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CIÊNCIA&VIDA psique ANO I n°10 Estações EPILEPSIA do humor A luta contra preconceito Estudos relacionam clima e estado psíquico Rápida Memória de e eficaz curto prazo Os efeitos da Por que é fácil Psicoterapia Breve esquecer 0 passado nos casos de recente e tarefas ansiedade e trauma rotineiras? PSICOLOGIA ELEITORAL Fatores de ordem afetiva, econômica e de saúde influenciam 0 eleitor. Discurso político criaria realidade de carências como atrativo ENTREVISTA: ICAMI TIBA E 0 FOCO MÉDICO EM SUA CLÍNICA PSICOLÓGICAM étodo Resultados rápidos Psicoterapia Breve é eficiente para transtornos de ansiedade, pois possibilita ao paciente reaver 0 controle de suas variáveis individuais Eduardo Ferreira-Santos é psiquiatra e psicoterapeuta. Atua como médico-supervisor no serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da USP. É mestre em Psicologia Clínica pela PUC/SP e doutor em Ciências Médicas pela FMUSP. Autor dos livros: Psicoterapia Breve: abordagem sistematizada de situações de crise (Ed. Edição), ABLE STOCK 0 medo da perda (Editora Claridade, 6a. Edição) e Espelho Vivo (Romance psicodramático, Ed. JSN, 2a. Edição). 72 psiquePOR EDUARDO FERREIRA-SANTOS A inda hoje, muitos conceitos psica- ção, como algumas pessoas chegam a afirmar, nalíticos são de extrema valia, sendo mas apenas a conseqüência de um todo, que en- inimaginável a compreensão do ho- volve sistematização própria, constituindo um mem, em toda a sua amplitude, sem aquilo processo de Psicoterapia, com um determinado que Freud nos deixou de legado, assim como tempo de duração, mas que também apresenta é insuportável a idéia de um ser humano to- objetivos definidos e precisos, centrados na evo- talmente biológico, resumido a um conjunto lução de um "foco". de frias e anônimas reações fisicoquímicas. Existem, atualmente, numerosos centros de Há, porém, com a mudança dos tempos e atendimento psicológico nos Estados Unidos, avanço do conhecimento, que se procurar na Europa e na Argentina que têm se preocu- uma forma, se não nova, pelo menos mais pado em desenvolver "formas alternativas" de adequada para ajudar uma pessoa que sofre Psicoterapia, procurando evitar os processos em seus momentos de crise e depressão. prolongados e, em alguns casos, ineficientes. Não é de agora que muitos estudiosos, psi- Assim, vários "métodos" têm surgido nos úl- quiatras e psicólogos, principalmente nos Estados timos anos e cada um deles possui orientação Unidos e Inglaterra, têm pesquisado uma forma teórica e metodológica própria. Entre eles, a de amparar este contingente cada vez maior de Terapia (TCC) e a pessoas que procuram ajuda psicológica. Por Dessensibilização e Reprocessamento através de motivos ideologicamente diferentes a Ingla- movimentos oculares (EMDR, em inglês) têm terra com sua medicina socializada e os Estados se colocado como formas eficientes e mais rápi- Unidos tendo a saúde promovida por grandes das para trabalhar, principalmente, com trans- companhias de seguro ambos os países se es- tornos de ansiedade. forçaram, ao longo da segunda metade do século Embora alguns autores tenham proposto XX, em desenvolver métodos psicoterapêuticos Psicoterapia de curta duração para os mais di- eficazes, rápidos e pouco onerosos. versos problemas psicológicos e/ou psiquiátri- Foi com base nesses princípios que surgiu a cos, minha própria experiência demonstra que a chamada Psicoterapia Breve ou Psicoterapia Fo- eficácia deste modelo restringe-se a situações de cal ou, ainda, Psicoterapia de tempo e objetivos crise e do, hoje chamado, transtorno do estres- determinados. Das primeiras idéias de Franz se pós-traumático e nas reações de ajustamento Alexander, em 1942, aos estudos do inglês Ma- em pessoas que possuíam um relativo equilíbrio lan e do norte-americano Sífneos, a Psicoterapia psíquico antes de haver ocorrido uma mudança Breve chegou ao Brasil pelas mãos dos argen- súbita e/ou traumática em sua vida. tinos Hector Fiorini e do professor Maurício Knobel, radicado na Unicamp. PRÁTICA CLÍNICA Como próprio nome elucida, as chamadas A influência dos conceitos psicanalíticos Psicoterapias Breves são tratamentos de nature- converteu-se em um processo clínico cada vez za psicológica cuja duração é intrinsecamente mais longo, mais amplo e hiperdimensionado inferior à de uma psicoterapia clássica. No en- do que inicialmente idealizara próprio Freud tanto, isso não constitui sua única caracteriza- ao iniciar seu trabalho de "cura pela palavra". psique ciênciaevida 73étodo Experiências demonstram que a Psicoterapia de curta duração é eficaz nas situações de crise e no transtorno do estresse pós-traumático A aceitação da realidade, acidental ou não, é trabalhada diante de reais possibilidades de ação ABLE STOCK A Psicoterapia, de maneira geral, deve ter dialógica e estruturado na empatia, com um como meta a cura e a possibilidade de atingir o nível mínimo de consolidação; a intenção é retorno do paciente as suas condições psíquicas que possa desenvolver-se, tanto no contexto anteriores à doença, num tempo mínimo. da própria experiência traumática vivida quan- Para tanto, é necessário que esse paciente to no relacional terapêutico, certa experiência consiga aceitar a realidade de seu ser no mundo, emocional de correção (experiência emocional isto é, como ele é e quais são as suas reais possi- corretiva), aqui empregada num sentido que bilidades de ser e agir. Ao longo do tratamento, possibilite a emergência de aspectos incons- ele irá penetrar no seu psiquismo, ajudando na cientes agregados à situa- realização de si mesmo e seguindo o caminho ção vivida no presente pelo paciente. Tal situa- de vida interrompido pelo estabelecimento de ção permite reconhecimento desses aspectos uma situação especial de "doença" (uma crise, profundos (insight) e a liberação de cargas por exemplo). Dessa maneira, faz-se com que o emocionais bloqueadas a eles ligadas (catarse). paciente volte a ter o controle de suas próprias Outro elemento que se apresenta para a variáveis individuais, para, no final, conseguir conceituação de Psicoterapia Breve é a questão se reintegrar à cultura a que pertence, manifes- da determinação dos objetivos a serem alcan- tando seu potencial em todos os campos da ati- çados pelo processo. Primordialmente, ob- vidade criadora, mas, obviamente, levando em jetivo não é outro senão o de se atingir aquele conta as suas limitações naturais. equilíbrio existente anteriormente à crise, atra- Assim, processo de Psicoterapia Breve vés da resolução desses aspectos transferen- envolve a criação de um vínculo transitório ciais agregados. Isso traz à tona aspecto da entre terapeuta e paciente, baseado na relação focalização, ou seja, a manutenção constante 74 psique ciênciaevidado tema nas sessões terapêuticas, em torno da Tipos de Psicoterapia Breve questão central que originou a situação de dis- função ou desajuste emocional. nova abordagem terapêutica visa claramente um único Em relação ao termo 'breve', que indica um objetivo: 0 tratamento da situação atual vivida pelo paciente. No fator específico nessa modalidade de Psicotera- entanto, podemos entender a Psicoterapia Breve sob três vértices pia, trata-se efetivamente da limitação do tempo diferentes: de duração do tratamento, determinado desde o início do trabalho, fundamentando não somen- a) Psicoterapia Breve mobilizadora: trata-se de um processo te as questões socioeconômicas institucionais ou que tem como objetivo a clareza a respeito da ansiedade contida em particulares, mas também a observação de que processos mórbidos apresentados pelo paciente, mas que, devido a uma situação de crise é limitada no seu tempo diversos fatores, principalmente devido a mecanismos repressivos, de duração. Há também em sua argumentação a ele ainda não se encontra apto (ou mobilizado) a submeter ao proposição colocada por Malan (1971) de que o processo psicoterápico. período predeterminado para a duração do pro- b) Psicoterapia Breve de apoio: trata-se, por sua vez, de um cesso desencadeia uma "ansiedade positiva", algo processo de ação terapêutica que tem como objetivo diminuir parecido com o princípio existencialista de que o a ansiedade do paciente que sofre de dificuldades emocionais, reconhecimento da morte possibilita a vida. sejam elas de quaisquer origens. Terapia notadamente eficiente no Sendo assim, os meios de alcançar o ob- acompanhamento de pacientes da área hospitalar cuja principal jetivo terapêutico envolvem vários níveis de dificuldade está em lidar adequadamente com algum distúrbio ação, que vão desde mostrar ao paciente o somático que levou ao hospital, seja clínico ou cirúrgico. Tal que está realmente acontecendo e de que for- trabalho vem ganhando, dia a dia, mais espaço nos grandes centros ma ele está reagindo (clareamento), passando hospitalares modernos. por uma etapa pedagógica, na qual lhe serão oferecidas algumas alternativas de solução c) Psicoterapia Breve resolutiva: destina-se a procurar a origem (esclarecimento), até atingir a fase mais im- intrapsíquica que originou a situação de crise vivida pelo paciente portante do processo, a abordagem direta dos com 0 objetivo de, efetivamente, solucionar 0 quadro apresentado. conteúdos do mundo interno, que impedem É 0 tipo de Psicoterapia Breve que tem por determinação 0 principal o seu livre desempenho (resolução). objetivo de uma psicoterapia (óbvio, a meu ver): 0 ser terapêutico, Nesse sentido, a Psicoterapia Breve tem por isto é, ela tem em vista efetivamente tratar. finalidade uma experiência emocional correti- va, em que se oferece ao paciente a oportuni- dade de vivenciar uma situação especial num contexto relacional de aceitação e segurança, no qual ele possa chegar a uma formulação interna do conflito e reestruturar sua vivência de ansiedade frente a uma situação emocional antes insuportável. PAPEL DO TERAPEUTA Para atuar na Psicoterapia Breve é preciso que o terapeuta se despoje de algumas posturas que tomam corpo em seu trabalho, devido aos vícios de se realizar um tratamento prolonga- do, no qual sempre existe tempo para deixar que o próprio paciente dirija o processo tera- pêutico para uma exaustiva e ampla compre- ensão e elaboração de sua vida. LIQUID LIBRARY psique ciênciaevida 75Método Entretanto, no procedimento breve, o papel deve viajar junto com ele, cedendo-lhe a sua do terapeuta é muito mais amplo, livre e, por "parte sadia". Alfredo Moffatt diz que "com isso mesmo, muito mais responsável. Exige-se nossos núcleos histéricos, nos introduzimos mais experiência e muita disposição para exer- no mundo do paciente representando e trans- cer ativamente essa função. mitindo emoções e, com os nossos núcleos es- Enquanto na terapia prolongada, o terapeu- quizóides, evitamos que no final do processo ta é "aquele que apenas carrega uma lanterna sejamos dois no fundo do poço em lugar de ao lado do paciente para iluminar os seus pró- um só", através da dissolução instrumental que prios passos" (como nos ensina a experiência permite que uma parte do terapeuta acompa- dos mais antigos), na Psicoterapia Breve o de- nhe paciente em sua viagem, enquanto que ver é, ainda que por breve período de tempo, outra permanece testemunhando que está iluminar todo momento de vida do paciente. acontecendo para poder levar processo tera- Assim, profissional recebe indivíduo imer- pêutico ao término. so em uma situação de caos psíquico, no qual Disponibilidade e experiência são, por- seus mecanismos habituais de adaptação e de- tanto, dois pré-requisitos fundamentais para fesa faliram, abrindo uma "ferida" em seu SER, o psicoterapeuta que se proponha a realizar a deixando-o bastante limitado em suas ações do Psicoterapia Breve. Por outro lado, deve-se exi- cotidiano. Portanto, cabe ao terapeuta assumir gir do paciente que ele também tenha muita a função de ego auxiliar (em seu sentido mais vontade de se tratar e que essa situação em que amplo), favorecendo a momentânea formação se encontra seja apenas um quadro reativo, sem de um sólido vínculo e, através das técnicas de grandes comprometimentos da personalidade. treinamento da espontaneidade e reconheci- mento do EU, reconduzir indivíduo para seu ATENDIMENTO EM GRUPO caminho, livre e pessoal. (Veja quadro Terapeu- Pacientes vítimas de seqüestro que desen- ta: um ego auxiliar) volveram o transtorno de estresse pós-traumá- Todo esse processo exige muito do profis- tico realizaram tratamento por meio da Psico- sional, pois, além de simplesmente observar terapia Breve integrada grupal, tematizada na paciente em sua "viagem através de si mesmo", linha cognitiva e no modelo psicodinâmico. Terapeuta: um ego auxiliar P ara que 0 psicoterapeuta possa executar Dessa forma concretiza-se lema cendo suas metas, objetivos, variações, a contento essa função de ego auxiliar, é do existencialismo que é "a existência intervenções etc. necessário ter desenvolvido, em si próprio, precede a ou seja, é necessá- A faculdade, curso de formação, uma série de pré-requisitos, tais como: rio perceber 0 paciente antes de lhe atri- as especializações, a supervisão e 1) Humanidade: buir qualificativos. interesse pessoal do terapeuta consti- É inegável que, para exercer uma 2) Potência tuem alicerces fundamentais no de- função de ajuda, 0 terapeuta deverá em Esse é 0 elemento axial que justifica senvolvimento de sua potência que, primeiro lugar identificar a quem está a contratação dos servidores de uma obviamente, nunca se conclui, dada a querendo ajudar. Para tanto, é funda- pessoa por outra, ou seja, é a condição enorme complexidade do conhecimen- mental ter a capacidade empática bem fundamental que ampara todo 0 conhe- to da natureza humana. desenvolvida para, de fato, poder perce- cimento técnico, teórico e vivencial do É preciso ressaltar ainda que não ber quem é 0 outro e reconhecê-lo em terapeuta. Pode ser identificado sob 0 se trata de uma discussão sobre a im- todos seus vértices, carências, angús- nome de conhecimento, 0 qual se ba- potência ou a onipotência do terapeu- tias, em seus limites, potencialidades, seia no real desenvolvimento do domínio ta, mas, sim, do exercício efetivo de enfim, percebê-lo como pessoa. do processo terapêutico em si reconhe- sua capacidade de se utilizar 0 conhe- 76 psique ciênciaevidaABLE STOCK cimento adquirido em benefício do no de "ajudado". Esta condição implica função marcante nesse sentido. ciente, ou seja, sua real potência. diretamente na responsabilidade do te- 0 comprometimento é 0 sentimento 3) Controle rapeuta pelo exercício deste papel de mais profundo que motivou (ou deveria Item de grande polêmica no meio psi- forma a efetivamente ajudar 0 outro ter motivado) a escolha de tão árdua codramático, pois implica a aceitação da 4) Comprometimento tarefa que é acompanhar outro ser hu- hierarquização da relação terapeuta-pa- Como último pré-requisito a ser men- mano, em meio as suas aflições. Sem ciente, pelo menos quando do efetivo cionado tem-se 0 comprometimento que dúvida, 0 elemento fundamental que exercício da terapia. nada mais é do que 0 contínuo envolvi- deve alicerçar esse papel é 0 contínuo A horizontalização dessa relação, mento e a aceitação de responsabilida- fascínio pelo outro, 0 que exige uma bastante defensável por se tratar do re- des assumidas que dão sentido à esco- grande disponibilidade interna, pois lacionamento entre duas pessoas, tem do papel de terapeuta. Isso implica, sem isso nenhuma habilidade, nenhum um componente especial nesta situa- realmente, na aceitação do desafio exis- conhecimento, nenhum poder, enfim, ção, pois cada uma delas está em um tencial de lutar pela vida e por sua qua- nada é suficiente para conduzir a bom papel definido em relação à outra; 0 te- lidade acreditando, firmemente, que as- termo um processo terapêutico, seja ele rapeuta no de "ajudante" e 0 paciente sim é possível, também, exercer uma breve ou prolongado. psique 77étodo grupo era formado por oito pessoas, A avaliação e tratamento foram feitos a com queixas físicas e emocionais como insô- partir da verificação dos sintomas físicos e nia, dor de cabeça, falta de memória e con- psíquicos; assim, todos passaram por uma centração, ansiedade, insegurança, apatia, entrevista com um psiquiatra e realizaram medo e com mania de perseguição, sendo testes cognitivos com as psicólogas, verifican- que sete delas ficaram presas em cativeiro por do a preservação da memória e concentração dias, meses; e uma mulher sofreu roubo se- sendo encaminhados para terapia grupal ou guido de seqüestro e estupro. individual, conforme a indicação. Durante as sessões, que duravam uma hora e meia, foram avaliados os traumas que A influência dos conceitos essas pessoas haviam sofrido na vida, para identificar possíveis co-morbidades e riscos converteu-se em um processo clínico mais longo de suicídio. A Psicoterapia Breve focal tra- do que inicialmente idealizara 0 próprio Freud, balha a revivência de experiências primitivas ao iniciar seu trabalho de "cura pela palavra" e traumáticas, fazendo ressurgir danos pas- sados, que se encontravam arranjados. Com objetivo de tirar o paciente da crise, para ABLE STOCK que ele passe do papel de vítima para de sobrevivente, a terapia de grupo proporcio- na interação e identificação dos sentimen- tos, promovendo a reestruturação cognitiva e emocional para que cada indivíduo obte- nha esclarecimento através do insight. No grupo em questão foi observado que o trauma regride e traz conflitos de abandono atual misturado com o passado; assim, a estratégia adotada foi integrar a desestrutura psíquica da pessoa proporcio- nando melhor qualidade de vida, tornando o sofrimento menor, porque jamais será es- quecido. trauma é forte e fica a cicatriz para resto da vida. Todos os pacientes se mostraram bastan- te fragilizados e sensibilizados com a dor alheia. A vítima de seqüestro passa a ser prisioneira dela mesma, não encontra forças para sobreviver e lutar contra sentimen- tos que lhe acorrentam, impedindo-a de sair sozinha, trabalhar, dormir etc. As lembran- ças são revividas com intensa dor e isso cau- sa um ponto máximo de estresse. processo terapêutico proporcionou ao grupo a quebra de um tabu: a proibição de falar sobre assunto. Todos se queixa- Como uma lanterna, a Psicoterapia vam de que as pessoas em sua volta não Breve, funcionaria como uma luz gostavam de falar e evitavam assunto, emergencial a questões pontuais quando a vontade das vítimas era justa- 78 psique ciênciaevidaRetrospectiva S igmund Freud pode ser considerado 0 apagar um incêndio em casa provocado de ligada a sua imagem parenteral. Se- pioneiro em aplicar processo de Psico- por uma lamparina de petróleo que en- ria essa a mais importante arma, com a terapia de curta duração, principalmente tornara, se limita a retirar a lamparina qual psicanalistas lutariam contra 0 em seus primeiros casos. Foi assim com 0 do quarto, não atacando fogo gene- principal inimigo na Psicoterapia Breve: maestro Bruno Walter que, após seis ses- ralizado. Não foi, no entanto, acompa- a transferência. Outra modificação da sões em 1906, considerou-se curado, e nhado nesta postura por dois de seus técnica foi a alteração no número e na também com compositor Gustav Mahler, principais seguidores, Sándor Ferenczi freqüência das sessões, a fim de lidar em 1908, a quem, após quatro sessões, e Otto Rank que chegaram a publicar com os aspectos de dependência. Freud já havia sido capaz de curar, elu- livro Desenvolvimento da Psicanáli- Outra importante abordagem formu- cidando a origem psicodinâmica de sua se, no qual afirmam que "esplêndidas lada por Alexander diz respeito à preocu- impotência seletiva com a esposa. curas foram conseguidas algumas ve- pação com 0 passado. Para 0 psicana- Entretanto, embora Freud tenha zes em poucos dias ou semanas". lista esse sentimento deve ser superado alcançado alguns sucessos com tais Franz Alexander, do Instituto de pelo estudo do presente e das condições abordagens de curta duração, não as Psicanálise de Chicago, realizou por circundantes da vida atual. Além disso, estruturou como forma técnica, chegan- sete anos um extenso trabalho sobre 0 ele também a combinação da te- do por fim a afirmar que a "Psicanálise tema, no qual propôs uma série de mo- rapêutica psicanalítica com 0 uso de me- é sempre um processo terapêutico que dificações na técnica psicanalítica que dicação e outras formas alternativas de requer longos períodos de tempo", re- vinha se desenvolvendo até então. Uma terapia. Todas essas colocações eviden- pudiando por completo uma terapia de das modificações consiste, fundamen- ciam uma mudança de atitude, no senti- curta duração. Freud comparava 0 tra- talmente, na intenção do terapeuta em do de transformar 0 núcleo da questão; balho da Psicoterapia Breve ao de um agir de modo completamente diferente não a teoria preestabelecida, mas, sim, a bombeiro que, ao ser chamado para do que paciente espera da autorida- pessoa e suas necessidades. mente expor seus sentimentos. A famí- um deles, mobilizadora para dois, e de lia, principalmente, trata o assunto como apoio para o restante do grupo. Espera- algo proibido, e enquanto isso as vítimas va-se que fosse resolutiva para todos. ficam com a dor de se sentirem cada vez que se compreende é que a terapia breve mais oprimidas. A terapia proporcionou focal fica restrita ao tratamento da vio- a liberdade de expressarem seus senti- lência e deve-se considerar que cada qual mentos e de reconhecerem, por identifi- tem uma estrutura de personalidade de cação projetiva, que não estão sozinhos; acordo com suas características, fazendo é possível se igualar aos outros e não se com que cada qual lide com suas parti- sentir tão excluído. cularidades defendendo, a sua maneira, a À medida que o paciente conta várias que melhor se arranjar. vezes a mesma história, mas de modo dife- No trabalho de Psicoterapia Breve, rente, faz com que o terapeuta mantenha a permitir-se grau maior de liberdade im- atenção flutuante, facilitando o caminho de plica também em ressaltar, mais uma vez, reestruturação cognitiva e emocional através a importância de não "atropelar" o pa- de insight. No caso desse grupo especifica- ciente com sugestões e orientações des- mente, logo nas primeiras sessões, estabe- cabidas, pois que todo o processo poderá leceu-se um bom vínculo, com os conflitos ruir. objetivo final é que, tendo recu- atuais mesclando-se aos do passado. perado seu papel social comprometido, Ao final do tratamento, foi possível esse paciente saiba como desempenhá-lo observar que a terapia foi resolutiva para em proveito próprio. psique 79

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