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A CLÍNICA EM LACAN E AS NOVAS ESTRUTURAS CLÍNICAS AULA 3 Profª Juliana dos Santos Lourenço 2 CONVERSA INICIAL Até aqui, vimos como o sujeito se constitui em relação ao seu desejo. No primeiro momento, Lacan situou o nome do pai como o significante da lei, que interdita o gozo do sujeito para que ele entre no universo simbólico. Em um segundo momento, o autor vai tratar sobre a relação do sujeito com a falta, no outro, pois é por meio dessa falta, percebida, que o sujeito questiona: o que o outro quer? O que ele recebe de volta é outra questão: que queres? Assim, pela via da dialética do desejo, o sujeito se constitui como desejante, com o seu desejo sendo o desejo de ser desejado pelo outro. Dessa forma, o estatuto do desejo, para Lacan é: o desejo é o desejo do outro. Vamos compreender a clínica de Lacan para além do pai, que se inscreve pelo matema S(A). Para isso, faremos um breve percurso de estudo do pai simbólico para o pai real. Não se trata de uma superação, mas sim de uma ampliação no entendimento sobre a questão do pai. Esta é uma etapa para ser compreendida como parte do processo de formação psicanalítica, pois se trata de uma abordagem das últimas conclusões de Lacan sobre a origem das estruturas clínicas: neurose, perversão e psicose. Guarde este material para voltar a ele, ao longo da sua caminhada. Bons estudos! TEMA 1 – A CLÍNICAS DE LACAN Ainda que Freud não tenha definido as especificidades de cada uma das estruturas clínicas de uma forma estrutural, foi dele que Lacan tomou os fundamentos da clínica para formalizar os aspectos das estruturas clínicas da psicanálise (neurose, psicose e perversão). Nesse sentido, podemos afirmar que as estruturas clínicas são freudianas. O que é de Lacan, como ele mesmo convencionou, é a clínica do objeto a. Sobre isso, Eidelsztein (2016, p. 58, tradução nossa) declara que: Convém lembrar que o título do seminário datado de 1956-1957, ministrado por Lacan, no qual foram desenvolvidas extensamente as noções correspondentes sobre fetichismo, homossexualidade, fobia e histeria, é A relação de objeto e as estruturas freudianas. A estas estruturas Lacan nomeia estruturas freudianas; seguindo o próprio Lacan, devemos reconhecer que as estruturas clínicas são freudianas e a clínica do objeto a é lacaniana [...]. A clínica sustentada pelo objeto a diz respeito a um deslocamento do ensino de Lacan, que marca uma passagem do primeiro Lacan para o último 3 Lacan. Pois, assim como em Freud encontramos alguns marcos que incidem sobre a sua obra – por exemplo, o texto Mais além do princípio de prazer, de 1920, que deslancha para um desdobramento de sua teoria sem, com isso, invalidar os seus escritos anteriores –, o último Lacan também diz respeito a uma mudança teórica, mas não uma mudança que invalide o saber anteriormente proferido. Isso se dá pois o tempo, para a psicanálise, não é evolutivo; ele funciona em antecipação. Dito de outro modo, a psicanálise parte do efeito para a causa. Assim, o último Lacan não concebe um novo saber que substitua o anterior, mas lança luz sobre novas dimensões clínicas. Então, se no primeiro Lacan ele faz um retorno a Freud, no segundo Lacan ele vai além de Freud e desenvolve a noção clínica de objeto a, que se coloca para além da clínica ordenada pelo nome do pai. Contudo, não se trata de substituir um significante por um objeto, mas de uma reordenação teórica, que pretendemos demonstrar. 1.1 Do pai freudiano ao lacaniano Em face da clínica da psicose, Lacan (1956) transcreve o complexo de Édipo na versão do significante do nome do pai, significante da lei que não só barra o desejo da mãe, mas sobretudo metaforiza o desejo da mãe no sujeito (o desejo da mãe é o pai). Contudo, como demarca Eidelsztein (2016, tradução nossa), não podemos concluir que o complexo de Édipo e a metáfora paterna sejam elementos de uma mesma índole: “O mito de Édipo sustenta o sujeito na versão de sua história, e a metáfora paterna está por fora do relato da história do sujeito”. Portanto, o complexo de Édipo visa dar conta da origem, do fundamento estrutural concebido por meio da falta. Nesse sentido, podemos entender que o complexo de Édipo é um acontecimento contingente e histórico, que engendra a falta estrutural do sujeito. Já a metáfora paterna não tem história: ela não é contada em análise, visto que o tempo de sua operação está fora da história relatada pelo sujeito. Eidelsztein (2016, p. 67, tradução nossa) assim a descreve: “Nenhum analisante vai levar para sua análise a metáfora paterna. O que se pode e é necessário levar para análise é o mito do Édipo. A metáfora paterna não tem estrutura discursiva. A metáfora paterna não ocupa o mesmo lugar do mito.” 4 Pela construção da metáfora paterna, o sujeito se enlaça no mundo simbolizado pela lei do nome do pai, que opera na metáfora paterna. Nesses termos, Zenoni (2007) explica que o laço materno (mãe-bebê) tende a introduzir, no indivíduo, a dimensão natural, baseada na percepção e na presença concreta do outro, enquanto o laço paterno (mãe-bebê-nome do pai) visa à dimensão do que não se vê: a dimensão da ausência, pela qual se supõe a crença do indivíduo na palavra, no simbolismo das coisas do mundo. Portanto, o nome do pai organiza o mundo simbólico do indivíduo, visto que ele introduz um limite ou, como nomeou Lacan, um ponto de basta, já que toda cadeia significante da pessoa estará retroativamente ligada ao significante da falta no outro. Então, veja que, no Seminário 3: as psicoses, de 1956 – seminário em que Lacan começa a teorizar sobre o significante do nome do pai –, a relação do sujeito é com o pai-lei, que ordena o campo simbólico do indivíduo em conjunto com o pai do complexo de Édipo. Contudo, a partir do Seminário 5: as formações do inconsciente, Lacan (1958) passa a evidenciar menos a noção de um pai que barra o desejo do filho, ou que lhe interdita a mãe, para favorecer o estabelecimento da noção de um pai que tem o que o outro deseja. Nesse sentido, Lacan apontará para uma falta estrutural e não contingente e a ideia de um pai que intervém, como um pai real. Então, perceba que Lacan começa a deslocar a ideia do pai identificada no interdito, sob a perfeição simbólica, para um pai que estará articulado ao registro do real e ao desejo. “A verdadeira função do Pai é, fundamentalmente, unir (e não opor) um desejo à Lei” (Lacan, 1997, p. 824). Para nos organizarmos, vamos traçar um resumo dos deslocamentos teóricos da função paterna até aqui: a. A concepção do mito de Édipo com a lei do pai, que interdita o gozo do filho e o coloca no laço social. b. A transcrição de Lacan, daquele mito, para a metáfora paterna, cujo significante do nome do pai barra o desejo da mãe e o metaforiza, para a criança. Nessa leitura é o pai simbólico o agente. c. Tanto na interdição quanto na metaforização do desejo, o outro estaria submetido a um outro, pelo qual, quando a lei opera no outro, ele é marcado pela falta. d. No último Lacan, demarcação da falta estrutural e não contingente – nesse sentido, ainda que o nome do pai opere para apontar para o desejo 5 do outro, o que marca a falta no outro é a extração do objeto a. Lacan demarca a determinação constitutiva do sujeito pela extração do objeto a, cuja marca é a própria falta no outro, que se inscreve com S(A), cujo agente é o pai real, como uma inscrição positiva. TEMA 2 – MAIS ALÉM DO PAI Na clínica de Lacan, vemos que o nome do pai, que se articula, na metáfora paterna, para conjugar a vivência edipiana, não será a sua última palavra sobre essa temática. Pois Lacan irá, ao longo dos seus ensinamentos, apontar para outras vias, que nem sempre vemos ser trabalhadas com afinco aqui no Brasil, visto que a maioria dos nossos autores trata maiscom a primeira formulação de Lacan, cujo eixo se mantinha em Freud. O nosso maior contato com esse tema se deu no mestrado realizado na Argentina, país onde se tem o último Lacan no centro dos trabalhos psicanalíticos. O corte na clínica lacaniana ocorre, então, sobre a instância simbólica do nome do pai. Lacan (1958), como já havíamos falado, a partir do Seminário 5: as formações do inconsciente, começa a desvelar a função do pai real, cuja manifestação se dá em relação à mãe, como mulher. Zenoni (2007, p. 18) o explica assim: Lacan acentua menos a noção de um pai que proíbe o desejo do filho, ou que o priva de sua mãe, em favor da noção de um pai que permite e dá (Lacan, 1998, p. 205). A intervenção do pai real como aquele que tem o falo, ao passo que a mãe é privada aos olhos do sujeito, o pai é aquele que o dá ao invés de, por assim dizer, guardá-lo para si. Isto será decisivo para a saída normatizante do “complexo de Édipo”, ou seja, para a identificação do sujeito criança à sua posição sexuada. Desse modo, a figura do pai aparece nos textos de Lacan como sendo uma presença que causa impacto sobre o desejo da mãe, como mulher. Essa seria então a chave da clínica das chamadas diversas configurações concretas (Zenoni, 2007). Por esse viés, Lacan apresenta a ideia do pai real, na qual a relação do indivíduo com o significante pai pode revelar-se carente ou até mesmo foracluído. Pois, como declara Miller (2013) em seu artigo publicado pela Associação Mundial de Psicanálise (AMP), não há outro do outro: É preciso constatar que o primeiro Lacan constantemente se dedicou, se empenhou em determinar quais eram as leis da linguagem, as leis do discurso, as leis da fala, as leis do significante – isso me impressiona retrospectivamente. Chamo aqui de primeiro Lacan ao que há de anterior ao corte introduzido no Seminário 6, que nega o Outro do 6 Outro, ou seja, o Lacan do “Discurso de Roma”, aquele dos cinco primeiros Seminários. Então, destacamos, uma vez mais, que, nos ensinamentos de Lacan, encontramos a função paterna em dois eixos: um referente ao nome do pai; e outro, ao pai real, que se articula pelo ternário simbólico, real e imaginário, pelo qual o sujeito estará encurralado nessa relação. Para elaborarmos esse giro teórico, propomos o Quadro 1. Quadro 1 – Pai simbólico e clínica para além do pai Significante Operação Efeito Pai simbólico N.P (O) Há um outro do outro, cujo significante mestre é N.P Clínica para além do pai S(A) -1 O inominável é ineliminável, mas há uma operação lógica Essa inscrição S(A) refere-se à clínica de Lacan e diz respeito à marca de uma falta no outro, que ele convencionou como a extração do objeto a, que não é o mesmo que dizer de uma incompletude. Por esse viés, S(A) não sustenta a ideia de que há um outro para o outro. A extração do objeto a estará, para a clínica de Lacan, num nível de estrutura. E mesmo que o objeto a opere como causa de desejo, ou seja, esteja no jogo entre a incompletude de dois significantes que implica a própria incompletude do sujeito, a extração do objeto a pode não estar em todas as estruturas. A esse ponto voltaremos, mais adiante. TEMA 3 – A CLÍNICA DO OBJETO A O conceito do objeto a foi definido por Lacan como a sua maior contribuição à psicanálise. Ele foi criado e revisto de forma ampla entre os anos de 1950 e 1970, deixando muitas perspectivas diferentes para a sua compreensão. Sendo assim, a transmissão desse conceito é uma tarefa árdua, resumida por Fink (1998, p. 106) nestes termos: E poucos conceitos têm tantos avatares nas obras de Lacan: o Outro, o agalma, o número de ouro, a Coisa Freudiana, o real, a anomalia, a causa do desejo, o mais-gozar, a materialidade da linguagem, o desejo do analista, a consistência lógica, o desejo do Outro, o semblante/simulacro, o objeto perdido e assim por diante. Uma vez que literalmente milhares de páginas na obra de Lacan, a maioria delas ainda não publicadas, são dedicadas ao desenvolvimento desse conceito, não posso de maneira alguma esperar fornecer uma explicação satisfatória para o objeto a que explique ou abranja de maneira adequada todas as teorias de Lacan. A 7 Dito isso, esperamos ter baixado as expectativas, para que possamos caminhar sobre esse tema sem a pretensão de esgotá-lo, mas a focar no ponto que nos interessa, para esta etapa: a extração do objeto a. Até aqui, vimos que o objeto a emerge como resto de uma elaboração simbólica, a do real que permanece após a simbolização da operação da separação mãe-bebê, em que, a partir daí, o objeto a assume um lugar na função da fantasia, um desejo de alcançar a totalidade de uma vivência perdida. Nesse ponto, Lacan evidenciou que o desejo se constitui como o desejo do outro. Neste tópico, desejamos apresentar o objeto a no campo do outro, para pensar exatamente quando ocorre a extração do objeto a, que é determinante, em nível estrutural. Eidelsztein (2016) dirá que, quando a incompletude da estrutura se inscreve, a operação da lei se evidencia pela lógica de S(A). Portanto, o sujeito em relação à falta, que pode ser evidenciado pela afirmação lacaniana não há outro do outro, se refere à extração do objeto a. Pela explicação de Coutinho Jorge (2005), temos que: Logo, o lugar do significante é nomeado por Lacan de Outro porque ele jamais é o mesmo, ele é sempre diverso de si mesmo, ele nunca apresenta uma identidade definitiva: ele é pura alteridade. Assim, atestar que “não há Outro do Outro” implica formular a radical incompletude do Outro: para além desse regime faltoso, furado da linguagem, nada vem em suplência. O Outro não poderia possuir uma alteridade para além de sua própria, ele já é a alteridade, ele já é o Outro continuamente: nada vem lhe garantir qualquer limite definido. Dessa forma, cada significante levará, em si, sua referência à falta, por conta da sua relação com S(A). Isso explica o porquê de os significantes só alcançarem representar o sujeito em face de outro significante. Com base nessa lógica, podemos distinguir a clínica psicanalítica em dois grandes campos que se opõem entre si. Esses campos se dão pela extração ou não do objeto a e aparecem concebidos, nos termos de Lacan, no campo do intervalo ou no campo da holófrase. • A clínica do intervalo se refere à extração do objeto a, isto é, a onde o sujeito se inscreve, sob sua incompletude. Temos aí o sujeito neurótico. • Na clínica da holófrase, o objeto a não foi extraído, e o resultado disso é a falta de intervalo, pela qual o sentido da linguagem é pleno. Temos aí o sujeito psicótico, dado que, “quando não há intervalo entre S1 e S2, quando a primeira dupla de significantes se solidifica, se holofraseia, 8 temos uma série de casos – ainda que, em cada um, o sujeito não ocupe o mesmo lugar” (Lacan, 2008, p. 225). TEMA 4 – INTERVALO E HOLÓFRASE A clínica do objeto a coloca em xeque a ocorrência da extração ou não do objeto a no campo do outro. Assim, quando há a extração do objeto a, temos o intervalo, que designa o espaço entre dois significantes (S1-S2). Quando não há a extração do objeto a, ao invés do intervalo, ocorre a aglutinação desses significantes, ou seja, a holófrase. Pelo Wikipédia, a definição de holófrase está bem de acordo com o modo como Lacan emprega o termo: “Holófrase é o uso pré-linguístico de uma única palavra para expressar uma ideia complexa”. Por exemplo: uma criança que ainda está aprendendo a falar, quando diz Água!, essa palavra sozinha representa uma frase – Estou com sede, me dê água. Outra ponta da holófrase: ela pode se assemelhar a uma interjeição; mas, enquanto uma interjeição é ferramenta linguística e tem uma função gramatical específica, uma holófrase é simplesmente uma vocalização memorizada por aspecto e usada sem intenção gramatical. Por exemplo: SOS! ou Fogo!. A falta de intervalona cadeia significante não representa que exista apenas um significante. Ou seja, na ausência de S1-S2, se tem um S, não se trata disso. Na realidade, na holófrase há três elementos (X, S1 e S2), conforme Lacan (2008): • Intervalo: • Holófrase: Eidelsztein (2016, p. 75) reescreve da sua forma a holófrase, conforme Gráfico 1. S1 S2 X ◊ S1S2 9 Gráfico 1 – A holófrase de Eidelsztein Fonte: Eidelsztein, 2016, p. 75. No Gráfico 1, podemos verificar uma solidificação da ausência de intervalo, no sentido de ela não produzir uma dialética, visto que a solidificação de S1 e S2 impede a entrada de outro significante. Nesse sentido, o objeto a não foi extraído, pelo que a percepção da falta é coberta por ele. E, com base no que já aprendemos sobre alienação e separação, podemos inferir também que a holófrase é o momento da alienação, em que a criança está entregue ao sentido do outro. Sendo assim, a holófrase é o sujeito anterior à operação da separação. A distinção proposta por Lacan como princípio organizador da clínica psicanalítica pode ser assim pensada, pela clínica do intervalo e da holófrase, do modo como configurado no Quadro 2. Quadro 2 – Clínica do intervalo e da holófrase Intervalo (extração do objeto a) Holófrase (não extração do objeto a) Neuroses Perversã o Psicose Debilidade mental Resposta psicossomática Histeria Obsessã o Fobia Fonte: Elaborado com base em Eidelsztein, 2016, p. 76. A holófrase foi a solução elegante que Lacan deu à ausência da metáfora paterna; portanto, é uma outra forma de se pensar a foraclusão. A holófrase explica outras respostas de fenômenos clínicos: psicose, debilidade mental e resposta psicossomática. TEMA 5 – HOLÓFRASE: PSICOSE, RESPOSTA PSICOSSOMÁTICA E DEBILIDADE MENTAL “É possível que um sujeito se posicione como louco, que essa seja a sua resposta àquilo com o qual a estrutura de significante o enfrenta. A loucura é X S2 S1 10 uma posição que o psicanalista poderá ter que enfrentar, em sua prática” (Eidelsztein 2016, tradução nossa). Com isso, como pensar o lugar da loucura como proposta por Lacan à psicanálise? Pois, afinal: quem é o louco? Consensualmente, entendemos que o louco é aquele que tem uma linguagem fora do pacto de comunicação do laço social. Nesse sentido, a clínica da holófrase é um lugar de manifestação das loucuras. Como vimos, a clínica da holófrase se constitui quando o primeiro casal de significantes se solidifica: (S1 e S2) S1. Isto é: “quando não há intervalo entre S1 e S2, quando a primeira dupla de significantes se solidifica, se holofraseia, temos o modelo de toda uma série de casos: [psicossomática – psicose – debilidade] – ainda que, em cada um, o sujeito não ocupe o mesmo lugar” (Lacan, 2008, p. 225). No mundo zooanimal, podemos nos deparar com a comunicação das abelhas, que ocorre por meio de uma dança operada durante o seu voo: quando a abelha faz uma dança circular, ela tem o objetivo de indicar às outras que o alimento que procuram se encontra próximo. Uma abelha nunca irá fazer uma dança circular para enganar outra abelha – o sentido de sua dança tem um sentido mestre. A dança das abelhas, logo, se trata de uma holófrase. Na estrutura psicótica, o sujeito se constitui na alienação ao sentido do outro, ou seja, a operação da separação não acontece e a criança fica fixada no sentido do desejo do outro, produzindo para o sujeito um significante mestre. Dessa forma, podemos situar o desejo da mãe, na metáfora paterna, como o significante do sujeito, que corta a cadeia significante: D.M/X. A debilidade mental será situada por Lacan (1967) como uma posição subjetiva do sujeito. Portanto, nesse sentido, não se trata de uma má-formação cognitiva, mas de uma posição subjetiva. Pelas palavras de Lacan: “acontece... que as crianças sucumbam à debilidade mental pela ação dos adultos”. Assim, na debilidade mental subjetiva o sujeito está reduzido ao seu corpo, pelo qual Lacan (1974, p. 4) descreve que: Há algo que faz que o ser falante se mostre destinado à debilidade mental. E isto resulta tão somente da noção de Imaginário, naquilo em que o ponto de partida deste é a referência ao corpo e ao fato de que sua representação, digo, tudo aquilo que por ele se representa, nada mais ser que o reflexo de seu organismo. É a menor das suposições que o corpo implica. Dessa forma, na debilidade mental subjetiva como situada por Lacan, o sujeito está fixado na cadeia significante, ao invés de instalar-se nos intervalos 11 dessa cadeia. Como leitura complementar sobre esse tópico, indicamos o artigo A criança e a debilidade mental: uma abordagem lacaniana (Vorcaro; Lucero, 2011). Uma reação psicossomática acontece quando o discurso se inscreve diretamente no corpo, sem passar pela simbolização. É como uma escrita da letra direto no corpo. Um exemplo que nos ajuda a entender isso é o da marca de ferro quente no corpo de um cavalo, com as iniciais do nome do seu dono. Tais marcas no corpo não possuem e não produzem significação, pois estão fora da cadeia significante, portanto, não se ligam à história do sujeito, visto que, como holófrase, se situam fazendo cessar qualquer tentativa de representação. NA PRÁTICA Para pensarmos a clínica da holófrase, trazemos um recorte de um caso clínico publicado no artigo: Nos limites da linguagem: a holófrase e sua incidência na clínica da primeira infância (Campanário; Pinto, 2006). O caso a ser discutido se chama: “O caso Lúcio ou o que fazer quando se apresenta uma ‘simbiose’?”. No caso, Lúcio é uma criança de 2 anos que chegou à clínica “[...] enroscado no colo da mãe” (Campanário; Pinto, 2006). Suas brincadeiras não eram espontâneas, não falava e nem dormia. Sua gravidez fora desejada apenas pela mãe – o seu pai e o restante da sua família eram contra. Logo após o seu nascimento, sua mãe entrou num quadro de muita agitação, gritava muito e não conseguia cuidar do seu filho; porém, ela não deixava que ninguém o tirasse de perto dela, pois tinha medo que o roubassem. Esse quadro durou por três meses: a mãe e a criança gritavam, em desamparo extremo. Após esse tempo, a mãe passou a ser medicada e a criança, a receber os cuidados claudicantes da avó materna, uma mulher cansada e doente. Os gritos descritos foram, assim, as primeiras comunicações entre a mãe e a criança. Até os 18 meses, a criança cresceu normalmente, não apresentando sintomatologia psiquiátrica. Porém, a partir dessa idade começou a emitir constantemente um “uivo desesperado” (Campanário; Pinto, 2006), chegando a ponto de precisar ser sedada por um neurologista, para parar de fazê-lo. Nos seus três primeiros meses de vida, Lúcio não recebera acesso ao manhês, em forma de cuidados específicos dirigidos à criança, por conta da crise emocional de sua mãe. Em seguida, houve uma troca abrupta de agente materno, ficando 12 ele aos cuidados de uma avó adoecida e com poucos recursos físicos e psíquicos. Segundo Campanário e Pinto (2006), os gritos da mãe de alguma forma produziram uma ligação, pela qual Lúcio se alienou deles; contudo, ele não foi capaz de produzir a falta. Lúcio não teve abertura para elaborar o nome do pai. O pai, segundo relato da mãe de Lúcio, nunca soube lidar com o filho, tendo, ainda quando ele era recém-nascido, ido dormir em outro quarto, para não ser incomodado pela insônia de Lúcio. O atendimento precoce de Lúcio, ainda numa fase de estruturação psíquica, propicia um tratamento para uma psicose não decidida, na infância. O psicanalista deve produzir na criança, em posição de objeto, um efeito-sujeito, possibilitando uma simbolização do real. Para Jerusalink, pode-se dizer que as psicoses infantis precocíssimas devem ser consideradas como não decididas, tendo em vista que a metaforização ainda pode serpossível de se inscrever nas crianças que as manifestam. Segundo Campanário e Pinto (2006), Nancy, mãe de Lucio, considera que o tratamento a ajudou a entender do que ele precisava; sendo assim, o pai supostamente não faria falta, nessa relação. Essa fala é digna de uma preocupação; contudo, o tratamento nessa fase da infância pode ser a única possibilidade de se inserir um terceiro elemento, na vida da criança, que cumpra a função paterna. Para o relato descritivo integral do caso clínico, acesse o artigo em: (acesso em: 22 set. 2023). FINALIZANDO Estudamos, no tópico 1, a clínica sustentada pelo objeto a, que diz respeito a um deslocamento do ensinamento de Lacan. Trata-se de um segundo momento da clínica de Lacan, no qual ele aponta para uma falta estrutural e não contingente, e para a figura de um pai que intervém como um pai real. No tópico 2, vimos que a figura do pai ganha um novo status nos trabalhos de Lacan, quando assume o lugar de uma presença que causa impacto sobre o desejo da mãe, como mulher. Essa seria então a chave da clínica das chamadas diversas configurações concretas. No tópico 3, observamos como Lacan distingue a clínica psicanalítica em dois grandes campos que se opõem entre si. Esses campos se dão pela extração 13 ou não do objeto a e se concebem, nos ensinamentos de Lacan, entre o campo do intervalo e o campo da holófrase. No tópico 4, distinguimos as clínicas dispostas com base no objeto a: a clínica do intervalo se refere à extração do objeto a, em que o sujeito se inscreve sob sua incompletude. Temos, aí, o sujeito neurótico. Na clínica da holófrase, o objeto a não foi extraído, e o resultado disso é a falta de intervalo – nesse caso, o sentido da linguagem é pleno. Temos, aí, o sujeito psicótico. Por fim, no tópico 5, vimos que, da conceitualização da holófrase, surge uma nova forma de nomear a foraclusão e que, justo por meio do conceito de holófrase, Lacan alcança explicar outras respostas de fenômenos clínicos: psicose, resposta psicossomática e debilidade mental. 14 REFERÊNCIAS CAMPANÁRIO, I. S.; PINTO, J. M. Nos limites da linguagem: a holófrase e sua incidência na clínica da primeira infância. Reverso, Belo Horizonte , v. 28, n. 53, p. 51-59, set. 2006. Disponível em: . Acesso em: 13 set. 2023. EIDELSZTEIN, A. Las estructuras clínicas a partir de Lacan: intervalo y holofrase, locura, psicoses, psicossomática y debilidade mental. Buenos Aires: Letra Viva, 2016. v. 1. FINK, B. O sujeito lacaniano: entre a linguagem e o gozo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. LACAN, J. A subversão do sujeito. In: _____. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997. _____. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008. _____. O seminário 22. [S.l.], 1974. VORCARO, Â; LUCERO, A. A criança e a debilidade mental: uma abordagem lacaniana. Psicologias USP, v. 22, n. 4, p. 813-832, dez. 2011. Disponível em: . Acesso em: 13 set. 2023. ZENONI, A. Versões do pai na psicanálise lacaniana: o percurso do ensinamento de Lacan sobre a questão do pai. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 13, n. 1, p. 15-26, jun. 2007. Disponível em . Acesso em: 14 set. 2023.