Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

Corpo e Saúde na Visão
Socioantropológica
Discussão antropológica sobre as relações entre corpo, saúde e cultura.
Profa. Andressa Fernandes David da Silva Gomes
1. Itens iniciais
Propósito
Apresentar a relação corpo/saúde, com base em discussões socioantropológicas, a fim de relacionar o tema
com o cotidiano do cuidado em saúde, levando a problematizar e compreender os determinantes sociais e
culturais envolvidos no campo da saúde.
Preparação
Antes de iniciar o conteúdo deste tema, acesse um dicionário de Linguística para entender termos específicos
da área.
Objetivos
Definir corpo, cultura e subjetividade.
 
Descrever corpo estético, estética e sociedade com base nos padrões e valores.
 
Relacionar cultura com saúde, doença e cura.
Introdução
O ser humano é um ser profundo e em evolução contínua. Sua maneira de perceber e entender seu corpo não
foi vista sempre da mesma forma. Ao longo da história da humanidade, foram identificadas várias formas de
compreender, utilizar e tratar o corpo. Da mesma maneira, o processo de descobrir, regenerar e prevenir
doenças ao corpo é muito complexo, e foi contemplado e alterado ao longo da história, das civilizações e das
culturas.
 
A Antropologia, então, contribui ao reconhecer os processos culturais misturados na maneira de captar o
corpo adoentado e cuidar dele, possibilitando um olhar para além da visão biomédica (que investiga as causas
fisiológicas das doenças). Entende o corpo enfermo em seus aspectos culturais, sociais, psicológicos,
emocionais, religiosos, entre outros.
 
Sobre as representações do corpo às concepções e práticas no campo da Antropologia da Saúde, este tema
poderá ajudá-lo a entender o corpo enfermo/saudável em seus mais diversos aspectos, tornando as práticas
em saúde cada vez mais humanas em nossa sociedade.
• 
• 
• 
1. Corpo, cultura e a subjetividade
Corpo biológico x corpo subjetivo
Existe uma divisão entre o corpo biológico, orgânico, e o corpo subjetivo, formado por meio das interações
sociais e da cultura. Em relação à diferença entre corpo biológico e corpo subjetivo, leva-se em consideração
a separação entre corpo e mente. Com isso, podemos perceber a relação entre:
 
Corpo biológico/corpo subjetivo
 
Corpo/mente
 
Cura biomédica/cura simbólica
Os aspectos que formam a subjetividade são
tirados da esfera abstrata dos atributos e das
capacidades específicas do ser humano e
levados para a esfera corporal e biológica. As
pessoas estariam sendo moldadas e suas
personalidades seriam definidas a partir das
informações que seus corpos transmitem.
Assim, a subjetividade deixa de ser uma
essência universal do ser humano e passa a ser
vista como uma combinação de fatores
biológicos.
 
O corpo, entendido aqui como o fornecedor de informações, coloca-se como porta de entrada para entender
o homem e suas relações. Essas informações podem justificar nosso modo de ser e agir.
Definição de cultura
A cultura está ligada a uma série de elementos que explicam e qualificam qualquer atividade mental ou física,
e não é determinada pela biologia, apresentando-se dividida por diferentes integrantes de um grupo social.
Trata-se de elementos sobre os quais os sujeitos criam significados para as ações e convívio social efetivos e
temporais, como também afirmam as maneiras sociais atuais, as instituições e suas formas operacionais.
Estão incluídos na cultura os símbolos, valores, práticas e normas
LANGDON; WIIK, 2010.
Langdon e Wiik (2010) destacam que a cultura deve ser aprendida, compartilhada e padronizada. Afirmam que
a cultura é aprendida porque não se pode explicar as diferenças do comportamento humano somente pela
biologia. A cultura reforça as necessidades e características biológicas e corporais. Assim, a biologia serve de
apoio para o comportamento, do mesmo jeito que fornece a capacidade de elaboração e desenvolvimento
humano.
• 
• 
• 
Comentário
Além disso, a cultura é compartilhada pelas pessoas que compõem uma sociedade que transforma essas
capacidades em atividades específicas, diferenciadas e simbolicamente compreensíveis e comunicáveis. 
A cultura é compartilhada e padronizada, já que consiste em uma criação do ser humano que fica distribuída
entre os diferentes grupos sociais. As formas materiais, a importância e os papéis simbólicos relacionados à
cultura são padronizados a partir das interações sociais efetivas dos indivíduos, como também surgem das
experiências em diferentes contextos e espaços, os quais podem ser transformados, alternados e
compartilhados por variados segmentos da sociedade (LANGDON; WIIK, 2010).
 
Por ser dinâmica e ter características político-ideológicas bem claras, a cultura e todos os outros
componentes que a representam são capazes de gerar transformações sociais ao longo da história da
civilização, seguindo sempre o sentido traçado pelos atores sociais que as utilizam para estabelecer novos
padrões socioculturais.
No que diz respeito à padronização do
comportamento humano, a cultura é decisiva e
tem uma atribuição de destaque, uma vez que o
indivíduo é socializado de acordo com a cultura
na qual está inserido. Com isso, ele tem
crenças, valores e comportamentos
compatíveis com sua cultura que irão moldar
suas atitudes na direção daquilo que é visto
como normal e aceitável dentro do meio em que
vive, com o intuito de atender às necessidades
impostas.
 
E a cultura e o meio em que uma pessoa está
inserida influenciam diretamente na maneira como esta enxerga sua imagem corporal. Essa visão de sua
imagem envolve aspectos afetivos, cognitivos, sociais e culturais, tendo o processo de desenvolvimento sido
influenciado pelos determinantes da cultura. A elaboração da aparência faz parte da identidade da sociedade
capitalista, que tenta a todo momento implantar o sonho do corpo perfeito.
Todas as culturas, não importando a época, influenciam as noções e os comportamentos
relacionados ao corpo e a seus cuidados. Os julgamentos culturais em relação ao corpo, e como
utilizá-lo, fazem com que as pessoas sigam um padrão determinado, afetando como esse corpo age
e se expressa: como se vestir e o que vestir, a maneira de andar, como segurar objetos, entre outros.
Outro exemplo que podemos citar é a busca sem fim pelo corpo ideal a partir da valorização da magreza, na
qual as pessoas tentam incessantemente alcançar esse padrão preestabelecido socialmente. Porém, para
muitos, esse padrão de beleza é inalcançável e, quando não atingido, pode resultar em graves problemas
quanto à insatisfação corporal, ocasionando uma autoimagem negativa e repercussões psicológicas. Além de
influenciar a imagem corporal que os sujeitos têm de si, esses padrões também influenciarão a maneira de
perceber o mundo ao redor.
 
Logo, podemos relacionar as questões do corpo e da imagem corporal à própria construção da subjetividade.
Relação da cultura com o contexto histórico
A cultura está atrelada a um conjunto associado aos padrões de comportamento de uma coletividade que são
característicos de uma sociedade. Dessa forma, reforça a maneira como diversos indivíduos se comportam e
expressam seus valores, suas crenças e seus saberes em determinado período histórico.
Atenção
A forma e o estilo de vida das pessoas dentro de uma sociedade representam como é construída sua
cultura, compreendendo reações, características e condutas de cada pessoa nas diversas situações. As
formas que são comuns a todos os sujeitos formam o modo de viver da cultura e das pessoas. Além
disso, é preciso considerar o momento histórico. 
A evolução histórica do corpo se destaca
dentro de uma ordem cronológica, reforçando a
forma como o corpo é concebido ao longo dos
tempos. Cada sociedade ou cada grupo social
deixa marcas em seus membros, seja por meio
de expressões físicas (por exemplo, tatuagem),
estéticas (por exemplo, roupas) e
comportamentos (VÍCTORA, 2000).
 
Atualmente, existem pessoas que realizam
grandes modificações em seus corpos com o
objetivo de ficarem diferentes das outras.
Porém, mesmo buscando essadiferenciação,
elas estão elaborando uma identidade para si e, de certa forma, acabam fazendo parte de um grupo social, o
grupo daqueles que prezam pela modificação corporal, como piercings, tatuagens, implantes de próteses etc.
O fato de estar integrado a um grupo social pode causar conforto psicológico ao sujeito. As relações sociais
que se constituem por meio da identificação entre os participantes viabilizam a criação de uma rede de apoio
social que é capaz de ofertar maior coerência para a própria existência.
 
Como vimos anteriormente, a sociedade capitalista tenta, a todo momento, implantar o sonho do corpo
perfeito, permitindo o desenvolvimento cultural e a cultura de massa. Os filmes, as novelas e, particularmente,
a publicidade contribuíram para espalhar e popularizar os padrões de beleza e comportamento. Nesse caso,
começamos a perceber que a construção da identidade de uma pessoa e a própria percepção de si e do
mundo relacionam-se diretamente com aquilo que a população consome e ostenta (MIWA,2015).
Nesse sentido, o corpo passou a atrair interesses econômicos de grandes empresas que investem na moda e
nas propagandas publicitárias, passando a exigir o corpo magro e atlético como padrão de beleza. A busca
pelo corpo bonito, malhado, representa a conquista sobre a natureza. O que antes era motivo para se
constranger, agora é reconhecido, tornando-se orgulho para as pessoas. Logo, a cultura, que se mostra
poderosa, vem passando como valor desejado a conquista de um corpo magro e levanta reflexões como:
Ter o corpo perfeito é sinal de vitória sobre a natureza? Ser gordo é sinal de inaptidão?
Comentário
O corpo tomou posse de um valor cultural, o qual tanto coloca o indivíduo dentro de grupos como
também o diferencia do restante. 
Atualmente, as pessoas acabam sendo responsabilizadas e vistas como fracassadas pela condição do próprio
corpo. Porém, isso tem a ver com uma cultura rotuladora da forma física, discriminando as pessoas doentes,
uma vez que o ideal é produzir um tipo físico perfeito, sendo a aparência fundamental para que o indivíduo
seja reconhecido na sociedade.
Propaganda 
De um lado está a propaganda, com
motivações claramente mercadológicas.
Consumidor 
Do outro, o consumidor, com o desejo
de consumir os produtos ofertados.
Em uma sociedade sobrecarregada de vários referenciais e valores sociais, as marcas acalmam seus
consumidores dando-lhes referências e valores de bom gosto e estilo pessoal. Logo, ao utilizar um
logotipo, a pessoa não quer ficar acima dos outros, mas também não quer ficar abaixo de ninguém.
Dessa forma, as marcas acabam realizando certa função de inclusão social 
MIWA, 2015.
No entanto, não podemos esquecer que uma marca, mesmo sendo capaz de possibilitar certas experiências
aos seus consumidores, jamais conseguirá possibilitar um sentindo à existência para seus usuários e
tampouco garantir a satisfação e felicidade deles. O filósofo Edgar Morin (1997) afirma que a felicidade é uma
fantasia e, por isso, é difícil alcançá-la. Para ele, cada cultura cria as próprias definições sobre o que é
felicidade e, se trouxermos isso para a nossa cultura de massa, identificaremos DOIS tipos de felicidade:
Um que privilegia o instante ideal na projeção imaginária, outro que estimula o hedonismo de todos os
instantes da vida vivida.
MORIN, 1997.
Primeiro tipo 
A pessoa coloca sua felicidade em algo — só
será feliz quando se casar, quando conhecer
determinado país, quando conseguir tal
emprego.
Segundo tipo 
A felicidade seria encontrada na força
com que se vive, cada segundo é uma
oportunidade para ser feliz.
Essa busca sem fim pela felicidade faz com que muitos não aceitem a culpa, o fracasso, o envelhecimento, as
tragédias e até mesmo a morte, buscando cada vez mais recursos que deixem essas zonas de desconforto
escondidas, como o uso abusivo de remédios, drogas e álcool. Outra maneira de lidar com os sofrimentos
gerados pela realidade é voltar a atenção para o próprio corpo. Sentimentos de inadequação ou frustrações
podem fazer com que as pessoas ataquem seus corpos ou tentem modificá-los, desenvolvendo uma
percepção distorcida da própria aparência.
Cultura na atualidade
Na contemporaneidade, podemos observar os mais variados questionamentos em relação ao corpo humano,
independentemente da área científica. Seja por sua complexidade subjetiva, relacionada ao tempo e ao
espaço em que se contextualiza, pela associação aos fatores socioculturais ou simplesmente pela fragilidade
que se evidencia pelas doenças ou pela própria iminência da morte (ANTÉRIO; SILVA, 2011).
Atenção
A discussão é focada nessa relação entre o corpo e o sujeito, na qual devemos ter em mente a
subjetividade corporal e que o ser humano não tem uma subjetividade única. Ela é formada por
fragmentos e identidades, sem que haja necessariamente uma ligação entre as partes. Assim, a relação
corpo-mente não é uma unidade fixa e estável, e sim uma relação dinâmica (ANTÉRIO; SILVA, 2011). 
A subjetividade é o perfil de um modo de ser que restringe o interior e o exterior de uma pessoa. É
consequência da relação do indivíduo com influências socioculturais, sendo moldada de acordo com os
comportamentos, valores e sistemas políticos e econômicos de cada sociedade. A reprodução da
subjetividade ocorre na interação com o mundo e com as outras pessoas, todos imersos em um mesmo
contexto e em determinado período sócio-histórico. O processo de criação da subjetividade sofre a influência
da cultura por meio dos modos de linguagem, hábitos, costumes e padrões de comportamentos e valores,
incluindo os padrões estéticos, resultando na nossa relação de aprendizado na família, na escola, com os
amigos e pelos meios de comunicação.
A mídia tem uma forte influência na imposição dos padrões estéticos, éticos e políticos. A influência
ocorre por meio de inúmeras estratégias de marketing para criar desejos, anseios e angústias,
estimulando o consumo de produtos de forma excessiva.
Mas quem determina se algo é bonito ou feio? Quem determina as regras da estética? O que faz uma pessoa
se sentir feia? Muitas são as questões que envolvem esse debate. Vimos que a conquista da felicidade na
cultura de massas é somente um sonho. A felicidade, apesar de ser ilusória, é muito valorizada, e falhar não é
uma opção a ser considerada. As pessoas que não conseguem consumir como queriam, ou aquelas que não
conseguem se encaixar em determinado padrão, ficam cara a cara com a decepção e a frustração.
Corpo, Cultura e Subjetividade
A especialista Carine Sena fala sobre a influência da cultura no comportamento humano.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Verificando o aprendizado
Questão 1
Com relação ao corpo biológico, é correto afirmar que:
A
O corpo biológico é entendido como um fornecedor de informações e precisa ser categoricamente analisado e
visto como a combinação de fatores biológicos.
B
Para a compreensão dos processos saúde-doença no corpo, utiliza-se os aspectos individuais e
idiossincráticos dos indivíduos.
C
O organismo vivo é visto como uma totalidade maior do que a soma das partes do corpo biológico.
D
O corpo biológico prioriza os aspectos subjetivos na determinação dos estados de saúde.
E
O corpo biológico utiliza como base para explicar as doenças os fatores morais, sociais e comportamentais.
A alternativa A está correta.
O ser humano, visto como corpo biológico, precisa ser categoricamente analisado e tratado pela Medicina
Biomédica, direcionada somente para o corpo biológico. Dessa forma, é compreendido como um
fornecedor de informações.
Questão 2
Com base na afirmação de que a cultura é aprendida, compartilhada e padronizada, defendida
por Langdon e Wiik (2010), assinale a alternativa correta:
A
A cultura é aprendida porque podemos explicar as diferenças do comportamento humano somente pela
biologia.
B
A cultura é compartilhada pelas pessoas que compõem uma sociedade, que transformam essas
potencialidades em atividades específicas,diferenciadas e simbolicamente compreensíveis e comunicáveis.
C
A cultura é compartilhada e padronizada, já que é fruto de uma invenção humana que fica distribuída somente
entre os grupos sociais semelhantes.
D
A cultura não está associada a qualquer atividade física ou mental e, por isso, organiza o mundo de cada
grupo social, de acordo com sua própria lógica.
E
A cultura é aprendida e padronizada porque não podemos explicar as diferenças do comportamento humano
pela biologia nem pelo campo social.
A alternativa B está correta.
Langdon e Wiik (2010) afirmam que a cultura é aprendida, compartilhada e padronizada. Aprendida porque
não se pode explicar as diferenças do comportamento humano considerando apenas a biologia. A cultura
dita as necessidades e características biológicas e corporais; logo, a biologia serve de base para o
comportamento e para as potencialidades da formação e do desenvolvimento humano. A cultura ainda é
partilhada por todos que formam uma sociedade e transformam essas potencialidades em atividades
específicas, diferenciadas e simbolicamente compreensíveis e comunicáveis.
2. Corpo estético, estética e sociedade
Corpo estético
O corpo é uma criação cultural e cada sociedade vai se manifestar de forma diferente por meio de corpos
diferentes. Assim, se olharmos uma mesma cultura em diferentes épocas, vamos perceber que o ideal de
beleza é criado, modificado e recriado, delimitando a compreensão que se tem do que é “feio” e “bonito”.
O termo “estética” é formado pela derivação de “aisth” — que significa “sensação”, “sentir” —; e
“etos” —,que significa “costume”, “moral”. Logo, podemos dizer que corpo estético significa a criação
moral ou o costume da sensação e de sentimento de uma pessoa.
O corpo estético na sociedade é exaltado pela mídia e pela propaganda com o objetivo de criar indivíduos
consumidores, porque a sociedade é composta pelo sistema econômico em que estamos amarrados e pelos
padrões que são impostos pela comunidade. Hoje existe a idolatria do corpo perfeito, padrão estabelecido
pela sociedade e que a grande dos indivíduos deseja alcançar, o que é impossível muitas vezes.
Podemos dizer que o corpo sempre sofreu e
continuará sofrendo diversos tipos de
interdições e modificações. A maneira de se
comportar, falar, andar, sentir e pensar
simboliza estilos de vida diferentes, que são
próprios de determinado grupo social. Por isso,
existem várias culturas e, dentro de cada uma,
há costumes e hábitos específicos. Da mesma
maneira, cada grupo apresenta concepções
diferentes em relação ao corpo e à beleza.
O homem tem o corpo como devoção há
bastante tempo. Para os gregos, a estética e o
físico eram tão importantes quanto a
inteligência. No século XXI, reforçamos as
ideias de beleza impostas pela indústria da moda e alimentadas pela mídia com extrema valorização do corpo
perfeito. Atualmente, mais pessoas consomem o que é ofertado com o objetivo de modificar o físico em busca
da perfeição.
Massificação do consumo em relação à estética
Esse consumo de massa cobra uma
padronização de relações e a excitação de
certos discursos sobre si. As mercadorias não
são valorizadas pelo uso ou por seu valor de
troca, elas têm conexões irreais e simbólicas
que causam encanto, tornando-as ainda mais
atraentes (SANTOS et al., 2019).
 
A sociedade se qualifica em criar uma massa de
consumidores que podem ser manipulados e
persuadidos por competentes técnicas de
marketing. O surgimento da publicidade cria
outro expressivo mercado, que se encarrega de
fortalecer a elaboração de falsas necessidades que são vendidas em campanhas publicitárias com base na
ideia de que a propaganda é a “alma do negócio” sem alma (SANTOS et al., 2019).
 
Com o passar do tempo, a forma de consumo da sociedade foi se modificando, e hoje está atrelada à
satisfação de necessidades superficiais, superando o consumo de itens considerados de necessidade básica.
O indivíduo não consome itens que irão garantir sua subsistência, mas, sim, o que é divulgado na mídia e o
que está na moda, como forma de buscar sua inclusão social.
Comentário
Dessa forma, o corpo não sai ileso desse processo de massificação, tornando-se o objeto mais
investido, tanto no aspecto sexual, como também nos aspectos econômico, cultural e simbólico.
Destruído e reconstruído incessantemente, trabalhado a partir de elementos que oferecem prestígio, o
corpo entra no mercado simbólico. 
A sociedade capitalista, a propaganda e a mídia impõem uma padronização das situações vivenciadas por
cada pessoa. É comum, nos dias de hoje, encontrarmos indivíduos que consomem remédios para emagrecer
ou anabolizantes e realizam algum tipo de cirurgia sem necessidade ou, ainda, indivíduos com algum tipo de
distúrbio alimentar, como bulimia, anorexia e vigorexia.
Estética e saúde
Hoje, o culto ao corpo atravessa todos os setores, classes sociais e faixas etárias, baseado em um discurso
ora voltado à questão estética ora voltado à preocupação com a saúde. Assim, a percepção do corpo, na
prática, é comandada pela existência de variados recursos visuais e técnicos que investem na transformação
corporal, projetando corpos perfeitos para a sociedade, de modo que não basta ser saudável, é preciso ser
belo, jovem e ativo e estar na moda (FIGUEIRA, 2005).
A garantia de uma longa vida com plena saúde é simples e direta: é buscar um equilíbrio na sua vida,
buscando comer com moderação, ter uma alimentação saudável e realizar atividade física
regularmente.
O posicionamento científico é entendido, na visão de consumo, como comer pouco e malhar muito, o que
reforça um posicionamento errôneo e inadequado, uma vez que os indivíduos que não conseguem se adequar
à norma da boa forma e das práticas alimentares vistas como saudáveis são colocados na categoria de
rebeldes, não colaboradores e negligentes em relação ao autocuidado. Essas pessoas são vistas como
desajustadas e intratáveis e tendem a ser marginalizadas e ridicularizadas pelo grupo social (SANTOS et al.,
2019).
Atenção
Nos atendimentos ambulatoriais, esses pacientes levam a fama de indisciplinados, resistentes aos
tratamentos e prescrições e contrários às recomendações dos educadores em saúde. Por apresentarem
essa personalidade, segundo a visão dos profissionais de saúde, essas pessoas precisam ser “colocadas
na linha”, ou, na melhor das hipóteses, conquistadas, adestradas e disciplinadas. Resumindo, precisam
ser doutrinadas para que aceitem a verdade trazida pela ciência contemporânea como uma regra de
bem viver (SANTOS et al., 2019). 
A conduta do profissional em saúde acaba por reforçar essas normas, que são naturalizadas durante a
formação acadêmica e consolidadas na atuação profissional. Dessa forma, ao ouvirmos afirmações como “o
consumo excessivo de açúcar causa graves danos à saúde”, podemos fazer uma conexão direta com um
discurso perfeitamente aceitável, reconhecendo-o como um problema a ser extinto nas práticas
desenvolvidas com a população vulnerável à obesidade e ao diabetes mellitus.
Fazer com que as pessoas tenham consciência de seus erros e de suas extravagâncias alimentares torna-se
algo muito desejável, sendo a modificação de comportamento o objetivo a ser alcançado. Não se leva em
consideração se os valores, crenças e atitudes que a pessoa traz em seu contexto cultural e social a levam a
pensar que o melhor é comer de tudo, evitando o desperdício, ou que uma refeição rica em calorias é a que
realmente sustenta e satisfaz as necessidades diárias, discursos que perpassam as camadas populares
(SANTOS et al., 2019).
Também é ignorado o fato de que os avanços tecnológicos impactaram e modificaram as mudanças de
hábitos, favorecendo um estilo de vida sedentário e uma cultura que vai na contramão dos que
defendem a boa saúde. Há uma exaltação ao sedentarismo e ao consumo de alimentos pouco saudáveis;
dorme-se cada vez menos, para que se invista mais tempo no ato de produzir e consumir sem parar. Em
vez de consumir para viver, o tema é viver para consumir
SANTOS et al., 2019.A estetização da saúde é destacada como um evento cultural no qual a pressão social pela busca da
saúde por meio da realização de atividades físicas, dietas e procedimentos estéticos é associada à
saúde de uma forma errônea.
É interessante que até as próprias políticas públicas de saúde parecem se aproximar dessa padronização, já
que os conceitos de “autoestima”, “autoconfiança”, e “autocuidado” fazem parte de políticas e programas
utilizados pelo Estado. Isso tem como base os princípios de organismos, instituições internacionais e políticas/
programas nacionais — a chamada “fórmula da saúde”, sobre a qual se reforça a importância corporal e a
individualidade nos cuidados com a saúde (NOGUEIRA, 2011).
É com base na condição socioeconômica e cultural do capitalismo que podemos pensar sobre os
diversos conceitos de saúde, entre eles a estetização da saúde.
• 
 
Isso porque o conhecimento sobre saúde e sua interação com a aparência precisa ser localizado e
relacionado ao controle da sociedade sobre os modos de sentir e cuidar do corpo. O mercado, ao ditar
regras de “boa saúde”, baseia-se na estética do corpo (NOGUEIRA, 2011).
É difícil entender um estado que coloca os indivíduos como responsáveis por sua condição de saúde,
reforçando a tendência de enxugamento de gastos com políticas públicas, o que facilita uma possível
aproximação das atuais políticas de saúde com o fenômeno da estetização da saúde.
Exemplo
Temos, por exemplo, a Política Nacional de Promoção da Saúde e a Política Nacional de Atenção Básica,
que destacam a necessidade de realização de atividade física, alimentação saudável e modos de vida
saudável. O Ministério da Saúde, por sua vez, tem lançado recomendações e orientações sobre como
promover saúde, ressaltando que o indivíduo precisa ter um peso saudável, se exercitar e se alimentar
melhor para manter/recuperar a qualidade de vida. 
Com base em toda a discussão realizada até aqui, a estetização da saúde é um fenômeno que está conectado
aos diferentes interesses e à subjetividade das pessoas e que segue as leis da “saúde em forma” impostas
pelo mercado. Primeiramente, como já vimos, o capital fortalece a indústria do bem-estar, a qual, além de
alcançar lucros alarmantes, fornece produtos e itens “da saúde” na promessa de que, ao adquiri-los, a pessoa
terá um estilo de vida saudável e, assim, irá garantir uma boa saúde (LUZ, 2003).
 
Esse movimento cultural da exaltação ao corpo e à saúde da sociedade contemporânea envolve as práticas
de atividades físicas além de dietas, cirurgias plásticas, uso de produtos cosméticos, enfim, tudo o que
responda à preocupação de se ter um corpo bonito e/ou saudável. E esses aspectos podem ser identificados
no dia a dia das pessoas, em que elas se veem obrigadas a seguir padrões e adquirir itens com o intuito de
obter “saúde” (LUZ, 2003).
Assim, podemos verificar a ampla divulgação da estetização da saúde, que está arraigada no dia a
dia das pessoas e alimenta essa necessidade de os sujeitos adotarem um estilo de vida saudável.
As determinações para o surgimento e o alcance desse fenômeno estão diretamente relacionadas aos
processos econômicos e culturais da fase atual do capitalismo, que ditam os padrões de saúde e beleza a
serem seguidos, cada vez mais associados ao culto ao corpo e ao individualismo.
• 
Mudança de comportamento 
Essas propostas, além de promoverem uma
alteração individual de comportamento,
colocam o enfrentamento à obesidade e ao
sedentarismo como um dos eixos de ações.
Consciência e contexto 
Por outro lado, é necessário ter a
consciência de que culpabilizar a
pessoa pela maneira como ela se
alimenta é desconsiderar os aspectos
socioeconômicos e culturais envolvidos
nessa questão.
Resumindo
Tudo o que foi discutido neste módulo evidencia a pressão social e cultural pela busca incessante do
corpo perfeito e “saudável”, sob o discurso da “saúde”, bem como suas repercussões sobre esta, que
precisam ser debatidas e enfrentadas, sobretudo no campo das políticas públicas. 
A Relação entre a Cultura, Padrões e Valores de uma Sociedade
A especialista Carine Sena fala sobre a influência da cultura nos padrões e valores de uma sociedade.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Verificando o aprendizado
Questão 1
Julgue os itens a seguir:
( ) Cultura de massa é o conjunto das práticas e dos valores compartilhados por vastos
segmentos das sociedades ocidentais modernas e cujos conteúdos são transmitidos
principalmente pelos meios de comunicação de massa.
( ) A cultura de massa é própria da era industrial e foi possibilitada pelas técnicas de
reprodutibilidade de imagens e sons aplicadas ao tempo livre e à informação.
( ) A cultura de massa está relacionada à sociedade de consumo e à existência de uma
indústria que produz cultura como mercadoria, em grande escala, fabricando-a segundo
exigências econômicas.
É correto o que se afirma em:
A
V; V; V
B
V; F; V
C
V; F; F
D
F; V; V
E
F; V; F
A alternativa A está correta.
A massificação do consumo exige uma padronização de relações e a excitação de certos discursos sobre
si. As mercadorias não são valorizadas pelo uso ou por seu valor de troca; elas têm conexões irreais e
simbólicas que causam encanto, tornando-as ainda mais atraentes.
Questão 2
(IF-TO - 2016 - IF-TO - Professor Educação Física). Sobre as relações entre mídia e corpo, é
incorreto afirmar:
A
O culto ao corpo coloca-se hoje como preocupação geral, atravessando todos os setores, classes sociais e
faixas etárias, apoiado em um discurso ora voltado à questão estética, ora à preocupação com a saúde.
B
A percepção do corpo na atividade é dominada pela existência de um vasto arsenal de imagens visuais e
técnicas que investem na transformação corporal, projetando corpos perfeitos para sociedade, de modo que
não basta ser saudável: há que ser belo, jovem, estar na moda e ser ativo.
C
A sociedade, a propaganda e a mídia, sem se darem conta, trazem danos aos indivíduos. É comum, nos dias
de hoje, encontrarmos pessoas que colocam suas vidas em riscos, consumindo remédios para emagrecer e
anabolizantes, fazendo cirurgias desnecessárias. É muito comum encontrarmos também pessoas com algum
tipo de doença, como anorexia, bulimia e vigorexia entre outros.
D
Na atualidade, o corpo se tornou um objeto manipulado pela sociedade, e isso mostra como somos submissos
aos padrões de beleza impostos pela sociedade econômica, pela mídia e pela propaganda.
E
O corpo estético na sociedade é enfatizado pela mídia e pela propaganda no objetivo de fazer indivíduos
críticos, pois a sociedade é composta pelo sistema econômico em que estamos entrelaçados e pelos padrões
a serem estabelecidos na sociedade. Hoje é o caso do corpo na sociedade, em que o corpo é respeitado em
suas individualidades e não está inserido no padrão estabelecido pela sociedade.
A alternativa E está correta.
A sociedade exalta o corpo estético por meio da mídia e da propaganda com a intenção de criar pessoas
consumidoras. Assim, o sistema econômico e os padrões que seguimos são impostos pela comunidade e
sociedade.
3. Cultura com saúde, doença e cura
A relação da cultura com a concepção de doença
Vimos como os aspectos socioculturais podem
interferir nos corpos e na compreensão sobre
eles. Os integrantes de uma cultura, além de
elaborar valores e padrões dos corpos físicos,
também constroem concepções e parâmetros
sobre o que é ser saudável ou doente
(LANGDON; WIIK, 2010).
 
Discutimos também como a cultura e os
elementos que a caracterizam atuam como
fontes mediadoras de transformações sociais,
fortemente politizadas, apropriadas,
modificadas e manipuladas por grupos sociais
ao longo da história da civilização. Cada grupo se relaciona com um ambiente físico específico, e a sua cultura
determina como sobreviver nesse espaço, modificando-o para poder se adaptar a ele.
 
Antropologicamente, deve-se levar em consideração o relativismo cultural, ou seja, ao se deparar com
culturas distintas, deve-seevitar os juízos de valor pautados em sua própria cultura; deve-se observá-las
segundo os valores, as crenças e os conhecimentos que apresentam.
Compreender o comportamento humano permite um maior entendimento dos sistemas de interpretação
criados pela imaginação do próprio homem, que nos colocam em um lugar simbólico, que é característico da
nossa existência tanto quanto o nosso corpo físico. A cultura auxilia no exercício da nossa liberdade, mas, ao
mesmo tempo, nos limita.
Liberdade 
De um lado, as pessoas não são apenas
agentes passivos, mas atores ativos da
cultura.
Limite 
Do outro, a cultura pode ser uma
forma de opressão social (SILVA; LEITE;
PAULINO, 2016).
A habilidade de questionar seus próprios padrões de comportamento e alterá-los é comum na sociedade. As
sistematizações culturais são um processo contínuo de modificação, como os padrões de comportamento
moral, de beleza e até mesmo as questões relacionadas à saúde.
Cada cultura se comporta de forma diferente ao conceituar, vivenciar e elaborar instituições para lidar
com as questões de saúde, doença, morte e cura. Os conceitos de saúde e doença formam um binômio
que tem sua base pautada nas características econômicas, políticas e culturais. Podemos deduzir que
cada pessoa adota um conceito sobre o que é saúde, e esse conceito varia de acordo com a idade do
indivíduo, sua crença religiosa, seus valores pessoais, a classe social na qual está inserido, entre outros
fatores 
BERGER; LUCKMANN, 2002.
Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a definição de saúde tem como base um estado de completo
bem-estar físico, mental e social, e não apenas ausência de doenças e patologias. Desse modo, tudo o que foi
especificado pela OMS passa a fazer parte dos termos determinantes para a sistematização da saúde.
Saúde e doença sob o ponto de vista da cultura
A Antropologia da Saúde compreende o corpo do paciente, que busca auxílio médico pautado em sua
experiência de vida e cultural. Esse paciente vivencia as múltiplas oportunidades de se tornar um ser humano
a partir dos aspectos culturais oferecidos.
 
Assim, a corporeidade passa a ser não somente biológica, mas também religiosa, histórica, emocional,
cognitiva e artística, desviando o foco da questão da cura para além da tentativa de apenas eliminar algo
indesejado (gordura, tumor, vírus, bactéria etc.) e observando-a a partir da transformação da pessoa ao longo
do processo de cura (CSORDAS, 2008).
Comentário
A relação entre o doente e o agente de cura não pode ser analisada somente por meio da demanda aos
atendimentos biomédicos porque tais relações também agrupam processos místicos, religiosos, crenças
populares, automedicação, entre outros (KLEINMAN,1986). 
O cuidado informal é caracterizado por ser
praticado por pessoas leigas, ou seja, por
pessoas que não são especialistas da área da
saúde. Esse é o cuidado realizado por
familiares, amigos, vizinhos e ocorre por meio
da troca de conselhos, informações e
experiências. Por não ser remunerado, esse
tipo de cuidado informal pode ser
desvalorizado. Também é difícil estabelecer
limites e o alcance desse tipo de cuidado.
Todos nós, em algum momento, somos
beneficiados por esse cuidado informal, assim
como muitos de nós somos ou seremos
cuidadores (MIWA,2015).
 
O cuidado informal também pode ser realizado por pessoas conhecidas pela população como curadores, mas
que não fazem parte do sistema médico convencional. Esses curadores têm conhecimentos específicos sobre
certas doenças e tratamentos, como é o caso dos curandeiros, xamãs e benzedeiras (HELMAN,2009).
Os curandeiros, por pertencerem às classes mais populares, são capazes explicar a doença ao paciente
utilizando uma linguagem mais acessível à população, proporcionando um sentido ao mal que está sendo
vivido. Isso faz com que, muitas das vezes, a população prefira consultar o curandeiro em vez de procurar
ajuda médica, mas esse comportamento não significa uma rejeição à Medicina oficial.
Atenção
Há uma gama de tratamentos não biomédicos disponível, porém esses tratamentos não são conhecidos.
No entanto, pesquisas referentes aos tratamentos alternativos demonstram um bom índice de cura. Na
atualidade, a crença pautada em algo que não seja o modelo biomédico é desvalorizada tanto pelo
discurso que desvaloriza o não biomédico como pela idolatria dos conhecimentos científicos, que, por
sua vez, carece do entendimento da complexidade e diversidade do ser humano em sua completude
(SILVA; LEITE; PAULINO, 2016). 
Além disso, as diversas terapias alternativas apresentam índices expressivos de cura e manutenção a saúde,
como florais, cristais, reiki, acupuntura etc. Outros tratamentos religiosos, como passes espíritas, círculos de
oração, johrei, entre outras tantas possibilidades de tratamentos não biomédicos, podem ser capazes de
integrar o ser humano dentro da sua complexidade, descobrindo e compreendendo os diversos mecanismos
que possam ser eficientes na cura, reforçando a harmonia com a natureza e a manutenção da saúde (SILVA;
LEITE; PAULINO, 2016).
O processo que engloba a doença e a cura é um ritual de saúde e transformação. Do ponto de vista
antropológico, todos os pré-requisitos biomédicos para a cura são um início de separação. A nossa
prática asséptica, a higienização corporal e a dieta geralmente são prescritas no início dos tratamentos e
auxiliam nessa função simbólica de separação entre os momentos de doença e saúde. Com isso, o foco
da cura passa a não ser apenas a eliminação da doença, mas todo o processo de transformação da
pessoa 
LARRUBIA; JÚNIOR; FREITAS, 2019.
Apesar de ser um ator ativo na busca por serviços de saúde, o indivíduo transita entre significados
conhecidos e desconhecidos de sua própria cultura e costumes. O corpo e a aparência saudáveis são,
especialmente no Brasil, um autêntico capital social, essa “natureza cultivada” representa um corpo saudável,
trabalhado, e sua aparência deve ser perfeita. Assim, a aparência corporal se apresenta como um dos
parâmetros de posição social. Pensando desse modo, a doença se coloca como uma desordem corporal e
relacionada a uma desordem social (LARRUBIA; JÚNIOR; FREITAS, 2019).
Sistema de atenção à saúde
O sistema de atenção à saúde engloba todos os elementos existentes em uma sociedade em relação à saúde,
incluindo o que se sabe sobre origens, causas e tratamentos das doenças, as técnicas terapêuticas, os
papéis, os padrões e agentes ativos nesse cenário. São incluídos nesses elementos as relações de poder e as
instituições destinadas à restauração ou à manutenção da saúde. Esse sistema é mantido por esquemas de
figuras que se expressam por meio de práticas, interações e instituições; todos adequados à cultura do grupo,
cultura essa que irá definir, explicar e classificar os fenômenos percebidos e classificados como doença.
O sistema de atenção à saúde não se desassocia de outros aspectos gerais da cultura, da mesma
forma que um sistema social não se distancia da organização social de um grupo.
 
Logo, a maneira de pensar e organizar de determinado grupo social influenciará diretamente a maneira
como seus integrantes manterão sua saúde e os ajudará a enfrentar episódios de doença.
Existem diversos e complexos sistemas de atenção à saúde de acordo com cada cultura. No Brasil, o sistema
médico legitimado é o biomédico, denominado Sistema Único de Saúde. Porém, a população procura a
medicina popular, sistemas médico-religiosos ou o misto deles durante o processo de doença e cura (SILVA;
LEITE; PAULINO, 2016).
• 
• 
Podemos identificar uma semelhança entre o corpo biológico e a cura biomédica. O indivíduo, visto como
corpo biológico precisa ser minuciosamente analisado e tratado pela Medicina Biomédica, direcionada
somente para o corpo biológico.
Atenção
Também podemos perceber a interação entre corpo subjetivo e cura simbólica. O corpo subjetivo sofre
influência direta da cultura local e é rejeitado pelo corpo social formado mediante o discurso de poder
dominante. Da mesma maneira, a curasimbólica é percebida e divulgada por meio do próprio discurso e
é lançada no mesmo caminho de desvalorização e marginalização (SILVA; LEITE; PAULINO, 2016). 
Precisamos reconhecer que o nosso corpo é um mero fruto da cultura e que a biologia tem o potencial de
transformar nossa compreensão tanto de corpo como da cultura. Por um lado, se o corpo pode se colocar
como base para existência da cultura e do sujeito em vez de o simples substrato biológico de ambos, o
caminho estaria livre para o entendimento do corpo como não somente biológico, mas igualmente religioso,
linguístico, histórico, cognitivo, emocional e artístico (CSORDAS, 2008, p. 37).
A Relação entre a Saúde e a Doença
A especialista Carine Sena fala sobre a influência do padrão da saúde no processo saúde e doença.
Sistema de atenção à saúde 
Se apresenta tanto como um sistema cultural
quanto como um sistema social de saúde. É
composto por instituições ligadas à saúde,
por organização das funções específicas de
cada profissional da saúde envolvido e por
regras de interação, assim como as relações
de poder presentes.
Sistema de cura biomédico 
Está atrelado ao corpo social composto
pela universalidade dos desejos, como
se os desejos dos indivíduos estivessem
em consenso, formando um bloco
único (FOUCAULT, 1979).
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Verificando o aprendizado
Questão 1
Ao considerarmos que determinada cultura deve ser analisada e avaliada a partir de seus
próprios moldes e padrões, seguimos o princípio antropológico da(o):
A
Aculturação
B
Etnocentrismo
C
Relativismo cultural
D
Identidade étnica
E
Organização social
A alternativa C está correta.
A concepção antropológica considera o relativismo cultural, ou seja, ao se deparar com culturas diferentes,
não realize julgamentos de valor com base no seu próprio sistema cultural, passando a olhar as outras
culturas segundo seus próprios valores e conhecimentos.
Questão 2
Quando pensamos em eventos relacionados à saúde, à doença e à cura, compreendemos que
somos um reflexo do repertório sociocultural. Assinale a alternativa que não corresponde ao
enunciado:
A
A diversidade das organizações sociais e dos sistemas culturais influenciam as formas de atenção à saúde
nas sociedades modernas.
B
Os usos físicos do corpo independem do conjunto de sistemas simbólicos.
C
As determinações culturais incidem na construção das demandas por atenção à saúde.
D
Desenvolver atitudes críticas nas análises de respostas a eventos relacionados à saúde, à doença e à cura é
essencial.
E
Os valores socioculturais nos capacitam para formular respostas a situações de adoecimento.
A alternativa B está correta.
A Antropologia da Saúde entende o corpo do paciente e que ele busca auxílio médico pautado em sua
experiência de vida e cultural. Esse paciente vivencia as múltiplas oportunidades de “fazer-se humano” a
partir de possibilidades culturalmente oferecidas.
4. Conclusão
Considerações finais
Vimos a relação da cultura com o corpo, com a imagem corporal e com a subjetividade. Discutimos também a
lógica do consumo e como ela pode contribuir para a formação de identidades, além de também poder abalar
o emocional das pessoas. Finalizamos abordando a importância do cuidado informal somado ao cuidado
biomédico com o objetivo de atender o indivíduo holisticamente.
 
Neste tema, vimos a relação da cultura com o corpo, com a imagem corporal e com a subjetividade.
Discutimos também a lógica do consumo e como ela pode contribuir para a formação de identidades, além de
abalar o emocional das pessoas.
 
Estudamos ainda a relação da construção do ser humano relacionada ao biológico de maneira dominante.
Porém, na atualidade, temos que considerar outras possibilidades de tratamento, além do biomédico, para a
cura de doenças físicas e mentais. Vimos também que, para a ciência biomédica, mente e corpo, o subjetivo e
o físico, são vistos a princípio como elementos separados, mas que se interrelacionam no contexto
sociocultural.
 
Por sermos sujeitos de variadas culturas, as intervenções e interpretações sobre os problemas vivenciados
pelas pessoas ou tratados pelos profissionais de saúde formados no sistema biomédico precisam ser
analisadas pela perspectiva do relativismo cultural, evitando, dessa maneira, adotar posturas e análises
individualistas por parte desses profissionais.
Podcast
Agora, a especialista Carine Sena encerra o tema falando sobre a importância do atendimento holístico
ao paciente, os riscos à saúde dos tratamentos baseados nos padrões da sociedade e a melhoria das
políticas de saúde pública no cuidado com o corpo.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para ouvir o áudio.
Explore+
Veja como os autores abordam o tema antropologia, saúde e doença:
 
No artigo Antropologia da saúde e doença: contribuições para os serviços públicos de saúde, de Bruno
Costa Larrubia, Nelson Edson da Silva Junior e Isadora Mascarenhas de Freitas.
Nos livros Corpo, significado, cura (CSORDAS, 2008) e Cultura, saúde e doença (HELMAN, 2009).
Referências
ANTÉRIO, D.; SILVA, P.N.G. O corpo e seus diversos significados: uma análise reflexiva acerca da subjetividade
corporal. Revista Eletrônica de Ciências da Educação, v. 10, n. 1, 2011.
 
• 
• 
BERGER, P. L.; LUCKMAN, T. A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento. 22. ed.
Petrópolis: Vozes, 2002.
 
CSORDAS, T. Corpo, significado, cura. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2008.
 
FIGUEIRA, M. A revista “Capricho” como uma pedagogia cultura: saúde, beleza e moda. In: XIV Congresso
Brasileiro de Ciências do Esporte. Anais. Porto Alegre, 2005.
 
FOUCAULT, M. A microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.
 
HELMAN, C. G. Cultura, saúde e doença. Porto Alegre: Artmed, 2009.
 
KLEINMAN, A. Social origins of distress and disease: depression, neurasthenia and pain in modern China. New
Haven: Yale University Press, 1986.
 
LARRUBIA, B. C.; JÚNIOR, N. E. S.; FREITAS, I. M. Antropologia da saúde e doença: contribuições para os
serviços públicos de saúde. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento, v. 4, n. 8, 2019.
 
LANGDON, E. J.; WIIK, F.B. Antropologia, saúde e doença: uma introdução ao conceito de cultura aplicado às
ciências da saúde. Rev. Latino-Am. Enfermagem, n. 18, v. 3, 2010.
 
LUZ, M. As novas formas de saúde: práticas, representações e valores culturais na sociedade contemporânea.
Revista Brasileira Saúde da Família, v. 9, 2003.
 
MIWA, M. Fundamentos Socioantropológicos da Saúde. Rio de Janeiro: SESES, 2015.
 
MORIN, E. Cultura de massas no século XX: neurose. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.
 
NOGUEIRA, R. P. Higiomania: a obsessão com a saúde na sociedade contemporânea. In: VASCONCELOS, E. M.
(org.). A saúde nas palavras e nos gestos: reflexões da rede educação popular e saúde. São Paulo: Hucitec,
2011.
 
SANTOS, M. A. et al. Corpo, saúde e sociedade de consumo: a construção social do corpo saudável. Saúde
Soc., v. 28, n. 3, 2019.
 
SILVA, H. P. F.; LEITE, G. S.; PAULINO, S. F. Doença e cura em uma perspectiva sócio-cultural. Dinámica de la
cultura de la ciudadanía y de la inclusión social, v. 20, n. 4, 2016.
 
VÍCTORA, C. G. Corpo, saúde e doença na Antropologia. In: Pesquisa qualitativa em saúde: uma introdução ao
tema. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2000.
	Corpo e Saúde na Visão Socioantropológica
	1. Itens iniciais
	Propósito
	Preparação
	Objetivos
	Introdução
	1. Corpo, cultura e a subjetividade
	Corpo biológico x corpo subjetivo
	Definição de cultura
	Comentário
	Relação da cultura com o contexto histórico
	Atenção
	Comentário
	Cultura na atualidade
	Atenção
	Corpo, Cultura e Subjetividade
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	Com relação ao corpo biológico, é correto afirmar que:
	Com base na afirmação de que a cultura é aprendida, compartilhada e padronizada, defendida por Langdon e Wiik (2010), assinale a alternativa correta:
	2. Corpo estético, estéticae sociedade
	Corpo estético
	Massificação do consumo em relação à estética
	Comentário
	Estética e saúde
	Atenção
	Exemplo
	Resumindo
	A Relação entre a Cultura, Padrões e Valores de uma Sociedade
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	Julgue os itens a seguir:( ) Cultura de massa é o conjunto das práticas e dos valores compartilhados por vastos segmentos das sociedades ocidentais modernas e cujos conteúdos são transmitidos principalmente pelos meios de comunicação de massa.( ) A cultura de massa é própria da era industrial e foi possibilitada pelas técnicas de reprodutibilidade de imagens e sons aplicadas ao tempo livre e à informação.( ) A cultura de massa está relacionada à sociedade de consumo e à existência de uma indústria que produz cultura como mercadoria, em grande escala, fabricando-a segundo exigências econômicas.É correto o que se afirma em:
	(IF-TO - 2016 - IF-TO - Professor Educação Física). Sobre as relações entre mídia e corpo, é incorreto afirmar:
	3. Cultura com saúde, doença e cura
	A relação da cultura com a concepção de doença
	Saúde e doença sob o ponto de vista da cultura
	Comentário
	Atenção
	Sistema de atenção à saúde
	Atenção
	A Relação entre a Saúde e a Doença
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	Ao considerarmos que determinada cultura deve ser analisada e avaliada a partir de seus próprios moldes e padrões, seguimos o princípio antropológico da(o):
	Quando pensamos em eventos relacionados à saúde, à doença e à cura, compreendemos que somos um reflexo do repertório sociocultural. Assinale a alternativa que não corresponde ao enunciado:
	4. Conclusão
	Considerações finais
	Podcast
	Conteúdo interativo
	Explore+
	Referências

Mais conteúdos dessa disciplina