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CASO 3 – HEPATITES VIRAIS E LEISHMANIOSE VISCERAL 1. HEPATITES VIRAIS Hepatite A • Transmissão fecal-oral • Muito comum em crianças • Aumento recente em adolescentes e adultos jovens – indica falta de acesso à vacinação (grupo infectologicamente suscetível) Patogênese da hepatite A: 1. HAV chega ao fígado pela veia porta, após atravessar a mucosa intestinal 2. Replicação viral nos hepatócitos 3. Secreção de novas partículas virais nos canalículos biliares – podem ser eliminadas nas fezes ou reabsorvidas pela circulação êntero- hepática 4. Ação de LTCD8+ e de células NK 5. Destruição dos hepatócitos infectados 6. Liberação de enzimas hepáticas para a circulação (AST ou TGO e ALT ou TGP) Manifestações clínicas: • Período de incubação de 2-5 semanas • Casos ictéricos (20-30%) acompanhados de acolia fecal e colúria (síndrome colestática) • Intolerância a odores intensos (alimentos e cigarro) • SS: febre, mal estar geral, náuseas, inapetência, diarreia, cansaço e vômitos • Cura em 99% dos casos Fase prodrômica ou pré-ictérica: SS inespecíficos Fase ictérica: 20-30% dos casos, com colúria e acolia fecal Fase de convalescência: cura em 99% dos casos Diagnóstico: • Hemograma • Transaminases (AST ou TGO e ALT ou TGP) • Perfil hepático (albumina, Bb, FA, GGT) • Sorologias (IgM/IgG para HAV) Tratamento: ✓ Não há antiviral específico ✓ Tratamento empírico/clínico ou de suporte ✓ Orientações: evitar alimentos gordurosos, não ingerir álcool e cuidado com fármacos hepatotóxicos (paracetamol > 2g/dia) Hepatite B • Transmissão: sexual, vertical, compartilhamento de agulhas e seringas, compartilhamento de itens de higiene pessoal, materiais não esterilizados e exposição ocupacional (acidentes com perfurocortantes) • O HBV é um vírus de DNA que possui diversos antígenos/proteínas: o HBsAg: Ag de superfície o HBcAg: Ag do core (montagem do capsídeo) o HBeAg: Ag de replicação viral ativa o Proteína X: oncogênica Patogênese da hepatite B: Após penetrar nos hepatócitos, uma parte se integra ao núcleo e a outra parte forma o DNA circular = cccDNA – auxilia a perpetuar a replicação viral e limita a cura por ser resistente aos antivirais. 1º HBsAg, em geral de 8-12 semanas 2º Anti-HBc, primeiro IgM 3º Anti-HBs, após a eliminação do HBsAg O HBeAg pode aparecer antes ou depois do HBsAg, indicando replicação viral ativa e exacerbada. Interpretação de sorologias para HB: Período de janela imunológica: Após a eliminação do HBsAg, antes do aparecimento dos anticorpos Anti-HBs, apenas o Anti-HBc IgM pode indicar uma infecção recente. Fase crônica da hepatite B: Imunotolerantes ✓ HBeAg + ✓ VHB DNA elevado ✓ ALT ou TGP normal ou pouco elevada ✓ Pouca ou ausência de fibrose hepática Imunorreativos ✓ HBeAg + ✓ VHB DNA variável ✓ ALT ou TGP elevada ou flutuante ✓ Pode haver soroconversão para Anti-HBe ou Anti-HBs ✓ Presença de fibrose hepática Portador inativo ✓ HBeAg – ✓ Anti-HBe + ✓ VHB DNA baixo ✓ ALT ou TGP normal ✓ Progressão mínima ou ausência de fibrose hepática Hepatite crônica ativa com HBeAg não reagente ou mutantes core-precore ✓ HBeAg – ✓ VHB DNA variável ✓ ALT ou TGP elevada ou flutuante ✓ Moderada ou intensa atividade necroinflamatória ✓ Progressão de fibrose hepática Reativação ou exacerbação ✓ HBsAg + ou – ✓ Anti-HBc + ✓ VHB DNA variável ✓ ALT ou TGP elevada ✓ Moderada ou intensa atividade necroinflamatória ✓ Progressão de fibrose hepática ✓ Pode haver mutantes do HBV sem a expressão de HBeAg Fase de infecção oculta ✓ HBsAg – ✓ Anti-HBc IgG + ✓ VHB DNA indetectável no sangue, mas detectável na biópsia hepática ✓ cccDNA “dormente” Manifestações clínicas: • Período de incubação de 30-180 dias, com média de 60-90 dias • Icterícia (5% 5 anos) • SS: febre, dor abdominal, náuseas, vômitos, colúria e acolia fecal • Manifestações extra-hepáticas imunomediadas: artrites, artralgia, glomerulonefrites, exantemas, púrpura palpável, neuropatia periférica, mialgia e crioglobulinemia (+ em 20% dos casos) Grau de fibrose hepática: ✓ Biópsia do fígado ou FibroScan Classificação Metavir (após a biópsia) Rastreio de CHC: Feito em pacientes com HB e HC crônica ✓ Solicitar USG de abdome ✓ Solicitar alfafetoproteína (biomarcador tumoral) Tratamento: ✓ Alfapeguinterferona 2a 40 KDa (fase imuno- reativa) 180 mcg/semana SC ✓ Alfapeguinterferona 2b 12 KDa (fase imuno- reativa) 1,5 mcg/semana SC ✓ Entecavir 0,5/1 mg/dia VO ✓ Tenofovir 300 mg/dia VO Hepatite C • Vírus de RNA • Transmissão parenteral predominante, menos frequente por via sexual e vertical • Maior tendência a cronificar (~80%) Patogênese da hepatite C: 1. HCV → lesão hepática e inflamação 2. Estímulo à fibrogênese (TGF-beta) 3. Capilarização dos sinusoides 4. Insuficiência hepática Fases da fibrose hepática: 1ª fase Primeiros 10 anos, sem progressão de fibrose 2ª fase Após 15 anos, progressão lenta da fibrose 3ª fase Nos 10 anos seguintes, progressão intensa da fibrose 4ª fase Após 35 anos de infecção, cirrose hepática Manifestações clínicas: • Período de incubação de 2 semanas a 6 meses, com média de 6-7 semanas • 80% dos casos são assintomáticos • A forma crônica pode ser silenciosa ou podem aparecer manifestações extra- hepáticas: glomerulonefrites, crioglobulinemia e linfoma não Hodgkin de células B • Pode haver manifestações clínicas de descompensação hepática: ascite, icterícia, hemorragia digestiva e encefalopatia A hepatite C crônica é definida por: 1. Anti-HCV + por mais de 6 meses 2. Confirmação com HCV-DNA + por mais de 6 meses Tratamento: ✓ Antivirais de ação direta 2. EXAMES HEPÁTICOS Billirrubina (Bb) Produto da degradação do grupo heme das hemácias ou da mioglobina. Bb indireta (96% da BT) ✓ Transportada no sangue pela albumina ✓ Captação pelos hepatócitos ✓ Conjugação hepática Bb direta ✓ Transportada até o duodeno pelas vias biliares A icterícia estará associada à colúria quando houver aparecimento de Bb conjugada na urina. O exame das Bb permite avaliar: 1. Lesão hepatocelular 2. Fluxo biliar 3. Função de síntese do fígado VR: BT 0,20 a 1 mg/dL BD 0,00 a 0,20 mg/dL BI 0,20 a 0,80 mg/dL AST/TGP ou ALT/TGP • AST ou TGO é menos específica pois está presente em outros tecidos – ex. músculo • ALT ou TGP é uma enzima encontrada no plasma dos hepatócitos e indica, com mais precisão, lesão hepática FA (Fosfatase Alcalina) • Enzima encontrada nos canalículos biliares • Avalia o fluxo biliar • Está aumentada em colestase GGT • Enzima encontrada no fígado, rins, pâncreas, intestino, próstata... • Grandes elevações de GGT podem indicar câncer de fígado e obstrução biliar Marcadores relacionados à coagulação • O fígado sintetiza a maior parte dos fatores de coagulação, além de proteínas do sistema fibrinolítico • A albumina é a principal proteína de transporte sintetizada pelo fígado, além de auxiliar na manutenção da pressão coloidosmótica 3. LEISHMANIOSE VISCERAL A leishmaniose é uma infecção causada por protozoários do gênero Leishmania, transmitida ao ser humano pela picada dos insetos flebotomíneos (mosquito-palha). ➢ SS clássicos: hepatoesplenomegalia, anemia, febre e perda de peso ➢ Espécie + comum relacionada à LV: Leishmania infantum O protozoário apresenta 2 formas evolutivas: • Promastigotas: no mosquito • Amastigotas: no interior dos macrófagos dos mamíferos reservatórios Patogênese: 1. Picada do mosquito fêmea 2. Inoculação dos promastigotas 3. Penetração nos macrófagos e transformação em amastigotas 4. Multiplicação por divisãobinária 5. Migração dos macrófagos e DCs infectadas aos gânglios linfáticos satélites 6. Processamento antigênico 7. RI do tipo Th2 8. Produção de IL-4, IL-5, IL-10 e TGF-beta 9. Supressão da RI pelo sistema fagocítico mononuclear 10. Rompimento dos macrófagos e liberação dos parasitas na corrente sanguínea A leishmaniose visceral é caracterizada pelo acometimento das vísceras, especialmente do sistema reticuloendotelial (SRE) – presente no fígado, baço, ossos, sistema linfático e sistema pulmonar. Manifestações clínicas: • Período de incubação de 2-5 meses • Início do quadro insidioso: febre, perda de peso, anorexia, aumento do volume abdominal O quadro pode ser: ✓ Assintomático ✓ Subclínico ✓ Agudo ✓ Calazar (LV com anemia e hepatoesplenomegalia) Diagnóstico de LV: • Pancitopenia – anemia, leucopenia e plaquetopenia • Hipoalbuminemia • Eletroforese de proteínas séricas – Pico de gama (anticorpos) • Aumento de TGO e TGP Diagnóstico específico: • Anticorpos específicos anti-leishmania – testes rápidos • Identificação das formas amastigotas nos exames de anatomopatológico – aspirado de medula óssea • Culturas in vivo e in vitro • PCR – teste molecular para detecção do material genético em amostra Quais são os diagnósticos diferenciais? ✓ Esquistossomose ✓ Malária ✓ TB ✓ Linfoma ✓ Lúpus Tratamento: ✓ Compostos antimoniais – antimoniato de N- metil-glucamina (glucantime) ✓ Anfotericina B – a mais potente é a lipossomal Critérios de cura → clínicos!!! • Melhora da febre em torno do 5º dia • Melhora do estado geral, apetite e peso • Resolução da hepatoesplenomegalia nas primeiras semanas • Melhora do hemograma na 2ª semana • Acompanhar o paciente a cada 3, 6 e 12 meses O controle parasitológico e sorológico é dispensável Coinfecção HIV-leishmaniose • Redução da sensibilidade dos testes de leishmaniose, de 90-100% para 50-60% em HIV-positivos • O HIV altera a resposta sorológica • Pacientes HIV-positivos têm direito a tratamento específico, melhor e menos tóxico pelo MS – anfotericina B lipossomal • Maior tendência a recidivas • Sobrevida média de 4-12 meses