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Karl Marx, Friedrich Engels e o Marxismo 
Gabriel Nava
Momento Histórico
	A Europa de Marx e Engels se caracterizava por uma transformação social, econômica e política radical, com o fim da servidão e das relações sociais feudais, com o advento da moderna indústria fabril e da urbanização, com a propagação de ideais iluministas questionadores de privilégios naturais e com a emergência de conflitos sociais acirrados. Os temas do trabalho fabril, da polarização entre as classes sociais e das transformações que a nova ordem capitalista impunha se revelaram centrais nas preocupações dos autores. Nas palavras de Marx:
	“É sintomático dessas concepções tão errôneas o fato de os economistas incluírem o trabalhador nos “custos” do capitalista, equiparando-o a qualquer outro tipo de dispêndio de capital. A economia política ignora como irrelevante o fato de os “objetos” reais da sua análise serem os homens em sociedade.”	
	Marx e Engels [...] compreendiam o capitalismo como um regime contraditório, baseado na propriedade privada que garantiria a alguns poucos, a burguesia, o controle dos meios da produção (a fábrica, as máquinas, os instrumentos de trabalho, etc.) enquanto outros, os trabalhadores, por não possuírem esses meios, seriam obrigados a se sujeitar a atividades alienantes (no sentido de impedirem a plena realização criativa) e, se submeterem à exploração no âmbito do trabalho assalariado. (p.39).
	[...] Invertendo o modelo dialético idealista de Hegel, Marx fundamenta o materialismo histórico dialético: uma visão da história como movimento a partir do contraditório, mas que tem como ponto de partida as relações materiais. (p.40)
Trabalho, Alienação e Mais-Valia
	O trabalho é, para Marx, o meio de relação entre o homem e a natureza, uma relação dinâmica e autotransformadora. Os homens constroem suas condições de existência, permitem sua reprodução em sociedade, a partir do trabalho, mas diferentemente dos outros animais que mantém uma relação instintiva e repetitiva com a natureza o homem sempre cria, a partir das condições sociais, das técnicas e das formas de cooperação, novas condições de existência e, portanto, está sempre se transformando. (p.42)	
	O trabalhador, no capitalismo, não dotado dos meios de produção (das máquinas e dos equipamentos socialmente necessários) passa a produzir para o capitalista, vendendo sua força de trabalho como mercadoria. O produto do trabalho não mais lhe pertence, mas pertence ao capitalista e, por fim, seu ritmo do trabalho escapa a seu controle e passa a ser ditado pela máquina; ele se torna mero apêndice da máquina. Neste sentido, o trabalho perde qualquer característica de realização para os homens. (p.42)
Trabalho, Alienação e Mais-Valia
	A alienação do trabalho se dá com a separação entre o produto do trabalho e o trabalhador, conjuntamente com o estranhamento dentro da atividade produtiva, na medida em que a atividade em si não depende e nem pertence ao trabalhador. O trabalho alienado é fruto do processo que criou a propriedade privada, na medida em que a alienação do homem em relação a si e em relação à natureza se efetua na relação de subordinação a outro homem, ou melhor, em uma relação de dominação de classe. O produto e a atividade do trabalho pertencem a outro homem que não o trabalhador, ao proprietário dos meios de produção, o capitalista. O trabalho, no capitalismo, passa a se resumir a uma atividade enfadonha e sem sentido ao trabalhador. (p.43)
Trabalho, Alienação e Mais-Valia
	O valor do trabalho não é de usufruto do trabalhador no capitalismo. O trabalhador, despossuído dos meios de produção, se submete ao trabalho assalariado e produz, em termos de valor, muito mais do que recebe na forma de salário. Como exemplo, o trabalhador que trabalha em uma indústria calçadista produz uma dúzia de sapatos por dia e em seu salário recebe o valor relativo a um terço do que produziu. O que acontece com o excedente? Ele é apropriado pelo proprietário dos meios de produção, o capitalista. O excedente é denominado por Marx de mais-valia. Trata-se de um conceito que possibilita compreender que a acumulação capitalista se baseia na expropriação do trabalhador. 
Luta de Classes, Práxis e a Interdependência das Esferas Sociais
	[...] o enfoque marxiano não é economicista, posto que a economia não se encontra isolada da sociedade. A perspectiva materialista histórica não é aquela que assume uma concepção determinista do âmbito econômico, mas pode ser definida como: a concepção segundo a qual a instância econômica, sendo a base da vida social dos homens, não existe senão permeada por todos os aspectos dessa vida social, os quais, por sua vez, sob modalidades diferenciadas, são instâncias da superestrutura possuidoras de desenvolvimento autônomo relativo e influência retroativa sobre a estrutura econômica (GORENDER, 1983, p. XXIV). (p.47)
Luta de Classes, Práxis e a Interdependência das Esferas Sociais
	Em uma perspectiva materialista, é a existência social que determina a consciência e não o contrário. São as contradições profundas na esfera da produção e nas relações sociais que, no limite, têm uma determinância em relação aos outros aspectos da sociedade (Quem detém os meios de produção domina toda a sociedade). Elas são a base ou infraestrutura da sociedade. Isso significa dizer que as ideias, as leis, o aparato jurídico são, em alguma medida, limitados ou decisivamente influenciados pelo contexto social e pelas relações de força entre as classes em vigor. Acima das determinações infraestruturais, há a dimensão superestrutural [...] O Estado, suas leis, as ideias dominantes de uma época preservam íntima relação com a estrutura da sociedade em questão, justificando a ordem social. 
Ideologia, Consciência De Classe e Práxis Revolucionária
	De forma geral, as ideias refletem interesses econômicos e as relações sociais, o que em alguma medida garante que as classes sociais têm a propensão de ver o mundo de um modo particular, na medida em que vivenciam a realidade de forma singular. No entanto, algumas ideias predominam na sociedade e se impõem às outras, estas são as ideias dominantes. Chamamos o conjunto de ideias dominantes de um período de ideologia.
	[...] nas sociedades de classes as ideias dominantes de qualquer época são as ideias da classe dominante. Desta proposição tem de se inferir um outra, a saber, que a disseminação das ideias depende predominantemente da distribuição do poder económico na sociedade (GIDDENS, 2005)
	Enquanto os trabalhadores não tomarem coletivamente consciência de classe serão inebriados pelo conjunto das ideias dominantes.
Ideologia, Consciência De Classe e Práxis Revolucionária
	Marx e Engels escreviam ideias e buscavam difundir suas ideias na medida em que acreditavam também poder intervir no mundo real. Seus escritos se baseiam em uma concepção de uma teoria da práxis revolucionária. A teoria não deveria se preocupar unicamente em compreender a realidade, mas modificá-la. Para tanto, compreender a natureza histórica e transformadora da realidade se faz essencial, algo que se faz estudando e também participando das lutas políticas da sociedade: 
	As mudanças sociais só podem ser realizadas através da união da teoria e da prática, o que exige portanto a integração do estudo das transformações históricas possíveis ou iminentes e de um programa de acção prática que possa contribuir para a realização dessas transformações (GIDDENS, 2005). 	
O Marxismo Entre a Teoria e a Prática Política
	O enfoque marxista fornece pesquisas que partem do método dialético, abordando aspectos contraditórios da realidade, em uma análise que visa a totalidade, considerando a historicidade. O marxismo se desenvolveu a partir do século XX e tem uma longa história vinculada à teoria e à prática política. 
	Ao falar do marxismo, é importante citar nomes como Lênin, criador do Partido Bolchevique na Rússia, Rosa Luxemburgo, do Partido Social-Democrata na Polônia e Partido Comunista Alemão e Leon Trotsky, figura central entrefrações social-democratas na Rússia. 
	
	O Marxismo [...] também se tornou a doutrina de um movimento político - que foi revolucionário em um determinado momento, mas desde a vitória dos comunistas na Rússia, em 1917, e posteriormente em outros lugares, o marxismo passou a operar como um manifesto oficial do governo. Como resultado disso, o marxismo sofreu diversas cisões e variações, correspondentes às disputas políticas no âmbito dos regimes comunistas e dos movimentos revolucionários espalhados por todo o mundo. Para alguns intelectuais, essas conexões políticas e essas aplicações práticas são parte do apelo do marxismo, mas são também as responsáveis pela considerável repulsão por parte de outros (COLLINS, 2009, p. 51). 
	De um lado, o marxismo ficou ligado à ideologia oficial dos partidos comunistas que, por sua vez, tinham vínculos com a União Soviética. De outro lado – e muitas vezes associado a isso –, durante o século XX se divulgou em muitas instâncias o que se chama de marxismo vulgar. Trata-se de uma simplificação da teoria complexa do marxismo, então reduzido a uma linha evolucionista, a qual pressupunha uma transformação inevitável e automática do capitalismo ao comunismo, como se fosse o destino natural de todas as sociedades 
György Lukács 
	[...] “coisificação”, o processo por meio do qual uma pessoa é transformada em uma coisa. O problema básico do capitalismo, diz Lukács, é que ele trata as pessoas como se fossem coisas e trata as relações humanas como se fossem relações entre coisas. O tipo específico da coisa em que as pessoas das sociedades capitalistas são transformadas chama-se mercadoria. 
	A análise é de um observador do capitalismo do século XX, no qual observam-se trabalhadores fragmentados que “[...] perdem o contato não só com os produtos ou serviços que criam, mas com seus próprios pensamentos, sentimentos e ações” (BERMAN, 2001, p. 209). O trabalhador se transforma em uma peça em um sistema mecânico, no qual “nos sentimos passivos e contemplativos [enquanto trabalhadores]; vivenciamos a nós mesmos como espectadores de processos que acontecem conosco, e não como participantes ativos que moldam suas próprias vidas” (BERMAN, 2001, p. 210). 
Antonio Gramsci
	Gramsci põe relevo em duas dimensões da sociedade em suas análises: a sociedade política e a sociedade civil. A primeira seria a dimensão do poder Estatal, baseado em seu papel coercitivo, como um aspecto fundamental da dominação política, mas também baseado em um poder de produzir consenso. A segunda dimensão seria a esfera da sociedade civil, marcada por elementos tais como a imprensa, as escolas, as igrejas, os partidos políticos, dentre outros. A reprodução do capitalismo necessita, além do aparato coercitivo do Estado, da elaboração de um consenso valorativo na sociedade civil. 
	Gramsci considera que a produção de ideias é algo fundamental na transformação da realidade e, de outro lado, que as ideias dependem de seus vínculos com a realidade social e, mais propriamente, com os grupos sociais em disputa. 
	Neste sentido, os partidos políticos, depositários das vontades coletivas, e os intelectuais, fundamentais nas elaborações de consensos valorativos, possuem uma importância chave na disputa política e na possibilidade de reprodução ou transformação social
Louis Althusser
	A abordagem de Althusser teve como foco a análise da sociedade como “totalidade” entendida como uma estrutura complexa, composta por diversas esferas em conexão. O papel da ideologia é fundamental na manutenção da ordem estabelecida. A ideologia dominante se efetiva por meio de aparelhos ideológicos disseminados na sociedade. Na visão de Althusser, a sociedade é composta de um aparelho repressivo estatal (o Governo, a Administração, o Exército, a Polícia, os Tribunais, as Prisões, etc., ) e de aparelhos ideológicos do Estado (instituições como a família, sistemas religiosos, sistema escolar, partidos políticos, imprensa, etc).
	Ao contrário do aparelho repressivo que funciona pela violência, os aparelhos ideológicos do Estado são eminentemente ideológicos, enquanto instituições distintas e especializadas. E, portanto, eles se definem pela pluralidade e pelo domínio privado, em, contraste com o domínio público do aparato repressivo. 
A Escola de Frankfurt
	A Escola de Frankfurt recebeu tal alcunha por derivar suas principais produções teóricas do Instituto de Investigação Social de Frankfurt. Dentro da tradição marxista, os teóricos da Escola de Frankfurt tiveram como centro de suas discussões questões vinculadas à chamada superestrutura, redimensionando a importância desta esfera para a compreensão da temática da dominação e reprodução social. 
A Escola de Frankfurt: Adorno
	Adorno, ao presenciar a adesão das massas ao nazismo e outros regimes totalitários, analisou “[...]o indivíduo reificado, que tem ‘muito tempo livre e pouca liberdade’, é despolitizado, de temperamento destrutivo e está preparado para apoiar projetos políticos autoritários, caso isso lhe apareça como algo inevitável” (DUARTE, 2003, p. 34).
	Na obra A Dialética do Esclarecimento (ou do Iluminismo), Adorno e Horkheimer apresentam o processo civilizatório como dominado pela “racionalidade instrumental”. [...] o progresso técnico desenvolvido pelo capitalismo passou a ser analisado em seus aspectos sombrios: os esforços pré-históricos do pensamento instrumental, pelo qual a humanidade aprende a afirmar-se sobre a natureza, são propagados passo a passo na disciplinação dos instintos, no empobrecimento das capacidades sensuais e na formação de relações sociais de dominação (HONNETH, 1999, p. 521). 	
A Escola de Frankfurt: Adorno
	A indústria cultural não é apenas moldada pelas demandas do público consumidor, em vez disto, ela gera o gosto, produz o desejo por consumir. Além disto, ela serve de instrumento de reprodução do capitalismo, atestando sua vitalidade e a compreensão do mesmo como um sistema. A diversão do trabalhador no cinema, no seu tempo de lazer, permite que este se dedique ao trabalho mecanizado, em seu tempo de trabalho. Desta forma, ela contribuiu para o não desenvolvimento da consciência de classe, funcionando como um aparato ideológico do sistema.
	Exemplo: Adorno constata a atrofia da atividade do espectador para seguir o argumento do filme, em contraste com a arte erudita. Com o advento do cinema o espectador deve ir tão rápido que não pode pensar: “o filme não deixa à fantasia nem ao pensar dos espectadores dimensão alguma na qual possam mover-se por sua própria conta, com o que adestra sua vítimas para identificá-lo imediatamente com a realidade” 
A Escola de Frankfurt: Adorno X Walter Benjamin 
Na destruição da aura estética, Adorno via um processo que força o observador a transformar-se num consumidor passivo e alienado, o que, portanto, torna a experiência estética impossível a arte de massa, resultante da nova reprodução tecnicizada, representava para ele nada menos que a “desestetização da arte” (Entkunstung der Kunst). Benjamin, por outro lado, via na arte de massa tecnicizada sobretudo a possibilidade de novas formas de percepção coletiva; apoiou todas as suas esperanças no fato de, na experiência remota da arte, por parte do publico, aquelas iluminações e experiências que até então ocorriam no processo esotérico da fruição solitária da arte poderem agora acontecer em circunstancias mais prosaicas (HONETTH, 1999, p. 530).

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