Prévia do material em texto
CORPO, GÊNERO E SEXUALIDADE AULA 5 Prof. Victor Hugo Brandão Meireles 2 CONVERSA INICIAL Nesta aula, estudaremos a construção de uma política de governamentalidade para Foucault; os corpos e a sexualidade na atualidade por meio da análise das relações de poder; o surgimento da população; o biopoder e suas técnicas de poder, disciplina e biopolítica; até chegarmos às áreas da educação e saúde. TEMA 1 – O QUE É GOVERNAMENTALIDADE DE FOUCAULT? O poder, como vimos na aula anterior, é uma forma estratégica de controle sobre corpos de pessoas que não seguem tradicionalmente padrões sociais legítimos da sexualidade. A partir da década de 1990, diversos trabalhos de Michel Foucault despertaram interesse em diversos campos de pesquisa, como na análise e metodologia de estudos e investigações por meio de seus conceitos teóricos (Kroetz; Ferrano, 2019). Nesse sentido, o termo governamentalidade surge como forma de análise e método sobre as relações de poder e o Estado. A governamentalidade, para Oliveira (2019), tem como alvo, a partir do século XVIII, a população, o saber e a biopolítica. É um conceito que designa o regime do poder e suas características pelas tecnologias, sendo uma das técnicas de governo que teve como sua formação o Estado Moderno, além de conduzir a conduta dos homens (Oliveira, 2019). Nesse sentindo, a governamentalidade é um conceito que buscou explicar o processo que fez com que surgisse o Estado como um governo (Oliveira, 2019). Para Kroetz e Ferrano (2019), em Segurança, território e população, de Michel Foucault (1978), seu objetivo foi estudar o fenômeno de biopoder, mas suas análises o levaram a centralizar na questão da governamentalidade. Foucault usou esse conceito como forma de analisar todas as relações de poder existentes na sociedade, levando ao que chegou no governo dos homens (Oliveira, 2019). Desta forma, a perspectiva analítica deixou o poder não mais como uma dedução de formas acabadas, mas como um efeito da convergência entre “forças germinais”, no qual “a unidade tradicional do Estado é deslocada pela pluralidade e heterogeneidade das forças. São elas que, inversamente, induzem a produção de verdades e a constituição do Estado” (Candiotto, 2010, p. 34). Esse poder ainda tinha sua potência relacional como forma de indução, criação e produção de objetos e verdades. 3 Como explicita Candiotto (2010, p. 34), Quanto à analítica, pretende sublinhar o poder como potência relacional capaz de induzir, suscitar e produzir objetos e verdades. A unidade normalmente atribuída ao poder, seja a partir do sujeito que o detém, seja pelas estruturas que ele constitui, tal como o Estado, a Política, a Paz, a Guerra, a Segurança, a Soberania, são somente nomes dados à confluência de uma multiplicidade de forças que assim o representa. A governamentalidade é uma análise do poder que permite descrever as diferentes formas com que esse mecanismo pode se tornar político estatal no pensamento presente em Foucault (Candiotto, 2010). Sua análise passa por uma genealogia da governamentalidade como artes de governar, sendo que Foucault estudou essas diferentes formas do século XVI até o século XVIII. Anterior a isso, entre os séculos XIII e XV, suas formas estavam relacionadas aos governos dos homens sob influência de um poder pastoral até chegar à apropriação do cristianismo (Oliveira, 2019). As artes de governar explodiram no século XVI até se difundirem no século XVIII. Eram constituídas de diferentes formas de governar os outros e a si mesmo: Na pastoral católica e protestante, tem-se o governo das almas e das condutas; na pedagogia do século XVI, o problema do governo das crianças; na política, a questão do governo do Estado pelos príncipes. As questões fundamentais passam a ser: como se governar, como ser governado, como governar os outros, como fazer para ser o melhor governo possível? (Kroetz; Ferrano, 2019, p. 79) Com a emergência da governamentalidade durante esse período, foram surgindo outras formas de poder, ocorrendo a partir do século XVIII a passagem do regime de soberania para um regime dominado por tecnologias de governamento sobre a população, como forma de administração do poder sobre a vida, o biopoder (Kroetz; Ferrano, 2019). Nesse sentido, Foucault compreendeu a governamentalidade por duas concepções: como articulação entre o saber, que começou a ser produzido como forma de economia política, os instrumentos, como dispositivos de segurança pelo Estado; e a população como um objeto por meio do qual ele atuava, e por meio das práticas discursivas e não discursivas, considerando as relações de poder como constituições próprias de diferentes enunciados e suas visibilidades no Estado (Kroetz; Ferrano, 2019). Portanto, a governamentalidade deriva de uma tríade: como arte de governo, deriva da tríade soberania-disciplina-governo, e é conceituada em seu significado geral de conduta da conduta, não 4 somente em termos políticos como tendemos a compreender o governo na contemporaneidade: As práticas, as tecnologias ou as estratégias pelas quais as pessoas são governadas são denominadas, na literatura sobre a governamentalidade, de “regimes de práticas”, ou “regimes de governamento”. Operar com esse conceito significa, portanto, problematizar as tecnologias – se tomarmos tecnologias como um conjunto de técnicas – que atuam sobre os sujeitos, a fim de torná-los governáveis. (Kroetz; Ferrano, 2019, p. 80) Em síntese, Foucault estudava e considerava a governamentalidade como um método de análise dos diferentes tipos de poderes que vão surgindo durante os séculos na sociedade. Isso nos dá ideia de como o Estado opera tanto no interior das instituições sociais – escolas, famílias, hospitais – quanto em necessidades do afeto, como forma de participação social e domínio de si. O sujeito passou a tomar alguns discursos produzidos por essas instituições sociais como verdade, aceitando ser governado por elas, ainda que pudesse resistir a outras. Portanto, é “um processo de aceitação e de resistência, que ocorre na relação do sujeito com o Estado, com as instituições que o produzem e do sujeito sobre ele mesmo” (Kroetz; Ferrano, 2019, p. 81). Como Candiotto (2010) observa, as relações de poder no seio da governamentalidade inauguraram novos espaços históricos na análise do poder em Foucault, dando destaque a essa centralidade, como exemplo das técnicas de governamentalidade liberal e neoliberal. TEMA 2 – POPULAÇÃO COMO FONTE DA GOVERNAMENTALIDADE A população é um tema importante para a análise de Foucault sobre a governamentalidade, pois, como vimos em aulas anteriores, o surgimento da população veio como um problema econômico e político no século XVIII. Nessa época foi desenvolvida uma ciência de governo e concepção diferente de economia, não centrando apenas no modelo da família e o problema com o sexo. É importante salientar que o Estado moderno era o estado liberal, no qual o sistema econômico exercido tinha como base o liberalismo, principal ideologia do capitalismo. A perspectiva liberal valoriza o individualismo, no qual cada ser moral possui direitos advindos da sua natureza, como o direito à propriedade, segurança, liberdade e igualdade (Bock, 2015). Para Candiotto (2010), a população tinha fenômenos específicos decorrentes de suas expansões que já se tinham se reduzido na família, tais como a taxa de natalidade, mortalidade, morbidade, endemia, epidemia, trabalho e riqueza, centralizando esses fenômenos aos problemas econômicos, e não 5 mais familiares. A família já não era mais um problema econômico, mas ainda continuava tendo papel muito importante para a população, visto que poderia fornecer dados quantitativos sobre o sexo, sexualidade, demografia e consumo (Candiotto, 2010).A família passou a ser um instrumento do governo para o acesso à população, não sendo mais sua prioridade. A ação de governar ganhou outro sentido: a melhora de vida e saúde, assim como aumentar sua riqueza e bem- estar da população (Candiotto, 2010). Mesmo não sendo mais prioridade, ser o instrumento ainda a colocava como forma de controle, sem que fosse percebida por meio de campanhas de taxas de natalidade, por exemplo. Isso ainda colocava a família como necessidade e objeto nas mãos do governo (Candiotto, 2010). A população era um objeto novo de saber para aqueles que iriam governar, sempre de maneira racional e reflexiva, para que não surgisse algum tipo de problema econômico. Esse saber foi chamado de economia (Candiotto, 2010). Com isso, a economia girava em torno do Estado, e, para que pudesse enriquecer, a população se tornou um dos elementos fundamentais da produção de riqueza na sociedade, culminando na economia política. Para Candiotto (2010, p. 39), o surgimento da população e da economia política marcam a passagem “das artes de governar para a ciência política, das estruturas da soberania para as estruturas do governo”, o que fez com que o modelo de família econômica fosse eliminado das práticas do governo (Oliveira, 2019). Tais práticas que culminaram na economia familiar já não se constituem, por se referirem a uma econômica de pequeno conjunto familiar, que não dava mais o lucro que o Estado visava (Oliveira, 2019). Portanto, a população surge na metade do século XVII como objeto do governo, sendo alvo de políticas, campanhas, técnicas de poder, estratégias e táticas, caracterizando o que Foucault chamou de biopolítica (Oliveira, 2019). TEMA 3 – O BIOPODER Como vimos na aula anterior, nas relações de poder e saber, um coexiste com o outro. Se há poder, há saber, e vice-versa. Nessas relações, a prática de biopoder se torna central para o sistema da governamentalidade na administração do poder sobre a vida. O biopoder se divide em dois eixos que se tornaram suas duas técnicas principais: a disciplina e a biopolítica. 6 O biopoder é uma forma de vida, assim como afirmam Foucault (2017) e Jeferson Bertolin (2018), sendo que o poder sobre a morte se converteu em um poder sobre a vida; virou uma disputa contraditória e transformou no seu exercício – o princípio do poder matar para poder viver, que se tornou estratégico entre os Estados. Nesse sentido, a disputa entre vida e morte se tornou uma disputa do biopoder sobre as sociedades. Esse mecanismo nasceu com o desenvolvimento de diversas disciplinas, tais como o Exército, conventos, escolas e hospitais (Foucault, 2017), quando a população como objeto da governamentalidade começou a apresentar seus fenômenos específicos, como os problemas na natalidade, saúde pública, entre outros, e na explosão de técnicas diversas de poder para dominação dos corpos e controle das populações (Bertolin, 2018). Com isso, a partir do século XVIII, as duas formas que configuraram o biopoder operavam de formas distintas: do lado da disciplina predominavam instituições como o Exército e valorizavam-se as reflexões sobre a tática, a aprendizagem e a adequação sobre a ordem das sociedades; do lado da biopolítica estavam a demografia, a estimativa da relação entre recursos e habitantes, a tabulação das riquezas e sua circulação. (Bertolin, 2018, p. 89) O biopoder foi indispensável para o desenvolvimento do capitalismo, tornando-se sua base, para que fossem garantidas as implicações de controle sobre os corpos pelos meios de produção e ajustamento de fenômenos da população na atividade econômica (Foucault, 2017; Bertolin, 2018). Para Fernandes e Resmini (2015), o biopoder é uma tecnologia do poder que exerce diversas outras técnicas em uma só tecnologia. É utilizado como fonte de proteção da vida, que regula os corpos, na proteção de outras tecnologias, e se ocupa de lugares como a gestão de saúde, higiene, sexualidade, alimentação, natalidade, entre outros. Com a constituição na governamentalidade, o biopoder se torna uma urgência na população como alvo principal: o saber da economia política como o mais importante (Fernandes; Resmini, 2015). O biopoder permite aplicar na sociedade uma diferença entre o normal e o patológico, impondo um sistema de normalização de comportamentos que vão desde a sua existência até as relações de afetos. Ele medicaliza o pensamento para inserir modos de correção não como forma de punição, mas de transformação, e representa uma grande 7 “medicina social” do que se pode controlar como parte de um campo do poder (Fernandes; Resmini, 2015). Dessa forma, o poder se torna uma configuração na sociedade. Ele se instala como uma tecnologia que produz relações de poder sempre no controle em diversos campos e instituições sociais que coloquem o sujeito em modelos liberais de existência humana. Basicamente, o biopoder permite o controle de toda a população (Fernandes; Resmini, 2015). TEMA 4 – AS DUAS TÉCNICAS DE PODER: A DISCIPLINA E A BIOPOLÍTICA Como vimos, o biopoder produz duas técnicas de poder, a disciplina, como prática sobre o governo dos corpos das pessoas, e a biopolítica, como governo da população em sua totalidade. Foucault a definiu a biopolítica como um exercício de poder característico das sociedades, que manteve em seus cálculos o domínio sobre a vida e os aspectos da população por meio de uma economia de poder. Dessa forma, o poder se transformou em saber como uma via de transformação dessa vida (Oliveira, 2019). Foucault utilizou o termo biopolítica para designar a forma como o poder se modificou no final do século XIX até o início do século XX, culminando em práticas de disciplinas que antes visavam governar o indivíduo sozinho, mas que com tempo mudaram de alvo para o grupo de indivíduos, a população. A biopolítica produz práticas de biopoderes locais, mas também há tentativas para uma ampliação nacional. A população é um objeto do Estado ao mesmo tempo que é instrumento das relações de poder. A biopolítica, durante a passagem desses séculos, originou uma nova relação de poder entre o Estado e as pessoas, na qual a racionalidade política do Estado teve como principal elemento a vida. Com isso, foi promovida uma forma regularizada de vida, mas que passava por processos de intervenções e controles de regulação para que fosse protegida essa vida na sociedade (Oliveira, 2019). Para César (2007, p. 84), a biopolítica é um conceito formulado por Foucault entre 1975 e 1976 que segue atual até hoje: “em nome da vida em segurança de alguns, outros deverão desaparecer”, ou seja, no exercício da biopolítica, com novas modalidades de controle e regulação, tornaram-se mais presentes a morte e assassinatos que levam o nome da “preservação, segurança e otimização da vida” (César, 2007, p. 84). 8 É por meio da nova construção de governo no Estado que se ampliou a noção do sujeito para a população. A intenção já não era controlar só um corpo individualizado, e sim um grupo todo, para que não existisse mais uma pessoa que governasse toda a população, e sim que esta se encontrasse sem a necessidade de que alguém a governasse. Nesse sentido, Na biopolítica continua-se a imprimir sobre os corpos, individualmente, a ação das técnicas disciplinares, a fim de passar, com o tempo, a governar a si mesmo e tornar-se parte da sociedade, um igual entre todos os outros, ou seja, o indivíduo constitui-se como um corpo produtivo na rede social. (Probst; Kraemer, 2011, p. 106) Foram introduzidas técnicas de poder como forma de controle de corpos produtivos, como uma espécie de máquinas, para que em seu consumo também fosse deliberada sua força de trabalho. Essas técnicas de poder são chamadas por Foucault de disciplinas (Danner, 2010). A disciplina é um tipo de poder que, em seu exercício,transforma as pessoas em objetos e instrumentos em três formas, como um olhar hierárquico, uma sanção normalizadora e em sua combinação com o exame (Brighente; Mesquida, 2011). Dessa forma, torna a disciplina um poder disciplinar, que mantém o sujeito disciplinado, pelo olhar e controle sobre seus corpos. Além disso, permite o controle sobre os corpos para assegurar sua dominação (Danner, 2010). Assim, as disciplinas agem em um indivíduo como técnica, e a biopolítica na população como dispositivo (Probst; Kraemer, 2011). A técnica, por meio do poder, trabalha exclusivamente nos corpos como aspecto produtor de novos gestos e comportamentos, para que o ser humano se enquadre, recomponha e se torne utilitário para os bens do Estado (Danner, 2010). Segundo Brighente e Mesquida (2011), o objetivo da disciplina, como instrumento de poder disciplinar, é “docilizar” o sujeito e colocar em formato de vista social, econômica e política, para produzir mais e gerar mais lucros. Esse sujeito não pode se voltar contra o Estado, então é um processo que gera o cansaço, para que se disponha a colocar toda a sua energia no trabalho. O indivíduo é produto da disciplina e se constrói na realidade fabricada por ela, na qual a sociedade que se desenvolveu entre os séculos XVII e XVIII colocava em funcionamento técnicas de poder para transformar as populações em produtos do poder econômico. A biopolítica se constrói como um dispositivo para regular todas as técnicas de poder que possam dominar a população. 9 TEMA 5 – CONTROLE DOS CORPOS NA ÁREA DA SAÚDE E EDUCAÇÃO Para pensar a biopolítica de controle dos corpos nos dias atuais, é possível olharmos pela via da educação, uma área que tem sido bastante importante nos estudos e na prática desse tema. Como apontam Brighente e Mesquida (2011), o corpo foi apresentado como corpo biológico e, com o tempo, diversos(as) estudiosos(as) começaram a desenvolver conceitos até chegar a um corpo vivido constituído culturalmente. O corpo, para os(as) autores(as) pautados(as) em Foucault, é fabricado e educado para viver em sociedade. É nele em que se inscrevem todas as regras, normas e valores de uma sociedade (Probst; Kraemer, 2010), e onde ocorre o primeiro contato humano com seu meio e outras pessoas que fazem parte de seu contexto social. Isso se inicia desde a infância, já sendo colocados modos de conduta, gestões e comportamentos. Os séculos XVI e XIX foram marcados por diversas transformações sociais, econômicas e históricas marcadas por uma produção industrializada na sociedade (Probst; Kraemer, 2010). Com isso, o corpo passou a ser pensado por composições musculares e funções orgânicas para preparar a indústria e o mundo do trabalho, um corpo baseado nos princípios liberais do capitalismo: O corpo passa a ser visto ao mesmo tempo como uma massa, um invólucro, uma superfície composta por carne, ossos, pele, músculos, nervos, vasos sanguíneos, tendões, vísceras, órgãos, ou seja, uma matéria física e concreta, passível de intervenções externas, por técnicas disciplinares e de biopolítica (Probst; Kraemer, 2010). Assim, o corpo é visto como algo não humanizado, passível de intervenções que possam colocá-lo em modo controlado. Todavia, não é só dessa forma que o corpo é alvo das técnicas disciplinares e da biopolítica do poder, como traz César (2007, p. 80): [...] possibilidades de transformação corporais e a busca pelo corpo magro e saudável traduzido nas incontáveis dietas, tabelas de calorias, alimentos funcionais, fitas métricas, adipômetros, os aparelhos de bioimpedância, que medem, auscultam, transpassam, beliscam e penetram com correntes elétricas nossos corpos produzindo verdades sobre a nossa saúde como as taxas de colesterol, triglicerídeos, LDL, HDL e IMC. É implementando técnicas disciplinares sobre a saúde física que também se contempla a saúde mental. Diversas intervenções cirúrgicas contra um corpo gordo são produtores de sentido poderoso sobre a população (César, 2007). 10 Podemos observar em outros grupos sociais, como a mutilação dos órgãos genitais de pessoas intersexuais, quando não há a autonomia de escolha do indivíduo no momento em que é feito o procedimento que induzirá o sexo/gênero. É uma escolha que não pertence a esse sujeito, então, pertence a quem? Técnicas de poder disciplinares? Para Ortega (2004), a biopolítica da saúde é um caso que necessita de atenção especial, visto que nos estudos de Foucault são colocados novos valores, como a saúde, higiene, vitalidade, prole etc. Nesse sentido, a saúde exigia uma autoconsciência de ser saudável e ser exibida como algo ostentador, uma saúde perfeita. Essa perfeição Ortega (2004) chamará de nova utopia política das sociedades, tanto que para se manter vivo é preciso estar em boa saúde. É produzido um saber sobre a saúde da população. O que pode acontecer a partir disso é um indivíduo responsável por suas escolhas comportamentais que seguem um estilo de vida à procura de uma saúde e um corpo perfeito, sem olhar seus riscos (Ortega, 2004). É cobrado de um indivíduo que sua saúde seja um exemplo: que não atrapalhe no seu trabalho. Então a saúde não é para todos, e sim para aqueles que se exploram diante das técnicas de poder produzidas pelas disciplinas. O que é saúde e o que não é. Ressalta-se aqui que não há uma única forma de ser saudável e ter saúde, mas se deve atentar para as relações de poder que exigem o seguimento de padrões que não são aceitos na sociedade como um todo. O aparecimento da escola tanto como lugar em que a técnica disciplinar acontecia nos corpos infantis pelas formas de controle e produção dos saberes quanto o lugar do governo da infância (César, 2007) já significava as relações de poder mediadas ao controle das subjetividades dessa pequena população. A intenção do Estado era controlar tudo e todos, sem ressalvas. Na escola e em outras instituições de ensino, o papel que predominou na produção do corpo a partir do século XIX foi com as ginásticas, exercícios, comportamentos, que exigiam desde tarefas mais simples até mais complexas (César, 2007). Para César (2007) o corpo para Foucault é a peça central para que o poder tenha condições de ser exercido, colocando, a partir do século XVIII, uma série de dispositivos disciplinares no interior das instituições sociais sobre seu funcionamento na modernidade. Nesse sentido, ao longo dos anos, foram se naturalizando a escola e a educação, tornando-se o direito de todos, assim como o direito ao acesso no SUS. Mas como é pensar os corpos, tanto na área da 11 saúde quanto na educação, sem uma via de práticas disciplinares já contaminadas em saberes idealistas e biologizantes? Como é pensar o corpo para você? Para Probst e Kraemer (2010, p. 104), Pensar o corpo é pensar sobre as formas que o constituem, sobre modos e costumes, sobre a história e a cultura, sobre o gosto, o dever e o prazer da vida. Colocar o corpo em perspectiva é correr o risco de descobri-lo para além do corpo convencional, manipulado, passível de conhecimento e de controle. Em síntese, para Foucault (2017), a junção entre o corpo e a população torna o sexo um alvo central de poder que se organizou em torno da gestão de vida, até mais do que a ameaça da morte das pessoas. NA PRÁTICA Como vimos, o biopoder é capaz de controlar em massa uma sociedade. Portanto, é dada a ele uma forma de dominação sobre corpos por meio do Estado. Este cria leis para regular o comportamento de corpos para o bem-estar da população na sociedade. Imaginemos uma situação de biopoder em uma política pública: o Centro Pop (Centro de Referência para População em Situação de Rua). Neste serviço, você, como psicólogo(a), tem papel importante nos atendimentos psicossociais dessa população. Como o biopoder pode ser exercido em relação a ela, visto que é umgrupo vulnerável na sociedade? Como você atuaria na reinserção social desses indivíduos sem produzir uma prática profissional de poder disciplinar? Pergunte para seu(sua) tutor(a) e converse com um colega. Vamos pensar coletivamente! FINALIZANDO O biopoder está nas relações de poder entre a população e se constitui no interior das instituições sociais, assim como na produção de saberes científicos sobre a atividade humana: psicologia, medicina, pedagogia etc. Nesse sentido, o biopoder é um mecanismo que ajuda na organização do Estado e de suas próprias instituições sociais. O biopoder se separa em duas técnicas que o ajudam a produzir uma série de ações de controle sobre os corpos: a disciplina e a biopolítica. A disciplina é uma técnica de poder que disciplina o sujeito, que o coloca em uma 12 caixa de regras e regulamentações de comportamentos. Já a biopolítica expande o poder e gera todas essas regras e regulamentações em grupos sociais e até em populações maiores. As duas técnicas sustentam o biopoder, que dá espaço para que a governamentalidade seja aplicada: do Estado para o governo. O conceito de governamentalidade, para Foucault, explica todas as relações de poder presentes na sociedade. 13 REFERÊNCIAS BERTOLIN, J. O. conceito de biopoder em Foucault: apontamentos bibliográficos. Saberes: Revista interdisciplinar de Filosofia e Educação, v. 18, n. 3, 18 dez. 2018. BOCK, A. M. B. A Psicologia sócio-histórica: uma perspectiva crítica em psicologia. In: BOCK, A. M. B.; GONÇALVES, M. da G. M.; FURTADO, O. (Orgs.). Psicologia sócio-histórica: uma perspectiva crítica em psicologia. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2015. p. 21-46. BRIGHENTE, M. F.; MESQUIDA, P. Michel Foucault: corpos dóceis e disciplinados nas instituições escolares. In: X Congresso Nacional de Educação – Educere e I Seminário Internacional de Representações Sociais, Subjetividade e Educação, 2011, Curitiba. Formação para mudanças no contexto da educação: políticas, representações sociais e práticas. Curitiba: Editora Champgnat, 2011. CANDIOTTO, C. A governamentalidade política no pensamento de Foucault. Filosofia Unisinos, v. 11, n. 1, p. 33-43, jan./abr. 2010. CÉSAR, M. R. de A. Corpo, escola, biopolítica e a arte como resistência. Temas e Matizes, v. 6, n. 11, p. 79-88. 2007. DANNER, F. O sentindo da biopolítica em Michel Foucault. Revista Estudos Filosóficos, v. 0, n. 4, p. 143-157. 2010. FERNANDES, D.; RESMINI, G. Biopolítica. 2015. Disponível em: . Acesso em: 22 maio 2021. FOUCAULT, M. História da sexualidade I: a vontade de saber. 4. ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2017. KROETZ, K.; FERRANO, J. L. S. A governamentalidade como ferramenta analítica em Michel Foucault. Conjectura: Filos. Educ., Caxias do Sul, v. 24, p. 76-91. 2019. OLIVEIRA, L. O conceito de governamentalidade em Michel Foucault. Revista Ítaca, v. 0, n. 34, p. 48-72. 2019. 14 ORTEGA, F. Biopolíticas da saúde: reflexões a partir de Michel Foucault, Agnes Heller e Hannah Arendt. Interface, Botucatu, v. 8, n. 14, p. 9-20, fev. 2004. PROBST, M.; KRAEMER, C. Disciplina, biopolítica e educação: o corpo na escola. Poiésis - Revista do Programa de Pós-Graduação em Educação, v. 4, p. 103-119, nov. 2011.