Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

A CLÍNICA EM LACAN E AS 
NOVAS ESTRUTURAS CLÍNICAS 
AULA 3 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Juliana dos Santos Lourenço 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Até aqui, vimos como o sujeito se constitui em relação ao seu desejo. No 
primeiro momento, Lacan situou o nome do pai como o significante da lei, que 
interdita o gozo do sujeito para que ele entre no universo simbólico. Em um 
segundo momento, o autor vai tratar sobre a relação do sujeito com a falta, no 
outro, pois é por meio dessa falta, percebida, que o sujeito questiona: o que o 
outro quer? O que ele recebe de volta é outra questão: que queres? Assim, pela 
via da dialética do desejo, o sujeito se constitui como desejante, com o seu 
desejo sendo o desejo de ser desejado pelo outro. Dessa forma, o estatuto do 
desejo, para Lacan é: o desejo é o desejo do outro. 
Vamos compreender a clínica de Lacan para além do pai, que se inscreve 
pelo matema S(A). Para isso, faremos um breve percurso de estudo do pai 
simbólico para o pai real. Não se trata de uma superação, mas sim de uma 
ampliação no entendimento sobre a questão do pai. Esta é uma etapa para ser 
compreendida como parte do processo de formação psicanalítica, pois se trata 
de uma abordagem das últimas conclusões de Lacan sobre a origem das 
estruturas clínicas: neurose, perversão e psicose. Guarde este material para 
voltar a ele, ao longo da sua caminhada. Bons estudos! 
TEMA 1 – A CLÍNICAS DE LACAN 
Ainda que Freud não tenha definido as especificidades de cada uma das 
estruturas clínicas de uma forma estrutural, foi dele que Lacan tomou os 
fundamentos da clínica para formalizar os aspectos das estruturas clínicas da 
psicanálise (neurose, psicose e perversão). Nesse sentido, podemos afirmar que 
as estruturas clínicas são freudianas. O que é de Lacan, como ele mesmo 
convencionou, é a clínica do objeto a. Sobre isso, Eidelsztein (2016, p. 58, 
tradução nossa) declara que: 
Convém lembrar que o título do seminário datado de 1956-1957, 
ministrado por Lacan, no qual foram desenvolvidas extensamente as 
noções correspondentes sobre fetichismo, homossexualidade, fobia e 
histeria, é A relação de objeto e as estruturas freudianas. A estas 
estruturas Lacan nomeia estruturas freudianas; seguindo o próprio 
Lacan, devemos reconhecer que as estruturas clínicas são freudianas 
e a clínica do objeto a é lacaniana [...]. 
A clínica sustentada pelo objeto a diz respeito a um deslocamento do 
ensino de Lacan, que marca uma passagem do primeiro Lacan para o último 
 
 
3 
Lacan. Pois, assim como em Freud encontramos alguns marcos que incidem 
sobre a sua obra – por exemplo, o texto Mais além do princípio de prazer, de 
1920, que deslancha para um desdobramento de sua teoria sem, com isso, 
invalidar os seus escritos anteriores –, o último Lacan também diz respeito a uma 
mudança teórica, mas não uma mudança que invalide o saber anteriormente 
proferido. Isso se dá pois o tempo, para a psicanálise, não é evolutivo; ele 
funciona em antecipação. Dito de outro modo, a psicanálise parte do efeito para 
a causa. Assim, o último Lacan não concebe um novo saber que substitua o 
anterior, mas lança luz sobre novas dimensões clínicas. 
Então, se no primeiro Lacan ele faz um retorno a Freud, no segundo 
Lacan ele vai além de Freud e desenvolve a noção clínica de objeto a, que se 
coloca para além da clínica ordenada pelo nome do pai. Contudo, não se trata 
de substituir um significante por um objeto, mas de uma reordenação teórica, 
que pretendemos demonstrar. 
1.1 Do pai freudiano ao lacaniano 
Em face da clínica da psicose, Lacan (1956) transcreve o complexo de 
Édipo na versão do significante do nome do pai, significante da lei que não só 
barra o desejo da mãe, mas sobretudo metaforiza o desejo da mãe no sujeito (o 
desejo da mãe é o pai). Contudo, como demarca Eidelsztein (2016, tradução 
nossa), não podemos concluir que o complexo de Édipo e a metáfora paterna 
sejam elementos de uma mesma índole: “O mito de Édipo sustenta o sujeito na 
versão de sua história, e a metáfora paterna está por fora do relato da história 
do sujeito”. 
Portanto, o complexo de Édipo visa dar conta da origem, do fundamento 
estrutural concebido por meio da falta. Nesse sentido, podemos entender que o 
complexo de Édipo é um acontecimento contingente e histórico, que engendra a 
falta estrutural do sujeito. Já a metáfora paterna não tem história: ela não é 
contada em análise, visto que o tempo de sua operação está fora da história 
relatada pelo sujeito. Eidelsztein (2016, p. 67, tradução nossa) assim a descreve: 
“Nenhum analisante vai levar para sua análise a metáfora paterna. O que se 
pode e é necessário levar para análise é o mito do Édipo. A metáfora paterna 
não tem estrutura discursiva. A metáfora paterna não ocupa o mesmo lugar do 
mito.” 
 
 
4 
Pela construção da metáfora paterna, o sujeito se enlaça no mundo 
simbolizado pela lei do nome do pai, que opera na metáfora paterna. Nesses 
termos, Zenoni (2007) explica que o laço materno (mãe-bebê) tende a introduzir, 
no indivíduo, a dimensão natural, baseada na percepção e na presença concreta 
do outro, enquanto o laço paterno (mãe-bebê-nome do pai) visa à dimensão do 
que não se vê: a dimensão da ausência, pela qual se supõe a crença do indivíduo 
na palavra, no simbolismo das coisas do mundo. Portanto, o nome do pai 
organiza o mundo simbólico do indivíduo, visto que ele introduz um limite ou, 
como nomeou Lacan, um ponto de basta, já que toda cadeia significante da 
pessoa estará retroativamente ligada ao significante da falta no outro. 
Então, veja que, no Seminário 3: as psicoses, de 1956 – seminário em 
que Lacan começa a teorizar sobre o significante do nome do pai –, a relação do 
sujeito é com o pai-lei, que ordena o campo simbólico do indivíduo em conjunto 
com o pai do complexo de Édipo. Contudo, a partir do Seminário 5: as formações 
do inconsciente, Lacan (1958) passa a evidenciar menos a noção de um pai que 
barra o desejo do filho, ou que lhe interdita a mãe, para favorecer o 
estabelecimento da noção de um pai que tem o que o outro deseja. Nesse 
sentido, Lacan apontará para uma falta estrutural e não contingente e a ideia de 
um pai que intervém, como um pai real. Então, perceba que Lacan começa a 
deslocar a ideia do pai identificada no interdito, sob a perfeição simbólica, para 
um pai que estará articulado ao registro do real e ao desejo. “A verdadeira função 
do Pai é, fundamentalmente, unir (e não opor) um desejo à Lei” (Lacan, 1997, p. 
824). 
Para nos organizarmos, vamos traçar um resumo dos deslocamentos 
teóricos da função paterna até aqui: 
a. A concepção do mito de Édipo com a lei do pai, que interdita o gozo do 
filho e o coloca no laço social. 
b. A transcrição de Lacan, daquele mito, para a metáfora paterna, cujo 
significante do nome do pai barra o desejo da mãe e o metaforiza, para a 
criança. Nessa leitura é o pai simbólico o agente. 
c. Tanto na interdição quanto na metaforização do desejo, o outro estaria 
submetido a um outro, pelo qual, quando a lei opera no outro, ele é 
marcado pela falta. 
d. No último Lacan, demarcação da falta estrutural e não contingente – 
nesse sentido, ainda que o nome do pai opere para apontar para o desejo 
 
 
5 
do outro, o que marca a falta no outro é a extração do objeto a. Lacan 
demarca a determinação constitutiva do sujeito pela extração do objeto a, 
cuja marca é a própria falta no outro, que se inscreve com S(A), cujo 
agente é o pai real, como uma inscrição positiva. 
TEMA 2 – MAIS ALÉM DO PAI 
Na clínica de Lacan, vemos que o nome do pai, que se articula, na 
metáfora paterna, para conjugar a vivência edipiana, não será a sua última 
palavra sobre essa temática. Pois Lacan irá, ao longo dos seus ensinamentos, 
apontar para outras vias, que nem sempre vemos ser trabalhadas com afinco 
aqui no Brasil, visto que a maioria dos nossos autores trata maiscom a primeira 
formulação de Lacan, cujo eixo se mantinha em Freud. O nosso maior contato 
com esse tema se deu no mestrado realizado na Argentina, país onde se tem o 
último Lacan no centro dos trabalhos psicanalíticos. 
O corte na clínica lacaniana ocorre, então, sobre a instância simbólica do 
nome do pai. Lacan (1958), como já havíamos falado, a partir do Seminário 5: 
as formações do inconsciente, começa a desvelar a função do pai real, cuja 
manifestação se dá em relação à mãe, como mulher. Zenoni (2007, p. 18) o 
explica assim: 
Lacan acentua menos a noção de um pai que proíbe o desejo do filho, 
ou que o priva de sua mãe, em favor da noção de um pai que permite 
e dá (Lacan, 1998, p. 205). A intervenção do pai real como aquele que 
tem o falo, ao passo que a mãe é privada aos olhos do sujeito, o pai é 
aquele que o dá ao invés de, por assim dizer, guardá-lo para si. Isto 
será decisivo para a saída normatizante do “complexo de Édipo”, ou 
seja, para a identificação do sujeito criança à sua posição sexuada. 
Desse modo, a figura do pai aparece nos textos de Lacan como sendo 
uma presença que causa impacto sobre o desejo da mãe, como mulher. Essa 
seria então a chave da clínica das chamadas diversas configurações concretas 
(Zenoni, 2007). Por esse viés, Lacan apresenta a ideia do pai real, na qual a 
relação do indivíduo com o significante pai pode revelar-se carente ou até 
mesmo foracluído. Pois, como declara Miller (2013) em seu artigo publicado 
pela Associação Mundial de Psicanálise (AMP), não há outro do outro: 
É preciso constatar que o primeiro Lacan constantemente se dedicou, 
se empenhou em determinar quais eram as leis da linguagem, as leis 
do discurso, as leis da fala, as leis do significante – isso me impressiona 
retrospectivamente. Chamo aqui de primeiro Lacan ao que há de 
anterior ao corte introduzido no Seminário 6, que nega o Outro do 
 
 
6 
Outro, ou seja, o Lacan do “Discurso de Roma”, aquele dos cinco 
primeiros Seminários. 
Então, destacamos, uma vez mais, que, nos ensinamentos de Lacan, 
encontramos a função paterna em dois eixos: um referente ao nome do pai; e 
outro, ao pai real, que se articula pelo ternário simbólico, real e imaginário, pelo 
qual o sujeito estará encurralado nessa relação. Para elaborarmos esse giro 
teórico, propomos o Quadro 1. 
Quadro 1 – Pai simbólico e clínica para além do pai 
 Significante Operação Efeito 
Pai simbólico N.P (O) Há um outro do outro, cujo 
significante mestre é N.P 
Clínica para além do pai S(A) -1 
O inominável é 
ineliminável, mas há uma 
operação lógica 
Essa inscrição S(A) refere-se à clínica de Lacan e diz respeito à marca de 
uma falta no outro, que ele convencionou como a extração do objeto a, que não 
é o mesmo que dizer de uma incompletude. Por esse viés, S(A) não sustenta a 
ideia de que há um outro para o outro. A extração do objeto a estará, para a 
clínica de Lacan, num nível de estrutura. E mesmo que o objeto a opere como 
causa de desejo, ou seja, esteja no jogo entre a incompletude de dois 
significantes que implica a própria incompletude do sujeito, a extração do objeto 
a pode não estar em todas as estruturas. A esse ponto voltaremos, mais adiante. 
TEMA 3 – A CLÍNICA DO OBJETO A 
O conceito do objeto a foi definido por Lacan como a sua maior 
contribuição à psicanálise. Ele foi criado e revisto de forma ampla entre os anos 
de 1950 e 1970, deixando muitas perspectivas diferentes para a sua 
compreensão. Sendo assim, a transmissão desse conceito é uma tarefa árdua, 
resumida por Fink (1998, p. 106) nestes termos: 
E poucos conceitos têm tantos avatares nas obras de Lacan: o Outro, 
o agalma, o número de ouro, a Coisa Freudiana, o real, a anomalia, a 
causa do desejo, o mais-gozar, a materialidade da linguagem, o desejo 
do analista, a consistência lógica, o desejo do Outro, o 
semblante/simulacro, o objeto perdido e assim por diante. Uma vez que 
literalmente milhares de páginas na obra de Lacan, a maioria delas 
ainda não publicadas, são dedicadas ao desenvolvimento desse 
conceito, não posso de maneira alguma esperar fornecer uma 
explicação satisfatória para o objeto a que explique ou abranja de 
maneira adequada todas as teorias de Lacan. 
A 
 
 
7 
Dito isso, esperamos ter baixado as expectativas, para que possamos 
caminhar sobre esse tema sem a pretensão de esgotá-lo, mas a focar no ponto 
que nos interessa, para esta etapa: a extração do objeto a. Até aqui, vimos que 
o objeto a emerge como resto de uma elaboração simbólica, a do real que 
permanece após a simbolização da operação da separação mãe-bebê, em que, 
a partir daí, o objeto a assume um lugar na função da fantasia, um desejo de 
alcançar a totalidade de uma vivência perdida. Nesse ponto, Lacan evidenciou 
que o desejo se constitui como o desejo do outro. 
Neste tópico, desejamos apresentar o objeto a no campo do outro, para 
pensar exatamente quando ocorre a extração do objeto a, que é determinante, 
em nível estrutural. Eidelsztein (2016) dirá que, quando a incompletude da 
estrutura se inscreve, a operação da lei se evidencia pela lógica de S(A). 
Portanto, o sujeito em relação à falta, que pode ser evidenciado pela afirmação 
lacaniana não há outro do outro, se refere à extração do objeto a. Pela explicação 
de Coutinho Jorge (2005), temos que: 
Logo, o lugar do significante é nomeado por Lacan de Outro porque ele 
jamais é o mesmo, ele é sempre diverso de si mesmo, ele nunca 
apresenta uma identidade definitiva: ele é pura alteridade. Assim, 
atestar que “não há Outro do Outro” implica formular a radical 
incompletude do Outro: para além desse regime faltoso, furado da 
linguagem, nada vem em suplência. O Outro não poderia possuir uma 
alteridade para além de sua própria, ele já é a alteridade, ele já é o 
Outro continuamente: nada vem lhe garantir qualquer limite definido. 
Dessa forma, cada significante levará, em si, sua referência à falta, por 
conta da sua relação com S(A). Isso explica o porquê de os significantes só 
alcançarem representar o sujeito em face de outro significante. Com base nessa 
lógica, podemos distinguir a clínica psicanalítica em dois grandes campos que 
se opõem entre si. Esses campos se dão pela extração ou não do objeto a e 
aparecem concebidos, nos termos de Lacan, no campo do intervalo ou no campo 
da holófrase. 
• A clínica do intervalo se refere à extração do objeto a, isto é, a onde o 
sujeito se inscreve, sob sua incompletude. Temos aí o sujeito neurótico. 
• Na clínica da holófrase, o objeto a não foi extraído, e o resultado disso é 
a falta de intervalo, pela qual o sentido da linguagem é pleno. Temos aí o 
sujeito psicótico, dado que, “quando não há intervalo entre S1 e S2, 
quando a primeira dupla de significantes se solidifica, se holofraseia, 
 
 
8 
temos uma série de casos – ainda que, em cada um, o sujeito não ocupe 
o mesmo lugar” (Lacan, 2008, p. 225). 
TEMA 4 – INTERVALO E HOLÓFRASE 
A clínica do objeto a coloca em xeque a ocorrência da extração ou não do 
objeto a no campo do outro. Assim, quando há a extração do objeto a, temos o 
intervalo, que designa o espaço entre dois significantes (S1-S2). Quando não há 
a extração do objeto a, ao invés do intervalo, ocorre a aglutinação desses 
significantes, ou seja, a holófrase. 
Pelo Wikipédia, a definição de holófrase está bem de acordo com o modo 
como Lacan emprega o termo: “Holófrase é o uso pré-linguístico de uma única 
palavra para expressar uma ideia complexa”. Por exemplo: uma criança que 
ainda está aprendendo a falar, quando diz Água!, essa palavra sozinha 
representa uma frase – Estou com sede, me dê água. Outra ponta da holófrase: 
ela pode se assemelhar a uma interjeição; mas, enquanto uma interjeição é 
ferramenta linguística e tem uma função gramatical específica, uma holófrase é 
simplesmente uma vocalização memorizada por aspecto e usada sem intenção 
gramatical. Por exemplo: SOS! ou Fogo!. 
A falta de intervalona cadeia significante não representa que exista 
apenas um significante. Ou seja, na ausência de S1-S2, se tem um S, não se 
trata disso. Na realidade, na holófrase há três elementos (X, S1 e S2), conforme 
Lacan (2008): 
• Intervalo: 
• Holófrase: 
Eidelsztein (2016, p. 75) reescreve da sua forma a holófrase, conforme 
Gráfico 1. 
 
S1 S2 
X ◊ S1S2 
 
 
9 
Gráfico 1 – A holófrase de Eidelsztein 
 
 
 
Fonte: Eidelsztein, 2016, p. 75. 
No Gráfico 1, podemos verificar uma solidificação da ausência de 
intervalo, no sentido de ela não produzir uma dialética, visto que a solidificação 
de S1 e S2 impede a entrada de outro significante. Nesse sentido, o objeto a não 
foi extraído, pelo que a percepção da falta é coberta por ele. E, com base no que 
já aprendemos sobre alienação e separação, podemos inferir também que a 
holófrase é o momento da alienação, em que a criança está entregue ao sentido 
do outro. Sendo assim, a holófrase é o sujeito anterior à operação da separação. 
A distinção proposta por Lacan como princípio organizador da clínica 
psicanalítica pode ser assim pensada, pela clínica do intervalo e da holófrase, 
do modo como configurado no Quadro 2. 
Quadro 2 – Clínica do intervalo e da holófrase 
Intervalo (extração do objeto a) Holófrase (não extração do objeto a) 
Neuroses 
Perversã
o 
Psicose Debilidade mental Resposta 
psicossomática 
Histeria Obsessã
o 
Fobia 
Fonte: Elaborado com base em Eidelsztein, 2016, p. 76. 
A holófrase foi a solução elegante que Lacan deu à ausência da metáfora 
paterna; portanto, é uma outra forma de se pensar a foraclusão. A holófrase 
explica outras respostas de fenômenos clínicos: psicose, debilidade mental e 
resposta psicossomática. 
TEMA 5 – HOLÓFRASE: PSICOSE, RESPOSTA PSICOSSOMÁTICA E 
DEBILIDADE MENTAL 
“É possível que um sujeito se posicione como louco, que essa seja a sua 
resposta àquilo com o qual a estrutura de significante o enfrenta. A loucura é 
X 
S2 
S1 
 
 
10 
uma posição que o psicanalista poderá ter que enfrentar, em sua prática” 
(Eidelsztein 2016, tradução nossa). Com isso, como pensar o lugar da loucura 
como proposta por Lacan à psicanálise? Pois, afinal: quem é o louco? 
Consensualmente, entendemos que o louco é aquele que tem uma linguagem 
fora do pacto de comunicação do laço social. Nesse sentido, a clínica da 
holófrase é um lugar de manifestação das loucuras. 
Como vimos, a clínica da holófrase se constitui quando o primeiro casal 
de significantes se solidifica: (S1 e S2) S1. Isto é: “quando não há intervalo 
entre S1 e S2, quando a primeira dupla de significantes se solidifica, se 
holofraseia, temos o modelo de toda uma série de casos: [psicossomática – 
psicose – debilidade] – ainda que, em cada um, o sujeito não ocupe o mesmo 
lugar” (Lacan, 2008, p. 225). 
No mundo zooanimal, podemos nos deparar com a comunicação das 
abelhas, que ocorre por meio de uma dança operada durante o seu voo: quando 
a abelha faz uma dança circular, ela tem o objetivo de indicar às outras que o 
alimento que procuram se encontra próximo. Uma abelha nunca irá fazer uma 
dança circular para enganar outra abelha – o sentido de sua dança tem um 
sentido mestre. A dança das abelhas, logo, se trata de uma holófrase. 
Na estrutura psicótica, o sujeito se constitui na alienação ao sentido do 
outro, ou seja, a operação da separação não acontece e a criança fica fixada no 
sentido do desejo do outro, produzindo para o sujeito um significante mestre. 
Dessa forma, podemos situar o desejo da mãe, na metáfora paterna, como o 
significante do sujeito, que corta a cadeia significante: D.M/X. 
A debilidade mental será situada por Lacan (1967) como uma posição 
subjetiva do sujeito. Portanto, nesse sentido, não se trata de uma má-formação 
cognitiva, mas de uma posição subjetiva. Pelas palavras de Lacan: “acontece... 
que as crianças sucumbam à debilidade mental pela ação dos adultos”. Assim, 
na debilidade mental subjetiva o sujeito está reduzido ao seu corpo, pelo qual 
Lacan (1974, p. 4) descreve que: 
Há algo que faz que o ser falante se mostre destinado à debilidade 
mental. E isto resulta tão somente da noção de Imaginário, naquilo em 
que o ponto de partida deste é a referência ao corpo e ao fato de que 
sua representação, digo, tudo aquilo que por ele se representa, nada 
mais ser que o reflexo de seu organismo. É a menor das suposições 
que o corpo implica. 
Dessa forma, na debilidade mental subjetiva como situada por Lacan, o 
sujeito está fixado na cadeia significante, ao invés de instalar-se nos intervalos 
 
 
11 
dessa cadeia. Como leitura complementar sobre esse tópico, indicamos o artigo 
A criança e a debilidade mental: uma abordagem lacaniana (Vorcaro; Lucero, 
2011). 
Uma reação psicossomática acontece quando o discurso se inscreve 
diretamente no corpo, sem passar pela simbolização. É como uma escrita da 
letra direto no corpo. Um exemplo que nos ajuda a entender isso é o da marca 
de ferro quente no corpo de um cavalo, com as iniciais do nome do seu dono. 
Tais marcas no corpo não possuem e não produzem significação, pois estão fora 
da cadeia significante, portanto, não se ligam à história do sujeito, visto que, 
como holófrase, se situam fazendo cessar qualquer tentativa de representação. 
NA PRÁTICA 
Para pensarmos a clínica da holófrase, trazemos um recorte de um caso 
clínico publicado no artigo: Nos limites da linguagem: a holófrase e sua incidência 
na clínica da primeira infância (Campanário; Pinto, 2006). O caso a ser discutido 
se chama: “O caso Lúcio ou o que fazer quando se apresenta uma ‘simbiose’?”. 
No caso, Lúcio é uma criança de 2 anos que chegou à clínica “[...] 
enroscado no colo da mãe” (Campanário; Pinto, 2006). Suas brincadeiras não 
eram espontâneas, não falava e nem dormia. Sua gravidez fora desejada apenas 
pela mãe – o seu pai e o restante da sua família eram contra. Logo após o seu 
nascimento, sua mãe entrou num quadro de muita agitação, gritava muito e não 
conseguia cuidar do seu filho; porém, ela não deixava que ninguém o tirasse de 
perto dela, pois tinha medo que o roubassem. Esse quadro durou por três meses: 
a mãe e a criança gritavam, em desamparo extremo. Após esse tempo, a mãe 
passou a ser medicada e a criança, a receber os cuidados claudicantes da avó 
materna, uma mulher cansada e doente. 
Os gritos descritos foram, assim, as primeiras comunicações entre a mãe 
e a criança. Até os 18 meses, a criança cresceu normalmente, não apresentando 
sintomatologia psiquiátrica. Porém, a partir dessa idade começou a emitir 
constantemente um “uivo desesperado” (Campanário; Pinto, 2006), chegando a 
ponto de precisar ser sedada por um neurologista, para parar de fazê-lo. Nos 
seus três primeiros meses de vida, Lúcio não recebera acesso ao manhês, em 
forma de cuidados específicos dirigidos à criança, por conta da crise emocional 
de sua mãe. Em seguida, houve uma troca abrupta de agente materno, ficando 
 
 
12 
ele aos cuidados de uma avó adoecida e com poucos recursos físicos e 
psíquicos. 
Segundo Campanário e Pinto (2006), os gritos da mãe de alguma forma 
produziram uma ligação, pela qual Lúcio se alienou deles; contudo, ele não foi 
capaz de produzir a falta. Lúcio não teve abertura para elaborar o nome do pai. 
O pai, segundo relato da mãe de Lúcio, nunca soube lidar com o filho, tendo, 
ainda quando ele era recém-nascido, ido dormir em outro quarto, para não ser 
incomodado pela insônia de Lúcio. O atendimento precoce de Lúcio, ainda numa 
fase de estruturação psíquica, propicia um tratamento para uma psicose não 
decidida, na infância. O psicanalista deve produzir na criança, em posição de 
objeto, um efeito-sujeito, possibilitando uma simbolização do real. Para 
Jerusalink, pode-se dizer que as psicoses infantis precocíssimas devem ser 
consideradas como não decididas, tendo em vista que a metaforização ainda 
pode serpossível de se inscrever nas crianças que as manifestam. 
Segundo Campanário e Pinto (2006), Nancy, mãe de Lucio, considera que 
o tratamento a ajudou a entender do que ele precisava; sendo assim, o pai 
supostamente não faria falta, nessa relação. Essa fala é digna de uma 
preocupação; contudo, o tratamento nessa fase da infância pode ser a única 
possibilidade de se inserir um terceiro elemento, na vida da criança, que cumpra 
a função paterna. 
Para o relato descritivo integral do caso clínico, acesse o artigo em: 
 (acesso em: 22 set. 2023). 
FINALIZANDO 
Estudamos, no tópico 1, a clínica sustentada pelo objeto a, que diz 
respeito a um deslocamento do ensinamento de Lacan. Trata-se de um segundo 
momento da clínica de Lacan, no qual ele aponta para uma falta estrutural e não 
contingente, e para a figura de um pai que intervém como um pai real. No tópico 
2, vimos que a figura do pai ganha um novo status nos trabalhos de Lacan, 
quando assume o lugar de uma presença que causa impacto sobre o desejo da 
mãe, como mulher. Essa seria então a chave da clínica das chamadas diversas 
configurações concretas. 
No tópico 3, observamos como Lacan distingue a clínica psicanalítica em 
dois grandes campos que se opõem entre si. Esses campos se dão pela extração 
 
 
13 
ou não do objeto a e se concebem, nos ensinamentos de Lacan, entre o campo 
do intervalo e o campo da holófrase. No tópico 4, distinguimos as clínicas 
dispostas com base no objeto a: a clínica do intervalo se refere à extração do 
objeto a, em que o sujeito se inscreve sob sua incompletude. Temos, aí, o sujeito 
neurótico. Na clínica da holófrase, o objeto a não foi extraído, e o resultado disso 
é a falta de intervalo – nesse caso, o sentido da linguagem é pleno. Temos, aí, 
o sujeito psicótico. Por fim, no tópico 5, vimos que, da conceitualização da 
holófrase, surge uma nova forma de nomear a foraclusão e que, justo por meio 
do conceito de holófrase, Lacan alcança explicar outras respostas de fenômenos 
clínicos: psicose, resposta psicossomática e debilidade mental. 
 
 
 
14 
REFERÊNCIAS 
CAMPANÁRIO, I. S.; PINTO, J. M. Nos limites da linguagem: a holófrase e sua 
incidência na clínica da primeira infância. Reverso, Belo Horizonte , v. 28, n. 53, 
p. 51-59, set. 2006. Disponível em: 
. Acesso em: 13 set. 2023. 
EIDELSZTEIN, A. Las estructuras clínicas a partir de Lacan: intervalo y 
holofrase, locura, psicoses, psicossomática y debilidade mental. Buenos Aires: 
Letra Viva, 2016. v. 1. 
FINK, B. O sujeito lacaniano: entre a linguagem e o gozo. Rio de Janeiro: Jorge 
Zahar, 1998. 
LACAN, J. A subversão do sujeito. In: _____. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge 
Zahar Editor, 1997. 
_____. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. 
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008. 
_____. O seminário 22. [S.l.], 1974. 
VORCARO, Â; LUCERO, A. A criança e a debilidade mental: uma abordagem 
lacaniana. Psicologias USP, v. 22, n. 4, p. 813-832, dez. 2011. Disponível em: 
. Acesso em: 13 set. 
2023. 
ZENONI, A. Versões do pai na psicanálise lacaniana: o percurso do ensinamento 
de Lacan sobre a questão do pai. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 13, 
n. 1, p. 15-26, jun. 2007. Disponível em 
. Acesso em: 14 set. 2023.

Mais conteúdos dessa disciplina