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1 CONTRATOS COMERCIAIS EM ESPÉCIE 2 Sumário CONTRATOS COMERCIAIS EM ESPÉCIE ....... Erro! Indicador não definido. NOSSA HISTÓRIA ............................................................................................. 3 CONTRATOS COMERCIAIS...............................................................................4 TIPOS DE CONTRATOS COMERCIAIS.............................................................9 QUEBRA CONTRATUAL..................................................................................13 PRINCÍPIOS GERAIS DOS CONTRATOS.......................................................25 REQUISITOS DE EXISTÊNCIA E DE VALIDADE CONTRATUAL...................30 CLASSIFICAÇÃO DOS CONTRATOS..............................................................32 REFERÊNCIAS.................................................................................................34 file://///192.168.4.5/v/Pedagogico/MODELO%20APOSTILA-%20AVALIAÇÃO/MODELO%20NOVO%20-%20APOSTILA.docx%23_Toc56085344 3 NOSSA HISTÓRIA A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empre- sários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade ofere- cendo serviços educacionais em nível superior. A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a partici- pação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber atra- vés do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 4 CONTRATOS COMERCIAIS A celebração de um contrato, independente da sua espécie, é caracteri- zada como um instrumento jurídico, que tem como objetivo gerar obrigações en- tre as partes envolvidas. Contudo, existem muitas dúvidas sobre as diferenças entre o contrato comercial e o contrato civil. A palavra contrato tem origem no latim contractu e significa “tratar com”, ou seja, realizar um acordo com alguém sobre um interesse em comum. Para que esse instrumento jurídico seja celebrado, alguns requisitos precisam ser cumpridos. As principais exigências são a existência de duas ou mais pessoas, de- finição do objeto do contrato, capacidade genérica para praticar os atos da vida civil, estar apto para realizar a contratação, ter a concordância de ambas as par- tes, o objeto do contrato precisa ser lícito, possibilidade física ou jurídica do ob- jeto do negócio jurídico e economicidade desse objeto. Esses requisitos exigem para impedir que algumas anomalias ocorram, como por exemplo, a celebração de um contrato de incorporação de sociedade, tendo um menor incapaz como uma das partes ou um acordo jurídico em que o objeto do contrato seja a transferência dos órgãos de um para o outro. O que é um contrato civil? O contrato civil é um tipo de instrumento regido pelo Direito Civil. É aquele praticado por qualquer pessoa que seja capaz, de acordo com as normas do Estatuto Civil. As espécies de contratos civis mais comuns são o contrato de casamento, de compra e venda, de arrendamento, de locações residenciais, em- preitada, mandato, prestação de serviços, entre outros. 5 Você sabe o que é um contrato comercial? O contrato comercial, regido pelo Direito Empresarial, é aquele praticado por comerciantes que estejam no exercício da sua profissão e em que o objeto do contrato é um ato de comércio. Há diversas espécies de contrato comerciais. As mais praticadas são os contratos comerciais de alienação fiduciária em garantia, promessa de compra e venda, de transporte, de mandato mercantil, de representação comercial, de gestão de negócio, de comissão, de mútuo mer- cantil, de seguro, de fiança mercantil, de know-how, de franchising, os contratos bancários e o contrato de compra e venda mercantil. Conheça a diferença entre contrato comercial e contrato civil O Código Empresarial no Brasil está inserido no novo Código Civil, por isso, a maioria das espécies de contrato são comuns a ambos. Porém, essa alteração unificou apenas algumas obrigações de direito privado e incluiu no Di- reito Civil alguns textos que tratavam de assuntos referentes ao Direito Comer- cial. Isso quer dizer que tanto o Direito Empresarial, como o Direito Civil, são disciplinas distintas que possuem, cada uma, sua autonomia. A diferença entre esses dois tipos de contrato está nas relações e obrigações que podem ser tra- tadas. No contrato comercial podem ser celebradas as relações jurídicas entre comerciantes ou empresários em que se desenvolva qualquer obrigação comer- cial. Já no contrato civil, estão enquadradas as relações entre pessoas não jurí- dicas que estejam relacionadas às obrigações civis. Essa questão é só uma das diversas dúvidas que pairam sobre o em- presariado brasileiro. Nosso escritório de advocacia é especializado em asses- soria de empresas de médio porte. https://www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI275268,71043-Direito+empresarial+e+a+empresa 6 Conceito e elementos do contrato. A conceituação dos Contratos é diversa na doutrina pátria e alienígena, no entanto, têm-se aceito com pacificação o conceito de Darci Bessone de Oli- veira (apud Martins, 2001, p. 62) que afirma ser o contrato “o acordo de duas ou mais pessoas para, entre si, constituir, regular ou extinguir uma relação jurídica de natureza patrimonial”. Este conceito genérico recebe uma delimitação comer- cial e civil. Há contratos comuns ao Direito Civil e ao Direito Comercial, outros são específicos ao Direito Comercial (v. g., contratos de direito marítimo). O contrato civil é aquele praticado por qualquer pessoa que seja capaz, conforme dispõe o Estatuto Civil. Já o contrato comercial é aquele praticado por comerciante no exercício de sua profissão, cujo objeto é um ato do comércio. Os contratos possuem elementos peculiares como: a sua formação, as obrigações que originam, as vantagens que podem trazer às partes, a realidade da contraprestação, o obedecimento de seus requisitos formais, sua execução, sua regulamentação legal, etc. Diante destes elementos há uma arraigada classificação como se são consensuais e reais, unilaterais ou bilaterais, gratuitos ou onerosos, comutativos ou aleatórios, solenes ou não-solenes, principais e acessórios, típicos ou atípi- cos, etc. Espécies de contratos e Compra e Venda Mercantil. Há diversas espécies de contratos mercantis, que regulam as mais di- versas relações jurídicas comerciais praticadas no direito pátrio. Exemplo destas espécies são os contratos: de alienação fiduciária em garantia, o de promessa de compra e venda, os de transporte, o de mandato mercantil, o de representa- ção comercial, o de gestão de negócio, o de comissão, o de mútuo mercantil, o de seguro, o de fiança mercantil, o de penhor mercantil, o de know-how, o 7 de franchising, os relacionados ao depósito e contratos bancários, além do con- trato de compra e venda mercantil. Este último tem sua importância relevante dentre as diversas relações jurídicas comerciais. Recebe a conceituação clássica de ser o contrato em que “uma das partes (vendedor) se obriga a transferir o domínio de uma coisa a outra (comprador), mediante o pagamento, por esta,de certo preço em dinheiro”. As características essenciais desta espécie de contrato mercantil é de que o bem seja móvel ou semovente e seja passível de revenda, bem como de que o comprador ou o vendedor seja comerciante. Destarte, é possível classificar este contrato em consensual, bilateral, oneroso e comutativo ou aleatório, conforme a possibilidade de individualização do bem. Por ser consensual não exige formalismo especial. São elementos deste contrato a coisa, que é o bem móvel ou semovente a ser transferido; o preço, que é o valor ou obrigação que será dada em contra- prestação da transferência de propriedade; e o consentimento que é inerente a todo contrato. Nulidades dos Contratos Mercantis. O Estatuto Comercial não distingue contratos nulos de anuláveis, tra- tando-os apenas como nulos. Todavia o Reg. 737 diferenciou os contratos entre nulos e os que dependente de rescisão ou anulabilidade. O art. 684 preceituas que “são nulos de pleno direito, os contratos a que tenham faltado solenidades determinadas por lei e aqueles em que se preteriu solenidade substancial para a sua existência”. Já os anuláveis, segundo o art. 686 “necessitam de prova de prejuízo para ser alegada, da apreciação do juiz à vista das provas e circunstâncias do caso, deve ser pronunciada por meio da ação competente e só pode ser proposta por ação competente pelas partes, sucessores e sub-rogados”. 8 Desta forma, englobando as disposições civis e comerciais temos que os contratos serão nulos quando ferirem o interesse público e possuírem vício insanável, assim serão nulos os contratos que interferirem em pessoa absoluta- mente incapaz, quando ilícito ou impossível o seu objeto, quando não apresenta as formas e solenidades legais, e quando taxativamente a lei os considerar como tais ou lhes negar efeitos. Serão anuláveis quando o prejuízo recair apenas contra as partes, ou seja quando interferirem em pessoa relativamente incapaz e quando eivados de vício resultante de erro, dolo, simulação, coação ou fraude. Extinção dos Contratos Mercantis. Os contratos podem chegar a término por vários motivos, visto até a con- sensualidade presente nestes. Assim, um contrato pode chegar ao seu fim pelo cumprimento da obrigação, ou seja, alcançou seu objetivo principal. Extingue-se também pelo não-cumprimento da obrigação, ou seja, uma das partes quebrou a bilateralidade existente preliminarmente. Por impossibili- dade do cumprimento, presente nos casos fortuitos e força maior. Além das extinções por cláusula resolutiva, o pacto comissário, por ex- cesso de onerosidade, por resilição (declaração de vontade), por rescisão (le- são) ou cessação (morte). Direitos e obrigações decorrentes do Contrato de Venda Mercantil. A temática não oferece obstáculos gerais e é de conhecimento de todos. O vendedor possui a obrigação de entregar o bem, a coisa vendida. O comprador o direito de receber a coisa, obrigando-se a pagar pecuniariamente ou por meio de obrigação ao vendedor. O vendedor possui a obriga-se pelos vícios da coisa e de garantir ao comprador a posse e propriedade da coisa, respondendo pela evicção. O com- prador possuem assim, o direito de obter, mediante o pagamento de um preço 9 pela coisa, a tradição da mesma, ou seja, de tê-la em sua esfera patrimonial livre e desimpedida de qualquer ônus que não tenha ciência. O vendedor também possui a obrigação de emitir fatura, podendo extrair duplicatas, nas vendas à prazo. O comprador deve devolver a duplicata da fatura assinada. O comprador também tem a obrigação de devolver a coisa caso não cumpra com sua obrigação, bem como a obrigação de receber a coisa. Adendo final. A exposição acima apenas sintetiza os aspectos da Teoria Geral dos Contratos Comerciais. Ressalte-se contudo, que a não se objetivou uma expla- nação mais detalhada, todavia, não há de se relegar a existência de alguns tó- picos dos contratos mercantis que permitiriam uma dissecação melhor dos ele- mentos, da classificação, de suas ramificações, das espécies dos contratos co- merciais, etc. TIPOS DE CONTRATOS COMERCIAIS Os contratos empresariais são importantes instrumentos jurídicos que conferem segurança às partes envolvidas em um acordo. Indispensáveis no am- biente corporativo – seja no departamento Jurídico ou no setor de compras, por exemplo – é necessário estar atentos na hora de elaborar estes documentos, trazendo todas as cláusulas necessárias para o cumprimento do acordo. Dessa forma, os contratos empresariais ajudam a evitar desentendimen- tos entre as partes, problemas nas relações e parcerias, cobranças indevidas e demais irregularidades. https://www.incontract.com.br/departamento-juridico/ 10 Para uma boa administração de contratos, é importante conhecer as es- pecificidades de cada tipo. Por isso, neste artigo explicaremos sobre os princi- pais tipos de contratos empresariais. Entenda mais a seguir! Os 6 principais contratos empresariais Alguns documentos jurídicos – como petição, contrato social e minuta de contrato – são primordiais para as atividades de uma empresa. E, dentre eles, também estão os contratos empresariais. Conheça os principais! 1. Contratos mercantis Também chamados de contratos comerciais, os contratos mercantis são firmados entre empresários, sendo regidos pelo Direito Comercial e pelas nor- mas do Código Civil. As partes envolvidas podem negociar sobre as cláusulas, determinar os direitos e as obrigações de cada contratante e adequar o contrato conforme suas necessidades comerciais. Alguns exemplos de contratos mercantis são: Contratos bancários; Contratos de investidores; Contrato de representação comercial; Contrato de comissão; Contrato de franchising. 2. Contratos administrativos https://www.incontract.com.br/administracao-de-compras/ https://www.incontract.com.br/contratos-empresariais/_wp_link_placeholder 11 São contratos que firmam a relação entre a empresa e o Poder Público e são regidos pelo regime jurídico administrativo. A empresa pode atuar pres- tando serviços ou fornecendo bens ao Poder Público Federal, Estadual ou Mu- nicipal – ou, ainda, como concessionária de serviços públicos. Os contratos administrativos estão submetidos a uma variedade de leis e atos administrativos normativos que regem a atuação da Administração Pú- blica. 3. Contrato de trabalho Esse é o principal tipo de contrato para contratação de funcionários para a execução das atividades necessárias em uma empresa. O contrato de trabalho é regido pela legislação trabalhista, conforme a CLT (Consolidação das Leis Tra- balhistas). Outras formas de contratação de mão de obra – como terceirização e home office, por exemplo – se diferenciam do contrato de trabalho. Este é um tipo de contrato que deve ser cuidadosamente regulamentado pelas normas tra- balhistas. O empregador, por sua vez, deve ter bastante cuidado no momento da admissão de funcionários para não infringir nenhuma norma e acabar ge- rando riscos e prejuízos para a empresa contratante. 4. Contrato de consumo Esse tipo de contrato é regido pelo Código de Defesa do Consumidor. Uma empresa geralmente usa um contrato de consumo ao fornecer produtos ou serviços ao consumidor final. Este contrato também pode ser firmado quando uma empresa contrata uma companhia de grande porte para a prestação de serviços ou fornecimento de produtos, como uma concessionária de telefonia. O contrato de consumo é regulamentado por leis protetivas ao consumi- dor. Assim, de um lado a empresa fornecedora de produtos ou serviços deve conceder todas as informações necessárias ao consumidor; de outro, a empresa 12 é protegida contra possíveis irregularidades ou arbitrariedades de empresas mai- ores e com mais poder aquisitivo. 5. Contrato de compra e venda Um contrato no âmbito empresarial é realizadoentre empresários e con- siste na transferência de algo por uma das partes (o vendedor) para outra parte (o comprador) – que paga o preço em dinheiro. Trata-se de um contrato consen- sual e oneroso entre as duas partes. 6. Contrato eletrônico Trata-se de um tipo de contrato que pode ser categorizado como con- trato business-to-business (B2B) ou contrato business-to-consumers (B2C). Ele consiste na oferta de bens ou serviços em um meio eletrônico, como websites, aplicativos ou softwares. Os contratos B2B, realizado entre empresas, se carac- terizam pelo fornecimento de produtos ou serviços entre fornecedor e um terceiro que não é o consumidor final. É importante notar que os avanços tecnológicos pelos quais nossa soci- edade passa atualmente interferem nas relações jurídicas, nas atividades em- presariais e na forma como os contratos são celebrados. Nesse contexto, os contratos eletrônicos empresariais do tipo B2B representam mais facilidade para as empresas estabelecerem suas relações contratuais – já que o meio eletrônico facilita esse processo. Além disso, as possibilidades de relações com fornecedores se ampliam, abrindo para as empresas uma gama muito maior de opções. Com as relações por meio eletrônico, a empresa não precisa mais ficar dependente de uma lista restrita de fornecedores – uma vez que produtos, recursos e serviços podem ser mais facilmente encontrados por meio eletrônico e acordados através desse tipo de contrato. 13 Portanto, além dos contratos empresariais tradicionais, é importante que escritórios de advocacia e departamentos Jurídicos de empresas estejam aten- tos às novas formas de consumo e novas relações contratuais. Assim, é possível impulsionar as atividades empresariais, adaptando-as às relações jurídicas do mundo atual. QUEBRA CONTRATUAL Para que possamos optar entre as alternativas ou mesmo hierarquiza- las, a primeira pergunta a ser feita é: Quebrar um contrato é um ato ilícito ou um ato de liberdade do devedor? A resposta dependerá em muito do sistema jurídico no qual estamos imersos. Na common law, prevalece a noção de que a parte não pode ser obri- gada a “ficar amarrada” a um contrato e, portanto, não poderá ser punida pela lei por recusar o adimplemento da obrigação. Não há nada de perverso em des- cumprir um contrato, desde que seja paga uma compensação. Na Inglaterra o contrato surgiu como um instrumento comercial, na qual cada parte tem o direito de buscar a melhor barganha, assumindo as suas regras do acordo de “arm's length”, ou seja, evitando intimidade ou contato próximo. Até hoje se entende que cada contratante quer extrair o máximo possível de vantagens e proteger o seu interesse econômico. A resposta para a quebra do contrato confirma isso: os tribunais relutam em interferir na substância do contrato. Portanto, a coercibilidade não importará em se exigir uma atividade do devedor, mas na condenação a uma indenização que preserve dois polos de liberdade: a liberdade do devedor de se retirar da avença e não ser subjugado pelo contrato e a liberdade do credor de ter acesso a um montante que compense a frustração de suas expectativas, permitindo-lhe contratar com quem quer que seja, a mesma prestação que lhe foi negada pela outra parte. Contudo, na “civil law” há muito menos liberdade de se quebrar contra- tos. O inadimplemento configura um fato ilícito, um comportamento antijurídico 14 caracterizado pela violação de um dever específico e preexistente. Aliás, o binô- mio responsabilidade contratual e extracontratual se explica justamente pela contraposição entre a quebra de uma promessa no contexto negocial (ilícito re- lativo) e a ofensa ao “neminem laedere” - o dever genérico de cuidado – pela prática de um dano contra pessoas ou coisas (ilícito absoluto). Portanto, se o descumprimento contratual é tido como um ilícito - no mesmo sentido que um atropelamento ou a destruição de um bem alheio -, a tendência clara do sistema será a de reforçar os mecanismos sancionatórios que, para além da mera alocação dos riscos econômicos, sejam capazes de ini- bir o inadimplemento, tal como as “astreintes”, em sua aptidão de persuasão à adoção de comportamentos conformes. Essa contraposição entre distintas racionalidades é que explica a ojeriza de norte-americanos e ingleses à tutela específica - seja pela via da “specific performance” ou “injunction” – e a naturalidade pela qual a indenização é vista como a satisfação do interesse do credor que não quer ser tutelado pelo Estado no encalço do devedor, mas que deseja uma rápida retirada de um contrato ar- ruinado, a fim de maximizar as suas oportunidades comerciais em outros luga- res. Esse paradigma do contrato como um instrumento elaborado entre co- merciantes não apenas explica o apreço pela tutela genérica da compensação em detrimento da tutela específica, como também a facilidade com que juízes liberaram antecipadamente uma das partes do vínculo, quando o contexto fático evidencia que o contrato não será cumprido no futuro (“anticipatory breach”). Esse cenário igualmente explica o fato da “common law” ser relutante em aceitar “punitive damages” por inadimplemento ou validar cláusulas penais contratuais, pois, em comum, prefixam uma pena contra a parte inadimplente, tal como se o recesso injustificado fosse um ato ilícito. Em sentido inverso, as cortes aceitam a validade de cláusulas que delimitem uma eventual indenização (“liquidated da- mages clause”), como legítimo método de se quantificar uma futura inexecução 15 contratual e evitar a perda de tempo e energia com um longo processo de liqui- dação. É nesse contexto que desenvolverei um breve raciocínio sobre a coexis- tência dos remédios indenizatório e da tutela específica no Brasil, no âmbito da inexecução contratual. O fato de integrarmos um sistema jurídico que sanciona a quebra da palavra empenhada como uma ofensa ao ordenamento, justificaria a recente onda de mitificação da tutela específica em detrimento do recurso à indenização? Se o objetivo da elogiável aproximação entre o direito civil e o processo civil, é fazer com que a tutela dos direitos mereça uma concretização em nível ótimo, o melhor que o direito privado pode ofertar aos processualistas justificati- vas substanciais para que a tutela genérica conviva com a tutela específica no momento patológico do processo obrigacional. Fato é que, não obstante todas as alterações na teoria geral dos contratos, qualquer moderno sistema jurídico ainda o conceitua na base de um acordo entre as partes. De acordo com o artigo 247 do Código civil: “Incorre na obrigação de indenizar perdas e danos o devedor que recusar a prestação a ele só́ imposta, ou só por ele exequível”. Não obstante a sua entrada em vigor em 2003, muitos acusam o Código Reale de “ultrapassado”, por persistir na perspectiva liberal da incoercibilidade das obrigações. Se A promete a B a construção de uma casa ou a entrega de um veículo e se torna inadimplente, B terá a seu dispor a pretensão a uma compensação econômica em face de A, correspondente aos danos cau- sados, porém não poderá constranger o devedor a entregar o bem da vida, pois isso representaria uma desarrazoada intervenção sobre a esfera de liberdade do devedor. Todavia, a importante contribuição da doutrina processualista nos últi- mos 20 anos se deu no sentido de estruturar técnicas processuais adequadas à tutela do direito material, conduzindo os holofotes para o direito fundamental do credor a percepção do seu crédito, como forma de conciliação entre a efetividade do direito e a segurança jurídica. Para tanto, a tutela genérica da indenização foi 16 paulatinamente conduzida a um plano secundário, pois a melhor maneira de har- monizar o direito subjetivo a uma coisa certa ou a uma prestação de fazer ou não fazer é a obtenção pelavia judicial do exato bem da vida pleiteado no mundo dos fatos. Ao invés da “meia-justiça” resultante da entrega de dinheiro àquele que pretendia um certo objeto ou uma atividade do devedor, o processo civil contemporâneo aspira pela mais ampla correspondência entre o que se prome- teu e aquilo que o Judiciário poderá coercitivamente exigir do devedor. Paradigmático nesse sentido é o artigo 499 do CPC/15: “A obrigação somente será convertida em perdas e danos se o autor o requerer ou se impos- sível a tutela específica ou a obtenção de tutela pelo resultado prático equiva- lente”. O novo Código de Processo Civil, indisfarçavelmente, realça o protago- nismo da tutela específica no direito brasileiro. Assim, consolidando a recente evolução doutrinária e jurisprudencial, o legislador considerou que a tutela pelo equivalente monetário adquire a eficácia “Barrichello”, ou seja, migra para o úl- timo lugar na corrida pelo direito à tutela adequada e efetiva. Em primeiro lugar no grid de largada, posiciona-se o acesso à obrigação originariamente almejada pelo credor; porém, se não for possível alcançar a in- tegridade do direito material, subsidiariamente o art. 497 do CPC/15 defere a prestação de tutela específica pelo resultado prático equivalente, ou seja, medi- ante um resultado alternativo ao inicialmente desejado, mas que alcance resul- tado semelhante. Se nada disso funcionar, em último lugar, surge a pretensão ao equivalente pecuniário. Para muitos leitores o CPC/15 colocou um ponto final na questão. O pro- cesso civil brasileiro já teria alcançado a evolução desejada em termos de tutela dos direitos e técnica processual, ao incorporar à sua farmácia o milagroso re- médio da tutela específica. Estamos apenas no começo. Em verdade, migramos do raciocínio sim- plista da indenização como panaceia para todos os males obrigacionais, para uma construção complexa na qual a doutrina terá a responsabilidade de arqui- 17 tetar parâmetros objetivos de ponderação hábeis a informar aos juízes e tribu- nais, em que condições as tutelas genérica e específica coexistirão. Para isso, dentre várias indagações, duas especialmente merecem reflexão nessas escas- sas linhas: a) o credor tem um direito potestativo à tutela específica ou genérica?; b) há uma hierarquia entre essas pretensões? A leitura do artigo 475 do Código Civil é persuasiva no sentido da exis- tência de um direito potestativo do credor à tutela específica ou genérica nas obrigações contratuais: “A parte lesada pelo inadimplemento pode pedir a reso- lução do contrato, se não preferir exigir-lhe o cumprimento, cabendo, em qual- quer dos casos, indenização por perdas e danos”. Retomando os exemplos ini- ciais, B teria a pretensão de insistir na entrega da obrigação de dar coisa certa (o carro de A) ou na obrigação de fazer (construção da casa por A). Natural- mente, a opção do credor de submeter o devedor a sua decisão unilateral será respaldada pela imposição de uma multa periódica, hábil a inibir a outra parte a adimplir, conforme o “script” obrigacional. Por outro lado, diante do inadimple- mento, poderá o credor entender que houve a frustração do seu interesse mate- rial à prestação originária e que o melhor nesse momento será exercer a preten- são resolutória, desconstituindo o negócio jurídico e eventualmente obtendo uma compensação pelos danos decorrentes do descumprimento faltoso. Enfim, o ar- tigo 475 remete à discricionariedade do credor a melhor forma de compatibilizar o impacto econômico da inexecução com os efeitos jurídicos desejados. Todavia, Marinoni, Arenhart e Mitidiero (Novo Código de Processo Civil Comentado, 2015, p.510/11) trazem à baila uma diferente percepção sobre o tema. Os cultos processualistas afirmam que o credor “não tem a livre opção em optar pelo equivalente em dinheiro ao valor da prestação sem antes dar ao de- vedor a oportunidade de adimplir na forma específica...na verdade, o devedor tem o direito de cumprir a prestação tal como contratada, não sendo possível ao credor exigir dinheiro no lugar da prestação objeto do contrato, sob pena de se aceitar uma novação objetiva unilateral”. 18 Os autores prosseguem, justificando o pensamento adotado na vertente da “obrigação como processo”, o que requer um ambiente cooperativo entre as partes, a fim de que a obrigação alcance o adimplemento pela via da satisfação da obrigação inicialmente pactuada. Portanto, prosseguem os doutrinadores, “apenas depois de julgado procedente o pedido e não observada a sentença que ordenou o adimplemento na forma específica, torna-se possível exigir o equiva- lente monetário”. Não houve menção a isso, mas resta implícito que os respeita- dos doutrinadores recomendam o “funeral” do artigo 475 do Código civil. É fundamental que esse debate tenha começado por iniciativa de bri- lhantes processualistas, pois como eles bem enfatizam, as formas de tutela não são atribuídas pelo processo, mas sim pelo próprio direito material. E é exata- mente como civilista que externo a minha preocupação com esse raciocínio, pois em uma guinada de cento e oitenta graus, quer-se converter o dogma da ‘inco- ercibilidade das obrigações’ em um renovado dogma: o da ‘coercibilidade das obrigações pela via da tutela específica’. Antes, a autonomia da vontade como sacrossanto espaço de intimidade do devedor, permitindo-lhe “esnobar” a obri- gação espontaneamente assumida e substituí-la por dinheiro; agora, na visão dos nominados autores, o mesmo princípio da autonomia da vontade é repagi- nado: ele não mais se justifica pela tutela da liberdade do devedor em descumprir a obrigação, mas na necessidade de proteção da concepção da relação obriga- cional como um “processo”, polarizado pelo adimplemento, na qual a boa-fé ob- jetiva requer o dever anexo de cooperação, como forma de materializar as exi- gências éticas do sistema jurídico em prol do adimplemento do negócio jurídico. Aliás, respeito a posição clássica do direito privado no sentido de conferir um perímetro de autodeterminação ao devedor, a fim de avaliar se é de seu interesse econômico cumprir a obrigação pela forma específica ou substituir o compromisso pelo equivalente pecuniário. O Estado-Juiz se mantinha afastado das relações patrimoniais estabelecidas pelos particulares, respeitando a opção do devedor pelo inadimplemento da obrigação, contudo, sancionando-o pela via genérica das “perdas e danos”, conforme a aferição no caso concreto da impos- sibilidade de cumprimento ou da inexecução culposa. 19 Porém, nunca apreciei o unilateralismo de tal concepção, pois a pessoa do credor é simplesmente desconsiderada a partir do momento em que o sis- tema jurídico não lhe oferece outra alternativa. Ademais, em uma visão ‘macro’ da ordem econômica, é evidente que um ambiente jurídico que forneça ao credor a pluralidade de tutelas e técnicas processuais adequadas reforça o exercício da livre iniciativa, pela confiança dos agentes econômicos em que as instituições promoverão a efetividade, mais especificamente, a segurança jurídica pela via da tutela jurisdicional. Contudo, postular que diante do inadimplemento das obrigações contra- tuais o credor “deverá” exigir a prestação pela tutela específica significa um passo perigoso em direção a um processo que despersonaliza a relação obriga- cional, instrumentalizando-o a concepção da “obrigação como processo” em uma vertente muito distante daquela ambicionada por Clóvis do Couto e Silva. Isso significa ignorar o direito fundamental do credor em perseguir o seu crédito da maneira que melhor lhe aprouver e converte a autonomia privada do devedor em uma “prisão”, pois doravante só a partir do momento em que “julgado proce- dente o pedido e não observada a sentença que ordenou o adimplemento na forma específica, torna-se possível exigir o equivalente monetário”.Sejamos ilustrativos: B quer que A lhe entregue o carro ou edifique a casa; A, por qualquer razão, a isso se opõe; B não mais poderá deliberar por se dirigir a um juiz e dizer “quero uma condenação pecuniária, pois o resultado ini- cial não mais me interessa”. Por outro lado, A será condenado a uma prestação a que todos de antemão sabem será inexequível. Aonde reside o processo civil de resultados? O que se fez do princípio da instrumentalidade do processo? Exigir tutela específica no sentido de constranger um particular ao cum- primento de prestações positivas é algo que deve ser visto com cuidado pela doutrina brasileira. A imposição de comportamentos ativos ao Estado é algo muito bem-vindo. Prestações materiais no campo da saúde, educação e assis- 20 tência social são subjacentes ao Estado social, em sua missão de prover o mí- nimo existencial. Porém, necessitamos de cautela ao transpor essa construção ao direito privado, pois aqui há um embate entre dois titulares de direitos funda- mentais. Essa cautela se torna extrema no campo contratual, pois é da essência de um acordo econômico que as partes defendam os seus próprios interesses, jamais os interesses alheios. A boa-fé objetiva não é capaz de subverter a ordem das coisas, convertendo as partes em “best friends forever”. Ela deve ser com- preendida como uma cláusula geral obrigacional que permite o influxo do princí- pio da solidariedade nas relações negociais de modo a impedir situações fla- grantemente iníquas (função de controle do abuso do direito, art.187 CC) e/ou criar deveres que imponham às partes um mínimo padrão de civilidade desde as tratativas até a fase pré-negocial (função integrativa do art. 422 CC). Por isso, ao invés de generalizar princípios abstratos, penso que os deveres oriundos da boa-fé devem ser cautelosamente identificados em casos particulares, sobrema- neira em relações intercivis e interempresariais, nas quais a necessidade de cer- teza e segurança pede que o contrato não vá além dos termos convencionados por obra de uma instância externa, exceto quando isso seja necessário para que o próprio contrato faça sentido para as partes. Se quisermos respeitar verdadeiramente a ordem econômica constituci- onal, em toda a sua pluralidade, é hora de propormos diversos parâmetros obje- tivos de adequação desses interesses diversos, que possam harmonizar as ten- sões em cada caso e esclarecer quais serão as tutelas e técnicas processuais adequadas, de acordo com a qualidade das partes (relação empresarial/interpri- vada/ consumeirista), bem jurídico em jogo (bem essencial ou supérfluo), forma contratual (negócio paritário/adesão), superveniência de interesse ou não na prestação após o inadimplemento e etc. Todavia, reduzir toda essa complexidade ao novo dogma da “coercibili- dade das obrigações pela via da tutela específica” sob o argumento da “obriga- ção como processo”, significa superdimensionar o princípio da boa-fé objetiva. A necessidade de informação, cooperação e proteção recíproca visa a um fim de- 21 sejável: o adimplemento. Porém, quando há a crise de cooperação que se evi- dencia pelo inadimplemento, surge uma nova fase na concepção da obrigação como processo: a etapa patológica do inadimplemento. Ela será enfrentada no Poder Judiciário por uma multiplicidade de tutelas e técnicas, jamais se afas- tando “a priori” e arbitrariamente a possibilidade da prestação originária ser subs- tituída pela pretensão indenizatória. A boa-fé que agora se revela é a boa-fé processual, que em nada se relaciona com a concepção da “obrigação como processo”. Aliás, em belíssima passagem, os mesmos “Marinoni, Arenhart e Mi- tidiero”, na mesma obra, afirmam veementemente: “a colaboração no processo não implica colaboração entre as partes – qualquer leitura do art. 6º do CPC, nesse sentido é equivocada. As partes não querem colaborar. A colaboração no processo que é devida no Estado Constitucional é a colaboração do juiz para com as partes. Gize-se: não se trata de colaboração entre as partes. As partes não colaboram e não devem colaborar entre si simplesmente porque obedecem a diferentes interesses no que tange a sorte do litígio...Esse ponto é digno de nota: enquanto os deveres de colaboração no plano do direito material tiveram suas origens no campo do direito obrigacional a partir dos estu- dos ligados a boa-fé, no processo esses deveres não se originam da boa-fé e não podem ser concebidos como deveres que gravam as partes entre si...o plano do processo pressupõe justamente uma ameaça de crise ou efetiva crise na re- alização do direito material. E a partir desse exato momento os interesses das partes deixam de ser convergentes e passam a ser divergentes. Isso, obvia- mente não dispensa as partes de agirem com boa-fé no processo. No entanto, daí para exigência de colaboração entre as partes existe uma significativa dis- tância” (op.cit, p. 102). E apenas para evitar que se diga que dentre os deveres cooperativos de prevenção e auxílio perante os litigantes, possa se encontrar o dever do juiz de recusar a pretensão de um credor a uma compensação econômica decorrente do inadimplemento, com base na “ideia de cooperação, ínsita ao direito obriga- cional” (op.cit, p.511), acabamos de constatar que esse argumento não apenas vulnera ideias defendidas pelos doutrinadores em outro ponto da obra, como 22 extrapolaria o âmbito de intervenção estatal na autodeterminação das partes, sendo evidente que os deveres cooperativos não podem alcançar o extremo de sacrificar o legítimo desejo das partes de se desacorrentar do vínculo obri- gacional e reaver a liberdade prévia. Não temos dúvida quanto ao fato de que há um dever moral dos contra- tantes em manter as suas promessas. Porém, daí vai uma distância a querer transpor de forma automática e imediata a “quebra da palavra dada” em uma tutela específica, pois no campo jurídico o inadimplemento significa o descum- primento da obrigação primária e a sua substituição por uma obrigação secun- dária – a obrigação de indenizar pelos danos decorrentes da inexecução contra- tual. O demandante terá direito a um montante que o coloque na posição que estaria se o contrato fosse propriamente cumprido. No transcurso da demanda ressarcitória o contrato prossegue, mas há a extinção da obrigação originária, em uma nova fase do processo obrigacional. Daí que, ao contrário do que se advoga, a tutela específica não é da essência do direito civil, devendo ser posta em cena apenas quando a indenização não se revele a pretensão adequada segundo alguns parâmetros mais a frente sugeri- dos, e outros que a doutrina construirá. Como dito anteriormente, examinar as consequências da inexecução contratual no âmbito de um contrato empresarial ou intercivil requer uma pers- pectiva principiológica distinta das relações consumeiristas ou mesmo de con- tratos privados forjados pela técnica da adesão. Compreende-se a proeminência da tutela específica quando o consumidor se situe em uma posição “cativa”, de dependência perante um contrato que lhe forneça bens essenciais, ou mesmo fora desse âmbito, quando particulares tenham estabelecido um acordo no qual um deles simplesmente “adere” às cláusulas gerais de contratação. Isso significa que exigir uma performance específica do devedor so- mente será a resposta apropriada quando for possível e apropriado que a parte inadimplente possa cumprir eficazmente a prestação e a indenização não seja do interesse do credor. Alguns critérios objetivos podem ser delineados: 23 a) a tutela específica não pode constranger o devedor a praticar obriga- ções personalíssimas, de forma a converter uma prestação de serviços em uma forma de escravidão; b) mesmo não se tratando de obrigação “intuitu personae” a tutela espe- cífica (v.g. a construção da casa) é indesejável quando ocredor pleiteie a inde- nização justamente pelo fato de que não confia mais na atuação do devedor e quer receber uma compensação financeira que lhe permita contratar uma ter- ceira pessoa que realizará os referidos serviços; c) a tutela específica também será inidônea quando a ordem de tutela específica da obrigação impuser ao juiz ou ao tribunal uma constante supervisão ou verificação do perfeito cumprimento da decisão; d) a execução específica de uma obrigação pode envolver despesa substancial e levar a resultados abaixo da média. Ou seja, é bem possível que se verifique um desperdício de recursos pela insistência no cumprimento da obri- gação de acordo com os termos contratuais, sobretudo quando a multa coercitiva se torne desproporcional; e) a tutela específica será desnecessária quando houver “mercado alter- nativo” para o bem jurídico demandado pelo credor. Quer dizer, se o credor pode substituir a performance do devedor pela de um terceiro, a indenização será a melhor saída. Todavia, a tutela específica se justifica quando inexiste mercado disponível para encontrar o bem jurídico inicialmente desejado. Ao contrário do que ocorre nos contratos de comprar de bens em geral prontamente encontradas no mercado- é o que acontece nos contratos para transferência de propriedade, na qual a tutela específica é a melhor resposta. Justamente por isto, todos aceitam que o juiz deva substituir a recusa imotivada do promitente vendedor em entregar o imóvel pela outorga da promessa por via da adjudicação compulsória (art. 501, CPC/15). 24 Para termos uma ideia dos problemas que podem surgir pela descom- promissada adoção da tutela específica, sem maiores cuidados com a própria economia do contrato, basta exemplificarmos com um contrato para escavar um canteiro de obras. Supondo que no decorrer da prestação do serviço o emprei- teiro queira desistir da atividade pois a escavadeira inesperadamente encontra uma pedra de grandes dimensões. A tutela específica lhe obrigaria a levar adiante uma atividade economi- camente ineficiente que superaria o lucro com o trabalho. Ademais, a simples perspectiva desse fato acontecer, implicaria na ampliação das despesas de pro- dução, pois os empreiteiros adotariam medidas caras de precaução de riscos (v.g. comprar máquinas de britagem, apesar de intrinsecamente não ser rentá- vel) que impactariam nos custos do contrato. Em terceiro lugar, a certeza da tutela específica remeteria os contratantes a negociar cláusulas prévias de “libe- ração” para o inadimplemento, com base em grandes quantias (pois isso ainda seria menos oneroso que a tutela específica). Esses são riscos indesejáveis, que podem ser evitados com o recurso a uma racionalidade econômica que home- nageie o espaço concedido pelo direito civil brasileiro ao balanceamento das tu- telas genérica e específica. Por fim, a par de critérios que orientem os magistrados no sentido de evitar o risco da discricionariedade de decisões que imponham tutela específica, também é conveniente reportar a importância da inclusão “ex ante” nos contratos de provisões sobre as consequências remediais para a inexecução do contrato. Além dos contratos comerciais normalmente deliberarem sobre as circunstân- cias em que o negócio jurídico será objeto de resilição (unilateral ou bilateral) e resolução, bem como estipularem cláusulas penais ou cláusulas de prefixação de danos, é legítimo que os contratantes definam se eventual inadimplemento será remediado por uma indenização ou pela tutela específica. Para que essa opção seja respeitada na fase de execução, será conve- niente que exista cláusula de arbitragem, pois na linha dos argumentos aqui ex- 25 pendidos, por mais que as partes tenham excluído “a priori” a indenização e op- tado por estabelecer uma cláusula pela qual a tutela específica será a pretensão exercida em face do inadimplemento, caso incumba ao Judiciário o exame do contrato, muitas vezes a vontade dos contratantes será inadequadamente subs- tituída pela moral “pretensamente” superior de princípios como o da boa fé obje- tiva. PRINCÍPIOS GERAIS DOS CONTRATOS O contrato visa conciliar interesses contrapostos. Princípios contratuais clássicos: a) princípio da autonomia da vontade: liberdade ampla que as partes ti- nham para contratar. Este princípio fundamenta o poder que as partes contra- tantes possuem de estipular livremente, como melhor lhes convier, a disciplina dos seus interesses. Apresenta carga individualista e patrimonialista do Libera- lismo. b) obrigatoriedade contratual: impunha o cumprimento do contrato nos seus exatos contornos. Traduzia a regra do “Pacta Sun servanda”, o contrato é lei entre as partes, não importava se o devido cumprimento levaria uma das par- tes à ruína. c) relatividade dos efeitos: as consequências e efeitos dos contratos re- percutiriam apenas entre as partes contratantes. A sociedade era indiferente aos efeitos contratuais. Princípios contratuais contemporâneos: O contrato, atualmente, é conceituado como um negócio jurídico por meio do qual as partes, segundo a autonomia privada, convergem as suas von- 26 tades, criando um dever jurídico principal de dar, fazer ou não fazer, e, bem as- sim, deveres acessórios, em respeito aos princípios da função social e da boa fé objetiva. O contrato é fonte de obrigação. Ele cria um dever jurídico principal. Ele é um negócio jurídico que constitui um dever principal de dar, fazer ou não fazer. Ademais, à luz do moderno Direito Civil, o contrato cria também deveres anexos, que os portugueses chamavam de deveres de proteção (nebenpflicten, para os alemães). Deveres que decorrem normativamente da boa fé objetiva. O que a teoria atual consagra é a dimensão ética do contrato. Teoria Preceptiva: o contrato deixa de ser um fenômeno exclusivo da vontade das partes para ser um fenômeno econômico-social. Contrata-se, hoje, por necessidade. Do rápido desenvolvimento da sociedade surge a urbanização, o forta- lecimento do capitalismo, a produção em massa e consequentemente a contra- tação em massa. Isso porque, tudo aquilo que foi produzido desaguava rapida- mente no mercado de consumo. Surgem, portanto, os contratos de adesão e por adesão. a) Princípio da autonomia privada: retira a liberdade ilimitada de contra- tar, que o princípio clássico da autonomia da vontade possuía. O princípio da autonomia privada impõe que para se realizar um contrato deve haver prelimi- narmente o cumprimento da função social, o respeito à dignidade da pessoa hu- mana e também a boa fé contratual. A autonomia privada, para evitar abuso de poder econômico, é relativi- zada, porque sofre a interferência de elementos constitucionais de contenção, como os princípios da função social e da boa fé objetiva. Por isso, pode-se dizer, que a autonomia privada, segundo afirmou a prof. Judith Martins-Costa, sofreu a limitação por valores constitucionais superiores. A autonomia privada não é mais absoluta, por isso é uma autonomia solidária. 27 b) Princípio do consensualismo: os contratos celebrados obrigam as par- tes a partir do momento que estas cheguem a consenso, na conformidade com a Lei, sendo dispensada qualquer formalidade adicional. Este princípio é a regra geral, sendo, entretanto, limitado por várias exceções, quando a Lei exige for- malidades extras para alguns contratos. Ex: contrato de compra e venda de imó- veis - formal c) Princípio da relatividade dos efeitos do contrato: Este princípio traduz a regra geral de que um contrato só surte efeitos obrigacionais entre as próprias partes contratantes. Isso significa, numa linguagem bem simples, que o contrato entre A e B não vincula C. Não há um artigo específico para esse princípio no CC. O contrato vincula A e B e cria uma espécie de campo de força para impedir a ação de terceiros. Porisso é que se diz que o contrato está para além do contrato. d) Princípio da força obrigatória do contrato: É também conhecido clas- sicamente como o Princípio do “Pacta Sunt Servanda”. Tal princípio traduz a natural cogência que deve emanar de todo con- trato, corporificando a máxima segundo a qual “o contrato faz lei entre as partes”. Todavia, o princípio da força obrigatória não é mais considerado como princípio absoluto, tal como era no final do Séc. XVII e início do XIX, com o ca- pitalismo nascente. e) Princípio da equivalência material: Este princípio está em conexão com o princípio da função social do contrato. Significa que o ajuste entre as par- tes deve guardar equilíbrio recíproco, o contrato deve sempre preservar o equi- líbrio real entre as prestações pactuadas. f) Princípio da função social do contrato: A socialização do contrato não significa, lembra-nos Giselda Hironaka, a sua estatização, ou seja, o contrato atender a sua função social não significa suprir o interesse público do Estado 28 (não significa atender o interesse público dos entes federativos: U, E, DF e M). O atendimento da função social significa respeito aos valores objetivamente con- sagrados como fundamentais pela sociedade brasileira. Respeitar a função social é respeitar por ex., o valor do meio ambiente, de defesa do consumidor, da eticidade aplicada à relação contratual, etc. São esses valores que traduzem o que chamamos de Princípio da Função Social. A função social do contrato é uma cláusula geral de natureza principio- lógica, amparada no art. 421, CC, que tem função ou finalidade limitativa da au- tonomia privada, em respeito a valores constitucionalmente consagrados. Segundo princípio da Função Social dos contratos, em caso de conflitos entre o interesse das partes e o interesse coletivo, deve haver a supremacia do interesse coletivo sobre o das partes. Conforme o disposto no art. 421 do Código Civil: “A liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social do contrato.” Segundo o disposto no art. 421 do CC, a liberdade contratual é condici- onada à obediência da função social do contrato que pode ser individual, relativa ao interesse das partes em satisfazer seus interesses próprios e pode ser cole- tiva, que se refere ao que a coletividade interessar aquele contrato, onde ele deixa de produzir efeitos apenas entre as partes, deve-se respeitar o interesse coletivo. Art. 421, CC – Impropriedade da expressão liberdade de contratar. Aqui vale diferenciar liberdade de contratar: celebrar ou não um contrato, é plena e não sofre limitações; já liberdade contratual, significa liberdade de es- tabelecer o conteúdo do contrato, essa é limitada pela função social, limite in- terno que qualifica a relação contratual. https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10704778/artigo-421-da-lei-n-10406-de-10-de-janeiro-de-2002 https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/1035419/c%C3%B3digo-civil-lei-10406-02 https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10704778/artigo-421-da-lei-n-10406-de-10-de-janeiro-de-2002 https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/1035419/c%C3%B3digo-civil-lei-10406-02 https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/1035419/c%C3%B3digo-civil-lei-10406-02 https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10704778/artigo-421-da-lei-n-10406-de-10-de-janeiro-de-2002 https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/1035419/c%C3%B3digo-civil-lei-10406-02 https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10704778/artigo-421-da-lei-n-10406-de-10-de-janeiro-de-2002 https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/1035419/c%C3%B3digo-civil-lei-10406-02 29 Quando o art. 170, CR/88 estabeleceu que o nosso Estado Democrático de Direito pressupõe uma ordem social harmônica, percebemos que ela aplicou o princípio da função social, seja da propriedade, seja dos contratos. A função social tem razão de ser na limitação na liberdade contratual, na autonomia dos contratantes, já que não vivemos mais numa era de autonomia absoluta e sim de autonomia solidária. Hoje, no Brasil, os contratantes não têm mais liberdade absoluta, eles encontram uma barreira constitucional na função social do contrato. g) Principio da conservação dos contratos: segundo esse princípio, de- vem ser envidados todos os esforços no sentido de manter a relação. Entre a revisão e a rescisão contratual, dá-se preferência à revisão. h) Princípio da Justiça Contratual: exige-se equilíbrio da relação contra- tual, tanto na origem, quanto na execução. O equilíbrio deve ser de direitos e deveres; harmonização dos interesses e proporcionalidade das prestações. i) Princípio da boa-fé objetiva: O princípio da boa fé contratual apresenta a característica de que além de atender a função social no contrato as partes devem agir de forma honesta, com probidade, já que, ninguém pode se beneficiar da própria torpeza. Dessa forma, as partes não devem se comportar de forma proba e ética apenas durante as propostas, mas também na formação e no cumprimento dos contratos Quanto ao Princípio da boa fé objetiva, podemos encontrar uma primeira fonte história deste princípio no Direito Romano, que ao tratar da idéia de bona fides, nos dá uma idéia de comportamento individual ético. https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10660995/artigo-170-da-constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-de-1988 https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/188546065/constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-constitui%C3%A7%C3%A3o-da-republica-federativa-do-brasil-1988 30 REQUISITOS DE EXISTÊNCIA E DE VALIDADE CONTRATUAL Como se sabe o contrato é um negócio. Cabe aqui tratar dos planos de existência, validade e eficácia do negócio jurídico: Elementos essenciais do Negócio Jurídico Plano da existência: é o elemento substantivo do negócio. Nesse pri- meiro plano, analisa-se a substância do negócio, os pressupostos do negócio ou elementos constitutivos do negócio jurídico, sem os quais, ele é um nada. Os elementos que integram a existência de um negócio jurídico são 4: a) A manifestação de vontade (que resulta da vontade interna + a von- tade externa); b) O agente emissor da vontade; c) O objeto do NJ; d) A forma. Faltando qualquer desses requisitos o negócio é inexistente (e a inexis- tência pode ser reconhecida de ofício pelo juiz, e não há prazo para isso)– não há nem mesmo que se falar em nulidade, o NJ é mesmo inexistente. Plano de validade: É o plano qualificativo do negócio, porque, em ver- dade, esse plano não estuda a estrutura do negócio (que está no plano da exis- tência); o que se analisa aqui são os pressupostos de validade do negócio, os pressupostos que qualificam o negócio, que dão aptidão para que ele possa pro- duzir efeitos. É um plano adjetivo, ao passo que o plano de existência é um plano substantivo. Faltando um pressuposto de validade o negócio é inválido (nulo ou anu- lável). 31 Pressupostos: ☺art. 104, CC (este art. é muito criticado pela doutrina porque disse menos do que deveria dizer) + aspectos ausentes incluídos pela doutrina: (os pressupostos de validade complementam os de existência): manifestação de vontade → totalmente livre e de boa-fé agente → capaz e legitimado objeto → lícito, possível e determinado, ou ao menos determinável. forma → livre* ou prescrita ou não defesa em lei Art. 104. A validade do negócio jurídico requer: I - agente capaz; II - objeto lícito, possível, determinado ou determinável; III - forma prescrita ou não defesa em lei. Requisitos subjetivos dos Contratos: duas ou mais pessoas; capacidade genérica e negocial; consentimento das partes contratantes. Requisitos objetivos dos Contratos: a) licitude do objeto b) possibilidade física e jurídica do objeto; c) determinação do objeto; d) economicidade do objeto: apreciável economicamente. Requisitos formais: liberdade de forma – Art. 129 CC. plano da eficácia: elementos acidentais do negócio jurídico: condição, termo e encargohttps://www.jusbrasil.com.br/topicos/10723240/artigo-104-da-lei-n-10406-de-10-de-janeiro-de-2002 https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/1035419/c%C3%B3digo-civil-lei-10406-02 https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10722131/artigo-129-da-lei-n-10406-de-10-de-janeiro-de-2002 https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/1035419/c%C3%B3digo-civil-lei-10406-02 32 CLASSIFICAÇÃO DOS CONTRATOS Os contratos podem ser classificados segundo diversas perspectivas: 1) Quanto às obrigações das partes (efeitos): Esta distinção não se dá quanto a formação dos contratos (vez que para que este exista sempre será necessária a existência de concurso de vontades), mas sim quanto aos efeitos que geram. Não se pode confundir com negocio jurídico bilateral (manifestação de 2 vontades) e unilateral (manifestação de uma vontade). CONTRATO É NEGÓCIO JURÍDICO BILATERAL a) Unilaterais: São os contratos que criam obrigações unicamente para uma das partes quando de sua formação. Todo o peso do contrato recai de um único lado. Sempre é gratuito. b) Bilaterais ou sinalagmáticos (sinalagma-reciprocidade de obriga- ções): São aqueles contratos que geram obrigações para ambos os contraentes. Via de mão dupla. No entanto não há a necessidade de que as prestações para cada uma das partes seja equivalente. b.1) Bilaterais imperfeitos: Trata-se daquele contrato unilateral que aci- dentalmente (no seu curso) acaba gerando alguma obrigação para o contraente que não se comprometera (como pode ocorrer no depósito ou no comodato quando surgir a necessidade de indenizar alguma despesa) c) Plurilaterais: São aqueles contratos que contem mais de 2 partes, como ocorre no contrato de sociedade. Hipótese onde se vislumbra uma rotati- vidade de seus membros (consórcio) em busca de um mesmo objetivo 33 REFERÊNCIAS BRASIL. Novo Código Civil Brasileiro – Estudo comparativo com o Có- digo Civil de 1916, Constituição Federal, Legislação Codificada e extravagante. 2. ed. São Paulo: RT, 2002. FIUZA, Cesar. Direito Civil Completo. Belo Horizonte: Del Rey, 2008. FIUZA, Cesar. Direito Civil Completo. Belo Horizonte: Del Rey, 2008. RÁO, Vicente. O Direito e a Vida dos Direitos. 5ed. São Paulo: RT, 1999. RIBEIRO, Joaquim de Souza. O Problema do Contrato — As Cláusulas Contratuais Gerais e o Princípio da Liberdade Contratual. Coimbra: Almedina, 1999. RIPERT, Georges. La Règle Morale Dans Les Obligations Civiles, Paris: LGJD, 1994. RIZZARDO, Arnaldo. Contratos, Rio de Janeiro: Forense, 2001. ROPPO, Enzo. O Contrato. Coimbra: Almedina, 1999. RUGGIERO, Roberto de. Instituições de Direito Civil. Campinas: Bo- okseller, 2000. SAIGET, Jacques. Le Contrat Immoral. Paris: Dalloz, 1939. TRABUCCHI, Alberto. Istituzioni Di Diritto Civile. Padova: CEDAM, 1998. WIEACKER, Franz. História do Direito Privado Moderno. 2ed. 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