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A CLÍNICA EM LACAN E AS 
NOVAS ESTRUTURAS CLÍNICAS 
AULA 2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª. Juliana Lourenço 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Anteriormente, apresentamos a questão estruturalista em Lacan, pois foi 
a partir da metodologia linguística estruturalista que Lacan pôde reconduzir a 
psicanálise para os seus fundamentos e dar um algoritmo para pensar a 
estrutura do inconsciente: “o inconsciente é estruturado como linguagem”. 
Nesta abordagem, nosso objetivo será reconhecer as estruturas da 
linguagem e sua alteridade em relação ao sujeito, no sentido de que: quando se 
fala, quem fala no sujeito? A questão é posta pelo próprio Lacan, para pensar o 
lugar do sujeito em seu discurso, tendo em vista que somos efeito de linguagem, 
ou seja, estamos alienados ao discurso que nos precede e nos circunscreve por 
toda a vida e que em última análise constitui o arcabouço daquilo que nomeamos 
de desejo. 
Bons estudos! 
TEMA 1 – LINGUAGEM E ALTERIDADE 
O humano é banhado pela linguagem que o precede mesmo antes do seu 
nascimento e que continuará mesmo depois da sua morte. Isso significa dizer 
que a criança, antes de vir ao mundo, seus pais já preparam um lugar para ela, 
já escolheram o seu nome, já decoraram o seu quarto definindo a cor que 
caracteriza o seu sexo e, imediatamente, ao nascer, já o filiam, “tem a boca do 
seu pai”, “o nariz da mamãe”. O que ninguém se dá conta é que todas essas 
palavras usadas, que insere a criança no discurso dos pais, também dizem 
respeito ao modo como eles foram atravessados pela linguagem. A esse lugar, 
do qual todos estamos inseridos, Lacan nomeou de o Outro da linguagem. 
Então, perceba que a criança quando nasce é capturada pelo universo 
linguístico dos pais. Aprendem a falar a língua falada pelos pais, até mesmo 
quando nascem em países de outra língua; dessa forma, seus desejos também 
ficam condicionados à essa relação, visto que nos anos iniciais de sua vida o 
sentido de cada choro é interpretado pelos pais. 
Assim, a criança, ao tentar articular o seu desconforto, expresso pelo 
choro, toma o Outro como linguagem, que interpretará a sua forma, o seu desejo 
inarticulado. Desse modo, a criança entra na linguagem se alienando a ela, pois 
vejam que o próprio sentido da “língua materna” já indica que não pertence ao 
sujeito, mas a um outro. 
 
 
3 
Não há, portanto, desejo sem linguagem, pois como Lacan nos ensina a 
compreender, o desejo habita a linguagem, e, nesse sentido, o inconsciente se 
estrutura como uma linguagem, de representante de uma representação, como 
nomeou Freud e que Lacan interpretou por significantes. 
Assim, o desejo que o eu reconhece como “seu” está repleto dos desejos 
de outras pessoas, por exemplo, o desejo dos pais, que busca resgatar nos filhos 
o narcisismo perdido, o perpetuar um discurso para que o furo não apareça: “meu 
filho será um doutor”, “na minha casa todos somos devotos ao nosso padroeiro”, 
“nessa família casou, não se separa mais”, “as mulheres dessa casa trabalham 
como escravas”, “esse menino é preguiçoso igual o pai”, “você não tem 
capacidade para isso” e tantos outros discursos que alienam o sujeito em uma 
coleção de palavras expressas entre os muros de uma instituição familiar ou na 
cultura. 
 
 
 
 
Sobre isso, Bruce Fink (1998) diz que “as opiniões e desejos de outras 
pessoas fluem para dentro de nós através do discurso”, pelo qual Lacan enuncia 
que o inconsciente é o discurso do Outro, pois ele está repleto da fala, da 
conversa, dos objetivos, aspirações e fantasias de outras pessoas, na medida 
em que elas são expressas em palavras. 
Portanto, o inconsciente é esse reservatório das pulsões, um depósito que 
registra e armazena informações de forma indestrutível de modo que podem ser 
resgatadas a qualquer momento, pois ele é a linguagem que habita em nosso 
corpo. 
TEMA 2 – A ALIENAÇÃO AO OUTRO 
Para podermos advir como sujeito desejantes temos que nos sujeitarmos 
ao Outro, isto é, nos alienarmos à linguagem. Sendo assim, o significante 
substitui a criança no esquema apresentado por Fink (1998, p. 71): 
 Outro S 
 Criança $ 
Outro 
 
 
4 
Com isso, a criança se submete ao Outro, fazendo emergir-se como um 
sujeito dividido, barrado pelo recalque e submetido ao significante que passa a 
representá-lo para um outro significante. 
Dessa maneira, o sujeito dividido é coberto pelo significante, portanto, na 
cadeia significante, o sujeito aparece apenas no intervalo de um significante para 
o outro. Dito de outro modo, à medida que o sujeito desvanece pelo significante, 
ele passa a ser falado pelas palavras de que o moldou. 
Veja, pelo exemplo do vaso que se constitui pelo furo, Lacan (1960), 
aponta para o sujeito tal como o vaso. 
 
Crédito: Zulashai/Shutterstock. 
O sujeito se constitui a partir de um vazio que introduz a perspectiva de 
ser preenchido. É em torno do vazio que os significantes fazem borda, na 
miragem de fazer-se pleno, mas seu vislumbre é sempre pela falta. O vaso, só 
é vaso porque tem um furo, sem o furo ele pode ser qualquer outra coisa: um 
pote, um enfeite etc. Assim é o sujeito para a psicanálise, é pelo seu furo que o 
faz alienar-se ao Outro para constituir-se como sujeito. 
Fink (1998) vai dizer que, de certo ponto, o vazio em Lacan tem um valor 
antológico que instaura a falta pelo sentido de que antes esteve algo lá. Sendo 
esse o ponto que leva o sujeito a alienar-se ao Outro, pois é só pelo encarnar o 
significante que ele assume um corpo e um lugar na ordem simbólica, mesmo 
que a preço do seu ser. 
No seminário 11, Lacan (1964) apresenta o gráfico tomado da teoria dos 
conjuntos para demostrar a operação da alienação: 
https://www.shutterstock.com/pt/g/Zulashai
 
 
5 
 
 
 
 
 
Temos aí o campo do ser e o campo do sentido, pelos quais o sujeito, no 
momento de sua constituição, é posto diante de uma escolha forçada, na qual 
ele é levado à eleição do sentido e à perda do ser. Assim, Lacan evidencia que 
a perda de ser é necessária para o surgimento do sujeito no universo simbólico. 
Todavia, a entrada no sentido colocará o sujeito em outra operação, que 
seria a outra face da alienação. Trata-se do ser perdido que evocará a falta, ou 
seja, o sujeito se constituirá pela via da alienação e da falta a ser que nunca será 
recoberta. 
A operação da alienação é um conceito importante nos ensinos de Lacan, 
que mais à frente retomaremos para pensar as estruturas em sua relação com o 
laço social, visto que alienar-se implica “escolha forçada”, da qual, muitos 
eximem-se dessa escolha e mantêm-se com o “seu ser”. 
TEMA 3 – ALIENA-SE E SEPARA-SE... 
Vimos que a alienação é a causa do sujeito, ou seja, está na origem de 
sua constituição, demarcando a sua entrada do mundo simbólico. Mas nem só 
de alienação viverá o sujeito, ele se aliena para instituir-se no mundo simbólico, 
mas é preciso separar-se para emergir o seu ser, ainda que evanescente. 
A separação é a segunda operação que ocorre a partir da barra no Outro. 
Ou seja, se no primeiro momento a criança se submete plenamente ao sentido 
do Outro, isto é, ela entrega a sua falta a ser ao significante que vem do outro 
para instituir-se sujeito, agora é a falta a ser do Outro que surge para o sujeito, 
e isso faz com que ele se ofereça para cobrir essa falta. 
Nesse sentido, a separação é o que une o conjunto demonstrado 
anteriormente, ou seja, refere-se à interseção, porém, não daquilo que pertence 
a ambos os conjuntos, mas, precisamente, daquilo que falta a ambos. Nas 
palavras de Fink (1998, p. 76): 
Na separação, o sujeito tenta preencher a falta do Outro materno 
demonstrado pelas várias manifestações de seu desejo por algo mais 
– com sua própria falta a ser, seu self ou ser ainda não existente. O 
O ser do 
sujeito 
O sentido 
Outro 
O não 
senso 
 
 
6 
sujeito tenta desenterrar, explorar, alinhare conjugar essas duas faltas, 
buscando os limites precisos da falta do Outro a fim de preenchê-la 
com seu self. 
Portanto, a operação da separação se institui à medida que o discurso do 
Outro cria uma incógnita para o sujeito: o que ele quer de mim? O que ele 
deseja? Qual o desejo do Outro? 
Fink (1998) situa esse momento quando a criança inicia uma fase de 
questionar todas as coisas, quer saber sobre tudo. Portanto, não é uma mera 
curiosidade de criança, pois, por trás de suas perguntas há o desejo, o desejo 
de saber, em verdade, qual o seu lugar no desejo dos pais. Lacan (1964, p. 209) 
descreve assim: 
Nos intervalos do discurso do Outro, surge na experiência da criança, 
o seguinte, que é radicalmente destacável - ele me diz isso, mas o que 
é que ele quer? Nesse intervalo cortando os significantes, que faz parte 
da estrutura mesma do significante, está a morada do que, em outros 
registros de meu desenvolvimento, chamei de metonímia. É de lá que 
se inclina, é lá que se desliza, é lá que foge como o furão, o que 
chamamos desejo. O desejo do Outro é apreendido pelo sujeito naquilo 
que não cola, nas faltas do discurso do Outro, e todos os porquês? da 
criança testemunham menos de uma avidez da razão das coisas do 
que constituem uma colocação em prova do adulto, um por que será 
que você me diz isso? sempre re-suscitado de seu fundo, que é o 
enigma do desejo do adulto. 
Então, veja que é pela incógnita sobre o desejo do Outro que a criança 
passa a se interrogar sobre o seu próprio desejo, abrindo um furo no campo do 
sentido. Isto é, ao se confrontar de que há um desejo no Outro para além de si, 
o sujeito é inserido na falta. Portanto, o desejo da criança nasce subordinado ao 
desejo da mãe, pelo qual a criança tenta de todas as formas ser o que a mãe 
deseja. A criança deseja ocupar o lugar para onde o olhar da mãe se dirige. 
Para Lacan, a falta e o desejo são faces da mesma moeda, em que o 
desejo surge na tentativa de recobrir o desejo da mãe, dito de outro modo, o 
desejo surge quando se deseja o desejo do Outro, ao se confrontar com a falta 
do Outro. 
Contudo, a tentativa da criança em recobrir a falta do Outro materno não 
será autorizada, seu desejo será barrado, coincidindo com a outra forma de 
operar a separação, ensinada por Lacan a partir da Metáfora Paterna, em que o 
Nome-do-pai metaforiza o Desejo-da-Mãe. 
 
 
 
7 
 
 
 Nome-do-Pai Desejo-da-Mãe 
 Desejo-da-Mãe X 
 
Enquanto na Metáfora Paterna Lacan (1956) situa a entrada no registro 
simbólico pela inscrição do significante da Lei, o Nome-do-Pai, no seminário 11, 
Lacan (1964) demarca que é a operação da separação que confronta o sujeito 
com o seu próprio desejo (“Che Vuoi?”). “É no que seu desejo está para além ou 
para aquém no que ela diz, do que ele intima do que ela faz surgir como sentido, 
é no que seu desejo é desconhecido, é nesse ponto de falta que se constitui o 
desejo do sujeito” (Lacan, 1964, p. 214). 
Assim, é no ponto da falha do sentido que o desejo emerge, libertando o 
sujeito de uma alienação radical para produzir uma identificação primordial. 
Trata-se de um momento lógico a cada sujeito, no sentido de não ser uma 
passagem cronológica. A identificação se instala S2, formando um Ideal de eu 
(I(A)) e instituindo retroativamente o S1, que precipita o $ e o desejo que será 
recoberto pelo objeto a (causa de desejo). 
 
 
 
 
 
A análise é o lugar onde a verdade do sujeito emerge, precisamente no 
intervalo entre significantes e nos furos do discurso, “uma vez reconhecida a 
estrutura da linguagem no inconsciente, que tipo de sujeito podemos conceber-
lhe?”, questiona Lacan (1960, p. 833). Continuaremos estudando sobre isso. 
TEMA 4 – OBJETO a 
Entendemos que a falta no Outro precipita no ser do sujeito o desejo, pois 
como Lacan sublinha, o desejo do Outro é a causa do desejo no sujeito, ou seja, 
é o que está na origem do desejo, mas que pode ser entendido por “o desejo do 
homem é que o Outro o deseje”. 
N.P 
 
 A 
Falo 
 $ 
 
S1 
 
S2 
Sujeito 
Outro 
Objeto a 
 
 
8 
A isso que o sujeito deseja, como causa do seu desejo, Lacan nomeou de 
Objeto a. Portanto, o objeto a é aquilo que o sujeito deseja para ser desejado 
pelo Outro. 
Fink (1998) explica que a criança gostaria de permanecer sendo o único 
objeto da mãe, contudo, a mãe, na maioria das vezes, vai demonstrar um desejo 
sempre para além da criança, criando um enigma para a criança: “o que será 
que ela quer?”. A natureza do desejo cria um corte na unidade hipotética (mãe-
bebê), sendo esse corte o que cria (erige) o objeto a. 
Assim, o valor do objeto a tem para o sujeito, que está separado do campo 
do Outro pelo recalque, a ilusão de plenitude, pois se trata do objeto que se 
perdeu com o corte da relação, sendo isso o que Lacan precisamente classifica 
como fantasia, conclui Fink (1998, p. 83). 
O objeto a é para o sujeito resquício da relação mãe-bebê, ele sustenta a 
ilusão de totalidade, encobrindo a sua divisão. Para essa ilusão encobridora, 
Lacan cria o matema da fantasia: $ a, que se lê assim: o sujeito dividido em 
toda relação possível com o objeto a. 
Ao contarem suas fantasias para seus analistas, os analisandos 
informam sobre o modo como desejam estar relacionados com o objeto 
a; em outras palavras, a forma como eles gostariam de estar 
posicionados com relação ao Desejo do Outro. O objeto a, na medida 
em que entram em suas fantasias, é um instrumento ou joguete com o 
qual os sujeitos fazem o que querem, manipulam ao seu bel-prazer, 
combinando as coisas no cenário da fantasia de forma a obter o 
máximo de emoção disso. (Fink, 1998, p. 83). 
Contudo, as relações possíveis do sujeito com o objeto a transcendem o 
entendimento compreendido como prazeroso, visto que o horror, o nojo e a dor 
podem ser uma emoção ao alcance do objeto a. A esse prazer, cujas emoções 
se desviam do alívio de tensão, Lacan nomeou de Gozo. Um gozo como 
reminiscência da unidade mãe-bebê perdida, que não se subscreve na ordem 
simbólica. 
GOZO = uma satisfação inconsciente que está para além do prazer, onde 
começa a causar dor, sofrimento ou desprazer. 
Exemplo: fome > comer > prazer > continuar comendo > gozo. 
TEMA 5 – A RELAÇÃO DO SUJEITO COM O SEU DESEJO 
Já sabemos que a operação da separação acontece quando o sujeito se 
confronta com a falta no Outro. Isso faz emergir o desejo no sujeito. Dito de outro 
 
 
9 
modo, o sujeito, ao ir em busca de encontrar a resposta para o desejo do Outro, 
encontra a pergunta: Che Voui? (que queres?). Porém, na impossibilidade de se 
oferecer diretamente como objeto para o Outro, por conta da interdição do Nome-
do-Pai que barra o seu gozo, o sujeito se oferecerá pela via do simbólico, 
portanto, indiretamente por intermédio do significante. 
A esse respeito Zanola (2019) explica que o sujeito buscará o resgate não 
só em uma representação, mas, sobretudo, de um gozo perdido que o colocará 
por duas vias: identificação e fantasia. 
1. Pela identificação: onde o significante pode encontrar âncora, ou seja, o 
sujeito se nomeia a partir da imagem do outro. “Eu sou o bebê da 
mamãe”; “Torcer para o time que o pai torce”; 
2. Pela fantasia: a partir do enigma que vem do Outro (che vuoi?), o sujeito 
buscará constituir respostas a esse enigma tentando se localizar como 
seu objeto desejado. É uma resposta enigmática, sutil e inconsciente ao 
desejo da mãe. O filho vai agir, buscar ser e atuar da maneira que ele 
interpreta, em que, assim, satisfará o desejo do Outro. O problema é 
quando a criança capta um desejo de que os pais não suportam em si. 
Acontece o “equívoco”. O lugar da linguagem é o lugar do equívoco. Na 
verdade, a interpretação é verdadeira, mas pelo incômodo, aparece como 
sintoma. A criança denuncia o que está recalcado para os pais. 
Portanto, frente ao desejo do Outro, o sujeito tenta se colocar como objeto 
desejado, produzindorespostas fantasmáticas. Nas Palavras de Zanola (2019, 
p. 134), 
Assim, frente ao desejo do Outro, o sujeito tenta se colocar como seu 
objeto desejado, produzindo respostas fantasmáticas sobre o que o 
Outro desejaria. Nesse movimento, o sujeito não encontra uma 
resposta para o desejo do Outro; todavia, no que Lacan chama de uma 
torção, numa reflexão, o sujeito retorna à determinação de seu próprio 
desejo, constituindo-se enquanto sujeito frente ao que percebe como 
desejado pelo Outro. Por isso, Lacan afirma que o desejo neurótico 
encontra-se preso à demanda do Outro, substituindo o objeto a no 
matema do fantasma ($◊a), pelo D da demanda do Outro – $◊D. Assim, 
o sujeito neurótico vive alienado a satisfazer o Outro, o que aponta uma 
alienação de seu desejo – ‘O desejo do neurótico gira em torno da 
demanda do Outro’. (Lacan, 1966-1967, p. 198). 
Assim, verificamos que a relação do sujeito com o seu desejo é, na 
verdade, uma relação de alienação ao desejo do Outro. Lacan nos ensina que a 
determinação do desejo efetuada pelo fantasma constitui-se pelo engano. O 
 
 
10 
fantasma é, então, uma encenação do desejo do Outro sobre o qual o sujeito se 
constitui, conclui Zanola (2019). 
Sobre a relação do sujeito com o desejo, temos: 
• Tempo: alienação (mãe-bebê), criança identificada ao desejo do Outro, 
uma satisfação que à leitura do Édipo podemos nomear de incestuosa; 
• Tempo: separação, o Outro deseja algo. Aqui há uma renúncia desse 
gozo incestuoso com o auxílio da função paterna, que metaforiza o desejo 
do Outro; 
• Tempo: torção à alienação: objeto a. Agora, pela dialética do desejo 
simbolizado, o “Che vuoi?” (que queres?) coloca o sujeito diante de um 
enigma, pelo qual ele responde com o objeto a que tem a função de unir 
novamente o seu ser ao Outro. Assim, o sujeito deseja ser o desejo do 
Outro. 
Lacan evidencia que o sujeito neurótico confunde o seu desejo com a 
demanda do Outro (D), cujo matema ele escreve assim: 
 
 
 
Nesse sentido, o fantasma/fantasia conjuga a separação ao retorno à 
alienação, haja vista que o processo de separação se coloca como possibilidade 
de o sujeito advir com o seu desejo separado do Outro, mas como o psiquismo 
nunca quer abrir mão de um gozo vivido, o fantasma se constitui na separação, 
para manter os votos com o Outro. Assim, para concluirmos, usamos a 
explicação dada por Zanola (2019, p. 135-136): 
Assim, tanto o fantasma quanto as identificações do sujeito são 
pensadas por Lacan como alienações, fornecendo o segundo sentido 
que gostaríamos de destacar sobre o conceito de alienação – a 
alienação enquanto uma fixação do sujeito que é construída a partir 
das referências do desejo do Outro encenadas no fantasma. Nesse 
sentido, percebemos que, durante todo o percurso de uma teoria da 
alienação desenvolvida por Lacan, encontramos definições de como o 
sujeito produz uma identidade fixa a partir de sua posição como objeto 
frente ao desejo do Outro. 
Portanto, como evidenciamos em nossa conversa inicial: quem fala no 
sujeito? O inconsciente fala, e nossa atuação como analista, deve ser sobre ele. 
Deve ser saber ouvi-lo, saber decifrar as maneiras pelas quais ele (o 
 $  D 
 
 
11 
inconsciente) se comunica na linguagem. O sujeito do inconsciente é quem fala 
em análise. E ele (o sujeito do inconsciente) tem um saber que a pessoa não 
sabe que tem. A pessoa que está acostumada a pensar apenas racionalmente 
não sabe que sabe tudo aquilo que seu inconsciente sabe. Por isso, nossa 
função é favorecer a associação livre para que a pessoa se escute, ou seja, para 
que a pessoa escute o sujeito de seu próprio inconsciente. 
NA PRÁTICA 
Para pensar as operações de alienação e separação, trago um recorte de 
uma apresentação de um caso clínico, publicado por Ronald Portillo (1989), cujo 
título é: Ana entre dois significantes. “Quero deixar de ser tão intelectual” – essa 
é queixa que Ana apresenta pela primeira vez ao analista. 
Portillo (1989) descreve que desde o início das entrevistas evidenciou-se 
que o sentido que Ana dava à palavra “intelectual” concernia a uma determinada 
relação com o saber, ao qual ela teve acesso ainda na adolescência quando não 
encontrou resposta ao enigma de seu sexo e de seu ser, tendo então procurado 
resolvê-lo nos estudos e nos livros, onde ela julga estar depositado esse saber. 
 “Eis-me ainda com o meu curso”, dizia ela, enunciando o que claramente 
representava esse período como docente de literatura. Múltiplas dissertações 
sobre vida, morte, religião etc. se desenvolvia durante uma série de sessões, 
onde não surge nenhuma formação do inconsciente, nenhuma manifestação de 
sua falta-em-ser. 
O interesse de Portillo por um de seus poemas, que tratava do pai, marca 
uma virada nas entrevistas, e ela passa a questionar sobre sua posição e 
queixar-se do modo indelicado como sua mãe o tratava, desaguando na sua 
própria vida amorosa. 
Ana havia tido dois amores infelizes, ambos marcados pelo traço 
“intelectual” atribuído ao parceiro: um por falta, o outro por excesso, descreve 
Portillo (1998). No fim de uma sessão, onde ela se interroga sobre suas relações 
com seus objetos de amor, Ana solicita um atestado, onde pudesse certificar que 
ela é intelectualmente normal. 
Portillo (1998) explica que, para dar consistência à essa solicitação, Ana 
menciona outros atestados já concedidos por um psicólogo e por um psiquiatra, 
com os quais ela seguirá tratamento. Mais tarde ela revela que, pouco depois de 
ter obtido os certificados de “normalidade intelectual”, interrompera o tratamento. 
 
 
12 
Na sessão seguinte, Ana em associação revela que os amigos e a família 
não a consideram uma pessoa normal, pois se recusou a casar-se com um jovem 
engenheiro, ao qual ela estava afetivamente ligada. 
Sobre esse fragmento de análise, Portillo (1998) destaca que a resistência 
aparece na transferência com o analista, cria obstáculo ao avanço do tratamento 
e impede que o sujeito do inconsciente se manifeste. A resistência é do 
superego, diferente da defesa, que é do ego. 
Durante longo período, Ana comparecia às entrevistas para fazer 
exibição de um saber, isto é, para estabelecer comigo uma relação dual 
a fim de convencer-me de que ela é amável. Jogo especular em que o 
saber aparece como operador, e que integra a polaridade narcísica: 
amar = ser amado. Pelo fato do amor de transferência, a sessão virava, 
para Ana, relação de troca de saber. Exibindo seu saber, ela oferecia 
seu amor, esperando receber, em contrapartida, uma atestação de 
amor, isto é, um saber que confirma sua intelectualidade como normal. 
Assim Ana colocava o analista em posição de ideal, lugar mesmo de 
onde ela gostava de ser vista, a função do ideal do eu vindo em lugar 
do analista. Desde então o acesso do sujeito ($) ao ideal do eu I(A) se 
estabelecia em curto-circuito, pela via da relação especular [...]. 
(Portillo, 1998, p. 41). 
O que destacamos desse recorte de caso é que o significante intelectual 
(S2), que representa o seu I(A), significante que na cadeia associativa está ligado 
ao objeto a (S1). Lugar, portanto, do seu desejo. 
O significante “normal” é o significante que representa o sujeito na 
transferência: “ateste que sou normal”. O trabalho de análise vai na direção de 
não responder à sua demanda, para que a demanda lhe faça pergunta: sou 
normal? Ao formular essa pergunta, o sujeito se interroga sobre o seu desejo 
saindo do engodo do amor. 
Portelli (1998, p. 43) conclui que “o que Ana desejava, lhe aparecia sob a 
forma do que ela não queria: ‘ser intelectual’. Histeria, onde a problemática do 
desejo é exemplar”. 
Podemos perceber que, no caso descrito, Ana resiste (ação do superego) 
e se defende (ação do ego). No exemplo, o mecanismo de defesa é a 
intelectualização. Nas primeiras sessões (entrevistas preliminares) temos 
exemplos de resistência e defesa que impediram o início da análise. Quando o 
analistanão der o atestado que Ana pede, ele estará usando a regra da 
abstinência, pela não gratificação. Essa é uma intervenção cuja intencionalidade 
é provocar que Ana fale mais sobre isso: sobre não ter o atestado de ser normal, 
abrindo a cadeia de significantes e possibilitando que entre em análise. 
 
 
13 
Saiba mais 
SUPEREGO: impõe resistência à análise porque a análise é uma ação 
que barra o gozo e o superego não gosta nada disso, porque o que ele quer é 
fazer com que o sujeito goze sempre mais. O papel do superego de ser 
imperativo do gozo, esse impulso que leva o sujeito a produzir sempre mais, 
mesmo que mantenha o sofrimento. 
EGO: está a serviço do princípio do prazer e evitará o aumento de tensão, 
defendendo-se de tudo aquilo que pode causar desprazer. Vai atuar para impedir 
que o prazer se estenda de mais a ponto de passar a um excesso que gera 
sofrimento. Os mecanismos de defesa são sempre do ego. O superego não tem 
mecanismos de defesa, o que ele faz é resistir. E isso, na clínica, pode parecer 
a mesma coisa. 
FINALIZANDO 
No tópico 1, estudamos que a criança, ao nascer, já é precedida pela 
linguagem; dessa forma, ela será “forçada a se submeter” ao Outro, tesouro dos 
significantes. Lacan enuncia que o inconsciente é o discurso do Outro, pois ele 
está repleto da fala, da conversa, dos objetivos, aspirações e fantasias de outras 
pessoas, na medida em que elas são expressas em palavras. 
No tópico 2, vimos que a primeira operação na qual a criança deve ser 
submetida é a alienação, pois é na alienação que o sujeito entra no mundo 
simbólico, das representações, dos significantes. 
No tópico 3, apresentamos que a segunda operação da qual o sujeito deve 
se submeter é à separação, onde ele se confronta com a falta no Outro e tenta 
responder ao desejo do Outro: o que o Outro quer? A falta no Outro é a causa 
do desejo do sujeito, que se separa do sentido e se coloca como desejante. 
No tópico 4, estudamos que o objeto a é o ponto de intercessão no 
conjunto entre o sujeito e o outro, contudo, não se trata de um objeto que ambos 
possuem, mas exatamente aquilo que caracteriza a falta em ambos, pois é o 
objeto que cai no processo de separação. 
No tópico 5, a relação do sujeito com o seu desejo acontece em três 
momentos. No primeiro, o sujeito é o desejo do Outro; no segundo, o Outro 
deseja, o sujeito se confronta com a falta do Outro; por fim, no terceiro, o sujeito 
busca em sua fantasia ser o objeto de desejo do Outro. Nesse sentido, o sujeito 
 
 
14 
se aliena, se separa e a fantasia é a torção para a sua alienação no desejo do 
Outro. 
 
 
 
15 
REFERÊNCIAS 
FINK, B. O Sujeito Lacaniano. Entre a linguagem e o gozo. Rio de Janeiro: 
Jorge Zahar, 1998. 
LACAN, J. (1964). O seminário, Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da 
psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008. 
______. (1960). O Seminário, Livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: 
Jorge Zahar Editor, 1997. 
MILLER, J. A. Percurso de Lacan: uma introdução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 
1988. 
PORTILLO. R. Ana entre dois significantes, in Clínica Lacaniana, casos 
clínicos do campo freudiano. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. 
ZANOLA, P. C.; LUSTOZA, R. Z. Alienação e separação no Seminário 11 de 
Lacan: uma proposta de interpretação. Tempo psicanal., Rio de Janeiro, v. 51, 
n. 2, p. 121-139, dez. 2019. Disponível em: 
. Acesso em: 7 ago. 2023.

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