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A CLÍNICA EM LACAN E AS NOVAS ESTRUTURAS CLÍNICAS AULA 2 Prof.ª. Juliana Lourenço 2 CONVERSA INICIAL Anteriormente, apresentamos a questão estruturalista em Lacan, pois foi a partir da metodologia linguística estruturalista que Lacan pôde reconduzir a psicanálise para os seus fundamentos e dar um algoritmo para pensar a estrutura do inconsciente: “o inconsciente é estruturado como linguagem”. Nesta abordagem, nosso objetivo será reconhecer as estruturas da linguagem e sua alteridade em relação ao sujeito, no sentido de que: quando se fala, quem fala no sujeito? A questão é posta pelo próprio Lacan, para pensar o lugar do sujeito em seu discurso, tendo em vista que somos efeito de linguagem, ou seja, estamos alienados ao discurso que nos precede e nos circunscreve por toda a vida e que em última análise constitui o arcabouço daquilo que nomeamos de desejo. Bons estudos! TEMA 1 – LINGUAGEM E ALTERIDADE O humano é banhado pela linguagem que o precede mesmo antes do seu nascimento e que continuará mesmo depois da sua morte. Isso significa dizer que a criança, antes de vir ao mundo, seus pais já preparam um lugar para ela, já escolheram o seu nome, já decoraram o seu quarto definindo a cor que caracteriza o seu sexo e, imediatamente, ao nascer, já o filiam, “tem a boca do seu pai”, “o nariz da mamãe”. O que ninguém se dá conta é que todas essas palavras usadas, que insere a criança no discurso dos pais, também dizem respeito ao modo como eles foram atravessados pela linguagem. A esse lugar, do qual todos estamos inseridos, Lacan nomeou de o Outro da linguagem. Então, perceba que a criança quando nasce é capturada pelo universo linguístico dos pais. Aprendem a falar a língua falada pelos pais, até mesmo quando nascem em países de outra língua; dessa forma, seus desejos também ficam condicionados à essa relação, visto que nos anos iniciais de sua vida o sentido de cada choro é interpretado pelos pais. Assim, a criança, ao tentar articular o seu desconforto, expresso pelo choro, toma o Outro como linguagem, que interpretará a sua forma, o seu desejo inarticulado. Desse modo, a criança entra na linguagem se alienando a ela, pois vejam que o próprio sentido da “língua materna” já indica que não pertence ao sujeito, mas a um outro. 3 Não há, portanto, desejo sem linguagem, pois como Lacan nos ensina a compreender, o desejo habita a linguagem, e, nesse sentido, o inconsciente se estrutura como uma linguagem, de representante de uma representação, como nomeou Freud e que Lacan interpretou por significantes. Assim, o desejo que o eu reconhece como “seu” está repleto dos desejos de outras pessoas, por exemplo, o desejo dos pais, que busca resgatar nos filhos o narcisismo perdido, o perpetuar um discurso para que o furo não apareça: “meu filho será um doutor”, “na minha casa todos somos devotos ao nosso padroeiro”, “nessa família casou, não se separa mais”, “as mulheres dessa casa trabalham como escravas”, “esse menino é preguiçoso igual o pai”, “você não tem capacidade para isso” e tantos outros discursos que alienam o sujeito em uma coleção de palavras expressas entre os muros de uma instituição familiar ou na cultura. Sobre isso, Bruce Fink (1998) diz que “as opiniões e desejos de outras pessoas fluem para dentro de nós através do discurso”, pelo qual Lacan enuncia que o inconsciente é o discurso do Outro, pois ele está repleto da fala, da conversa, dos objetivos, aspirações e fantasias de outras pessoas, na medida em que elas são expressas em palavras. Portanto, o inconsciente é esse reservatório das pulsões, um depósito que registra e armazena informações de forma indestrutível de modo que podem ser resgatadas a qualquer momento, pois ele é a linguagem que habita em nosso corpo. TEMA 2 – A ALIENAÇÃO AO OUTRO Para podermos advir como sujeito desejantes temos que nos sujeitarmos ao Outro, isto é, nos alienarmos à linguagem. Sendo assim, o significante substitui a criança no esquema apresentado por Fink (1998, p. 71): Outro S Criança $ Outro 4 Com isso, a criança se submete ao Outro, fazendo emergir-se como um sujeito dividido, barrado pelo recalque e submetido ao significante que passa a representá-lo para um outro significante. Dessa maneira, o sujeito dividido é coberto pelo significante, portanto, na cadeia significante, o sujeito aparece apenas no intervalo de um significante para o outro. Dito de outro modo, à medida que o sujeito desvanece pelo significante, ele passa a ser falado pelas palavras de que o moldou. Veja, pelo exemplo do vaso que se constitui pelo furo, Lacan (1960), aponta para o sujeito tal como o vaso. Crédito: Zulashai/Shutterstock. O sujeito se constitui a partir de um vazio que introduz a perspectiva de ser preenchido. É em torno do vazio que os significantes fazem borda, na miragem de fazer-se pleno, mas seu vislumbre é sempre pela falta. O vaso, só é vaso porque tem um furo, sem o furo ele pode ser qualquer outra coisa: um pote, um enfeite etc. Assim é o sujeito para a psicanálise, é pelo seu furo que o faz alienar-se ao Outro para constituir-se como sujeito. Fink (1998) vai dizer que, de certo ponto, o vazio em Lacan tem um valor antológico que instaura a falta pelo sentido de que antes esteve algo lá. Sendo esse o ponto que leva o sujeito a alienar-se ao Outro, pois é só pelo encarnar o significante que ele assume um corpo e um lugar na ordem simbólica, mesmo que a preço do seu ser. No seminário 11, Lacan (1964) apresenta o gráfico tomado da teoria dos conjuntos para demostrar a operação da alienação: https://www.shutterstock.com/pt/g/Zulashai 5 Temos aí o campo do ser e o campo do sentido, pelos quais o sujeito, no momento de sua constituição, é posto diante de uma escolha forçada, na qual ele é levado à eleição do sentido e à perda do ser. Assim, Lacan evidencia que a perda de ser é necessária para o surgimento do sujeito no universo simbólico. Todavia, a entrada no sentido colocará o sujeito em outra operação, que seria a outra face da alienação. Trata-se do ser perdido que evocará a falta, ou seja, o sujeito se constituirá pela via da alienação e da falta a ser que nunca será recoberta. A operação da alienação é um conceito importante nos ensinos de Lacan, que mais à frente retomaremos para pensar as estruturas em sua relação com o laço social, visto que alienar-se implica “escolha forçada”, da qual, muitos eximem-se dessa escolha e mantêm-se com o “seu ser”. TEMA 3 – ALIENA-SE E SEPARA-SE... Vimos que a alienação é a causa do sujeito, ou seja, está na origem de sua constituição, demarcando a sua entrada do mundo simbólico. Mas nem só de alienação viverá o sujeito, ele se aliena para instituir-se no mundo simbólico, mas é preciso separar-se para emergir o seu ser, ainda que evanescente. A separação é a segunda operação que ocorre a partir da barra no Outro. Ou seja, se no primeiro momento a criança se submete plenamente ao sentido do Outro, isto é, ela entrega a sua falta a ser ao significante que vem do outro para instituir-se sujeito, agora é a falta a ser do Outro que surge para o sujeito, e isso faz com que ele se ofereça para cobrir essa falta. Nesse sentido, a separação é o que une o conjunto demonstrado anteriormente, ou seja, refere-se à interseção, porém, não daquilo que pertence a ambos os conjuntos, mas, precisamente, daquilo que falta a ambos. Nas palavras de Fink (1998, p. 76): Na separação, o sujeito tenta preencher a falta do Outro materno demonstrado pelas várias manifestações de seu desejo por algo mais – com sua própria falta a ser, seu self ou ser ainda não existente. O O ser do sujeito O sentido Outro O não senso 6 sujeito tenta desenterrar, explorar, alinhare conjugar essas duas faltas, buscando os limites precisos da falta do Outro a fim de preenchê-la com seu self. Portanto, a operação da separação se institui à medida que o discurso do Outro cria uma incógnita para o sujeito: o que ele quer de mim? O que ele deseja? Qual o desejo do Outro? Fink (1998) situa esse momento quando a criança inicia uma fase de questionar todas as coisas, quer saber sobre tudo. Portanto, não é uma mera curiosidade de criança, pois, por trás de suas perguntas há o desejo, o desejo de saber, em verdade, qual o seu lugar no desejo dos pais. Lacan (1964, p. 209) descreve assim: Nos intervalos do discurso do Outro, surge na experiência da criança, o seguinte, que é radicalmente destacável - ele me diz isso, mas o que é que ele quer? Nesse intervalo cortando os significantes, que faz parte da estrutura mesma do significante, está a morada do que, em outros registros de meu desenvolvimento, chamei de metonímia. É de lá que se inclina, é lá que se desliza, é lá que foge como o furão, o que chamamos desejo. O desejo do Outro é apreendido pelo sujeito naquilo que não cola, nas faltas do discurso do Outro, e todos os porquês? da criança testemunham menos de uma avidez da razão das coisas do que constituem uma colocação em prova do adulto, um por que será que você me diz isso? sempre re-suscitado de seu fundo, que é o enigma do desejo do adulto. Então, veja que é pela incógnita sobre o desejo do Outro que a criança passa a se interrogar sobre o seu próprio desejo, abrindo um furo no campo do sentido. Isto é, ao se confrontar de que há um desejo no Outro para além de si, o sujeito é inserido na falta. Portanto, o desejo da criança nasce subordinado ao desejo da mãe, pelo qual a criança tenta de todas as formas ser o que a mãe deseja. A criança deseja ocupar o lugar para onde o olhar da mãe se dirige. Para Lacan, a falta e o desejo são faces da mesma moeda, em que o desejo surge na tentativa de recobrir o desejo da mãe, dito de outro modo, o desejo surge quando se deseja o desejo do Outro, ao se confrontar com a falta do Outro. Contudo, a tentativa da criança em recobrir a falta do Outro materno não será autorizada, seu desejo será barrado, coincidindo com a outra forma de operar a separação, ensinada por Lacan a partir da Metáfora Paterna, em que o Nome-do-pai metaforiza o Desejo-da-Mãe. 7 Nome-do-Pai Desejo-da-Mãe Desejo-da-Mãe X Enquanto na Metáfora Paterna Lacan (1956) situa a entrada no registro simbólico pela inscrição do significante da Lei, o Nome-do-Pai, no seminário 11, Lacan (1964) demarca que é a operação da separação que confronta o sujeito com o seu próprio desejo (“Che Vuoi?”). “É no que seu desejo está para além ou para aquém no que ela diz, do que ele intima do que ela faz surgir como sentido, é no que seu desejo é desconhecido, é nesse ponto de falta que se constitui o desejo do sujeito” (Lacan, 1964, p. 214). Assim, é no ponto da falha do sentido que o desejo emerge, libertando o sujeito de uma alienação radical para produzir uma identificação primordial. Trata-se de um momento lógico a cada sujeito, no sentido de não ser uma passagem cronológica. A identificação se instala S2, formando um Ideal de eu (I(A)) e instituindo retroativamente o S1, que precipita o $ e o desejo que será recoberto pelo objeto a (causa de desejo). A análise é o lugar onde a verdade do sujeito emerge, precisamente no intervalo entre significantes e nos furos do discurso, “uma vez reconhecida a estrutura da linguagem no inconsciente, que tipo de sujeito podemos conceber- lhe?”, questiona Lacan (1960, p. 833). Continuaremos estudando sobre isso. TEMA 4 – OBJETO a Entendemos que a falta no Outro precipita no ser do sujeito o desejo, pois como Lacan sublinha, o desejo do Outro é a causa do desejo no sujeito, ou seja, é o que está na origem do desejo, mas que pode ser entendido por “o desejo do homem é que o Outro o deseje”. N.P A Falo $ S1 S2 Sujeito Outro Objeto a 8 A isso que o sujeito deseja, como causa do seu desejo, Lacan nomeou de Objeto a. Portanto, o objeto a é aquilo que o sujeito deseja para ser desejado pelo Outro. Fink (1998) explica que a criança gostaria de permanecer sendo o único objeto da mãe, contudo, a mãe, na maioria das vezes, vai demonstrar um desejo sempre para além da criança, criando um enigma para a criança: “o que será que ela quer?”. A natureza do desejo cria um corte na unidade hipotética (mãe- bebê), sendo esse corte o que cria (erige) o objeto a. Assim, o valor do objeto a tem para o sujeito, que está separado do campo do Outro pelo recalque, a ilusão de plenitude, pois se trata do objeto que se perdeu com o corte da relação, sendo isso o que Lacan precisamente classifica como fantasia, conclui Fink (1998, p. 83). O objeto a é para o sujeito resquício da relação mãe-bebê, ele sustenta a ilusão de totalidade, encobrindo a sua divisão. Para essa ilusão encobridora, Lacan cria o matema da fantasia: $ a, que se lê assim: o sujeito dividido em toda relação possível com o objeto a. Ao contarem suas fantasias para seus analistas, os analisandos informam sobre o modo como desejam estar relacionados com o objeto a; em outras palavras, a forma como eles gostariam de estar posicionados com relação ao Desejo do Outro. O objeto a, na medida em que entram em suas fantasias, é um instrumento ou joguete com o qual os sujeitos fazem o que querem, manipulam ao seu bel-prazer, combinando as coisas no cenário da fantasia de forma a obter o máximo de emoção disso. (Fink, 1998, p. 83). Contudo, as relações possíveis do sujeito com o objeto a transcendem o entendimento compreendido como prazeroso, visto que o horror, o nojo e a dor podem ser uma emoção ao alcance do objeto a. A esse prazer, cujas emoções se desviam do alívio de tensão, Lacan nomeou de Gozo. Um gozo como reminiscência da unidade mãe-bebê perdida, que não se subscreve na ordem simbólica. GOZO = uma satisfação inconsciente que está para além do prazer, onde começa a causar dor, sofrimento ou desprazer. Exemplo: fome > comer > prazer > continuar comendo > gozo. TEMA 5 – A RELAÇÃO DO SUJEITO COM O SEU DESEJO Já sabemos que a operação da separação acontece quando o sujeito se confronta com a falta no Outro. Isso faz emergir o desejo no sujeito. Dito de outro 9 modo, o sujeito, ao ir em busca de encontrar a resposta para o desejo do Outro, encontra a pergunta: Che Voui? (que queres?). Porém, na impossibilidade de se oferecer diretamente como objeto para o Outro, por conta da interdição do Nome- do-Pai que barra o seu gozo, o sujeito se oferecerá pela via do simbólico, portanto, indiretamente por intermédio do significante. A esse respeito Zanola (2019) explica que o sujeito buscará o resgate não só em uma representação, mas, sobretudo, de um gozo perdido que o colocará por duas vias: identificação e fantasia. 1. Pela identificação: onde o significante pode encontrar âncora, ou seja, o sujeito se nomeia a partir da imagem do outro. “Eu sou o bebê da mamãe”; “Torcer para o time que o pai torce”; 2. Pela fantasia: a partir do enigma que vem do Outro (che vuoi?), o sujeito buscará constituir respostas a esse enigma tentando se localizar como seu objeto desejado. É uma resposta enigmática, sutil e inconsciente ao desejo da mãe. O filho vai agir, buscar ser e atuar da maneira que ele interpreta, em que, assim, satisfará o desejo do Outro. O problema é quando a criança capta um desejo de que os pais não suportam em si. Acontece o “equívoco”. O lugar da linguagem é o lugar do equívoco. Na verdade, a interpretação é verdadeira, mas pelo incômodo, aparece como sintoma. A criança denuncia o que está recalcado para os pais. Portanto, frente ao desejo do Outro, o sujeito tenta se colocar como objeto desejado, produzindorespostas fantasmáticas. Nas Palavras de Zanola (2019, p. 134), Assim, frente ao desejo do Outro, o sujeito tenta se colocar como seu objeto desejado, produzindo respostas fantasmáticas sobre o que o Outro desejaria. Nesse movimento, o sujeito não encontra uma resposta para o desejo do Outro; todavia, no que Lacan chama de uma torção, numa reflexão, o sujeito retorna à determinação de seu próprio desejo, constituindo-se enquanto sujeito frente ao que percebe como desejado pelo Outro. Por isso, Lacan afirma que o desejo neurótico encontra-se preso à demanda do Outro, substituindo o objeto a no matema do fantasma ($◊a), pelo D da demanda do Outro – $◊D. Assim, o sujeito neurótico vive alienado a satisfazer o Outro, o que aponta uma alienação de seu desejo – ‘O desejo do neurótico gira em torno da demanda do Outro’. (Lacan, 1966-1967, p. 198). Assim, verificamos que a relação do sujeito com o seu desejo é, na verdade, uma relação de alienação ao desejo do Outro. Lacan nos ensina que a determinação do desejo efetuada pelo fantasma constitui-se pelo engano. O 10 fantasma é, então, uma encenação do desejo do Outro sobre o qual o sujeito se constitui, conclui Zanola (2019). Sobre a relação do sujeito com o desejo, temos: • Tempo: alienação (mãe-bebê), criança identificada ao desejo do Outro, uma satisfação que à leitura do Édipo podemos nomear de incestuosa; • Tempo: separação, o Outro deseja algo. Aqui há uma renúncia desse gozo incestuoso com o auxílio da função paterna, que metaforiza o desejo do Outro; • Tempo: torção à alienação: objeto a. Agora, pela dialética do desejo simbolizado, o “Che vuoi?” (que queres?) coloca o sujeito diante de um enigma, pelo qual ele responde com o objeto a que tem a função de unir novamente o seu ser ao Outro. Assim, o sujeito deseja ser o desejo do Outro. Lacan evidencia que o sujeito neurótico confunde o seu desejo com a demanda do Outro (D), cujo matema ele escreve assim: Nesse sentido, o fantasma/fantasia conjuga a separação ao retorno à alienação, haja vista que o processo de separação se coloca como possibilidade de o sujeito advir com o seu desejo separado do Outro, mas como o psiquismo nunca quer abrir mão de um gozo vivido, o fantasma se constitui na separação, para manter os votos com o Outro. Assim, para concluirmos, usamos a explicação dada por Zanola (2019, p. 135-136): Assim, tanto o fantasma quanto as identificações do sujeito são pensadas por Lacan como alienações, fornecendo o segundo sentido que gostaríamos de destacar sobre o conceito de alienação – a alienação enquanto uma fixação do sujeito que é construída a partir das referências do desejo do Outro encenadas no fantasma. Nesse sentido, percebemos que, durante todo o percurso de uma teoria da alienação desenvolvida por Lacan, encontramos definições de como o sujeito produz uma identidade fixa a partir de sua posição como objeto frente ao desejo do Outro. Portanto, como evidenciamos em nossa conversa inicial: quem fala no sujeito? O inconsciente fala, e nossa atuação como analista, deve ser sobre ele. Deve ser saber ouvi-lo, saber decifrar as maneiras pelas quais ele (o $ D 11 inconsciente) se comunica na linguagem. O sujeito do inconsciente é quem fala em análise. E ele (o sujeito do inconsciente) tem um saber que a pessoa não sabe que tem. A pessoa que está acostumada a pensar apenas racionalmente não sabe que sabe tudo aquilo que seu inconsciente sabe. Por isso, nossa função é favorecer a associação livre para que a pessoa se escute, ou seja, para que a pessoa escute o sujeito de seu próprio inconsciente. NA PRÁTICA Para pensar as operações de alienação e separação, trago um recorte de uma apresentação de um caso clínico, publicado por Ronald Portillo (1989), cujo título é: Ana entre dois significantes. “Quero deixar de ser tão intelectual” – essa é queixa que Ana apresenta pela primeira vez ao analista. Portillo (1989) descreve que desde o início das entrevistas evidenciou-se que o sentido que Ana dava à palavra “intelectual” concernia a uma determinada relação com o saber, ao qual ela teve acesso ainda na adolescência quando não encontrou resposta ao enigma de seu sexo e de seu ser, tendo então procurado resolvê-lo nos estudos e nos livros, onde ela julga estar depositado esse saber. “Eis-me ainda com o meu curso”, dizia ela, enunciando o que claramente representava esse período como docente de literatura. Múltiplas dissertações sobre vida, morte, religião etc. se desenvolvia durante uma série de sessões, onde não surge nenhuma formação do inconsciente, nenhuma manifestação de sua falta-em-ser. O interesse de Portillo por um de seus poemas, que tratava do pai, marca uma virada nas entrevistas, e ela passa a questionar sobre sua posição e queixar-se do modo indelicado como sua mãe o tratava, desaguando na sua própria vida amorosa. Ana havia tido dois amores infelizes, ambos marcados pelo traço “intelectual” atribuído ao parceiro: um por falta, o outro por excesso, descreve Portillo (1998). No fim de uma sessão, onde ela se interroga sobre suas relações com seus objetos de amor, Ana solicita um atestado, onde pudesse certificar que ela é intelectualmente normal. Portillo (1998) explica que, para dar consistência à essa solicitação, Ana menciona outros atestados já concedidos por um psicólogo e por um psiquiatra, com os quais ela seguirá tratamento. Mais tarde ela revela que, pouco depois de ter obtido os certificados de “normalidade intelectual”, interrompera o tratamento. 12 Na sessão seguinte, Ana em associação revela que os amigos e a família não a consideram uma pessoa normal, pois se recusou a casar-se com um jovem engenheiro, ao qual ela estava afetivamente ligada. Sobre esse fragmento de análise, Portillo (1998) destaca que a resistência aparece na transferência com o analista, cria obstáculo ao avanço do tratamento e impede que o sujeito do inconsciente se manifeste. A resistência é do superego, diferente da defesa, que é do ego. Durante longo período, Ana comparecia às entrevistas para fazer exibição de um saber, isto é, para estabelecer comigo uma relação dual a fim de convencer-me de que ela é amável. Jogo especular em que o saber aparece como operador, e que integra a polaridade narcísica: amar = ser amado. Pelo fato do amor de transferência, a sessão virava, para Ana, relação de troca de saber. Exibindo seu saber, ela oferecia seu amor, esperando receber, em contrapartida, uma atestação de amor, isto é, um saber que confirma sua intelectualidade como normal. Assim Ana colocava o analista em posição de ideal, lugar mesmo de onde ela gostava de ser vista, a função do ideal do eu vindo em lugar do analista. Desde então o acesso do sujeito ($) ao ideal do eu I(A) se estabelecia em curto-circuito, pela via da relação especular [...]. (Portillo, 1998, p. 41). O que destacamos desse recorte de caso é que o significante intelectual (S2), que representa o seu I(A), significante que na cadeia associativa está ligado ao objeto a (S1). Lugar, portanto, do seu desejo. O significante “normal” é o significante que representa o sujeito na transferência: “ateste que sou normal”. O trabalho de análise vai na direção de não responder à sua demanda, para que a demanda lhe faça pergunta: sou normal? Ao formular essa pergunta, o sujeito se interroga sobre o seu desejo saindo do engodo do amor. Portelli (1998, p. 43) conclui que “o que Ana desejava, lhe aparecia sob a forma do que ela não queria: ‘ser intelectual’. Histeria, onde a problemática do desejo é exemplar”. Podemos perceber que, no caso descrito, Ana resiste (ação do superego) e se defende (ação do ego). No exemplo, o mecanismo de defesa é a intelectualização. Nas primeiras sessões (entrevistas preliminares) temos exemplos de resistência e defesa que impediram o início da análise. Quando o analistanão der o atestado que Ana pede, ele estará usando a regra da abstinência, pela não gratificação. Essa é uma intervenção cuja intencionalidade é provocar que Ana fale mais sobre isso: sobre não ter o atestado de ser normal, abrindo a cadeia de significantes e possibilitando que entre em análise. 13 Saiba mais SUPEREGO: impõe resistência à análise porque a análise é uma ação que barra o gozo e o superego não gosta nada disso, porque o que ele quer é fazer com que o sujeito goze sempre mais. O papel do superego de ser imperativo do gozo, esse impulso que leva o sujeito a produzir sempre mais, mesmo que mantenha o sofrimento. EGO: está a serviço do princípio do prazer e evitará o aumento de tensão, defendendo-se de tudo aquilo que pode causar desprazer. Vai atuar para impedir que o prazer se estenda de mais a ponto de passar a um excesso que gera sofrimento. Os mecanismos de defesa são sempre do ego. O superego não tem mecanismos de defesa, o que ele faz é resistir. E isso, na clínica, pode parecer a mesma coisa. FINALIZANDO No tópico 1, estudamos que a criança, ao nascer, já é precedida pela linguagem; dessa forma, ela será “forçada a se submeter” ao Outro, tesouro dos significantes. Lacan enuncia que o inconsciente é o discurso do Outro, pois ele está repleto da fala, da conversa, dos objetivos, aspirações e fantasias de outras pessoas, na medida em que elas são expressas em palavras. No tópico 2, vimos que a primeira operação na qual a criança deve ser submetida é a alienação, pois é na alienação que o sujeito entra no mundo simbólico, das representações, dos significantes. No tópico 3, apresentamos que a segunda operação da qual o sujeito deve se submeter é à separação, onde ele se confronta com a falta no Outro e tenta responder ao desejo do Outro: o que o Outro quer? A falta no Outro é a causa do desejo do sujeito, que se separa do sentido e se coloca como desejante. No tópico 4, estudamos que o objeto a é o ponto de intercessão no conjunto entre o sujeito e o outro, contudo, não se trata de um objeto que ambos possuem, mas exatamente aquilo que caracteriza a falta em ambos, pois é o objeto que cai no processo de separação. No tópico 5, a relação do sujeito com o seu desejo acontece em três momentos. No primeiro, o sujeito é o desejo do Outro; no segundo, o Outro deseja, o sujeito se confronta com a falta do Outro; por fim, no terceiro, o sujeito busca em sua fantasia ser o objeto de desejo do Outro. Nesse sentido, o sujeito 14 se aliena, se separa e a fantasia é a torção para a sua alienação no desejo do Outro. 15 REFERÊNCIAS FINK, B. O Sujeito Lacaniano. Entre a linguagem e o gozo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. LACAN, J. (1964). O seminário, Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008. ______. (1960). O Seminário, Livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997. MILLER, J. A. Percurso de Lacan: uma introdução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988. PORTILLO. R. Ana entre dois significantes, in Clínica Lacaniana, casos clínicos do campo freudiano. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. ZANOLA, P. C.; LUSTOZA, R. Z. Alienação e separação no Seminário 11 de Lacan: uma proposta de interpretação. Tempo psicanal., Rio de Janeiro, v. 51, n. 2, p. 121-139, dez. 2019. Disponível em: . Acesso em: 7 ago. 2023.