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Vejam como esses objetivos interagem: qualquer proposta sobre o que é o conhecimento lingüístico do falante de uma língua deve ser compatível com os conhecimentos lingüísticos iniciais que a criança traz em sua faculdade da linguagem. Ao mesmo tempo, qualquer proposta sobre o que são os conhecimentos lingüísticos iniciais, que são parte da informação genética da faculdade da linguagem, deve poder explicar as características do conhecimento lingüístico de um falante adulto. 34 Introdução aos Estudos Lingüísticos Evani Viotti (USP) Para a Gramática Gerativa, seu objeto de estudo é a língua, mas entendida como conhecimento que um falante tem de sua língua, desenvolvido a partir da informação genética trazida pela faculdade da linguagem. Mas, atenção! Vejam que eu estou dizendo que, para a teoria chomskyana, seu objeto é a língua só entendida como esse conhecimento lingüístico desenvolvido a partir do estado inicial da faculdade da linguagem! Não é tudo aquilo que nós chamamos de língua em nosso dia-a-dia. Tecnicamente, objeto de estudo da Gramática Gerativa, que é a língua entendida desse modo particular, pode ser chamado de competência. Competência é conhecimento mental que um falante tem de sua língua. É o resultado do desenvolvimento do conhecimento lingüístico inato, a partir de sua interação com dados de uma determinada língua. Competência se opõe a performance, que é o uso concreto da língua. Para Chomsky, quando usamos a língua em nossa comunicação, lidamos com elementos de natureza social e psicológica que são externas à língua, e que se combinam de forma complexa com nossa competência. Por exemplo, começamos a dizer alguma coisa, e, de repente, esquecemos do que estávamos falando. Essa é uma falha de nossa memória ou de nossa atenção, que influi na exteriorização de nossa língua. Mas essa é uma questão de performance, não de competência. Não significa que não conhecemos nossa língua. Significa apenas que tivemos um problema de natureza psicológica no uso do conhecimento que temos de nossa língua. Um outro exemplo que podemos dar para esclarecer a diferença entre competência e performance diz respeito a questões sócio-culturais relacionadas ao uso da língua. Comparemos dois brasileiros, falantes nativos de português, um aluno universitário, o outro, um trabalhador com baixo nível de escolarização. Os dois tiveram um problema relacionado a um buraco enorme que apareceu em uma rua da cidade. Os dois ficaram igualmente indignados com o pouco caso que a prefeitura está dando para o calçamento, e pensam que devem escrever uma carta para o jornal, fazendo uma reclamação pública. Qual dos dois vocês acham que vai ter mais facilidade para escrever essa carta da maneira apropriada para ser publicada em um jornal? Em princípio, deve ser o estudante universitário. Uma das coisas que nós aprendemos na escola é a "usar" melhor nossa língua. Nós aprendemos como devemos nos dirigir a pessoas que ocupam cargos importantes, nós aprendemos como escrever dissertações, descrições, cartas. Nós aprendemos a lidar com estilos diferentes de cartas: sabemos como devemos escrever uma carta para nossos amigos, nossos pais, e também aprendemos a escrever cartas para empresas, como jornais, companhias aéreas, escolas, ou para órgãos oficiais, como a universidade, como a prefeitura, o governo do estado. Uma pessoa com baixo nível de escolarização tem uma competência do português igual à de um estudante universitário. Entretanto, sua performance tende a ser bastante diferente, ou seja, sua habilidade de uso de sua competência em situações sociais de diversas naturezas é mais limitada. Vocês devem estar achando tudo isso muito difícil. De fato, não é fácil compreender esses conceitos. Vocês devem estar querendo fazer a seguinte pergunta: 35 Introdução aos Estudos Lingüísticos Evani Viotti (USP)

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