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Hermenêutica Filosófica e o Direito Resumo Didático - Tópico 1 Hermenêutica Filosófica e o Direito Resumo Didático - Tópico 1 "Interpretar não é descobrir um sentido escondido. É construir um sentido possível, consciente das suas próprias limitações." Hans-Georg Gadamer O QUE E HERMENÊUTICA? Hermenêutica e a ciência da interpretação. No campo juridico, ela responde a pergunta essencial: como devemos compreender e aplicar uma norma? A hermenêutica filosófica vai além da técnica: ela investiga as condições que tornam possível qualquer interpretação, inclusive as nossas proprias limitacões como intérpretes. OS PILARES: DA ORIGEM A GADAMER 1. Schleiermacher e Dilthey — O Historicismo Schleiermacher defende que para interpretar bem uma obra, o intérprete precisa reconstruir o contexto histórico original: entender a intenção do autor, o tempo em que viveu e as condições de criação da obra. Dilthey segue esse caminho e tenta tornar a hermenêutica um método científico das ciências humanas, baseado na reconstrução histórica objetiva. Pagina 1 Analogia do Professor Imagine que voce encontra uma carta antiga sem data nem assinatura. Voce pode tentar adivinhar quem escreveu (método histórico), ler o que esta escrito literalmente (método gramatical), ou perguntar: o que essa carta significa para mim, hoje, no meu contexto? A hermenêutica filosófica trabalha com as três dimensões ao mesmo tempo. Limitação Esse método exige um retorno ao passado que nunca e totalmente possível. O intérprete do presente jámais consegue se despir completamente do seu próprio tempo. Hermenêutica Filosófica e o Direito Resumo Didático - Tópico 1 2. Hegel — A Integração pelo Presente Hegel propõe o caminho oposto: as condições originais de criação de uma obra não podem ser reproduzidas. O intérprete deve observar a obra tal como ela se apresenta hoje, integrada ao contexto contemporâneo. 3. Heidegger — O Círculo Hermenêutico Heidegger introduz o conceito fundamental do Círculo Hermenêutico: a compreensão e sempre circular. Partimos de uma pré-compreensão (o que já sabemos), avançamos para o texto e voltamos com uma compreensão revisada e ampliada. Etapa O que acontece Pré-compreensão O intérprete chega ao texto com expectativas e conceitos previos Contato com o texto O texto apresenta seu sentido e desafia as expectativas Revisão O intérprete ajusta sua compreensão a luz do texto Nova compreensão Produz-se um sentido mais apurado, que pode ser revisitado GADAMER — A SÍNTESE GENIAL Hans-Georg Gadamer, em sua obra Verdade e Método (1960), faz a grande síntese: une o melhor de Schleiermacher, Hegel e Heidegger. A Tese Central de Gadamer Gadamer reconhece que nenhum intérprete é neutro: todos carregam pré-conceitos (opinões não fundamentadas). Esses pré-conceitos não precisam ser eliminados, mas precisam ser reconhecidos e controlados. A interpretação é um processo vivo e mutável: o mesmo texto pode e deve ser reinterpretado em contextos diferentes. Pagina 2 Exemplo Uma lei do seculo XIX sobre propriedade rural não pode ser interprétada apenas com os olhos de 1850. O intérprete de hoje traz consigo decadas de transformacões sociais, jurídicas e economicas que inevitavelmente moldam sua leitura. Alerta de Heidegger O círculo so funciona bem se o intérprete não impôe seus préconceitos ao texto antes de deixa-lo falar. O risco do círculo vicioso e tirar do texto apenas o que já se esperava encontrar. A interpretação deve levar em conta aspectos contemporâneos e históricos, contextuais e PSICOLÓGICOS, tanto do autor original quanto do próprio intérprete. Hermenêutica Filosófica e o Direito Resumo Didático - Tópico 1 APLICAÇÃO NA HERMENÊUTICA JURÍDICA O Jurista e o Historiador do Direito Gadamer identifica uma diferenca fundamental entre quem interpreta a lei: Jurista Historiador do Direito Ponto de partida Um caso concreto a resolver A lei em abstrato Objetivo Aplicar a norma ao presente Compreender o sentido original Método Dialética histórico-contemporânea Reconstrução histórica Resultado Decisão normativa atual Conhecimento histórico A Norma Jurídica como Objeto Vivo Para Gadamer, o conteudo normativo de uma lei muda ao longo do tempo, pois cada geração de intérpretes traz novos contextos. O jurista não pode se limitar a intenção original do legislador: precisa atualizar o sentido da norma para o contexto em que a aplica. Pagina 3 Hermenêutica Filosófica e o Direito Resumo Didático - Tópico 1 O CÍRCULO HERMENÊUTICO E OS PRECONCEITOS Como Funciona na Prática Jurídica O círculo não e vicioso: a cada volta, o intérprete afina o sentido. Compreender as partes ilumina o todo; compreender o todo corrige a leitura das partes. O Problema dos Preconceitos Gadamer distingue dois tipos de pré-conceitos: Tipo Definição Efeito na interpretação Preconceito legitimado Opinões fundamentadas na tradicao, experiencia e saber acumulado Enriquece e orienta a compreensão Preconceito ilegitimo Opinões arbitrarias sem base no texto, as chamadas "felizes ideias" Vicia e deforma a interpretação Pagina 4 Regra de Ouro O intérprete deve estar aberto ao que o texto diz, mesmo que isso contrarie suas expectativas iniciais. A hermenêutica exige humildade intelectual. Hermenêutica Filosófica e o Direito Resumo Didático - Tópico 1 MAPA DOS AUTORES Autor Ideia Central Contribuicao para Gadamer Schleiermacher Reconstruir o contexto histórico original A historicidade importa Dilthey Hermenêutica como método científico histórico Rigor métodologico Hegel Interpretar a obra no presente A contemporaneidade importa Heidegger Círculo hermenêutico e pré-estrutura da compreensão O intérprete não e neutro Gadamer Síntese: historia + presente + autocritica do intérprete A hermenêutica filosófica moderna FIXANDO O APRENDIZADO — 3 PERGUNTAS-CHAVE Fonte: ELTZ, Magnum et al. Hermenêutica e Argumentação Jurídica. SAGAH, 2018. Baseado em GADAMER, H.-G. Verdade e Método. 3a ed. Vozes, 1999. Pagina 5 Aristoteles, Retórica e Argumentação Jurídica Resumo Didático - Tópico 2 Aristoteles, Retórica e Argumentação Jurídica Resumo Didático - Tópico 2 "A retórica e a faculdade de ver teoricamente o que, em cada caso, pode ser capaz de gerar a persuasão." Aristoteles, Retórica POR QUE ARISTOTELES IMPORTA PARA O DIREITO? Aristoteles e o filosofo que une teoria e prática no conceito de práxis: pensar para agir com correcao no mundo real. Essa logica e identica ao trabalho do jurista, que filosofa sobre normas para resolver casos concretos. Além da práxis, ele desenvolveu quatro ferramentas de argumentação que sao usadas, de forma intuitiva ou consciente, em toda peca jurídica ate hoje: a tópica, a dialética, a erística e a retórica. OS QUATRO CONCEITOS FUNDAMENTAIS Pagina 1 Analogia do Professor Pense no trabalho do advogado ao redigir uma peticao. Ele organiza os argumentos (tópica), debate teses com a parte contraria (dialética), pode deparar com argumentos falaciosos do adversario (erística) e precisa convencer o juiz com raciocinio eloquente e logico (retórica). Aristoteles já descreveu esse método ha mais de 2.300 anos. Aristotelica Aristoteles, Retórica e Argumentação Jurídica Resumo Didático - Tópico 2 Os quatro conceitos formam um sistema integrado. A tópica organiza; a dialética debate; a erística alerta para os falsos argumentos; a retórica convence. No centro de tudo esta a práxis: a aplicação prática do conhecimentoao caso real. Pagina 2 Aristoteles, Retórica e Argumentação Jurídica Resumo Didático - Tópico 2 1. Tópica A tópica e a ciência da organização do pensamento argumentativo. Ela classifica os elementos de um raciocinio em quatro categorias essenciais: definição (o que a coisa e), propriedade (o que lhe e peculiar), genero (a classe a que pertence) e acidente (o que pode ou não estar presente). Na prática jurídica, a tópica e o roteiro que o advogado monta antes de escrever a peca: quais sao os topicos do pedido, quais fatos sustentam cada argumento, qual e a hierarquia dos argumentos. 2. Dialética A dialética e o debate estruturado entre teses opostas. Aristoteles a define como um processo de critica que confronta opinões geralmente aceitas para chegar mais perto da verdade. No Direito, a dialética se manifesta no contraditorio: a peticao inicial (tese) encontra a contestação (antitese) e o juiz produz a síntese na sentenca. O processo judicial e, em essencia, um exercicio dialetico. 3. Erística A erística e o uso de argumentos aparentemente validos, mas construidos sobre premissas falsas ou enganosas. E o silogismo falacioso: a forma e correta, mas o conteudo e inveridico. No mundo juridico, a erística aparece quando uma das partes constroi um argumento logicamente côerente, mas fundado em fatos distorcidos ou premissas não comprovadas. Identificar a erística adversaria e uma habilidade central do bom jurista. Pagina 3 Atenção A dialética lida com probabilidades, não com certezas absolutas. Por isso, a decisão judicial não e matematica: e o resultado de um debate fundamentado em prémissas verossimiis e provas concretas. Exemplo Pratico Se o emprégador argumenta que "todo acidente de maquina e causado por descuido do operador" e que "o funcionario operava a maquina", logo "o acidente foi culpa do funcionario", esta usando uma erística: a premissa maior e falsa, pois a responsabilidade do emprégador e objetiva por lei. Aristoteles, Retórica e Argumentação Jurídica Resumo Didático - Tópico 2 4. Retórica A retórica e a forma mais elaborada de argumentação. Aristoteles a define como a arte de identificar, em cada situação, os meios disponiveis de persuasão. Ela se apoia em silogismos e no dominio da linguagem para convencer o interlocutor. Aristoteles divide a retórica em duas modalidades principais: Modalidade Descricao Exemplo juridico Deliberativa Debate entre partes em contexto privado, sem julgador Negociação de contratos, mediação, arbitragem Forense Discurso dirigido ao julgador para convence-lo do pleito Petições, memoriais, sustentacões orais em tribunal O ENTIMEMA: O PRODUTO DA RETÓRICA O entimema e o resultado pratico da retórica. Trata-se de um silogismo construido com premissas verossimiis, encadeadas de forma logica para produzir uma conclusao persuasiva junto ao julgador. Para construir um bom entimema, Aristoteles indica quatro passos: (1) planejár as proposições a encadear; (2) cuidar da clareza das expressões; (3) distinguir as coisas por generos côerentes; (4) verificar se a conclusao parecera verossimil ao receptor. Pagina 4 Retórica e o principal instrumento juridico A peticao inicial e a expréssao mais pura da retórica forense. Nela o advogado constroi a tese, organiza os fatos, escolhe os argumentos e os encadeia de forma a induzir o juiz a uma conclusao favoravel ao cliente. O advogado não prova matematicamente: ele convence. O entimema e o instrumento dessa convicao. Quanto mais claro, logico e fundado em prémissas conhecidas pelo juiz, mais eficaz ele sera. Aristoteles, Retórica e Argumentação Jurídica Resumo Didático - Tópico 2 SILOGISMO, FALACIA E ENTIMEMA O silogismo e a estrutura logica basica de todo argumento. Ele funciona assim: se a premissa maior e verdadeira e a premissa menor decorre dela necessariamente, a conclusao e inevitavel. Quando uma das premissas e invalida, temos uma falacia ou erística. Tipo Estrutura Resultado Silogismo necessario Premissa maior verdadeira + premissa menor que dela decorre Conclusao logicamente certa Entimema Premissas verossimiis encadeadas com linguagem persuasiva Conclusao persuasiva ao julgador Falacia (erística) Uma das premissas e invalida ou enganosa Conclusao aparentemente correta, mas falsa APLICAÇÃO ATUAL NO DIREITO O estudo de Aristoteles não e abstrato. Cada peca processual e um exercicio de tópica, dialética e retórica simultaneamente. O jurista organiza os topicos (tópica), antecipa os contra-argumentos (dialética), identifica as falacias adversarias (erística) e constroi o entimema que convence (retórica). Mesmo no ambito extrajudicial, como negociacões de contratos e mediação, as ferramentas aristotelicas sao decisivas. O advogado que conhece esses conceitos argumenta com mais precisão, clarity e eficacia do que aquele que age apenas por intuicao. Pagina 5 Exemplo do material Premissa maior: a responsabilidade do emprégador por dano ao trabalhador durante a jornada e objetiva. Premissa menor: o trabalhador Carlos foi queimado durante a jornada na emprésa. Entimema: a emprésa e responsavel pelo dano, independentemente de culpa do trabalhador. Ponto de atenção Em sistemas de Direito romano-germanico como o brasileiro, a retórica escrita supera a oral em importancia. A peticao inicial e o memorial sao os campos primarios de exercicio da retórica forense aristotelica. Aristoteles, Retórica e Argumentação Jurídica Resumo Didático - Tópico 2 MAPA DOS CONCEITOS Conceito Funcao Aplicação jurídica Tópica Organizar o roteiro e classificar os argumentos Estrutura da peticao inicial, roteiro de audiencia Dialética Confrontar teses para construir conhecimento Contraditorio, debates em tribunal, contestação Erística Argumento falacioso com aparencia de verdade Identificar e rebater premissas falsas do adversario Entimema Silogismo persuasivo baseado em premissas verossimiis Tese central da peticao, fundamentação da sentenca Retórica Arte do convencimento estruturado Toda argumentação jurídica oral e escrita Práxis Teoria aplicada a resolução de problemas reais Hermenêutica jurídica como um todo FIXANDO O APRENDIZADO — 3 PERGUNTAS-CHAVE Fonte: ELTZ, Magnum et al. Hermenêutica e Argumentação Jurídica. SAGAH, 2018. Baseado em ARISTOTELES, Retórica (1953) e Topicos (1987). Pagina 6 A Dogmática Jurídica Resumo Didático - Tópico 3 A Dogmática Jurídica Resumo Didático - Tópico 3 "A dogmática e o ramo do discurso juridico centrado em questões postas sem discutir sua adequação aos fatos, mas a adequação dos fatos as predições normativas." Tercio Sampaio Ferraz Junior O QUE E A DOGMÁTICA JURÍDICA? A dogmática jurídica e o estudo das normas enquanto verdades postas e imutaveis para fins de construção de teses jurídicas. Ela parte do pressuposto de que a norma e dada e que o papel do jurista e adequar os fatos a ela, não questionando sua validade. O jurista dogmatico pergunta: a norma resolve este caso? Se sim, aplica-a. Se não, recorre a métodos interpretativos para extrair da propria norma uma solução adequada. Não questiona o dogma em si, apenas o interpreta. DOGMÁTICA E ZETETICA: A DUPLA FUNDAMENTAL A zetetica e o oposto complementar da dogmática. Enquanto a dogmática opera dentro do sistema normativo dado, a zetetica questiona os próprios pressupostos desse sistema, investigando se a norma e adequada aos fatos e valores sociais. As duas dimensões se entrecruzamconstantemente no discurso juridico. O dubium sobre um fato e resolvido pela dogmática; o dubium sobre a validade ou adequação da propria norma e resolvido pela zetetica, que produz um novo produto dogmatico ao final. Pagina 1 Analogia do Professor Pense na dogmática como um manual tecnico: voce segue as instrucões para resolver o problema. Quando as instrucões não sao claras, voce as interpréta. Mas não reescreve o manual. Quem reescreve o manual e a zetetica. A Dogmática Jurídica Resumo Didático - Tópico 3 A HERMENÊUTICA COMO PROBLEMA ZETETICO A hermenêutica jurídica e classificada por Ferraz Junior como um problema zetético: ela investiga o sentido das palavras normativas, que oscilam entre o uso comum (onomasiologico) e o sentido tecnico-juridico (semasiologico). Quando o legislador usa a palavra "residencia" ou "parente", o sentido vulgar nem sempre coincide com o sentido legal. Resolver essa tensão e o papel da dogmática hermenêutica: interpretar o texto normativo com finalidade prática, voltada a decidibilidade de conflitos. OS MÉTODOS DOGMATICOS DE INTERPRETAÇÃO Ferraz Junior organiza os métodos em três grupos, conforme a perspectiva de analise da norma. Cada método oferece uma ferramenta diferente ao jurista para extrair o sentido da norma com fidelidade ao sistema juridico. Grupo 1 — Métodos Sintaxico-Logicos Método O que analisa Exemplo pratico Gramatical As palavras e sua conexao lexical no texto da norma Pronomes ambiguos que alteram o sujeito ou o objeto da proibicao legal Logico A côerencia interna entre expressões normativas "O legislador nunca e redundante": dispositivos aparentemente repetidos tem alcances diferentes Sistemático A norma em relação ao ordenamento como um todo, com a CF no topo Subordinação de leis ordinarias a Constituicao; hierarquia das fontes (Kelsen) Grupo 2 — Métodos Histórico-Sociologicos Esses métodos investigam tanto a genesis da norma (contexto de sua criação) quanto as condições atuais de sua aplicação. Na prática, os três conceitos abaixo se interpenetram e formam uma analise histórico-evolutiva integrada. Método Foco Aplicação Histórico Precedentes normativos e condições da epoca da criação da norma Entender por que o legislador criou a norma e o que pretendia evitar Pagina 2 Fique atento A zetética trata de questões abertas e infinitas. A dogmática trata de questões fechadas, restritivas e positivas. A hermenêutica jurídica opera no campo zetetico para produzir um resultado dogmatico: a interpretação normativa aplicada ao caso concreto. A Dogmática Jurídica Resumo Didático - Tópico 3 Sociologico Funcao social e estruturas da realidade atual em que a norma incide Adaptar conceitos como "familia", "propriedade" e "honra" a valores contemporâneos Evolutivo Amálgama entre genesis e presente para seguir a transformação social Revisão de conceitos abertos como "mulher honesta" que variaram com o tempo Pagina 3 A Dogmática Jurídica Resumo Didático - Tópico 3 Grupo 3 — Métodos Teleológico e Axiológico Esses métodos partem das consequências e valores da norma para determinar seu sentido. O intérprete simula o "legislador racional" e verifica qual interpretação melhor serve aos fins sociais do Direito e ao bem comum. Método Premissa central Movimento interpretativo Teleológico Toda norma tem uma finalidade (telos) Do caso concreto para o interior do sistema, buscando o proposito da norma Axiológico Toda norma exprime valores da ordem jurídica Dos valores constitucionais e principios para a aplicação concreta da norma OS TIPOS DOGMATICOS DE INTERPRETAÇÃO Além dos métodos (que indicam o angulo de analise), a dogmática hermenêutica define três tipos de interpretação, que indicam o grau de amplitude da interpretação em relação ao texto da norma. ESPECIFICATIVA A norma e suficiente em si mesma. A literalidade resolve o problema. "In claris cessat interpretatio." Exemplos: Regras gerais do Direito Civil, tipos penais claros (art.121 CP). Os três tipos podem ser combinados com qualquer um dos métodos. A escolha do tipo e do método depende da estrategia do jurista e das especificidades do ramo do Direito em questao (público ou privado, forte ou fraco). Pagina 4 Diferenca do método sistemático O método sistemático analisa as normas como sistema fechado. Os métodos teleológico e axiológico partem de fora do sistema (consequências e valores) para dentro, permitindo uma avaliação do impacto real da interpretação. A Dogmática Jurídica Resumo Didático - Tópico 3 DOGMÁTICA HERMENÊUTICA NA PRÁTICA Na prática processual, dogmática e zetetica se combinam em uma mesma peca ou decisão. O julgador pode aplicar a dogmática para fixar a responsabilidade objetiva de uma empresa e, ao mesmo tempo, usar a zetetica para ampliar o alcance territorial de um Termo de Ajustamento de Conduta. CASO PRATICO — CASO AURORA Caso do material: Aurora e proprietaria de imovel onde mora sua filha Amelia. O imovel foi penhorado para satisfação de credito bancario. O juizo aplicou o art. 5 da Lei 8.009/90, que protege a residencia do casal ou entidade familiar. Pergunta Resposta dogmatico-hermenêutica Qual tipo de interpretação usar para proteger Aurora? Interpretação extensiva: ampliar o conceito de "entidade familiar" para abarcar mae e filha residindo no imovel, com base no art. 6 da CF (direito a moradia). A norma disse menos do que deveria. E possível resolver pela literalidade da lei? Parcialmente. O art. 5 da Lei 8.009/90 exige moradia permanente no imovel. Como Amelia mora la, caberia argumentar especificativamente que ela e entidade familiar. Porem, a leitura extensiva (moradia como direito fundamental) e mais solida. Pagina 5 Exemplo do TJRS (material) Em ação de indenização por danos morais causados por estação de tratamento de esgoto, o tribunal aplicou dogmaticamente a responsabilidade objetiva da concessionaria e zeteticamente ampliou o alcance do TAC firmado em Ação Civil Publica, usando interpretação extensiva do art. 225 da CF e do CDC. O resultado foi um novo entimema dogmatico aplicado ao caso. Ponto de atenção A tese mais forte para Aurora e a interpretação extensiva: o art. 6 da CF garante o direito a moradia como direito social fundamental, e normas que o restringem (como a exigencia de moradia do próprio devedor) devem ser lidas com cautela, ampliando-se o conceito de "entidade familiar" para incluir a filha. A Dogmática Jurídica Resumo Didático - Tópico 3 MAPA GERAL DO TÓPICO Conceito Definição Funcao no sistema juridico Dogmática Estudo da norma como verdade posta, sem questionar seu fundamento Orienta a decisão e a ação dentro do sistema normativo vigente Zetetica Investigação aberta dos pressupostos e adequação da norma Gera novos produtos dogmaticos ao questionar os dogmas existentes Dogmática hermenêutica Interpretação da norma com finalidade prática de decidibilidade Ponte entre a zetetica (investigação) e o resultado dogmatico aplicavel Métodos sintáticos Gramatical, logico, sistemático Analisam a norma em si: palavras, côerencia e hierarquia Métodos históricos Histórico, sociologico, evolutivo Analisam a norma no tempo: genesis e realidade atual Métodos valorativos Teleológico e axiológico Analisam a norma pelos seus fins e pelos valores que protege Tipos de interpretação Restritiva, especificativa, extensiva Definem o grau de amplitude da interpretação em relação ao textoFIXANDO O APRENDIZADO — 3 PERGUNTAS-CHAVE Fonte: ELTZ, Magnum et al. Hermenêutica e Argumentação Jurídica. SAGAH, 2018. Baseado em FERRAZ JUNIOR, T.S. Introdução ao Estudo do Direito. 4a ed. Atlas, 2003. Pagina 6 Hermenêutica Jurídica Classica — Escola da Exegese Resumo Didático - Tópico 4 Hermenêutica Jurídica Classica e a Escola da Exegese Resumo Didático - Tópico 4 "A interpretação e ato de inteligencia, cultura e sensibilidade. Somente o espirito capaz de compreender se acha apto as tarefas de decodificação." Paulo Nader, Introdução ao Estudo do Direito HERMENÊUTICA E INTERPRETAÇÃO: A DIFERENCA FUNDAMENTAL A hermenêutica e a teoria: ela elabora os métodos, principios e criterios de interpretação. A interpretação e a prática: a aplicação desses métodos pelo jurista ao caso concreto. Os dois conceitos se complementam, mas não se confundem. A origem da palavra hermenêutica vem do grego hermeneúein (interpretar), derivado de Hermes, mensageiro dos deuses na mitologia grega. A analogia e perfeita: assim como Hermes traduzia a vontade divina para os mortais, o jurista traduz o sentido da norma para o mundo dos fatos. A EVOLUÇÃO DA HERMENÊUTICA JURÍDICA A hermenêutica jurídica não nasceu pronta. Ela evoluiu ao longo dos seculos, incorporando novas escolas de pensamento sem descartar completamente as anteriores. Cada fase acrescentou uma camada ao arsenal interpretativo do jurista moderno. Pagina 1 Analogia do Professor Pense na hermenêutica como o manual do sommelier de vinhos: ela define os criterios de analise, os métodos e os padrões de avaliação. A interpretação e o sommelier provando o vinho e aplicando esses criterios a uma garrafa especifica. Um sem o outro não produz resultado util. Hermenêutica Jurídica Classica — Escola da Exegese Resumo Didático - Tópico 4 Cada etapa histórica respondeu a um problema pratico: como garantir seguranca jurídica sem engessar o Direito? O embate entre fidelidade ao texto e adaptação a realidade social moldou a hermenêutica como a conhecemos hoje. Pagina 2 Hermenêutica Jurídica Classica — Escola da Exegese Resumo Didático - Tópico 4 A ESCOLA DA EXEGESE: FUNDAMENTOS A escola da exegese surgiu com a promulgação do Código de Napoleao (1804), considerado pelos juristas da epoca uma obra perfeita e completa. A crenca era de que o Código não possuia lacunas e que qualquer solução jurídica poderia ser encontrada dentro dos seus artigos. Essa escola concentra o papel do intérprete em uma unica missão: reconstruir o pensamento do legislador. O texto e sagrado. Qualquer desvio da literalidade seria uma "torção" indevida da lei, contraria a vontade de quem a criou. Característica Descricao Interpretação literal Os vocabulos da norma definem os limites de sua imputação. O texto e o limite maximo da interpretação. Vontade do legislador Somente o criador da lei pode definir seu sentido e alcance. O intérprete reconstroi essa vontade. Uso de obras doutrinarias Admite-se recorrer as obras que inspiraram o legislador para esclarecer a intenção original da norma. Sistema sem lacunas O Código e suficiente para resolver todos os conflitos. Lacunas aparentes sao resolvidas pela logica interna do próprio sistema. Sentido estanque O sentido da norma e fixo no tempo e espaco. Não se admite evolução interpretativa por fatores externos. Pagina 3 Limitação Histórica A rigidez exegetica tornava inexoravel sua propria desconstrução. Como o sentido da norma era "congelado" no tempo, os juristas precisavam, paradoxalmente, "fraudar a letra da lei mediante artificios" para resolver casos que a norma literal não alcancava com justica. Hermenêutica Jurídica Classica — Escola da Exegese Resumo Didático - Tópico 4 EXEGESE VS CORRENTE DO DIREITO LIVRE O embate histórico que moldou a hermenêutica moderna foi o conflito entre a rigidez exegetica e a liberdade interpretativa proposta pela Corrente do Direito Livre, surgida no final do seculo XIX como reação direta ao positivismo legalista. Entre os dois extremos, a hermenêutica contemporânea encontrou um caminho do meio: o positivismo axiológico, no qual a literalidade resolve os casos faceis e os principios resolvem os casos dificeis. A Critica de Savigny e a Escola Histórica O jurista alémao Savigny foi o primeiro a contestar de forma fundamentada a exegese classica, argumentando que a lei não e produto de uma so vontade legislativa, mas resultado do querer social. O legislador não cria: traduz o pensamento e o sentir da sociedade. Para Savigny, o Direito e organico e evolutivo, como a propria sociedade. Interpretar uma norma exige compreender as condições históricas de sua criação e as transformacões sociais que ocorreram desde entao. Essa visão abriu caminho para os métodos histórico, sociologico e evolutivo. Pagina 4 "O individuo que legisla e mais ator do que autor; traduz apenas o pensar e o sentir alheios, reflexamente, usando meios inadequados de expréssao quase sempre." (Maximiliano, apud Nader) Hermenêutica Jurídica Classica — Escola da Exegese Resumo Didático - Tópico 4 AS TRÊS FASES DO POSITIVISMO (STRECK) Lenio Streck organiza a evolução do positivismo juridico em três fases, mostrando que a exegese não e uma escola morta: ela se transformou e permanece presente na hermenêutica contemporânea. Fase Nome Como resolve os conflitos 1a Fase Positivismo Exegetico Literalidade da lei e vontade do legislador. Sistema fechado sem lacunas. 2a Fase Positivismo Normativista Descobre as insuficiências do exegetismo. Introduz a subjetividade do intérprete para preencher as lacunas. 3a Fase Positivismo Axiológico Easy cases pela subsuncao legal. Hard cases por principios, valores e ponderação. E a fase atual. A EXEGESE CLASSICA NA ATUALIDADE A hermenêutica classica exegetica não desapareceu: ela funciona como a primeira camada interpretativa em qualquer caso juridico. O intérprete comeca sempre pela literalidade da norma e so avanca para métodos mais complexos quando o texto não oferece solução satisfatoria. Ambito do Direito Como a Exegese se aplica hoje Direito Civil (Privado) Base exegetica para normas cogentes. Principios e clausulas abertas (boa-fe, funcao social) apenas para lacunas e hard cases. Direito Penal Exegese predominante por imperativo do principio da legalidade estrita. Interpretação extensiva e vedada para prejudicar o reu. Direito Administrativo Imperio da legalidade restringe o intérprete. Ação do Estado e limitada ao que a lei expressamente autoriza. Direito Constitucional Hard cases resolvidos por axiologia e ponderação de principios. Exegese insuficiente para resolver conflitos de direitos fundamentais. Pagina 5 Hermenêutica Jurídica Classica — Escola da Exegese Resumo Didático - Tópico 4 CASO PRATICO — ADI 4815 (STF) O caso mais emblematico da tensão entre exegese classica e hermenêutica contemporânea e a ADI 4815, julgada pelo STF, sobre o direito a publicação de biografias sem autorização previa. Elemento Detalhe do caso Norma literal (exegese) Art. 20 e 21 do CC/2002: proibiam publicação de imagem e vida privada sem autorização. Pela exegese, nenhuma biografia seria possível sem anuencia do biografado. Problema real A literalidade vedaria biografias de figuras históricas e de interesse público, configurando censura privada incompativel com a CF/88. Solução do STF Interpretação axiologica e constitucional: liberdade de expressao eliberdade de informação (art. 5, CF) prevalecem sobre privacidade quando ha interesse público. A CF proibe qualquer censura. Método utilizado Sistemático (hierarquia das normas: CF prevalece sobre CC) + axiológico (primazia do interesse público sobre interesses privados). FIXANDO O APRENDIZADO — 3 PERGUNTAS-CHAVE Pagina 6 Conclusao prática Os métodos exegeticos são utilizados na atualidade em consonancia com solucões axiologicas quando insuficientes para harmonizar o sistema juridico nos chamados hard cases. A exegese não morreu: ela é o ponto de partida; os princípios são o ponto de chegada nos casos dificeis. Hermenêutica Jurídica Classica — Escola da Exegese Resumo Didático - Tópico 4 Fonte: ELTZ, Magnum et al. Hermenêutica e Argumentação Jurídica. SAGAH, 2018. Baseado em NADER, P. Introdução ao Estudo do Direito. 21a ed. Forense, 2001. STRECK, L. Hermenêutica Jurídica e(m) Crise. Livraria do Advogado, 1999. Pagina 7