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PROFESSORA: SONIA MARIA DE CARVALHO MOURA DISCIPLINA: PSICOPATOLOGIA GERAL ALTERAÇÃO DA SENSO-PERCEPÇÃO 1- DEFINIÇÃO DE SENSAÇÃO É um fenômeno psíquico elementar que resulta da ação de um estímulo qualquer sobre nossos órgãos dos sentidos através de receptores (terminações nervosas) Em termos sistemáticos, dividimos as sensações em: 1. SENSAÇÃO EXTERNA ou SENSIBILIDADE ESPECIAL É o atributo que temos de discriminar, em termos de qualidade, uma sensação. Cada ação dos sentidos possui seus receptores especializados. Por exemplo: o estímulo auditivo só é recebido pelo receptor especializado do ouvido. 2. SENSIBILIDADE GERAL: Sensação dos órgãos internos, do movimento e da posição que assumimos no espaço, ou seja, a sensação difusa do funcionamen- to do nosso corpo. 2.1 CENESTESIA: É o conhecimento do nosso funcionamento visceral. Sensação de bem-estar ou mal-estar visceral. São sensações internas muito vagas, indiferenciadas, que nos dão o sentimento de bem-estar ou mal-estar visceral. Não se define. É uma sensação vaga. 2.2 CINESTESIA: Refere-se ao movimento do corpo. 2.3 SINESTESIA: Fusão de duas sensações. Ex: Audição colorida, visão acústica, audição aromática Comum em intoxicação por drogas (LSD). ALTERAÇÕES QUANTITATIVAS 1. HIPERESTESIA: Aumento da intensidade das sensações. Ex. Enxaqueca e intoxicação por LSD, histeria, estados maníacos de fraca intensidade, autismo, ocasionalmente em casos de epilepsia. 2. HIPOESTESIA: Diminuição da intensidade das sensações. Ex: Alcoolismo, histeria, depressão, epilepsia, estupor 3. ANALGESIA: Bloqueio, suspensão do estímulo doloroso. Insensibilidade à dor. 4. ANESTESIA: Abolição de todas as formas de sensibilidade. Pode ser por lesão. Ex: Lepra, histeria (quadros conversivos), alcoolismo, coma. 5. PARESTESIA: Não é um fenômeno cerebral: é medular ou periférico. Ex: Formigamento, alcoolismo. 6. AGNOSIA:Trata-se de uma perda do reconhecimento de estímulos visuais, auditivos ou táteis, na ausência de déficits sensoriais. As sensações elementares continuam a ocorrer normalmente, no entanto, não são associadas às representações, e assim não se tor- nam significativas. É um distúrbio do ato perceptivo associado a lesões cerebrais. Na Agnosia visual o paciente não identifica o objeto, nem para que serve, podendo descrever cor e forma. Pode reconhecer o objeto através de deduções e suposições. Ex.: O paciente além de não conseguir dizer, por ex, que se trata de uma cadeira também não consegue dizer para que serve. Demência de Alzheimer. OBS: AFASIA: Distúrbio da linguagem. Distúrbio na compreensão e expressão da linguagem, que surge na ausência de déficit auditivo ou de incapacidade motora do órgão fonador. Ex.: Demência de Alzheimer. II – DEFINIÇÃO DE PERCEPÇÃO: Processo de conhecimento de um fenômeno (identificação, discriminação e atribuição). 1. Características de uma verdadeira percepção: 1.1. CORPORALIDADE: É o caráter objetivo que tem a percepção. Ela é sempre corpórea, material. 1.2. PASSA NO ESPAÇO EXTERNO: A percepção depende do objeto externo. 1.3. NITIDEZ DE CONTORNO: Percebemos os contornos; detalhes do objeto. 1.4. CONSTANTE: O objeto não muda; não se modifica. 1.5. FRESCOR SENSORIAL: É recente a sensação que o objeto transmite. A percepção é vívida; as cores nos transmitem brilho. 1.6. INDEPENDE DA VONTADE: As percepções não podem ser evocadas (lembradas), nem modificadas arbitrariamente. São aceitas com sensação de passividade. 2 – PSEUDOPERCEPÇÕES: São de 3 tipos: - Ilusão, Alucinação e Pseudoalucinação. 2.1 ILUSÃO: É uma deformação da realidade passível de correção. Percepção deformada de um objeto real. Possui um caráter não persistente. Quando é persistente já é um sinal de patologia, como é na epilepsia. Só existe ilusão se tiver o objeto real e presente. Há 3 tipos de Ilusão: - por Desatenção, Catatimia, Pareidolia. · Desatenção · Catatimia: Deformação da realidade pelos afetos. · Pareidolia: Atribuir formas à manchas. Ex.: Ver carneirinhos nas nuvens, sabendo que isso não existe. 2.2.- ALUCINAÇÕES: São falsas percepções corpóreas que se originam de modo inteiramente novo ao lado de percepções reais e em lucidez de consciência, assim como, em presença de orientação no tempo e no espaço e em relação a si mesmo. Tem todas as características de uma verdadeira percepção (as seis). Falsa percepção sem o estímulo externo real e presente. Obs 1: Só os esquizofrênicos têm alucinação com todas as características de uma verdadeira percepção, ou seja, encontram-se lúcidos e orientados no tempo e no espaço. O objeto é a própria vivência patológica do sujeito. Obs 2: A privação sensorial leva ao fim de alguns dias a ocorrência de alucinações e fenômenos delirantes. A persistência de uma imagem sensorial, após a sua apresentação por um período de tempo prolongado. É um fenômeno normal. TIPOS DE ALUCINAÇÃO (percepção de objeto inexistente acompanhada de uma crença delirante) 1. ALUCINAÇÕES AUDITIVAS: Em geral o conteúdo das alucinações auditivas expressa as inquietações, temores do doente. 1.1 – ELEMENTARES: O paciente escuta ruídos indiferenciados (estalitos, zumbidos, passos, batidas, barulhos, etc…) 1.2 – COMPLEXAS: Alucinações auditivas verbais. São características da esquizofrenia. O indivíduo escuta vozes que falam com ele. Escuta diálogos, mas sempre voltados para ele. O enfermo pode ouvir uma única voz, que repete uma palavra ou diz frases completas ou, muitas vezes, que mantém entre si uma conversação. Em alguns casos, são quase imperceptíveis como sussurradas, murmuradas. As vozes podem ser, masculinas, femininas ou de crianças, monstros, etc... A direção de onde provém é variável: podendo vir de longe ou de perto, do teto, do quarto, ao lado da cama, etc... As alucinações auditivas verbais têm como predomínio vozes que ameaçam, censuram, criticam, acusam, dão ordens (também chamada alucinação imperativa), ou tomam a sua defesa. Em alguns casos o conteúdo delas pode expressar o desejo imediato do doente: “Ele é um grande cientista”. 1.3 FUNCIONAIS: A um som qualquer o indivíduo atribui vozes. Ex.: O indivíduo abre a torneira e escuta dizer que ele é “bicha”. Essa alucinação auditiva verbal desaparece quando a torneira é fechada. Obs 1: De um modo geral, os doentes se recusam a prestar informações sobre suas alucinações e quando insistimosrespondem simplesmente: “o senhor sabe muito bem do que se trata”. (por não ter um processo de diferenciação ele acredita que o outro também ouviu as vozes, isto é, o outro sabe o que se passa com ele) Obs.2: SONORIZAÇÃO DO PENSAMENTO: O paciente ouve o próprio pensamento, reconhecido no espaço externo objetivo. Essa alucinação difere do sintoma denominado Eco do pensamento (consiste na audição no momento do ato de pensar). Ex: Esquizofrenia. 2 – ALUCINAÇÕES VISUAIS: São muito raras nas psicoses esquizofrênicas e nas psi- coses afetivas. Estas quase sempre traduzem uma pato- logia orgânica. Ocorrem também nas intoxicações por alucinógenos (LSD , mescalina, etc). O conteúdo destas alucinações é, em geral, desagradável e acompanha-se de um estado afetivo angustioso. Os pacientes podem ver determinados objetos, figuras ou cenas completas, estáticas ou em movimentos (estas últimas são chamadas de ALUCINAÇÕES CENOGRÁFICAS: visão de cenas completas, por exemplo, de tempestades, de incêndio, brigas, assalto, lutas, etc. Clinicamente, A- mência ou Confusão mental, Delirium, intoxicação por por alucinógenos. 2.1 – ELEMENTARES OU FOTOPSIAS : Pontos brilhantes, cores, clarões, chamas, estrelinhas, etc. Comum nas epilepsias. 2.2 – COMPLEXAS (mais elaboradas): MACROPSIAS: Ver coisas grandes. Ex: Alucinações guliverianas. ZOOPSIAS: Visão de animais ferozes ou repugnantes. MICROPSIAS: Alucinações liliputianas. Ver bichos, pes- soas minúsculas, isoladas ou acompanhadas de movimento. Ex: Delirium tremes VISÃO DUPLA: ou alucinação Autoscópica ou Heautosco- pia. Pode ser dividida em alucinação autoscópica interna e alucinação autoscópica externa. Ex: INTERNA - o paciente percebe um ou vários órgãos ou uma região corporal isolada. Ex: EXTERNA - visão objetiva do duplo, isto é, da própria imagem do corpo projetado no mundo externo. Obs.: Eugen Bleuler descreveu a alucinação Extracampina: como típica da esquizofrenia. É aquela que tem lugar fora do campo visual do paciente. Ex: O paciente declara estar “vendo” alguém a fazer-lhe sinais obscenos, por trás do biombo da cadeira. Uma jovem refere-se que certa noite, em seu leito, começou a “ver” uma cruz que aparecia e desaparecia do lado de fora da porta do seu quarto. Clinicamente: Esquizofrenia e psicoses orgânicas. Alguns autores duvidam que tais fenômenos sejam realmente alucinações, mas sim resultado de interpretações delirantes. Isso porque faltam nelas as características das alucinações visuais: Cor, forma e movimento. No exemplo citado, a paciente apenas disse que a cruz estava do outro lado da porta, mas ela não afirmava que via a imagem sensorial da cruz. 3 – ALUCINAÇÕES TÁTEIS: São sensações de queimaduras, calor, frio, vento gelado, espeta- das, picadas, choques, sensações de contato, especialmente, nas zonas genitais. Em relação a esta última recebe o nome de aluci- nações genitais (comuns em mulheres idosas que se sentem pos- suídas sexualmente: também podem aparecer em homens). Chamamos de alucinações hápticas se a alucinação tátil vem associada a uma alucinação visual: Ex: Comum no Delirium Tremes e nas psicoses por cocaína. Frequentes intoxicações por drogas. Ex: Sentem formigas andando em seu corpo e veem os bichos em movimento. 4 – ALUCINAÇÕES OLFATIVAS E ALUCINAÇÕES GUSTATIVAS: São muito raras. Ex: Cheiro de podre, mal odor de cadáver, sexo, de seu próprio corpo, de carne deteriorada ou animais mortos, de pano queimado, de lixo, de mofo, de fezes, etc. As alucinações gustativavas: de sabor metálico, gosto desagradável na boca, gosto amargo, sangue, urina, etc. Em geral aparecem devido a lesões em áreas específicas (tumores). Podem estar relacionadas à interpretações deli- rantes. 5 – ALUCINAÇÕES CENESTÉSICAS: Ligadas à cenestesia. Sensações incomuns. Alteração da sensibilidade interna. Ex: Pessoa que se queixa que seus órgãos estão podres ou que seu fígado saiu pela cabeça. Sensação de animal alojado no corpo, sensação de choque elétrico, de espírito introduzido no corpo, etc. 6 – ALUCINAÇÕES CINESTÉSICAS: Sensações anormais de movimento corporal. Falsas per- cepções de movimentos ativos ou passivos de todo corpo ou de uma parte ou de objetos. Os esquizofrênicos percebem sensações de movimentos anormais, sentem-se como se estivessem voando, como se o chão afundasse ou se elevasse. Experimentam movimentos de rotação em diferentes sentidos; sentem-se impelidos a andar ou a executar certos movimentos. Ex: Esquizofrênicos catatônicos, Delirium tremes e em ou- tros quadros de etiologia orgânica. 7 – PSEUDOALUCINAÇÕES: O indivíduo percebe os objetos com as 4 últimas características da percepção. Não possuem as características 1 e 2. Ou seja, care- cem de corporalidade e são percebidas numa espécie de espa- ço interno subjetivo. (as imagens visuais e as vozes são locali- zadas pelo individuo no interior da cabeça ou em uma parte inter- na do corpo). De repente surgem na consciência com detalhes completos, com todos os traços e particularidades de uma imagem sensorial. Não desaparecem logo, mas podem ser retidas como fenômenos constantes até desaparecerem de repente. Não podem ser produ- zidas nem modificadas arbitrariamente; o sujeito se comporta passiva e receptivamente com relação a elas. No entanto, alguns pacientes reconhecem o caráter falso dos fenômenos, isto é, tem noção de sua inadequação: falta-lhe a grande convicção que marca as alucinações.