à experimentação. Nesse sentido, espaços como salas de espera, hotéis, aeroportos e até cruzeiros funcionam particularmente bem, pois são aquilo que a empresa chama de “ambientes cativos”, ou seja, ambientes de maior propensão à receptividade. Para a neurociência, essa forma de interação e comunicação com o público representa não apenas a aplicação de nova metodologia, mas a possibilidade de análise de uma tendência na prática, promovendo melhores produtos e experiências mais criativas também, o que pode resultar em aumento das chances de conquistar novos clientes pela experimentação. 11 TEMA 4 – NEUROSEGMENTAÇÃO, POSICIONAMENTO E TARGETING: DIFERENÇAS ENTRE GÊNEROS O mundo todo mudou drasticamente de uns tempos para cá. A revolução aconteceu nos campos da medicina, da tecnologia, nas formas de trabalho, nos hábitos familiares e nas formas de consumo. Dessa forma, quando falamos em gestão estratégica e negócios, entender o que os consumidores desejam pode ser a chave para o desenvolvimento de produtos mais alinhados com as vontades do consumidor. “É nesse mundo de estímulos abundantes, de diversidade de produtos, de informação ilimitada e de alta competitividade que as marcas precisam trabalhar diariamente para ganhar (ou manter) seu lugar nas escolhas de compra do consumidor” (Arthur Gomes; Forebrain, 2019). Tanto a segmentação quanto o posicionamento contribuem para que a gestão das marcas descubra mais detalhes sobre quem são os seus consumidores atuais, assim também como quem são e como se comportam seus consumidores potenciais. Neste quesito, também devemos procurar desvendar que produtos os consumidores compram, identificando os principais fatores de motivação, que podem variar em função de aspectos como fase da vida, idade, grupos de referência etc. Quanto a isto, Braidot (apud Rodrigues, 2015, p. 217) afirma que: “para uma eficiente e eficaz execução de qualquer negócio é necessário identificar o público-alvo, ou seja, segmentar o mercado compreendendo os diferentes tipos de potenciais consumidores através das suas características cognitivas, perceptivas e afetivas”. Da mesma forma, quando não há uma definição precisa sobre o alvo da empresa, ou seja, o perfil de público (ou de públicos), esta ausência pode até atrapalhar o desempenho de vendas. Um exemplo disso aconteceu com a loja de departamentos americana Nordstrom. A rede, que vende artigos de luxo, estava comercializando em seu site produtos como câmeras de segurança, Google Wi-fi (dispositivo de internet sem fio) e o dispositivo tecnológico Google Home Base. No entanto, apesar de suas atividades e campanhas de marketing serem bastante estruturadas e fortes, quando uma pessoa acessava o site, só encontrava esses produtos na categoria “masculino”, fazendo com que muita gente deixasse de efetuar a compra por não localizar os produtos, o que demonstrou, neste caso, a existência de um equívoco na segmentação desses produtos dentro do site. 12 Figura 5 – Nordstrom Crédito: Casimiro PT/Shutterstock. Com este exemplo, também podemos observar que houve, por parte da empresa, uma distinção entre os gêneros que não deveria ter ocorrido, uma vez que produtos de tecnologia não são, necessariamente, utilizados apenas por homens. Do ponto de vista prático, as metodologias de segmentação fundamentadas na neurociência têm contribuído principalmente para identificar escalas de maior ou menor interesse dos consumidores a respeito de marcas e produtos, padrões de processamento dos estímulos nos mecanismos cerebrais e consumidores que utilizam caminhos cerebrais diferentes dos habituais diante dos mesmos estímulos (Venkatraman apud Rodrigues, 2015). Assim, quando pensamos em neurossegmentação, um dos pontos mais importantes a ser verificado está em descobrir quanto os consumidores estão dispostos a pagar, pois, de acordo com os estudos da neurociência, áreas como o córtex orbitofrontal e o córtex pré-frontal ventromedial incluem medidas de valor que são subjetivas (Chib et al. apud Rodrigues, 2015). Além deste ponto, existem as questões psicográficas (que avaliam estilo de vida, características individuais e valores), por meio das quais as empresas conseguem obter traços da personalidade que ajudam no desenvolvimento de segmentação e posicionamento mais assertivos. Em termos de personalidades, os consumidores podem ser: abertos a experiências, conscientes, extrovertidos, agradáveis, neuróticos, avessos ao risco, abertos a novidades, perfeccionistas, rígidos, impulsivo ou desinibidos (Rodrigues, 2015). 13 Figura 6 – Tipos de consumidor Crédito: Anna Kireieva/Shutterstock. Isto certamente vai influenciar no posicionamento da empresa, que ofertará produtos mais direcionados a determinado perfil socioeconômico e comportamental de público. Ter um posicionamento claro e definido é, nesta perspectiva, essencial, pois com isto cria-se o que a neurociência classifica como disponibilidade mental, que Gomes (2019) explica como ser a chance “de uma marca ser notada, reconhecida ou lembrada em um momento de decisão de compra”, sendo que isto é mais possível de ocorrer quando a marca gera um impacto positivo no inconsciente do consumidor (Forebrain, 2019). Porém, além dos impactos das marcas no inconsciente do consumidor, é preciso estar atento ao fato de que homens e mulheres escolhem produtos por motivos diferentes, apreciam diferentes marcas e abordagens de comunicação, cores, estilos. Há, inclusive, um ponto de discussão, pois em muitos casos as mulheres são as principais compradoras, mas, no entanto, os anúncios comerciais eram feitos por homens (e para homens). Havia um pensamento geral de que bastava agregar rosa e todas as mulheres estariam satisfeitas (Pradeep, 2017). Nada mais equivocado! A diferença entre os gêneros tem sido estudada pela neurociência, que compreende que homens e mulheres são diferentes, não apenas do ponto de vista físico, mas também cerebral. A genética explica que o cérebro dos embriõesé essencialmente feminino, mas que, a partir do 8.º mês de gestação, há uma descarga de testosterona, que provoca, então, a diferenciação neuronal entre os gêneros (Rodrigues, 2015). 14 Essa distinção deve ser um processo natural para as empresas, tanto quanto o é para nós desde pequenos. Isto porque, segundo Rodrigues (2015, p. 250), “talvez a primeira forma de segmentação seja o gênero”. O simples fato de que meninas estavam atreladas com o brincar de casinha e bonecas enquanto meninos jogavam bola já nos mostra isso. Apesar de existirem diferenças entre os gêneros, não se pode fazer uso dessa ciência para estereotipar comportamentos masculinos ou femininos, mesmo porque um estudo conduzido pela professora de Psicologia da Universidade de Wisconsin, Janet Sibley Hide, apontou que “78% das diferenças entre os gêneros são muito pequenas ou inexistentes” (Chao, 2010). Na atualidade, fica claro que, por uma série de fatores, existe uma uniformização muito maior na questão dos gêneros, em que uma mulher utiliza produtos eletrônicos tanto quanto um homem pode fazer tratamentos estéticos. O grande alarde em relação às diferenças entre os gêneros fez com que a pesquisadora australiana Cordelia Fine afirmasse que ainda existem muitos estudos mal interpretados (Awebic, 2018). A este respeito, o que a neurociência pode afirmar quanto aos gêneros é (Rodrigues, 2015): • Homens têm a capacidade de realizar tarefas mentais de grande complexidade; são menos propensos a fazer integração entre diferentes pensamentos e apresentam menor aptidão emocional; • Mulheres têm áreas relacionadas ao cálculo matemático menos desenvolvidas, no entanto, possuem uma comunicação neuronal mais fluida, com maior capacidade empática, assim como de interpretações simultâneas nos hemisférios. Figura 7 – Mulheres e homens Crédito: Anton_Novik/Shutterstock. 15 Chegou-se à conclusão, dessa forma, que o cérebro feminino gosta de construir histórias, por meio das quais chegará às suas decisões de compra. É por isto, por exemplo, que fazemos associações e geramos interpretações mais facilmente. As mulheres são, em grande medida, mais sensíveis às cores e diferenciação de estímulos visuais, controlando melhor suas emoções. O cérebro masculino, por sua vez, tem dificuldades para expressar sentimentos e é mais impulsivo, tomando decisões com maior rapidez. Possui, ainda, maior capacidade de reação frente a estímulos, assim como capacidades espaciais mais elaboradas (Rodrigues, 2015). Com a evolução dos estudos, as organizações perceberam a necessidade de desenvolver produtos específicos. Hoje, acompanhando o lançamento de produtos, as campanhas e a comunicação das marcas, podemos dizer que, sob os preceitos da neurossegmentação, os esforços são muito mais efetivos e direcionados. TEMA 5 – TRENDS MUNDIAIS: PREVER O COMPORTAMENTO FUTURO O tema das tendências tem estado muito em moda ultimamente. Não se trata de futurologia ou achismo, mas sim de uma porção de métodos de pesquisa que fornece pistas consistentes sobre os hábitos dos consumidores e as novas formas de consumo. Mais do que um modismo, a identificação e a análise das tendências (que pode ser encontrada como trendforecasting) fornecem às empresas um direcionamento estratégico, baseado em diferentes observações do cotidiano. Nesse sentido, é importante pontuar que uma tendência se desenvolve de forma lenta e sem grandes alvoroços (Perdigão apud Rodrigues, 2015). Neste processo, os pesquisadores começam a observar pequenos sinais, que, aos poucos, vão ganhando força. Trata-se, para Caldas (apud Rodrigues, 2015, p. 192), da representação de “transformações no comportamento das pessoas...”, que podem aparecer em diferentes momentos e de formas distintas como uma tendência comportamental (sua descoberta possibilita a adequação de produtos e estratégias, afetando diretamente as vendas); uma tendência atitudinal (busca prever os comportamentos diante de estímulos, influenciando na gestão dos relacionamentos da empresa); uma microtendência (adotada por poucas pessoas, pode tornar-se grande, virando uma macrotendência); uma macrotendência (tem impacto maior em setores e mercados, agregando um 16 grupo maior de pessoas, que passa a convergir em necessidades de produtos ou atitudes). Podem, ainda, ser classificadas como tendência nacional (características de um país ou região) ou internacional (comportamentos observados em mais de um território com nível socioeconômico similar) (Garcia apud Rodrigues, 2015). Independentemente da classificação, para que uma tendência seja classificada como tal, ela deve passar por três etapas: Figura 8 – Tendências Fonte: Adaptado de Rasquilha, citado por Rodrigues, 2015, p. 193. Referência na área, a consultoria especializada em previsão de tendências WGSN mapeou algumas das disposições de consumo para os próximos anos. Baseadas em três grandes pilares (sustentabilidade, diversidade e família), as previsões apontam para (Consumidor Moderno, 2018): 5.1 Sustentabilidade As principais tendências apresentadas neste grupo são: • Sistemas ecossociais: referem-se a sistemas que podem ajudar positivamente o planeta, como educação, recuperação de materiais, reciclagem e formas inteligentes de energia; • Mundo pós-plástico: a pesquisa mostrou que as pessoas acreditam cada vez menos no uso do plástico, optando por soluções que evitem sua utilização (como os canudos de vidro); • Descartáveis renováveis: esta tendência expressa a ideia de que, num futuro bem próximo, produtos reutilizáveis serão mais acessíveis do que hoje. 5.2 Diversidade O segundo grupo inclui as tendências chamadas de: IDENTIFICAÇÃO CONFIRMAÇÃO ACOMPANHAMENTO 17 • A nova maioria: pessoas antes à margem da sociedade tendem a ser mais ouvidas, em um cenário no qual a maioria será constituída pelas minorias; quebrando barreiras por meio da educação; • Beleza fora do padrão: a diversidade será definitivamente aceita e incorporada nas campanhas de comunicação, inclusive nas grandes empresas; • Imperfeccionistas: não corresponder ao padrão que a sociedade exige será algo mais bem aceito pelas pessoas em geral; em que as “imperfeições” serão vistas como traços da personalidade, e não como defeitos. 5.3 Família Neste grupo, estão presentes as previsões que tratam de: • Co-parenting: o futuro apresentará menos casais e mais pares; isto porque a configuração mudou e os modelos alternativos de família são aceitos com maior naturalidade entre a geração dos millenials (o estereótipo da família convencional tende a se dissolver); • Pais conectados: representam os pais da atualidade, que buscam aprendizado e trocas de experiências on-line; • Maternidade real: as dificuldades e alegrias da maternidade, assim como ela é, serão mais abertamente discutidas, mostrando um entendimento mais humanizado do ato de ser mãe. É importante compreender que as tendências apresentadas esboçam uma projeção do comportamento do mercado. Tendências não são, portanto, uma adivinhação do que ocorrerá no futuro, mas sim uma ferramenta de observação e análise estruturada que será cada vez mais válida, tendo como base as mudanças e os processos de inovação que as organizações desenvolvem (Mind Miners, 2016). 18 REFERÊNCIAS ALMEIDA, D. Algumas marcas são dinossauros. E elas vão desaparecer. Negócios. Disponível em: . Acesso em: 12 ago. 2019. DEZ ideias fortes para 2006. Meios e Publicidade, 6 jan. 2006. Disponível em: . Acesso em: 12 ago. 2019. FERRIS, G. O Pricing e suas variáveis. IBN, 12 abr. 2019. Disponível em: . Acesso em: 12 ago.2019. GOMES, A. Tudo que você precisa saber sobre o cérebro do consumidor. Forebrain, 13 mar. 2019. Disponível em: . Acesso em: 12 ago. 2019. MARKETING relacional. Knoow.net. Disponível em: . Acesso em: 12 ago. 2019. NEUROMARKETING: a ciência por detrás das vendas eficazes. Digital Green, 30 nov. 2019. Disponível em: . Acesso em: 12 ago. 2019. ROBERTS, K. Trust in the future. In: _____. Lovemarks: o futuro além das marcas. São Paulo: M. Books, 2004. RODRIGUES, F.; OLIVEIRA, M.; DIOGO, J. Princípios de neuromarketing: neurociência cognitiva aplicada ao consumo, espaços e design. Psicosoma, 2015. SANDOVAL, G. WGSN revela 9 tendências de consumo. Consumidor Moderno, jan. 2019. Disponível em: . Acesso em: 12 ago. 2019. https://www.consumidormoderno.com.br/2018/12/07/wgsn-9-tendencias-de-consumo-ate-2020/ https://www.consumidormoderno.com.br/2018/12/07/wgsn-9-tendencias-de-consumo-ate-2020/ 19 THE LATTE Macchiato Experiment. The Neuromarketing Labs. Disponível em: . Acesso em: 12 ago. 2019. TRYSUMERS. Disponível em: . Acesso em: 12 ago. 2019. VOCÊ sabe como funcionam pesquisas de tendência? Mind Miners, 21 nov. 2016. Disponível em: . Acesso em: 12 ago. 2019.