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CORPO, GÊNERO E 
SEXUALIDADE 
AULA 5 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Victor Hugo Brandão Meireles 
 
 
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CONVERSA INICIAL 
Nesta aula, estudaremos a construção de uma política de 
governamentalidade para Foucault; os corpos e a sexualidade na atualidade por 
meio da análise das relações de poder; o surgimento da população; o biopoder 
e suas técnicas de poder, disciplina e biopolítica; até chegarmos às áreas da 
educação e saúde. 
TEMA 1 – O QUE É GOVERNAMENTALIDADE DE FOUCAULT? 
O poder, como vimos na aula anterior, é uma forma estratégica de controle 
sobre corpos de pessoas que não seguem tradicionalmente padrões sociais 
legítimos da sexualidade. A partir da década de 1990, diversos trabalhos de 
Michel Foucault despertaram interesse em diversos campos de pesquisa, como 
na análise e metodologia de estudos e investigações por meio de seus conceitos 
teóricos (Kroetz; Ferrano, 2019). Nesse sentido, o termo governamentalidade 
surge como forma de análise e método sobre as relações de poder e o Estado. 
A governamentalidade, para Oliveira (2019), tem como alvo, a partir do 
século XVIII, a população, o saber e a biopolítica. É um conceito que designa o 
regime do poder e suas características pelas tecnologias, sendo uma das 
técnicas de governo que teve como sua formação o Estado Moderno, além de 
conduzir a conduta dos homens (Oliveira, 2019). Nesse sentindo, a 
governamentalidade é um conceito que buscou explicar o processo que fez com 
que surgisse o Estado como um governo (Oliveira, 2019). 
Para Kroetz e Ferrano (2019), em Segurança, território e população, de 
Michel Foucault (1978), seu objetivo foi estudar o fenômeno de biopoder, mas 
suas análises o levaram a centralizar na questão da governamentalidade. 
Foucault usou esse conceito como forma de analisar todas as relações de poder 
existentes na sociedade, levando ao que chegou no governo dos homens 
(Oliveira, 2019). Desta forma, a perspectiva analítica deixou o poder não mais 
como uma dedução de formas acabadas, mas como um efeito da convergência 
entre “forças germinais”, no qual “a unidade tradicional do Estado é deslocada 
pela pluralidade e heterogeneidade das forças. São elas que, inversamente, 
induzem a produção de verdades e a constituição do Estado” (Candiotto, 2010, 
p. 34). Esse poder ainda tinha sua potência relacional como forma de indução, 
criação e produção de objetos e verdades. 
 
 
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Como explicita Candiotto (2010, p. 34), 
Quanto à analítica, pretende sublinhar o poder como potência 
relacional capaz de induzir, suscitar e produzir objetos e verdades. A 
unidade normalmente atribuída ao poder, seja a partir do sujeito que o 
detém, seja pelas estruturas que ele constitui, tal como o Estado, a 
Política, a Paz, a Guerra, a Segurança, a Soberania, são somente 
nomes dados à confluência de uma multiplicidade de forças que assim 
o representa. 
A governamentalidade é uma análise do poder que permite descrever as 
diferentes formas com que esse mecanismo pode se tornar político estatal no 
pensamento presente em Foucault (Candiotto, 2010). Sua análise passa por 
uma genealogia da governamentalidade como artes de governar, sendo que 
Foucault estudou essas diferentes formas do século XVI até o século XVIII. 
Anterior a isso, entre os séculos XIII e XV, suas formas estavam relacionadas 
aos governos dos homens sob influência de um poder pastoral até chegar à 
apropriação do cristianismo (Oliveira, 2019). 
As artes de governar explodiram no século XVI até se difundirem no 
século XVIII. Eram constituídas de diferentes formas de governar os outros e a 
si mesmo: 
Na pastoral católica e protestante, tem-se o governo das almas e das 
condutas; na pedagogia do século XVI, o problema do governo das 
crianças; na política, a questão do governo do Estado pelos príncipes. 
As questões fundamentais passam a ser: como se governar, como ser 
governado, como governar os outros, como fazer para ser o melhor 
governo possível? (Kroetz; Ferrano, 2019, p. 79) 
Com a emergência da governamentalidade durante esse período, foram 
surgindo outras formas de poder, ocorrendo a partir do século XVIII a passagem 
do regime de soberania para um regime dominado por tecnologias de 
governamento sobre a população, como forma de administração do poder sobre 
a vida, o biopoder (Kroetz; Ferrano, 2019). Nesse sentido, Foucault 
compreendeu a governamentalidade por duas concepções: como articulação 
entre o saber, que começou a ser produzido como forma de economia política, 
os instrumentos, como dispositivos de segurança pelo Estado; e a população 
como um objeto por meio do qual ele atuava, e por meio das práticas discursivas 
e não discursivas, considerando as relações de poder como constituições 
próprias de diferentes enunciados e suas visibilidades no Estado (Kroetz; 
Ferrano, 2019). Portanto, a governamentalidade deriva de uma tríade: 
como arte de governo, deriva da tríade soberania-disciplina-governo, e 
é conceituada em seu significado geral de conduta da conduta, não 
 
 
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somente em termos políticos como tendemos a compreender o 
governo na contemporaneidade: As práticas, as tecnologias ou as 
estratégias pelas quais as pessoas são governadas são denominadas, 
na literatura sobre a governamentalidade, de “regimes de práticas”, ou 
“regimes de governamento”. Operar com esse conceito significa, 
portanto, problematizar as tecnologias – se tomarmos tecnologias 
como um conjunto de técnicas – que atuam sobre os sujeitos, a fim de 
torná-los governáveis. (Kroetz; Ferrano, 2019, p. 80) 
Em síntese, Foucault estudava e considerava a governamentalidade 
como um método de análise dos diferentes tipos de poderes que vão surgindo 
durante os séculos na sociedade. Isso nos dá ideia de como o Estado opera 
tanto no interior das instituições sociais – escolas, famílias, hospitais – quanto 
em necessidades do afeto, como forma de participação social e domínio de si. 
O sujeito passou a tomar alguns discursos produzidos por essas 
instituições sociais como verdade, aceitando ser governado por elas, ainda que 
pudesse resistir a outras. Portanto, é “um processo de aceitação e de resistência, 
que ocorre na relação do sujeito com o Estado, com as instituições que o 
produzem e do sujeito sobre ele mesmo” (Kroetz; Ferrano, 2019, p. 81). Como 
Candiotto (2010) observa, as relações de poder no seio da governamentalidade 
inauguraram novos espaços históricos na análise do poder em Foucault, dando 
destaque a essa centralidade, como exemplo das técnicas de 
governamentalidade liberal e neoliberal. 
TEMA 2 – POPULAÇÃO COMO FONTE DA GOVERNAMENTALIDADE 
A população é um tema importante para a análise de Foucault sobre a 
governamentalidade, pois, como vimos em aulas anteriores, o surgimento da 
população veio como um problema econômico e político no século XVIII. Nessa 
época foi desenvolvida uma ciência de governo e concepção diferente de 
economia, não centrando apenas no modelo da família e o problema com o sexo. 
É importante salientar que o Estado moderno era o estado liberal, no qual 
o sistema econômico exercido tinha como base o liberalismo, principal ideologia 
do capitalismo. A perspectiva liberal valoriza o individualismo, no qual cada ser 
moral possui direitos advindos da sua natureza, como o direito à propriedade, 
segurança, liberdade e igualdade (Bock, 2015). 
Para Candiotto (2010), a população tinha fenômenos específicos 
decorrentes de suas expansões que já se tinham se reduzido na família, tais 
como a taxa de natalidade, mortalidade, morbidade, endemia, epidemia, trabalho 
e riqueza, centralizando esses fenômenos aos problemas econômicos, e não 
 
 
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mais familiares. A família já não era mais um problema econômico, mas ainda 
continuava tendo papel muito importante para a população, visto que poderia 
fornecer dados quantitativos sobre o sexo, sexualidade, demografia e consumo 
(Candiotto, 2010).A família passou a ser um instrumento do governo para o acesso à 
população, não sendo mais sua prioridade. A ação de governar ganhou outro 
sentido: a melhora de vida e saúde, assim como aumentar sua riqueza e bem-
estar da população (Candiotto, 2010). Mesmo não sendo mais prioridade, ser o 
instrumento ainda a colocava como forma de controle, sem que fosse percebida 
por meio de campanhas de taxas de natalidade, por exemplo. Isso ainda 
colocava a família como necessidade e objeto nas mãos do governo (Candiotto, 
2010). 
A população era um objeto novo de saber para aqueles que iriam 
governar, sempre de maneira racional e reflexiva, para que não surgisse algum 
tipo de problema econômico. Esse saber foi chamado de economia (Candiotto, 
2010). Com isso, a economia girava em torno do Estado, e, para que pudesse 
enriquecer, a população se tornou um dos elementos fundamentais da produção 
de riqueza na sociedade, culminando na economia política. 
Para Candiotto (2010, p. 39), o surgimento da população e da economia 
política marcam a passagem “das artes de governar para a ciência política, das 
estruturas da soberania para as estruturas do governo”, o que fez com que o 
modelo de família econômica fosse eliminado das práticas do governo (Oliveira, 
2019). Tais práticas que culminaram na economia familiar já não se constituem, 
por se referirem a uma econômica de pequeno conjunto familiar, que não dava 
mais o lucro que o Estado visava (Oliveira, 2019). 
Portanto, a população surge na metade do século XVII como objeto do 
governo, sendo alvo de políticas, campanhas, técnicas de poder, estratégias e 
táticas, caracterizando o que Foucault chamou de biopolítica (Oliveira, 2019). 
TEMA 3 – O BIOPODER 
Como vimos na aula anterior, nas relações de poder e saber, um coexiste 
com o outro. Se há poder, há saber, e vice-versa. Nessas relações, a prática de 
biopoder se torna central para o sistema da governamentalidade na 
administração do poder sobre a vida. O biopoder se divide em dois eixos que se 
tornaram suas duas técnicas principais: a disciplina e a biopolítica. 
 
 
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O biopoder é uma forma de vida, assim como afirmam Foucault (2017) e 
Jeferson Bertolin (2018), sendo que o poder sobre a morte se converteu em um 
poder sobre a vida; virou uma disputa contraditória e transformou no seu 
exercício – o princípio do poder matar para poder viver, que se tornou estratégico 
entre os Estados. 
Nesse sentido, a disputa entre vida e morte se tornou uma disputa do 
biopoder sobre as sociedades. Esse mecanismo nasceu com o desenvolvimento 
de diversas disciplinas, tais como o Exército, conventos, escolas e hospitais 
(Foucault, 2017), quando a população como objeto da governamentalidade 
começou a apresentar seus fenômenos específicos, como os problemas na 
natalidade, saúde pública, entre outros, e na explosão de técnicas diversas de 
poder para dominação dos corpos e controle das populações (Bertolin, 2018). 
Com isso, a partir do século XVIII, as duas formas que configuraram o 
biopoder operavam de formas distintas: 
do lado da disciplina predominavam instituições como o Exército e 
valorizavam-se as reflexões sobre a tática, a aprendizagem e a 
adequação sobre a ordem das sociedades; do lado da biopolítica 
estavam a demografia, a estimativa da relação entre recursos e 
habitantes, a tabulação das riquezas e sua circulação. (Bertolin, 2018, 
p. 89) 
O biopoder foi indispensável para o desenvolvimento do capitalismo, 
tornando-se sua base, para que fossem garantidas as implicações de controle 
sobre os corpos pelos meios de produção e ajustamento de fenômenos da 
população na atividade econômica (Foucault, 2017; Bertolin, 2018). 
Para Fernandes e Resmini (2015), o biopoder é uma tecnologia do poder 
que exerce diversas outras técnicas em uma só tecnologia. É utilizado como 
fonte de proteção da vida, que regula os corpos, na proteção de outras 
tecnologias, e se ocupa de lugares como a gestão de saúde, higiene, 
sexualidade, alimentação, natalidade, entre outros. 
Com a constituição na governamentalidade, o biopoder se torna uma 
urgência na população como alvo principal: o saber da economia política como 
o mais importante (Fernandes; Resmini, 2015). O biopoder permite aplicar na 
sociedade uma diferença entre o normal e o patológico, impondo um sistema de 
normalização de comportamentos que vão desde a sua existência até as 
relações de afetos. Ele medicaliza o pensamento para inserir modos de correção 
não como forma de punição, mas de transformação, e representa uma grande 
 
 
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“medicina social” do que se pode controlar como parte de um campo do poder 
(Fernandes; Resmini, 2015). 
Dessa forma, o poder se torna uma configuração na sociedade. Ele se 
instala como uma tecnologia que produz relações de poder sempre no controle 
em diversos campos e instituições sociais que coloquem o sujeito em modelos 
liberais de existência humana. Basicamente, o biopoder permite o controle de 
toda a população (Fernandes; Resmini, 2015). 
TEMA 4 – AS DUAS TÉCNICAS DE PODER: A DISCIPLINA E A BIOPOLÍTICA 
Como vimos, o biopoder produz duas técnicas de poder, a disciplina, 
como prática sobre o governo dos corpos das pessoas, e a biopolítica, como 
governo da população em sua totalidade. 
Foucault a definiu a biopolítica como um exercício de poder característico 
das sociedades, que manteve em seus cálculos o domínio sobre a vida e os 
aspectos da população por meio de uma economia de poder. Dessa forma, o 
poder se transformou em saber como uma via de transformação dessa vida 
(Oliveira, 2019). Foucault utilizou o termo biopolítica para designar a forma como 
o poder se modificou no final do século XIX até o início do século XX, culminando 
em práticas de disciplinas que antes visavam governar o indivíduo sozinho, mas 
que com tempo mudaram de alvo para o grupo de indivíduos, a população. A 
biopolítica produz práticas de biopoderes locais, mas também há tentativas para 
uma ampliação nacional. A população é um objeto do Estado ao mesmo tempo 
que é instrumento das relações de poder. 
A biopolítica, durante a passagem desses séculos, originou uma nova 
relação de poder entre o Estado e as pessoas, na qual a racionalidade política 
do Estado teve como principal elemento a vida. Com isso, foi promovida uma 
forma regularizada de vida, mas que passava por processos de intervenções e 
controles de regulação para que fosse protegida essa vida na sociedade 
(Oliveira, 2019). 
Para César (2007, p. 84), a biopolítica é um conceito formulado por 
Foucault entre 1975 e 1976 que segue atual até hoje: “em nome da vida em 
segurança de alguns, outros deverão desaparecer”, ou seja, no exercício da 
biopolítica, com novas modalidades de controle e regulação, tornaram-se mais 
presentes a morte e assassinatos que levam o nome da “preservação, segurança 
e otimização da vida” (César, 2007, p. 84). 
 
 
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É por meio da nova construção de governo no Estado que se ampliou a 
noção do sujeito para a população. A intenção já não era controlar só um corpo 
individualizado, e sim um grupo todo, para que não existisse mais uma pessoa 
que governasse toda a população, e sim que esta se encontrasse sem a 
necessidade de que alguém a governasse. Nesse sentido, 
Na biopolítica continua-se a imprimir sobre os corpos, individualmente, 
a ação das técnicas disciplinares, a fim de passar, com o tempo, a 
governar a si mesmo e tornar-se parte da sociedade, um igual entre 
todos os outros, ou seja, o indivíduo constitui-se como um corpo 
produtivo na rede social. (Probst; Kraemer, 2011, p. 106) 
Foram introduzidas técnicas de poder como forma de controle de corpos 
produtivos, como uma espécie de máquinas, para que em seu consumo também 
fosse deliberada sua força de trabalho. Essas técnicas de poder são chamadas 
por Foucault de disciplinas (Danner, 2010). A disciplina é um tipo de poder que, 
em seu exercício,transforma as pessoas em objetos e instrumentos em três 
formas, como um olhar hierárquico, uma sanção normalizadora e em sua 
combinação com o exame (Brighente; Mesquida, 2011). Dessa forma, torna a 
disciplina um poder disciplinar, que mantém o sujeito disciplinado, pelo olhar e 
controle sobre seus corpos. Além disso, permite o controle sobre os corpos para 
assegurar sua dominação (Danner, 2010). Assim, as disciplinas agem em um 
indivíduo como técnica, e a biopolítica na população como dispositivo (Probst; 
Kraemer, 2011). 
A técnica, por meio do poder, trabalha exclusivamente nos corpos como 
aspecto produtor de novos gestos e comportamentos, para que o ser humano se 
enquadre, recomponha e se torne utilitário para os bens do Estado (Danner, 
2010). Segundo Brighente e Mesquida (2011), o objetivo da disciplina, como 
instrumento de poder disciplinar, é “docilizar” o sujeito e colocar em formato de 
vista social, econômica e política, para produzir mais e gerar mais lucros. Esse 
sujeito não pode se voltar contra o Estado, então é um processo que gera o 
cansaço, para que se disponha a colocar toda a sua energia no trabalho. 
O indivíduo é produto da disciplina e se constrói na realidade fabricada 
por ela, na qual a sociedade que se desenvolveu entre os séculos XVII e XVIII 
colocava em funcionamento técnicas de poder para transformar as populações 
em produtos do poder econômico. A biopolítica se constrói como um dispositivo 
para regular todas as técnicas de poder que possam dominar a população. 
 
 
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TEMA 5 – CONTROLE DOS CORPOS NA ÁREA DA SAÚDE E EDUCAÇÃO 
Para pensar a biopolítica de controle dos corpos nos dias atuais, é 
possível olharmos pela via da educação, uma área que tem sido bastante 
importante nos estudos e na prática desse tema. 
Como apontam Brighente e Mesquida (2011), o corpo foi apresentado 
como corpo biológico e, com o tempo, diversos(as) estudiosos(as) começaram 
a desenvolver conceitos até chegar a um corpo vivido constituído culturalmente. 
O corpo, para os(as) autores(as) pautados(as) em Foucault, é fabricado e 
educado para viver em sociedade. É nele em que se inscrevem todas as regras, 
normas e valores de uma sociedade (Probst; Kraemer, 2010), e onde ocorre o 
primeiro contato humano com seu meio e outras pessoas que fazem parte de 
seu contexto social. Isso se inicia desde a infância, já sendo colocados modos 
de conduta, gestões e comportamentos. 
Os séculos XVI e XIX foram marcados por diversas transformações 
sociais, econômicas e históricas marcadas por uma produção industrializada na 
sociedade (Probst; Kraemer, 2010). Com isso, o corpo passou a ser pensado por 
composições musculares e funções orgânicas para preparar a indústria e o 
mundo do trabalho, um corpo baseado nos princípios liberais do capitalismo: 
O corpo passa a ser visto ao mesmo tempo como uma massa, um 
invólucro, uma superfície composta por carne, ossos, pele, músculos, 
nervos, vasos sanguíneos, tendões, vísceras, órgãos, ou seja, uma 
matéria física e concreta, passível de intervenções externas, por 
técnicas disciplinares e de biopolítica (Probst; Kraemer, 2010). 
Assim, o corpo é visto como algo não humanizado, passível de 
intervenções que possam colocá-lo em modo controlado. Todavia, não é só 
dessa forma que o corpo é alvo das técnicas disciplinares e da biopolítica do 
poder, como traz César (2007, p. 80): 
[...] possibilidades de transformação corporais e a busca pelo corpo 
magro e saudável traduzido nas incontáveis dietas, tabelas de calorias, 
alimentos funcionais, fitas métricas, adipômetros, os aparelhos de 
bioimpedância, que medem, auscultam, transpassam, beliscam e 
penetram com correntes elétricas nossos corpos produzindo verdades 
sobre a nossa saúde como as taxas de colesterol, triglicerídeos, LDL, 
HDL e IMC. 
É implementando técnicas disciplinares sobre a saúde física que também 
se contempla a saúde mental. Diversas intervenções cirúrgicas contra um corpo 
gordo são produtores de sentido poderoso sobre a população (César, 2007). 
 
 
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Podemos observar em outros grupos sociais, como a mutilação dos órgãos 
genitais de pessoas intersexuais, quando não há a autonomia de escolha do 
indivíduo no momento em que é feito o procedimento que induzirá o sexo/gênero. 
É uma escolha que não pertence a esse sujeito, então, pertence a quem? 
Técnicas de poder disciplinares? 
Para Ortega (2004), a biopolítica da saúde é um caso que necessita de 
atenção especial, visto que nos estudos de Foucault são colocados novos 
valores, como a saúde, higiene, vitalidade, prole etc. Nesse sentido, a saúde 
exigia uma autoconsciência de ser saudável e ser exibida como algo ostentador, 
uma saúde perfeita. Essa perfeição Ortega (2004) chamará de nova utopia 
política das sociedades, tanto que para se manter vivo é preciso estar em boa 
saúde. É produzido um saber sobre a saúde da população. O que pode 
acontecer a partir disso é um indivíduo responsável por suas escolhas 
comportamentais que seguem um estilo de vida à procura de uma saúde e um 
corpo perfeito, sem olhar seus riscos (Ortega, 2004). 
É cobrado de um indivíduo que sua saúde seja um exemplo: que não 
atrapalhe no seu trabalho. Então a saúde não é para todos, e sim para aqueles 
que se exploram diante das técnicas de poder produzidas pelas disciplinas. O 
que é saúde e o que não é. Ressalta-se aqui que não há uma única forma de ser 
saudável e ter saúde, mas se deve atentar para as relações de poder que exigem 
o seguimento de padrões que não são aceitos na sociedade como um todo. 
O aparecimento da escola tanto como lugar em que a técnica disciplinar 
acontecia nos corpos infantis pelas formas de controle e produção dos saberes 
quanto o lugar do governo da infância (César, 2007) já significava as relações 
de poder mediadas ao controle das subjetividades dessa pequena população. A 
intenção do Estado era controlar tudo e todos, sem ressalvas. Na escola e em 
outras instituições de ensino, o papel que predominou na produção do corpo a 
partir do século XIX foi com as ginásticas, exercícios, comportamentos, que 
exigiam desde tarefas mais simples até mais complexas (César, 2007). 
Para César (2007) o corpo para Foucault é a peça central para que o 
poder tenha condições de ser exercido, colocando, a partir do século XVIII, uma 
série de dispositivos disciplinares no interior das instituições sociais sobre seu 
funcionamento na modernidade. Nesse sentido, ao longo dos anos, foram se 
naturalizando a escola e a educação, tornando-se o direito de todos, assim como 
o direito ao acesso no SUS. Mas como é pensar os corpos, tanto na área da 
 
 
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saúde quanto na educação, sem uma via de práticas disciplinares já 
contaminadas em saberes idealistas e biologizantes? 
Como é pensar o corpo para você? Para Probst e Kraemer (2010, p. 104), 
Pensar o corpo é pensar sobre as formas que o constituem, sobre 
modos e costumes, sobre a história e a cultura, sobre o gosto, o dever 
e o prazer da vida. Colocar o corpo em perspectiva é correr o risco de 
descobri-lo para além do corpo convencional, manipulado, passível de 
conhecimento e de controle. 
Em síntese, para Foucault (2017), a junção entre o corpo e a população 
torna o sexo um alvo central de poder que se organizou em torno da gestão de 
vida, até mais do que a ameaça da morte das pessoas. 
NA PRÁTICA 
Como vimos, o biopoder é capaz de controlar em massa uma sociedade. 
Portanto, é dada a ele uma forma de dominação sobre corpos por meio do 
Estado. Este cria leis para regular o comportamento de corpos para o bem-estar 
da população na sociedade. 
Imaginemos uma situação de biopoder em uma política pública: o Centro 
Pop (Centro de Referência para População em Situação de Rua). Neste serviço, 
você, como psicólogo(a), tem papel importante nos atendimentos psicossociais 
dessa população. Como o biopoder pode ser exercido em relação a ela, visto 
que é umgrupo vulnerável na sociedade? Como você atuaria na reinserção 
social desses indivíduos sem produzir uma prática profissional de poder 
disciplinar? Pergunte para seu(sua) tutor(a) e converse com um colega. Vamos 
pensar coletivamente! 
FINALIZANDO 
O biopoder está nas relações de poder entre a população e se constitui 
no interior das instituições sociais, assim como na produção de saberes 
científicos sobre a atividade humana: psicologia, medicina, pedagogia etc. Nesse 
sentido, o biopoder é um mecanismo que ajuda na organização do Estado e de 
suas próprias instituições sociais. 
O biopoder se separa em duas técnicas que o ajudam a produzir uma 
série de ações de controle sobre os corpos: a disciplina e a biopolítica. A 
disciplina é uma técnica de poder que disciplina o sujeito, que o coloca em uma 
 
 
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caixa de regras e regulamentações de comportamentos. Já a biopolítica expande 
o poder e gera todas essas regras e regulamentações em grupos sociais e até 
em populações maiores. As duas técnicas sustentam o biopoder, que dá espaço 
para que a governamentalidade seja aplicada: do Estado para o governo. O 
conceito de governamentalidade, para Foucault, explica todas as relações de 
poder presentes na sociedade. 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
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6. ed. São Paulo: Cortez, 2015. p. 21-46. 
BRIGHENTE, M. F.; MESQUIDA, P. Michel Foucault: corpos dóceis e 
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4, p. 103-119, nov. 2011.

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