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2 Possui graduação em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (1993), mestrado em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (2006) e doutorado em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (2011). Atualmente, é professor EBTT do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul, desempenhando a função de diretor-geral do Campus Campo Grande. Dejahyr Lopes Junior Gustavo Medina Araujo Possui graduação em História pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (2010), Especialização em Novas Tecnologias na Educação (Esab). Mestrando do programa de pós- graduação em Educação Profissional e Tecnológica (ProfEPT). Atualmente, é Assistente de Aluno do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul, Campus de Aquidauana. http://lattes.cnpq.br/5340640937462535 http://lattes.cnpq.br/6904548896539871 3 LO CURSO LIVRE IFMS Olá, cursista! Seja bem-vindo(a) ao Módulo 1 - Introdu ao E É um prazer ter você conosco! Esta seção de apresentação traz informações importantes para que você possa iniciar, com tranquilidade, seus estudos. Vamos a elas! ORIENTAÇÕES GERAIS Este módulo foi desenvolvido para ser ofertado sem tutoria e tem como objetivo oferecer conhecimentos sobre o Transtorno do Espectro Autista. O estudo está dividido em três capítulos: Introdução ao TEA; Mas afinal, o que é TEA?; e Etiologia, Terapias e Mitos. Ao final do Módulo 1, apresentamos um resumo dos capítulos, em seguida, elaboramos um questionário de fixação para reflexão e aplicação do seu conhecimento adquirido. Em caso de dúvida, nosso contato é pelo e-mail cursoslivres@ifms.edu.br Agora você já pode começar seus estudos! É uma imensa satisfação ter você como cursista! Bons estudos! 4 1. Capítulo 1 – Introdução ao TEA ......................................................06 2. Capítulo 2 - Mas afinal, o que é TEA?..............................................10 3. Capítulo 3 - Etiologia, Terapias e Mitos ..........................................19 4. Síntese do módulo .........................................................................22 5. Exercício de Fixação do conteúdo ...................................................23 6. Referência .....................................................................................25 SUMÁRIO 5 CAPÍTULO 1 6 CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO AO TEA Este capítulo tem como objetivo apresentar o processo de categorização do diagnóstico do Transtorno do Espectro Autismo (TEA), além disso, demostrar, por meio de referências bibliográficas, que o TEA está presente há muito tempo, desmistificando conceitos de que o autismo é uma condição contemporânea, por exemplo, causada pela alimentação ou modo de vida da sociedade. Ficou sem entender nada? Bom, esses personagens foram a maneira que encontrei para conhecer melhor meu filho, que foi diagnosticado com autismo. O Lorde DHAAREDYHWGGHW e o Jhonky irão acompanhá-lo no delinear do curso. Este módulo possui textos e vídeos embasados em livros e artigos, revisados com muito critério científico para proporcionar um conhecimento verídico e atual sobre a temática. Vamos começar nossa aventura? Figura 1 - Personagem Jhonky Fonte: Elaborado pelo autor- software makehuman-community 7 Você sabia? Podemos perceber que o autismo se tornou uma temática muito abordada pelas pessoas ao redor do mundo, apesar de o assunto ser atual, há registro de pessoas com autismo em uma época que não havia diagnóstico, há mais de 300 anos! Vamos viajar nessa história? Pois bem, é interessante saber, antes de “embarcar nesta viagem”, sobre o termo “autismo”, essa palavra vem sendo usada há quase 100 anos, incorporada à raiz “autos”, que significa “eu”, fazendo uma associação ao isolamento social como a principal manifestação do distúrbio (GROGAN, 2015 apud FISCHER, 2019). Esse termo é oficialmente usado como preferência em favor do Transtorno Espectro Autista (TEA), que é um conjunto de sintomas que afeta a área da socialização, comunicação e comportamento (TEIXEIRA, 2018). Agora sim! Podemos discorrer sobre a história das pessoas com TEA, começamos no início do séc. XVIII, com o nobre Escocês Hugh Blair de Borgue. Apesar de toda sua dificuldade em interação social, o nobre foi inserido em um casamento arranjado pela mãe por motivos de herança. Naquela época, as leis na Escócia sobre a herança favoreciam ao descendente casado e mais velho, assim sendo, Hugh foi beneficiado com o casamento. Mas, seu irmão mais novo reivindicou a herança alegando que Hugh Blair era incapaz de escolher se casar. Neste julgamento, é descrito o comportamento de Hugh por 29 testemunhas, podemos exemplificar: Olhar demasiado fixo, falta de tato e repetição de frases de modo persistente. Quando Blair recebia uma pergunta, ao invés de responder, ele as repetia, mostrando dificuldade em entender o que desejavam dele. Algo que chamou a atenção das testemunhas no julgamento, foi que Hugh tinha interesses restritos, como em funerais, não importava quem morria, ele sempre estava lá observando o enterro em sua região. O resultado do julgamento foi a anulação do casamento do nobre Escocês Hugh Blair de Borgue. O documento dessa história foi levantado pelo historiador Rab Houston e trabalhado pela psicóloga Uta Frith, uma das mais renomadas profissionais sobre autismo, concluindo que Hugh Blair de Borgue era uma pessoa com autismo (LACERDA, 2017). Figura 2 Fonte: Peopl e illustrations by Storyset. Figura 3 - Casamento Hugh Fonte: imagem do canva.com 8 Com avanço dos estudos sobre TEA, essas e outras histórias tornaram-se possíveis para os especialistas pressuporem a presença de autismo nessas pessoas, visto que, na época, eram tratadas como deficientes intelectuais profundos. Mas, a pergunta que não quer calar: quando o autismo foi identificado como uma condição específica? Ou seja, quem descobriu o autismo? Os primeiros estudos científicos que reconheceram a específica condição do autismo foram descritos pelo médico psiquiatra infantil Leo Kanner, em 1943, com sua observação comportamental de 11 crianças, publicando o artigo - Distúrbios autísticos do contato afetivo, onde relata três características em comum destes indivíduos: linguagem verbal marcada por ecolalia, estereotipia e inversão pronominal. A psiquiatra Lorna Wing contribuiu com seus estudos na observação de três características: prejuízo na socialização (dificuldade de entender emoções e pensamentos dos outros), linguagem e comportamento repetitivos ou estereotipados (movimento de balançar as mãos e o tronco para frente e para trás). Já o médico Hans Asperger, contribuiu com o estudo denominado síndrome de Asperger, no qual descreveu o comportamento de 4 crianças que conversavam em determinados assuntos com riqueza de detalhes e uma linguagem formal incomum para sua idade. Esses três profissionais formam a base de estudo moderno do TEA (TEIXEIRA, 2018). Gostou da história? Vimos que o psiquiatra infantil Leo Kanner teve um papel importante dentro do Transtorno do Espectro Autismo, no entanto, não podemos deixar de relatar que o psiquiatra sugeriu que uma das causas do autismo era falta de afetividade das mães, ficando conhecida como “mães geladeiras”. Esse fato foi publicado por Bruno Bettelheim no livro “A Fortaleza Vazia” (1967), causando diversos transtornos para mães de autistas e iniciando uma luta por direitos (LACERDA, 2017). Conteúdo complementar 2 minutos de história - “Mães geladeira” Convido você a ver esta animação de 2 minutos sobreo tema. Ah! por gentileza, não se esqueça de deixar seu comentário sobre o vídeo.1 https://youtu.be/WWRSxanunAI 1 Fonte: Vídeo elaborado pelo autor com conceitos de LACERDA (2017) Figura 4 Fonte: imagem do canva.com Figura 5 Fonte: Social media illustrations by Storyset Fonte: imagem do canva.com Figura 6 https://youtu.be/WWRSxanunAI 9 CAPÍTULO 2 10 CAPÍTULO 2 - MAS AFINAL, O QUE É TEA? O objetivo desta unidade é mostrar as principais características do autismo, ou seja, as áreas do neurodesenvolvimento que apresentam déficit. Esse conhecimento vai ajudar o cursista a interagir com melhor qualidade com as pessoas com TEA. Como profissional da educação, abre a oportunidade de contribuir com projetos e atividades, na vida pessoal, ajudar com um diagnóstico ou terapias. É um conhecimento básico, que apresenta caminhos para aquisição de novas oportunidades sobre a temática. Como você pôde ver no capítulo anterior, o médico psiquiatra infantil Leo Kanner foi o pioneiro a diagnosticar a condição específica do autismo, publicando seu artigo “Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo”. Atualmente, os profissionais de saúde mental, como Neurologistas ou Psiquiatras, seguem o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtorno Mentais) para orientar no diagnóstico de TEA. O DSM tem como objetivo fornecer uma fonte segura e científica para pesquisas e práticas clínicas, sendo um livro atualizado constantemente pela Associação Americana de Psiquiatria. No Manual, constam os critérios clínicos, sinais e sintomas necessários para o diagnóstico de cada transtorno mental. A última edição é o DSM-5, do ano de 2013, que trouxe grandes modificações na estrutura diagnóstica do autismo, uma vez que aboliu o termo “transtorno global do desenvolvimento”, em que o autismo era dividido em 5 categorias (DSM-4): transtorno autista, transtorno de Rett, transtorno desintegrativo da infância, transtorno de Asperger e transtorno invasivo do desenvolvimento sem outra especificação. No DSM-5, essas categorias deixaram de existir ficando caracterizado como Transtorno Espectro Autista – TEA como diagnóstico (LIBERALESSO, 2020). Uma outra inclusão no DSM-5 são os níveis de autismo, diferenciando no diagnóstico entre autismo leve, ou Nível 1, moderado, Nível 2 e severo, Nível 3. Mas, como são mensurados os níveis de autismo? Pois bem, os níveis de autismo não estão relacionados à gravidade dos sintomas. O que é levado em conta é a ajuda de que a pessoa com autismo necessita, além do que, focar no nível de apoio, fica mais claro, pois, antes do TEA, o estudante é um ser Fonte: Elaborado pelo autor - software makehuman-community Figura 7 Personagem Jhonky about:blank 11 Fonte: Elaborado no Canva com conceitos de APA (2014, p.92). Figura 8: Níveis do TEA humano, e os níveis são passíveis de mudança. Nessa direção, classificados os níveis, como: Leve - necessita de ajuda; Moderado - ajuda substancial e o Grave é completamente dependente (LACERDA, 2017). Observe na figura os níveis do TEA sobre o viés dos déficits da comunicação social: 12 Outro material cientifico que é utilizado pelos médicos para orientar no diagnóstico do TEA é a tabela CID 11 (Classificação Internacional de Doenças) desenvolvida e atualizada pela Organização Mundial da Saúde, que reúne cerca de 55 mil códigos únicos para lesões, doenças e causas de morte. Nessa versão, o CID 11 une os transtornos do espectro num só diagnóstico - TEA, com isso, definindo um único código 6A02, acrescentado por subdivisões associadas a linguagem funcional e a deficiência intelectual (TISMOO, 2022). Veja como ficou: Tabela 1 TEA NO CID-11: CÓDIGO 6A02 6A02.0 Transtorno do Espectro do Autismo sem deficiência intelectual (DI) e com comprometimento leve ou ausente da linguagem funcional; 6A02.1 Transtorno do Espectro do Autismo com deficiência intelectual (DI) e com comprometimento leve ou ausente de linguagem funcional; 6A02.2 Transtorno do Espectro do Autismo sem deficiência intelectual (DI) e com linguagem funcional prejudicada; 6A02.3 Transtorno do Espectro do Autismo com deficiência intelectual (DI) e com linguagem funcional prejudicada; 6A02.5 Transtorno do Espectro do Autismo com deficiência intelectual (DI) e com ausência de linguagem funcional; 6A02.Y Outro Transtorno do Espectro do Autismo especificado; 6A02.Z Transtorno do Espectro do Autismo, não especificado. Fonte: adaptado, TISMOO (2022). 13 Agora que você já sabe sobre a origem do TEA, vamos para definição: O TEA é um distúrbio do neurodesenvolvimento, compreende um grupo de sintomas que se manifesta entre os 3 anos de idade e se prolonga por toda a vida. Podemos dividir esses sintomas em duas áreas centrais que o autista apresenta déficits, a primeira refere-se a prejuízos na interação social e comunicação, adiante, disfunções comportamentais (APA, 2014). Nessa definição, observamos que os sintomas são natos, desmistificando que pessoas adquirem TEA ao longo da vida adulta. Outro ponto para destacar são as definições dos sintomas que vamos comentar em detalhes adiante. CARACTERÍSTICAS DIAGNÓSTICA DO TEA Em consonância com DSM-5, dividimos duas áreas centrais que o autista apresenta déficits, são elas: Prejuízos na interação social e comunicação, além de disfunções comportamentais. Você já percebeu? Nós, seres humanos, somos de essência sociável, participamos de grupos, relacionando-nos com diversas pessoas, através desta interação são passadas regras de convívio, como comunicar-se, de aprender e de desenvolver de maneira adequada. Para uma interação de fato são necessárias habilidades sociais que envolvam adaptação em diferentes contextos, como por exemplo, ajustar-se em uma sala de aula ou trabalho e, ainda, interpretar pensamentos e desejos dos outros. As pessoas com TEA apresentam dificuldades em adquirir essas habilidades, prejudicando sua interação social, com isso ficam isoladas, sendo descritas pelos outros como estranhas ou nerds (KHOURY et al, 2014). Figura 9 Figura 8 Fonte: People illustrations by Storyset Fonte: Celeb ration illustrations by Storyset 14 Vejamos algumas áreas que são prejudiciais aos autistas que os impedem de uma interação efetiva: Dificuldade na interação socioemocional Para o DSM-5, interação socioemocional é a capacidade de envolvimento com outros e compartilhamento de ideias e sentimentos. Crianças pequenas com TEA, podem apresentar dificuldade em iniciar interações sociais e de compartilhar emoções, havendo linguagem, costuma ser unilateral, sem reciprocidade social, usada mais para solicitar ou rotular do que para comentar, compartilhar sentimentos ou conversas (APA, 2014). Além disso, crianças com autismo, muitas vezes, buscam contatos sociais, mas não sabem exatamente o que fazer para mantê-los, podem até chamar os coleguinhas a irem em suas casas, mas as brincadeiras não costumam durar muito tempo; elas acabam deixando o grupo de lado para brincarem sozinhas, evidenciando a dificuldade de compartilhar momentos de interesses com o outro (KHOURY et al, 2014). Nos adultos sem deficiência intelectual ou atrasos de linguagem, os déficits nesta área podem aparecer mais em dificuldades de processamento e resposta às pistas sociais complexas (p. ex., quando e como entrar em uma conversa, o que não dizer). Adultos que desenvolveram estratégias compensatórias para alguns desafios sociais ainda enfrentam dificuldadesem situações novas ou sem apoio, sofrendo com o esforço e a ansiedade para, de forma consciente, calcular o que é socialmente intuitivo para a maioria dos indivíduos. Outro ponto que podemos destacar é a falta de qualidade na interação social, evitando saudações, p. ex., não falando "Oi" quando é cumprimentado (APA, 2014). As pessoas com autismo apresentam dificuldades em interpretar sinais (expressões faciais, expressões verbais), vejamos um exemplo: Em uma roda de conversa de diversos temas de um grupo de amigos, João (autista) começa a articular sobre carro, insistentemente, as pessoas ficaram com uma expressão irritada e deram sinais para cessar a conversa, mas, com a dificuldade de interpretar sinais, João continuou o assunto sobre carros, assim, as pessoas se afastaram. Figura 10 Fonte: People illustrations by Storyset 15 Déficit no contato visual e comunicação Devido a um funcionamento da mente, os autistas são incapazes de manter, por período prolongado, focando suas pupilas nos olhos de outro indivíduo. A falta de contato visual direto prejudica a interação social das pessoas com autismo, pois é no olhar que mostramos a intenção de nos comunicarmos, o indivíduo que não olha no olho do outro pode passar a falsa impressão de descaso ou pouco interesse pelo interlocutor (SILVA, 2014). Já na comunicação verbal e não verbal, os autistas apresentam prejuízos. Em geral, manifestam dificuldades em comunicar-se, entender expressões faciais e metáforas (KHOURY et al, 2014). Vejamos algumas características: 1. Dificuldade de manter e iniciar uma conversa - repete assunto do seu interesse. 2. Uso estereotipado e repetitivo da linguagem - decoram texto, voz infantilizada. Exemplo: Decoram fala de personagens e repetem com a entonação de voz. 3. Dificuldade em engajar em brincadeiras imaginativas - interpreta as situações de maneira literal. 4. Inversão de pronome (1ª para 3ª pessoa) Exemplo: Antônio quer a bola. (Correto: Eu quero a bola). 5. Falam a verdade sem pensar nas consequências, mas não têm intenção de magoar (SILVA, 2012). Fonte: People vector created by storyset - www.freepik.com FIGURA 11 16 As pessoas com TEA apresentam Disfunções Comportamentais. Veja alguns exemplos listados: 2. Apego à rotina, fazem sempre do mesmo jeito, sistematicamente (ritualizado como se fossem "manias"). Para os autistas, a rotina acalma e protege, pois torna seu dia mais previsível. 3. Movimentos estereotipados e repetitivos, como: balançar o corpo, bater palmas, pular, torcer os dedos, abanar as mãos. 4. Valorizam mais a parte do que o todo, perdendo a noção do conjunto. Demorando mais tempo para mudar o foco. Exemplo: no rosto da mãe, fica olhando seu nariz, boca e perde a expressão, como: raiva, tédio, alegria. Ele demora em ver as expressões das pessoas, assim, perde o entendimento. 5. Hipersensibilidade ao toque (não gosta de ser tocado). 6. Andam nas pontas dos pés (nos primeiros anos de vida, algumas crianças autistas andam na ponta dos pés, devido à hipersensibilidade ao toque no solo). 7. Autoagressões – podem se bater e morder em situação de stress. 8. Gostam de objetos que giram, exemplo: ventilador, roda e trenzinho. Por terem movimentos lógicos e previsíveis (SILVA, 2012). Figura 12 Fonte: Foto de cottonbro no Pexels Fonte: Social media illustrations by Storyset Figura 13 F o n t e Social media illustrations by Storyset https://www.youtube.com/watch?v=Oo6HGAFoRJ0 18 CAPÍTULO 3 19 CAPÍTULO 3 - ETIOLOGIA, TERAPIAS E MITOS Este capítulo tem a intenção de expor conceitos sobre as causas do TEA (etiologia), utilizando pesquisas recentes sobre o assunto. No decorrer do texto, apresentamos exemplos de terapias para pessoas com TEA. Por fim, comentamos sobre mitos alusivos às causas do autismo. Na medicina, a palavra etiologia refere-se ao estudo das causas das disfunções (MESQUITA, DUARTE, 1996). Nessa direção, Girodo, Neves e Correa (2008) definem a etiologia do autismo como heterogênea, multifatorial, com indicações de uma forte e complexa influência genética. Estudos indicando causas do autismo a fatores genéticos não é recente, a primeira colocação provém de 1977 com psiquiatra britânico Michael Rutter e a psicóloga americana Susan Folstein com uma pesquisa em gêmeos, esse estudo foi importante para compreensão do autismo como um transtorno com forte componente genético (DONVAN; ZUCKER, 2017). Seguindo esse princípio, estudo mais recente foi realizado no ano de 2019 em 5 países (Dinamarca, Finlândia, Suécia, Israel e Austrália Ocidental) com mais de 2 milhões de indivíduos, crianças nascidas entre 1º de janeiro de 1998 e 31 de dezembro de 2011 e acompanhadas até os 16 anos, confirmou que mais de 90% dos casos de autismo possuem causa genética sendo, aproximadamente, 80% hereditário (SANDIN; NOBELS, 2019). Teixeira (2016) salienta que, apesar de manifestar forte presença genética, existem um pequeno percentual de fatores ambientais como causa do autismo, estes fatores estão relacionados ao ambiente de gestação que podem vir a prejudicar o cérebro do feto neste período, exemplos são as doenças congênitas, como a rubéola, encefalite, meningite, por mais, o uso de drogas e má nutrição da mãe. Outros estudos, comprovam que pais de autistas possuem 10% de probabilidade de ter segundo filho com a condição. No que tange a filhos gêmeos, se um irmão possuir TEA, há possibilidade entre 36% a 95% de o outro ser autista. ACOMPANHAMENTO O acompanhamento do autismo envolve terapias comportamentais especializadas e é multidisciplinar, podendo incluir vários especialistas, entre eles: Neurologista, Psicólogo e Fonoaudiólogo (SILVA; GAIATO; REVELES, 2012). Teixeira (2016) destaca que o acompanhamento moderno do TEA é realizado por meio de vários anos de estudos científicos nos centros de pesquisas renomados dosEstados Unidos, Canadá e Europa. Nessa direção, os autores citam 15 intervenções utilizadas no acompanhamento do TEA na atualidade, entre elas: 20 Orientação familiar e psicoeducação: É a primeira intervenção terapêutica, o médico informa sobre o diagnóstico do TEA e orienta e acolhe os pais com informações sobre a importância do acompanhamento. Enriquecimento do ambiente: Proporcionar e estimular a criança diversas sensações em um ambiente doméstico. Medicação: Não existe medicação específica para autismo, os remédios receitados são para controlar aspectos associados a sintomas comportamentais, como ansiedade, agressividade e déficit de atenção. Terapia Cognitiva - Comportamental: auxilia no convívio social, o conhecimento e controle do seu sentimento, controle da ansiedade, impulsividade e raiva, além do comportamento repetitivo e estereotipado. Treinamento em habilidades sociais: auxilia na interação e comunicação social, por exemplo, desenvolvimento de conversas e o olhar nos olhos. Método ABA: "Praticado por psicológicos experientes e consiste no estudo e na compreensão do comportamento da criança, de sua interação com o ambiente e com as pessoas com quem se relaciona". Fonoaudiologia: Importante no desenvolvimento da comunicação verbal e não verbal do autista. Terapia Ocupacional: Ensina atividades do dia-dia com objetivo de tornar a criança mais independente. Terapia de Integração Sensorial: Ajuda o autista a lidar com componentes sensoriais do ambiente, como o som, luzes e odores. Método TEACCH (Acompanhamento e Educação de Crianças com Autismo e Dificuldades de Comunicação): Ensina habilidades através de recursos visuais (cartão ilustrativo ou figura). Método PECS: Sistema de comunicação por troca de figuras. Professor de Apoio: profissional que trabalha no processo pedagógico do autista na escola, fazendo a conexão entre o professor, família e o estudante, buscando desenvolver a independência no ambiente escolar. Esporte: importante para saúde e desenvolve habilidades motoras e consciência corporal. Grupos de apoio: buscam orientar, apoiar as famílias e lutar pelos direitos dos autistas. São compostos por pais, profissionais e pesquisadores. Podemos citar a AMA (Associação de Amigos do Autista) e a Autismo e Realidade, são instituições sem fins lucrativos de destaque no Brasil. 21 Figura 16- síntese Fonte: Imagem de OpenClipart-Vectors por Pixabay Mito Como vimos, as causas do autismo estão relacionadas à genética e a multifatores ambientais (gestação), não existe comprovação científica de que alimentação, vitaminas, parto cesariana e vacina são fatores de risco para o desenvolvimento do autismo. Seguindo esse princípio, com o passar dos anos, alguns mitos foram surgindo sobre a origem do autismo, podemos citar a história da vacina no final do séc. XX na Inglaterra. Na manhã de 26 de fevereiro de 1998, em Londres, na Inglaterra, foi anunciada no Hospital Royal Free pelo pesquisador gastroenterologista Andrew Wakefield a hipótese de que a vacina tríplice aplicada com uma só injeção, direcionada para três doenças diferentes: sarampo, rubéola e caxumba, era responsável do aumento das incidências de autismo na Inglaterra. Para Wakefield, em sua investigação com doze crianças, oito delas estavam desenvolvendo-se normalmente, no entanto, dias depois de tomar a vacina começaram a apresentar sintomas de autismo, perdendo até a fala. Conforme o médico britânico, as crianças imunizadas com a vacina tríplice viral, em que o princípio era injetar o vírus vivo do sarampo poderia provocar inflamação no intestino, desenvolvendo por consequência uma inflamação no cérebro, ocasionando autismo (DONVAN; ZUCKER, 2017). Resumindo a história, Teixeira (2016) menciona que, ao longo do tempo, foram encontrados diversos erros nos artigos escritos por Andrew Wakefield, como falhas metodologias e violações éticas. Como punição dada pela comunidade acadêmica, sua licença médica foi cassada e seu artigo foi desqualificado. Chegou a hora! Relembrar conceitos do Módulo 1: Para finalizar o módulo, apresentamos uma síntese de conceitos abordados nos capítulos. 22 SÍNTESE DO MÓDULO Capítulo 1 Palavra autismo - raiz “autos” que significa “eu”. Refere-se à falta de interação social do indivíduo e a impressão de sentir-se bem só. Primeira descrição do autismo - iniciou-se pelo médico psiquiatra infantil Leo Kanner, em 1943, com sua observação comportamental de 11 crianças. Adiante, a psiquiatra Lorna Wing contribuiu com seus estudos na observação de três características: prejuízo na socialização (dificuldade de entender emoções e pensamentos dos outros), linguagem e comportamento repetitivos ou estereotipados (movimento de balançar as mãos e o tronco para frente e para trás). Por fim, o médico Hans Asperger contribuiu com o estudo denominado síndrome de Asperger. Mães geladeiras: Leo Kanner sugeriu que uma das causas do autismo era falta de afetividade das mães, ficando conhecida como “mães geladeiras”. Este fato foi publicado por Bruno Bettelheim no livro A Fortaleza Vazia (1967). Capítulo 2 TEA? É um distúrbio do neurodesenvolvimento, compreende um grupo de sintomas que se manifesta entre os 3 anos de idade e se prolonga por toda a vida. Podemos dividir esses sintomas em duas áreas centrais que o autista apresenta déficits, a primeira refere-se a prejuízos na interação social e comunicação, adiante, disfunções comportamentais. Capítulo 3 Etiologia do TEA - heterogênea, multifatorial, com indicações de uma forte e complexa influência genética. Mais de 90% dos casos de autismo possuem causa genética, sendo, aproximadamente, 80% hereditário. Acompanhamento TEA, 15 exemplos – 1) Orientação familiar e psicoeducação, 2) Enriquecimento do ambiente, 3) Medicação, 4) Terapia Cognitiva, 5) Treinamento em habilidades sociais, 6) Método ABA, 7) Fonoaudiologia, 8) Terapia Ocupacional, 9) Terapia de Integração Sensorial, 10) Método TEACCH, 11) Método PECS, 12) Método Floortime, 13) Mediador Escolar, 14) Esporte, 15) Grupos de apoio. Mito - Hipótese do pesquisador gastroenterologista Andrew Wakefield, em seu artigo do ano 1998, relata que a Vacina tríplice viral causa autismo. 23 Esperamos que o conteúdo destas 3 unidades possa contribuir com o seu processo de aprendizagem sobre a temática. Parabéns! Agora partimos para o exercício de fixação Exercício de fixação de conteúdo 1. Assinale a alternativa Incorreta sobre Transtorno Espectro Autista A. ( ) O TEA é um distúrbio do neurodesenvolvimento, compreende um grupo de sintomas que se manifesta precocemente e estende-se por toda a vida do indivíduo; B. ( ) Hipersensibilidade ao toque (não gosta de ser tocado); C. ( ) As pessoas com autismo apresentam dificuldades em interpretar sinais (expressões faciais, expressões verbais); D. ( ) Apesar de déficit na linguagem e comportamental, as pessoas com autismo não apresentam dificuldades na interação social. 2. Leia atentamente o texto da questão: Em um campus do Instituto Federal do Mato Grosso do Sul (IFMS), o Napne (Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Específicas), realizou algumas ações para auxiliar professores no aprendizado do estudante Cristian, com TEA, como: palestras, reuniões e diversos e-mails. Em um desses e-mails, orientava no que considerar para elaboração de atividades ao estudante com déficit na linguagem verbal e não verbal. Analise as afirmações e marque a(s) alternativa(s) correta: A. ( ) Emprego de frases simples e diretas para facilitar o seu entendimento; B. ( ) Não há necessidade de adaptação, pois, o estudante com TEA tem o direito de receber a mesma atividade dos demais educandos; C. () Evitar o uso de instruções verbais em excesso e de figuras de linguagem, como as metáforas ou ironias, tornam a recepção da informação pouco clara ou, até mesmo, completamente incompreendida; D. ( ) Quando o jovem com TEA apresentar dificuldades em interpretação de texto, substituir por desenhos, assim, ao menos, desenvolve seus dons artísticos. 24 3. Leia atentamente o texto da questão: João, servidor público do IFMS, em um dia de rotina de trabalho, observou um grupo de pessoas conversando sobre o tema autismo, um dos integrantes ponderou que o TEA virou uma epidemia, e está ligado à vacinação, tanto da Influenza quanto do COVID- 19. João aproximou-se e relatou sua opinião. O que ele deverá responder? Escolha uma opção: A. ( ) Você está atualizado, pois visualizei essa informação nas redes sociais; B. ( ) Acho que vi algo parecido no jornal, mas não lembro; C. ( ) Você está enganado, pois somente a vacina tríplice viral causa autismo; D. ( ) Você está enganado, as causas do TEA são de predominância genética. 25 American Psychiatric Association. (2014). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5 [Recurso eletrônico]. (5a ed.; M. I. C. Nascimento, Trad.). Porto Alegre, RS: Artmed. Disponível em: http://www.niip.com.br/wp-content/uploads/2018/06/Manual-Diagnosico- e-Estatistico-de-Transtornos-Mentais-DSM-5-1-pdf.pdf. Acesso em: 01 mar. 2022. DONVAN, J; ZUCKER, C.: A história do autismo; tradução Araújo, L, A. - 1ª ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2017. FISCHER, Marta Luciane. Tem um Estudante Autista na minha Turma! E agora? O Diário Reflexivo Promovendo a Sustentabilidade Profissional no Desenvolvimento de Oportunidades Pedagógicas para Inclusão. Revista Brasileira de Educação Especial [online], v. 25, n. 4, pp. 535-552, 2019. 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