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HISTóRIA E VERDADE
PAUL RICOEUR
PAUL RicOEUR, professor de Filo
sofia na Faculdade de Letras de Paris,
foi um estudioso de GABRIEL MARCEL
JASPERS e HusSERL e, presentemente, é
um ,dos mais autorizados intérpretes da
nossa estrutura cultural e do entendi .....
m·ento que o homem moderno possui
da própria vida. Ao longo de mui
tos anos de labor constante e tendo
publicado os seus resultados em revis_.
tas como Esprit e a Reuue lnternatio_.
nale de Philosophie, o autor reconhe .....
ceu o relativo encadeamento dessa obra
dispersa e resolveu reuni-la em livro a
que deu o título de História e Verdade,
· que foi editado em 1955. Oúze anos
depois, aumentou a primeira edição
com seis novos ensaios e fêz algumas
alterações na ordem de apresentação.
Foi esta nova edição que a Editôra
Forense traduziu e apresenta agora ao
público brasileiro.
Segundo pa1avras do autor, o rea�
grupamento dos ensaios foi feito em
tôrno de dois pólos: o pólo metodo
lógico e o ético. A primeira parte con�
têm os artigos consagrados à signif!�
cação da atividade histórica e vão
desde os que se ocupam do ofício d�
historiador no seu sentido estrito, com
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Primeira edição brasileira: 1968
traduzido de
HISTOIRE ET VÉRITÉ
Copyright © 1955, by Editions du Seuil
CEUD!SEBB llljJ�iUJIIII!l
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Tradução de:
F. A. RmEIRO
Reservados os direitos de propriedade
desta tradução pela
COMPANHIA EDITõRA FORENSE
mo Braga, 299 - 1.0-2.0 - Rio de Janeiro
de São Francisco, 20 - Loja - São Paulo
\
Impresso no Brasil
Printed in Brazil
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I l
PREFACIO DA PRIMEIRA EDIÇAO (1955)
Todos os estudos aqui reunidos são escritos de ocasião: não
procedem do desenvolvimento interno de uma reflexão que do
mina os temas e, sobretudo, o respectivo encadeamento; têm
todos por origem determinado acontecimento:· uma discussão em
grupo de trabalho, um colóquio ou congresso, um aniversário
comemorado na dor ou na alegria. E todavia êsses textos de
sarmônicos I a mim me parecem suscetíveis de certa ordem,
graças ao parentesco de ritmo e 'tema, e graças, sobretudo, a
certa consonância involuntária cuja .... regra procuro aqui desco
brir, criticando-me a mim mesmo.
Foi possível reagrupar êstes textos em tôrno de dois pólos:
um pÓlo metodológico e um pólo ético (no sentido mais amplo
da palavra). Contém a primeira parte os artigos consagrados à
significação da atividade histórica e que se escalonam desde o
ofício de historiador no sentido estrito, com sua exigência de
objetividade. - até o problema filosófico-teológico ae uma sig
nificação total ou final da história. Os estudos da segunda parte
vinculam-se àquilo que eu denominaria uma crítica çla civiliza
ção; procuro nêle um reexame reflexivo de certas propulsões
civilizadoras de nossa época; orientam-se todos êsses textos para
uma pedagogia política cujo sentido determino nas páginas con
sagradas a Emmanuel Mounier.
Se foi todavia possível dividir em dois grupos êsses diversos
ensaios, o que mais importa a meu ver é, antes de mais nada,
aquilo que chamei de início o parentesco de ritmo; um ritmo
1 Deixamos de lad.o três espécies de textos: em primeiro lugar os
estudos de caráter filosófico muito técnico, um dos quais, aliás, se refere
diretamente ao tema central desta coletânea: Husserl e o sentido da
História (Revue de Métaphysique et de Morale, 1950); em seguida,
as crônicas filosóficas que apresentam de modo manifesto o caráter de
c!"ítica de livros ou obras contemporâneas; e por fim, os ensaios rela
CiOnados com minha Philosoplzie de la volonté, e particularmente com
o preparo do segundo tomo: Finitude et Culpabilité.
7
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umco mantém com efeito unidas as duas preocupações acima
evocadas e cuja proporção apenas se inverte na primeira e na
segunda partes. Recuso-me energicamente a dissociar a eluci
dação dos conceitos diretores segundo os quais procuramos
pensar na linha da verdade nossa inserção na história, da preo
cupação de intervir ativamente na crise de nossa civilização,
por um testemunho na linha da verdade, da fôrça e da eficácia
da reflexão. Nada mais estranho à (/maneira" dêstes ensaios
que a alegada oposição entre o pensamento comprometido e o
pensamento desembaraçado; cada qual tomado isoladamente, e
todos, tomados em conjunto, desejam êstes ensaios dar teste
munho contra a futilidade de tal querela; seria preciso riscar
essas duas expressões e riscá-la ao mesmo tempo; a oposição,
não tão em moda, porém mais radical, introduzida por Marx
entre o pensamento que apenas observa e contempla e uma
praxis que transforma o mundo, parece-me deva ser repudiada
ainda com mais vigor. Como se procura exprimir de muitas ma
neiras em diversos dêstes textos, a própria aparição de um pen
samento contemplativo à maneira de Parmênides, de Platão e
do neoplatonismo (para tormarmos um exemplo extremo), trans
formou o mundo dando-nos, com a denegação das aparências
sensíveis e das manipulações, a matemática euclidiana, em se
guida a física matemática, e, por intermédio da medida e do
cálculo, o mundo das máquinas e a civilização técnica.
A unidade de ritmo à qual faço alusão aqui parece bastante
explicitada no ensaio intitulado Trabalho e Palavra. Busco na
própria operação do dizer esta alternância de contato e afasta
mento que torno a encontrar em todo comportamento respon
sável dum "intelectual" em face de qualquer problema. Eis
por que a reflexão de cunho mais metodológico dos três pri
meios ensaios é inseparável da percepção ético-política das rela
ções humanas para a qual tendem os estudos da segunda parte;
em sentido inverso, a maneira filosófica de me achar presente
à minha época parece-me vinculada a uma capacidade de rein
terpretação das intenções remotas e dos pressupostos radicais
de ordem cultural subjacentes aquilo que há pouco eu denomi
n-awi propulsões civilizadoras de nossa época. Assim a reflexão
sôbre o acontecimento me recambia a essa pesquisa das signifi
cações e encadeamentos nacionais que ocupa os primeiros textos.
em outras palavras, é preciso não ter vergonha de ser l(intelec
lúal", como o Socrates de Valéry em Eupalinos, votado ao pesar
8
de nada haver jeito com suas próprias mãos. Creio na eficiên
cia da reflexão, pois creio que a grandeza do homem está na dia
lética do trabalho e da palavra; o dizer e o fazer, o significar e
0 agir estão por demais misturados para que se possa estabelecer
oposição profunda e duradoura entre theoria e praxis. A palavra
é meu reino e disso não me envergonho; ou, melhor, envergo
nho-me na medida em que minha palavra participa da culpabi
lidade de uma sociedade injusta, que explora o trabalho; não
me envergonho originàriamente e, sim, tendo em vista o seu
destino. - Creio, na qualidade de universitário, na eficácia da
palcvra docente; como alguém que analisa a história da filoso
fia, creio na fôrça esclarecedora, mesmo para uma política, du
mr palavra consagrada à elaboração de nossa memória jilosó
jimais vasta e
mais coerente, ou fazer qualquer coisa de muito diferente como
será dito mais adiante. Mas, uma vez que se compreendeu que
essa tal história é uma composição de segundo grau, que ela é
um ato de responsabilidade filosófica, e não um dado da história
dos historiadores, e muito menos uma realidade absoluta, uma
história em si, não se pode ver qual a objeção que o historiador
de profissão ainda poderá fazer a semelhante emprêsa. Na
linguagem de Eric Weil, eu diria que a história dos historiadores
faz surgirem "atitudes" humanas; o filósofo, pelo seu ato espe
cífico de retomada, eleva as "atitudes" ao nível de "categorias"
e procura uma ordem coerente das categorias num "discurso
coerente"; mas então essa história do espírito já é uma "lógica
da filosofia" e não mais uma história de historiador.
Parece-me que êste acêrto de posições atenuou singular
mente a enormidade e o escândalo que representa para o his-
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toriador a pretensão dos filósofos de tratar a história como o
advento de um sentido.
De vez que é por um ato específico de "retomada" que
êsse sentido aparece, permanece a discontinuidade entre evento
e advento. A história dos historiadores não é mais engolida por
essa história significativa. É ao contrário sempre pressuposta
como a grande matriz das atitudes que o filósofo retoma. Mais
ainda, não contente de nutrir a história da filosofia, é a história
dos historiadores uma permanente advertência contra os riscos
de semelhante emprêsa: lá está ela a recordar ao filósofo racio
nalista a importância daquilo que êle despreza, daquilo que êle
se recusa a tematizar exatamente por causa de sua "opção de
filósofo" racionalista; a história dos historiadores recorda ao
filósofo sôbre que contra-senso se baseia todo sentido. E to
davia o filósofo não será abalado por êsse espetáculo de lou
curas, de malogros, de rapacidades que a história exibe, pois
sabe que sua história não é encontrada, mas reencontrada a
partir dos objetivos da razão.
É entretanto necessário ir mais longe: essa história da
consciência não faz apenas abandonar contra-sensos (ao menos
do ponto de vista da razão filosófica) ; abandona também o in
dividual, o não-sistematizável, o excepcional. O caráter sin
gular, incomparável de cada filosofia não é acaso uma aspecto
da história tão importante quanto a racionalidade do movi
mento de conjunto?
2 . A história como setor de inter-subjetividade.
Somos assim conduzidos à outra leitura filosófica da his
tória: em lugar de buscar a amplidão e o sistema, pode o filó
sofo historiador buscar a intimidade e a singularidade; pode vol
tar-se para uma filosofia particular e procurar de que modo nela
se estabelecem tôda a problemática de uma época, tôdas as
influências do passado: em lugar de recolocar essa filosofia no
movimento da história, êle há de considerar todo o passado
dessa filosofia como a motivação que ela sofre e inclui; em suma
a história, em vez de se desenvolver como um movimento, vai
vincular-se às pessoas e às obras; o filósofo-historiador tentará
então atingir a questão que só o outro filósofo encontrou e
situou, a questão viva com a qual o pensador se identifica; essa
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longa freqüentação de um autor, ou de um pequeno número de
autores, tende para o gênero de re�ação estreita, exclusiva, que
um homem pode ter com seus amigos. A profundeza da rela
ção exclui a possibilidade de estender êle a todos os filósofos,
a todos os pensadores, a todos os homens, essa espécie de comu
nicação.
Essa maneira filosófica de produzir história não é mais
chocante para o historiador de profissão que a precedente. A
tal ponto que o historiador que reflete sôbre sua própria situa
ção no campo total da Humanidade é conduzido a imaginar a
história que realiza como incluída na comunicação total das
consciências; o setor que a história delimita nessa totalidade
inter-subjetiva só se define metodolàgicamente pela condição de
um oonhecimento por vestígios, e, portanto, pela função inicial
do documento. Eis por que o encoutro em história não é jamais
um diálogo, pois a condição primeira do diálogo é que o outro
responda: a história é aquêle setor da comunicação sem reci
procidade. Mas, atendida a condição dessa limitação, ela é uma
espécie de amizade unilateral, à maneira dêsses amôres que ja
mais são correspondidos.
Será acaso a opção das grandes filosofias como tema de
interêsse que chocará o historiador? Mas o historiador da filo
sofia não pretende que história venha a culminar em uns pou
cos gênios filosóficos; fêz apenas uma opção diferente da do
historiador pràpriamente dito: a opção em favor dos existentes
excepcionais e da obra respectiva, na medida em que essa obra
é algo de singular, irredutível a generalidades, a tipos determi
náveis (realismo, empirismo, racionalismo, etc . . . ) ; a opção
dessa leitura envolve o fato de que o econômico, o social, o
político, não são coasiderados senão como influência, situação,
facilitação em relação à emergência de tal criador de pensamen
tos, de tal obra singular. l'isse criador e essa obra são então o
centro de gravidade, o receptáculo, o portador único de tôdas
as influências sofridas e tôdas as influências exercidas. A histó
r�a é então compreendida como uma série de emergências discon
tmuas, cada uma das quais exige um encontro sempre nôvo,
sempre totalmente devotado.
, . Procurei conduzir paralelamente essas duas leituras da his
tona pelos filósofos. A história dos historiadores é precisa-
41
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mente tal qual pode e tal qual deve ser "retomada" pela filo
sofia nestes dois estilos diferentes, que são duas maneiras dife
rentes de fazer aflorar a subjetividade da história, uma primeira
vez como única consciência humana cujo sentido está a cami
nhar como série contínua de momentos lógicos, uma segunda
vez c-omo múltipla emergência, como série discontínua de aflo
ramentos, tendo cada qual um sentido próprio. O mais hege
liano dos filósofos, o mais decidido a ver a história como o
ato do espírito que a si mesmo se atinge, não pode impedir
que o surgir de um Descartes, de um Hume, de um Kant per
maneça evento irredutível ao advento da razão através do dis
curso parcial que cada qual constitui no discurso total.
Essa dupla possibilidade de leitura filosófica é talvez ins
trutiva para o historiador de profissão; pois ela focaliza um
paradoxo latente em tôda a história, embora não venha a lume
senão por essa retomada da história geral como uma história
da consciência ou das consciências. Êsse paradoxo latente é o
seguinte; dizemos : a história, a história no singular, porque
esperamos que um sentido humano unifique e torne razoável
essa história única da Humanidade; é essa aposta implícita que
procura explicitar o filósofo racionalista que escreve uma his
tória da consciência; mas também dizemos os homens, os ho
mens no plural e definimos a história como a ciência dos ho
mens do passado, porque esperamos que as pessoas surjam como
centros radicalmente múltiplos de Humanidade; é esta a suspeita
que o filósofo existencial traz a lume ao dedicar-se às obras
singulares, onde o cosmos se reorganiza em tôrno de um centro
excepcional de existência e pensamento.
A história, para nós homens, é virtualmente contínua e dis
contínua contínua como único sentido em marcha, discontínua
como cdnstelação de pessoas. E assim vem decompor-se, na
ascensão filosófica da história ao nível da consciência, sua ra
cionalidade virtual e sua historicidade virtual. Fàcilmente se
mostraria que êsse desdobramento afeta não somente nossa re
presentação do tempo, cuja estrutura se revela antinômica no
nível do afloramento à consciência filosófica da história, mas
também a da verdade. Pois a antinomia do tempo histórico
não é a antinomia do sentido e do contra-senso, como se só
de um lado houvesse sentido, mas antes a antinomia do próprio
sentidoda história. A noção de sentido não se esgota com a
de desenvolvimento, de encadeamento: os nós da história que
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são os acontecimentos não constituem de modo algum centros de
irracionalidade, mas ao contrário centros organizadores e, sob
êsse título, centros de significação. Contràriamente à primeira
leitura, pode se dizer com P. Thévenaz que "o mais real dos
eventos é aquêle que mais se impõe à consciência como um
centro organizador do vir-a-ser histórico. Sua fôrça de irrupção
é seu próprio irradiar, que ordena a história para nós, e lhe
confere sua significação para nós. São com efeito os próprios
acontecimentos que fazem a realidade da história, que suportam
sua racionalidade e lhe dão o respectivo sentido. A significa
ção da história não é exterior aos eventos, e se a história tem
um sentido, é porque um ou vários eventos centrais (entenda-se,
sempre vinculados a uma consciência de historicidade) dão-lhe
um sentido, é porque o evento é logo à primeira tentativa o
própriO sentido". (Evénement et historicité in L'Homme et l'his
toire, págs. 223-4.) Pode pois a história ser lida como desen
volvimento extensivo do sentido e como irradiação de sentido
a partir de uma multiplicidade de centros organizadores, sem
que nenhum homem mergulhado na história possa ordenar o
sentido total dêsses sentidos irradiados. Tôda "narrativa" par
ticipa de dois aspectos do sentido : como unidade de composi
ção, ela aposta na ordem total em que se unificam os eventos;
como narração dramatizada, ela corre de nó em nó, de rugo
sidade em rugosidade.
Finalmente, aquela antinomia do tempo histórico é o se
grêdo de nossa hesitação entre dois "humores" fundamentais dos
humanos em relação à sua própria história: enquanto que a
leitura da história como advento da consciência conduz a um
otimismo da idéia, a leitura da história como produção de cen
tros de consciência conduz antes a uma visão trágica da ambi
güidad� do homem, que sempre recomeça e que sempre pode
desiludrr.
Talvez pertença à essência de tôda história prestar-se a
essa dupla leitura e a essa hesitação fundamental, embora só
a retomada da história como história filosófica da subjetivi
dade faça amadurecer e vir a lume o divórcio latente. Ao me
nos êsse divórcio, no nível de uma reflexão sôbre a história
�sclare;e retrospectivamente, justifica os embaraços do historia�
or, posto entre o aspecto de eventualidade e o aspecto estru�ural da I:istória, entre os personagens que passam e as fôrças
e evoluçao lenta, e até as formas estáveis do ambiente geo-
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gráf�co; deve êle a tudo fazer face, pois êle se exerce aquém
da lmha de separação entre duas histórias da subjetividade; nem
mesmo escreve uma história da subjetividade, mas uma história
dos homens sob todos os seus aspectos: econômico, social, po�
lítico, ,cultural. As clivagens filosóficas são posteriores à opção
do filosofo. Mas a necessidade dessas chvagcns explica retros
pectivamente que os óbices metodológicos do historiador são
fundados e que, apesar de seus escrúpulos, deve êle fazer face
a uma história da eventualidade e a uma história estrutural.
Não é êsse o único benefício que o historiador possa talvez
extrair da retomada filosófica de seu próprio trabalho; não é
êle apenas esclarecido demasiado tarde a respeito das ambi
güidades inerentes à sua emprêsa, mas também sôbre sua inten
ção fundamental . Com efeito, o ato filosófico fêz surgir o ho
mem como consciência, como subjetividade; êsse ato tem valor
de advertência e talvez também de toque de chamada para o
h1stonador. Lembra ao historiador que a justificação de sua
emprêsa é o homem, o homem e os valôres que êste descobre
ou elabora em suas civilizações. E essa lembrança soa por vêzes
como um despertador quando o historiador é tentado a renegar
sua intenção fundamental e a ceder à fascinação de uma falsa
objetividade : a duma história em que não houvesse senão es
truturas, fôrças, instituições e não mais homens e valôres Im
manos. Assim, o ato filosófico faz aparecer, in extremis, a di
vagem entre uma verdadeira e uma falsa objetividade, diria eu
mesmo entre a objetividade e o objetivismo que omite o homem.
O mister de historiador nos tinha parecido suficiente ao
discernimento da boa e da má subjetividade do historiador· a
responsabilidade da reflexão filosófica seria talvez de disce;nir
a boa e a má objetividade da história; pois é a reflexão que nos
assegura· sem cessar que o objeto da história é o próprio sujeito
humano.
44
A HISTóRIA DA FILOSOFIA
E A UNIDADE DO VERDADEIRO
Quo magis res singulares intelligimus,
eo magis Deum intelligimus.
SPINOZA.
Quem quer que ensine a história da filosofia - ou sim
plesmente a estude como disciplina de formação filosófica -
ver-se-á em face do problema da significação filosófica da his
tória da filosofia. Essa questão diz respeito ao próprio sentido
da atividade do historiador da filosofia; mas também diz res
peito ao filósofo original, isto é, àquele que pesquisa sob sua
p�ópria responsabilidade, por sua conta pessoal, sem preocupa
çao de levar o passado em linha de conta: pois bem sabe, tam
bém êle, que se a filosofia continua, é porque há filósofos por
que a história da filosofia continua a fazer-nos presentes a' colo-, ' car-nos, a nos mesmos, no círculo dêles: o mais autodidata dos
filósofos não se pode furtar a Sócrates Platão Descartes Kant ·
a história deve ter sentido para a próPria pes'quisa da v�rdade�
. Que quer isto dizer? Que a filosofia não existe e não con
tmu_a a existir senão através de uma história feita pelos filósofos,
e nao nos SeJa acessível senão através de uma história narrada
pe!�s historiadores da filosofia? Não tentarei estabelecer siste
ma�camente a resposta a esta questão a partir de uma tese dog
mál!ca. Procederei antes por uma série de aproximações onde
a solução atingida em um nível anterior será corrigida pdr uma
volta a debate do problema inicial.
c . Nosso ponto de partida será uma oporia uma dificuldade UJo sentido aprofundaremos progressivamenÍe buscando resol:
45
'• . ' ,
vê-lo. Surge essa a poria tão pronto ponhamos erri �n,nfrnn,;r. . .
situação histórica da filosofia com a idéia de verdade, tal
à primeira vista, como primeira aproximação, ela se nos impõ1�;
Sob sua forma menos apurada, a verdade se nos apresenta
idéia reguladora, como tarefa de unificar o conhecimento
lado do objeto, de unificá-lo do lado dos sujeitos, - de ve.nc,,r, ·
portanto, a diversidade de nosso campo de conhecimento
variações das opiniões. É essa idéia de verdade que, mciã
píritos seria, senão o critério, ao menos o sinal; se tôda h::;���:\
desenvolve um mínimo de ceticismo, tôda pretensão à v
desenvolve um mínimo de dogmatismo: no caso extremo,
história não seria senão a história dos erros e a verdade a
pensão da história.
Parece-me que é preciso tomar a sério esta primeira
ximação do problema, não a abandonando cedo demais;
existe historiador da filosofia que não se tenha surpreendido
um momento de depressão por essa vertigem da variação;
bém não existe filósofo que, em momento de exaltação,
tenha sido tentado por êsse imperialismo da verdade
que de súbito abole a história: assim Descartes,
savam pôr fim aos trâmites da história, repudiando .a
como algo de que a verdade os havia salvado; sossobrara
história sob a grande subversão da dúvida.
Não apenas é preciso levar a sério esta primeira aprmü- .
mação doproblema, mas ainda proteger essa aporia da hi'1tÓ1:ia
e da verdade contra as soluções prematuras. A mais medíocre: ·
é a do ecletismo, a mais tentadora a de uma lógica imant:nt>e ;:
à história.
O ecletismo não merece exame demorado, embora se trate ' ·
de escapatória tentadora e solução econômica - a da tagarelice: ·
filosófica. Os grandes sistemas, proclama o ecletismo, dizem :
todos por fim a mesma coisa, desde que se saiba separar o es- ' ·
46
, acessório. A verdade é então a adição das verdades
· , e concordantes. Na realidade, a história da filosofia,
com o ecletismo, salva-se graças a uma filosofia que 1';íergc1nha; o eclético vai buscar na história os membros
de uma filosofia sem genialidade. Os gênios conver-
0 talento eclético. Mas, sob essa forma vulgar, sur-
0 vício de tôdas as histórias da filosofia, que são
inconfessadas da história: uma filosofia - a filosofia
do historiador - estabelece-se em situação de privilégio
no ápice da história como a meta para a qual se
linliavam todos os esforços passados. A história marcha
sou o fim da história; a lei de construção da história
é o próprio sentido de minha filosofia.
vício, bastante visível no ecletismo, é o do hegelia
Haveria uma história interna da filosofia, porque uma
de intenção se manifestaria em um desenvolvimento.
possível descobrir a lei de tal progresso interior e
desvios e as situações embaraçosas evi
cd�t .reflt:xãio filosófica como uma espécie de' "astúcia" da
uma pedagogia do espírito.
solução é assaz tentadora, pois que permite reconci
e razão pela atribuição de um sentido à história
ir{:mo>virneJlto à razão; ao mesmo tempo parece só ela ser
co1nferir significação à própria expressão de hist6ria da
única filosofia que surge como êsse movimento único
tôdas as filosofias; mais que isso, ela confere auto
no tlttxo social do pensar e do agir, à "série filosófica" :
fase da história da filosofia à precedente, a filoihiistéiria desvincula o conjunto da série filosófica das
ér:
,
:�
�
!���:�ô��:�:a; religiosa, lingüística, etc. ) . Eis por
Q esta solução. Creio, porém, que é preciso
de abrir mão dela e produzir hist6ria da filoso
da hist6ria. Se, com efeito, se salva a filosofia lél]• diesenVI)]vimt:nto, perdem-se as filosofias; e por duas
se sacrifica é em suma a originalidade pro
llltlmção irredutível, a visão única do real que uma
É preciso que cada filósofo se enquadre,
seus predecessores e prepare seus sucessores;
de centro absoluto de meditação, êsse se tome
(ç!�ttilro da uma dialética, lugar de passagem de um
como êsses organismos individuais que são, no
47
��1�g�ie���10:0�e lugar por onde passa � corrente de vi?a.
'á talvez o filósofo que situa em perspec!Iva
ll�;��:rl�ll�I�fil�osofia exerce sôbre todos os autores uma espécie
i que é o oposto da atitude reta do historiador :
que_. me parece, aceita de }nício. "e�patriar-se", colo-
sob lei alheia e promover sua mvesl!gaçao como um exer
de comunicação e, se ouso dizê-lo, de caridade. Ora, os
filósofos que produzem história da filosofia, na qua!ldade de
· ,. filósofos da história, não somente não respeitam as intenções
distintas e irredutíveis dos grandes filósofos, mas impõem a tôda
a história. a condição de ter nêles o têrmo respectivo. As gran
diosas filosofias da história têm a percorrê-las o mesmo mal que
os miseráveis ecletismos: interrompem a história no último filó
sofo da história.
A dificuldade permanece, portanto, por inteiro: é hiante o
vácuo entre o objetivo de uma única verdade e a história das
múltiplas filosofias.
li
M�s talvez seja necessário restabelecer o debate sôbre os
têrmos da contradição, a fim de s-oerguê-la do nível do dilema
mortal até o do paradoxo vivo. Atingiremos a um segundo es
tágio de aproximação da dificuldad.e ao aprofund
_
ar nos�a. idéia
da história da filosofia - e depois a um terceiro estagro ao
corrigir simetricamente nossa idéia da verdade.
A história da filosofia não é, a bem dizer, . uma lição de
ceticismo, senão quando nela se vê uma série de soluçõ�s va
riáveis para problemas imutáveis - aquêles que são chamados
os problemas eternos (liberdade, razão, realidade, ahna, Deus,
etc.) Se os problemas permanecem �
_a
s soluções vari�m, a
contradição dos sistemas tem por condiçao a comum medida de
um problema idêntico. Esta primeira suposição vincula-se a uma
segrmda: as respostas variáveis a problemas fixos são respostas
típicas: realismo, idealismo, materialismo, espiritualismo.
eira é essa interpretação das filosofias como respostas típi
cas a pr�blemas anônimos abstratos - que seriam passados de
mão em mão - que deve ser de nôvo posta em quest�o. É-nos
necessária portanto fazer um desvio abordando a segumte ques
tão preliminar: Que é compreender uma filosofia?
48
Partirei das observações de E. Bréhier nos dois primeiros
capítulos de seu livro: La Philosophie et son Passé, principal
mente em La causalité en histoire de la philosophie. Distingue
E. Bréhier três níveis do trabalho do historiador da filosofia:
a história externa só vê em uma 'filosofia um fato cultural, um
conjunto de representações suscetíveis de serem explicadas pela
sociologia, pela psicologia, e até pela psicanálise ou a economia.
Sob êste ponto de vista, uma filosofia não é senão um efeito
social ou psicológico entre outros; defende-se em benefício do
contexto histórico o vínculo da filosofia ao filósofo. A filosofia
não é senão um sintoma. Ésse ponto de vista é legítimo no
quadro de uma investigação objetiva das sociedades .e do psi
quismo; falta-lhe, entretanto, o ,coração da intenção filosófica; a
. história da filosofia, vista por um não-filósofo, passar a ser uma
.• história das idéias, uma sociologia do conhecimento; ora, a his
tória da filosofia é, sob certos aspectos, uma atividade filosófica
(Vc)ltltre:mo's a êste assunto dentro em pouco, ao corrigir nossa
verdade) . Situa-se no segundo nível a história crítica;
. . man1:érrt-se esta mais próxima da intenção do próprio filósofo:
as fontes; observemos já esta palavra: não as causas, mas
fontes, isto é, as influências que não apenas foram sofridas,
assumidas e sob certos aspectos escolhidas. Ora, essa his
crítica, que está sempre por fazer-se e que é a parte de
�rrlponts para a reg�no, para o lugar vago, onde teremos possi-
de aprendê-la; ela também nos desvia no sentido das
istraçé5es mortais, de que está cheia a história das idéias· em
filosofias singulares, ela só lhes capta o invólucro v�io
socializada. '
resto, é preciso que se entenda convenientemente o
dessas singularidades filosóficas; enganar-nos-íamos, in
amente, se as reduzíssemos à subjetividade das próprias filo
recair na explicação literária, na psicografia ou na
:análi!;e das filosofias; o que importa à história da filosofia
a subjetividade . de Platão ou de Spinoza se teulla trans
em uma obra, em um c.onjunto de significações, no
bigrafia do autor se manifestou ou se mascarou, mas
ab?lida em um "sentido"; a singularidade em ques�.
do sentld_o da obra e não a do vivido peculiar do autor.
que c?ntmue a ser verdade que a Ética é o projeto exisde S�moza, ao hlstoriador da filosofia só interessa que
Spmoza tenha realizado seu projeto na Ética de ma-(diferenlte da da sua vida. É o sentido de sua obra o "filo
Spinoza que é a essência singular que o hi;toriador detectar.
atacar diretamente a idéia de proble
�t�li�: ,d�r·�����:� imutáveis; se se toma uma filosofia t' concreta, o problema ou os problemas que mesmo s� o aut?r se vincula a uma tradição antiga, • de sua smgular1dade; tomam-se como êle únicas e de sua sitoação, que não se compara a qualquer
''"'�':s; um grande filósofo é antes de tudo aquêle que
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perturba a problemática anterior - que retalha as questões
principais, segundo novas perspectivas. Mais radicalmente do
que um homem que dá respostas, é êle o homem que pergunta,
O grande filósofo é aquêle que pela primeira vez se espantou
com uma maneira nova de filosofar - uma questão que é um
alguém; nêle a razão filosófica é antes de tudo a elaboração
sob forma universal de sua questão fundamental : problema car
tesiano da certeza, problema kantiano dos julgamentos sinté
ticos a priori. Se se aborda uma filosofia nova mais por suas
perguntas do que por suas respostas, tem-se possibilidade de
marchar em direção àquele centro em que se reunem as in
fluências; as filosofias anteriores não mais são ali causas obje
tivas, mas aspectos de sua situação fundamental, aspectos de
uma "motivação filosófica" - de um Umwelt totalmente moti
vante; uma filosofia não é mais o efeito de um conjunto de
causas, mas antes a aglomeração, e até certo ponto a eleição de
seus próprios motivos históricos.
Chegados a êste ponto, dissipa-se nosso ceticismo inicial
- a menos que, conforme iremos ver, êle se metamorfoseie.
Quando se superou a tipologia dos sistemas, quando se singu
larizaram as filosofias e se reduziram as soluções aos problemas,
essas filosofias se tornaram incomensuráveis. Duas problemá
ticas compreendidas em sua raiz são inc-omparáveis; existe dum
filósofo para outro discontinnidade radical, para além da con
tinuidade das influências, dos temas, da linguagem. Tem-se en
tão a tentação de dizer que cada filosofia é verdadeira na me
dida em que responde integralmente à constelação de proble
mas que abriu. A adequação do pensamento ao real - que
constitui a clássica definição de verdade - toma aqui a forma
da adequação das respostas às questões, das soluções aos pro
blemas; e o grande filósofo é aquêle que de um lado renovou
a problemática e de outro lado acorreu ao seu próprio desafio,
dando a solução mais coerente e mais vasta à problemática que
estabeleceu. Com mais fôrça ainda, se se passa da verdade-ade
quação à verdade-descoberta, a verdade duma grande filosofia
é mais que o acôrdo interno de suas respostas com suas ques
tões, É a descoberta do sentido de sua situação, tal qual lhe
aparecia problemàticamente sob a forma de questão.
Detenhamo-nos nesse estágio: solucionamos um ceticismo
de primeiro grau, o que repousa na comparação mútua das
soluções, à luz dos problemas eternos; êsse ceticismo foi minado
52
'
I
com os seus pressupostos. Um outro mais sutil não lhe teria
sucedido?
De comêço, existem filosofias, mas haverá ainda uma his
tória da filosofia? Achamo-nos em face de uma série discon
tínua de totalidades singulares, De uma para outra tem-se de dar
um salto: Bergson chegou a dizer que se Spinoza tivesse nas
cido em outra época, não teria escrito uma só linha daquilo
que escreveu, e no entanto teria havido um spinozismo idêntico
àquele que conhecemos. E Bréhier, que -o cita sem criticá-lo,
tende a fazer de cada filosofia uma essência: "o filósofo tem
sem dúvida sua história, não porém a filosofia" ( 1 1 5 ) , Só exis
te uma história, porque os filósofos anteriores fazem parte da
memória e da situação do nôvo filósofo; mas cada qual engloba
de certo modo a história passada em si mesmo, em um mo
mento histórico que é uma espécie de absoluto.
E ao mesmo tempo em que se anula a história como série,
como desenvolvimento, também a verdade a bem dizer se anula
à fôrça de multiplicar-se. Tomadas em conjunto, as filosofias
não são mais nem verdadeiras nem falsas, mas outras. A alte
ridade está aqui como algo para além do verdadeiro e do falso.
O grande historiador da filosofia, como Delbos, torna invulne
rável, irrefutável o autor que reconstitui a partir do centro res
pectivo, ou pelo menos na direção de seu centro: doravante
êle existe; Spinoza existe; Kant existe, E isso que aí dizemos
não é pura teoria, antes descreve muito exatamente o tempe
ramento do verdadeirohistoriador: para êle a passagem de um
�ilósofo ao outro supõe um esfôrço sucessivo de simpatia, uma
nnaginação filosófica que constitui uma espécie de interrupção,
de epokhé da verdade.
O dilema inicial da história variável e da verdade imutável
assume doravante aspecto mais sutil: vincula-se à história a sim
patia neutra, à pesquisa da verdade o compromisso e o risco
de engano, E bem sabemos que essa oposição oculta uma si
tu�ção real: quando alguma vez se empreendeu compreender
Spmoza em si mesmo, já não mais nos perguntamos se êle é fal
s? ou verdadeiro; ingressamos, por fôrça do mister de histo
nador, no ciclo duma verdade por hipótese, duma verdade sem
crença. , E assim pode a história tornar-se sempre uma espécie
de a1Ib1 para a pesquisa da verdade; é sempre possível ocultar-nos a!rás da história com o fito de nada afirmarmos por nossa propna conta, Em troca, o verdadeiro filósofo empe-
53
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nha-se de modo completo na filosofia, que por fim se torna incapaz de ler os outros filósofos. Sabe-se de que modo os grandes filósofos se enganaram sôbre seus predecessores e seus contemporâneos; a1guns mesmo, a partir de certo momento, nein mesmo lêem mais os outros e de certo modo se enquistam em seu sistema. O progresso de um filósofo em seu próprio sistema torna-o progressivamente cego à história, indisponível face aos demais. Essa incompatibilidade do filósofo-historiador da filosofia e do filósofo sistemático tem algo ao mesmo tempo de derrísório e de dramático . . . Por fim, o historiador ��cético" nada mais busca, o filósofo ��dogmático" não tem senão inimi
gos ou alunos, mas não amigos.
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Estaremos nós de nôvo em face duma situação insolúvel? Não o creio: se reabrirmos agora o debate sôbre o outro têrmo da antítese, talvez, não tenha sido vã nossa diligência anterior.
Consideramos a idéia de verdade como uma abstração ao
mesmo tempo intemporal e impessoal; tal é, de fato, a título
de primeira aproximação, a idéia de verdade; porém ela só as
sume êsse sentido abstrato por ser a idéia-limite correlativa de
uma tarefa, tendo por meta sujeitos concretos; é ela o horizonte,
o sentido final abstrato, intemporal, impessoal de uma tarefa
concreta, temporal e pessoal; a idéia de verdade só se sustém
devido ao dever de pensar. Por conseguinte, o outro têrmo da
confrontação com a história não é a idéia de verdade, mas
minha pesquisa pessoal da qual a idéia de verdade é o hori
zonte, o correlato que se visa.
Que é, pois, buscar a verdade? Talvez a resposta a essa
pergunta permita englobar a história da filosofia não como o
têrmo antitético da verdade, mas como o respectivo comple
mento e caminho privilegiado.
A busca da verdade - para falar muito simplesmente -
acha-se por sua vez atraída por dois pólos: de um lado, uma
situação pessoal, de outro, um desígnio na direção do ser. De
um lado tenho algo a descobrir por minha conta, algo que
ninguém mais senão eu tem por tarefa descobrir; se minha exis
tência possui sentido, se não é algo de vão, tenho uma situação
no ser que é um convite à proposição de uma questão que nin-
54
' pode efetuar em meu lugar; a estreiteza de minha conguem . - d t d · h 1 · dição, de minha mformaçao, .e m
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turas, já configura a perspectiva m
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dade. E entretanto, por outro la o, uscar a ver a e sig-ver · 1 'l"d t d nifica que aspiro a dtze� uma . pa a_vra va 1 a para . o os, q�e
se ergue do fundo de mmha s1tuaçao
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como um _u1
mversa�; n
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quero inventar, dizer o que me agra a, .mas aqm o que e. o
fundo de minha situação, aspiro a ser hgado pelo se:. Que o
ser se pensa em mim, tal é meu voto de ve:dad:; . �ss,t;n a pes
quisa da verdade está suspensa entre o carater fimto de meu
questionar e a "abertura" do ser.
É aqui que volto a encontrar a históri� da . filosofia com
preendida como memória das g;andes filo::ofws sm_gul�res; pms
·neste caminho, que parte de mmha s1tuaçao em d1reçao a ver
dade, não há senão uma via de superação, a comunicação. Não
tenho senão um meio de sair de mim mesmo: é expatriar-me
em outrem. A comunicação é uma estrutura do conhecimento
verdadeiro. Graças a ela, a história da filosofia não se reduz a
um desfile irracional de monografias dispersas, pois ela mani
festa o "sentido" para mim dêsse caos histórico. Essa história
não é mais o "museu imaginário" das obras filosóficas, mas o
caminho do filósofo de si para si mesmo. A história da filosofia
é obra de filosofia como desvio da clarificação do eu. O sen
tido dessa simpatia, o sentido dessa epokhé, dessa suspensão do
compr-omisso, o sentido dessa imaginação filosófica não está nela;
a compreensão histórica não possui seu sentido próprio; êste lhe
advém quando ela se torna o avesso de uma pesquisa filosófica
atual, arriscada, comprometida.
Assim o trabalho de compreensão da história da filosofia
e a criação filosófica original surgem como as duas faces de
uma única busca do ser; comungando com a criação atual, liber
ta-se a história inatual de sua futilidade, ao mesmo tempo que
a pesquisa pessoal da verdade escapa à sua estreiteza e fana
tismo. O historiador puro, aquêle que nada procura, é uma
abstração, simétrica daquela outra abstração: o autodidata pu
ro, aquêle que nada aprende com os outros, aquêle que não tem
tradição, que não possui memória filosófica.
Nesta altura de nossa reflexão o dilema mortal tornou-se
deveras paradoxo vivo: devemos renunciar a uma definição de
certo modo moiUidica da verdade, na qual a verdade seria para
55
cada qual a adequação de sua resposta à sua problemática.
Atingimos antes uma definição intersubjetiva da verdade, se
gundo a qual cada um " se explica", desenvolve sua percepção
do mundo no "combate" com outrem; é o liebender Kampf de
K. Jaspers. A verdade exprime o ser em comum dos filósofos.
A philosophia perennis significaria então que existe uma comu
nidade de busca, um symphilosophieren - um filosofar em
comum - onde todos os filósofos se acham em debate com
todos através do intérprete, que é uma consciência testemunho,
a que procura de nôvo, hic et nunc. Nesse debate, as filosofias
do passado não cessam de mudar de sentido; essa comunicação,
que as salva do esquecimento e da morte, faz aflorar intenções
e possibilidades de resposta que seus contemporâneos não ha
viam percebido. Isto é tão verdadeiro, que as filosofias que se
inculcaram como eternas não puderam escapar a essa lei: têm
ao menos a história de seus leitores; o tomismo, tanto quanto
o platonismo, não foge a essa exigência de só sobreviver pela
história dos neotomismos, assim como houve na história uma
série de neoplatonismos; não cessam essas leituras renovadoras
de deslocar a ponta da doutrina inicial.
Assim se institui uma reciprocidade entre a história e a
pesquisa contemporânea; é precisamente por causa dessa reci
procidade que as filosofias escapam não apenas às classifica
ções da tipologia, mas à imobilidade das essências singulares;
a relação móvel de Platão com um leitor contemporâneo ar
ranca-o a tôda história sistemática que quisesse cristalizá-lo
num papel imutável de um "momento" do "Saber absoluto".
Por sua singularidade, mas também pelo diálogo que lhe reani
ma o sentido, tornou-se a filosofia de Platão átopos, insuscetível
de localização.
IV
Estamos porventura no fim de nossa pesquisa? Estaríamos tentados a denominar verdade êsse processo sem fim da pesquisa contemporânea e da compreensão das épocas preténtas e de passar da verdade monádica à verdade da monadologia por uma espécie de adição espiritual de tôdas as perspectivas.
56
'·
Importa que se faça afl?rar � consciê�cia a no�a. decepç�o
que suscita essa nova aproximaçao da dificuldade llliCial: nao
podemos denominar verdade êsse reino dilacerado das verdades.
Por múltiplas razões:
Em primeiro lugar, é raro que as filosofia� que estudo con:o
historiador reingressem efetivamente num dmlogoque eu seJa
capaz de estabelecer. Os "encontros" dignos dêsse nome são
raros. Existe tôda uma história da filosofia que eu produzo de
certo modo profissionalmente, sem me achar em estado de per
ceber em que medida ela participa de minha própria pesquisa:
uma história sem diálogo, que deixa subsistir o dilema mo�tal
da verdade e da história no plano secundário do paradoxo VIVO
da pesquisa e da comunicação.
Além disso, quando consigo instituir verdadeiramente .em
mim mesmo um debate com o autor que estudo, as duas atitu
des do historiador e do filósofo permanecem sempre um tanto
ou quanto disparatadas: quando leio Platão ou Spinoza, entre
go-me a um movimento de vai-e-vem; alternadamente mantenho
em suspenso minhas próprias perguntas e meus esboços de res
posta, para tornar-me outro, para me sub�1et�r. ao au:�r estu
dado· volto em seguida à carga, fazendo mcidir a cnhca na
que!; nível mais profundo, ao qual . a epokhé me levou, e, de
nôvo confiando em meu autor, detxo-me vencer por ele. O
mom�nto "cético" e o momento "dogmático" não se podem
fundir perfeitamente.
Por fim, e principalmente, subsiste entre os problemas dos
diversos filósofos uma invencível discordância que faz com que
todo confronto entre filósofos permaneça sob certos aspectos
um ma/entendido. Lá está a decepção mais grave. !isse ma
/entendido essa discordância entre problemáticas, que no fundo
nào se podem comparar, faz com que não possa haver aí. tota
lidade da comunicação. Ora, a comunicação seria a verdade,
se jôsse total.
Sou então levado a tentar uma última aproximação do pro
blema da história e da verdade. Temos constantemente mantido
no horizonte dêsse vasto debate entre os filósofos e as filosofias
aquilo que denominamos a idéia de Verdade; consideramo-la
como uma idéia reguladora no sentido kantiano, isto é, como
uma estrutura racional que exige a unidade do domínio da afir
mação. Talvez uma nova reflexão sôbre essa estrutura de ho
rizonte da verdade nos ajudasse a sair do embaraço; nem mesmo
57
���!�!��: ·justiça completa considerando-a como o elemen!o
de um dever de pensar; abordamos pelo seu lado
noemático, a "tarefa" da verdade; isso seria suficiente
estágio de nossa reflexão para compreender a dialéticá da
pesquisa, - do· questionar filosófico - que alternadamente
perscruta a história e formula uma pergunta nova.
É preciso agora interrogar o têrmo correlativo, o lado noe
mático da "tarefa" de verdade, a saber, êsse Uno que nos per
segue e nos desaloja de posição em posição, desde o início de
nossa investigação.
Pressentimos que é êsse Uno que unifica numa história
as singularidades filosóficas e faz dessa única história uma phi
losophia perennis. E, todavia, não temos nenhum outro cami
nho de acesso a êsse Uno, a não ser o próprio debate de urha
filosofia com outra filosofia. O que se acha em questão em
tôda questão, o que suscita a questão - o Ser prévio ao ques
tionar -, é também o Uno da história, mas êsse Uno não é
nem uma filosofia particular pretensamente eterna, nem a fonte
das filosofias, nem a identidade daquilo que elas afirmam, nem
o vir-a-ser como lei imanente dos "momentos" filosóficos, nem
o "saber absoluto" dêsse vir-a-ser. Que é êle, se não é nada
disso?
Talvez por um rodeio se possa elucidar concretamente a relação da história da filosofia (como diálogo de cada um com cada um) com a Unidade da Verdade. !isse ·rodeio é o da relação entre o dever de pensar e uma espécie de esperança ontológica. Penso numa expressão tal como "Espero achar-me de posse da Verdade"; a exegese dessa expressão deve conduzir-nos à relação da história com sua perenidade.
Que quererei eu dizer com a fórmula: "Espero achar-me na verdade"?
· · Na verdade: essa expressão faz surgir uma relação nova que não é exatamente a que sugerem expressões outras como: caminhar para a verdade, na direção da verdade. A verdade
· lá não é apenas um têrmo, um horizonte, mas um ambiente, uma atmosfera ou, melhor, a luz, segundo expressão comum a Gabriel Mar�el e a Martin Heidegger. Espero que aquilo que denomino minha filosofia, meu pensamento, "banhe em" um certo m�io constituído por sua não resistência às mediações, da: maneira pela qual a luz, segundo o Timeu, é mediadora entre · o .. fogo do ôlho e o fogo do objeto.
S8
/
Essa metáfora veiculada pelo têrmo "na", embora condu
zindo-nos a uma outra metáfora, a da verdade como ambiente
ou melhor como luz, traz-nos de volta a um tema que encon-' '
" b a'' N ' h ' tramos em caminho: o do ser como a ertur · os o avia-
mos oposto, de passagem, no de minha situação como "estrei
teza" (ou o ser algo de finito) ; depois fôra êle ofuscado pelo
da tarefa como busca voltada para um horizonte. Que significa
essa idéia de "abertura"? Significa que as múltiplas singulari
dades filosóficas - Platão, Descartes, Spip.oza - são a priori
acesslveis uma à outra que todo diálogo é possível a priori, por
que o ser é aquêle at� que, precedendo . e fundamentando tôd.a
possibilidade de questionar, serve de alicerce para a mutuali
dade das mais singulares intenções filosóficas. É esta abertura,
esta clareira êsse lumem natura/e que a imaginação ingênua
projeta nos Campos Elíseos onde são possíveis os diálogos dos
mortos. Nos Campos Elíseos todos os filósofos são contemporâ
neos, e reversíveis tôdas as comunicações: Platão pode responder
a Descartes, que nasceu depois dêle; os Campos Elíseo�,
figuram
a abertura prévia à história que torna possível todo dtalogo no
tempo. Então a pluralidade não é mais a realidade última, nem
0 malentendido a possibilidade mais íntima da comunicação. O
ser de tôda questão' abre originàriamente cada um a cada um
e fundamenta a verdade histórica e polêmica da comunicação.
É porém aqui, que se deve ter cuidado de não separar ' '
d d " d " " o "na verdade" - o "estar na ver a e - o espero -
"espero estar na verdade". Não .�osso �eclara_r ess� unidade,
articulá-la racionaimente e enuncia-la, nao existe lagos dessa
unidade. Não posso englobar num discurso coerente "a aber
tura" que fundamenta na unidade tôdas as questões. Senão
eu não diria mais: "espero estar na verdade"� mas: "tenho a
verdade"; essa relação possessiva face à verdade é talvez o se
grêdo da pretensão e da agressividade em . relação a todo pen
samento rebelde que se esconde em todo ecletismo e em tôda
filosofia sistemática da história. Pois é ainda preciso ter a ver
dade para refletir sôbre o vir-a-ser imanente da história em um
Saber absoluto. Não, essa esperança não confere o poder de
dominar a história, de ordená-la racionahnente. E entretanto
essa "abertura" não é absolutamente dissimulada; a esperança
ontológica possui seus sinais e ga�antias: qua�to mais se ap�o
funda uma filosofia, mais se aceita o nos deiXarmos expatnar
S9
lwr ela (máis se compreende, e?' cons7qüência, a irredu.tibili
dade dessa filosofia a tipos) , mais se afirma sua autonomia em
relação às ·influências sofridas, mais se acentua sua alteridade
·em face de outra qualquer, - e mais se é recompensado pela
alegria de atingir o essencial, como se fôsse graças ao mergulho
na espessura de uma filosofia, de suas dificuldades, de suas in
tenções, de suas recusas que se poria a prova sua indizível con
sonância com qualquer outra e que se chegaria à convicção de
que Platão, Descartes, Kant se abrem pelo mesmo ser. É assim
que compreendo a expressão tão profunda de Spinoza: quanto
mais conhecemos as coisas singulares, mais conhecemos a Deus.
Mas essa consonância não se pode tornar sistema, não pode
ser tematizada. Eis por que ela se acha antes na linha da
Promessa ou da Reminiscência (o que deve ser a mesma coisa) .
Espero que todos os grandes filósofos se achem na mesma ver
dade, que tenham a mesma compreensão pré-ontológica de sua
relação com o ser. Penso então que a função dessa esperança
é de manter o diálogo sempre aberto e introduzir uma intenção
fraternal nos debates mais ásperos. Nesse sentido, é ela justamente o ambiente vital da comunicação, a "luz" de todos os
debates. A história permanece polêmica, mas como que acla
rada por êsse éskhaton que a unifica e eterniza sem se podet
coordenar com a história. Diria que a unidade do verdadeiro
não é tarefa intemporal, senão por ser antes de mais nada uma
esperança escatológica. É ela que sustenta não apenas minha
decepção em face da história da filosofia, mas a coragem de
produzir história da filosofia sem filosofia da história.
Removemos o ceticismo inicial de diversas posições su
cessivas; mas por sua vez êle nos deslocou. Originàriamente,
é êle vencido no Uno; mas eu não sei êsse Uno; dêsse modo
o ceticismo continua a ser existencialmente a tentação por ex
celência do mister do historiador; a história continua a ser o
lugar do que foi abolido, do longínquo, do outro; ninguém pode
escrever a philosophia perennis.
Ésse estatuto ambíguo da história da filosofia é o da comu
nicaçãô que modula alternadamente sôbre o Mesmo e sôbre o
Outro, sôbre o Uno e sôbre o Múltiplo. É enfim o estatuto
ambíguo da humanidade, pois a história da filosofia é, em últi
ma análise, um dos .caminhos privilegiados em que a humani
dade luta por sua unidade e perenidade.
60
NOTA SóBRE A HISTóRIA DA FILOSOFIA E
A SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO
É a história da filosofia uma disciplina filosófica. Supõe
inicialmente uma interrogação viva no presente : é ao expa
triar-se a si mesmo em .outras problemáticas que o filósofo vivo
supera sua estreiteza própria e começa a universalizar as ques
tões que estabelece. O sentido final dêsse desvio através da
grande memória histórica está na retomada da história pela filo
sofia presente. Mas entre essa solicitação inicial e essa retomada
final, é a história da filosofia disciplina relativamente indepen
dente que se constitui de modo mediato por nma "suspensão",
nma certa epokhé da problemática própria do filósofo. historia
dor: permite êste que se afirme a filosofia dos outros, o outro
de sua filosofia.
É aqui que se manifesta o estatuto instável da história da
filosofia; parece ela estar condenada a oscilar entre dois limites,
entre os quais tende a se anular, seja como tarefa filosófica,
seja como tarefa histórica. De um lado tende a confundir-se
com uma sociologia do conhecimento, que não é empreendi
mento filosófico, mas científico. No limite oposto, tenda con
fundir-se com uma filosofia da história, que é empreendimento
· filosófico, mas não constitui disciplina histórica no sentido estrito
do ofício do historiador.
Uma reflexão metodológica sôbre a história da filosofia teria
objetivo mostrar como a história da filosofia se constitui
n����1� espaço eritre uma sociologia do conhecimento e uma .fi da história.
O objetivo desta comunicação é explorar a primeira dessas
fronteiras.
·
Uma crítica da sociologia do conhecimento constitui hoje
essencial do historiador da filosofia; faz-se essa jovem
ocasião de um aflorar ao nível da consciência dos as-
priipr.ian:tenlte filosóficos da história da filosofia. Diga-se
:•.uncJtO que essa crítica se dirige não sôbre a validez, mas
o alcance de tal ciência; é, aliás, ao refletir sôbre os limi
sociologia do conhecimento que simultâneamente se con
seu direito dentro dêsses mesmos limites e se faz surgir a
:cificigia do conhecimento antecipa no limiar de sua busca numa
Eis por que não causa escândalo que o campo de ínvestidessa jovem ciência seja desde ínício dividido entre hipóde trabalho divergentes. Devemos a essa diversidade de pesquisas valiosas como as de Max Scheler, de Karl Uml1eina, de P. A. Sorokin, etc.
' Conseqüentemente, o ínteressante da soci-ologia do conhe. . é o método de verificação que ela aplica às correlações "co�ecimen�?" e .a conjuntura social ou cultural; qualseJa a vanavel mdependente que serve de referência . se trate �a classe no sentido marxista, ou de qualquer '��ia���1�s:�o·�CI
:,�
al, ou mesmo da dependência face às "men�� de Sorokin - a questão úuica é saber se
�o�ecimento é capaz de transformar, por uma met?�Ica das correlações, suas hipóteses de trabaemp)ficas; se ela o conseguisse, a relação entre um pensamentoe a existência s-ocial seria não sàmente significativa, compreendida por simpatia, mas uma
63
; ;�iJ:6��J�.
��i��� de variável dependente a variável independente
. • a uma lógica da probabilidade.
. . . Dêsse ponto de vista só nos pode�os f�licitar pela !ntro
dução por Sorokin do '!'!'ss study na soci�Iogi� do ;o�hecimen
to· é perfeitamente legitimo procurar medrr a mfluencia de um
pe'nsador, de uma escola, de um movimento filosófico, lite
rário e, de modo geral, cultural, em função de critérios obje
tivos e assim determinar quantitativamente as correntes de pen
samento; a sociologia do conhecimento acha-se aqui em terreno
sólido.
Tais tentativas atestam aquilo que pode ou não pode a
· sociologia do conhecimento.
li. LIMITES DA SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO
A reflexão sôbrefilosofia que tenha inte
grado a subjetividade na substância; é essa espécie de sombra
trazida pela derradeira filosofia sôbre a primeira que lhe con-
. . inteligibilidade.
Tal é o primeiro modêlo de compreensão em história da
mclsoJtia, e seu pólo-limite: o sistema.
Temos, porém, outro tipo de compreensão, que consiste em
orripreeJ!de:r cada vez uma filosofia como filosofia singular. E
filosofia singular será tanto melhor compreendida, quanto
se tiver ido até o extremo de sua singularidade. Spinoza
será mais uma variedade de panteísmo, ou de · racionalismo;
mais haverá "ismo" para designá-lo; êle será êle próprio,
à compreensão filosófica; compreender Spinoza consis
referir tôdas as suas respostas a tôdas as suas questões;
_ de Spinoza não será mais uma resposta a questões em
·. nao será mais em relação a problemas anônimos que se
67
determinará Spinoza, entre outros e cóntra outros :l'ilóso:l'os; ao
contrário, o spinozismo procederá de uma questão que êle terá
sido o único a formular; por conseguinte, sua verdade incom
parável consistirá na adequação de sua resposta à sua questão.
A filosofia considerada torna-se então uma essência singular
(em lugar de filosofia, seri� melhor dizer o filosofema, isto é,
o sentido da obra e não mais a subjetividade de seu autor, en
quanto indivíduo; trata-se, sem dúvida, da obra como objeto
cultural, tendo em si mesma seu sentido, secretado de certo
modo por si mesmo). Nesse limite extremo, as filosofias sin
gulares são radicalmente isoladas; cada uma constitui um mundo
total, no qual se deve penetrar lentamente, por uma espécie de
familiaridade que jamais se completa, exatamente como se pro
cura compreender um amigo, sem jamais confundi-lo com qual
quer outro; ora, não há sistema no qual eu possa inserir meus
amigos; cada qual é amigo de maneira única e incomparável.
Esses "tipos" de leitura se chocam contra um duplo limíte.
De um lado, é difícil ir até ao sistema, e talvez mesmo em Reger
nem tudo seja sistema. Da mesma forma, é difícil ir até à
singularidade; o historiador sempre se detém numa espécie de
compreensão intermediária, no nível dos gênems comuns, sem
atingir a essência singular; êsses gêneros comuns, bem os conhe
cemos: chamam-se realismo, idealismo, espiritualismo, materia
lismo, etc. Pelo fato de não se chegar à singularidade, pára-se
na tipologia; e é verdade que a tipologia é um meio de com
preender, cuja função irredutível se nos patenteará · dentro em
pouco. Se se avança além do- tipo, do gênero comum, só existe
uma maneira de designar a filosofia de Spinoza . . . é o spino- .·
, zismo; é precis:o produzir-se um "ismo" à sua medida. Por con
seguinte, em lugar da amplidão e do sistema, visarei à intimi
dade e à singularidade.
Sucede, porém, que na situação limite uma filosofia, assim
isolada, não se acha mais na história, não é mais um ri:tcJm.ento
da história, mas pode-se dizer que tôda a história está nela. t!
nela que se contrai a história anterior, concentrada em suas ·
fontes;· em suas origens; é nela também que se anuncia todo
desenvolvimento futuro. Tem ela seu passado e futuro, impli
cados numa espécie de presente absoluto, que faz disso tudo
uma essência eterna.
Tal é, pois, a primeira verificação da qual desejaria partir:
a compreensão histórica se refere a dois modelos que, como em ·
68
breve veremos, suprimem um e outro a história: o sistema e
a essência singular.
A segunda verificação é que essas duas leituras da his
tória da filosofia correspondem a duas exigências, a duas espe
ranças, e, finalmente, a dois modelos de verdade, cada um dos
quais se reporta ao ontro. Com efeito, que é que espero da
primeira leitura da história da filosofia? Empregamos faz pouco
a expressão "totalidade". Mas, precisamente, por que procuro
eu compreender pela totalidade? Poder-se-ia dizer que a tota
lidade é o "grande desvio" da consciência própria. Dizia Platão
que, para compreender � alma, era preciso ler-lhe a. estrutura
· nas grandes letras da cidade. Da mesma forma, leiO as pe
quenas letras da consciência própria n�s grandes letras ?": �is
tória da filosofia. É la que descubro todas as suas possibilida
des, realizadas, porém, nas obras ?aquilo que H��el _deno��a
Espírito. Justamente por êsse movimento, a consciencia. propr�a
se torna o Espírito, em vez de permanecer a pobre smgulan
- dade anedótica de minha própria vida. Em sentido inverso,
. posso dizer que a história se torna consciência própria, porque
ordem da história coincide com o ato de seriação, radical e
ordenado, de uma teleologia da consciência pró
A história se torna humana, recebe qualificação humana
prestar-se a tal leitura; torna-se perfeitamente judiciosa ao
ao nível da série dos pensamentos filosóficos, ao tender
o sistema. O que é digno de nota, é que minha consciên-
se torna pensamento ao mesmo tempo que a história. E é
que opera essa dupla promoção: da consciência hu
erguendo-se à claridade da expressão filosófica, e da bis
atingindo a sua racionalidade. O que espero dessa as
da história na história da filosofia, e desta última no
é a exaltação de um sentido.
Devo apenas admítir de imediato que essa exaltação é uma
de Pirro· o triunfo do sistema, o triunfo da coerência,
da ra�ionalidade deixam um gigantesco resíduo: êsse
justamente a história. Por quê? Temos antes de mais
a polpa da história vivida pelos homens que, por con-
par�ce insensata; é a violência, a loucura, o poder, o
nada disso pode introduzir-se na história da filosofia.
nada seria ainda, pois que, face à violência, no sen
_que a entende Eric Weil, sou obrigado a escolher entre
e o contra-senso. Sou filósofo e escolho o senso; tanto
69
pior para o eontra-senso que permanece. Mas, o que é muito
mais grave, é que não apenas deixei .do }ado de for� o con
tra-senso mas também "um outro sentido , uma maneira outra
de ter se�tido. Eis por que não se pode ser hegeliano; pois, as
duas possibilidades têm uma pretensão igual, mas diferente de tôda síntese e a ela irredutível. Exerço, com efeito, violência sôbre as filosofias fazendo-as entrar nessa espécie de leito de Procusto: exige o sistema que a filosofia de Spinoza não seja senão a filosofia da substância sem a subjetividade; ora, quem quer que tenha freqüentado Spinoza sabe que isso não é verdade; se existe um movimento do primeiro para o quinto livro da Ética, é porque existe a consciência própria, que de certa maneira está presente, ainda que não sob a forma dialética do hegelianismo; é então preciso admitir que tudo se acha em cada filosofia, que cada filosofia é à sua maneira a totalidade, ou, para falar em linguagem leibniziana, uma parte total, ou uma ' parcialidade total. Não tenho o direito de dizer que uma filo-sofia não é senão um momento; é por um decreto violento que eu a reduzo, que a cristalizo num momento, cujo sentido se realiza fora dela. A compreensão que faz pouco eu denominava amiga, e que praticaria "a verdade na caridade", conduziria até a coerência interna e a suficiência perfeita da singularidade. Em outras palavras, a outra maneira de compreender que também espero, é que se exerceria sôbre uma mônada ou uma pessoa, sôbre uma essência inteiramente personalizada, que não mais teria sentido fora dela. Essa essência singular exige o tipo de compreensão que consiste em expatriar-se num outro, exata� mente como encontro em cada um de meus amigos a totalidade da experiência humana sob um certo ângulo.
Essa exigência, que faz contrapêso a essa totalidade, é a exigência da comunicação. A comunicação exclui tôda pretensão de englobar, de reduzir o outro a uma parte de meu discurso total. No sistema, cada filosofia vem em seu lugar como um momento de U)l1a única filosofia; exerço um domínio soberano sôbre as filosofias compreendendo-as como momentos, ao passo que, na atitude de comunicação, o filósofo que procuro compreender é verdadeiramente meu par; não é, pois, simplesmente um discurso parcial, mas umapersonalidade completa. :2 sem dúvida um outro modêlo de verdade que aqui invoco, uma verdade tal que exclui túda Suma. Poder-se-ia dizer que aqui a verdade seria completa, se a comunicação pudesse comple-
70
ta A verdade como diz J aspers,
tar-se; mas, ela perman�ece a���flo�-ofar em co:Uum". Não pos�o
não é outra cotsa senao o n'ao sou alguém e se nao
d I 'm se eu mesmo
. • . .1 compreen er a gue
t ão há mais pos1çao pnvi e-
entro no debate; n:sse momen o
d �e é radicalmente inter-sub
giada para ler o sistema, a ver a
jetiva. . � "nteses para c-orrigir a palavra "co-
Abrirei, ahas, um pare
t é imprópria, pois a corou. � " e sob certos aspec os, I t d mumcaçao ' qu ' d h. tórico difere fundamenta men e a
nicação, segundo o mo o . IS.
nest� caso o outro responde; na
comunicação com um amigo,
• esp' onde o que caracte-, . defi'n'Ição o outro nao r .
.
, . ' • se histona por ' , 'lateral· a h1stona e es ' h' t' · a e ser um ' riza a comunicação I� �n.c 'de onde a reciprocidade é impos-
segmeuto da inter-subletlV!da ' d não possuo a presença,
sível, porque dos �o�en����a��� �a história 0 conhecimento
mas sàn;e�te o vestig'?· . d filosofia o vestígio é a obra., Con:o
por vestig!Os : em histona a
não me responde; ha, pms,
historiad�r, interrogo u�� ob�� ���tante, posso, na acepção lar
unilaterahdade na relaçao. n . - uo sentido de que eu que
ga do vocábulo, falar de com��Ic�çao
faço parte da mesma his
leio e compreendo o outro f!loso
�· nto total das consciências . '1 . , intenor do movime d tóna que e e, �.no. d outras que não respon em.
que uma consciencia compreen e
2 .
. f'l 'f'co e a história efetiva. o dzscurso 1 oso 1
. déias . a compreensão tende em
Retenho, poi�, estas du�s I
'los-Úmite, que nos representam
história da filosofw para dozs po
derá êsse desdobramento
dois modelos de verdade. Em qu
�. ;�ria da filosofia servir-nos
da compreensão e da v�rd�d�·
e�r'
IS
em geral? Para responder
de revelador: en; relaçao � z���� I:;ravés de uma análise int�ra esta questao, e preciso
:'b a própria relação entre o d�s
mediária, que se exerce ��
d�e num ou noutro sentido, e a his
curso filosófico, compreen I
d êsse discurso e na qual êle
tória a lústória efetiva, que con uz
bl ma encontra e prolonga ' É · que meu pro e
1 se inscreve. aqm
d h' , ·a n'ao deixa de formu ar, flosofia a Iston • . aq uêle que uma I
,
. história a série economiCa,
quando tenta integrar num
!
a u
l
mc
D
a
que �odo se insere a lús-, . J't' séne cu tura . e · - 7 a sene po I ICa, a . , . a]? E trata-se duma mserçao
tória da filosofia na histona ger .
71
diria duas coisas, uma negativa e outra positiva -��::;:ij!�:��;��
'
�m:a�is importante. A negativa é que,
afastar, como por demais ingênuo,
tôda relação de tipo realidade-reflexo, e
mo,· mais geralmente, tôdas as variedades da relação de
· a efeito. Ou, mais exatamente, tal gênero de explicação
validade restrita, que importa bem delimitar para ver o
além do qual êle deixa de ser utilizável. A teoria do '\refle,lO" vale; a rigor, enquanto não se trata de explicar o nascimento radical de um pensamento filosófico, mas simplesmente o seu pêso social, sua seleção social, seu sucesso, sua eficácia. Pode-se dizer que uma época dada invoca tal tipo de filosofia, e isso de múltiplas maneiras, como justificação, como arma, como expressão direta de si, mas também como expressão de recusa; nesse sentido, pode-se dizer que o pensamento de uma época é o reflexo dessa época e seu efeito, com a condição, por conseguinte, de que se deixe inteiramente de lado o problema radical do nascimento de uma problemática filosófica, mas que se meça simplesmente o sucesso histórico dunía doutrina. O segundo limite dêsse tipo de explicação sociológica da história é limitarmo-nos à explicação de tipos, e de modo algum singularidades. Pode-se, por exemplo, mostrar legitimamente que a burguesia -francesa, em sua fase ascendente, tinha necessidade de algo como o cartesianismo. Mas um outro racionalismo teria podido desempenhar-se igualmente bem da tarefa; numa fase de dúvida de si, como o mostrou Goidmann, a mesma classe pode postular algo como uma filosofia trágica. Parece-me que nesses limites, é legítimo o recurso a uma explicação sociológica que estabeleça correlações entre formas de meios econômico-sociais e tipos de pensamento, tipos de visão do mundo.
Mas aquilo que, por tal via justificamos, não é a história da filosofia, é a sociologia do conhecimento, que é perfeitamente legítima como ciência. Ora, tanto a sociologia do conhecimento é atividade científica quanto a história da filosofia, atividade filosófica. :É o filósofo que, para filosofar, procura compreender-se por sua memória histórica; e é ato de filos·ofia produzir história da filosofia. Mas o que escapa à sociologia do conhecimento e -não pode ser retomado senão numa Wstória filosófica da filosofia, é justamente a origem do sistema, isto é, a constituição de um certo discurso a partir de um certo número de questões fundamentais. :É assaz evidente que existe um hiato
72
·entre aquilo que é simples eficácia social, aquilo que faz pouco
'qenominava pêso social duma doutrina, e do outr? lado a cons
tituição de uma problemática; pois é em campo diferente de um
carnpo operatório, utilitário, pragmático, que uma f�osofi� nas:e
para 0 mundo �o �isc�r�o. Nas.ce segun�o uma. mtençap pro,
pria· essa intençao filosofiCa consiste em dizer aqmlo que e como
é. A aparição do verbo ser na filosofia grega � o testemu�ho
dessa intenção filosófica. Tal gênero de questao excede toda
espécie de causalidade social. :É taiJ?-bém �sse tipo de q�estões
que não pode aparecer senão em smgulandades, mas 1_1:ao em
tipos. Os tipos supõem em formas abs:rata� de _questoes, _de
questões gerais, que não propostas por mnguem; so as questoes
que estão "no ar" se acham sujeitas a uma socioi?gi"; �o. conhe
cimento, e não o nascimento de um problema filosofico numa
filosofia singular.
Se denegamos essa relação de e!eito .a causa, e, m�is ainda,
de reflexo à realidade, entre uma filosofia e seu ambiente, em
que consiste a relação positiva que existe, nós o sabemos, entre
um pensamento e uma época? Ser!a absu:do dizer q�e uma
filosofia como a de Platão ou de Spmoza nao tem relaçao com
. seu tempo. Mas qual é essa relação? Creio q�e nos orienta
ríamos para a solução se disséssem?s q�e uma fii?�O�Ja aparece
numa certa situação. O vocábulo Situaçao pode dingir-nos para
assaz diferente da relação de causa e efeito, ou de reflexo
realidade; pois, como posso atingir o sentido de uma Situação,
situação dum artista, a situação dum pensador, e, em geral,
criador? :É de todo digno de nota que não a conheço como
"sua" situação, fora de sua obra, antes de sua obra, mas
certo modo "na"· e "pela" sua obra.
:É porque surge uma. certa filosofia, q�e .ela tem uma si
é por motivo da figura, que ela dehnem ao n�sc.er, em
que doravante ela possui causas, qu� existe uma
qual ela será doravante o reflexo. Existe, portanto,
n�
!l
���
,
ç�� que é mais primitiva que a relação de realidade
:r, de causa a efeito; tendo nascido determinada obra,
.1�'"''""'" descobrir-lhe uma situação. Há algo de abso
laniente P'ar:adflrar, que ela exibiu. Sartre mostrou-o de maneira notá,re]}
seu artigo dos Temps modernes intitulado:
méthode: é sempre do artista que é preciso partir, para
brir qual a situação que êle fêz ao produzir tal obra.
Tentemos precisar mais o argumento: é coisa mais fácil
com o filósofo do que com o artista. De que modo manifesta
o filósofo sua situação? É deveras notável que a situação social,
política, de um grande filósofosentido e a erique-
lo de contínuo com novas significações.
História e verdade querem dizer antes de tudo: aquela his
- ·.ia que ocorreu e que interessa ao ofício de historiador, pres
''�r-se-á a um conhecimento da linha da verdade, de acôrdo com
'" postulados e regras do pensamento objetivo postos em junção
.. ns ciências? Fizemos questão de colocar no princípio da cole�
·!ea o texto em que mais se patenteia essa questão critica;
,não surge de modo algum clara
em seu texto; não é referida, não é declarada em lugar algum;
é, entretanto, manifestada. É manifestada de certa maneira,
muito indireta, através dos problemas propostos pelo filósofo;
em -outras palavras, sua situação sofreu uma espécie de trans
mutação, de "transvaliação"_; de situação vivida, tornou-se pr-o�
blema declarado, problema pronunciado, enunciado. Que quer
isto dizer? Façamos uma primeira observação, à primeira vista
anódina, mas, na realidade, absolutamente decisiva: é num
. discurso, e unicamente num discurso que o filósofo pode fazer
surgir sua época. A obra do filósofo é obra de expressão e uni
camente de expressão, de tal forma que nosso problema apre
senta o aspecto mais extremo, e talvez mais claro, da relação
que pode existir entre a história efetiva e o discurso, a história
efetiva produzida pelos homens e o discurso que êles consti
tuem. Parece evidente que a filosofia é expressão, mas isto
basta para que se escape à relação causa-e-efeito e realidade-re
flexo. Nenhum discurs-o, nessa qualidade, pode ser reflexo. Se
o vocábulo tem sentido, o reflexo é uma coisà, um objetO!, o
- reflexo num espelho, por exemplo; não conhecemos reflexos que
sejam discursos. Há algo de especifico na relação entre uma
situação e um discurso, e essa relação é simplesmente signifi
cada. É nesse sentido que o caso do filósofo é mais esclarei
cedor que qualquer outro, porque o discurso ao qual visa exige
que se proponham questões universais. Coisa que nos introduz
no centro da dificuldade e do paradoxo, pois uma filosofia sin
gular, ao surgir, manifesta sua época, exprimindo-a no elemento
do universal: é fazendo a pergunta: "Que é um julgamento sin
tético a priori?", que Kant inaugura sua filosofia, e a pergunta
que faz, é questão universal; e é nessa questão universal, qué
êle �az aparecer a estreiteza de sua situação singular, que a
manifesta.
74
A obra filosófica dá, de início, forma à questão de que
procede; ora, a forma universal da questão é o problema. O
filósofo exprime propondo de modo universal, em forma de .
problema, a dificuldade que lhe é própria e que o constitui.
Exprime dando forma.
Vê-se ao mesmo tempo quão difícil é encontrar uma rela
ção direta entre uma filosofia e um ambiente econômico, social
e político; é preciso, dizíamos, reencontrar essa situação na pró
pria obra, mas é típico da obra filosófica a transposição de todos
êsses problemas muito singulares, vividos pelo filósofo, numa
questão universal. Chega-se a dizer que a obra filosófica dissi
mula sua situação social e política. Apenas dissimular uão quer
absolutamente dizer mentir. Tal dissimulação só seria falsidade
se justamente pretendesse enunciar sua situação. · Ela "dissi
mula", por não querer dizer em que época nasceu! qual o meio
social que exprime; o que quer dizer é outra cmsa. Sua per
gunta é: que é real? que é a physis? que é uma idéia? que .é
a transcendência? Nisso a filosofia emudece a respeito de sua si
tuação, e é o mutismo do filósofo sôbre sua própria situação -
de classe ou outra - que constitui o desinterêsse de sua ques
tão. É porque sua situação foi como que transmudada em ques
tão desinteressada, que sua questão lhe dissimula a situação.
Ela dissimula por ultrapassar, por transcender.
Por conseqüência, é sempre de maneira indireta que se
pode estabelecer a relação que vincula uma obra filosófica à
sua época, de vez que essa relação só pode ser procurada na
própria obra, e que a obra mais perfeita é a que mais dissimula.
Se existe um problema de falsa consciência, no sentido de Marx
e de Lukàcs, é porque uma relação inverídica pode vir inse-
rir-se nessa relação fundamental de tôda obra de expressão re
ferida a uma situação, porque uma obra de expressão supera
· a própria situação e a dissimula, superando-a: é essa dissimu. primitiva que pode se tornar falsa consciência, mentira,
ao reconhecimento de sua situação: partilhará o filósofo
me:nti.ra de sua época quando, amparando-se no discurso uni-
que tem uma classe, pretender ter feito sem gran-
�be�;����c·��� o movimento da história, de manumissão e de
lí quando era apenas na intenção que êle superava sua
s_ttUa•;ã: continua, no entanto, a ser verdade que, pela sua ma-
formular as questões, êle efetivamente superava sua
littlação. ainda que apenas em intenção.
75
Essa relação entre uma época histórica e uma obra filosó
fica - essa relação de manifestação-dissimulação, - é a forma
extrema do estatuto da linguagem no mundo. A linguagem com
pretensão à maior universalidade revela o que sucede a tôda
expressão, a todo discurso em uma sociedade : desde que uma
época se represente a si mesma por intermédio de suas obras,
é que ela já saiu da estreiteza de sua situação. É exatamente
por isso que não se pode jamais reduzir as obras literárias, e,
de modo geral, obra alguma a uma simples camada de apa
rência, à franja de escuma da vaga que se ergue numa praia.
É uma realidade nova, que tem uma história própria, a história
do discurso, que postula uma compreensão própria, e que só
se vincula à sua situação, superando-a. Nesse sentido, a signi
ficação da expressão excede sempre a função de reflexo. Lem
bremo-nos do sonho de Constantinopla, entre os muçulmanos,
que recentemente se discutiu. Pode-se só ver ali ambição polí
tica. Mas, uma vez que tal sonho fora "dito" num mito, êle
ultrapassava Constantinopla e podia tornar-se um símbolo esca
tológico; e isto é !auto mais verdadeiro quanto êsse tema da
tomada da cidade volta a surgir na mística cristã, no "castelo"
de Santa Teresa, e finalmente em O Castelo de Kafka. Volta
mos a encontrar no tema do Graal, üU na busca do "tesouro",
a mesma riqueza de harmônicos míticos e místicos; existe assim
um acréscimo de significação na obra, no mito, que excede seu
suporte histórico, embora se possa sempre discernir tal suporte
histórico, social, econômico; mas, uma vez "dito", sofre êle uma
transformação no elemento do Lagos, e essa expressão poderá
ser reassumida a partir de entras situações históricas, poderá ser
compreendida.
3 . A contradição de tôda historicidade.
Procuremos condensar. Numa primeira parte, tentei mostrar que a história da filosofia comportava um estilo estranho de compreensão, de vez que nos propunha dois modelos de verdade, um, que tendia para o sistema e, outro, para a obra singular. Ora, meu problema era saber o que essa contradição nos ensina sôbre a história em geral. Introduzi, para resolvê-la, uma questão intermediária: de que modo a história da filosofia se refere à história? Vimos que tal referência não se fazia à ma-
76
neira de eieito ou reflexo, mas j)ela consti�ui�ão de ull?- univer.so
significativo, que sempre excedm sua propna causahdade his-
tórica. . � . É pelo fato de haver "mais" no discurso flios�üco, que a
história da filosofia pode revelar aspectos da h1stona que de
outro modo não apareceriam:
1 . Em primeiro lugar, essa dupla leitura da história, da
filosofia revela um duplo aspecto, virtualmen�e presente em to�a
história. Tôda história pode ser compreend1da como e�altaça_o de um sentido e emergência de singularidades. Essas smgul�r.ldades são, ou acontecimentos, ou obras: ou pessoas. A h1stona
hesita entre um tipo estrutural e um tipo_ baseado em ac.ont�
cimentos. Mas é unicamente na clanücaçao do d1scurso füoso
fico que essas duas possibilidades se separam e se mamfesta?.'.
Em que sentido comporta a história essa dupla poss!b!h
dade? De um lado, empregamos históri� no singular e atestar:'os
que existe uma única história, uma úmca Humamdade: "Toda
a série dos homens, escreve Pascal, no fragmento de um Tra
tado do vácuo, deve ser considerada como um mesmo homem
que subsiste sempre e está de contínuo a ap;ender." Temos a
convicção que, sempre que se nos .d�para um smal humano,. pode
êle, a priori ser referido a um umco c.an;po de Humamd�d�.
Isto eu 0 sei antes mesmo de produzir h1stona, por uma espec1ede compreensão antepredicativa do campo histórico. �as dessa
compreensão não pode o h1stonador exphcar o mol!vo. , Para
êle, ela permanece "pré-conceito", no _sen�i?o fort� do termo.
fl.sse preconceito do historiador não se JUSI!flca, senao p�la ten
tativa do filósofo de recuperar, num único discurso, os d1scursos
parciais. Mesmo sem ser hegelianos e mesmo sem
_s
er absolu
tamente filósofos temos o sentimento de que tudo 1sso que os
filósofos dissera�, sempre e por tôda a part;o, deve P.oder co?s
tituir um continente, uma realidade, uma so ��ntmmda�e : e a
palavra humana, é o discurso, é o Lagos. Duta eu, po1s, que
é o sistema, a possibilidade-limite do. sistema, que revel� ser
a história potencialmente una (voltare! dentro em breve a ex-
pressão "potencial") . . ... Tenho sàmente diante de mim uma outra conv!Cçao, que a primeira não pode extirpar. Se digo "história", no si?gula;, a história é também a história dos homens no plural, 1st? . e,
não apenas dos indivíduos, mas das comunidades e das c�v!l!
zações. Acha-se, pois, igualmente inscrito um certo pluralismo
77
na preconcepção do drama hist6rico e do trabalho hist6rico.
Não somente coloco os homens no plural, como também coloco
no plural os acontecimentos; se existe um acontecimento, exis
tem acontecimentos. f! a história necessàriamente uma diversi
dade, uma multiplicidade: existe isto, e depois aquilo. f! o "de
pois", "e depois então", "e depois ainda", que faz com que haja
história. Se não houvesse rupturas, novações, também não ha
veria história. Onde, pois, se torna perfeitamente manifesto êste
outro aspecto latente da história? Na singularidade das obras.
f! lá que o historiador atesta seu caráter, se se pode dizer gra
nular, seu caráter quântico. Não conhecemos o espírito senão
nas obras do espírito, nas obras culturais, que postulam cada
qual nossa amizade, e, quanto mais progredimos nessa amizade
pelas obras, mais reduzimos as generalidades que a mascaram,
mais avançamos na direção do singular e do único.
Assim se manifesta, pelo discurso filosófico, na medida em
que êle não é reflexo mas constituição de sentido, o duplo cará
ter de tôda história, que é ser ao mesmo tempo estrutural e
conduzida pelos acontecimentos, de ser unidade da história e
multiplicidade dos acontecimentos, das obras e dos homens. Tal
é nossa prhneira conclusão: a história da filosofia manifesta a
dualidade latente de tôda história; quando ela própria se sub
divide em dois modelos de inteligibilidade, revela aquilo que se
acha subjacente à história.
2 . Essa primeira conclusão invoca uma outra. Essa de
composição do estrutural e da parte referida aos acontecimentos,
operada na compreensão das obras, e singularmente das obras
filosóficas, é, de certa maneira, uma destruição da história. Esta
segunda conclusão é talvez ainda mais paradoxal que a pri
meira. Ora, é a dupla· destruição da história que revela a his
tória como história.
f! da maior importância que os dois modelos-limite da com
preensão em história da filosofia, o sistema e a singularidade,
representem uma certa supressão da história. Antes de mais
nada, desde que haje sistema, não há mais história. Na Feno
menologia do Espírito ainda se encontra uma certa história, aliás
"ideal", constituída pelas "figuras" do Espírito; ora, quando se
passa à Lógica de Hegel, não há mais "figuras", mas "catego
rias", não há mais história de nenhum modo. O limite da com
preensão histórica é, portanto, a ·supressão da história no sis
tema. Vê-se a mesma coisa na obra de Eric Weil, que muito
78
admiro : as atitudes ainda estão na história, as categoria� não
compõem mais uma história, e sim uma Lógica da filosofza. A
passagem da história à ló!>ica
_
sigu�fic� a �or�e. da história. Pc:
r
outro lado na segunda direçao, nao e a histona menos destrui
da. Quando se pratica a história da filosofia .confo�e '? se
gundo método, chega-se a uma espécie de esqmzofrema, VIven
do-se num filósofo, depois noutro, sem haver passagem dum ao
outro; pode-se mesmo dizer 9ue ês�es filósofos não pertencem
mais a qualquer época, são smgul�r�dade� que flut�am fora da
história, essências singulares anacromcas, m
,
temporais.
,
T?rna-se
a obra uma espécie de absoluto que contem seu pr�pno pas
sado, mas seu passado essencializado. J:. obra de Spm�za, tem
tal passado, mas êsse passado, nela inclmdo, torna-se essencia, e
esta, por sua ve:i, não pertence a nenhum J?IOmento; pod�:�;
dizer dessa obra singular, assim compreendida, que ela e ,
que ela é "assim"� e, sob êsse título, irrefutável. D�zia Ni�tzsche:
"Um som não pode ser refutado", nem com matar razao uma
palavra assim absolutizada. ,
Conforme se vê a história da filosofia não revela o carater
fundamental de tôd; história, de ser ao mesmo tempo referida
aos acontechnentos e estrutural, senão por seu pró�ri? trabal�o,
que suprimiu a hist�ricid�de. Se;ia êsse !aly�z o u
,
mco .senti�o
que se poderia dar a noçao de fim da h1stona. Toda fil?sofia
é de certa maneira, o fim da história. O sistema é o fim da
história, porque ela se anula na Lógica: a singul�ridad� �al;ll
bém é o fhn da história, de vez que nela se nega toda· histmiía.
. Chega-se a êsse resultado, absolutàmente paradoxal, que é sem
-: pre na fronteira da história, do fim da história, que se com-
. os traços gerais da historicidade.
3 . Chego assim à minha últhna· conclusão: ' se a hist�ria
revela como história na medida em que é superada, na drre
do discurso ou da obra singular, será preciso dizer que a
história não é história senão na medida em que ela não atingiu,
o discurso absoluto . nem a singularidade absoluta, na me
em que seu sentidd permanece con!'uso, enredado. A h_is- ·
vivida a história feita, é tudo aqmlo que se passa aquem
decm;,posição e dessa supressão. Aquém des�a decompo
é a história essencialmente equívoca, no sentido de achar
rtualrne:ute referida aos acontecimentos e ser virtualmente es
A história é de fato o reino da inexatidão. Não é vã
descoberta; ela justifica o historiador. Justifica-o de todos
79
os seus embaraços. O método histórico não pode ser senão um
método inexato. Essa necessidade, nós a compreendemos a par�
tir de um ponto em que tôdas as dificuldades seriam superadas,
mas onde não mais haveria história. Tôdas as dificuldades do
método histórico se justificam a partir dêsse limite do discurso
filosófico. Quer a história ser objetiva e não o pode ser. Quer
fazer reviver e não pode reconstruir. Quer tornar contempo
râneas as coisas, mas é-lhe ao mesmo tempo necessário restituir
a distância e a profundeza do afastamento histórico. Tende por
fim esta reflexão a justificar tôdas as aporias do mister de his
toriador, aquelas que Marc Bloch assinalara em sua defesa da
história e do ofício de historiador. Essas dificuldades não se
devem a vícios de método, são antes equívocos bem funda
mentados.
Terminemos com alguns corolários. Se a história é aquilo
que passa aquém dessa clarificação pelo discurso, é preciso tam
bém dizer que a história universal não existe. Se existisse, ela
seria o sistema e não seria mais história. Eis por que a idéia
de história universal não pode ser senão um objetivo, uma idéia
da razão. l'lsse objetivo preserva o historiador das civilizações
de crer que existam ilhas incomunicáveis; desde que haja duas
ilhas, penso nelas conjuntamente, num mesmo cosmos; eis por
que haverá sempre a tarefa de buscar relações entre tôdas rus
totalidades parciais.
Também se deverá dizer que, se não existe a história uni
versal, também não existem singularidades absolutas; estas não
poderiam existir senão em obras perfeitamente singularizadas.
Ora, a história comporta também fôrças, tendências correntes
coisas anônimas, entidades coletivas; só em obras 'perfeitas �
raras é que se c-onsegue, senão atingir, ao menos a aproximação
da. singularidade. Há poucos sêres que sejam pessoais, verda
deiramente pessoais. A personalidade é um limiteda existência;
o histórico é aquilo que não pode chegar ao último grau da
clarificação, nem no sentido do sistema, nem no da singulari
dade. O equívoco é, pois, também sua imperfeição, que a retém
sempre aquém daquilo que a completaria, seja na linha da uni
dad� do sentido, seja na linha das obras singulares. E, como
aqmlo que ?ompletaria seria também aquilo que suprimiria, seria
talvez preciso dizer - mnda que a expressão seja um tanto
o� quanto hegeliana: só aquilo que suprime é capaz .de ma
mfestar.
80
II. PERSPECTIVAS TEOL6GICAS
O CRISTIANISMO E O SENTIDO DA HISTóRIA
PROGRESSOJ AMBIGÜIDADEJ ESPERANÇA
Seria pretencioso trazer atualmente uma resposta, t?tal ao
problema do sentido da história; seria para tal necessana uma
competência de historiador, de sociólogo e de teólogo. Tem êste
estudo por fim levantar o bloqueio do pr�b.lema, . mostrando
que existem diversos níveis de leitura da histona; existem talvez
também, por conseguinte, diversas resp�stas esc.al�nadas � �s�a
questão do sentido da história; uma leitura cnsta do misteno
da história talvez esteja fadada a retomar de certo modo pelos
alicerces outras leituras que em sua respectiva escala perma
necem válidas.
O tipo próprio do falso probl7ma . q':e de iní�io se nos
oferece é o conflito entre a escatologia cnsta e a noçao do pro
gresso. A polêmica religiosa tem-se por demais deixado cair
nessa situação embaraçosa: é sem dúvida exato que êsse tema
do progresso espontâneo e contínuo da Hmn�nidade surgiu de
uma laicização e, em suma, de uma degradaçao racwnabsta da
escatologia cristã; nada mais enganador, no entanto,, do que
essa oposição progresso-esperança ou progresso-misteno. Ao
mostrar que a história se presta a vários níveis de leitura, have
mos de verificar que progresso e mistério não se defro,:ttam ao
mesmo nível. O tema do progresso não se consiJtm senao quan
do se decide só conservar da história aquilo que pode ser con-
81
como a acumulação de algo de adquirido (Veremos
primeiro nível é o dos utensílios, no sentido mais largo
expressão: utensílio material, utensílio de cultura, utensílio
de conhecimento, e mesmo utensílio de consciência e de espi
ritualidade) . Mas nesse nível não há drama; e não existe dra
. ma, porque· se colocou os homens entre parênteses, para não
considerar senão a anônima germinação de um instrumental (Tudo isto, eu o espero, se aclarará quando o retomarmos de modo pormenorizado; por ora, trata-se apenas de indicar as articula-. . ções mestras do problema).
Existe, porém, um segundo nível de leitura, no qual a história aparece como um drama, com decisões, crises, cresci. meu tos e decadências; passamos aqui duma história abstrata, onde só são consideradas as obras dos homens e a acumulação de suas pegadas, a uma história concreta, onde existem acon
tecimentos. Tôda esta análise tenderá a mostrar que é nesta segunda leitura da história que começa a articular-se uma visão cristã da história, e não na primeira.
A dificuldade principal estará então em dizer em que sen�ido é lícito ao cristão reconhecer um sentido global nessa história que comporta decisões e acontecimentos, em suma situar a esperança cristã em relação a essa aventura aberta incerta b� ' ' ' am 1gua. ·
. ��-ês palavras que hão de ba:Iisar nossa pesquisa: progresso, amb1gmdade, esperança. Assinalam três cortes no fluxo da história, três maneiras de compreender, de. retomar o sentido três níveis de leitura: nível abstrato do progresso, nível exist�ncial da ambigüidade, nível misterioso da esperança.
O PLANO DO PROGRESSO
Parece-me que é possível sair da rotina do problema do progresso j)ela formulação da questão fundamental: de que pode ·haver progresso? que é capaz de progresso? ·
. �e o homem, de maneira tão visível, se decide sem hesita
. s�bre a natureza, sôbre a repetição sem fim dos costumes aniiDais, se o homem tem uma história, é antes de mais nada trabal�a e porque trabalha com utensílios. Tocamos aqui, utensílio e com as obras produzidas graças ao utensílio,
num fenômeno digno de nota: é que o utensílio e as ôbras do
utensílio se conservam e se capitalizam (A conservação do uten
sílio é aliás, aos olhos do paleontólogo, um dos sinais não equí
vocos do homem) . Temos aí, portanto, um fenômeno verda
deiramente irreversível. Ao passo que o próprio homem reco
meça, os utensílios e as obras do homem permanecem. O uten
sílio deixa um vestígio que confere ao tempo humano - ao
tempo das artes - uma seriação contínua, o tempo das obras.
É na linha dêsse tempo das obras que pode haver progresso .
Mas, antes de examinar em que sentido compor!� o uten
sílio não sàmente um crescimento mas um progresso, e-nos ne
cessário tornar-nos conscientes de tôda a amplidão dessa noção
de utensílio.
O mundo técnico em sentido estrito, - isto é, os uten
sílios materiais prolongados pelas máquinas - não resume o
mundo instrumental do homem. Também o saber é à sua ma
neira utensílio, digamos, instrumento; tudo quanto o homem
aprendeu, tudo quanto êle sabe, - tudo aquilo que êle. sabe
pensar, dizer, sentir e fazer, - tudo isto é ':adquirido"; o saber
se estratifica, se sedimenta como os utensílios e as obras nas
cidas dos utensílios. Concretamente, é a escrita e de modo mais
decisivo a imprensa que permitiram ao conhecimento deixar ves
tígios e acumular-se. Lá está o saber, nos livros e nas biblio
. tecas, como coisa disponível, como parte do mundo instrumen
tal (aliás, as próprias máquinas se acham . no_ cruz.a��nto do
mundo dos utensílios com o mundo dos smrus solidificados) .
Graças a tal sedimentação a aventura do conhecimento é, como ' ' a aventura técnica irreversível; todo pensamento novo se serve
de maneira instru�ental dos pensam"entos antigos e trabalha na
ponta da história.
"Tôda a série dos homens, dizia Pascal no Fragment d'un
Traité du Vide tôda a série dos homens, no decorrer de tantos
séculos, deve s�r tida por um mesmo homem- que sempre sub
siste .. e que aprende de contínuo." A história da técnica e das
invenções constitui uma história única, uma história uo singular,
na qual colaboram os gênios diversos dos povos e dos indivíduos
que nela se vêm esquecer e confundir. Com efeito, a unicidade
dessa história aparece de modo tanto mais nítido quanto a per
: sonalidade do inventor se apaga atrás da invenção no momento
• em que ela cai na história comum; a própria história da des
coberta, o draiUa singular que cada qual tenha podido significar
83
J
para um homem mortal, são como postos entre parênteses para
que se constitua um curso anônimo do poder e do saber Im
manos; e mesmo se a história das técnicas, das ciências e em
geral do saber conserva a lembrança das crises dos métodos e
das soluções, não é para ilustrar a existência dos homens que
lutaram com os p�oblemas� essas cris�s só. se mantêm pelo seu
aspecto metod�logwo, e �ao pelo existencial, enquanto revisão
do saber ant�nor a partir de uma nova hipótese de conjunto
onde se v�m mtegrar o antcnormente adquirido. Não existe aqui
perda radical, trabalho em vão, e por conseguinte drama ver
dadeiro.
Podemos ir mesmo mais Iouge: existe não apenas uma aventur� do conhecimento, mas uma aventura de consciência
que se msere na vasta categoria do instrumento. A reflexão mo
ral, o conhecimento próprio, a compreensão da condição hu
man� acumulam-se de certo ponto de vista como instrumentos d� vtda. Existe uma "experiência" moral e espiritual da Huma
mdade que se capitaliza como um tesouro. As obras de arte
�s monume�tos, as liturgias, os livros de cultura, de espiritua�
!Idade, de ptedade formam um "mundo" inserido no mundo e
n,:ts dão pontos de apoio, como objetos, como coisas que nos
sao extenores. É por cert� necessário distinguir aqui, mais que
alhures, o plano das decisoes, dos acontecimentos, dos atos em
q�e o homem recomeça sempre a partir do zero, onde os indi
�Idu?s ao morrer se fecham em sua experiência, onde as civi
hzaçoes morrem de fome ao ladode seu alimento espiritual -
e o plano dos_ vestígios, das obras deixadas, da tradição: /, fa
zendo abstraçao das decisões, dos acontecimentos e dos atos
que . se !sola o, �ovimento da tradição, como uma espécie d�
mohvaç�o h1�tonca, que não cessa de aumentar, como fenômeno
cumulahvo; esse surto não se pode romper senão pelas grandes c�tástrofes cósmicas ou históricas - tremores de terra ou invasoes - que destróem a base material dessa experiência. Eis JU�ta�ente por que não podemos ��repetir" Sócrates, Descartes
Vmc1; �abemos mais coisas que êles; temos uma memória d� Hu�amdade mais rka que a dêles, isto é, ao mesmo tempo
ma.!S vasta e mms sul!! (O que fazemos disso, existencialmente, sena outra questão).
:B, p�is, � .J?reciso recomeçar por assumir uma visão assaz lar!i,a da histona como acumulação de vestígios, como sedimentaçao de obras humanas desvinculadas dos respectiv·os autores,
84
como capital disponível. Essa análise provisória reserva ao
progresso um espaço imenso, mostrando-lhe ao mesmo tempo
as limitações: espaço imenso, de vez que o mundo instrumental
é bem mais vasto do que aquilo que ordinàriamente chamamos
mundo técnico e compreende também nossos saberes e nossas
obras de cultura e de espiritua!idade; limite, uma vez que o
progresso não diz respeito senão a um espírito anônimo, abstrato
da vida humaua o dinamismo das obras do homem, arranca
das ao drama c�ncreto dos indivíduos que sofrem e desejam e
das civilizações que crescem e desaparecem.
Eis por que uão existe neste plano confrontação decisiva
entre o "sentido cristão da história" e êsse germinar anônimo:
o cristianismo irrompe no mundo helênico introduzindo um tem
po de eventos, de crises, de deci�ões. � Revelação c,�istã esca��
dalizou os gregos com a narrattva desses eventos sagrados .
criação, queda, alianças, explosões proféticas e, de modo, mais
radical eventos "cristãos" da encarnação, da cruz, do tumulo
vazio, 'o surgir da Igreja em Pentecostes . . . A luz dêsses even
tos excepcionais, atraía-se a atenção do hm';'em para aspectos
de sua experiência própria que êle não sabta ver: seu, tempo
propriamente humano, por sua vez, estruturava-s_e em tomo de
eventos e decisões e se balizava por grandes opçoes: revoltar-se
ou converter-se, perder a própria vida ou ganhá-la. .
É por isto que uma reflexão sôbre o pro�resso, devtdo a
seu caráter abstrato e anônimo, permanece atnda aquém do
plano onde ainda é possível um confronto com o "senti�� cr�s
tão da história" . Não quer isto dizer que nenhuma venftcaçao
não seja possível neste plano: pois omitimos precisamente um
episódio dessa história anônima, dessa época de obras do hom�m
sem o homem. :E:sse episódio é justamente aquêle que per�tte
chamá-Ia progresso, e não apenas evolução, mudança, ou amda
crescimento: afirmar que êsse crescimento de utensílios, de sa
ber e de consciência é um progresso, é dizer que êsse mais é
um melhor; é, pois, atribuir um valor a essa história, embora
anônima e sem face.
Que quer isto dizer? e qual é, sôbre essa afirmação, a inci
dência do "sentido cristão da história"?
Parece-me que o valor que se revela a partir dêsse nível
é a convicção de que o homem cumpre seu destino através dessa
85
aventura técnica, intelectual, cultural, espiritual, sim, que o ho
mem se acha em sua linha de criatura quando, rompendo com
a repetição da natureza, faz-se história, integra a própria na
tureza à sua história, perseguindo um largo empreendimento de
humanização da natureza. Não seria difícil mostrar com por
menores de que maneira o progresso técnico, no sentido mais
estreito e material, realiza êsse destino do homem: foi êle
que permitiu minorar o sofrimento dos trabalhadores, multi
plicou as relações entre os humanos e estabeleceu êsse reino do
homem sôbre tôda a criação. E isto está bem.
Que diz a isto o cristianismo? Ao contrário da sabedoria
grega, êle não condena Prometeu : a "falta de Prometeu" é
para os gregos ter roubado o fogo, o fogo das técnicas e das
artes, o fogo do conhecimento e da consciência; o "pecado de
Adão" não é o de Prometeu; sua desobediência não está em
fazer-se homem técnico e sábio, é ter rompido, em sua aventura
de homem, o vínculo vital com o divino : eis por que a primeira
expressão dêssc pecado é o crime de Caim, o pecado contra
o irmão e não o pecado contra a natureza, o pecado contra o
amor e não o pecado contra a existência animal c sem história.
Mas se o cristianismo não condena Prometeu, ao contrário
chega a reconhecer nêle a expressão de uma intenção criadora,
êle não se interessa fundamentalmente por êsse aspecto anônimo
e abstrato da história, das técnicas e das artes, do conhecimento
e da consciência. Interessa-se pelo uso que os homens con
cretos fazem de tudo isso, para sua perda ou sua salvação. No
fundo, o valor do progresso continua a ser um valor abstrato,
como o próprio progresso; dirige-se o cristianismo a todo ho
mem, a um comportamento complet-o, a uma existência total.
Eis por que as discussões sôbre o progresso são por fim assaz
estéreis; erra-se de um lado ao condenar a evolução, mas do
outro não se ganha muito ao fazer-lhe o elogio.
Na verdade, essa mesma epopéia coletiva que tem valor
positivo, considerando-se globalmente o destino dos homens, a
realização da espécie humana, torna-se muito mais ambígua
quando referida ao homem concreto. Em cada época, o que
sabemos e o que podemos é ao mesmo tempo fortuna e perigo; � n:esmo maquinismo que minora a pena dos homens, que mul
ttphca as relações entre os homens, que confirma -o reinado do homem sôbre as coisas, inaugura males novos: o trabalho parcelar, a escravidão dos usuários face aos bens da civilização, a
86
1
. . f a abstrata das grandes administrações, etc.
guerr
f
a to ta , . a '
,?d
l��t:�a ambigüidade vinculada àquilo que faz
Ven 1car-se-m h · t u da cons-. , progresso do con ec1men o o
pouco denommavamos
' A • \ c1encJa. . ambigüidade a passar de um nível a
Obriga�nos, pOIS, essa
so anônimo ao nível da aventura bis
outro, do mvel do progr
t
es
É nesse nível que o cristianismo está
tórica do homem correre o. . h' , .
realmente em confronto com nosso sentido da Jstona.
O PLANO DA AMBIGÜIDADE
S , s tentados a crer que ao deixar o nível do progresso
enamo . - h' t ' · e mercrulha-se
A • b d tôda cons1deraçao IS anca o
anonm�o �
a an ana-se
Em absoluto: existe precisamente uma
na �ohdao da pessoa.
é uma ficrura global, uma forma signifi
hlstona concreta, tsto ' ,.., 0 - dos homens uns sôbre os
cativa elaborada pelas açoes e reaçoes
outros. . rtas manifestacões dessa história concreta
Pesqmsaremos ce , d d · t . . t édio reconhecer as ver a eiras ca e-
a f�m �e, t-0{-r��u
( ;�t���o p�r categorias da história as noções
ganas a I
nu
s o
tem pensar histOricamente, como cnse, apogeu, de-
que nos pe,r ,
clínio, penodo, epoca, etc.).
. . . dício dessa nova dimensão histórica é o
Um pnme1ro m H' , · H mani
fato de existirem diversas civilizações. a uma umca � -
, 1 d rogresso· há humanidades, sob o angulo
dade sob o angu o 0 P ' 1 't d odo algum
da história das civilizações. Essas duas el ur�s â md I
se excluem, mas sobrepõem-se de certo mo o, an o ugar a
uma impressão redobrada. 1
O , cada uma dessas humanidades? Um comp exo
. , . ra, que �f. d ar próprio senão de contornos peculia-
lustonco-geogra 1co e ' ' · · f de
d 1 modo com seus centros vitais, seus ocos
res, e : qua quer
s de influência, etc. Uma certa unidade de
�:��arl�o� ��� ����a unidade de projeto congregam os home�s
d f. esmo passo 0 fato de pertencerem tms
no tempo e e mem ao m A . d·
h "espaço" de civilização. ssim o cerne "
omens ao mesmo . 1 b 1 um estilo de vida· e
uma civilização é um querer-viver g 0. a: l" B'
tal uerer-viver é animado por aprectaçoes, . por va .or:s. em
ente�dido, devemos abster-nos de reduzir tms aprwaçoes con-
87
eretas a uma tabela abstrata de valôres (como quando se diz
que o século XVIIIlegou-nos a idéia de tolerância, a idéia de
igualdade face à lei, etc.) ; trata-se de valôres vividos, atuados
que é preciso reassumir nas tarefas concretas, na maneira d�
habitar, de trabalhar, de possuir, de distribuir os bens, de abor
recer-se ou de se divertir (Exemplo notável dessa compreensão
histórica dá-nos Huizinga em Le Declin Moyen Âge ) .
A melhor prova de que não é suficiente conhecer 0 instrumental (mesmo em seu sentido mais amplo) de uma civilização para compreendê-la, é que a significação dêsse instrumental não se acha em si mesmo; depende das atitudes fundamentais tomadas pelos homens de uma dada civilização face às suas �rópria� �oss�bilidades técnicas; há povos aos quais repugna a mdustnahzaçao, classes como os camponeses, os artesãos a pequena burguesia que resistem à modernização; viram-se e�
1830�32 as rea��es antitecnicistas na classe obreira: (cf. a êsse resp_eito as po�woes de Schuhl em Philosophie et Machinisme) . As�m o �tensiiiO nem chega a ser útil, se não é objeto de valor�ça?; existe, pms, um plano mais profundo que a história das tecmcas, que não é senão uma história dos meios· a história concreta seria uma história dos fins e dos meios u'ma história da� intenções completas do homem; uma civilização é uma maneira temporal de projetar um estilo c-oncreto de existência de querer de homem. '
Ora, com êsse primeiro aspecto de história concreta - digal'?os: com. o� _estilos civilizadores - vemos aparecerem categanas da histona que o progresso dissimulava. Primeiro fato bruta:: as c_ivilizaç�es nascem e morrem. A Humanidade dura atraves de CIVilizaçoes que passam; é, pois, possível ter ao mesmo temeo uma concepção cíclica dos períodos históricos e uma concepça,o lmear do progresso; essas duas concepções se acham e.tp desm�el: uma se acha em nível mais "ético" a outra em mvel mats "técnico". Simultâneamente, ao passo' que 0 fenômeno d,o. pro�esso se achava vinculado ao fato da acumulação de ve�t�g_tos, _a "sedimentação" do adquirido, a vida e a morte d�s CIVilizaçoes estão ligadas à noção de "crise". f:sse ponto fm_ ac�ntuado com vigor por Toynbee em A Study of History (n�o � por acaso qu_e f-oi um historiador das civilizações que se mch?-ou. a reo;g�mzar nossa visão da história com base em cat�gonas med�;Iveis ao plano técnico e mais aparentadas com a VIda da consciencia e do querer) . Cada civilização lhe parece
88
caracterizada por situações que são para ela desafios (desafio
da inclemência do clima, da imensidão continental, do excesso
de população, da divisão religiosa, da divis,ão lingüística, da. lu�a
de classes, etc. ) ; cada desafio se assemelha a pergmüa da esfmg".
responde, senão te devoro; a civilização �
é o co�Junto �as }es
postas a tais desafios; enquanto houver nucleos cnadore.s a res
ponder", a civilização vive; 9-uando repe�e suas antigas ;es
postas e não inventa outros ajustamentos as �ovas perplexi��
des ei-la que morre. Por consegumte, o destmo de uma CIVl
Iiz;ção é sempre incerto; pode inventar . ou não respostas q':e
lhe permitirão sobreviver, estagnar, servir-se de valores decr�
pitos e entrar a decair. Há assim sonos e d ... esp_erta�es
, re�asct
mentos e decadências, restaurações e decadencms, mvençoes e
sobrevivências.
Não existe nenhum historiador que não empregue a maio
ria dessas expressões num ou noutro momento; o mais das vêz�s
não as critica; usa-as tão-sOmente; ora, logo que se lhes exph
cita o sentido, toma-se claro que elas, não pertencem ao mesn:o
ciclo das noções do progresso; aqui, a semelhança �a expressao
de Claudel, o pior é sempre possível e jamais garantido . .
Uma história compreendida dêsse modo acha-se smgular
mente mais perto daquela história que o cristianismo supõe, com
as suas decisões e suas crises.
Seria agora preciso corrigir essa visão ainda por demais
simplista : uma civilização não avança em bloco ne� . entra em
estagnação sob todos -os aspectos. Existem nela vanas lmhas
que podem ser acompanhadas de certo modo longitudin�lme.nte :
linha de equipamento industrial, linha de integração soem!, lmha
de autoridade e de poderio público, linha das ciências _e das
artes (de tais ciências e de tais artes) , etc. Surgem entao, �o
longo dessas linhas crises crescimentos, regressões, etc. que nao
coincidem obrigatô
,
riamente. A maré não se acha em ascensão
ao mesmo tempo em tôdas as praias da vida de um povo.
Mais ainda, seria preciso mostrar o que significam. c;i�e,
decadência, invenç�o para cada u�a dessas fibr�� �a ,}riston�;
fala-se de uma "cnse" das matemattcas, de uma cnse econo
mica, . . . de uma "crise" ministerial; essa palavra não tem
tôdas as vêzes o mesmo sentido; o que é digno de nota é .tere_:n
as "crises" de um compartimento social ou cul:u.ral moti�açao
e resolução próprias; assim, a crise das matemattc�s n_a epoca
pitagórica é amplamente autônoma em relação à históna geral;
89
é um desafio interno às matemáticas (a saber, a irracionalidade
da diagonal em relaçãD ao lado do quadrado) ; e essa crise en
co�trou uma s�ída em m�?id� pràpriame.nte matemática; a pos
tenor estagnaçao dessa ciencia, de Euclides aos algebristas da
Renascença, não tem relação decisiva com os demais desenvol
vimento� históricos. �:f? a me�� a forma, P?de a mesma época ser
progressista em matena pohtJca e regressiva em matéria de arte
c-omo a Revolução Francesa, ou progressista em matéria de art�
e estagnante em matéria política como o Segundo Império. Um
"gr�nde século", u�a grande é�oca, temo-los quando tudo vem
m�I.s ou meno .. s conJuntamente a maturação, como no século de
Pencles, no seculo XIII, no século XVII . . .
,A que tendem estas obse�vações? a mostrar qne a história,
que e una pelo progresso dos mstrumentos, tem muitas maneiras
de ser múltipla; divide-se não sàmente em civilizações e períodos
no espaço e no tempo, mas ainda em correntes que desenvolve� ca�a �ual seus próprios problemas, suas crises c suas invenções propnas.
A
.
resultante global, q�� s�ria a história "integral", escapa-no�, em .certos casos pnvilegrados surpreendemos causalidades na.o � mmto enredadas e o homem sistemático nos vem com s�as :1s?es a!a�ancadas da :'�ialética"_; mas as motivações Iongitudmats Y.ropnas a cada sene e as mterferências transversais de uma ,�e:Ie, � o��ra. for��m um tecido tão cerrado que superam . as, diale!Jcas s1mplonas nas quais as quereríamos enquadrar. , e .por ,�xemplo verdadeiro em certo sentido que 0 estado das .... tecfllcas oomanda" todo o processo social mas achando-se aq_u�le na depe.ndên�ia das ciências e em pa;ticul;r das matematic�s., as q_uats, e_sttveram .... h_istàricamente vinculadas às grandes meta�Isicas pl!agonca, plat?�Ica, neoplatônica (na Renascença) , e assim as diferentes histonas de tal maneira se implicam em todos os sen!Jdos que todos os sentidos interpretativos são ingênuos � pre�aturos. A consciência de época é a síntese confusa e maciça� desse enredamento; é sensível à existência de zonas de estag�aça? e wnas de vitalidade, de "desafios" discontínuos que
��a n�o VI�e �o�o um sistema teórico de problemas, mas como �qme!açoes disparatadas (no sentido em que se fala da inq�;etaçao escolar, da inquietação colonial ) ; ressente-se dos imp sos que se localizam em certos setores da vida coletiva O comportamento global acha-se então mais próximo do s�ntimento vago do que da consciência clara; é por isto que se torna
90
muito difícil, o mais das vêzes, dizer "aonde" vai uma civi-
lização. . . , . , ,
Um nôvo índice dessa v1da concreta na h1stona e o carater
irredutível dos eventos e das personalidades históricas significa-
tivas.
Sabe-se que o método histórico antigo acentuava de modo
excessivo a história das batalhas, das dinastias, dos casamentos,
das sucessões e partilhas; a história se perdia no arbitrário, , �o
fortuito no irracional. É conveniente que se assuma a h1stona
de mai� alto, pelos grandes conjuntos, enraizados na geografia
( 0 livro recente de Braudel sôbre La Méditerranéeau temps de
Philippe li marca o triunfo dês se método de compreensão) , nas
técnicas, nas fôrças sociais, nos movimentos de grande amplt
dão. Mas, em troca, não se pode ir até o extremo dessa ten
dência, que de resto só permite explicar pelas causas e �om
preender pelas intenções; pois, no �as? limite, ao �ornar�se. mte
ligível, a história cessaria de ser lust?n;a, ter-se-Jam ehmmado
aquêles que a fazem; ter-se-ia uma lustona na qual nada acon
tece, uma história sem eventos.
A história é histórica, porque existem ações singulares
significativas, e outras que não têm importância; homens que
pesam na balança, e outros que não pesam; uma batalha per
dida, um chefe que morre muito môço - ou ��ito velho! -
e eis um destino que se transforma. Sem duvida o facismo
abusou dessa visão "dramática" da história, na linha de seu
nietzscheísmo popular e de seu i;racion�lismo funda�ental; mas
êsse abuso não deve mascarar a ImportancJa da histona baseada
em eventos, que é afinal a história dos próprios homens; é por
ela que o homem se, acha "em p:oc�sso" :
,
Da �esm� f?r�,a ex
pressões como "a patria em pengo , a salvaçao publica , en
cravadas no cerne de nossa história jacobina, hem atestam êsse
caráter de certo modo existencial de destino, ou, melhor, de
destinação, que se vincula à história concreta dos homens.
Uma nova característica dessa história concreta é o lugar
eminente do "político" na história. As observações precedentes
sôbre a função dos eventos e dos homens ditos históricos condu
zem naturalmente a êsse nôvo ponto de vista, pois existe um
liame estreito entre o aspecto relativo aos eventos e D aspecto
político da história.
91
É todavia necessano entender de maneira conveniente a palavra politico; designa o conjunto das relações dos homens em face do poder: conquista do poder, exercício do poder, conservação do poder, etc. O poder é a questão central da política: quem manda? a quem? dentro de que limites? debaixo de quais contrôles? É nas atividades que dizem respeito ao poder, seja do lado daqueles que o detêm, seja do lado dos que lhe estão submissos, ou o contestam, ou o combatem, é em tôdas essas atividades que se ata e se desata o destino de um povo. É através do poder, direta ou indiretamente, que se exerce de modo principal a ação dos "grandes homens" sôbre o curso dos acontecimentos; e os próprios acontecimentos são em grande parte acidentes de poder, como revoluções e derrotas (viu-se em 1944-5 que o gênero nazista de existência, globalmente considerado, só foi pôsto em cheque pela derrota do Estado em que se concentrava a vontade dês se regime) . Por fim, se vinculamos estas observações à nossa primeira análise do movimento das civilizações que nascem e morrem, é ainda na camada política �:!s���á���zações que se refletem os desafios, as crises, as gran-
Não se deve, bem entendido, levar longe demais essa identificação do aspecto relativo ao acontecimento, do aspecto "dramático" da história, com seu aspecto político; temos um limite a tal pretensão na análise que acima se fêz dos múltiplos ritmos que interferem, sem que coincidam os respectivos períodos crítioos ou criadores; têm as artes e as ciências um destino que nem sempre coincide com os grandes acontecimentos históricos surgidos do domínio político : a história é sempre mais rica do que nos seria dado patentear em nossas filosofias da história. Mas é duplo privilégio das "crises" que poderíamos chamar políticas, em sentido amplo: de início dizem respeito ao destino físico das civilizações, ao mesmo tempo que sua vontade:. sã� elas da ordem da vida e da morte, como as doenças dos mdlV!duos em relação à sua evolução intelectual ou suas convicções religiosas; essas crises têm aí um caráter senão total a.? _menos radical. Além disso, fazem surgir, no cerne da bis� tona,, um aspecto fundamental do homem: a culpabilidade. É em torno_ �o poder que proliferam as paixões mais temíveis: orgulho, odw, temor. Atesta essa trilogia sinistra que onde está a grandeza do homem, justamente ali se acha seu pecado. A
92
. \1
grandeza dos impérios é também o pecado dêles; .eis por que
sua queda pode sempre interpretar-se como um casugo.
É aqui que essa análise da história como evento, como de
cisão, como . drama, em suma como �'crise", emerge ao .nível de
uma teologia da história. Emerge não de modo exclus!VO, mas
principalmente, pela culpabilidade. Releiam-se os Profetas de
Israel e os Salmos: nêles iremos encontrar o tema do orgu�ho
das nações, do ódio dos maus, do temor dos pequenos: o Eglto,
a Assíria as grandes potências vizinhas, eram para Israel as
testemunhas do pecado histórico: e Israel era culpado na me
dida em que pretendiam imitar seus sonhos de grandeza. !'
Maria canta no Magnificat: "Dispersou os homens de coraçao
soberbo. Derrubou de seu trono os potentados e elevou os
humildes." . Penso que uma das tarefas da teologia da história sena
retomar, à luz de nossa moderna experiência do Estad? e �o
mundo concentracionário, e com os recursos de uma ps1cologJa
e uma psicanálise das p�ixões, _ essa . crítica bíblica, dos poten
tados. Mas 0 maior pengo sena deiXar fug1r o v1.n?.ulo entre
grandeza e culpabilidade, que é como . que a a�b1gmdade a? quadrado da história. É preciso saber d1zer lambem: onde esta
a culpabilidade, também se acha a grandeza. _ . Vê-se quão essencial é, para a es:ruturaç�o _d�ssa teologm,
recolocar no devido lugar essa d1mensao da h1stona com?. pro
jeto dos homens, como decisão e, como cri�e; A culpab1h?ade
não surge senão onde a história e a poss1b1hdade dos proJetos
de grandeza. O plano do progresso perm�nece o do instrumento;
0 instrumento não é passível de culpa; e mesmo bo�, .'_la me
dida em que se exprime o destino do homem na cnaçao; por
êsse motivo, a reflexão sôbre o progresso se acompanha de um
legítimo otimismo. . , . . Mas se é preciso ter reencontrado a �1ston� como cnse
para dar ao pecado um senti?o qualquer: . e prec1so d1zer em
sentido inverso que uma teologm da culpab1hdad� ?os pode a:e�
tar, sensibilizar-nos quanto a êsse aspecto �rama�co da h1stor;a
que exige uma meditação sôbre o pecado; este nao surge senao
no universo do acontecimento; só é suscetível de culpa uma
história ambígua, uma história que sempre se pode perder ou
ganhar, uma história aberta, incerta, na qual as ... op�rtumda?es
e os perigos se entrelaçam. Um ente natural nao. e _ s�scetlvel
de culpa, coisa que só pode acontecer a um ente h1stonco.
93
'> Aqui chegamos a um dêsses pontos em que o aspecto exis.teftcial das coisas e seu aspecto teológico se fundem. Uma visão
. . ·, dr�mática da história tem maiores afinidades com a teologia . cristã do que o racionalismo da "Luzes", que suprimia o próprio . solo no qual se poderia semear uma teologia - o solo da am-bigüidade. .
O PLANO DA ESPERANÇA
Mas o sentido cristão da história não se esgota com êsse sentido da decisão. e �as crises, da grandeza e da culpabilidade mesclaàas. Em pnmeiro lugar, porque o pecado não é o centro do Credo cristão : não é nem mesmo um artigo do Credo cristão; não se crê no pecado, e sim na salvação. De que modo a esperança da salvação encontra nosso sentido da história, nossa maneira tôda humana de viver a história? Que visão nova acrescenta ela. à nossa visão da história? As breves reflexões que podemos fazer neste último nível de �eflexão �ão, �e reagrupar-se em tôrno de duas palavras: sentido - misteno; duas palavras que de certo modo se anulam,, mas qu.e são todavia a linguagem contrastada da esperança. Sentido: existe uma unidade de sentido; é o princípio da corag�� de. viv':r na história. Mistério: mas êsse sentido está escondido; mnguem o pode declarar, firmar-se nêle, confiar nêle contra· os perig?s ?a história; � preciso que nos arrisquemos, baseados em sinais. E acaso esse sentido misterioso não anula a ambigüidade que havíamos descoberto no segundo nível da mesma forma como não se confunde com o sentido raclonal que reconhecemos no primeironível. Q?e é. que autoriza o cristão a falar de um sentido embora se .entncheiraud� �? mistério? Que é que o autoriza ; superar o plano da ambigwdade em que a história se pode realizar de maneira feliz .oi!. inf�liz, onde na trama do progresso podem · estr�:�turar-se cJVJhzaçoes que nascem ou morrem? Tem isso um sentido total?
:É a f� _no Sen�o�i� de Deus que, para o cristão, domina sua VIsao da histona; se Deus é o Senhor das vidas indiviclmtk é também o da história: essa história incerta, grane culposa, _Deus a .volta para Si. Mais precisamente, creio .,u•• •·••• �enhono constitui um "sentido" e não uma farsa su-
preina, uma monstruosa fantasia, um derradeiro "absurdo", por
que os grandes acontecimentos que creio constituírem a Reve,
!ação, têm uÍna trama, formam uma figura global; não se. apre
sentam como um discontinuo puro; existe uma manezra da
Revelação· uma maneira que para nós não é absurda, de vez
que nela pode�os por exemplo . discernir. certo desígnio peda
gógico da Antiga e 'da Nova Aliança, pOis os grandes eventos
cristãos - morte e ressurreição - formam um ritmo acessível
àquilo que São Paulo denomina "a inteligência da fé".
O que portanto permite ao cristão superar o d�scos!do da
história vivida, superar o absurdo aparente dessa htstóna que
com freqüência se assemelha a :'u;n� história de doido_ contada
por um idiota",. é que essa htstona tem a atravessa-la uma·
outra história cujo sentido não lhe é inacessível, que pode ser
compreendida.
Assim o cristão é o homem que vive na ambigüidade da
história pr·�fana, mas com o tesouro �recioso de uma h!stória
santa, cujo "sentido" percebe, � lambem com as sugestoes de
uma história pessoal na qual discerne o : vinculo entre a culpa-
bilidade e a redenção. )
O sentido cristão da história é então essa esperança de que
a história profana também faça parte dêsse sentido que a his
tória sagrada desenvolve, que não existe finahnente senão uma
história, que por fim tôda história é sagrada.
Mas êsse sentido da história é objeto de fé; enquanto que
o progresso é o que há de racion�l na his.tóri� e que a all';bi
güidade representa o que nela eXIste de macJOnal, o sentido
da história para a esperança é um sentido supra-racional - da
maneira como se diz surrealista. Diz o cristão que êsse sentido
é escatológico, querendo com isso significar que a vida se desen
rola nesse tempo de progresso e de ambigüidade, sem ver êsse
sentido superior, sem que possa discernir a relação entre as
duas histórias, a profana e a sagrada, .ou, para falar c?mo Santo
Agostinho, a relação entre. as Duas C!d.ades. Esrera eld;
sua arte que de "servir à sociedade"; êle a servirá sem o saber
se fôr, por sua vez, fiel à sua linha; pois o sentido global de
nma época acha-se mais profundamente entretecido que haveria
de supor jamais o utilitarismo social e político; é talvez a lite
ratura que se diz "sem compromissos, que terá dito da melhor
forma, porque mais secretamente, e de modo mais radical as
�ecessidades dos homens numa época determinada, do que c�rta
literatura preocupada em apresentar uma "mensagem" imedia
tame�te c?mpre.ensí�el, preocupada em exercer sôbre seu tempo
uma mfluencm Imediata; talvez não tenha ela manifestado senão
o aspecto mais superficial, mais vulgar e mais desgastado da
consciência de época.
A fé em um sentido, mas um sentido escondido da história é _pois ao mesmo tempo a coragem de acreditar numa significa� çao profunda da mais trágica das histórias e, portanto, um humor de confiança e de abandono no próprio cerne da luta - e uma certa denegação do sistema e do fanatismo, no sentid� do aberto.
Mas� em tr�ca, é essencial que a esperança permaneça semP!� em vmcu.laçao com o aspecto dramático inquietante da histona. É precisamente quando a esperança não é mais 0 sentido oculto de um contra-senso aparente, quando ela se libertou d� .t?da ambigüidade, que ela recai no progresso racional e tranq�n.hzador, que ela visa à abstração morta; eis por que é necess�.�IO per�a?�cer-se atento a êsse plano existencial da ambiguidade histonca, entre o plano racional do progresso e o plano supra-raciOnal da esperança.
98
O SOCIUS E O PRóXIMO
Se denominamos sociologia a ciência das relações humanas
em grupos organizados, não existe sociologia do próximo. É da
surprêsa diante dessa proposição inicial que nasceu êste estudo.
É de importância que a reflexão se aposse dessa surprêsa e a
aprofunde em uma meditação positiva até a fronteira de uma
sociologia das relações humanas e de uma teologia da caridade.
Se não existe sociologia do próximo, talvez uma sociologia que
tenha reconhecido suas fronteiras do lado de uma teologia da
caridade se veja mudada com relaçã-o ao seu projeto, isto é,
em sua intenção e sua pretensão. Se não existe sociologia do
próximo, talvez exista uma sociologia a partir da fronteira do
próximo.
NÍVEL DA SURPRtSA
Procuremos antes de mais nada renovar nossa surprêsa,
mergulhando nossa reflexão na juventude da parábola e da
profecia :
"Um homem descia de Jerusalém a Jericó e caiu em meio
a salteadores que, depois de o terem despojado e moído de pan
cadas, lá se foram, deixando-o semimorto. Por acaso um sa
cerdote descia pelo mesmo caminho. . . Do mesmo modo um
levita, passou pelo lugar . . . Mas um samaritano, que ia de
viagem, chegou perto dêle, viu-o, e foi tomado de compaixão
por êle. . . Qual dos três te parece haver sido o próximo da
quele que caiu nas mãos dos salteadores?"
Uma narrativa singular é uma questão ao rés da narrativa;
tal é o alimento bíblico da reflexão e da meditação.
Aquilo que, de início, surpreende, é que Jesus responde a
uma pergunta com outra pergunta, mas com uma pergunta que
99
se inverteu pela fôrça corretiva da narração. Perguntava o visi
tante: Quem é meu próximo, que espécie de companheiro é meu
próximo? Jesus transforma a questão no� .têrmos seguintes :
Qual dêstes homens comportou-se como proximo?
Fazia o visitante um inquérito sociológico sôbre determi
nado objeto social, sôbre uma eventual categoria sociológica,
suscetível de definição, observação e explicação. O que se lhe
responde é que o próximo não é um objeto social - ainda
que nascido da segunda pessoa, - mas um comportamento em primeira pessoa. O próximo é a própria conduta de se tornar presente. Eis por que o próximo é da ordem da narrativa: era uma vez um homem que se tornou o próximo de um desconhecido que fôra vítima de salteadores. Conta a narrativa uma série de eventos: uma série de encontros que falharam e um encontro que teve bom êxito; e a narrativa do encontro bem sucedido consolida-se numa ordem: "Vai e faze o mesmo." A parábola converteu a história narrada em paradigma de ação. Nã-o há, pois, sociologia do próximo; a ciência do prÓximo é imediatamente interceptada por uma praxis do próximo; não se tem um próximo; faço-me o próximo de qualquer um.
A surprêsa tem ainda outra fonte : o cimo da parábola é que o acontecimento do encontro torna presente uma pessoa a uma pessoa. Ê de impressionar que os dois homens que passam sem se deter sejam definidos pela respectiva categoria social : o sacerdote e o levita. De resto, ambos são uma parábola viva: a parábola do homem em função social, do homem absorvido por seu ofício, e que a função social a tal ponto ocupa que êle se acha indisponível para a surprêsa de um encontro; nêles a instituição - e precisamente a instituição eclesiástica - veda a possibilidade do acontecimento. O samaritano é também uma categoria, se se quiser; mas é aqui uma categoria para os outros; é, para o judeu pio, a categoria do estrangeiro; não faz parte do grupo; é o homem sem passado nem tradição autênticos; impuro de raça e de piedade; menos que um gentio; um �!ajlro.".J;i da categoria da não categoria. Não está ocupado; jnão está preocupado por causa de suas ocupações : está em / viagem, não se acha debaixo do pêso de seu encargo social, p:onto, a mudar de caminho e inventar uma conduta imprevista; ?Ispomvel para o encontro e a presença. E a conduta que êle mventa é a relação direta "de homem a homem". Essa mesma conduta é da ordem do evento, pois se faz sem mediação de
100
uma instituição; assim como o samaritano ,� uma .P�s�?a .. pela
sua capacidade de encontro, tôda a sua compa�xao. e um
gesto para além do ofício, do personagem, da funçao; maugura
uma mutualidade hiper-sociológica da pessoa e daquele com quem
ela se defronta.
A surprêsa nasce da parábola e renasce da _r.rofecia :
"Quando 0 Filho do homem vier n� su� glona . . . E col_?
car as ovelhas à sua direita e os cabrüos a .esquerda. Entao
0 rei dirá aos que estiverem à sua dirella: Vmde, ben�Itos de
meu Pai. . . Pois eu tive fome, e me destes de
_
comer; tlve sede,
e me destes de beber . . . Então lhe responderao os JUStos: Se�
nhor quando foi que te vimos com fome, e te demos de �om;r,
com
'
sede, e te demos de beber . . . E o rei lhes respo�dera: m
verdade vos digo: 0 que fizestes a um dos menores desse� meus
irmãos, a mim 0 fizestes. Em seguida dirá aos que estiVerem
à sua esquerda . . . "
Narrava a parábola um encontro no �r�sente, narra a pro
fecia um acontecimento no têrmo da h1stona que d_es�o)Jre re
trospectivamente o sentido de todos os enc:ontros da hlstona. POis
ainda são encontros aquilo que a profecia revela, enc�ntros se·
melhantes ao do samaritano e do desconhecido qu� fora assal
tado: dar de comer e de beber, acolher o estrangei�O, �esl!r os
nus cuidar dos doentes, visitar os encarcerados, e1s a1 outros
tantos gestos simples, primitivos, fracament� elabo:ados_ pela
instituição social; 0 homem mostra-�e n�les pr:sa de �ttuaçoes�lt
mite, socialmente desarmado, reduzido a afltç�o .da sir_nples con
dição humana. O parceiro dessa conduta pnmii!Va � �hamado
"um menor" . é 0 homem que não desempenha na hts�ona fun
ção conduto;a; é apenas 0 figurante que fornece a :açao de so
frimento necessário à grandiosidade dos verdadeiros eventos
"históricos"· é 0 anônimo que conduz a caravana, e sem o qual
ao grande �lpinista faltaria a glória; é o soldado de_ segunda
categoria sem 0 qual os grandes capitães não apenas n�o sena,;n
capazes de suas grandes manobras de gêni?, como amda nao
0 seriam de seus erros trágicos; é o operáno �o trab�ho par
celar e monótono sem 0 qual as grandes potencias nao reah�
zariam seu equipamento industrial mo�erno; é a "pessoa des�
locada" pura vítima dos grandes conflitos e das grandes ;evo-,
· h' · · enos tal como o decifram luções. O sentido da Istona, ao m
101
h
os própr!os autores, passa pelos eventos de importânc. I
omens illlportante�. Os"menores" são todos a uêle
Ia, pe �s
se r�cuperam por esse sentido da história. Exis( p
s , que nao
sentido que reagrupa todos os minúscul
e orem. outro
d;> _lado pela história dos grandes; é ou�:a
e�����f�s de!xad.os
tona dos atos, dos acontecimentos da . . r_ '
uma bis
tecidas na história das estruturas d
' s compmxoes pessoais,
M "
. , os eventos das inst't · -
as esse sentido e essa história estão o l . ' . � 1 mç?es.
da profecia: os "menores'' eram
f cu tos, aqm esta o cimo
justos nem os injustos o sabiam·
� :1\�i� d�· Cristo, e nem os
Senhor, quando foi que te vimo; c f
o la os surpreende:
A . om orne . . . com sede?
ssim, a compaixão do sarnarit n t
.
de sentido que ela própria super . a o
t
en: uma, profundidade
bola - "Vai e faze o mesm "
a, a ... m enç�o .pratica da pará
intenção teológica ou antes crfstoZ: . e dJ sublto .aclarada pela
da compaixão no presente é h b
'�g�ca a profec!a. O sentido
lógico que o supera.
a ' a o por um sentido escalo-
Vê-se em que sentido em qu d 1 .
sociologia do próximo· adtes d
e .up o sentldo, se exclui uma
o próximo é a maneir� essoa
e mms nada no sentido de que
para além de tôda medk - I pela. qual eu en.contro o outro,
� significação dêsse encon��� ��claJ nes�e sent!do, enfim,, que
lmanente à história não o
o ep�n. � de nenhum cntério
pelos próprios atos 'exterio�es
de ser de�m!l!Vamente reconhecida
como a maneira pela qual t
' .mas sera revelada no último dia,
eret, sem o saber, encontrado Cristo.
NÍVEL DA REFLEXÃO
Tendo chegado a êste o
ter-nos conduzido a veracida� n�o onde, ao que parece, deve
�o-nos para nós mesmos e �o
e uma teologia bíblica, volta- ; :
dzzer para nós aqu. s perguntamos que quer isto !
• -
' 1 e agora em um m d
c�açao e a organização dos ;u . . un -o em que a diferen-
�emos a tentação de dizer
g po� soclalS nao cessam de crescer.
Xtmo" mas no do so . O
que �ao VIVemos no mundo do "pró-
, d
ClUS. SOClUS é q 'J v�s e sua função social· a rei - a ue e a, quem chego atra-
dtata; atinge o ho
' aç�o ao soczus e uma relação me·
direito romano a
mem
l
�a quahdade disto ou daquilo O
' evo uçao da · · · - · · ·
a experiência administra!' d
s msl!tmçoes políticas modernas
ção social do trabalho, s
';� f
os grandes, Estados e a organiza:
102
alar na pratlca de diversas guer- I '
ras mundiais, forjaram pouco a pouco um tipo de relações hu
manas cada vez mais dilatadas, sempre mais complexas, sempre
mais abstratas. É natural que seja assim; pois é próprio da
natureza do homem romper com a natureza e ingressar no es
tado "civil", como se dizia no século XVIII. Nada de nôvo
existe nisso, nada de inesperadamente maléfico; ·O impulso ini
cial do homem é ao mesmo tempo o impulso inicial da lingua
gem, do instrumental e da instituição: a partir daí só existem
problemas de gradação, mas não de diferença de natureza entre
uma existência social que se crê natural e uma existência social
artificial. Apenas tornamo-nos mais sensíveis a êsse progresso
das "mediações" sociais, porque êle se acelerou e a súbita en·
trada das massas na história provocou uma procura de bens,
de bem-estar, de segurança, de cultura que, na fase atual, exige
planificações rígidas e um tecnicismo social que, com freqüência,
faz lembrar a organização anônima e inumana de um exército
em campanha.
E nós também perguntamos: quem é nosso próximo? Tal-
vez tenhamos de evoluir da surprêsa à dúvida crítica e concluir
que o encontro imediato de um homem, encontro que me torna
ria o próximo dêsse homem concreto, é um mito em relação à
vida em sociedade, o sonho de um modo de relação humana
diferente do modo real.
É êsse mito social que anima as duas atitudes contrárias
que agora vamos examinar e que seria conveniente abandonar
ao mesmo tempo.
De um lado pode o tema do próximo alimentar uma ati-
tude radicalmente antimoderna: o Evangelho anunciaria a con
denação global do mundo moderno; e denunciaria como o mun
do sem o próximo o mundo desumanizado das relações abstra
tas, anônimas, longínquas. O mundo do socius não é mais,
para certo escatologismo cristão, senão a monstruosa conjunção
da usina, da caserna, da prisão e do campo de concentração. O
sonho do próximo é, por conseguinte, levado a buscar sinais à
margem da História, refugiar-se nas pequenas comunidades não
técnicas e "proféticas", à espera de que êsse mundo se destrua
a si mesmo, e realize, pelo seu próprio suicídio, a cólera de Deus.
Entre o próximo e o socius, temos de escolher. Ésse ve
redito é também, embora em sentido inverso, o dos homens que
optaram pelo socius e não mais reconhecem, na parábola do
samaritano e na profecia do juízo final, senão fenômenos de
103
sobrevivência de mentalidade A categor1·a d 6 ·
·
t · . · o pr XImo sena
uma �a egona prescnta. O pequeno drama da parábol
trá-lo-Ia de modo suficiente: tem por ponto de partid� mos
d:sordem da sociedade, a pilhagem; o rabi que conta esta f�a
nao se alça a uma análise econômico-social das causas de � �
desodem; permanece no particular e no for! ·1 . · a
ti f
UI o, o pitoresco da
n�rra . ':'a az com que sua reflexão permaneça num estági •
-científico: a tal ponto que a lição que êl t . d . 0 pre
do 1· t
' e ex rat esvm a ação
s us os para uma compaixão em ordem dispersa que et .
a exploraçao humana. Essa eternidade dos pobres - e;m�a
mente o efeit 1 . nao e so-
• . o, mas ta vez a suposição primeira da m I
gehca da compaixão individual. Pois se não ho
ora eva�
�obres, que seria da caridade? Mas ' nós outros
u�esse mais
epoca moderna, marchamos para um tem ' omens da
nid�d�, saindo de sua pré-história, ignoraf� :�
o
��e a �ma
cativerro e quem sabe? talvez mesmo a d ' a se e, o
;o����t��!e��r��o;:l � a p�ofeci� terão
0����i�o
a
t�d���������
em � .
ra nao mms compreenderão as imagens
que se apO!am a parábola e a profecia.
Ambas as leituras têm um t .
cius é o homem da Históri
P?n. o comum essencml : o so-
do sonho, do mito.
a, o proximo, o homem do remorso,
NÍVEL DA MEDITAÇÃO
Vinculava-se a surprêsa . . .
contra, o evento do encontro
� um� �IgmfiCação isolada: o en
xão dessa significação isolad
o proximo; apossando-se a refle
/ógico no qual o Event
at começou nela um trabalho ideo
encontro, um cavalo de
o
b
s�al�rnou �ma te�ri� .do evento e o
E como a análise do socius f
� c�n ra o histonco e o social.
mático, chegou-se à falsa alt
OI ��Ita
d
no me.smo espírito siste
:É de importância u . er�a Iva o soclus e do próximo.
todo o jôgo das o
q e. a_ meditaçao, ao retomar em profundidade
preender globalme�tosiçoes � das conexões, se esforce por com-
- e o soclus e o próximo d .
soes da mesma história d f
' como uas dirnen-
mesmo movimento ue ' uas aces .da mesma caridade. É num
delinqüente; 0 prim�iro
�:�
r
rn_e�s filhos e I_Ue. ocupo da infância
o segundo é abstrato • e I�tlmo, subjetivo, mas exclusivo·
quite em relação à idffu��:m ro
l
m
f
s vas
d
to. Não me posso senti;
pe 0 ato e amar meus filhos· não
104
'
estou quite em relação aos outros, porque não os amo como
os meus, de modo tão individual, mas sempre de certa maneira
coletiva e estatística.
O objetivo de uma "teologia do próximo", que é a meta
longínqua dêste estudo sôbre o socius e o próximo, é tentar
assumir, desde o princípio, tôda a sua envergadura. Por êsse
problema da envergadura ou da amplitude, entendo a preocupa
ção de tornar a encontrar, ou pelo menos de buscar sempre a
unidade de intenção que subentende a diversidade de minhas
relações com outrem. :É a própria caridade que dá sentido à ins
tituição social e ao acontecimento do encontro. A oposição
brutal entre comunidade e sociedade, entre relação pessoal e
relação administrativa e institucional, não pode ser senão um
momento da reflexão. Será preciso dizer dentro em breve, por
que é necessário êsse momento, por que indispensável, sem ja
mais serabolido em nossa história de homens. Mas é preciso
dizer, em primeiro lugar, como é enganador êste momento, desde
que seja não somente privilegiado, mas isolado da dialética total
do Reino de Deus.
Desde que deduzo a teologia do próximo a uma teologia
do encontro, perco a significação fundamen)al do Senhorio de
Deus na História. :É o tema teológico que assegura ao tema
da caridade tôda a extensão, tôda a amplitude de que é capaz.
Veremos dentro em pouco que, em compensação, o tema da
caridade assegura ao do Senhorio sôbre a História sua inten
sidade e por fim sua intenção. Mas, por ora, temos de recon
quistar essa extensão que é destruída por uma reflexão fasci
nada por oposições, dilemas, situações sem saída.
O Evangelho nos prepara de diversas maneiras para essa
retomada de envergadura do tema da caridade, servindo-se do
intérprete representado por uma meditação sôbre a História:
além da figura da Pessoa, encarnada no bom samaritano, tam
bém nos apresenta êle a figura das "Nações", a do "magistrado",
a de "César", isto é, o Estado. O episódio da moeda com a
efígie de César: "Dai a César o que é de César, e a Deus o
que é de Deus", o episódio de Jesus diante de Pilatos: "Tu
não terias nenhum poder sôbre mim, se êle não te tivesse sido
dado do alto", deixam perceber êste outro caminhamento do
amor de Deus na instituição, e por êsse prestígio especial da
instituição, a saber a "autoridade"; pois a autoridade, mesmo
vinda de baixo, mesmo surgida do povo por eleição ou doutra
105
maneira, é ainda, em outro sentido, movida pela caridade sob
a figura da justiça: "Porque o príncipe é ministro de Deus para
teu bem" . . . para exercer justiça quando desempenha fielmente
sua função (Rom., 1 3 ) . Não prega êsse texto o espírito de
subordinação, mas antes de tudo o reconhecimento de que a
relação da "autoridade, ao "temor" é uma das dimensões da
caridade, aquela dimensão denominada por São Paulo justiça.
A justiça é o dinamismo da ordem, e a ordem, a forma da
justiça; essa dialética da justiça e da ordem insere-se, por sua
vez, na grande dialética da História movida pela caridade de
Deus.
Mas é da natureza dessa grande dialética aparecer-nos como
quebrada: a figura do próximo enquanto pessoa e a figura do
próximo enquanto magistrado (pois também César é meu pró
ximo), eis duas figuras incompletas e eivadas de parcialidade
do govêrno da História pela caridade.
Eis por que o crescimento do Reino de Deus se faz na dor
das contradições: o debate, em nossa vida individual e em nossa
vida dos grupos, entre as relações "curtas", de pessoa a pessoa,
e as relações "longas" através das instituições, aí temos um
aspecto dêsse sofrimento histórico.
'É o que não compreende a interpretação "reacionária" das
relações entre o socius e o próximo; de vez que o tema do pró
ximo é desligado do contexto social onde encontraria seu im
pacto histórico, êle se torna remorso estéril e se torna prêsa de
qualquer gôsto terrível da catástrofe vingadora. É de funda
mental importância permanecer atento à envergadura histórica
da caridade e discernir tôda a riqueza da dialética do socius e
do próximo. Ora a relação pessoal ao próximo passa pela rela
ção ao socius, ora é elaborada à margem; ora se ergue con
tra a relação ao socius.
.. Fre9üentemente, com efeito, a via "longa" da instituição e o cammhamento normal da amizade; a letra, a máquina de transporte, e tôdas as técnicas das relações humanas aproximam os homens; de modo mais amplo, a justiça distributiva, com tod�s os seus órgãos jurisdicionais, todos os seus aparelhos administrativos, é a via privilegiada da caridade: o evento do encontro é frágil e fugidio; desde que se consolida em uma relação durável e consistente, já é uma instituição; existem muito poucos acontecimentos puros e êles não podem ser conservados, nem
106
mesmo previstos e organizados sem um _mínimo in�titucion�l.
E, mesmo necessário ir mais longe =. ? objeto da candade nao
surge muitas vêzes senã-o quando atinJo, no outro homem, �ma
condição comum que toma. a fo�ma. de ui:' a des�raça c_:>letJva:
salariado, exploração colo mal, d1scnmmaçao. racml; entao. meu
próximo é concreto no plural e abstrato no smgular: a candade
não atinge seu alvo senão abraçando-o como �m certo corpo
que sofre. B coisa que os Padres gregos tantas vezes perceberam
muito bem· São Gregório, particularmente, pensa nos homens
como um ,:nós" e a Humanidade como um "pléroma". Não nos
devemos, pois, enclausu;ar na letra da parábola do bom sama
ritano nem constrmr sobre ela um anarqmsmo personallsta; a
paráb�la não me liberta da responsabilidade de responder à
questão: Que é a idéia de . "�r�ximo" _na situa�ão . P�e:ente?
Pode ser: justificar uma institmçao, corng1r uma msl!tmçao ou
criticar nma instituição.
B verdade que, de outras vêzes, a relação ao próximo ela
bora-se à margem ou, se se pode dizer, nos interstícios das rela
ções ao socius: é em grande parte o sentido do "privado" en
quanto oposto a "público" ou social. É também o sentido do
"lazer" enquanto se opõe a "trabalho". Também é verdade que,
em um mundo em que o trabalho se acha cada vez mais divi"
dido e, nesse sentido, cada vez abstrato, procuramos mais e mais
fora do trabalho e da obrigação social o calor e a intimidade
dos verdadeiros intercâmbios pessoais, dos verdadeiros encon
tros, transferindo assim para o privado as esperanças que o
social desiludiu. Isto é verdade. Mas a conexão do privado
e do público não faz senão melbor acentuar a articulação do
próximo e do socius; não existe com efeito vida privada senão
sob a proteção de uma ordem pública; o lar não usufrui intimi
dade senão ao abrigo de uma legalidade, de um estado de tran
qüilidade fundado sôbre a lei e sôbre a fôrça e com a condição
de que a divisão do trabalho, o intercâmbio comercial, a justiça
social e a cidadania política assegurem um bem-estar mínimo.
É o abstrato que protege o concreto, o social que institui o
intimo. Ora, é ilusório querer transmudar tôdas as relações
humanas no estilo da comunhão. A amizade e o amor são rela
ções raras que nascem nos intervalos de relações mais abstratas,
mais anônimas. Tais relações, mais extensivas que intensivas,
constituem de certo modo o traço social das trocas mais intimas
da vida privada.
107
maneira, é ainda, em antro sentido, movida pela caridade sob a figura da justiça: "Porque o príncipe é ministro de Deus para teu bem" . . . para exercer justiça quando desempenha fielmente sua função (Raro., 13) . Não prega êsse texto o espírito de subordinação, mas antes de tudo o reconhecimento de que a relação da "autoridade" ao "temor" é uma das dimensões da caridade, aquela dimensão denominada por São Paulo justiça. A justiça é o dinamismo da ordem, e a ordem, a forma da justiça; essa dialética da justiça e da ordem insere-se, por sua vez, na grande dialética da História movida pela caridade de Deus.
Mas é da natureza dessa grande dialética aparecer-nos como quebrada : a figura do próximo enquanto pessoa e a figura do próximo enquanto magistrado (pois também César é meu próximo), eis duas figuras incompletas e eivadas de parcialidade do govêrno da História pela caridade.
Eis por que o crescimento do Reino de Deus se faz na dor das contradições : o debate, em nossa vida individual e em nossa vida dos grupos, entre as relações "curtas", de pessoa a pessoa, e as relações "longas" através das instituições, aí temos um aspecto dêsse sofrimento histórico.
:É o que não compreende a interpretação "reacionária" das r�laçõ�s entr_e o socius e o próximo; de vez que o tema do próximo e desligado do contexto social onde encontraria seu impacto histórico, êle se torna remorso estéril e se torna prêsa de qualquer gôsto terrível da catástrofe vingadora. É de fundamental hnportância permanecer atento à envergadura histórica da caridade e discernir tôda a riqueza da dialética do socius e do próximo. Ora a relação pessoal ao próximo passa pela relação ao socius,política, êste gôsto de não separar o "despertar
da pessoa" da "revolução comunitária", esta recusa em cair no
preconceito antitecnicista a pretexto de inferioridade, essa des
confiança em face do "purismo" e do catastrofismo, êsse "ti
mismo trágico" enfim, tudo isto considero minha dívida a Em-
1 2
manuel Mounier. Minha nota própria é aquilo que dou nos
ensaios seguintes.
O problema da verdade da história - não mais no sentido
de um conhecimento verdadeiro da história ocorrida - mas no
sentido de um cumprimento verdadeiro de minha tarefa de
obreiro da história - atinge seu ponto culminante na questão
da unidade fundamental do movimento histórico da civilização.
Esta questão, faço com que de certo modo se volte sôbre
si mesma em tôda a série de estudos a partir de Verdade e Men
tira. Ora, ela é focalizada do ponto de vista daquilo que se po
deria chamar uma história da cultura; e vê-se então o perceber,
o agir, o saber ramificarem-se em atitudes que, cada qual por
sua vez se supõem uma à outra, tentam absorver-se mUtuamente,
excluem-se, rivalizam umas com as outras,· o movimento da civi
lização aparece, então, como fenômeno de pluralização indefini
da, compensada sem cessar pela emergência de instt2ncias e po
t�ncias unificadoras, por exemplo, a teologia medieval, a política
moderna. Ora, a questão brota como questão crítica num pro
jeto de ucivilização do trabalho''; será possível reagrupar tôdas
as potencialidades humanas em tôrno do pá/o do homem ope
rário? E é então a dialética do dizer e do fazer que se explicita.
A mesma questão exibe outra face quando nos acreditamos obri
gados a escolher entre duas leituras das relações humanas; con
forme a primeira, o outro é meu próximo despeito de qualquer
mediação social e a intersubjetividade autêntica é um encontro
sem qualquer critério imanente à história; conforme a segunda,
o outro homem é uma função social, fruto precioso de tôdas as
mediações dolorosas de ordem econômica, política e cultural; e f então uma nova dialética que se explícita, uma dialética das
relações ((curtas" e das relações "longas", dos encontros de pes
soa a pessoa e dos liames sociais consolidados em instituições,
uma dialética do íntimo e do social. Enfim, a mesma questão
nasce do debate entre a exigência profética - como se disse,
não sem perigo de abuso - e a exig8ncia política; e vê-se surgir
o debate entre.duas ueficácias'' históricas, uma eficácia violenta
e uma eficácia inerme, sem que nos sintamos no direito de excluir
uma em nome da outra.
No fundo essa questão de múltiplas faces, é aquilo mesmo
diante de que me achava ainda há pouco a propósito da história
da filosofia; então eu me perguntava se minha memória da Hu
manidade - ou pelo menos êsse setor da memória pelo qual é
13
' '
' '
' ' '
i I !
responsável o historiador da filosofia - possula uma unidade
sistemática, através da sucessão de "figuras" onde a filosofia
morre e se transforma; agora eu me pergunto se êsse projeto
de Humanidade a que chamamos nossa civilização tem uma uni
dade sistemática, através da multidão das atitudes culturais que
se desenvolve e a multidão dos vínculos inter-hunumos que en
trecruza. Em resumo, essa questão é a da verdade da história
e na história, abordada de cada vez como a dialética do Uno e
do Múltiplo.
Mas ao passar do registro epistemológico ao registro ético,
o problema da verdade e da história enriqueceu-se de múltiplos
harmônicos.
Antes de mais nada, a questão da unidade, ao tornar-se uma
questão prática - no sentido forte do vocábulo, em oposição a
teorético - torna a cortar a questão da autoridade sob tôdas
as suas formas. Não creio ter jamais cedi do ao denegrimento
anarquizante da autoridade; tôdas as vêzes que surgiu o problema
da autoridade, êle foi abordado positivamente; reconhece-se no
fenômeno da autoridade uma função autêntica de instauração da
ordem e unificação que compensam a dispersão em todos os
sentidos das aptidões humanas. Mas a autoridade é a tentação,
a armadilha das paixões do poder; a história da autoridade é en
tão uma história onde grandeza e culpabilidade se encontram
inextricàvelmente misturadas; a culpa vinculada ao exercício da
autoridade ora se chama mentira, ora violência; mas é a mesma,
conforme a tomemos em sua relação a conteúdos de afirmação
feridos ou em sua relação aos homens esmagados pelos demônios
do poder.
Em Verdade e Mentira, aborda-se o problema da mentira
em função da busca de unidade pela qual se pode definir a
Razão; e se é verdade que os demônios freqüentam de prefe
rência os átrios dos deuses, é no âmago da Razão, no centro de
seu desejo de unidade que nasce a mentira mais alta, a da uni
dade presumida e pretendida; aqui consideramos a êsse respeito
duas figuras históricas fundamentais: a "síntese clerical do ver
dadeiro" e a ((síntese politica do verdadeiro". Mas estas unifi
cações mentirosas do reino da verdade, que são também unida
des violentas �m relação à vida dos homens e de seu direito ao
êrro, não são sem dúvida senão modalidades particularmente
visíveis duma culpabilidade histórica de mil cabeças; na verdade
muitas análises da primeira parte se aclaram sob luz nova, se
14
as aproximarmos de tais visões sôbre a proximidade da verdade
e da mentira, da verdade e da violência; assim, a unidade que
recuso na história da filosofia, a unidade eclética ou a unidade
dialética, participa do mesmo universo de culpa da violência
clerical e da violência política.
Eis por que um ensaio aparentemente tão circunstancial -
Gary Davis, ai de mim! - como O homem não violento e sua
presença na história, tem ligação direta, por assim dizer, com o
mais central dos temas desta coletânea; nesse artigo procurava
eu compreender de que maneira obscura, indireta, descosida, o
homem não violento age na história, quando dá testemunho, por
um gesto presente, das metas longínquas dessa história, e quan
do identifica os meios que usa aos fins que espera; Ora, essa
presença do homem não violento na história atesta a meu ver
quão rica ela é e que há muitas maneiras de exercer nela efi
cácia; esta, entretanto, do "discípulo de Jeová", por exemplo,
que se deixa fazer em postas antes de pegar em armas, aclara
de súbito aos meus próprios olhos o sentido do meu próprio
trabalho; o respeito da discontinuidade das "figuras" históricas
da filosofia não seria uma forma de não-violência? E esta não
-violência, em comunicação subterrânea com qualquer outra
não-violência, acaso não se articula, por outro lado, como tam
bém qualquer outra não-violência, com a violência inevitável que
conduz a história mais clarividente, a dos Estados e das Igrejas,
a dos poderios do dinheiro, da espada e da toga, para compor
êste movimento de conjunto da história que nenhum saber con
segue totalizar?
Falei de início da consonância {(involuntária" dêstes en
saios. Por que adjetivo tão insólito? Designo dêsse modo uma
estrutura de pensamento menos aparente que o ritmo que faz
alternar a preocupação epistemológica e a preocupação ético-cul
tural através deora é elaborada à margem; ora se ergue contra a relação ao socius.
� Fre�üentemente, com efeito, a via "longa" da instituição e o cammhamepto norm�l da amizade; a letra, a máquina de transporte, e todas as tecmcas das relações humanas aproximam os homens; de modo mais amplo, a justiça distributiva com to?�s os . seus ?rgã�s jur_isdicionais, todos os seus aparelh�s admmistral!vos, e a VIa pnvilegiada da caridade: o evento do encon�ro é frágil e fugidio; desde que se consolida em uma relação duravel_e consistente, já é uma instituição; existem muito poucos acontecllllentos puros e êles não podem ser conservados, nem
106
I
1
mesmo previstos e organizados sem um mimmo institucional.
É mesmo necessário ir mais longe: o objeto da caridade não
surge muitas vêzes senão quando atinjo, no outro homem, �ma
condição comum que toma a forma de uma desgraça coletiva:
salariado, exploração colonial, discriminação. racial; então. meu
próximo é concreto no plural e abstrato no smgular : a candade
não atinge seu alvo senão abraçando-o como um certo corpo
que sofre. É coisa que os Padres gregos tantas vêzes perceberam
muito bem· São Gregório, particularmente, pensa nos homens
como um "�ós" e a Humanidade como um "pléroma". Não nos
devemos, pois, enclausurar na letra da parábola do bom sama
ritano nem construir sôbre ela um anarqmsmo personahsta; a
paráb�la não me liberta da responsabilidade de responder à
questão: Que é a idéia de . "�r9ximo" . n.a situa�ão . p�e�ente?
Pode ser: justificar uma insl!tmçao, corngir uma ms!Itmçao ou
criticar uma instituição.
É verdade que, de outras vêz�s, a rela�ão ao, I'róximo ela
bora-se à margen:_ ou, se se pode dizer, no� mterst!�lO� das ,;ela
ções ao socius: e em grande parte o sentido do pnvado en
quanto oposto a "público" ou social. É também o sentido do
H lazer" enquanto se opõe a "trabalho". Também é verda?e q.u�,
em um mundo em que o trabalho se acha cada vez m_ais diV�"
dido e nesse sentido cada vez abstrato, procuramos mms e mms
fora do trabalho e da obrigação social o calor e a intimidade
dos verdadeiros intercâmbios pessoais, dos verdadeiros encon
tros, transferindo assim para o privado as esp:ranças que o
social desiludiu. Isto é verdade. Mas a conexao _do p:!Vado
e do público não faz senão melhor acentuar . a art�culaçao �o
próximo e do socius; não existe� co.m efeito vt?a pnvad_a. se.n3:o
sob a proteção de uma ordem publica; o lar nao usufrui ml!mi
dade senão ao abrigo de uma legalidade, de um estado de t:a_:J-
qüilidade fundado sôbre a lei e �ôbre !- fôrça e com a coi_Idiçao
de que a divisão do trabalho, o mtercambiO comercial, a l,u�!Iça
social e a cidadania política assegurem um bem-estar nummo.
É 0 abstrato que protege o concreto, o soei�! que institu� o
íntimo. Ora, é ilusório querer transmudar todas as relaçoes
humanas no estilo da comunhão. A amizade e o amor são rela
ções raras que nascem nos interval�s de rela�ões mais . abstr�tas,
mais anônimas. Tais relações, mms extensiVas que lllt�ns�vas,
constituem de certo modo o traço social das trocas mais ml!mas
da vida privada.
107
A ·oposição do proxtmo ao socius nã� é portanto senão
uma d__as possi?ili�ad_e�, a. mais espetacular, ;,_ mais dra'mática,
mas nao a mms sigmfiCal!va da dialética histórica da caridade
, É agora. pos�ível declarar a significação insubstituível d�
to�,as essas
_
sztuaçoes de ruptura que o "escatologismo" isola e
o progresstsmo" desconhece.
Existe uma malefício peculiar à instituição, no sentido mais
g�ral da palavra, entendendo-se com isso tôdas as for
mzada d · 1 - . mas orga-
s o soc1a que sao o objeto próprio da soe· 1 · É
malefí · d " b' t' � " É
10 ogm. o
CIO a o Je 1vaçao . encontrado em t'd f
de g · - N d" -
o as as armas
or amzaçao. a IVIsao do trabalho toma a forma t'l d
sa t 'st d' 'd'
, su i es-
. n
"�
za, esse te IO que invade progressivamente as tarefas
mais
d
ragmentadas'_', mais monótonas do trabalho industrial
quan o mmto especw!Izado. Dir-se-ia que a pena q t
,
se achava vinculada aos pesados transportes aos t
u
b
e
lh
ou rara
nosos · · 1 b ' ra a os pe-
� ' pe;Jg�sos, m�a � �e�, refugia-se em uma espécie de frus-traçao psiqmca mais msidiOsa que a dor. Por outro 1 d g�andes aparelhos da justiça distributiva, da segurança" s��i�ls
�ao por v:z.es penetrados por uma mentalidade inumana à fôrç� e ser anomma, coll}o se a administração que das cnisas se estendesse aos homens fosse marcada por estranha paixã
a paixão do f n · b
o cancerosa . f tu.
-
u Cionamento a strato. Enfim e sobretudo tôd� ms I .IÇa_:> tende a desenvolver paixões do poder nos homens
due
d
d!spoem de um mstrumental qualquer (material ou social) .
si��t� que uma ohga,rq�m - tecnocrática, política, militar, ecle�
um m�i
-
o d
se
d
acha a v;sta, tende ela a fazer dêsse instrumental e ommaçao e não de serv' v essas · - d . tço. emas nascerem
, . pmxoes to os os dws sob os nossos olhos e não é neces sano evocar as grandes paix- d r
' -
das ma. T
� . oes . e .o t.g�rcas poderosos; no cerne
dez
IS P.aci I:as e ':nodmas mstitmçoes, apodrecem a estu i-
abstr�t�bJ!�n���in?st�����s�e tiranizar o público e essa injust[ça
O tema do p ' · -tornar-nos conscie
rox�mo e . antes, de n:ais nada um a pêlo a
com disc . ntes . . e �m?a c preciso servirmo-nos disso
nicas o
ernJmento, sem mcnmmar tolamente a máquina as téc
A té�nic� ea�:e����l :�mi?,�strativos, a segurança so�ial etc:
trumento. O sentido d
o
a
o � e�mcts;no" têm � inocência do ins
mente o mal em suas ai:-
roxtmo � .um c_onvtte a situar exata
dos instrumentos É
p oes �specif:cas ligadas ao uso humano
sofias da naturez� e a
u;';ta:rlle a romp_er com as velhas filo-
ecer uma cnttca puramente interna
108
da existência "artificiar' do homem. O vício da existência social
não está em ser contrária à natureza; não é o natural que lhe
falta, mas a caridade. A crítica, por conseguinte, desvia-se por
completo quando se volta para o gigantismo dos aparatos indus
triais, sociais ou políticos, como se houvesse uma "escala hu
mana'' inscrita na natureza do homem. Foi a ilusão dos gregos
o vincular a culpabilidade a uma espécie de violação da natureza
( Xerxes a lançar uma ponte sôbre o Bósforo, a impor "um
jugo ao mar", a varar o monte Atos, c-onforme se vê nos Persas
de Ésquilo) . Temos necessidade de uma outra crítica que não
essa "medida" grega que se opõe às grandes planificações da
vida social moderna; a aventura técnica, social, política do ho
mem não pode receber limite à sua extensão, pois o tema do
próximo não denuncia nenhuma falta de medida horizontal, isto
é, no plano próprio dessa aventura: se um organismo é por
demais vasto, por demais pesado, trata-se de um êrro e não
de uma falta, que é da alçada de uma crítica puramente prag
mática de vantagens e inconvenientes; a dimensão ótima de uma
emprêsa, de um complexo industrial, de um setor de planifica
ção, de um conjunto político etc., diz respeito a critérios pura
mente "técnicos" e não ��éticos". O tema do próximo denuncia
antes certa falta de medida vertical, isto é, a tendência que têm
os organismos s-ociais a absorverem e esgotarem em seu nível
próprio tôda a problemática das relações humanas. A falta de
medida do social como tal reside na,quilo que chamamos mais
acima de "objetivação" do homem nas relações abstratas e anô
nimas da vida econômica, social e política; o social tende a
interceptar o acesso ao pessoal e a ocultar o mistério das rela
ções inter-humanas, a dissimular o movimento da caridade atrás
do qual se ergue o Filho do Homem.
Eis por qne a profundeza das relações humanas só aparece
muitas vêzes graças aos malogros do social: existe um sono
tecnocrático ou institucional, no sentido em que Kant falava de
um sono dogmático, do qual o homem só acorda ao ser social
mente espoliado, pela guerra, pela revolução ou os grandes ca
taclismas históricos; surge então a perturbadora presença de um
homem a outro homem. É mesmoadmirável que seja de tais
rupturas que nasça o mais das vêzes o projeto de um nôvo estilo
institucional; assim a meditação do sábio estóico e a dos pri
meiros cristãos sôbre o homem cidadão do mundo foram ao
mesmo tempo o efeito de certa falha na coesão da consciência
109
política ap6s o malôgro da cidade grega e a causa de um alar
gamento da visão histórica: a oposição entre cidadão e escravo,
entre heleno e bárbaro, entre cidade e tribo' tem a perturbá-la
a fraternidade cristã e a cidadania mundial do estoicismo; e
essa perturbação permite, por sua vez, uma nova revolução do
vínculo social e sua estabilização em nôvo nível na cristandade
medieval.
O tema do próximo opera, pois, a crítica permanente do
vínculo social: na medida do amor ao próximo, o vínculo social
jamais é suficientemente íntimo, suficientemente vasto. Não é
jamais suficientemente íntimo, de vez que a mediação social
jamais se tornará o equivalente do encontro, da presença ime
diata.. Não é_ jamais bastante vasto, de vez que o grupo não
se afuma senao contra um outro grupo, e se fecha sôbre si mes
mo . . o próxim� é a dupla exigência daquilo que está perto e daquilo que esta longe; ass1m era o samaritano: perto, por se
ter aproximado, longe porque continuou a ser o não-judeu que um dia ergueu do chão um desconhecido achado no caminho.
Mas, em compensação, não se deve jamais perder de vista que também, as relações . pessoais são vítimas das paixões, e talvez as mms ferozes e d!SSlmuladas, as mais pérfidas de tôdas as paixões; é preciso ver aquilo que três séculos de civilização burguesa fizeram da caridade . . . A caridade como alibi da justiça. . . Da mesma forma o protesto do "privado" contra o "social" não é jamais de todo inocente; é com o seu malefício
próprio que o "privado" se opõe ao "social", denunciando-lhe
a abstração ou o anonimato. A caridade verdadeira é muitas
vêzes escarnecida duplamente pela inumana "justiça" e pela
hipócrita "caridade". A dialética do próximo e do socius é
tanto mais pervertida quanto as mesmas relações face a outrem são, sob um modo ou outro, mais alteradas. Não temos, assim, entre as mãos, senão os fragmentos da única caridade.
. Te;ia esta meditação conservado algo daquela surprêsa ini
cml? S1m: O pró;omo, dizíamos ao têrmo de nosso primeiro
desenvolvimento, e a maneira pessoal pela qual me encontro
com outrem para além de tôda mediação social· é 0 encontro
cujo sentido não deriva de nenhum critério im�nente à histó� ria. :B a êsse ponto de partida qne devemos finalmente voltar.
1 1 0
O sentido final das instituições é o serviço que por inter
médio delas se presta às pessoas; se ninguém há que tire delas
proveito e crescimento, elas são vãs. Mas precisamente êsse
sentido final permanece ocnlto; ninguém pode avaliar os bene
fícios pessoais prodigalizados pelas instituições; a caridade não
se acha forçosamente nos sítios em que se exibe; também se
acha escondida no humilde serviço abstrato dos postos, da se
gurança social; é muito freqüentemente o sentido ocnlto do
social. A mim me parece que o Juízo escatológico significa que
"seremos julgados" por aquilo que tivermos feito às pessoas,
mesmo sem o saber, ao atuar pelo canal das instituições mais
abstratas, e que o que pesará na balança será o ponto de im
pacto de nosso amor nas pessoas individualizadas. :B isto que
continua a ser surpreendente. Pois não sabemos qnando é qne
atingimos as pessoas. Acreditávamos ter exercido êsse amor
imediato nas relações "curtas" de homem a homem, e nossa
caridade não passava muitas vêzes de mero exibicionismo; e
acreditávamos não ter atingido ninguém nas relações "longas"
do trabalho, da política etc., e talvez aqui também nos ilu
díssemos. O critério das relações humanas seria saber se atin
gimos as pessoas; mas não temos nem o direito nem o poder
de administrar êsse critério. Em particular, não temos o direito
de servir-nos do critério escatológico como de nm processo que
permita conferir privilégio às relações "curtas" às expensas das
relações "longas", porque, na verdade, também exercemos atra
vés delas uma caridade em relação às pessoas; mas não o sa
bemos. Da mesma forma, enquanto não cai o manto sociológico,
permanecemos na História, isto é, no debate do socius e do pró
ximo, sem saber se a caridade está aqui ou está lá.
:B preciso, pois, dizer alternativamente: é a História - e
sua dialética do próximo e do socius - que mantém a enver
gadura da caridade; mas é finalmente a caridade que governa
a relação ao "socius" e a relação ao próximo, dando-lhes uma
intenção comum. Pois a teologia da caridade não poderia ter
extensão menor do que a teologia da História.
1 1 1
A IMAGEM DE DEUS
E A EPOPÉIA HUMANA •
A F. e J.-P., 2 de agôsto de 1960.
I. EM PROL DE UMA TEOLOGIA "ÉPICA"
. Quando os teólogos da escola sacerdotal elaboraram a doutnna do homem que se resume na expressão deslumbrante do
1 .0 capítulo do Gênesis - "Façamos o homem à nossa imagem confor�e nossa semelhança" - por certo não apreendiam de u�a so m1r�da tôda sua riqueza implícita. É tarefa para os seculos refletir sempre renovadamente a partir dêsse símbolo ind�st�utível, que pertence no futuro ao tesouro estável do cânon �1bhco. Quena sem tardança colocar diante dos vossos espíntos a gran.dJOsa interpretação que a êle deram alguns Padres gregos e latmos, antes mesmo de Orígenes e Aoostinho· desar-d 'd o ' ruma-se e sa1 a a acanhada representação que somos tentados a lhe dar, acompanhando a inclinação mais fácil da metáfora.
. Acred:tamos de bom grado que a imagem de Deus é um s1mples smete, como a marca de fábrica do obreiro· discutimos
;m s�g�ida entre nós para saber se na economia
'
do pecado esse smete se apagou um pouco, muito ou excessivamente. Mas que resultaria para nossa reflexão se invertêssemos a metáfora se procurássemos na imagem de Deus não a marca em côncavo
'
mas a própria fôrça de impressão? Se a tratássemos não com� vestígio deixado pelo obreiro, que abandona sua obra aos azares d� t�mpo, mas como ato continuado no movimento criador da H1stona e da duração?
. Outra coisa: essa marca deixada, onde a buscamos nós mms de bom grado? Na intimidade do indivíduo, na subjetivi-
* �ste texto foi especialmente juntado à segunda edição.
112
dade; a imagem de Deus, cremos nós, é o poder assaz pessoal e
assaz solitário de pensar e optar; é a intimidade; para uma inter
pretação a tal ponto atomística da imagem de Deus, eu sou a
imagem de Deus, tu és a imagem de Deus e o fato da História
não é passível de coordenação a essa estampilha divina, passi
va, imutável e subjetiva.
Ora, escutai a voz dos Padres; para êles a imagem de Deus
é o Homem, indivisamente coletivo e individual, é o homem,
arrastado por um crescimento progressivo e orientado para a
visão de Deus, até a manifestação da figura do Filho; escutai
Irineu: "Era antes de mais nada necessário que o homem exis
tisse, e depois, existindo, que crescesse, depois de ter sido cria
do, e se tornasse homem adulto; tornado adulto, que se mul
tiplicasse; depois de se multiplicar, que adquirisse fôrças; ad
quiridas fôrças, que fôsse glorificado; e tendo sido glorificado,
que visse o Senhor." E ainda: "Era necessário que antes de
mais nada surgisse a natureza e que em seguida o que é mortal
fôsse vencido e absorvido pela imortalidade e que o homem se
fizesse à imagem e à semelhança de Deus, tendo adquirido o
conhecimento do bem e do mal." Avaliemos ainda uma vez,
amigos meus, a revolução de pensamento que êsse texto repre
senta em relação a um pensamento neoplatônico para o qual
a realidade é um progressivo afastamento, um obscurecimento
inelutável, à medida que se desce do Uno que é sem forma, para
a Inteligência que é sem corpo, e para a Alma e as almas que
jazem mergulhadas na matéria, a qual é treva absoluta? Senti
mos a distância dêsse texto face a tôda visão da salvação que
o concebe como um recrutamento individual de eleitos solitá
rios, arrancados auma história neutra ou maléfica, mas, de
qualquer forma, estranha à exaltação da imagem de Deus?
Eis aí, face a antigos e a modernos, a primeira filosofia
cristã da imagem de Deus: a de uma criação impelida para a
frente pela parturição de um ser pessoal e comunitário pouco
inferior a um deus.
Não ignoro como vós, caros amigos, todos os complemen
tos, correções e retificações que essa visão da criação histórica
requer, se ela houver de dar conta da gravidade do mal, da
largura, da altura e da profundidade da graça. Mas desejaria
que bem compreendêssemos que o mal não é algo a ser tirado e
113
a graça algo a acrescentar à criação histórica do homem, mas
que a criação tem continuidade precisamente através do mal
e por meio da graça. f: isso mesmo que os Paddres compre
endiam: que a criação não é algo de inerte, acabado, fechado:
"Meu Pai, diz Jesus, está a obrar até êste dia." O mal não é
para ser tirado, ou a graça acrescentada à criação; é antes
nossa idéia da criação que é preciso enriquecer até fazê-la en
globar e a malvadez do mal e a gratuidade da graça. A gran
diosa pedagogia divina consiste para os Padres em tirar um
deus de um pecador. Como diz Irineu: "Como _poderia o ho
mem ter o conhecimento do bem, se tivesse ignorado aquilo que
é o contrário do bem? E como, pois, seria deus aquêle que aiuda
não foi homem?" Se Irineu e Tertuliano incluíam o mal e a
graça em uma visã-o da criação, é que Cristo era para êles o
ponto de inflexão, na criação do homem, do mal à graça, o nôvo lançar-se da criação, a renovação da imagem de Deus. Escutai Irineu uma última vez: "Por causa de seu amor imen
so, êle se fêz aquilo que somos, a fim de fazer com que nos
tornássemos aquilo que êle próprio é."
Tal é o amplo afresco que desejaria colocar diante de nos
sos olhos, a fim de dar o tom, a medida, a proporção à nossa
reflexão. Inclina-nos êle não a um pessimismo ativo, nem a um otimismo trágico - o que dá por fim no mesmo - mas a um sentido épico de nossa existência pessoal resposta na pers
pectiva de uma epopéia mais vasta da Humanidade e da criação.
Pois bem, agora eu vos pergunto: de que modo essa meditação sôbre "a imagem de Deus" pode nos ajudar a orientar-nos em todos os "enc-ontros" do homem com o homem?
· Existe uma via possível; eu a havia tomado, faz alguns anos, em um ensaio sôbre o Socius e o próximo, no qual punha em confronto as relações "curtas" de homem a homem (as relações c-om o próximo) com as relações "lonoas" através das . . . - b ms!itmçoes e dos aparelhos sociais (relações com o socius) . Nossa meditação sôbre a imagem de Deus permite-nos partir daqullo que era então o ponto de chegada, a saber, a unidade profunda e oculta de tôdas essas relações sob o signo de uma teologia �a história. Os Padres, precisamente, sabiam que o Homem e mdlvtsamente individual e coletivo; o Homem é cada homem e a Humanidade inteira; alguns sabiam ainda que Adão
114
quer dizer Homem, A nthropos, não um ce�to �avalheiro mu�to
antigo, sàzinho com sua senhora em um Jardim, e que ter_ta,
por via de geração física, transmitido a sua maldade assaz sm
gular e assaz privada; eram êles capazes de imaginar �m sin
gular coletivo, um indivíduo que vale um po�o, um cole�I�o que
se amoeda em pensamentos, desejos e sentimentos mdlVlduais.
�sse paradoxo, êles ainda o compreendiam, por terem sal
vaguardado a dimensão histórica e cósmica da imagem de Deus.
Como não nos surpreenderíamos, nós outros, homens de
hoje, que estamos, como jamais, ameaçados '!_e ver nossa Hum�
nidade fragmentada em duas entre as relaçoes curtas da ami
zade, do par, da vida privada, e das re�ações lon�as da vi�a
econômica, social, política? Essa dicotomia entre pnvado e pu
blico, que torna insensatos um e outro, é de modo m�ito exato
contrária a uma antropologia que se estabeleça a partir de uma
meditação sôbre a imagem de Deus.
Para fazer compreender um pouco aquilo que há de falso
na oposição moderna do indivíduo e do "grande ani111:al" -:-- para
repetir Simone Weil - eu tomaria um exemplo mUito simples :
o da linguagem. O exemplo é bom, pois que o Senhor se com
praz em deixar que o chamemos lagos e que a criação, , segundo
a Escritura procede da Palavra. Ora, como vivemos nos o fato
da linguag�m? A linguagem não é uma realidade humana intei
ramente personalizada: ninguém inventa a linguagem; seus fo
cos de difusão e de evolução não são individualizados; e no
entanto, haverá algo mais humano que a linguagemJ O Homem
é homem porque fala: de um lado a linguagem so existe por
que cada homem fala; mas a linguagem vive à maneira �e um�
instituição no interior da qual nascemos e morremos. Nao sera
êsse 0 sinal de que o Homem não é inteiramente individuado,
de que êle é ao mesmo tempo individual e coletivo, coletivo e
individual?
Se seguimos essa pista, aberta pela meditação inicial da
imagem de Deus, é-nos necessário resistir à opos�ção do pró: ximo e do socius, das relações curtas e das relaçoes longas, a
qual nossa experiência cotidiana tanto nos inclina; em lugar de
nos deixarmos fascinar por essa dicotomia, tentaremos antes
percorrer as esferas de relações humanas que podem ser vividas
segundo um modo assaz personalizado ou segundo um modo
assaz anônimo.
115
Proponho-me a seguir uma ordem ao mesmo tempo cômoda,
didática, e, por igual, próxima das articulações mais naturais
e mais duráveis da realidade e da história humanas : distin
guiremos as relações do ter, do poder e do valer. Essa divisão
me foi sugerida pela Antropologia de um ponto de vista prag
mático de Kant, a qual tem a vantagem de nos colocar de um
lado no cerne dos sentimentos e das paixões muito fortemente
individualizadas, as paixões da posse, da dominação e da os
tentação (Habsucht, Herrsucht, Ehrsucht) , de outro lado no
centro de três esferas institucionais muito importantes para as
relações de homem a homem: esfera econômica do ter, esfera
política do poder, esfera cultural do reconhecimento mútuo.
A primeira é determinada pela relação de trabalho e de
apropriação; a segunda pela relação de mando e de obediência
(ou, se quiserdes, de governante a governado, que é a relação
política por excelência) ; a terceira tem também um suporte
objetivo nos costumes, nos códigos, nos monumentos, nas obras
de arte e de cultura. Pelo fato de pertencer duplamente ao
mundo passional e ao mundo institucional, o ter, o poder e o
valer escapam à disjunção do próximo e do socius e à dicotomia
das relações curtas e das relações longas : trata-se das mesmas
situações que são vividas segundo um modo interpessoal e no
quadro de instituições ou de organizações econômicas, políticas
e culturais.
Desejaria sugerir agora aquilo que seria a epopéia da ima
gem de Deus desdobrada nos três registros do ter, do poder
e do valer, levadas em conta as incessantes interferências do
privado e do público. Proponho-vos um desenho em grandes
traços repartido em dois grandes painéis. Leremos no primeir-o
a falência do ter, do poder e do valer. No segundo, leremos
o trabalho redentor, a pedagogia divina a atuar em plena massa
econômica, política e cultural, urdindo as atitudes individuais
e a vida dos grupos com suas estruturas e suas instituições.
!I, FALÊNCIA DO TER, DO PODER E DO VALER
Que o mal passa pelo individual e pelo coletivo, eis o que sugere nosso exemplo inicial da linguagem: o mito de Babel
é o mito da destruição da linguagem como instrumento de comunicação; ora a linguagem é atingida ao mesmo tempo como
116
poder do indivíduo por mentira, tagarelice, lisonja, sedução, -
e como instituição, por dispersão das línguas e por malenten
dido na escala dos conjuntos culturais, das nações, das classes,
dos meios sociais. Temos aí um exemplo que nos encoraja
a empenharmo-nos audaciosamente na análise do ter, do poder
e do valer, sem nos deixarmos inquietar pela oposição entre
pecado individual e pecado coletivo: o homem é mau não sà
mente em seu "coração", mas na parte nãopersonalizada de
sua humanidade, nos diversos coletivos que são como que o
tecido essencial de sua humanidade.
Comecemos pelo mal do ter.
No fundo o ter não é um mal: é a relação do Adão pri
mordial com � terreno que cultiva, relação familiar de apro
priação pela qual o eu se prolonga em um meu, no qual êle
se apóia, que êle humaniza e do qual faz sua esfera de depen
dência. Mas o ter, inocente no fundo, é uma das maiores arma
dilhas da existência.
Existe na posse uma maldição que podemos identificar,
quer no plano coletivo, quer no plano individual; os moralistas
mostram-no de modo suficiente : ao identificar-me com aquilo
que tenho, perco minha autonomia; eis por que o môço rico
tem de vender todos os seus bens para seguir Jesus; "ai dos
ricos", troveja Cristo no Evangelho. Essa desgraça do coração
duro constitui obstáculo imediato à comunicação: o meu exclui
os demais e assim os indivíduos se expropriam mUtuamente
ao se apropriarem das coisas; é daí que vem nossa representa
ção das existências humanas como separadas uma das outras.
Mas, no fundo, os· sêres são ligados por mil vínculos de seme
lhança, de comunicação, de dependência em relação a tarefas,
a "nós"; são suas zonas possessivas que se excluem e os ex
chlem uns aos outros.
Mas essa mesma desgraça pessoal e interpessoal tem tam
bém uma expressão comunitária; o ter não existe com efeito
em lugar algum fora do regime da propriedade; é aqui que
nossa reflexão se pode enriquecer com a de Marx, sem qual
quer preocupação de ortodoxia marxista. A grandeza de Marx,
numa época em que a Revivescência protestante esquecia as
estruturas sociais e se fixava na conversão individual, sua gran
deza insubstituível é de não ter sido um moralista; todos os
1 1 7
esforços tendentes a fazer dêle um moralista far-nos-ão perder
os benefícios de sua análise; sua grandeza está em ter tentado
uma descrição de uma explicação da alienação - isto é, da
transformação do humano no inumano - ao nível das estru
turas, é de ter escrito um livro que não se chama "O Capita
lista", mas O Capital.
Sem dúvida, o capital é a Humanidade abolida, feita coisa
reificada; é o grande fetiche no qual a Humanidade se desuma:
nizou; a partir daí, o marxi�mo é verdadeiro: o pensamento,
a palavra, num mundo dommado pela categoria do dinheiro
são as variáveis do grande fetiche; o "materialismo" é a ver�
dade de um mundo sem verdade. Falso como dogmatismo (pri
meiro era a matéria, depois veio a vida, depois o homem depois
virá o homem comunista) , êsse materialismo é verdadeir� como
fenomenologia da não-verdade. Seja o que fôr que se possa
pensar aliás do resto do marxismo, de sua teoria das classes
d.o proletari�do como classe universal, da ditadura do proJeta:
nado, o florao de sua coroa permanecerá a teoria da alienação.
O bom uso dessa teoria está em restituir-nos uma visão do mal
na escala não do indivíduo moral ou imoral, mas na das insti
tuições do ter. Por lá pode-se tornar a encontrar a dimensão
histórica do pecado, que os profetas tão bem conheceram dêsse
p;cado que ninguém começa, mas que todos continuam, �o qual
sao apanhados sem de cada vez reinventá-Io: ingresso ao nascer
em relações do ter que se acham pervertidas no próprio nível �o .c?leti�o, ainda que sejam sem cessar corroboradas por atos
mdiVIduais de apropriação e exploração moralmente escanda
losos.
O, que se acaba de dizer do ter, poderia sê-lo do poder. O pod�';_ e a ,estrutura fundamental do político; tal estrutura põe em Jogo toda a escala das relações do governante ao governado; mesm? nos casos limite de uma comunidade que se governasse a .si mesma,. sem interposição ou delegação de poder, permanecena uma distinção entre mandar e obedecer· é no passar pelo poder incondicional de exigir e de obrigar' fisicamente que . uma comunidade histórica se organiza como Estado e se torna capaz de decisão. Ora, que relação é mais frágil do que esta? O poder estabelece de homem para homem uma comunicação desigual e não
118
recíproca, hierárquica e não fraternal. E, entretanto, é fun
damental e fundadora de história humana. .B através do poder
que 0 homem faz história. É, portanto, a mesma relação que,
em sentido próprio, institui o homem, já o tendo sempre deso
rientado : conhece-se a queixa dos sábios contra os grandes e
os poderosos; abund� o Antigo. �estamento. em ... críticas violentas
contra os reis· anuncia o Magmj1cat a humilhaçao dos grandes e
a exaltação d�s pequenos; o próprio Jesus lembra que "os che
fes das nações as subjugam". Os trágicos gregos c?nhece�am o
mesmo problema: Édipo-Rei, Creon, Agamenon sao as figuras
da grandeza orgulhosa e fulminada; Sócrates traça o retr�to do
tirano como resumo da antifilosofia antes de sucumbir viti
mado pela cidade injusta. Alain sumariza: "O poder endoi
dece."
Ora, as paixões do poder têm isto de notável: não se acham
dirigidas para o prazer; o verdadeiro amor do poder tem �lgo
de ascético; para êle, o poderio merece que se lhe sacnfique
o prazer. -
Quer isto dizer que uma reflexão sôbre o poder se esgota
com uma meditação puramente moral sôbre as paixões do po
der, sua correção, e mesmo sua extirpação? senten: todos que
aqui 0 pensamento se revela impotente! s� �se deixa encerrar
na consideração do uso do poder pelos mdlVIduos; o problema
do "tirano" não é senão a projeção subjel!va do problema do
"poder"· existe uma patologia do poder irredutível à má-von
tade do� indivíduos, à violência do Príncipe .e à covardia dos
súditos. A violência de um único e a covardia de todos cons
piram numa única figura viciosa, numa forma culposa que elas
geram e sustentam, mas que, em troca, modela o tirano e seu
confrontante humilhado.
É essa figura do poder, essa forma alienada, que é pa_:;
sível de uma reflexão específica e autônoma; assim fala Sao
Paulo mlticamente das "autoridades" como de potências demo
níacas; São João, idênticamente, em relação à "Bes�a" do Apo
calipse. A linguagem mítica é aqui a mais verdad,,ma para de
nunciar 0 poder sem le1, nem partilha, nem controle, nem pro
cesso legal· e também para revelar a sedução de que se reveste
sua violên�ia. É a linguagem mítica que preserva da melhor
maneira 0 poder de revelação contido na imago dei; ela torna
119
manifesto o fato de que a substância do homem não apenas
se abismou nos indivíduos, mas no coletivo. Existem leis infa
mes, leis celeradas; uma legislação maléfica é sempre a opor
tunidade necessária para as más paixões de um indivíduo, de
um grupo ou de uma classe no poder; por exemplo, atualmente
é de todo vão denunciar como moralista as torturas suscitadas
pela guerra da Algéria - como se se pudesse tornar limpa uma
guerra suja - se ao mesmo tempo não se denunciam os po
dêres especiais, a legislação de exceção e finalmente a própria
guerra, na medida em que ela se tornou uma espécie de insti
tuição destinada a perpetuar as relações de colonizadores a colo
nizados.
Aqui tem o cristão tudo a aprender com a crítica do poder
elaborada pelo pensamento "liberal" de Locke a Montesquieu
e pelo pensamento "anarquista" de Bakunin, dos homens da
Comuna, dos marxistas não estalinistas. Penso particularmente
no grupo de Socialismo ou Barbaria, que se tem devotado à
análise e elucidação da estrutura do poder nas sociedades pla
nificadas do século XX e a situar em têrmos precisos o pro
blema da gestão obreira, da democracia direta nas pequenas uni
dades econômicas e o da composição do poder político de baixo
para cima e não mais sOmente de cima para baixo como nas
democracias autoritárias do Leste e mesmo do Ocidente.
1lstes poucos exemplos sugerem a idéia de uma continui
dade entre uma antropologia teológica inspirada pela interpre
t�ção pat:ística _da imago dei e uma crítica concreta do poder,
aJustada as realidades do nosso tempo. Por sua amplidão, de
vena essa visão teológica da imagem de Deus poder reintegrar
os membros espar&as de uma crítica do homem histórico e polí
ticoque a cristandade histórica deixou desenvolver-se fora do
campo de sua concepção acanhada e individualista.
O encontro do homem c01n o homem no terceiro ciclo de rel�çõ�s será acaso mais exclusivamente personalizado que nos dms Ciclos precedentes? De bom grado o creríamos. De que se trata aqm? Trata-se dessa busca que cada um de nós realiza a ?u�ca .da es;ima alheia que é essencial à consolidação da noss� eXIstenct� propria; pois, até certo ponto, existimos graças ao reconhecimento alheio, que nos valoriza, nos aprova ou nos desaprova e nos devolve a imagem de nosso próprio valor; a
120
i i
:- �
constituição dos sujeitos humanos é uma constituição mútua por
opinião, estima e reconhecimento; o outro me confere sentido,
devolvendo-me a trêmula imagem de mim mesmo.
Ora, que haverá de mais frági� que essa, existência como
reflexo? Essa relação do reconhecimento mutuo depressa se
deixa parasitar por tôdas as paixõ�s da vaidade, da pn;tensão! do ciúme. O moralista o romancista, o dramaturgo sao aqm
os testemunhos precios�s dessa luta dos sêres pel� "i.magem''
refletida de si mesmo. Eis aí, portanto, uma relaçao mterpes
soal por excelência, massacrada por males e . por vícios que
atingem os "rins e os corações" das pessoas smgulares.
f; verdade: mas essa mesma luta para o reconhecimento
prossegue através das realidades culturai,_s �ue não tê;n _sei? dúvida a consistência dos aparelhos economicos e das mstitUI
ções políticas, mas que constituem, não obstante, u�� reali
dade objetiva, no sentido em que Hegel falava do espmto ob
jetivo. É através das imagens do homem que se opera. essa
petição de estima mútua; e essas Imagens do �ornem constituem
tôda a realidade da cultura. Entendo por ISSo a usança, os
hábitos 0 direito a literatura, as artes; e essas múltiplas ima
gens d� homem 'carreadas pela culhi�a são incorp?r�das em
monumentos, estilos, obras; quando visito uma exposiçao como
a de Van Gogh, acho-me em face de uma visão do mundo, que
tomou corpo numa obra, numa cüisa, a obra de arte, ve1culo
de comunicação; e mesmo quando não é a face humana que
se representa, o que se veicula é ainda �ma representação do
homem; pois a imagem do homem não e apenas o retrato do
homem é também o conjunto das projeções do olhar do ho
mem sÔbre as coisas; nesse sentido, uma natureza morta é uma
imagem do homem.
Ora, tôdas as imagens do homem são incorporadas às nos
sas relações interpessoais; são mediações silenciosas que se
insinuam e se intercalam entre os olhares que dois sêres hu
manos trocam; nós nos vemos mUtuamente através das imagens
do homem; e a cultura vem lastrar com as suas significações as
relações que cremos serem as mais diretas, as mais imediatas.
Ora se nossos encontros são assim mediatizados pelas ima
gens do homem incorporadas nas obras de cultura, as relações
inter-humanas podem ser abismadas ao nível dessas imagens
mediadoras; é 0 que acontece quando uma corre�te estética ou
literária vem destruir ou perverter as representaçoes fundamen-
121
tais que o homem se faz de si mesmo, no plano da sexualidade
ou do trabalho ou do lazer. Pode-se mesmo dizer que existe
lá uma fonte fundamental de comoção inter-humana; pois a lite
ratura e as artes têm talvez uma função permanente de escân
dalo: representando o mal com insistência, e até mesmo com
placência, o artista dilacera a imagem convencional e hipócrita
que os bem-pensantes tentam forjar-se de si mesmos e assim
o artista é sempre acusado de perverter o homem ao abismar
a imagem do homem; e é necessário que sua função permaneça
ambígua, como mestre de veracidade e mestre de sedução. Mas
vê-se ao mesmo tempo que uma meditação sôbre os aspectos
decaídos da relação inter-humana não pode deixar de lado êsse
drama e essa crise que se desenrolam ao nível das representa
ções culturais, dos fantasmas coletivos e das mediações estéticas.
O homem está sempre a fazer-se e a desfazer-se no fundo do
coração de cada um, mas também graças a todos êsses "obje
tos" que sustentam a relação do homem com o homem, desde
o objeto econômico até o objeto cultural, passando pelo objeto
político.
III. O IMPULSO DA REDENÇÃO
Desejaria agora ler convosco o outro painel do díptico
sôbre o qual está escrito com letras de fogo e de alegria: "re
denção". Os Padres gregos liam divinização. E eu quereria
de início dizer que êsse segundo painel não é a simples réplica
do precedente. Faz alguns anos K. Barth, ao comentar Ro
manos 5 ( 12-2 1 ) acentuava uma expressão decisiva de São
Paulo: "Pois se a falta de um só causou a morte de todos os
outros, com muito mais razão o dom de Deus e o benefício
desta graça obtida por um só homem, que é Jesus Cristo, supe
r�bu�dou para todos." E mais além: "Se pelo pecado de um
so remou a morte (por culpa dêle) , muito mais aquêles que
rece�em a abundância da graça e o dom da justiça, reinarão
na VIda por um só, que é Jesus Cristo". Com muito mais ra
zão . . . , muito mais 1 • • • Eis a medida divina, o descomedimen
to divino: se o pecado abunda, a graça superabunda.
Pergunto-vos, somos nós fiéis a esta lição? Sabemos buscar
a superabundância da graça pela qual Deus responde à abun-
1 Pollô mâllon.
122
I
dância do mal? Sim, por certo sabemos dizer com tôda orto
doxia que essa superabundância é Jesus Cristo; mas que sinais
discernimos nós nesse vasto mundo? Os sinais dessa "supera
bundância", não ousamos buscá-los alhures, senão na expe
riência interior de um acréscimo de alegria, de paz, de certeza.
Cremos que o pecado abunda na exterioridade, mas que a graça
só superabunda na interioridade. Não haveria, pois, sinais da
superabundância da graça fora da vida interior, fora das pe
quenas comunidades refugio? não os haveria na grande cena
do mundo? É preciso reconhecê-lo, desde Agostinho que se
estabelecera a bifurcação; para a teologia dominante, o pecado
é, talvez, coletivo, mas a graça é, sem dúvida, privada e inte
rior. A cidade de Deus recruta-se através da massa perdita, da
massa iniquitatis, irae, mortis, perditionis, damnationis, offe�
sionis, - massa tota vitiata, damnabilis, damnata. Só a IgreJa
emerge e sobrenada como "corpo" de salvação dessa massa
aglutinada de danados.
Bem vejo que há uma dificuldade em falar da salvação
para uma realidade coletiva e desejo abordá-la de frente sem
dissimular a dificuldade da emprêsa; a salvação passa pela re
missão dos pecados, dizíamos nós a justo título; pode-se anunciar
a remissão dos pecados a uma realidade anônima e esta, acaso
poderá reconhecê-la? É coisa assaz embaraçosa e eu hesito;
é, pois, às apalpadelas e com o sentim'ento de que estou a me
aventurar, que tentarei levar para diante esta minha meditação.
Pergunto o seguinte: estamos certos de bem compreender
tôda a amplidão da remissão dos pecados? Acaso não a ames
quinhamos devido à nossa idéia atomística da salvação? A
visão grandiosa dos Padres gregos sôbre o crescimento da Hu
manidade, que Deus -orienta, através do mal e pela graça, para
a divinização, acaso não nos incita ao abandono de nossa con
cepção individualista da remissão dos pecados, paralela à do
próprio pecado?
Desejaria tentar reconhecer os sinais dessa rem1ssao dos
pecados em um sentido não moralista da palavra, em um sen
tido que ousaria chamar arquitetônico e que se enquadre na
medida da imago dei tomada em tôda a sua amplidão. Não
seguirei a ordem precedente: econômico, político, cultural. Par
tirei do político. Temos com efeito a sorte de poder apoiar-nos
123
aqui na doutrina paulina do magistrado; a partir daí, talvez,
possamos tentar dizer também alguma coisa das outras esferas
de relação humana.
Em Romanos 13 desenvolve São Paulo uma teoria do ma
gistrado,_ da qual nem todos üS aspectos têm aqui interêsse para
nós, a não ser o seguinte: é por seu caráter de instituição e
não por seu caráter pessoal que se diz "provir de Deus" a au
toridade.
Tôdas as autoridades são "constituídas," 2 instituídas por
Deus: resistirà autoridade é resistir à "ordem'' que Deus esta
beleceu. 3 "A autoridade é o ministro de Deus para o teu bem";
é à função dela que se dirige nosso respeito. Tôdas essas pala
vras: instituição, ordem, bem, função, situam-se ao nível da
quilo que, faz pouco, eu denominava o coletivo humano. Que
quer isto dizer? Quer dizer que Gengis Khan, Napoleão, Hitler,
Stalin foram pessoalmente investidos de uma espécie de eleição
de direito divino? Não, isso quer dizer, parece-me, que onde
o Estado é Estado, através ou apesar da maldade do titular
do poder, algo que é bom para o homem se acha a funcionar.
Admito que êste crédito que se abre em prol do Estado é uma
aposta. Aposta-se que, globalmente, o Estado é bom - através
e apesar da maldade dos indivíduos que estão no poder.
. Ora,
,
é preciso que se diga, São Paulo ganhou a aposta;
os 1mpénos, através e apesar de suas violências, fizeram pro
gredir o direito, o conhecimento, a cultura, o bem-estar e as
artes; a Humanidade não sOmente sobreviveu, mas cresceu, tor
nou�se amadurecida e adulta, mais responsável; de maneira se
creta, . e q�e secreta perrr:anecerá até a Jerusalém celeste, a pe?agogta vwlenta do magtstrado portador do gládio coordena-se
a pedagogt� do amor fraternal. Não se deve esquecer, o capí
tulo 13 se msere entre dois hinos dedicados ao amor recíproco; � q�e bem prova que São Paulo não se embaraça com a dis
tmçao entre :elações pessoais e relações públicas : "Não pa
gueis a nmguem o mal com o mal", disse êle no capítulo pre
cedente; e após o parágrafo sôbre o Estado, volve êle: "O
amor não prejudica ao próximo. O amor é o pleno cumprimento
da lei." Assim, a teoria da autoridade insere-se entre dois apelos
ao amor fraternal; o que não se faz sem paradoxo: pois o
2 Tetagmenai eiSln.
3 Tê ecsousia tê toil Theoü. diatagê.
124
magistrado, ao contrário do mandamento do amor, produz 0
mal ao punir; como compreender que é a mesma economia da
redenção que se desenrola através das duas pedagogias? Vive
mos no dilaceramento das duas pedagogias.
Objetar-se-á que a doutrina paulina da autoridade não con
vida à procura dos sinais de redenção ao nível das comunidades
históricas, de vez que a magistratura não é portadora da marca
do amor fraternal; acaso não preferiu a doutrina da reforma
referir-se antes à política como ordem da conservação do que
como ordem da redenção? Mas que se lucra com essa distinção?
A Humanidade não é só conservada. É promovida, instituída,
educada pela política. Se essa educação se situa fora da reden
ção, que tem ela a ver com o Evangelho e por que São Paulo
a ela se refere? E se a redenção não inclui a história efetiva
dos homens, que é política por um lado, acaso não será ela abs
trata e irreal?
Três observações nos permitirão talvez atenuar o disparate
entre a redenção enquanto tem por sinal o amor fraternal, e
essa espécie de pedagogia do gênero humano que o apóstolo
diz instituída por Deus para nosso bem: repugna-nos falar da
redenção ao nível do desenvolvimento político da Humanidade,
porque perdemos um dos sentidos fundamentais da redenção,
que é o crescimento da Humanidade, seu acesso à maturidade,
à idade adulta. "É preciso ser feito homem para ser feito Deus",
dizia Irineu. Ora, a mais leiga das instituições, a magistratura
menos eclesiástica, se fôr justa, se está .em c-onformidade com
sua função, como diz Paulo, coopera com êsse crescimento; nesse
sentido, é ela uma das vias da redenção corporativa dos homens.
O próprio Kant percebia ainda algo que o teólogo pós-augus
tiniano raramente compreende. 4 "O meio de que a natureza
se serve para levar a bom têrmo o desenvolvimento de tôdas as
suas disposições é um antagonismo no seio da sociedade, na
medida em que êste é, não obstante, afinal a causa de um
ordenamento regular dessa sociedade."
Essa "insaciável sociabilidade", que se torna o instrumento
da sociedade civil, acaso não é a expressão laicizada da teolo
gia dos Padres? E não será a justo título que essa expressão
é laicizada, se é verdade que a redenção assimila a via tortuosa
4 Idée d'une histoire zmiversalle ou point de vue cosmopolitique,
quinta Proposição.
125
das magistraturas instituídas por Deus, não quando elas são cle
ricais, mas quando justas?
Segunda observação: a pedagogia violenta do magistrado
vincula-se à ardo amoris, à ordem fraternal do amor, pelo fio
que lhe vem da utopia. Tem a utopia, com efeito, grande al
cance teológico : é um dos caminhos desviados da esperança,
um dos caminhos contornados pelos quais se promove a huma
nização do homem, em vista de sua divinização. Existe um
serviço que a utopia presta hoje, nesta época que a sociedade
possui tantos meios e tão poucos objetivos; penso, particular
mente, na doutrina do aniquilamento do Estado com os grandes
liberais, os anarquistas, os partidários da Comuna de Paris,
no Lênin d'O Estado e a Revolução; é com efeito por meio da
utopia do fim do Estado - ao menos do Estado repressivo tal
como hoje o conhecemos - que sonhamos com a reconciliação
da política e da amizade; sim, sonhamos com um Estado que
não seria senão o administrador das coisas e o educador das
pessoas para a liberdade.
Essa utopia é vital para o próprio destino da política:
ela lhe confere um objetivo, uma tensão e, se me é dado dizê-lo,
uma esperança. Reconheço meu Evangelho no "anarquista" que
prega a dissolução do Estado coativo, belicoso e policial; é
meu Evangelho, que me caiu das mãos e foi soerguido por um
homem que não sabe que confessa Jesus Cristo. Acaso não
é na linha da utopia que se deve ler o próprio São Paulo? "A
autoridade é o ministro de Deus para o teu bem." Pois, qual
o Estado que é ministro para o meu bem, antes de que surja
o Estado universal, pacífico e educador? Nenhum dos Estados
atuais satisfaz à utopia, mas a todo Estado confere ela sentido
e direção.
Terceira observação: o fôsso entre a pedagogia violenta
do Estado e o amor fraterno não apenas diminui por meio da
utopia, coisa que transfere para além da história o sinal da re
conciliação, mas também pelo testemunho dos não violentos que
inscrevem êsse sinal _no presente. Penso expressamente em
Gândi, nas formas não violentas do movimento dos negros ame
ricanos e nas expressões variadas da resistência não violenta
na Europa. Que faz o não violento? À primeira vista, êle se
exclui da esfera política, de vez que desobedece à autoridade,
mas na realidade, na profundeza das coisas, é êle que salva o
Estado lembrando-lhe que não é Estado senão para conduzir
126
Os homens à liberdade e à igualdade; a não-violência é a espe
rança vivida a tempo e fora de tempo ; é a esperança "intem
pestiva" no sentido próprio da palavra. Com efeito, os meios
do não-violento são os meios que se atribuem liminarmente aos
fins de todo Estado, do próprio Estado violento, portanto; é
por tais meios que o não-violento anuncia a êsse Estado que
pertence à redenção, isto é, sua instituição para o bem dos
homens.
Eis algumas observações que talvez façam compreender em
que sentido as magistraturas humanas são os órgãos da reden
ção, da grande redenção que não se processa apenas pela via
do amor fraterno, mas também pela via do "grande animal".
Eu me havia pr-oposto a falar da redenção nas três esferas
do ter, do poder, do valer. Não segui essa ordem; tentei uma
abertura no nível político e esbocei o tema de uma redenção
em massa por intermédio de instituições a respeito das quais
ousamos dizer com São Paulo que são instituídas por Deus.
Não se poderia encontrar o análogo de uma redenção pela
instituição na ordem econômica e na ordem cultural, que de
certo modo enquadram a política? Torna-se então necessário
ampliar e generalizar essa noção de instituição de maneira a
fazer com que ela cubra todo o campo das mediações estáveis
e duráveis, dos utensílios às obras de arte, pelos quais os ho•
mens se comunicam entre si.
A extensão de nossa reflexão do político ao econômico
éfácil: já o dissemos, a relação do homem às coisas que pos
sui não tem qualquer existência fora do regime de propriedade
e de uma organização do poder econômico. Ora, a própria
Bíblia atribui uma esperança precisa ao pleno domínio da na
tureza: eis o que leito no Salmo 8 :
"Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos,
a lua e as estrêlas que lá fixastes: "Que é o homem, digo-me
então, para dêle vos lembrardes? Que é o filho do homem para
que vos ocupeis com êle? Entretanto, vós o fizestes pouco infe
rior aos anjos, de glória e de honra o coroastes. Destes-lhe
o poder sôbre as obras de vossas mãos. V ás lhe submetestes
tôda a criação: rebanhos e gados, e até os animais bravios, pás
saros do céu e peixes do mar, tudo o que se move nas águas
do oceano."
127
o domíni,0 sôbre as coisas é assim uma das vias de acesso
à maturidade, ao estado adulto do homem, e é sob . êsse tí�ulo
uma das expressões da imago dei. ü_ra, sabemos hoje que esse
domínio é instituído pela orgamzaçao do trabalho, pela pre
visão econômica e tôdas as formas "constituídas" do poder eco
nômico. Não é, pois, sàmente a r.el�ç�o pesso�l do indivíd�o aos
haveres mas o conjunto das msl!tmçoes economrcas que e cha
mado à redenção. É, pois, a êsse C
_?
njunto instituído . que d�
vemos tentar aplicar nossas observaçoes antenores, lrmrtadas as
magistraturas políticas. . . . _
Deve-se preliminarmente observar que a plena srgmfrcaçao
da noção de autoridade civil não aparece senão quando desvin
culada de sua função puramente repressiva e penal; sabemo-lo
hoje melhor a função repressiva não manifesta a ordem senão
como "orde� estabelecida", isto é, "desordem estabelecida"; a
instituição não é sinal do Reino, senão �a medida em que edi
fica a comunidade humana, que constrm a crdade; o castrgo
só faz conservar uma ordem já instituída; é de certo modo a
recaída das instituições, sua reação contra os "maus", os quais
até certo ponto são os portadores do destino de instituições
futuras mais justas e mais fraternais. Eis por que, ao alargar
a noção de instituição até às dimensões do social e do econô
mico, fazemos aparecer não somente o sentido humano da jus
tiça, mas a significação teológica da instituição; o desenvolvi
mento do Estado moderno é, sob êsse ponto de vista, como que
uma exegese viva e concreta da noção paulina de instituição. 5
Por outro lado, o que dissemos da função da utopia, como
expressão puramente humana, racional e civil da esperança en
contra aqui, não sàmente uma aplicação essencial, n;�s um
ponto de apoio assaz concreto. A utopia puramente polrtrca do
aniquilamento do Estado repressivo é uma utopia abstrata, en
quanto não estiver coordenada a uma utopia do trabalho desa
Iienado· talvez mesmo seja esta a utopia por excelência, a que ' . ' responde à maldição do ter, da avareza que separa; pors e em
5 "É justamente quando o Estado cessa de ser poderio de pura
repressão e conservação de uma ordem estabelecida ao sabor das con
tingências da história, de uma ordem que dissimula mal a desordem
fundamental das paixões e dos interêsses individuais ou coletivos, que
sua própria função assume tôda sua significação no desígnio de Deus;
pode êle então participar, no domínio que lhe é próprio, na edificação
dêsses sinais que, para a fé, anunciam o Reino que há de vir." R. MEHL,
Explication de la confession de foi de La Rachei/e, pág. 162.
128
têrmos de riqueza (riqueza material, riqueza intelectual e espi
ritual) que se exprime tôda maldição: "Ai dos ricos!" Tôda
benção deve, pois, encontrar sua projeção nesse mesmo regis ..
tro. Qual o sentido que isto pode ter, senão uma revolução
que transtorna as relações de expropriação e de exclusão mú
tua instituídas pela propriedade? A reapropriação da essência
do homem perdida no ato de possuir, ou o que dá no mesmo,
a reconciliação dos homens separados por seus haveres é, com
a utopia do aniquilamento do Estado, a utopia reguladora de
todo pensamento econômico zeloso de exibir os sinais do Reino
que há de vir.
E se prossigo no paralelismo com a redenção por meio das
magistraturas, não deveria eu dizer que a não-violência no pla
no político apresenta, também ela, o seu simétrico na pobreza
franciscana? A pobreza franciscana acaso não anuncia de ma
neira intempestiva - intempestiva em relação a tôda econo
mia razoável e regular - o fim da maldição que se vincula à
apropriação privada e ciumenta, que gera dureza e solidão?
Uma visão ampla e generosa da redenção acaso não nos en
sina a ler determinados sinais do Reino que há de vir nas mais
doidas emprêsas vinculadas ao aniquilamento do Monstro-Ca
pital, assim como o da Besta-Estado?
Meus amigos, avanço timidamente nas vias perigosas e vos
pergunto se é a esperança que nos chama ou somente a sedução
do mundo . . . Talvez algumas pérolas de esperança se perde
ram na palhada das falsas expectativas.
É mais insólito falar de "instituições" a propósito da cul
tura, que a propósito da vida política, social ou econômica. No
entanto, o sentido profundo da instituição não aparece senão
quando ela se estende até às imagens do homem na cultura,
na literatura e nas artes. Essas imagens, com efeito, são cons
tituídas ou instituídas; têm uma estabilidade e uma história pró
prias que superam os azares da consciência individual: sua es
trutura é passível de uma psicanálise da imaginação que versaria
sôbre a temática dessas imagens do homem, sôbre as respecti
vas linhas de fôrça e de evolução: é nesse sentido que a cultura
se institui no nível mesmo da tradição do imaginário. É pois
nesse nível que também se deve pesquisar os sinais do Reino
que há de vir.
129
Ora, a imaginação tem uma função metafísica que não se
poderia reduzir a uma simples P.roje�ão �os desejos �itais in
conscientes e recalcados; tem a tmagmaçao uma funçao pros
pectiva, uma função de exploração face aos possíveis do ho
mem. É por excelência a instituição e a constituição do pos
sível humano. É na imaginação de seus possíveis que o homem
exerce a profecia de sua própria existência. Compreende-se, por
conseguinte, em que sentido se pode falar de uma redenção por
imaginação: é através dos sonhos de inocência e reconciliação
que a esperança trabalha em plena massa humana; no sentido
amplo da palavra, as imagens de reconciliação são mitos; não
no sentido positivista do mito, no sentido de legenda ou de
fábula, mas no sentido da fenomenologia da religião, no sen
tido de uma narrativa significativa do destino humano global
mente considerado; mythos quer dizer palavra; a imaginação,
enquanto função mito-poética, é também a sede de um trabalho
em profundidade que comanda as mudanças decisivas de nossas
visões do mundo; tôda conversão real é antes de mais nada
uma revolução ao nível de nossas imagens diretrizes; ao mudar
sua imaginação, muda o homem sua existência.
Alguns exemplos tirados da literatura e das artes farão
compreender essas revoluções de fundo. Disse mais acima que
o homem pode perverter-se no nível das imagens que forma
de sua própria face; evoquei nessa ocasião a função de escân
dalo da literatura e às vêzes das artes plásticas e a ambigüidade
que seduz e diz a verdade. Gostaria de dizer agora que os
sinais da redenção não são sempre de serem procurados em
algo que seria o contrário do escândalo; bem ao contrário: é
pelo escândalo, muitas vêzes, que se anuncia a salvação; é sob
as mais destruidoras aparências que a imagem se faz "edifi
cante"; há decisões que purificam, como existem apologias que
traem; assim como o magistrado castiga, a literatura castiga com
o gládio da denúncia e do escândalo.
Mas, em si mesmo, não é o escândalo senão o avêsso da
função utópica da cultura; a imaginação, na medida em que
pesquisa as mais impossíveis possibilidades do homem, é o ôlho
avançado da Humanidade que marcha para um maior grau de
lucidez, de maturidade, em suma, para sua estatura adulta. O
artista é assim na esfera cultural aquiloque é o não-violento
na esfera política; êle é "intempestivo"; assume os maiores ris-
130
cos, porque jamais sabe se está a construir ou a destruir; se não
destrói quando crê construir; se não constrói quando crê des
truir; se não planta quando seria preciso arrancar, se não ar�
ranca quando seria tempo de plantar.
Mas então, devemos estar temerosos devido ao risco imen
so que é ser homem? Talvez devêssemos atribuir à própria
generosidade de Deus êsse perigoso aprendizado do homem atra
vés do bem e do mal, confiando-nos à sua generosidade.
Terminarei por onde comecei, uma vez que me arrisquei
nesta palestra sôbre a interpretação dada pelos Padres a res
peito da imagem de Deus; voltarei portanto, uma vez mais,
aos Padres da Igreja. Quando os gnósticos os atropelavam com
o problema do mal, não hesitavam êles em inserir na grandeza
da criação a produção do homem livre capaz de desobedecer;
o risco do mal era assim incluído aos olhos dêles nessa ascensão
à maturidade da criação inteira.
"Tendo Deus manifestado sua generosidade, declara Irineu,
o homem conheceu o bem da obediência e o mal da desobe
diência, a fim de que o ôlho de sua inteligência, ao receber a
experiência duma e doutra coisa, faça judiciosamente a escolha
das coisas melhores e não seja nunca preguiçoso ou negligente
no que diz respeito ao preceito de Deus . . . " Para Tertuliano
também, o homem é constituído à imagem de Deus por sua
adesão livre: "Foi preciso, pois, que a imagem e a semelhança
de Deus estivesse dotada de liberdade e autonomia no seu que
rer, pois que é nessa liberdade que se define a imagem e a seme
lhança de Deus". E ainda: "Pela liberdade cessa o homem de ser
escravo da natureza; apropria-se seu próprio bem e assegu
ra-lhe a excelência, não como uma criança que recebe, mas
como um homem que consente.,
Talvez devamos crer que até Deus, querendo ser conhecido
e amado livremente, correu êsse risco que se chama o Homem.
131
SEGUNDA PARTE
VERDADE NA AÇÃO HISTóRICA
I . PERSONALISMO
EMMANUEL MOUNIER:
UMA FILOSOFIA PERSONALISTA
Nosso amigo Emmanuel Mounier não mais responderá às
nossas perguntas: uma das crueldades da morte é mudar radi
calmente o sentido de uma obra literária que ainda se constrói:
não só ela não mais continuará, como também é subtraída a
êsse movimento de intercâmbio, de interrogações e respostas,
que situava êsse autor entre os vivos. Torna-se para sempre
obra escritaJ e apenas escrita; consuma-se a ruptura com seu
autor, cuja obra entra doravante no campo da única história
possível, a dos leitores, a dos homens vivos que ela alimenta.
Em certo sentido, uma obra atinge a verdade da sua existência
literária quando morre seu autor; tôda publicação, tôda edição
inaugura a impiedosa relação dos homens vivos com o livro
de um homem virtualmente morto.
Os vivos menos preparados a participar de tal relação são,
sem dúvida, aquêles que conheceram e amaram o homem, aqüe
le que viveu . . . e cada leitura renova nêles e consagra de certo
modo a morte do amigo.
Não fui capaz de reler os livros de Emmanuel Mounier
como os livros devem ser lidos, como se fôssem livros de um
morto. Dêsse modo, não se queira ver nestas páginas um estudo
histórico puro e simples, mas algo de híbrido, que começa no
domínio da leitura e pretende em vão continuar o diálogo im
possível . . .
135
Reli em primeiro lugar, e de certo modo em contr�ponto,
os artigos de Emmanuel Mounier aparecidos em Esprzt e�tre
outubro de 1932 e dezembro de 1934 (e que foram reumdos
em volume sob o título Révolution personnaliste et communau
taire I ) e o breve e excelente guia. da filosofia personali�ta inti
tulado Personnalisme. 2 São, mms ou menos, os dOis mo�
mentos extremos da obra de Mounier: 1932, 1950. A mim
me pareceu, com fulgurante clareza, que os escritos de 1932
conferem a todo o empreendimento filosófico uma perspectiva
verdadeira e revelam, sob forma juvenil, virulenta, as intenções
da obra. ulterior.
Mostra essa coletânea, de modo claro, que o pensamento
de Emmanuel Mounier está marcado negativamente pela sua
saída da Universidade, por sua ruptura com o magistério - e,
de modo positivo, pela responsabilidade de um movimento, que
se concretizava numa Revista. Esta primeira observação vai
mais longe do que poderia parecer; obras como as de Bergson,
de Brunschvicg, de Blondel, de Maritain, contemporâneas dos
primórdios da revista Esprit, realizam, por todo o seu estilo,
o gênero didático, que se adapta a um público de es:udiosos,
de professôres, e para além dêstes, de adultos que se mstruem.
A filosofia francesa participava de modo claro até o período
imediatamente anterior à guerra, da tarefa docente em sua
acepção mais geral. Essa função docente explica bastante bem
a fôrça e a fraqueza da filosofia universitária: fraqueza, �m
sua tendência a situar os problemas à margem da VIda, da his
tória, e a proporcionar-se uma vida e uma história próprias
que, nos casos limite, são de todo irreais; mas fôrça em seu
gôsto pelas questões metodológicas, pelas questões prelimina
res, pela busca do "ponto de partida", da "verdade primeira",
e pelo ordenado processo discursivo.
Com a fundação de Esprit, tentava Mounier a aventura
de uma filosofia não universitária. Sua sorte seria então, ao
libertar-se da Universidade - pois o magistério é à sua ma
neira um compromisso - salvar-se do ócio, pela criação de
um movimento a cujo serviço se colocou; o primeiro cometi
mento de Emmanuel Mounier é o movimento Esprit; é aqui
1 Révolution personnaliste et communautaire, col. Esprit, Aubier
1935 (Oeuvres de Mounier, t. I, Ed. du Seuil). ,
2 Personnalisme, cal. Que sais-je? P . U . F . 1950 (Oeuvres, t. III,
Ed. du Seu i!).
136
justamente que se decidiram o estilo e o gênero e escopo filo
sófico de nosso amigo.
Sua grande fôrça é de ter, em 1932, vinculado originà
riamente sua maneira de filosofar ao afloramento ao nível da
consciência de uma crise de civilização e de ter tido a ousadia
de visar, para além de qualquer escola filosófica, uma nova
civilização em sua totalidade. Não se percebe a amplidão dêsse
projeto inicial se se começa pelo Traité du caractere ou pelo
Personnalisme : entregamo-nos nesse caso ao jôgo estéril de
comparar, peça por peça, a "filosofia" de Mounier à "filosofia"
existencialista e à "filosofia" marxista. Este jôgo é estéril, por
que as três "filosofias" não são soluções diferentes dadas a um
mesmo bloco de problemas, não são mesmo problemáticas dife
rentes situadas num mesmo plano teórico, são maneiras diver
gentes de projetar as relações do teórico e do prático, da refle
xão e da ação.
Será preciso voltar dentro em breve a esta comparação e
sobretudo às condições de tal comparação; mas não o podere
mos fazer de maneira válida, senão depois de ter reencontrado
o desígnio primordial do personalismo, o desígnio de uma civi
lização; é muito digno de nota o fato de que o adjetivo perso
nalista qualifica antes de tudo uma civilização, uma função
civilizadora; 3 e o personalismo de 1950 recorda que o têrmo
pretendia, em 1932, "designar as pesquisas iniciais da revista
Esprit e de certos grupos vizinhos em tôrno da crise política e
espiritual que então se manifestava na Europa". (115)
�sse aflorar de uma época ao nível da consciência, essa
apreensão de nossa época como manifestação de uma crise da
civilização nascida na Renascença, é a primeira provocação do
personalismo; ora, essa consciência de crise estava longe de
ocupar lugar de destaque no cerne do pensamento representa
tivo na França, em 1932; sobretudo na filosofia universitária,
não desempenhava qualquer papel decisivo; ainda menos se
achava ela capacitada a orientar de maneira radical uma voca
ção filosófica. É portanto uma dúvida metódica de caráter
histórico e cultural que estimula tôdas as reflexões de Emma
nuel Mounier. E êle as enfrenta não pelo desespêro, por uma
profecia da decadência ou uma atitude descritiva,mas pelo
3 Manifeste au service du personnalisme, col. Esprit, Aubier 1936,
pág. 9 ( Oeuvres, t. I, Ed. du Senil).
137
projetar de uma nova Renascença. "�efaz�r a Renascenç�" :
eis 0 título do primeiro editorial de Esprtt assmado por Moumer.
Esta palavra de ordem, que vincula uma tarefa a uma cons
ciência de crise assinala os marcos extremos do personalismo
de 1932 · não s� trata liminarmente, de analisar uma noção, de
descreve� uma estrut�ra, mas de influir na história por um
certo tipo de pensamento de combate.
Tal intenção vai além daquilo que habitualmente enten
demos por uma "filosofia"; ousaria dizer que �mmanuel �ou
nier foi o pedagogo, o educador de uma geraçao; com? Peg�y.
Mas seria preciso retirar destas palavras sua dupla hm!!açao;
0 referirem-se a uma infância que nos propomos a conduztr a
idade adulta e o vincularem-se a uma função de ensino, a um
corpo social
'já diferenciado (como se diz, por exemplo, a "Edu
cação Pública") ; ou ainda diria eu que Mounier p�egou uma
conversão se fôsse possível transplantar essa expressao das co
munidade� religiosas para o plano mais largo de uma civilização
tomada em conjunto.
O personalismo: de início, uma pedagogia da vida comu
nitária vinculada a uma conversão da pessoa.
Em 1932-34, essa intenção mais ou menos do que uma
"filosofia" no sentido de que o projeto de uma nova época his
tórica imPlicava uma "filosofia" e talvez diversas "filosofias"
no sentido escolar da palavra; era o que Emmanuel Mounier
acentuava ao dizer que o personalismo envolve os personahs
mos. Sua grande contribuição ao pensamento contemporâneo
foi ao situar-se acima de uma problemática filosófica em sen
tid� estrito, acima das questões relativas a pontos de partida,
de método e de ordem, oferecer aos filósofos de profissão uma
matriz filosófica, propor-lhes tonalidades, modos de apresentar
teóricos e práticos podendo desaguar em uma ou em várias filo
sofias, tendo em seu bôjo uma ou várias sistematizações filosó
ficas. É essa, para muitos de nós, nossa dívida verdadeira para
com nosso amigo. Sem dúvida, em 1932-34 essa conversão e
essa pedagogia eram menos do que uma filosofia, no sentido
de que a teoria dos valôres, da história, do conhecimento, do
ser, que pressupunham, permanecia implícita. Mas, confon_ne
veremos adiante, os livros do pós-guerra infletiram a pesqmsa
em sentido mais filosófico, interpretando o personalismo como
uma das filosofias da existência. Em 1949, dizia Emmanuel
Mounier: "É o personalismo uma filosofia e não apenas uma
138
atitude . . . é uma filosofia, não é sistema. Pelo fato de precisar
estruturas, é o personalismo uma filosofia e não apenas uma
atitude . . . Mas pelo fato de ser sua afirmação central a exis
tência de pessoas livres e criadoras, êle introduz no cerne de
tais estruturas um princípio de imprevisibilidade que remove
tôda veleidade de sistematização definitiva" (Le Personnalisme,
pág. 6 ) .
A mim me parece, portanto, ter o pensamento de Emma
nuel Mounier de 1932 e 1950 sido um movimento orientado
de um projeto de civilização "personalista" a uma interpretação
"personalista" das filosofias da existência. O sentido de tal
translação de acento será delineado com precisão no curso do
presente estudo.
CONVERSÃO PESSOA E PEDAGOGIA COMUNITÁRIA
Projetar uma civilização supõe por certo que uma civili
zação é, em parte - e parte decisiva - obra de homens. Fa
zer, desfazer, refazer a Renascença é tarefa do homem. O per
sonalismo se entendia como "o conjunto dos consentimentos pri
mordiais em que se pode fundamentar uma civilização devotada
à pessoa humana" (Manifeste . . . , pág. 8 ) .
1 . Refazer a Renascença
Bem se poderia denominar ética tal emprêsa, se justamente
não houvesse E. Mounier repelido com horror o espírito do
moralista, que sempre lhe pareceu perdido nas generalidades e
na eloqüência, amesquinhado às dimensões do indivíduo, sem
pesar na história e maculado pela hipocrisia; essa crítica do mo
ralismo identifica-se com um dos elementos da crítica perma
nente do idealismo que encontraremos de contínuo ao longo do
caminho.
Mas graças à sua crítica do "êrro doutrinário ou moralista",
Emmanuel Mounier terá precisamente contribuído para restau
rar o prestígio da ética, fazendo-lhe atravessar tôda a espessura
das técnicas, das estruturas sociais, das idéias, e erguer n pêso
dos determinismos e das inércias ideológicas. Terá tornado real
e verídica a ética. A longa caminhada do zêlo ético através da
139
carne das sociedades não faz senão tornar mais resplendente
a afirmação fundamental da revolução personalista e comunitá
ria: uma civilização é "antes de tudo uma resposta metafísica
a um apêlo metafísico, uma aventura de ordem eterna, proposta
a cada homem na solidão de sua escolha e responsabilidade . . . "
(Manifeste . . . , pág. 1 1 ) . "Cada idade só realiza tarefa mais
ou menos humana, se escuta antes de tudo o chamado sôbre-hu
mano da história . . . Nosso objetivo longínquo continua a ser
aquêle que nos atribuímos em 1932: após quatro séculos de
erros, pacientemente, coletivamente, refazer a Renascença"
(ibidem, pág. 1 5 ) .
Esta convicção preliminar de que uma civilização emerge
por fôrça das opções e consentimentos, aliás mais vividos e
"atuados" do que refletidos, por fôrça dos valôres em marcha,
eis o que Mounier denominava "primazia do espiritual", embora
opondo-o com violência ao espiritualismo que desterra o espí
rito em outro mundo. Mas essa convicção, Mounier não a
assumiu de saída como problema sociológico preliminar, como
questão especulativa da forma: quais são as relações dialéticas
entre as opções dos homens e os ônus econômicos, políticos,
ideológicos? Esta convicção êle a arriscou e jogou ao mesmo
tempo na leitura do acontecimento e no projeto de tarefa a
empreender. Nesse sentido ela pertence antes à ordem da pra
xis que da the01·ia: é assim que se estimula qualquer conversão,
qualquer pedagogia, qualquer Reforma.
ílste mesmo estilo prático se reconhece na própria eluci
dação do tema personalista: desde o início evita Emmanuel Mou
nier começar por definições abstratas; orienta-se antes, por um
certo tato concreto, por entre fórmulas de civilização, exercendo
uma espécie de "discernimento dos espíritos". :Bsse tato procede
antes de mais nada de maneira crítica: tôdas as pesquisas per
sonalistas de antes da guerra começam pelo "estudo crítico das
for�as de �ivilização cujo ciclo se encerra ou daquelas que, por
melO de onentações primeiras, procuram se lhes suceder" (ib;
dem, pág. 1 5 ) . A maneira própria de Emmanuel Mounier é
de reassumir êsses tipos de civilizacão em "formas puras" "dou
trinas limite", "direções experimentais" (Révolution pe;sonna
liste . . . , pág. 75) .
O burguês é a "figura" fundamental a servir de contraste·
aqui o demônio de Sócrates diz não. A chave de tôdas as ob:
servações sôbre o mundo do burguês é compreender de modo
140
global como alguma coisa que por essência se desfaz, como
um movimento de consunção. O burguês é um estilo de des
censão: do herói ao burguês; dos valôres de conquista e criação
aos valôres de confôrto. Essa intuição do negativo no burguês
conduz a tôdas as reflexões sôbre a oposição entre indivíduo
e pessoa. O indivíduo é preliminarmente um pólo de civiliza
çãü, ou, mais exatamente, um contrapólo; sob êsse têrmo, iden
tificou Mounier a coalisão de diversas tendências em aparência
disparatadas, mas entre as quais circula a mesma corrente as
cendente : o desordenado das imagens superficiais, dos diversos
personagens entre os quais se divide o homem sem interiori
dade, a complacência nessas imagens, a avareza fundamental
de um ser sem generosidade, a segurança na qual êle se enquista,
e por fim a fria reivindicação, racionalista e jurídica, com a
qual êle se protege. Dêsse modo coagula-se um "mundo" do
indivíduo que é simultâneamente o mundo da aparência e da
consideração, o mundo do dinheiro,o mundo da impersonali
dade, o mundo do juridicismo.
Se o mundo do burguês, do qual o indivíduo é o perfil
limite, é um mundo baseado no "menos" (amar menos e ser
menos) , o mundo do fascista é o mundo do "pseudo" : selli
entusiasmo é uma pseudogenerosidade, seu nacionalismo uma
pseudo-originalidade, seu racismo uma pseudoconcreção, sua
agressividade uma pseudofôrça. Tal foi o grande equívoco dos
anos de 1933 a 1939, cuja impostaria foi desmascarada em defi
nitivo em Buchenwald.
Assim o mundo da pessoa se reconquista graças à sua per
da e caricatura.
2 . O Mundo da Pessoa
É ainda como "mundo da" pessoa que esta é antecipada
de modo positivo. Por certo, já em 1932, encontramos fórmu
las tendentes a uma definição estrutural, tal como se há de
encontrar com freqüência após a guerra: assim a pessoa se
opõe ao indivíduo como a unidade viva para além dos perso
nagens, com "o centro invisível ao qual tudo se vincula" (Révo
lution personnaliste . . . , pág. 69) , como a "cifra única", que
seria uma "presença em mim" (ibidem) . Repugnam-lhe os va
lôres de fuga e refúgio do espiritualismo. Aspira a transfigurar
141
seu corpo e a história. Mais q�e tudo, ela despreza a avarez�
do indivíduo. O indivíduo é exigente e se apodera; a pessoa da
e dá-se. Pessoa é generosidade. . . .
Mas estas fórmulas não se podenam desvmcular do Im
pulso pelo qual me V?l�o-
para um "mundo" en:- v�a� de instau
ração; são menos deftmçoes da. pessoa �o que mdtc�os v:?ltados
para uma civilização a constrmr-se;
.
�ssm;, a
_
v,�caçao nao te!ll
sentido senão para um mundo da medttaçao , a encarnaçao
senão para um mundo de "comprometimentos", a comunhão,
para um mundo de "despojamentos". Ora, me
.
ditação, compr?
metimento, despojamento descrevem uma soc�edade que sena
uma "pessoa de pessoas" -:- uma comu?idade. A pe.sso.a
�
é a
figura - limite da comumdade verdade1�a, como o mdiVId??
0 é da não-civilização burguesa e o facciOSO, da pseudociVIh
zação fascista.
J'o: nesse sentido que Mounier insistia na partícula copula
tiva da expressão Revolução personalista e comunitária; o e
significa a intenção única voltada para o Eu e o Nós ("Se não
fôsse a miséria da linguagem, seria supérfluo falar de filosofia
personalista. E comunitária", ibidem, pág. 91 ) ; o despertar
da pessoa é a mesma coisa que a pedagogia da comunidade.
Eis por que não se deve separar as fórmulas sôbre a pessoa
do esbôço de uma "ascese comunitária" (ibidem, pág. 96) que
tornamos a encontrar sob formas diferentes nos escritm. de antes
da guerra e cujo sentido inteiro está, por sua vez, em ser uma
"iniciação à pessoa". Contentar-me-ei de relembrar apenas seus
pontos mais importantes, de vez que meu objetivo não é resu
mir a pesquisa de Emmanuel Mounier, mas pôr em relêvo os
respectivos processos e intenções.
A partir de 1932, via êle no "Alguém" como Heidegger
(Révolution personnaliste . . . , pág. 79) aquela figura-limite da
despersonalização maciça muito bem ilustrada pela "insulsa ge
léia dos leitores de Paris-Sair" (ibidem, pág. 80) ; depois, pas
sava êle ao nível das sociedades caracterizadas pelo "quanto a
nós", parcialmente realizadas pelos grupamentos de "partidá
rios" e fundadas na camaradagem e no companheirismo; a abne
gação e o heroísmo dêles nos colocam acima das "sociedades vi
tais", dirigidas para os valôres do bem-viver, da felicidade, mas
que lhes sã-o inferiores devido à destruição da iniciativa indivi
dual e da espontaneidade nas relações mútuas. Mais acima
acham-se as "sociedades racionais", que oscilam entre dois níveis
142
de impersonalidade, o de uma "sociedade de espíritos" realizada,
por exemplo, por um congresso científico, e o de uma "socie
dade jurídica contratual" para a qual tende o juridicismo de
mocrático.
Conforme se vê, êsses tipos de sociedade representam me
nos categorias sociológicas objetivas, à maneira das distinções
elaboradas por Durkheim ou mesmo Bergson, do que -os está
gios de uma "ascese" dirigida para a figura-limite de uma
"pessoa de pessoas". Esses estágios melhor se comparariam aos
de Kierkgaard num outro registro, ou ainda aos "graus da ciên
cia" de Platão e Spinoza; Max Scheler sugeriu manifestamente
alguns dêsses estágios. Trata-se em todos êsses casos, não de
tipos empíricos surgidos da observação, mas de fórmulas pos
síveis de vida em comum, 8: balizar um movimento de cada um
e de todos em direção à perfeição. Trata-se, em suma, de mo
mentos pedagógicos. 4
3 . Personalismo e cristianismo
Íl aqui que se situa legitimamente a questão das relações
entre tal pedagogia e, duma parte, o cristianismo, e doutra, o
marxismo. A conversion do primeiro, a praxis do outro, são evi
dentemente postas em questão por êsse despertar e essa ascese.
Não se pode negar que aquela pedagogia se inspire dire
tamente no tema cristão da "santificação": a figura do "santo"
atrai a si a comunidade personalista, da mesma forma c-omo
4 Não posso, no quadro de um estudo sôbre Emmanuel Mounier
filósofo, mostrar como uma pedagogia engloba uma política, isto é, de
que modo aquela supõe esta última, situando-a em perspectiva mais
vasta. :É ainda a figura típica do burguês que faz do problema do
dinheiro a chave de tôdas as análises sociológicas de Mounier: Argent
et Vi e privée, Anticapitalisme, Note sur la propriété, etc . . . (Révolution
persomzaliste, págs. 147 e segs.) ; De la Propriété capitaliste à la pro
priété humaíne (Aubier, 1934; retomado em Liberté sous conditions,
1949). Seria preciso ver de que modo se vincula à pedagogia de Mounier
sua "ética das necessidades" que inspira suas posições com relação à
propriedade e ao socialismo. Sobretudo, porém, não deveria um estudo
filosófico ofuscar a luta constante contra o preconceito antitecnicista:
"Não é o personalismo um jardim fechado, no qual o dvilizado se
abriga da civilização, mas o princípio que deve animar, restabelecendo-a
em seu nível próprio, tôda civilização" (Révolution personnaliste,
pág. 152).
143
a do "her6i'*, a sociedade Iascita (Révolution personnaliste . . . ,
pág 75· Manifeste . . . , pág. 79) . . · A generosidade da pessoa tem por paradigm�, a v1rtu�e
teo!ogal da caridade, e a mutualidade. das pessoas a comunh�o
d 8 sant,os" confessada no Credo cnstão. Um pequeno en�a10, 0
't dur�nte 0 inverno de 1939 e intitulado Personnal!sme escn o . , _ · -
et Christianisme, s vincula de modo expresso � pregaçao cnsta,
que rompia com as maneiras do pensamento 1mpes�oal ,� natu
ralista dos gregos, o acesso ao mundo da pessoa; e � exube
rância divina" (pág. 20) que suscita centros pessoa1s de res
ponsabilidade, sêres capazes de dizer ."Adsum!" pres�nte! (pág.
25) ; é 0 mesmo influxo cristão que mvoc� o despo!,ame�to do
ser, que dêsse convida à pobreza de �enllmentos: TomfJCa e
viriliza a pessoa, mas desarma-a. Aqmeta-lhe as vontades para
abri-Ia ao abandono" (pág. 3 1 ) . Outros, que não eu, hão de se
pronunciar sôbre aquilo que o cristianismo de Emmanuel Mou
nier possuía de especificamente católico, não sàmente do ponto
de vista da doutrina católica da autoridade (págs. 54-60), mas
também quanto à doutrina do pecado (contra Lutero, págs.
50 58 67) e sobretudo da "natureza" (páginas capitais :
69:72) ; ' de modo geral se acha Mounier na linha de um to
mismo essencial, cujo humanismo lhe surge como linha de
cumieiras entre o pessimismo luterano e o otimismo do Século
das Lnzes. Mas sua função própria, em relação a êsse tomismo
essencial é ter estendido ao máximo a noção de "natureza" no
sentido da invenção histórica, da audácia e do risco: eis por
que, finalmente, êle prefere referir-se à "condição humana" an
tes que a "natureza humana" ( ibidem, pág. 72) .
5 Liberté sous conditions. Três ensaios : Personalisme et christia�
nisme (1939); De la propriété capitaliste à la pr�priété humaine (1934 ) ;
Anarchie e t persowwlisme ( 1937), Ed. du Semi, 1946 (Oeuvres, t . I,
Ed. du Seuil) .
6 "O que a Igrejada luz do verdadeiro; em filosofia e em teologia da
· .·· ' ·
· progresso - ambigüidade - ·esperança; angústia vital
. · :__ angústia psíquica - angústia histórica - angústia ética -
angústiq metafísica, etc ...
Esse comportamento comum poderia não ser senão um pro
cesso de exposição se não exprimisse diretamente, no plano retó
rico, um comportamento da própria reflexão e se não traísse
finalmente, ao mesmo tempo no plano da expressão literária e
no plano do encadeamento reflexivo, aquilo que acima denomi
nei o impacto 'filosófico da esperança. Uma simples observação
· sôbre a composição formal nos conduz assim, de um só golpe,
ao essencial.
·
Não desejo retornar aqui às dificuldades de ordem propria
mente metodológica suscitadas pela inserção na reflexão filosó
fica de um momento escatológico; com referência desta vez an
tes dos textos ·da segunda parte, estaremos talvez melhor arma
- dos para .explicitar a função teórico-prática dêsse tema e para
precisar o sentido daquilo que denominei um sentimento racional
regulador e purificador tanto do ceticismo quanto do fanatismo,
do ceticismo que renuncia à procura do sentido, do fanatismo
que o confere prematuramente.
Digo que o impacto filosófico da esperança é o próprio
-comportamento da reflexão, que por sua vez se imprime no com
portamento da composição; entendo dêsse modo que aquilo que •... ��!����:�:� escatológica denomina esperança se recupera refle-
na própria espera de tôda síntese, no adiamento do
de tôdas as dialéticas; o Oltimo Dia, para a filosofia,
-����i:(�a; o sonho de qualquer happy end no horizonte fan
_ : t nossos combates; é nesse sentido que 110 Reino de
vsempre h á de conservar do "natur�Ii�mo" de �ão
Tomás é, antes de tudo, a afirmação de humanism� cnstao, qt;te . e a
alma de tal "naturalismo" (contra Lutero, a ortodoxta e o pesstmtsmo
dos políticos realistas) " . . . É em seguida a idéia de que as �o�s�ruções
mais aventurosas do homem devem repousar num solo pnmano, em
algo de nativo . . . " (contra a antropologia racionalista e sua idéia de
uma invenção do homem pelo homem sem estrutura e sem fundamento)
11 • • • É nesse sentido que uma política católica há de sempre recordar
às utopias evangélicas ou racionalistas o valor dos vínculos, o pêso da
duração, os limites do sonho" (ibidem, pág. 7 1 ) .
144
Seria o caso de se dizer que o personalismo é, por exce
lência, cristão (e católico)? Não correria a comunidade o risco
de se tornar uma projeção temporal e laicizada do "reino de
Deus", como precisamente a "cidade dos fins" do kantismo ou
a sociedade sem classes do comunismo? Por outro lado, não é
apenas uma questão de ortodoxia cristã, mas algo que diz res
peito à possibilidade de colaboração de cristãos (de confissões
diferentes) e não cristãos no seio de um personalismo relati
vamente coerente. Ora, Mounier jamais cessou de afirmar que
tal colaboração era, em princípio, possível.
Parece-me que aqui a posição de Gabriel Marcel sôbre as
relações entre pesquisa filosófica e fé cristã é muito esclarece
dora: o tema da pessoa surge e ganha significação numa zona
"pericristã" da consciência ética, numa zona de sensibilização
que recebe verticalmente a prédica cristã e lateralmente a in
fluência fecundante das atitudes cristãs mais autênticas, mas
que, por essa dupla fecundação, explícita suas possibilidades
próprias. Pelo cristianismo o homem ético, o homem capaz de
civilização, abre-se às suas próprias antecipações. Se é assim,
o personalismo não será nem confusão no que toca ao cristia
nismo, nem ecletismo no que toca ao lado não cristã-o.
É nesse sentido, parece-me, que Emmanuel Mounier se
refere a "valôres", a "escala de valôres" (materiais, vitais, ra
cionais, espirituais ) ; mais ou menos como Max Scheler e seu
discípulo Paul Landsberg, 7 de quem foi amigo até sua morte
trágica no exílio, Mounier interpreta os valôres como exigências
permanentes, mas inconsistentes fora da história escrita por pes
soas. O personalismo supõe, portanto, uma ética c-oncreta, re.:.
!ativamente independente da fé cristã, independente quanto a
suas significações, dependente quanto ao ato de seu apareci
mento em tal ou tal consciência. É ainda nessa perspectiva que
Mounier, antecipando-se já antes de 1939 ao seu futuro debate
comtôda sua exi-
147
gência revolucionária, o fio exíguo da história efetiva, n�o con�
fiando "o tesouro espiritual da Humanidade a êsse cantao par
tidário nesse cantão da duração temporal!" (Révolution person
naliste, pág. 140) .
DO EDUCADOR AO FILÓSOFO
A Frente Popular, a Guerra de Espanha, Munique, a Guer
ra Mundial, a Resistência, a política das frentes nacionais . . . ;
poderia a "filosofia" personalista atravessar incólume tal den
sidade de acontecimentos, nenhum dos quais foi apenas um
fato bruto, a sofrer e a explicar, mas foi, cada qual, também
uma questão que se apresentava e a oportunidade de uma op
ção? Outros, que não eu, dirão aqui quais foram essas opções,
sua liberdade e coerência.
Vejo, em tais oportunidades, lançar-se o pensamento de ·
Emmanuel Mounier em três direções: de um lado, o seu perso
nalismo, a criticar-se a si mesmo, põe-se em guarda contra suas
próprias tentações, puristas, idealizantes, anarquizantes, e faz
o esfôrço máximo no sentido de tornar-se dócil ao ensino do
movimento da história: situam-se nessa linha Q'est-ce que le
personnalisme? s e La Petite Peur du XX e siêcle. 9 Mas, ao
. mesmo tempo que desaprova um "personalismo da pu
reza", Mounier a profunda e purifica o motivo cristão de seu
personalismo. Não se deve violar o antipurismo dos dois livros
precedentes da purificação evangélica que se exprime em L'Af
frontement chrétien. lO É em função dessas duas linhas de pen
samento que se deve apreciar o esfôrço "filosófico" (em sen�
tido estrito) para situar o personalismo em relação às ciências
do homem, de um lado, e em relação às filosofias da existência,
do outro. O grande Traité du caractêre 11 - grande no tama
nho, na amplidão da perspectiva e na quantidade das questões
abordadas - a /ntroduction aux existentialismes 12 e o Person-
8 Qu'est-ce que le persomwlisme? Ed. du Seuil, 1947 (Oeuvres,
t. III).
9 La Petite Peur du XXe sii!cle. Cahiers du Rhône, La Baconniere
et Ed. du Seuil, 1948 (Oeuvres, t. III). 10 L'Affrontement chrétien. Cahiers du Rhône, Ed. de La Bacon-
niere, Neucbâtel, 1944 (Oeuvres, t. III).
11 Traité du caractere, Ed. du Seuil, 1946 (Oeuvres, t. Il).
12 lntroduction aux existencialismes, Denoel, 1946 ( Oeuvres, t. III).
148
��lism_e d�, 1950 vinculam-se a essa terceira linha, propriamente
filosoflca , na qual o acento se desloca dos problemas de civi
lização e revolução para os problemas sobretudo teóricos de
estrutura e estatuto existencial da pessoa.
1 . uAntipurismo" e (5 1 ) . Ater
rorizado outrora pela natureza indomável, o homem o é hoje
pelo universo humano: a isto, responde êle por "urna reação
de menino embaraçado" (pág. 83 ) . O método de Mounier con
siste, pois, em primeiro explicar, e assim reduzir o mito antitec
nicista para focalizar os verdadeiros perigos, os perigos de um
mundo especificamente humano, perigos provenientes não ape
nas da máquina, mas de todos os aparelhos abstratos, de tôdas
as "mediações" que o homem inventa entre êle próprio e as
coisas, como entre êle e os outros homens (Direito, Estado,
Instituições, Ciências, Idiomas, etc . . . . ) : "Onde existe media
ção, a alienação está à espreita" (pág. 9 1 ) .
Esta última observação sugere que a idéia de progresso,
ainda quando corrigida, não exclui da história uma ambigüidade
irredutível, uma dupla possibilidade de petrificação e de liber
tação : as situações que o homem inventou e que depois se
interpuseram em sua rota como enigmas à espera de decifração,
são um complexo de oportunidades e de perigos. Mas a tarefa
do homem é correr seus próprios riscos; a partida na direção
do artificial vincula-se à própria condição de homem na medida
em que êle tem uma "História" e não mais só uma "natureza".
Nesse particular, Mounier chega bem perto de Marx: "A natu
reza não é apenas matriz da Humanidade: oferece-se ao homem
151
para ser por êste recriada . . . O hom�m. se vê h�ie
,
cha;nado a
ser o demiurgo do mundo e de sua propna cond1çao (pag. 75) .
Aqui atinge a reflexão o ponto decisivo: essa história
c-onstitutiva de um destino tomado em conjunto terá acaso sen
tido? Orienta-se tal sentido para algo de melhor? Esse algo
melhor terá como caminho por excelência o desenvolvimento
das ciências e das técnicas? E finalmente o sentido dessa as
censão será para o homem "a missão gloriosa de ser o autor
de sua própria ascensão?" (pág. 1 04) . Eis o complexo de ques
tões que constitui o problema do progresso. Emmanuel Mou
nier aborda-o concedendo um crédito de confiança, embora se
reserve o direito de criticar antes um certo otimismo inicial
que um pessimismo inicial. Todo êsse livro tende a substituir,
na alma do leitor, o regime afetivo do "pessimismo ativo" pela
disposição contrária do "otimismo trágico", isto é, o clima da
confiança corrigido pela experiência do combate indeciso e obs
curecido pela possibilidade do malôgro. Não se deve acusar
Mounier de ter sistematizado sua apologia do progresso : suas
páginas mais lúcidas são aquelas em que se faz a distinção da
escatologia cristã do progresso face ao racionalismo do século
XVIII ou face à dialética marxista. Em particular, o emprêgo
que se faz do Apocalipse, na primeira e na terceira conferên
cias, conduz-nos a atribuir ao otimismo posição privilegiada,
mas com m] reservas que não temos o direito de negligenciar.
A bem dizer, o "clima", o "tom" que Mounier designa pelo
nome de otimismo trágico é algo mais complexo do que poderia
parecer à primeira vista: traz no bôjo duas tendências prestes
a se disso�ia
_
rem; uma, que permanece em primeiro plano, tende
para o ot1m1smo como resultante final do drama; a outra mais
discreta, tende para o sentimento de ambigüidade da hi�tória,
em cujo seio se digladiam o melhor e o pior. Emmanuel Mou
nier pôs sem dúvida em cena um debate de interêsse de histo
riadores� soc�ólogos,Jilósofos, teólogos; a questão que deixa em
aberto e a mterseçao duma teologia bíblica e duma filosofia
profana de história, na encruzilhada do otimismo como ba
lanço �ositivo, em face dos olhos humanos, e da esperança
como ftrme certeza de um sentido oculto. Mas uma vez mais
sua tarefa própria é pôr-nos de sobreaviso contra uma aborda
gem especulativa do problema, desvinculada da crítica do mun
do contemporâneo e isolada do problema central da Revolução
do século XX.
152
2 . Em prol de um cristianismo dos fortes
Tal grau de proximidade em relação ao movimento da his
tória conduziria um espírito fácil à divinização do homem. Mas
quanto mais acentuava Mounier seu parentesco com a dialética
marxista, tanto mais êle se reequilibrava por um senso abrupto,
virulento, da transcendência cristã. Eis por que não se deve
tomar La Petite Peur du XX• Siecle sem L' Affrontment chré
tien. Este livro foi escrito em Dienlefit, no inverno de 1943-
1944, símbolo de tanta pobreza material e de ascese interior.
Outro, que não eu, dirá o que foi em Emmanuel Mounier o
cristã-o; quanto a mim, só buscarei nesse livro, tão duro para
o cristão ordinário, tão exigente, suas incidências filosóficas.
Pode-se dizer que êle, por inteiro, uma meditação sôbre a vir
tude da fôrça, da qual tratou São Tomás, depois dos Padres.
Não é por acaso que essa obra é possuída pela idéia fixa de
Nietzsche como a Petite Peur o é pela de Marx. Pois só o
cristão que tem algo a retrucar a Nietzsche é cristão assaz duro
para não mais se deixar dissolver na parcela de marxismo que
assume. Nêle se acha a articulação dos dois primeiros grupos
de meditações publicadas após a guerra. Nietzsche propõe ao
cristão um problema que no fundo o atinge mais perto do cora
ção que o marxismo; pois ,o argumento anticristão do marxismo
ainda permanece muito sociológico para produzir comoção
maior: respondeu-me depressa demais que Marx só havia conhe
cido uma caricatura do cristianismo, uma cristandade decaden
te, que se apressava em cobrir os privilégios da burguesia com
um Evangelho pervertido da resignação. Ao passo que Nietzs
che é aquêle que, para além do malôgro sociológico da cristan
dade, pretende descobrir um malôgro de origem, vinculado à
existência cristã como tal; "Será verdade que o cristianismo,
capaz de lançar um clarão tranqüilo sôbre as civilizações enve
lhecidas e as vidas em declínio, é um veneno para as muscula
turas jovens, um inimigo da fôrça viril e da graça natural ( . . . ) ?
( . . . ) Traria acaso o cristianismo em seu bôjo alguma fraqueza
liminar cujos efeitos emergem enfim à luz depois de terem
sido retardadas pela lentidão e a complexidade da história?"
(págs. 1 1 e 14) .
Emmanuel Mounier procura servir-se da "conversão atéia"
como provação à "conversão cristã" (págs. 23-24) .
]53
A primeira iniciativa do cristão, s-ob a conduta do "�ava
leiro vestido de sombra", é tomar a encontrar aquela qualidade
do trágico cristão digna do diálogo com Nietzsche: trági�o de
paradoxo - pois que é preciso m.orr�r ao mundo e nel: se
empenhar afligir-se pelo pecado e rejubi1ar-se pelo homem novo.
Mas que 'decadência dêsse trágico ao "espírito de nôvo-rico"
do cristão ordinário
'
à "tristeza terna e algo estúpida" do con
trito à "náusea de
'
viver dos desfavorecidos ou dos anêmicos
do �ombate espiritual", à "rovardia espiritual" e à "morna e
estéril pureza" dos vir�uos?s! . . . . A segunda iniciativa e descobnr no cerne do cnstmmsmo
autêntico êsse momento que transborda do trágico e o distingue,
afinal do desespêro: "Existe no cerne do cristianismo, para
além 'da ascese do paradoxo, da angústia e do aniquilamento,
uma ascese da simplicidade, da disponibilidade, da paciência,
da humildade fiel, da doçura e, deve-se mesmo dizer, da fra
queza, da fraqueza sobrenatural" (pág. 37). É mesmo, segundo
Mounier, nesse fletir-se do trágico à "fraqueza" que se encon
tra a armadilha da insipidez, da falta de côr, da vileza e de
tôdas as fugas.
"Há uma côr e uma fôrça vital no instante que se perde
realmente antes de serem reencontradas no fim da liberdade es
piritual. Existe um primeiro empobrecimento real de nossa hu
manidade pela Fé" (pág. 37).
É então preciso ainda que o cristão aprofunde o sentido
de sua humildade e a dissocie impiedosamente dêsse servilismo
que assume tantas faces desprezíveis : neo-realismo e legalismo,
gôsto pelas direções espirituais que nos livram de escolher, e
essa resignação aos acontecimentos denunciada por Marx . . .
O verdadeiro cristão é aquêle homem livre e altivo que só se
dobra diante de Deus e não desanimano caminho "do abai
xar-se ao afrontar" (pág. 8 1 ) .
3 . Pessoa e caráter
Não se poderia abordar os livros mais especialmente "filo:
sófic-os" - o Traité du caractere, a /ntroducüon aux existen
tialismes, o Personnalisme 13 - sem ter presente ao espírito a
13 Taité du Caractere, Ed. du Senil 1946. - lntroduction aux Exis·
tentialismes, Denoel, 1946. - Le Pe;sonnalisme, col. Que sais-je? P.
U . F., 1950.
154
. J
, ,
,.
I '
intenção civilizadora das primeiras pesquisas e sem vincular-lhes
a dupla autocrítica sugerida pelo encontro de Marx e Nietzsche.
O personalismo aperfeiçoou seu alcance filosófico de dupla
maneira: de um lado, pondo-se em confronto com as ciências
do homem, com os processos objetivos, portanto, para a eluci
dação da pessoa. Doutro lado, situando-se em relação às filo
sofias da existência. As duas emprêsas são convergentes, con
forme se verá.
Deve-se dar precedência ao Traité du caractere em relação
aos dois outros livrinhos, ainda que só por sua amplitude; mas
principalmente, porque sob muitos aspectos êle é comparáv�l aos livros habituais dos filósofos. Isto se deve antes de mais
nada às circunstâncias em que foi escrito; ns lazeres forçados
da prisão e o longo retiro de Di�nlefit colque inversamente a vocação passa pelos cammhos e limites
que debuxam a invencível figura do caráter: Tal é a íntima solicitação dessa -obra tao complexa.
Vê-se ao mesmo tempo em que sentido a pessoa é caráter:
0 caráter é outra denominação da pessoa, quando ela se acha
diante das ciências do homem e atesta seu poder de incorporar
e transcender simultâneamente tôdas as dimensões do conheci
mento antropológico.
4 . Pessoa e existência
Congregar e transcender o objeto: tal é precisamente o sen
tido da existência para uma crítica do conhecimento e para uma
ontologia: será pois suficiente trazer à luz essa crítica e essa
ontologia para inaugurar um confronto com as filosofias da
existência.
Mas aí o personalismo transpõe para êsse nôv-o plano de
referência tudo quanto adquiriu anteriormente à irrupção dos
existencialistas na França, sobretudo sua experiência de uma
ligação liminar entre pensamento e ação.
Dêsse ponto de vista o Introduction aux existentialismes
tem um interêsse próprio para a pesquisa doutrinai. Excelente,
aliás, como introdução histórica, procura êsse livrinho manter
aberto, com o maior ângulo possível, o leque dos existencialis
mos, impedindo que êle se reduza ao de Jean-Paul Sartre (pág.
8 ) . � então em ampla tradição existencialista que se recoloca
o personalismo: "Em têrmos gerais, poderíamos caracterizar
êsse pensamento como uma reação da filosofia do homem con
tra o excesso da filos-ofia das idéias e da filosofia das coisas"
(pág. 8 ) .
É interessante vermos Emmanuel Mounier, tão zeloso em
proceder a uma ruptura na linha da civilização, dedicando-se ao
contrário a sublinhar a continuidade filosófica da tradição na
qua! se apóia. Isto não nos deve surpreender: já em 1932,
havm Emmanuel Mounier acentuado que era sôbre um fundo
de Pf!rmanência de valôres que se debuxava a "Revolução per
sonalista e comunitária", que essa revolução devia proporcionar
uma nova realização histórica a antiga exigência. Além disso,
158 I
êsse desígnio de mostrar a amplidão presente e a coerência
tradicional dos existencialismos não é estranha às preocupações
fundamentais do movimento Esprit: aproximando o persona
lismo cristão de uma das grandes tradições existencialistas e
ao m-ostrar, por um lado, uma origem comum a tôdas as rela
ções existencialistas, uma maneira comum de situar os proble
mas e os temas comuns, continua Mounier a trabalhar por uma
união que respeite um pluralismo filosófico, mas conserve uma
intenção central.
�ste desígnio tem a servi-lo um método original; em lugar
de escrever uma série de monografias consagradas aos diferen
tes existencialismos, cada uma das quais teria exigido uma ver
dadeira crítica das fontes, das influências e das filiações, prefere
Mounier pôr em evidência "certos temas diretores" comuns em
tôrno dos quais faz modular sucessivamente as diversas tra
dições.
Se percorrermos êsses "temas diretores", aparecem clara
mente dois pontos : em primeiro lugar o personalismo uão se
integra às filosofias existencialistas senão em prol de um estoi
rar da filosofia tradicional e em particular da filosofia universi
tária: o fim do privilégio, da teoria do conhecimento é o sinal
mais visível dêsse estouro. A problemática do conhecimento
assim se pode exprimir: como pode uma coisa ser objeto para
um sujeito? Em estilo idealista: que é que, do lado do sujeito,
torna possível o surgir, para êle, de um objeto? Uma proble
mática do conhecimento aborda sem dúvida o homem, mas só
sublinhando nêle êsse aspecto que toma possível uma ordem
do lado das coisas. É, portanto, em suma, a coerência de um
muudo que se conhece e explica que constitui a preocupação
da teoria do conhecimento, mesmo quaudo só se trata do su
jeito e de suas possibilidades como sujeito. As filosofias da
existência procuram tôdas recolocar o cognoscente no existente,
o sujeito uo homem. A omissão do existente é aqui o "pecado
original filosófico" (pág. 1 9 ) . Esta reintegração da problemá
tica clássica do conhecer no seio de uma problemática mais
ampla traz ao primeiro plano a questão da condição humana
tomada em coujunto; devolve-se a prioridade a uma drama
turgia, na qual a liberdade e o corpo, a morte e a falta, a paixão
e o hábito, a história e a vida privada são as principais provo
cações da reflexão. Face a esta renovação, sente-se tanto me
nos estranho quanto é certo que para tal contribuiu. Eis por
159
"temas diretores" da Introduction aux existentialismes que os
T · ' d t" d são parentes chegados dos temas do
1.
r�lte u
d
carac ere e _o
Personnalisme. O "despertar persona tsta , segun o a expressao
de 1936, soa como o "despertar filosófico" do existencialismo
(págs. 1 5 e 154-155 ) .
_
Mas é chegado o momento da segunda observaçao: a des
peito dêsse parentesco, subsistem certas diferenç�� na intenção
inicial; mesmo quando subordin_am uma problemal!ca de conhe
cimento a uma exegese da condição humana, conservam os exis
tencialismos um tom especulativo, teórico, que continua a apa
rentá-los à tradição das filosofias clássicas. A crítica do "sis
tema" e da "objetividade"' atesta a permanência do problema
das relações entre o cognoscente e o mundo. O existencialismo
é pois, liminarmente, uma filosofia clássica: J?Or s_?a reflex�o
sôbre os limites do conhecer revelados pela s1tuaçao do exis
tente humano; daí a importância de suas discussões sôbre o
universal e o particular, a essência e a existência, o conceito
e os "existenciais", o mistério e '0 problema; da mesma forma,
0 problema importante continua a ser o da verdade, - mesmo
quando se fala de verdade do existente, de verdade subjetiva;
ou, em outras palavras, o problema continua a ser o da razã-o
(Karl J aspers diz que a philosophie perenis é por inteiro um
hino à razão) - mesmo quando se opõe extremadamente a
"razão daquilo que tudo abarca, ao entendimento anônimo e
analisador. - A filosofia existencialista deseja uma apreensão
nova da objetividade, a elaboração de uma nova inteligibilidade,
e, arriscando por vêzes a expressão, uma nova "lógica filo
sófica,.
Parece-me então que o caráter ativo, prospectivo, do per
sonalismo continua a distingui-lo do caráter crítico do existen
cialismo; o gôsto de promover uma ação sobrepuja finalmente
o de elucidar significados.
Mais radicalmente, aparenta-se o existencialismo, de nôvo,
à filosofia clássica por sua procura de uma nova ontologia,
único elemento capaz de protegê-lo da tagarelice e do patético
postiço. Para êle a questão fundamental é esta: que significa
ser para mim, ser para outrem, ser para o mundo, qual é o
ser de todo ente, o ser em geral? Esta última questão, lembra
Heidegger, não se esgota, mas apenas se prepara pela exegese
da condição humana; já é nela que eston a pensar quando pro
curo elucidar o estatuto do homem como contingente, ali exis-
160
tente, tal como lá se acha; a própria idéia do nada ainda se
inscreve no registro ontológico, de mesmo que as "cifras" se
gundo Jaspers e o "mistério" segundo Gabriel Mareei.
O encontro de Emmanuel Mounier com a ontologia exis
tencialista me parece ser isto: a intenção educativa de sna obra
transborda de uma problemática pràpriamente filosófica - uma
crítica e uma ontologia - mas, segundo a expressão proposta
mais acima, possui ela valor de matriz filosófica; é capaz de
uma filosofia. De que modo?
A intenção que a anima supõe, em filosofia, um tato, ou
melhor, um discernimento, quando ela se projeta ao plano duma
crítica é uma ontologia.
Não é mais sômente na Introduction aux existencialismes
que é preciso descobrir atuante tal discernimento, mas também
em Traité du caractere e no Personnalisme. Orienta para um
bom emprêgo da "dramática existencialista", os temas da an
gústia, do irracionalismo, da experiência e da presença do nada
no ser.
1 .0. Antes de mais nada, mais do que qualquer dos exis
tencialismos, acentua Mounier o vínculo e a tensão entre pessoa
e natureza, ou, como tantasvêzes o diz êle próprio, a matéria.
Fiel às suas primeiras análises sôbre o conjugado pessoa-indi
víduo, continua a simbolizar por um conjugado de noções dnas
direções mais que dois planos; uma direção de emergência ou
de transcendência e uma direção de imersão on de incorpora
ção, e continua a referir êsse duplo movimento às atitudes da
civilização. Não obstante, depois de mais de 15 anos, a pers
pectiva ontológica tornou-se mais importante: o personalismo
"particulariza estruturas" (Le Personnalisme, pág. 6) e bnsca
sob o nome de pessoa "o modo especialmente humano da exis
tência" (ibidem, pág. 9 ) . O têrmo "natureza" ou "matéria" é
doravante mais compreensivo que o de indivíduo e sugere uma
dialética mais ampla, que, numa nota saída em Esprit, Mounier
denominava antropocósmica 14 o otimismo trágico da Petite Peur
14 L'Homme et l'Univers (relatório), maio de 1949, págs. 746�7: o
homem recapitulação e verbo do universo: "�le hominiza e integra na
divinização do universo inteiro . . . , êle continua por assim dizer o im·
pulso primordial da criação." Mounier não esquece nisso, não obstante,
as ameaças que, por causa da queda original, pesam sôbre essa aven·
tura. E essa perspectiva antropocósmica que se abre no final de Ln.
Petite Peur du XXe siCcle.
161
nela se inclui (págs. 30-32) , bem como tôdas �s reflexõ�s sôbre
uma unidade de destino e vocação da Humamdade (pags. 47-
50 e 101 ) .
2.o. o "tema do outro" que retém lugar tão grande em
todos os existencialismos encontra eco semelhante no persona
lismo: mas o sentimento liminar do vínculo entre o pessoal e
0 comunitário comporta-se também aqui como detector crítico
no dédalo das análises existencialistas. Não é por acaso que
a originalidade da pessoa se exprime em primeiro lugar na
comunhão e não na solidão (Le Personnalisme, págs. 35 e
segs.). O que importa é, pois, reencontrar as inferências onto
lógicas dos "atos originários" pelos quais o eu se abre a ou
trem, passando da preocupação de si mesmo à disponibilidade,
da avareza ao dom.
Mas no momento em que Emmanuel Mounier se acha tão
próximo de Gabriel Mareei, mais uma vez se volta contra todo
"anticoletivismo espiritual" e procura nos aparelhos técnicos e
abstratos do social a mola básica do comunitário. Observo mes
mo que o último livro de Mounier tem como nenhum outro a
preocupação do "racional": "Se o pensamento não se toma
comunicável e, portanto, impessoal, sob determinado aspecto,
êle deixa de ser pensamento para se tornar delírio. A ciência
e a razão objetivas são os suportes indispensáveis da inter-sub
jetividade. Da mesma forma, o direito é um mediador neces
sário" (pág. 46) . É nesse mesmo espírito que o livro acentua
a idéia de uma unidade espácio-temporal do gênero humano,
compreendida pelo menos como "movimento para a unificação
do universo pessoal".
Isso explica a resistência de Mounier às análises de Sartre:
as de olhar, por exemplo; o olhar de outrem não me cristaliza
como objeto senão na medida de minha própria indisponibili
dade; crispado sôbre mim mesmo, percebo que as tentativas
alheias me atropelam, mas então "é num projeto prévio de in
disponibilidade, e não na minha liberdade de sujeito que apre
endo o outro como objeto, é na mesma disposição que me
reduzo a recebê-lo como invasor (lntroduction aux existencia
lismes, pág. 103 ) .
3.0. É, por conseqüência, com muita sobriedade, e como
uma "pulsação complementar" da vida pessoal, que Mounier
introduz os temas do recolhimento, do segrêdo, da singulari
dade, da ruptura. A crítica anterior da vida privada, do mundo
162
j
do dinheiro e da propriedade ainda se achava no estado de
filigrana e dá ocasião a que essas categorias essenciais apa
reçam como que mutiladas e pervertidas pelo isolamento : os
temas existencialistas "ignoram as disposições de repouso, aco
lhimento, dom, que são também constitutivas de seu ser".
Da mesma forma, não acentua o Personnalisme o tema
de liberdade, como o Traité du caractere não estabelecia os
fundamentos do monopólio da vontade; recolocar a liberdade
na "estrutura total da pessoa" (pág. 72), é não apenas jun
gi-la às suas condições - liberdade condicional, diz um capí
tulo, como recordação da coletânea escrita durante a guerra -
mas também reconhecer os valôres que constituem sua "emi
nente dignidade" (págs. 83 e segs.) : "Minha liberdade não é
só algo que brota, é algo de ordenado, ou, melhor ainda, algo
que se convoca" (pág. 79) ; minha liberdade é a de uma pessoa
"situada", mas sobretudo "valorizada". Mounier avizinha-se
aqui de Seheler, de Buber, de Hartmann, de Gabriel Mareei
- mas na medida de seu estilo próprio: a crítica do burguês
e da felicidade e a "ascese comunitária" proposta antes da guer
ra continuam a formar a substância concreta dessa filosofia dos
valôres.
4.0• Finalmente, para Mounier, a liberdade "não é o ser
da pessoa, mas a maneira pela qual a pessoa é tudo aquilo que
é e o é de modo mais pleno que pela necessidade" (pág. 82) ;
"a pessoa não é o ser; é movimento de ser em direção a ser e
não tem consistência senão no ser que objetiva" (pág. 85) . Os
valôres são precisamente significações de ação que balizam êsse
movimento para o ser.
Está aqui justamente a principal linha de ruptura com
Sartre.
Não só Mounier lhe faz uma crítica quanto ao método,
por ter admitido como exemplares e canônicas, para tôda exe
gese da condição humana as experiências autênticas de "não
esperança" que reuniu de modo sistemático. "Esta fúria contra
o ser acaso não traduziria o ressentimento de ter falhado na
quilo que Gabriel Mareei denomina vínculo nupcial do homem
com a vida?" (lntroduction aux existencialismes, pág. 60) . Mas,
atrás dêsse desaeôrdo de método, existe verdadeira oposição
metafísica: "O absurdismo filosófico comporta uma espécie de
chantagem lírica. Pela maneira com que por vêzes conduz o
debate, parece que não se possa procurar razão ou ser no mundo
163
senão por uma sorte de covardia ou inf�tilismo filosófico, que
uma posição só se possa defender a p�rllr do m?m�nto .em Slue
se torna insustentavel. Ponhamos cobro a tais m1Im1daçoes.
Não há mais audácia em negar tudo do que em negar menos"
(ibidem, pág. 62) . Tornamos a topar aqui as observações do
Affrontement Chrétien: o discernimento é débil lâmina a sepa
rar 0 trágico do desespêro. No fundo, para Mounier, o exis
tencialismo sartriano melhor se denominaria inexistencial, por
não ter reconhecido e saudado a generosidade e a superabun
dância que atestam, no cerne da pessoa, que sua existência lhe
é paradoxalmente dada na intimidade de seu querer. Êste dom
do ser torna possível uma verdade para o existente, uma comuw
nhão entre os existentes e mesmo uma natureza do existente
que seja o estilo permanente de suas invenções e revoluções.
Se fôsse mister resumir os acôrdos e divergências em estado
nascente que assinalam as duas palavras pessoa e existência,
poderíamos dizer duas coisas:
Pessoa e existência se referem em primeiro lugar a duas
ordens de preocupações que não se correspondem de modo
exato : de um lado, uma preocupação ético-política, uma inten
ção "pedagógica" vinculada a uma crise de civilização; do -outro,
uma reflexão crítica e ontológica em tensão com uma tradição
''filosófica'' clássica.
Por outro lado, a pessoa é uma maneira de designar uma
das interpretações da existência, uma vez que nos coloquemos
no plano pràpriamente crítico e ontológico das filosofias da exis
tência: a palavra acentua então certos aspectos da existência
que a intenção pedagógica do personalismo mantém implícitos:
são aquêles que ainda há pouco acentuávamos, e que dizem
respeito às condições materiais de realização da existência hu
mana ao caminho comunitário de tal realização, sua orientaçã-o
pelos valôres, seu fundamento no ser, que lhe é mais interior
que ela própria.
Fomos conduzidos a subordinar todos os pontos de vista
novos sôbre a pessoa ao mais antigo; umapesquisa ética con
creta, diretamente assentada na "Revolução do século XX". O
confronto instituído pelo Traité du caractere com as ciências
objetivas do homem indica uma outra direção de investigação
que não se deixa abordar na problemática existencialista. As
s�m, pessoa e indivíduo, pessoa e caráter, pessoa e existência,
sao expressões que assinalam setores diferentes de pesquisa.
164
Teve Emmanuel Mounier, como nenhum daqueles que sou
be reunir em tôrno de si, o sentido pluridimensional do tema
da pessoa. Mas a mim me parece que o que nos atraiu para
êle é algo de mais secreto que um tema de muitas faces -
a rara concordância entre duas tonalidades do pensamento e
da vida: a que êle próprio chamava de fôrça, na esteira dos
antigos moralistas cristãos, ou ainda a virtude do nos pormos
frente a frente - e a generosidade ou abundância do coração,
que corrige a crispação da virtude da fôrça por algo de agra
ciado e delicado; é a sutil aliança de uma bela virtude "ética"
com uma bela virtude "poética" que fazia de Emmanuel Mou
nier êsse homem ao mesmo tempo irredutível e que se dava.
165
II. PALAVRA E "PRAXIS"
VERDADE E MENTIRA
Seria de desejar que se pudesse dar início a uma medita
ção sôbre a verdade por uma celebração da unidade: a verdade
não se contradiz, a mentira é legião; a verdade congrega os
homens, a mentira os dispersa e põe em conflito. E, entretanto,
não é possível começar dessa maneira: o Uno é recompensa
por demais longínqua, e é antes de tudo uma tentação maligna.
Eis por que a primeira parte dêste estudo 1 será consagrada a
diferençar nossa noção de verdade. Desejaria mostrar que êsse
esfôrç-o de redução dos planos ou ordens de verdade, não é
mero exercício escolar, mas corresponde a um movimento his
tórico de dispersão; foi a Renascença, por excelência, o mo
mento em que se tornou consciente -o caráter pluridimensional
da verdade; é pelo processo histórico que o problema da ver
dade diz respeito ao próprio movimento de nossa civilização
e se presta a uma s-ociologia do conhecimento.
1 :&>te estudo constituía primitivamente um Rapport, submetido à
discussão do "Congresso .Esprit" (Jouy-en-Josas, setembro de 1951 ) ;
nada modificamos de seu caráter esquemático e unilateral. Exigia êle
outras perspectivas complementares que a discussão não deixou de fazer
surgir; não as quisemos trazer para dentro dêste estudo, que dêsse modo
fica melhor aberta à discussão e à crítica. Por outro lado, servia êle
de introdução a duas o:utras comun:cações de caráter mais preciso e mais
concreto sôbre Verdade e mentira na vida privada e na política; não
é pois êsse estudo senão uma introdução, e de certo modo uma situação
daqueles dois outros.
167
Mas 'a êsse processo de diferenciação responde um pro
cesso inverso de unificação, de totalização, ao qual serã consa
grada a segunda parte dêste estudo. A interpretação dêsse pro
cesso será a chave de tôda esta exposição: procurarei mostrar
que a unificação do verdadeiro é ao mesmo tempo o intento
da razão e uma primeira violência, uma falha; tocaremos assim
um ponto de ambigüidade, um ponto de grandeza e culpabili
dade; é precisamente nesse ponto que a mentira toca mais de
perto a essência da verdade. Iremos diretamente ao aspecto
do problema que diz respeito à interpretação de nossa civili
zação. Histàricamente, a tentação de unificar de modo violento
o verdadeiro pode provir e de fato proveio de dois pólos: o
pólo clerical e o pólo político; para sermos mais exatos, de dois
podêres, o poder espiritual e o poder temporal. Desejaria mos
trar que a síntese clerical do verdadeiro é a culpabilidade da
autoridade especial que se vincula, para o crente, à verdade
revelada, como a síntese política do verdadeiro é a culpabili
dade que perverte a função natural e autênticamente dominante
da política em nossa existência histórica. Eu seria, pois, levado
a esboçar que sorte de autoridade pode a verdade teológico,
exercer sôbre os outros planos de verdade, em que sentido
uexatológico" e não "sistemático" pode ela unificar tôdas as
ordens de verdade aos olhos do crente. Da mesma forma, ser
-me-ia necessário elucidar os limites duma filosofia da história
na sua pretensão a unificar os múltiplos planos de verdade em
um único "sentido", numa única dialética da verdade.
Os nódulos de minha análise seriam pois: a pluralização
das ordens de verdade em nossa história cultural - o caráter
ambíguo de nossa vontade de unidade, ao mesmo tempo como
tarefa da razão e como violência - a natureza "escatológica'.'
da síntese teológica - o caráter apenas "provável" de tôda
síntese pela filosofia da história.
, T�lvez já se esteja a perceber que o espírito da mentira
esta misturado de modo inextricável à nossa pesquisa da ver
dade, como uma túnica de Nessus colada à estatura humana.
A DIFERENCIAÇÃO DAS ORDENS DE VERDADE
A primeira vista, nada mais simples que a noção de verdade: defme-a a tradição como uma concordância uma concordância que se situa ao nível de nossa capacidade de julgar
l68
(de afirmar e de negar) , uma concordância de nosso discurso
com a realidade e de modo secundário, uma conc-ordância nos
sa conosco mesm�s, uma concordância entre os e�píritos. Aten
temos para a maneira de proceder da verdade: e um modo de
nos pormos "em conformidade com . . . ", "do mesmo modo
que . . . ".
. . _ . Mas ao primeiro exame, essa def1mçao se mamfesta pura
mente fo;mal como o próprio têrmo "realidade" que lhe serve
de referência.' Existe um caso limite em que o sentido é tanto
mais claro quanto mais anódino, aquêle em que a conformidade
de nosso pensamento não é senão simples _:epetição de uma
ordem já estruturada, onde nossa mamfestaçao nada desco�re,
nada inova não entra em conflito com qualquer contestaçao:
chove a p�rede é branca; é verdade, todos o sabem. AsSiliil
que n'os afastamos dessas verdades corriqueiras e preguiçosas,
é fácil de ver que o gesto de nos dispormos conforme: . . , tal
qual é a coium fato como físico, qmm1co, bwlog1co, psi
cológico etc.) e ao método experimental em geral.
Eis por que a verdade experimental deixa de lado outros
planos de verdade; pode-se mostrar brevemente de que modo
ela os envolve numa espécie de Hcírculo''.
Antes de mais nada, a verdade experimental supõe
_ justa
mente aquilo que exclui: a saber, o poder de conv1eçao que
emana dêste mundo percebido por uma co.mumdade de homens.
Sons, côros, formas concretas que constituem o an:b1�nte de
nossa vida (nosso Lebenswelt) , são declarados .subjet!vos; e,
no entanto, se estamos no mundo, é po�que ex1ste �e�e al�o
de percebido. Isso continua a ser verd�de1ro pa:a o sabw, nao
só em sua vida extracientífica - tambem para ele o sol se le
vanta, 0 pão e 0 vinho se caracterizam pelo resl?ectiv? s��or,
por sua consistência etc. - mas ainda em ... sua vtda cte?-tíft:a;
pois os objetos científicos que êle el�bora sa� as ?.eterm1��çoes
dêsse mundo que percebe; é no honzonte desse �un�o que
sua própria pesquisa se torna intram�ndana; m�ts, e nesse
mundo percebido que se situam êstes objetos culturaiS que cons
tituem o próprio laboratório os fios que se cruzam na luneta,
a oscilação da agulha, o t;ajeto da partícula na câmara de
Wilson.
O movimento de reabsorção do percebid� no experi��n
tal não pode, portanto, ser pensado até às úll!mas . consequen
cias, pois o percebido continua a ser o ma�o. ex1stenc1al da
objetividade científica. Uma primeira vez ass1st1m�s }W . desdo
bramento da verdade entre a objetividade e a ex1stenc1a per�
cebida; êsse desdobramento aparece imediatamente como um
envoltório mútuo um "círculo". Isto é importante para nossa
interpretação ult�rior da unidade do ve�dadeiro; nã? se �o-�e
reduzir êsse "círculo" a uma "hierarqma", que sena a tdeta
mais satisfatória para nosso espírito de síntese.
170
1 I
Comecei por êste exemplo, por ser o mais satisfatório; mas
eis algo que toca mais de perto as nossas preocupações éticas
e culturais.
Temos dito que o nascimento da ciência experimental era
um acontecimento de nossa história cultural como a literatura,
a teologia, a política; identificamos o laboratório e seus instru
mentos como objetos culturais, como as casas, os livros, os
teatros, os idiomas, os ritos. Todos êsses objetos culturais se
acham não apenas radicados na presença convincente dêsse
mundo percebido; mas são obra de uma atividade cultural, de
uma vida de cultura, da qual faz parte a ciência, considerada
subjetivamente como trabalho humano.
Ora, a ciência procede também à redução dos objetos de
cultura, ao mesmo tempo que à dos objetos percebidos. Mais,
ela reduz à mesma medida de objetividade o homem portador
dessa cultura; biologia, psicologia, sociologia são repartições da
ciência natural, na qual o homem não possui, como objeto de
ciência, nenhum privilégio especial. Entretanto esta ciência, que
reabsorve o homem como um objeto, pressupõe uma atividade
científica e um homem-sujeito, portador e autor de tais ativi
dades; a própria redução do homem ao estatuto de objeto só é
possível no interior de uma vida de cultura que o env-olve em
sua praxis total. A ciência nunca ali está senão como "praxis"
entre outras, uma "praxis teórica" como diz Hesserl, constituída
pela decisão de afastar tôda preocupação afetiva, utilitária, po
lítica, estética, religiosa, e pela decisão de só considerar verda�
deiro o que atender ao critério do método científico em geral
e da metodologia particular de tal on qual disciplina.
Iremos dêsse modo encontrar um "círculo" nôvo: o do
homem como objeto de ciência e do homem como sujeito de
cultura. Surge concomitantemente um nôvo plano de verdade
o que diz respeito à coerência da praxis total do homem, à or
dem do seu agir: é o próprio plano de uma ética, no sentido
mais geral da palavra.
Ser-nos-á necessário voltar em breve à difícil noção de ver
dade ética; contentemo-nos, por ora, de ter feito surgir, umas
das outras, as ordens de verdades, por um duplo processo de
exclusão e de envolvimento mútuo. Temos assim esboçado uma
dialé.tica de certo modo triangular entre o perceber, o saber e
o ag�r. O percebido, com seu horizonte de mundo, envolve em
um sentido ·o saber e o agir como o mais amplo teatro de nossa
171
existência; os laboratórios, as aplicações da ciência - ao traba
lho, ao bem-estar, à guerra - dão à ciência uma presença per
cebida, e dêsse modo ela se agrega à nossa vida e à nossa
morte.
E no entanto, o saber científico por sua vez tudo envolve,
pois a ciência é precisamente ciência do percebido e ciência
de tôda vida biológica, psicológica e social. Nesse sentido, fomos
de tal modo impregnados de um mínimo de ciência que "quase"
percebemos os objetos do sábio, as dimensões imensas do céu,
as vibrações do som e da luz, os hormônios de nosso vizinho.
Mas da mesma forma se pode dizer que o agir tudo envolve,
uma vez que saber e mesmo perceber são obra de cultura.
A bem dizer, esta dialética em três têrmos ainda é por
demais grosseira; cada atitude se "dialetiza" até certo ponto por
si mesma, e não apenas suscitando outras atitudes que exclua
ou exija. Ao dizer que cada têrmo de nossa tríade se "diale
tiza" interiormente, quero dizer que cada um é trabalhado por
um processo duplo e inverso, por uma tendência a dogmatizar-se
e uma tendência a prob/emizar-se. Eis aí um modo mais sutil de
fazer vibrar a verdade.
.. Consideremos a atitude científica que nos serviu de pri
'·meiro marco, de primeira referência de verdade. Admitimos
que ela nos propunha um estilo único e simples de comporta
mento face ao real: o estilo experimental. Nada disso. Esse
estilo experimental, sob muitos aspectos, êle é a contrapartida,
o oposto de um estilo matemático, instaurado pela negação do
.real. Mas a obra científica se propõe ao homem ao mesmo
tempo como a ambição da Ciência e como a tarefa das ciências.
Invariàvelmente, no curso da história, suscita a obra científica
em trabalho de conjugação, de sistematização (às vêzes, disci
plinas que nasceram separadas, técnicas disparatadas, acabam
por fundir-se numa metodologia que as engloba); invariàvel
mente, cinde-se tal obra em disciplinas, especializações, metodo
logias diferentes. A árvore ramificada da ciência permanece
como nosso pressuposto, mas todo o encadeamento dogmático
das ciências é transtornado por hiatos, invasões, que tornam
problemática a própria idéia de sistema das ciências.
E não é tudo. Se a ciência goza de situação única no edi
fício eventual da verdade, é que aos nossos olhos é ela a pedra
de toque e o modêlo da verdade. Tôda verdade, pensamos nós,
deveria ser senão de ciência, pelo menos como a ciência. A
172
. I
J ' 1
' . . :m.;
ciência pôde ser de modo excelente êsse modêlo de verdade
por todo o tempo em que o próprio ideal da Epistêmê, nascido
da geometria grega, se nos apresentava despido de opacidade,
como resposta satisfatória, a saturar por inteiro a questão que
lhe deu origem. A era galileana, que está a findar, repousa sô
bre um crédito total no caráter exemplar do saber matemática
herdado dos alexandrinos; é sôbre êsse fundo de clareza que
se inaugurou e progrediu, com o êxito que sabemos, a explo
ração de tipo mecanicista de todo o império do visível.
Assim, a uma ordem matemática segura correspondia, na
extremidade oposta, um mundo experimental suscetível de ser
matematizado. Quanto mais parecia exemplar ·O ato científico em
relação às demais atividades (éticas, jurídicas, econômicas) , tan
to menos problemático se mostrava.
E eis que em ambas as extremidades a opacidade ressurgia:
voltando-se para a crise primeira de sua origem, descobrem as
matemáticas atos, decisões, empreendimentos lá onde Platão lo
brigava entes matemáticos - não por certo absolutos em todos
os sentidos, de vez que já discernia nos números e nas figuras
"entes por posição", entes menos dignos do que os atingidos
pela dialética filosófica; pelo menos êsses entesmatemáticos ti
nham o poder de encadear o pensamento e impor-se a uma
visão.
Jamais se dirá bastante quanto nossa sensibilidade à verdade
fois instruída, educada e, para dizer tudo, rejubilada pela idéia
de que a verdade é um espetáculo para nosso entendimento -
espetáculo que a ordem celeste desdobrava por outro lado aos
nossos olhos carnais como a beleza ordenada na qual se encarna
a ordem matemática. Se a verdade ética possuía para Kant algu
ma dignidade, isto era como que a réplica prática daquela or
dem que "obriga" o pensamento; o céu estrelado sôbre nossas
cabeças e a lei moral em nosso coração . . .
A esta crise dos embasamentos corresponde, na extremi
dade oposta da exploração de nosso mundo, a descoberta de
uma energia que também, por sua vez, não é um espetáculo,
como a ordem celeste que os Antigos contemplavam, mas algo
como a sanção de um empreendimento do homem; a energia
nuclear, por cuja libertação é responsável o homem, com tôdas
as possibilidades e todos os perigos que lhe estão vinculados,
é como que o simétrico dêsse ato pelo qual o homem inaugura
as matemáticas. E ambos os atos mutuamente se interrogam.
173
Simultlineamente, todo comportamento que se situa aquém da
axiomática matemática não esclarecida, e aquém da peripécia
nuclear da física, todo êste comportamento científico, lançado
pela geometria dos gregos e pela física matemática de Galileu,
surge de repente como um comportamento que_ tranqüiliza,
claro, dogmático em face do aclaramento dos confms do mate
mático e dos confins do físico, - em relação a essa grande
problematização da ciência que se processa aos nossos olhos.
Somos aquêles humanos que ainda não acabamos de extrair
tôdas as conseqüências da Epistêmê grega e que pusemos em
discussão os fundamentos dessa Epistêmê. De um lado, tudo
nos convida a dogmatizar, na qualidade de homens de ciência
e a esmagar sob nosso desprêzo tôda iniciativa que não foi pers
crutada pela clarificação quantitativa de uma disciplina cientí
fica: acaso não nos achamos no limiar de um exaltador domínio
sôbre os fenômenos vitais? não estamos mesmo perto de entre
ver o que será uma ciência verdadeira do psiquismo superior?
Mais: fora êsses saltos da ciência para além do ciclo da expe
riência matemático-mecanicista, abre-se uma fase nova da teo
rização, não apenas por um pulular de disciplinas matemáticas,
mas por sua associação à nova lógica simbólica, de um lado,
e à teoria física, do outro. Em suma, uma razão científica de
uma amplidão diferente daquela que Descartes e Kant conhe
ceram está a tomar corpo sob nossos olhos. 2 A verdade é que
tudo isso convida a inteligência científica a dogmatizar e a des
conhecer êsse "século" no qual, no entanto, se acha incluída, e
no qual está a debater-se ao mesmo tempo com a consciência
perceptiva do fato de estarmos no mundo e com a consciência
ética de nossa responsabilidade: com a verdade existencial e a
verdade ética.
Mas, precisamente, o trabalho de problematização que se
opera em sentido inverso das tendências dogmatizantes da inte
ligência científica, substitui o ato científico em seu contexto de
existência e de responsabilidade.
Ora, no princípio das matemáticas encontram-se decisões
teóricas e a energia nuclear põe em jôgo decisões práticas, in
clusive políticas e militares. A assimilação por parte da Huma
nidade de tal descoberta suscita problemas não mais de obje-
2 Cf. D. DUBARLE, "Le christianisme et les progrês de la science"
em Esprit de set. de 19 51.
174
tividade, de saber, mas de gestão dos negócios humanus. O
problema militar, industrial e econômico da energia atômica
não se situa na escala na qual a teoria atômica é verdadeira,
mas na escala de nossa existência; situa-se no mundo tal qual
nos surge; situa-se não no universo tal qual o físico o repre
senta, mas no mundo da percepção em que nascemos, vivemos e
morremos. É o mundo da percepção que nossos instrumentos,
nossas máquinas têm uma significação ética e põem em jôgo
nossas responsabilidades. Justamente por aí é que somos tra
zidos de volta ao nosso "século". A extensão da verdade cien
tífica engloba o homem como uma porção de objetos, mas as
responsabilidades que essa verdade científica põe em jôgo ates
tam que o ato científico se acha englobado no conjunto dos
atos do homem responsável, na figura global da praxis humana.
Outro tanto se diria da conquista da vida pela ciência e
da eventual conquista do psiquismo superior e da sociabilidade
humana em disciplinas científicas rigorosas. Mais que qualquer
progresso científico, essa conquista traz de volta o homem à sua
condição e o reabsorve nas coisas; mas, por outro lado, mais
que qualquer progresso científico envolve ela uma questão ética
virtual: que faremos de tal poderio sôbre a vida e sôbre o
homem.
O fato de podermos temer pelo homem, discernir perigos
para o homem, pelo fato de que a ciência do homem se inicia
e caminha, êsse mesmo fato atesta o poder de envolvimento
mútuo do saber e da ética. Tais temores por causa do homem
- que em tantos de nossos contemporâneos degeneram em
mêdo e desespêro - são salutares na medida em que atestam
que a verdade ética é a resposta do homem ao progresso de
seu saber, que a verdade ética, para dizer tudo, a própria vigi
lância de tal homem, no coração do mundo que lhe chega à
percepção, no meio dos demais homens.
Esta maneira pela qual a verdade científica se "dialetiza"
em si mesma e se presta assim ao "círculo" do percebef, do
saber e do agir, nós voltamos a encontrá-la no cerne da ver
dade ética.
Na da que mais se preste à dogmatização que a consciência
ética; nada mais vulnerável também à problematização. De um
lado, o que faz a coerência de uma conduta ética pessoal, como
a estabilidade de uma tradição comum, é o fato de não se re
começar sem cessar a apreciar suas opções principais, de não
175
pôr em dúvida os valôres fundamentais, mas conservá-los como
convicções adquiridas, voltando a apoiar-nos nêles, a fim de
nos lançarmos tranqüilamente e sem escrúpulos em direção a
novas situações. Assim se consolida. uma ordem de valôres que
permite optar com rapidez· e remover as últimas hesitações nas
decisões cotidianas.
Essa espécie de sedimentação de nossas escolhas faz com
que haja para nós um "mundo" ético, uma concepção da feli
cidade e da honra que é nossa referência moral própria, e mais
ainda o tesouro das grandes civilizações. Tôda uma história,
individual e coletiva, estreita-se dêsse modo numa ordem está
vel. Podemos apoiar-nos nela; é assim que se constitui para
nós um dos dois aspectos de verdade ética: uma conduta ver
dadeira é, em determinado sentido, a que se conforma a . . . ,
que se dispõe conforme tal ordem moral cujo debate não se
renova.
Mas basta pôr uma só vez em dúvida um ponto de vista
antigo, um costume, uma convicção, para que de súbito tudo
vacile e se manifeste a precariedade do "mundo ético", para
que uma interrogação sem fim se atire sôbre aquêles dados fun
damentais e que repousa nossa ação e a vertigem de nossa
condição ética se aposse de nós. Existe porventura um poder
capaz de obrigar-nos, um centro de autoridade que resista à
nossa fantasia, à tentação do ato gratuito? Essa interrogação é
a outra face da idéia de verdade ética; pois nessa dúvida, nessa
interrogação que sacode a ordem preestabelecida, buscamos a·
obrigação autêntica, dispomo-nos ainda segundo a exigência mais
autêntica, mais original, capaz ao mesmo tempo de nos ordenar
e de atrair-nos. Desconfiamos que a verdade moral deve ser
algo como essa tensão entre uma obediência muda a uma or
dem preestabelecida, sempre ao alcance da mão e essa obe
diência interrogativa e, se assim me posso exprimir, dubitativa,
dirigida para o valor essencial que sempre foge para além de
todo costume já consolidado.
Talvez se tornasse a encontrar êsse ritmo de dogmatização
e problematização da verdade ética no princípio de todos os
paradoxos davida moral: só posso reconhecer um valor, se me
ponho a seu serviço; um valor só mostra autenticidade - ju�
tiça, veracidade etc., - em sua dialética com outro; o um
versa! é o histórico etc.
176
Não é esta a ocasião de se estabelecer a teoria da verdade
moral; depois �e se ter situado de modo grosseiro um e�. face
· do outro, as tres grandes ordens da verdade, era necessano de
certo modo animar interiormente - ou como dissemos, "dia
letizar" - cada uma dessas ordens, para pressentir não sà
mente que a verdade é que existem ordens de verdade, mas
que cada ordem tem a agitá-la um duplo movimento de dogma
tização e de problematização.
Dêsse modo, nossa consciência moderna não cessa de plu
ralizar-se.
Que aconteceria, se nesse esquema triangular reintroduzís
semos a multidão das outras dimensões em que uma conduta
de "conformidade" - isto é, uma conduta de verdade - pode
intervir?
A própria arte comporta verdade.
Verdade de respeito e verdade de dúvidas.
Não existe arquitetura sem respeito às exigências dos ma
teriais : a arte da cantaria não deve produzir imitação de ma
deira, nem a arte do concreto armado repetir a da pedra; que
as colunas não finjam estarem a sustentar uma abóbada. Mes
mo o imaginário tem sua verdade peculiar que o romancista bem
conhece, e também o leitor: é verdadeiro um personagem quan
do sua coerência interna, quando sua presença completa na ima
ginação tem o criador sob sua dependência e convence o leitor.
Mas essa verdade de submissão é também verdade de crí
tica e debate. :É verdadeiro o artista que só conhece a moti
vação própria à sua arte e não cede a imperativos exteriores
à sua arte : agradar ao tirano, ilustrar a Revolução. Mesmo ao
pintar a sociedade de seu tempo, mesmo ao anunciar tempos
novos, o artista é verdadeiro quando não copia uma análise
sociológica já feita e uma reivindicação que já encontrou uma
expressão não estética. :É êle, ao criar coisas novas realmente
válidâs social e pollticamente, se fôr fiel ao poder de análise que
procede da autenticidade de sua sensibilidade, bem como da
madureza dos meios de expressão herdados. Será preciso vol
tarmos a êste ponto quando !atarmos da "síntese política do
verdadeiro" : a arte verdadeira, adequada à sua motivação pró-
177
pria, empenha-se por uma �ausa ainda que não seja tal o obje
tivo do artista, ainda que ele se tenh� prop?sto a desconhecer
0 princípio de sua integração a uma CIVthzaçao total.
Qualquer que seja o destino dessa situação política da ver-
d d estética esta introduz em nossa VIda cultural uma lmha a e '
É , 1 . , .
nova de separação e dispersão. poss1ve um� . exrstencta pu-
ramente estética; e todos os outros se beneftcmm
, com :ssa
aventura; que seria para nós o emo�io�a�te espetacu�o des__te
mundo percebido matriz de nossa extstencm, se o artista nao
nos devolvesse s�m cessar a alegria, ainda que pelo artifício
extenno da arte abstrata? Ao preservar a côr, e o som, e o
sabor da palavra, o artista, sem explicitamente desejá�lo, res
suscita a verdade mais primitiva do mundo de nossa vtda, que
o sábio sepulta; ao criar mitos e fig_uras, interp�e�a êl: o mundo
e institui de modo permanente um JUlgamento etJco sobre nossa
existência, mesmo sem exercer função moralizante, e sobretudo
quando não exerce tal função. Poel!y is a criticism of life . . .
Assim tôdas as ordens de verdade se põem em confronto
e se reintegram num "círculo, sem fim.
Seria ainda necessário trazer à lume outra dimensão, nessa
mensagem cifrada e supercifrada de nossa história cultural: a
dimensão crítica, aquela que aflorou por fôrça de nossa filo
sofia ocidental de tipo socrático, cartesiano, kantiano, e que
consiste em formular esta questão preliminar: como será pos
sível que exista um "sentido" para mim ou em si? A filosofia
ocidental introduziu no campo da verdade urna potência, ao
mesmo tempo corrosiva e construtiva de pôr algo em. dúvida
e debate, que transforma o próprio problema da verdade que
as disciplinas particulares encontravam como um problema de
concordância externa e de coerência interna. Tal filosofia faz
disso o problema do fundamento. Também temos aí uma par
cela de nossa tradição cultural. A medida que as ciências se
separavam da filosofia concebida como Ciência universal, sur
gia esta última impetuosamente como a questão do limite e
do fundamento de tôda ciência. Ao mesmo tempo, dava ela
origem a uma história dessa subjetividade filosófica que tem
dúvidas e formula interrogações sôbre o fundamento. E esta
história não é vã, pois que uma crítica da vida já é uma vida
nova, um nôvo tipo de reações humanas : o gênero de vida filo
sófica; esta história que vai repercutir nas ciências, no direito,
1 78
na ética - e mesmo, conforme se verá mais adiante, na teo
looia - processa-se de maneira discontínua, através de impé
ri�s � guerras, atravessando longos períodos de silêncio para
rebrotar de súbito em novas obras.
A UNIDADE COMO TAREFA E COMO FALHA
A SÍNTESE CLERICAL
Chegamos agora ao ponto crítico de tôda esta reflexão. O
desenvolvimento cultural nascido do pensamento grego é, pois,
um processo de pluralização da existência humana, que se torna
capaz de inúmeras situações contrapontísticas.
E, no entanto, a unidade é nossa meta. Queremos a ver
dade no singular, não sàmente em sua definição formal, mas
em suas obras. Desejaríamos que houvesse um sentido total
que fôsse como que a figura significativa a totalizar tôda nossa
atividade cultural. Qual a significação dêsse desejo dizendo res
peito à unidade das verdades?
Parece-me que tal desejo é muito ambíguo. Por um lado
representa uma exigência, isto é, uma tarefa autêntica: nem
se pode imaginar um pluralismo absoluto. É a significação pro
funda da "razão", no sentido em que Kant a distingue do enten
dimento: aplica-se o entendimento a objetos, encarna-se em
obras de pensamento, já se acha em estado de dispersão; a
razão é a tarefa suprema de unificação dos pensamentos entre
si, os pensamentos e as obras, os homens entre si, a virtude e
a felicidade.
Tanto quanto tarefa da razão, é a unidade a meta do sen
timento; por sentimento entendo essa posse prévia confusa, na
clave do desejo, ela tristeza e da alegria, da unidade que se bus
ca, perde ou entrevê; a unidade é amada. Sem concebê-lo, com
preendemos afetivamente que a alegria das matemáticas deve ser
a mesma que a das artes ou a da amizade; tôdas as vêzes que
pressentimos conexões em profundidade entre realidades, pontos
de vista ou personagens disparatados, sentimo-nos fehzes; a feli
cidade da unidade atesta um plano de Vida que é mais profundo
que a dispersão de nossa cultura. Sim, a Vida deve significar fi
nalmente a unidade como se nela se tivesse em primeiro lugar
a vida bruta, o querer-viver não cindido, e depois a poderosa
explosão cultural de nossa existência segundo tôdas as dimen-
1 79
I r r :
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I . l i
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sões da verdade, e para além de tal dispersão, uma outra uni
dade que seria Razão e Vida . . .
De qualquer maneira, tal objetivo de unidade 3 se encontra
no princípio e no fim das verdades. Mas, desde que a exigência
de uma verdade una entra na história, como tarefa de civili
zação, ela se acha imediatamente afetada por um índice de vio
lência: pois é sempre cedo demais para se realizar a tarefa da
unidade. A unidade realizada do verdadeiro é precisamente a
mentira primordial.
Ora, tal grau de culpa que se vincula à unidade da ver
dade - essa mentira da verdade - surge quando a tarefa de
unificação coincide com o fenômeno sociológico da autoridade.
Não que a autoridade seja em princípio viciada; é ao contrário
função insubstituível. Talvez seja impensável que o govêrno
das pessoas, sob tôdas as suas formas, se dissolva na adminis
tração das coisas. Sempre haverá situações em que o homem
terá de dar ordens ao homem, mesmo quando seu delegado. A
autoridadelhes foram atribuídos - Verdade no Conheci
mento da História, Verdade na Ação Histórica - designam as
duas relações, epistemológica e prática, que se verificam entre
a verdade e a história.
A primeira parte - Verdade no Conhecimento da História
- est
_
á mais nltidamente articulada em duas seções: crítica e
teol6gtc?; um só texto antigo - o "Socius" e o Próximo - foi
tr�n�fendo da segunda parte para a primeira por causa de sua
afzmdade com o tema teológico; dois textos novos foram colo-
4 DIELS, Die Fragmente du Vorsokratiker (XENOPH. B 34).
/ 19
não é por si mesma culpável. Mas torna-se ocasião
de irrupção das paixões do poder. É através das paixões do
poder que certos homens exercem uma função unificadora. É
dêsse modo que a violência simula a mais alta função da razão
e a mais firme esperança do sentimento. Belo exemplo de am
bigüidade em que, como sempre, o êrro não se distingue da
grandeza . . .
A primeira manifestação histórica dessa unificação violenta
da verdade, - ou pelo menos a primeira a ser por nós consi
derada, pois não se trata de examinar até o fundo o problema
do poder - acha-se vinculada à teologia, a sua autoridade ao
poder clerical do verdadeiro ( doravante tomarei "clerical'; no
sentido pejorativo, oposto a "eclesial") .
Coloca�-me-ei, daqui por diante numa perspectiva cristã, e
m�smo precisamente teológica e eclesial, e devo dizer que se
mmha posição se acha fortemente acentuada num sentido "pro
testante", espero que ela se mostre largamente comum, salvo
alguns acentos, aos meus camaradas católicos.
Para o cristão, a teologia introduz na vida de cultura uma
dimensão de verdade que é de todo necessário situar em rela
ção às precedentes. Mas a própria teologia não é realidade sim-
3 Veja·se no fim dêste capítulo o Apêndice: Nota sôbre a tarefa
de unidade.
180
ples: do ponto de vista de nossa investigação sôbre a verdade
é ela própria um complexo de planos de verdade. Antes de se;
em tentação de violência de que falaremos, é ela uma realidade
subordinada, submissa; seu pólo de referência além de si mes
ma, é a Verdade que é e que se mostra como uma Pessoa. É
assim que ela se dá, e ao sociólogo agnóstico é ao menos per·
mitido compreendê-la fcnomenologieamente tal qual se dá. Esta
Verdade não é a teologia, mas a senhora da teoloo-ia e a teo-
•
b '
logm não tem acesso a ela de modo direto; pois essa Verdade ,
que se manifestou não nos atinge senão por uma cadeia de tes- /
temunhas e testemunhos. À verdade que é, adere a verdade
como testemunho dela: o dedo que mostra; êsse primeiro teste
munho é a Escritura; à sua verdade subordina-se e mede-se
a verdade da pregação, que no ato de culto transmite e explica
à comunidade de hoje o testemunho primordial. Se existe, pois,
uma verdade da pregação, é em sua conformidade com o tes
temunho sôbre a Verdade-pessoa. Mas como a pregação é sem
pre um ato hodierno, um ato na modernidade presente, ela já
manifesta as características dialéticas da verdade humana; tam
bém ela se dialetiza entre os dois pólos mortais de uma repe
tição anacrônica c de uma aventurosa adaptação da Palavra às
necessidades atuais da comunidade dos crentes; esta verdade
da pregação acha-se, pois, sempre à procura de uma fidelidade
que fôsse criadora.
É a esta verdade - sempre a caminhar - da pregação
que se vem articular a verdade possível da teologia e a profis
são de "doutor" que sustenta essa verdade possível. Ora a
teologia é, por necessidade, um ato cultural a interferir c�m
tôda a vida cultural de um povo ou civilização.
É � teologia, com efeito, um esfôrço de compreensão; não
no sentido de querer ela firmar a credibilidade da Revelação;
mas em sentido duplo: preliminarmente, é ela uma crítica da
pregação, cujo conteúdo compara à Palavra de Deus; ela exerce
pois, juízo sôbre a pregação; mas essa função crítica supõe um�
fun�ão de totalização; compreender, para ela, é compreender em
conJunto os momentos da Revelação. Compreender é sempre
apreender uma totalidade; enquanto os temas da pregação se
distribuem sucessivamente ao longo do ano litúrgico, ela quer
fazer dêles uma figura de conjunto. Por aí apresenta-se ela como
realidade cultural, comparável a outras; busca implicações, cone�
xões, introduz ordem: ordem entre os temas de vida para o
181
r-
crente (ser-pecador, justificação, ser-santificado, espera do fim) ,
ordem entre temas de vida e acontecimentos absolutos (Encar
nação, Cruz, Ressurreição, Parusia) , er:t suma, ordem ell:tre uma
totalidade de experiência e uma totahdade de acontecimentos.
Por mais dialética, por mais entrecortada de antítese que seja
essa ordem - estirada entre encarnação e redenção, entre con
versão individual e vida comunitária, entre vida presente e vida
eterna, entre esfôrço histórico e fins últimos -, é maneira de
compreender; como tal, usa idiomas, aparelhos nacionais da filo
sofia, do direito, da vida social ambiente e assim interfere com
tôda a cultura.
A teologia interfere com a cultura, não apenas pela inte
gração dos elementos culturais, mas pela oposição funcional a
essa outra tentativa de retomada do conjunto de nossa exis
tência, pela oposição à filosofia. Constitui-se a verdade teoló
gica dessa mesma polaridade: pode existir uma pregação indi
ferente à filosofia, mas não pode existir teologia sem referência
filosófica, e essa referência não pode ser uma oposição nas
cente, ao menos de tipo metodológico. Com efeito, se a com
preensão teológica é uma crítica da pregação, e se, sob tal título,
ela está sempre em relação com uma comunidade de fiéis, a
filosofia é uma crítica do entendimento e do saber. Sua base
de referência é o ideal do saber racional, e mais precisamente
a ciência contemporânea na tarefa de amoldar a estrutura do
entendimento em um momento dado. A vontade de compreen
der de modo universal acha-se necessàriamente em estado de
tensão com a vontade teológica de compreender através de acon
tecimentos absolutos e por uma experiência centrada sôbre
acontecimentos absolutos. Essa polaridade vai assumir figura
dramática a partir da peripécia autoritária e violenta sôbre a
qual temos agora de manifestar-nos.
A teologia interfere com a cultura, não apenas pela sua ma
neira de compreender, mas por seu caráter de autoridade. A au
toridade não é nela um acidente social acrescentado; é um as
pecto fundamental da Revelação e da verdade que o crente nela
reconhece. Os acontecimentos da Revelação são capazes de mu
dar minha vida; são igualmente fundadores de uma nova exis
tência comunitária; têm nesse sentido autoridade sôbre minha
vida e sôbre nossa comunidade. A palavra de Deus é autoridade
por seu sentido para mim e para nós. A autoridade é um fenô
meno fundamental da esfera religiosa: Deus quer alguma coisa
182
Para mim e para nós. Como o mostrou Cu11mann, é êsse o sen
/tido primeiro do têrmo dogma, mais radical e mais vasto que
o têrmo doctrina, que só explícita a dimensão teórica; o dogma
é para mim uma ordem através um acontecimento absoluto, que,
como tal, contém em potência uma doctrina. É por êsse expe
diente que a Verdade é autoridade; a conexão se apresenta da
seguinte maneira: autoridade do Verbo, autoridade do teste
munho escriturístico, autoridade da pregação fiel, autoridade da
teologia.
Terrível depósito, - e terrível tentação, para as "autori
dades" da comunidade cristã, de exercer essa autoridade de
Palavra! Pois aí temos uma autoridade do homem sôbre o ho
mem - a autoridade do sacerdote, do dirigente eclesiástico -
que a autoridade da Palavra de Deus sôbre o homem parece
autenticar e apoiar. O equívoco de uma autoridade sociológica
especial e da autoridade da Verdade inscreve-se na pró-ambigüi
dade da realidade eclesial.
ílste equívoco é a armadilha privilegiada da paixão cleric�.
Pois existe um pathos clerical, que é ao mesmo tempo rabies
theologica e paixão do poder, e que, o mais das vêzes, coincide
com o espírito despótico e estreiteza de campo de consciência
da velhice. Esta paixão, tanto mais pérfida pelo fato de se crer
a serviço da verdade, acompanha, como uma sombra, a his
tória da Igreja, a história das Igrejas.
Ê a partir dessa situação fundamental da autoridade cle
rical que é preciso compreender a pretensão endêmica das Igre
jas de recapitularem todos os planos de verdades num sistema
atual que seria ao mesmo tempo uma doctrina e uma civiliza
ção. Não é puro acidente histórico ter-se na Idade Média ten
tado vincular a Palavra a um sistema do mundo, a uma astro
nomia, a uma"fato científico é aquilo que a ciência
produz ao construir-se. "Nisto se constitui precisamente a obje
tividade: uma obra da atividade metódica. Eis por que essa
atividade tem o belo nome de "crítica".
Também precisamos agradecer a Marc Bloch o ter chama
do "análise", e não de início síntese, à atividade de historiador
que procura explicar., Tem êle mil vêzes razão .ao negar que
seja a tarefa do historiador restabelecer as coisas "tais quais
elas se passaram". Não é ambição da história fazer reviver,
; mas recompor, recot;tstituir, isto é, compor, constituir um encaM
' deamento retrospectivo. Consiste a objetividade da história pre
.. cisam.ente na renúncia à coincidência, à revivescência, nessa aro·
·, bição de elaborar encadeamentos de fatos ao nível de inteli-
gência historiadora. E Marc Bloch sublinha quão grande é a
parte de abstração suposta por tal trabalho; pois não existe
explicação sem constituição de "séries" de fenômenos: série
econômica, série política, série cultural, etc .... ; se com efeito
J!ão se pudesse identificar, recmihecer uma mesma função nos
eventos outros, nada haveria passível de compreensão; só exis
te história porque certos "fenômenos" continuam: "na medida
em que sua determinação se opera do mais antigo para o mais
recente, são os fenômenos humanos comandados antes de tudo
por cadeias de fenômenos semelhantes; classificá-los por gêne
. r os, é pôr a nu linhas de fôrça de capital eficácia" ( 7 4) . Só
existe síntese histórica porque a história é antes de tudo uma
análise, e não uma coincidência emocional. Como qualquer ou-
'-tro sábio, ,procura o historiador relações entre os fenômenos
cuja distinção estabeleceu. Insistir-se-á quanto fôr necessário,
a partir dêsse ponto, sôbre a necessidade de compreender os
conjuntos, os liames orgânicos que superar tôda .causalidade ana
lítica; opor-se-á,. portanto, na medida em que se tornar neces
sário, o oompreender e o explicar. Não se pode entretanto fazer
26
distinção· a chave da metodologia histórica; como diz Marc
... · , . ":Bsse trabal�o_ de rec?mpo!iç�o só poderia vir depois
da an��se. Melhor dma�os: ele nao e senão o prolongamento
da ,anahse como sua razao de ser: Na análise primitiva, antes
contemplada que observada, de que modo se teria podido dis-
cernir as ligações, se nada era distinto?" (78).
Não �' pois, a compreensão o oposto da explicação. É
quanto mmto seu complemento e contrapartida . Traz a marca
: ,da análi�e ---;- das análises - que a tornaram possível. E conserya ate o fuu ess� marca: a consciência de época que 0 his
tonador, em suas s mteses mais vastas, tentará reconstituir nu
. tre-se de tôdas as interações, de tôdas as relações em tod�s os . se�tidos que o historiador conquistou pela anáiis�. O fato his
�ónc� total, o. "passa�o integral", é pràpriamente uma Idéia,
1�to e, no. sentido_ kantiano, o limite jamais atingido de um es-forço �e mtegraçao sempre mais vasto, sempre mais complexo. A noçao de "passado integral" é a idéia reguladora dêsse esfôrç�. Não
,
é algo de imediato: nada mais mediato que uma totaJ!dade: e � produto de uma "concepção ordenadora" que exprl!ll� .o esforço mais alto de estabelecimento duma ordem h1ston.a P?r ��rte do historiador; é, para usar outra lingua
(mrus Científica), o frpto da "teoria" no sentido em que
fala de "teoria física".
'
�a mes�a
,
f�rma nen,huma "concepção ordenadora" a bar
. to�a � h1s�ona: uma e�o':a é ainda um produto de análise; ·histó�m Jamais apresentara a nossa compreensão senão "partotrus" (para falar como Leibniz),.isto é, "sínteses analíticas"
··. •.\:pa1ra retomar uma expressão audaciosa da Dedução transcen·'·'·"'"""" de Kant).
As�im, d� p!rte .a p�e é a história fiel à sua etimologia:
'
��
�
u
�
�m�;a
,
:�p;�e�s�q�u�Is
,
0
a
�:
' hz�torta segundo a expressão grega. Não é
uma.mte�r?gação silenciosa a propósito de nos-
, . histonc1dade, a propósito de nossa maneira ' .. VIV�� � �e .r��alar pelo tempo, mas uma resposta a essa con.. , histonca :. uma resposta pela escolha da história pela , . , dum certo conhecimento, duma vontade de compr�ender de edificar aquilo que Fustel de Coulanges. cha"ciiência das sociedades humanas" e que Marc B!och "empreendimento raciocinado de análise".
27
/.
,_ . -
,,,,,,,.cs:.a intenção de objetividade não se limita à crítica doeu
o julgaria um �treito posi�ivismo; c_hega
,
a animar
•• ,,,���g�:���� sínteses; o racionalismo que msto se atmge e da mes
' que o da moderna ciência física, e a história não . tem
motivo para nutrir em face dela qualquer complexo de mfe
rioridade.
A OBJETIVIDADE DA HISTÓRIA
E A SUBJETIVIDADE DO HISTORIADOR
g em relação a êsse mister de historiador - e, portanto,
em relação a essa intenção e a êsse empreendimento de obje
tividade - que se deve agora situar a crítica contemporânea
que, faz meio século, tanto vem insistindo sôbre a função da
subjetividade do historiador na elaboração da história.
Parece-me com efeito que se pode considerar essa subje-
, tividade em si mesma, sem saber preliminarmente qual sua fun
ção: ou seja, precisamente um empreendinlento raciocinado de
análise. Quer, pois, a prudência que se proceda à maneira da
tradição reflexiva, isto é, que se procure essa subjetividade em
sua intenção, em sua emprêsa, em suas obras. Da mesma forma
não física sem físicos, isto é, sem experiências e sem erros, sem
tentativas, sem desvios, sem achados singulares. A revolução
coperniciana de Kant não consistiu numa apoteose da subje
tividade dos sábios, e sim na descoberta dessa subjetividade que
faz com que haja objetos. Refletir sôbre a subjetividade do
historiador é procurar da mesma maneira qual a subjetividade
posta em cena pelo mister de historiador.
Mas se existe um problema próprio ao historiador, isso se
deve aos traços de objetividade aos quais ainda não nos referi
mos, e que fazem da objetividade histórica uma objetividade in
completa em face daquela que é atingida, ou pelo menos avis
tada,, nas demais ciências. Apresentarei êsses traços sem pro
curar atenuar, paralelamente, os contrastes aparentes entre essa
nova etapa da reflexão e a precedente.
1) Refere-se o primeiro traço à noção de opção histó
rica; de modo algum lhe exaurimos o sentido ao dizer que o
historiador opta pela própria racionalidade da história. Essa
opção da racionalidade acarreta outra opção, no próprio traba-
28
, , do historiador; tal outro tipo de opção se vincula àquilo
' que se poderia chamar o julgamento de importtincia, tal como
• êle preside à seleção dos eventos e fatôres. A história através
do historiador não retém, não analisa nem encadeia senão os
eventos de inlportância. :fl aqui que a subjetividade do histo
riador intervém em um sentido original em relação ao do físico,
sob a forma de esquemas interpretativos. :fl aqui, por conse
guinte, que a qualidade daquele que perscruta é importante para
a própria seleção dos documentos a perscrutar. Melhor ainda,
o julgamento de importância que, pela elinlinação do acessó
rio, cria a continuidade: é o vivido que é descosido, lacerado
· pela insignificância; é a narrativa que se mostra encadeada, car
regada de significação graças à continuidade. Assini; a própria
· racionalidade da história vincula-se a êsse julgamento de ini
portância que, entretanto, carece de critério seguro. Nesse par
ticular tem razão R. Aron, ao dizer que "a teoria precede a
história".
. 2) Por outro lado, é a história tributária em graus diver-
sos de uma concepção vulgar da causalidade, segundo a qual a
· caus� designa ora "o fenômeno que vem em último lugar, e
. que e o menos permanente e o mais excepcional na ordem geral
· do mundo" (Marc Bloch), ora uma constelação de fôrças de
evolução lenta, ora uma estrutura permanente. Sob êsse aspecto,
a obra de Braudel- La Méditerranée et /e monde mé
.diJterr·an.!en à l'époque de Phi/ippe li- uma data do ponto de
do método, pelo seu esfôrço no destrinçaniento e ordena
das causalidades:.situa em primeiro lugar a ação perma
i .Ó��:e:�do quadro medllerraneano, e em seguida as fôrças parti
•.: mas relativamente constantes da segunda metade do
,secw.o XVI, e, por fim, ·o fluxo dos acontecimentos. Esse es
hierarquização das causalidades acha-se perfeitamente
da emprêsa de objetividade da história. Mas êste ato •���:��:���1 será sempre precário, pois a composição total de
pouco homogêneas, que a própria análise instituiu
faz aflorar um problema quase insolúvel. De qual
é pr�ciso_ i;'cluir entre as causalidades componentes
i)IIibtivacõ,,. psxcologicas, sempre marcadas por uma psicolo
senso comum.
próprio sentido da causalidade empregado pelo b1sto
permanece freqüentemente em estado involnído, pré-crí-
29
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tico, oscilante entre o detenninismo e a probabilidade: a his
tória é condenada a usar, simultâneamente, vários esquemas de
explicação, sem ter refletido sôbre êles e sem talvez os ter dis
tinguido: condições que não são determinações, motivações que
nã-o são causas, causas que não passam de campos de influência,
adjutórios, etc.
Em suma, o historiador "pratica" modos de explicar que
transbordam da reflexão; o que é natural: a explicação sofre
operação e atuação antes de a atingirmos pela reflexão.
3 ) Um nôvo traço dessa objetividade incompleta vincula
-se àquilo que se poderia denominar o fenômeno de "distância
histórica"; compreender racionalmente é tentar reconhecer, iden
tificar (Kant chamava à síntese intelectual uma síntese de reco
nhecimento no conceito) . Ora, a história tem por tarefa dar
nome àquilo que mudou, àquilo que foi abolido, que foi outro.
A velha dialética do mesmo e do outro ressurge aqui; o historia
dor de profissão encontra-se sob a forma assaz concreta de
dificuldades de linguagem histórica, sobretudo da nomenclatura:
c-omo denominar e inserir na linguagem contemporânea, na lín
gua nacional atual, uma instituição, uma situação hoje abolida,
senão pelo emprêgo de semelhanças funcionais, em seguida cor
rigidas pela diferenciação? Baste-nos lembrar as dificuldades
vinculadas a têrmos como tirania, servidão, jeudalidade, Es
tado, etc. Cada qual atesta a luta do historiador em prol de
uma nomenclatura que permita ao mesmo tempo identificar e
especificar; eis por que a linguagem histórica é necessàriamente
equívoca. É o tempo histórico que vem aqui opor à inteligência
assimiladora sua obra própria desassimiladora, sua disparidade.
Não pode o historiador escapar a essa natureza do tempo, na
qual, desde Plotino, temos reconhecido o fenômeno irredutível
do afastamento em relação a nós próprios, do estiramento, da
distensão, em suma, da alteridade original.
Eis-nos face a uma das fonte do caráter in exato e mesmo
não-"rigoroso" da história; jamais se encontra o historiador na
situação do matemático, que designa, e designando, determina
o próprio contôrno da noção: "Chamo linha a interseção de
duas superfícies . . . "
Ao contrário, aquilo que faz às vêzes dessa atividade pri
mordial de designação, pela qual uma ciência exata se coloca
em face de seu objeto, é uma certa aptidão do historiador a ex-
30
patriar-se a transportar-se como que por hipótese para um
outro pr;sente; a época que estuda é tida por êle como o pre
sente de referência, como o centro de perspectiva temporal :
existe um futuro dêsse presente, que se faz da espera, da igno
rância, das previsões, dos temores dos homens de então, e não
daquilo que nós outros sabemos ter acontecido; existe também
um passado dêsse mesmo presente, que é a memória dos homens
de outrora, e não aquilo que nós próprios sabemos do passado
dêles. Ora, essa transferência para um outro presente, vinculada
ao tipo de objetividade da história, é exatamente uma espécie
de imaginação; uma imaginação temporal, se quisermos, de vez
que um outro presente é representado, transferido ao fundo da
"distância temporal", - "outrora". É certo que essa imagina
ção assinala a entrada em cena duma subjetividade que as ciên
cias do espaço, da matéria e mesmo da vida deixam de lado.
Constitui mesmo dom raro saber trazer até nós o passado histó
rico, simultâneamente à recomposição da distância histórica, me
lhor ainda, simultâneamente ao estabelecimento, no espírito do
leitor, de uma consciência de afastamento, de profundeza
temporal.
4) Enfim, último traço, embora não o menor, último tra
ço decisivo: O que a história deseja em última análise explicar
e compreender são os homens. O passado de que nos achamos
afastados é o passado humano. A distância temporal vem, por
tanto, ajuntar-se a essa distância específica vinculada ao fato
de que o outro é um outro homem.
Voltamos a encontrar aqui o problema do passado inte
gral: pois aquilo que os outros homens viveram, é precisamente
a9uilo que o historiador tenta reconstituir pela totalidade da
rede de relações causais. É, pois, justamente o caráter humano
inesgot�vel do passado que impõe a tarefa de compreensão inte
gral. E a realidade absoluta do vivido humano passado que
tenta, recuperar-se numa reconstrução cada vez mais articulada,
em smteses analíticas sempre mais diferenciadas e ordenadas.
Ora, êsse passado integral dos homens de outrora, dissemos
que .era �ma idéia, o limite de uma aproximação intelectual. É
prec�so d1�er também que é o têrmo antecipado por um esfôrço �e simpatia que é bem mais que a simples translação imagina
tiva para um outro presente, que é uma verdadeira translação
para uma outra vida de homem. Essa simpatia está no prin-
31
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C!piO e no fim da aproximação intelectual de que falávamos;
atrai o trabalho do historiador à maneira de um primeiro ime
diato; opera então como uma afinidade favorável face ao ob
jeto estudado; renasce como um derradeiro imediato, a título de
recompensa, como algo dado por acréscimo, ao cabo de uma
longa análise; a análise raciocinada é como que a fase metódica
entre uma simpatia inculta e uma simpatia instruída.
Eis por que se acha a história animada por um desejo de
encontro tanto quanto por um deseja de explicação. O histo
riador vai ter com os homens do passado com sua experiência
humana própria. O momento em que a subjetividade do histo
riador assume relêvo digno de nota é aquêle em que, superada
tôda cronologia crítica, faz a história surgir os valôres da vida
dos homens de outrora. Essa evocação das valôres, que é final
mente a única evocação dos homens acessível a nós, uma vez
que não se pode reviver aquilo que êles viveram, não é possível,
sem que o historiador esteja vitalmente "interessado" em tais
valôres e não tenha com êles afinidade profunda; não que o his
toriador deva partilhar a fé de seus heróis; nesse caso êle rara
mente produziria história, e sim apologética, e mesmo hagio
grafia; mas deve ser capaz de admitir hipoteticamente sua fé,
o que é uma maneira de ingressar na pr·oblemática dessa fé, em
bora a mantendo "em suspenso'', embora "neutralizando�a"
como fé efetivamente professada.
Essa adoção suspensa, neutralizada, da crença dos homens
de outrora é a simpatia peculiar do historiador; leva ao auge
aquilo que ainda há pouco denominávamos a imaginação dum
outro presente por translação temporal; essa translação temporal
é, portanto, também uma transferência a uma outra subjetivi
dade, adotada como centro de perspectiva. Deve-se essa neces
sidade àquela situação radical do historiador: o historiador faz
parte da história; não apenas no sentido vulgar de que o pas
sado é o passado de seu presente, mas no sentido de que os
homens do passado fazem parte da mesma Humanidade. A his
tória é, portanto, uma das maneiras pelas quais os homens
"repetem" o fato de pertencerem à mesma Humanidade; é um
setor da comunicação das consciências, um setor cindido pela
fase metodológica do vestígio e do documento, um setor, por
tanto, distinto do diálogo em que o outro responde, mas não
um setor inteiramente separado da intersubjetividade total, a
qual permanece sempreaberta e em debate.
32
Tocamos aqui nessa outra fronteira em que a objetividade
da história faz aflorar a própria subjetividade da história, e não
mais apenas a subjetividade do historiador.
Antes de dar êsse nôvo passo, voltemos um pouco atrás
para um balanço.
Acaso essas considerações arruínam nosso primeiro ciclo
de análises da objetividade histórica? Acaso essa intrusão da
subjetividade do historiador assinala, conforme se declarou, "a
dissolução do objeto"? De modo algum: temos apenas especi
ficado o tipo de objetividade que surge do mister de historiador,
a objetividade histórica entre tôdas as objetividades; em suma,
temos procedido à constituição da objetividade histórica como
correlata da subjetividade historiadora.
Eis justamente por que, em troca, a subjetividade posta em
cena não é mais uma subjetividade qualquer, mas precisamente
a subjetividade do historiador: o julgamento de importância,
- o complexo de esquemas de causalidade, - a translação
a um outro presente imaginado, - a simpatia por outros ho
mens, por outros valôres, e finalmente essa capacidade de en
contrar um alguém de outrora, - tudo isto confere à subjeti
vidade do historiador uma riqueza maior de harmônicos do que
aquela contida por exemplo na subjetividade do físico. Mas
essa subjetividade nem por isso é uma subjetividade à deriva.
Nada se disse quando só se disse que a história é relativa
ao historiador. Pois que é o historiador? Assim como o objeto
percebido é relativo àquilo que Husserl denomina o corpo orlo
-estético, isto é, a uma sensorialidade normal, o objeto cien
tífico é sempre relativa a um espírito reto; essa relatividade
�a�a tem a ver com um relativismo qmrlquer, com um subje
tlV!smo de querer-viver, de desejo de poderio, ou que sei eu?
A subjetividade de historiador, como tôda subjetividade cientí
fica, representa a vitória de uma boa subjetividade sôbre uma
má subjetividade.
Após o grande trabalho da crítica filosófica que atingiu seu ponto extremo com o !ivro de Raymond Aron, é talvez preciso formular agora a quest�o : qual a boa e qual a má subjetividade? Como reconhece Henn Marrou, que entretanto tão largamente acolhe a escola crítica, tornamos a encontrar em nível superior - no �!vel dessa "história ao mesmo tempo ampliada e aprofun�ada que �a�c Bloch e Lucien Febvre reclamam _ os valores dos quais tmha o positivismo um sentido acanhada, em-
33
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bora autêntico: "o progresso (no método científico) efetua-se
por superação e não por reação: . contentamo--
nos apen�� �pa
rentemente com a validez dos axwmas do metodo posltlVlsta:
permanecem êles válidos em seu nível próprio, mas a discussão ' . d d " " 2 vem situar-se um passo mats à fre,nte: mu _ou-se e esprr� : O positivismo nào transp�nha � � mvel da �r�tlca documentana;
aliás até mesmo seu modelo fiSICo era deficiente e sem grande
relaç
'
ão com a física dos físicos. Mas transposto aquêle seu feti
chismo do fato - coisa que já era falsa em física, onde também
não há fatos que se imponham ao olhar �ulgar.--: lembra
-nos 0 positivismo que nem o JUlgamento de Importancm,_ nem. a
teoria nem a imaginação temporal, nem sobretudo a Simpatia
levam' a história a qualquer espécie de loucura subjetiva; estas -·
disposições subjetivas são dimensões da própria objetividade his-
tórica. . , . Depois de ter d:to, e dito bem, que a histona reflete a �ub
jetividade do historiador, é preciso _dizer que o mis.ter
,
de histo
riador educa a subjetividade do histonador. A hiStona faz o .,
historiador tanto quanto o historiador faz a história. Ou antes :
o mister de historiador faz a história e o historiador. Outrora,
opunha-se a razão ao se�tim�nto!. à imagi�ação; hoje r:intr�
duzimos de certo modo 1magmaçao e sentunento na raciOnali
dade pela qual optou o historiador faz _com que a l�nha _de �li
vagem passe pelo próprio cerne do sentunento e da. 1magmaçao,
cindindo aquilo que eu ch�mana um e� de pesquzsa � .UI?. eu
patético : 0 eu dos ressentimentos, dos od�?s, dos reqmstt�nos; Ouçamos uma última vez Marc Bloch: compreender nao e
julgar." O velho adágio: sine ira a� studio não. tem valor apenas
no domínio da crítica documentána; seu sentido torna-se ape
nas mais sutil e mais precioso ao nível d� síntese ma!s. alta.
_
Nã�
se deve aliás deixar de observar que esse eu patel!co nao e
forçosamente aquêle que fulmina; pode ser também a aparente
"apatia" da hipercrítica, que denigre tôda grandez� r�putada
e deprecia todos os valôres que encontrai ;ss� rabugice mt:le:
tual pertence ao eu patético en; . grau Identioo. ao da p�ao
política desviada do combate pohl!co contemporaneo e rebatida
sôbre o passado.
2 "De Ia logique à l'éthique en histoire',', in Revye �e Métaplzysiq!te
et de Mora/e, 1949, ns. 3-4, pág. 257. Afumo aqUI mmh� substa�otal
concordância com o livro de H. I. MARROU, De la connmssance lusto
rique, ed. du Senil, 1954.
34
Não há, pois, hist6ria sem uma l,.ox� d� subjetividade 9-u�
tidiana, sem a instituição dêss� eu d� pe�qu�sa do. qual a histo
ria extrai seu belo nome. Pms a h1storw e precisamente essa
'fdisponibilidade", essa "submissão ao inesperado", ess� "aber
tura a outrem", na qual a má subjetividade é transcendi?a: . Termina assim o primeiro ciclo de reflexões: a objetlVIda- l·
de nos surgia de início como a intenção_ cien!íf�ca da histór!a;
agora marca a separação entre boa e ma subjetiVIdade do his
toriador: de "lógica", a definição da objetividade tornou-se
"ética".
A HISTÓRIA E A SUBJETIVIDADE FILOSÓFICA
Exaurir-se-á uma reflexão sôbre a subjetividade em história
por estas considerações sôbre a subjetividade do historiador, por · partilha, no próprio historiador, entre uma subjetividade
. pesquisa e uma subjetividade passional?
Recordemo-nos de- nosso ponto de partida e dos "interês
. . • ""'''' múltiplos implicados na história: ainda esperamos da bis
que ela faça aparecer uma outra subjetividade que não historiador que produz a história, uma subjetividade que seria aquela mesma da história, que seria a própria história.
Mas talvez ela não pertença mais ao mister de historiador, e sim ao trabalho do leitor de história, do amador de históriá ·que todos somos, e que o filósofo tem motivos muito particulares para ser. Poi a história do historiador é obra escrita ou ensinada, que, como tôda obra escrita e ensinada, só tem seu têrmo no leitor, no aluno, no público. :É essa retomada, pelo leitor filósofo, da história tal qual é escrita pelo historiador que dá origem aos problemas de que agora iremos· tratar . Deixarei absolutamente de lado o uso da história como divertimento, como "prazer de ouvir -e ler coisas singulares", em suma, como exotismo no tempo; embora, como o vimos, êsse movimento de afastamento de si pertença à consciência histórica, e seja sob êsse aspecto a fase uecessária de um uso mais filosófico: pois se a história não nos expatriasse como en-tr ' ' con ar1amos por seu intermédio uma subjetividade menos egoís-ta, mais mediata e, para dizer tudo, mais humana? Menos ainda me referirei eu à história como fonte de preceitos : embora o aflorar à consciência de que vamos falar seja uma retomada
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dos valôres aparecidos na história e sirva de qualquer maneira
para nossa instrução, mesmo quando não reduzimos a êsse obje
tivo didático o ' uso principal da história. É antes a título de
acréscimo que a história nos instrui, quando a retomamos de
maneira conveniente.
Considerarei, pois, aqui, exclusivamente, o uso que o filó
sofo pode fazer da história dos historiadores : o filósofo tem �m
modo próprio de terminar em si mesmo o trabalho do histona
dor, modo próprio êsse que consiste em fazer coincidir . o , s�u
próprio aflorar à consciência com uma reassunçao da h1stona.
Não ignoro que essa reflexão não concorda c?m, tôdas as
concepções da filosofia; creio, nãoobstante, que ela e valida 12ara
todo o grupo das filosofias que se podem largamente denommar
reflexivos quer tenham seu ponto de cristalização em Sócrates,
em Desc�rtes, em Kant ou em Husserl. Tôdas essas filosofias
estão à procura da verdadeira subjetividade, do verdadeiro ato
de consciência. O que temos de descobrir e redescobrir sem
cessar é que êsse itinerário do eu ao Eu 3 - que chamaremos
afloramento à consciência - passe por uma certa meditação
sôbre a história, e que êsse desvio da reflexão pela história é
uma das maneiras, a maneira filosófica, de terminar em deter
minado leitor o trabalho do historiador.
Ésse término da história dos historiadores no ato filosófico
pode ter prosseguimento em duas direções: na direção de uma
"lógica da filosofia" mediante a pesquisa de um sentido coe
rente através da história; na direção de um "diálogo", de cada
vez singular e de cada vez exclusivo, com os filósofos e as filo
sofias individualizadas.
1 . A história como "exaltação" de um sentido.
Sigamos a primeira pista: a de Com te, de Hegel, de
Brunschvicg, de Husserl no fim da vida, de Eric Weil; a des
peito das diferenças enormes que separam suas respectivas in
terpretações da razão e também da história, todos êsses pen
sadores têm uma mesma convicção comum: a clareza que pro
curo em mim mesmo passa por uma história da consciência.
A via "curta" do conhecimento de si mesmo e a via "longa,
3 Ao Eu e ao Nós. Mas é a mesma coisa, pois se trata da primeira
pessoa: no singular e no plural.
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da história da consc1encia coincidem. Preciso da história para
sair de minha subjetividade privada e experimentar em mim
mesmo e para além de mim mesmo o ser-homem, o Menschsein.
O exemplo de Husserl, que melhor conheço, é notável nesse
particular: êsse pensador, subjetivo por excelência, viu-se for
çado pelos acontecimentos a interpretar-se histàricamente: foi
preciso que o nazismo submetesse a acusação tôda a filosofia
socrática e transcendental para que o professor de Friburgo pro
curasse acostar-se à grande tradição da filosofia reflexiva e nela
reconhecesse o sentido do Ocidente.
Eis a palavra suprema: o sentido. Pela história procuro
justificar o sentido da história "da" consciência.
Não nos acerquemos depressa demais aos obstáculos que
se opõem a uma tal pretensão. Tentemos de início bem com
preender aquilo que a filosofia espera , de uma tal iniciativa e
aquilo que ela supõe verdadeiro para empreendê-la.
Espera o filósofo que uma certa coincidência da via "curta"
do conhecimento de si mesmo e da voz "longa" da história
o justifique. É, pois, porque o filósofo se acha ameaçado, aba
lado - e até mesmo humilhado - no mais profundo de si
mesmo, que invoca a história; duvidando de si mesmo, deseja
reassumir seu próprio sentido, reassumindo o sentido da his
tória a montante de sua própria consciência. E eis também o
filósofo a escrever uma história, a produzir história, a história
do motivo transcendental, a história do Cogito. É pois uma
justificação que o filósofo espera dessa história da consciência.
Vejamos agora aquilo que essa espera pressupõe ser pos
sível essa coincidência do sentido de minha consciência e do
sentido da história : abre crédito a uma certa teleologia da his
tória. Em outras palavras, a história como fluxo dos aconte
cimentos deve ser tal que através dêsse fluxo o homem suceda,
seja mediatizado um acontecer do homem.
_ Vê-se, portanto, que essa suposição é dupla: do lado da
razao, do lado da história; do lado da razão : o filósofo supõe
que ": :az�o desenvolva uma história, porque ela é da ordem
da exigencia, da tarefa, do dever-ser, da idéia reguladora e que
U?J-.a tarefa não se realiza senão numa história; do lado da bis
tona:, _supõe o filósofo que a história recebe sua qualificação
espe:ificamente humana, graças a uma certa emergência e pro
moçao de valôres que o filósofo pode retomar e compreender
como um desenv,olvimento da consciência. Tal é a dupla supo-
37
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srçao do filósofo: é uma dupla abertura de crédito feita por
êle, de um lado, à historicidade da razão e, do outro, à signifi
cação da história. O nascimento e o desenvolvimento da filoso
fia na Grécia e no Ocidente são para êle a prova e a garantia
de que êsse duplo crédito não se fêz em vão. A história da
filosofia parece-lhe ser o vínculo de sutura da historicidade da
razão e da significação da história.
Eis pois aquilo que o filósofo - pelo menos o filósofo
socrático, transcendental, reflexivo, - espera _da história e aqui
lo que êle supõe em sua espera. Adivinho com que desconfian
ça considera o historiador profissional tal empreendimento; e
suas reservas devem ajudar-nos a medir o alcance e os limites
de um emprêgo filosófico da história.
Em primeiro lugar, recusar-se-á categàricamente o histo
riador profissional a identificar a história à história da filosofia,
e até mesmo mais largamente à história da consciência e, por
fim, a um evento qualquer. Dirá êle, sem dúvida, que o sen
tido da história, a teleologia da história, lhe escapa por com
pleto, que não há verdadeiro problema quanto ao "mister de
historiador" e que nem mesmo é necessária a suposição de urr.
sentido qualquer para uma "apologia da história". O alarga
mento e o aprofundamento que ambiciona para a história, êle
os busca não do lado do sentido racional, mas antes do lado
da complexidade, da riqueza das conexões entre o geográfico, o
econômico, o social, o cultural, etc. . . Para êle, a Humani
dade se diversifica infinitamente em sua realidade de fato, em
grau mais elevado do que a unificação que experimenta em
seu sentido de direito. Em suma, haverá o historiador de des
confiar da filosofia e, sobretudo, da filosofia da história. Te
merá que esta última esmague a história debaixo de seu espírito
sistemático, que a mate como história. Oporá, portanto, a obje
tividade que tenha conquistado com a sua subjetividade de his
toriador, à subjetividade filosófica na qual o filósofo quereria
engulir uma e outra.
Tais resistências e tal recusa do historiador são perfeita
mente legítimas e nos revelam o verdadeiro sentido de uma
história da consciência. Não tem o filósofo que pedi-la ao
historiador; e se êle a pede ao historiador, êste tem motivo para
recusá-lo. Porque uma história da consciência é obra de filó
sofo, de historiador da filosofia, se se quiser: mas a história
da filosofia é emprêsa de filósofo.
38
Por quê? porque é o filósofo que compõe tal história, por
uma operação de segundo grau, por uma operação de "reto
mada". o filósofo faz à história (à dos historiadores) um
certo tipo de pergunta que manifesta "a escolha do filósofo"
no sentido em que há pouco falávamos da "escolha do histo
riador". Versam estas questões sôbre a emergência dos valôres
de conhecimento, de ação, de vida e de existência através o
tempo das sociedades humanas. Tendo decidido privilegiar essa
leitura, permanece fiel a êsse projeto em sua execução. E como
também êle possui uma subjetividade limitada, e aborda êsse
sentido da história com uma idéia preconcebida daquilo que se
deve procurar (mas quem nada procura, também nada encon
tra) , o filósofo é aquêle que volta a encontrar na história o sen
tido que pressente; círculo vicioso, dir-se-á? Em absoluto; pois
precisamente êsse sentido permanece na ordem do pressenti
mento, enquanto alguma história não tiver oferecido sua media
ção para elevar êsse pressentimento de sentido a uma verda
deira compreensão distinta e articulada. Sempre se pode criticar
as diferentes histórias da consciência - o Cours de philosophie
positive de Augusto Comte, a Fenomenologia do espírito de
Hegel, o Progri!s de la conscience dans la philosophie occiden
tale de Brunschvicg, a Krisis der europaeischen Wissenschaften
de Husserl, a Logique de la philosophie de Eric Weil: a única
maneira de as criticar é compor uma outra história da consciên
cia melhor que a delas, isto é, ao mesmo tempo