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ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental 1 III-062 - GESTÃO DE ÓLEO LUBRIFICANTE USADO E CONTAMINADO EM ATIVIDADES DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS Nilo Cesar Sanuto Leite (1) Gestor Ambiental pela Universidade Castelo Branco (UCB). Pós-Graduado em Perícia Auditoria e Análise Ambiental pela Universidade Candido Mendes (UCAM) e em Engenharia Sanitária e Ambiental pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Supervisor de Segurança do trabalho. Alena Torres Netto (2) Engenheira Agrônoma pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro Civil pela Escola de Engenharia Kennedy. Mestre e Doutora em Produção Vegetal pela Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF). Professora Adjunta da UERJ. Nathalia Salles Vernin Barbosa (3) Farmacêutica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Engenheira Química pela UERJ. Mestre e Doutora em Engenharia Química pela UERJ. Professora Adjunta da UERJ. Rosane Cristina de Andrade (4) Engenheira Ambiental pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Mestre e Doutora em Engenharia Civil, Área de Concentração Sanitária e Ambiental pela UFV. Professora Adjunta da UERJ. Endereço: Rua Francisco Xavier, 524 - Maracanã – Rio de Janeiro - RJ - CEP: 20550-013- Brasil - Tel: (21) 2334- 0000 - e-mail: nsanuto@yahoo.com.br RESUMO O crescente aumento dos pequenos prestadores de serviços automotivos e do volume gerado de óleo lubrificante usado tem aumentado significativamente a quantidade de resíduos que são descartados. Os resíduos de óleo lubrificante usado ou contaminado (OLUC) contêm substâncias tóxicas que representam um problema socioambiental em ascensão. Os postos de combustíveis, borracharias e oficinas mecânicas, assim como outros estabelecimentos, recebem o maior volume deste resíduo do setor. Estes resíduos devem receber tratamento específico, conforme legislação vigente. No Brasil, existem legislações que regulamentam o gerenciamento do OLUC, tais como: Resolução CONAMA n° 362/05, que dispõe sobre as regras de recolhimento, coleta e destinação final do OLUC, Política Nacional de Resíduos Sólidos - Lei Federal n°12.305 de 2010 (logística reversa), Portarias da ANP que auxilia na execução das resoluções e a Norma Brasileira NBR n° 10.004, editada pela ABNT, que classifica o OLUC, quanto aos seus aspectos de nocividade. Diante deste cenário preocupante, este trabalho traçou um panorama da situação atual do OLUC nos postos de combustíveis, borracharia e oficinas mecânicas do bairro de Realengo, localizado na cidade do Rio de Janeiro – RJ, por meio de um estudo investigatório piloto sobre o gerenciamento do OLUC. Foram realizadas entrevistas em 06 postos de combustíveis, 07 borracharias e 06 oficinas mecânicas. A maioria possui acima de 08 funcionários. Na maior parte das empresas pesquisadas, são gerados entre 1.050 e 3.123 litros de óleo usado mensais. Com relação às embalagens vazias, são geradas em torno de 320 e 938 embalagens. Cerca de 30% das empresas fazem uso de tanque subterrâneo para depositar o OLUC, e 30% utilizam recipientes plásticos. Em se tratando de destinação adequada ao OLUC, 79% das empresas destinam o OLUC à reciclagem, tendo ainda outros resíduos, no qual 58% são destinados a empresa especializada. Das empresas pesquisadas, 68% afirmam ter fiscalização em seus estabelecimentos, não havendo uma frequência previamente estabelecida. Os resultados demonstram ainda que 79% possuem conhecimento sobre os impactos ambientais que são provocados pela destinação incorreta dos resíduos. É possível ainda constatar através da pesquisa, que tanto os óleos lubrificantes como as embalagens não são tratados e não tem uma destinação final correta. Por ser um resíduo tóxico, a legislação ambiental atual torna obrigatório o recolhimento e destinação adequada, e posteriormente a reciclagem. Logo, foi constatado que existe carência de conhecimento sobre a temática, e que campanhas educativas são necessárias tendo como público-alvo os proprietários e funcionários de todos os empreendimentos estudados que realizam a troca de óleo, destacando os danos ambientais causados pelos lubrificantes e necessitando de condutas corretas para o armazenamento e coleta do produto. PALAVRAS-CHAVE: Gestão Ambiental, Logística Reversa, Resíduos Sólidos, Educação Ambiental. ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental 2 INTRODUÇÃO Um dos grandes problemas ambientais do planeta é, curiosamente, uma das maiores paixões da humanidade. O século 20 foi marcado pelo ‘boom’ do automóvel, que se transformou num sonho de consumo da era moderna (TRIGUEIRO, 2005). Entretanto, o setor automotivo, além de gerar vários impactos ambientais na sua produção, gera também o chamado impacto pós-venda (ou impacto de consumo), que segundo a Resolução n° 37/2009 (PARANA, 2009), caracteriza-se pelo dano ambiental causado pelo produto após sua produção. No caso dos automóveis, um dos principais impactos ao meio ambiente gerado pelo seu uso é a poluição atmosférica causada pela queima do combustível, necessário para o funcionamento do veículo (DRUMM et al., 2014). Há também os impactos secundários que são gerados a partir do uso/manutenção desse bem. Por exemplo, a troca do óleo do motor, apesar de ser um procedimento convencional, gera o óleo lubrificante usado ou contaminado (OLUC). Os resíduos de OLUC contêm substâncias tóxicas e, aliado ao alto volume que é produzido, devido à crescente expansão do número de pequenos prestadores de serviços, representa um problema socioambiental em ascensão. Os postos de combustíveis, borracharias e oficinas mecânicas, assim como outros estabelecimentos, recebem o maior volume deste resíduo do setor. Tais resíduos devem receber tratamento específico, conforme legislação vigente. No Brasil, existem leis que regulamentam o gerenciamento do OLUC: a Resolução CONAMA n° 362/2005, que dispõe sobre as regras do recolhimento, coleta e destinação final do OLUC, a Lei Federal n° 12.305/2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, as Portarias da Agência Nacional de Petróleo (ANP) que auxiliam na execução das resoluções e a Norma Brasileira NBR n° 10.004, editada pela ABNT, que classifica o OLUC quanto aos seus aspectos de nocividade. Conforme dados ANP no balanço lançado no início de 2021, no Brasil, em 2020, foram comercializados cerca de 1,07 bilhões de litros de óleo lubrificante, sendo devidamente coletados, somente, 4,55 milhões de litros. Depreende-se, portanto, que apenas 42,61% de todo óleo comercializado foi destinado à coleta. Resultado superior ao valor da meta nacional prevista de 42,00% na Portaria Interministerial MMA/MME nº 475 de 2019, mas, ainda preocupante, pois o descarte inadequado no solo e nos cursos d’água causam danos ambientais, muitas vezes irreversíveis. Diante do exposto, é preciso implementar a prática da logística reversa e cumprir a meta de coleta estabelecida pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), que atualmente prevê novos índices para a coleta mínima de óleo lubrificante no Brasil para o quadriênio 2020/2023, que deve chegar ao percentual de 47,5% até 2023. Logo, o presente trabalho analisou a gestão de troca de óleo lubrificante usado ou contaminado nos pequenos prestadores de serviços (oficinas mecânicas, postos de combustíveis e borracharias) no bairro de Realengo, na cidade do Rio de Janeiro, RJ. Por ser uma localidade com um fator de periculosidade no que tange à segurança pública, há uma dificuldade de fiscalização dos órgãos ambientais localizados na região metropolitana do Rio de Janeiro com foco na resolução Conama nº 362/2005. MATERIAIS E MÉTODOS A metodologia empregada apresentou caráter exploratório e descritivo sobre os resíduos de óleo lubrificantes gerados nos postos de troca de óleo. Delimitaram-se como universo da pesquisa sete oficinasmecânicas, seis borracharias e seis postos de combustíveis, totalizando dezenove locais inspecionados no bairro de Realengo na cidade do Rio de Janeiro, no período de agosto de 2021 a outubro de 2021. Como critério de seleção, adotou-se locais com difícil acesso à fiscalização devido à periculosidade do local. Por meio de pesquisa de campo, aplicou-se um questionário nos 19 locais inspecionados, com base na resolução CONAMA n° 362/2005, que trata sobre acondicionamento de OLUC, e na NBR 10.004/2004, que trata o óleo lubrificante como resíduo perigoso. O questionário foi dividido em quatro seções, que abordam cada uma: o próprio OLUC, as embalagens vazias, outros tipos de resíduos e os conhecimentos dos geradores sobre o procedimento correto Os entrevistados também foram questionados sobre a quantidade de óleo lubrificante usado e de embalagens geradas mensalmente nos respectivos estabelecimentos. ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental 3 Por fim, foi realizada a descrição e a análise do modelo de gestão adotado pelos postos de troca de óleo automotivo do bairro de Realengo, RJ, em relação aos resíduos produzidos. RESULTADOS O presente trabalho traçou um panorama da situação atual do OLUC nos postos de combustíveis, borracharia e oficinas mecânicas no bairro de Realengo, Rio de Janeiro/RJ, por meio de um estudo investigatório piloto sobre o gerenciamento do OLUC. A maioria dos estabelecimentos entrevistados possuem mais de 8 funcionários, e com geração de óleo usado entre 1.050 e 3.123 litros mensais. Com relação às embalagens vazias, são geradas em torno de 320 a 938 embalagens mensalmente. A forma de armazenamento utilizada pelas empresas para depositar o OLUC são tanques subterrâneos e recipientes plásticos. Em se tratando da destinação adequada, 79% das empresas destinam o óleo lubrificante usado e contaminado à reciclagem. Dos demais resíduos produzidos, 58% são destinados a empresas especializadas. Outros tipos de resíduos como estopas, graxas e panos contaminados, têm um percentual de 47% descartados em lixo comum e assim sendo encaminhados, de forma incorreta, para o aterro sanitário, uma vez que são resíduos contaminados. Das empresas pesquisadas, 68% afirmaram ter fiscalização em seus estabelecimentos, não havendo uma frequência previamente estabelecida. Os resultados demonstram ainda que 79% possuem conhecimento sobre os impactos ambientais que são provocados pela destinação incorreta dos resíduos. Foi possível constatar através da pesquisa que tanto os óleos lubrificantes usados como as embalagens descartadas não são tratadas e não têm uma destinação final correta. Por ser um resíduo tóxico, a legislação ambiental atual torna obrigatório o recolhimento e destinação adequada, e posteriormente a reciclagem. Logo, foi constatado que existe carência de conhecimento sobre a temática, e que campanhas educativas são necessárias tendo como público-alvo os proprietários e funcionários de todos os empreendimentos estudados que realizam a troca de óleo. Nesses treinamentos, é primordial a apresentação dos danos ambientais causados pelos lubrificantes e da importância de condutas corretas para o armazenamento e coleta do produto. Através da análise dos resultados, observa-se que os principais impeditivos para que a reciclagem mecânica de resíduos plásticos pós-consumo, de uma forma geral, se torne um negócio rentável refere-se à dificuldade de obtenção e segregação de insumo útil de boa qualidade e a falta de incentivo fiscal à reciclagem. A nível nacional, o crescimento do mercado de reciclagem é muitas vezes agravado pela vastidão do território, o que pode implicar em longas distâncias dos pontos de coleta aos de processamento, gerando custos elevados e emissões adicionais de gases de efeito estufa (VEIGA, 2013). É importante destacar que a embalagem pós-consumo, contendo resíduo oleoso, insere-se como um desafio ambiental persistente, especialmente, quanto a sua destinação final, uma vez que os materiais plásticos têm curtos ciclos de vida e longos tempos para degradação após seu descarte, contribuindo com o agravamento de problemas como impermeabilização dos solos, aumento do volume de lixões com proliferação de doenças e assoreamento dos rios e lagos. Além da contaminação de mananciais, de lençóis freáticos, do ar (quando há queima) e dos solos, os óleos lubrificantes ainda contam com metais pesados, como níquel, cádmio e chumbo, de alto poder carcinogênico (VIVEIROS, 2000). Mesmo quando há dispositivos de controle da poluição, como é o caso das Estações de Tratamento de Efluentes (ETEs), os óleos causam problemas: interferem no funcionamento tanto no tratamento biológico – quando muitas vezes impedem que o oxigênio chegue aos microrganismos – quanto nos processos físico-químicos. Alguns países, como o Brasil, optaram pela responsabilidade compartilhada, segundo a qual todos os agentes da cadeia são corresponsáveis pela gestão ambientalmente adequada dos resíduos. Isso tem possibilitado a consolidação de ações por acordos setoriais, dos quais participam as organizações produtoras, as empresas, as recicladoras, a sociedade, a academia e o governo. A Lei Federal nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, determina que qualquer ação que causar danos ao meio ambiente ou a saúde humana, que seja resultado da incorreta disposição de resíduos sólidos, é passível de reclusão (BRASIL, 1998). Nesse sentido cabe destacar que a educação ambiental assume cada vez mais uma função transformadora, na qual a corresponsabilização dos indivíduos torna-se um objetivo essencial para promover um novo tipo de desenvolvimento. ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental 4 CONCLUSÕES Com base no trabalho realizado, concluiu-se que: a) Em todos os estabelecimentos visitados, o descarte do óleo recolhido dos veículos para substituição não está sendo feito totalmente de forma adequada, ou seja, entregue para empresas de rerrefino licenciadas pelos órgãos ambientais, de acordo com as legislações vigentes. Foi constatado que 21% dos locais visitados não estão enviando o óleo lubrificante usado para o rerrefino, o que pode ser um reflexo da ausência de fiscalização em alguns locais. b) Foi possível identificar problemas de gestão nesses locais, sendo que a maioria dos funcionários não estavam preparados para descartar adequadamente os resíduos, apesar de a maioria ter algum tipo de conhecimento sobre a legislação aplicável à atividade. Outro fator é a falta de conscientização ambiental, mesmo com 30% dos entrevistados afirmando não conhecer a legislação, esses afirmaram ter conhecimento que podem provocar impactos ao ambiente pelo descarte inadequado de tais resíduos, porém, pelo fato de nunca terem presenciado nenhum tipo de impacto e nem consequências para o descumprimento, isso traz uma espécie de despreocupação. c) Os benefícios econômicos e ambientais trazidos pela logística reversa faz desse processo um importante instrumento no que refere ao gerenciamento de resíduos sólidos. No entanto, esse tópico ainda é pouco difundido e não possui tanta prioridade no ramo empresarial de algumas regiões. Passados aproximadamente 11 anos da instauração da Lei Federal nº 12.305/2010, observa-se que os avanços são considerados pequenos diante das inúmeras falhas no controle e fiscalização da gestão de resíduos sólidos. Ademais, a baixa adesão por parte das empresas e da população contribuem para que a destinação correta dos resíduos ainda apresente baixos quantitativos. d) Tendo em vista que o poder público enfrenta dificuldades quanto à realização e aplicação de novas políticas públicas, a implementação de parcerias público-privadas (PPP’s) poderia contribuir para o estabelecimento consistente da gestão compartilhada. Seria uma alternativa viável, possibilitandoa diminuição de custos para o município e permitindo a inclusão de mais empresas no processo de manejo de resíduos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. BRASIL. Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998. Dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, e dá outras providências. 1998. 2. BRASIL. RESOLUÇÃO CONAMA Nº 362, de 23 de junho de 2005: Dispõe sobre o Rerrefino de Óleo Lubrificante. 2005. Disponível em: http://www.mma.gov.br/port/ Conama/res/res05/res36205.xml 3. BRASIL. Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos; altera a Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998; e dá outras providências, Ministério do Meio Ambiente, Brasília, DF, 2010. 4. DRUMM, F. C. et al. Poluição Atmosférica proveniente da queima de combustíveis derivados do petróleo em veículos automotores. Reget/ufsm, Santa Maria, v. 18, p.66-78, 2014. 5. PARANÁ. Resolução nº 037, de 19 de agosto de 2009. Dispõe sobre a coleta, armazenamento e destinação de embalagens plásticas de óleo lubrificante pós-consumo no Estado do Paraná. Resolução n° 037/2009 - Sema. Curitiba, PR, 2009. 6. TRIGUEIRO, A. Mundo sustentável: abrindo espaços na mídia para um planeta em transformação. São Paulo: Globo, 2005. 7. VEIGA, M.M. Analysis of efficiency of waste reverse logistics for recycling. Waste Management & Research, v.31, p. 26-34, 2013. 8. VIVEIROS, M. Cerca de 28 mil litros de óleo poluem SP por ano. In: FOLHA ON LINE, 2000, disponível em http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u6713.shl