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CORPO, GÊNERO E 
SEXUALIDADE 
AULA 2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Victor Hugo Brandão Meireles 
 
 
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CONVERSA INICIAL 
Nesta aula, vamos aprender sobre a constituição do sujeito social pela 
perspectiva da Psicologia Histórico-Cultural com aproximações das teorias 
femininas materialistas e francesas em suas contribuições para as categorias de 
sexo, gênero e identidade. 
Os objetivos para esta aula são conceituar a categoria de sujeito para a 
Psicologia Histórico-Cultural e sua relação com outros principais eixos desta 
aula; aprender um pouco sobre a categoria de sexo por meio da relação social 
que o constitui; discutir o gênero como uma categoria analítica e histórica na 
Psicologia; aprender sobre a relação social de sexo/gênero em uma perspectiva 
contemporânea; e conceituar identidade também para a Psicologia Histórico-
Cultural. 
TEMA 1 – A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO SOCIAL 
O sujeito é uma das categorias mais estudadas na Psicologia por 
diferentes abordagens. Cada uma tem um olhar epistemológico diferente sobre 
o ser humano. Essa categoria é importante para que possamos pensar a relação 
do sujeito com a sociedade. Usaremos a palavra humano/ser humano como 
tentativa de superação do sexismo presente na palavra homem, que em diversos 
momentos na produção do conhecimento, é designado para generalizar 
contextos e situações para homens, mulheres e outras pessoas. 
A categoria de sujeito se torna evidente para Psicologia no mesmo 
momento em que ela se constitui enquanto uma ciência. É um momento histórico 
de transição do humano para sujeito, na dialética entre objetividade e 
subjetividade. Para essa aula iremos aprender o que é sujeito para Psicologia 
Histórico-Cultural. 
O sujeito e a sociedade se articulam de modo dialético combatendo visões 
dicotômicas e binárias, que insistem em separar essas duas instâncias. O ser 
humano é um ser ativo que transforma o mundo material de acordo com suas 
necessidades e desejos e é nessa trajetória que a sociedade e o indivíduo são 
constituídos. O nós (o coletivo) se constitui no sujeito (nossa singularidade) por 
meio das relações sociais dialéticas. 
A relação entre o sujeito e a coletividade aparece dentro do nosso campo 
de atuação e, com isso, precisamos entender cada um e a relação de ambos por 
 
 
3 
meio da dialética. Para Bock, Furtado e Teixeira (2010), o sujeito é marcado pela 
sua singularidade, produz e é produzido pela sociedade por meio das relações 
sociais que se desenham no cotidiano. Um eu constituído por nós. 
A singularidade é exatamente o momento em que se apropria do seu 
tempo e do lugar em que está inserido, posto enquanto um ser singular nesse 
meio (Bock; Furtado; Teixeira, 2010). 
A possibilidade de existência do sujeito se constitui pelos contextos 
sociais e históricos na sociedade. E isso não torna a sociedade uma 
contraposição do sujeito, pois além da possibilidade de existência, também há 
uma possibilidade de existência da subjetividade (Bock; Furtado; Teixeira, 2010). 
Na construção desse novo olhar do ser humano na sociedade em suas 
transformações econômicas, sociais e políticas, emerge a construção da noção 
de subjetividade. Para explicar os processos psicológicos desse sujeito, para a 
Psicologia Histórico-Cultural, a subjetividade é o fenômeno psicológico de 
análise. 
A subjetividade constitui esse sujeito, sendo um sistema que representa 
unidades em formas organizacionais produzidas por sentidos subjetivos nos 
mais variados espaços sociais em que ocorre a atividade humana. Nesse 
sentido, ela se desdobra e se desenvolve no interior de realidades e processos 
objetivos que caracterizam a organização social na sociedade (González Rey, 
2005). 
Para González Rey e Mitjáns Martínez (2017), o sujeito representa aquele 
que abre uma via própria de subjetivação, que transcende o espaço social 
normativo dentro das quais as experiências acontecem. Representa a 
capacidade das pessoas de se posicionarem dentro dos limites das próprias 
produções simbólicas das culturas e dos recursos subjetivos existentes, 
assumindo desafios que vão além da existência da experiência humana 
(González Rey; Mitjáns Martínez, 2017). 
O sujeito é autor(a) das tomadas de decisões que irá assumir em seus 
posicionamentos para a produção e desenvolvimento de conhecimentos e 
compromissos ativos que abrirão novos processos humanos atrelados às 
decisões que acontecem nos mais variados contextos sociais em que os 
indivíduos estão inseridos. Seus atos singulares, de forma recorrente, se tornam 
sociais pelos processos que vão além da sua consciência ou da sua previsão 
imediata do ato singular em si (González Rey; Mitjáns Martínez, 2017). 
 
 
4 
Portanto, o sujeito está inserido em uma sociedade atravessada por 
relações históricas, sociais e culturais específicas, sendo constituído com base 
nas mesmas. Sua relação social com o meio constitui sua subjetividade, mas 
essas relações não anulam sua singularidade por cada um construir de modos 
parcialmente distintos na sociedade. O sujeito é histórico, social e singular. 
TEMA 2 – A RELAÇÃO SOCIAL DO SEXO 
Se como vimos na aula anterior, existem diversas produções de saberes 
sobre o sexo, como ele é considerado como parte de um sujeito? Por meio do 
que chamamos de relação social? Nesse sentido, adotaremos a perspectiva de 
relações sociais de sexo e gênero para aprofundar nossa discussão sobre a 
sexualidade por meio das produções feministas materialistas. 
Geralmente, aprendemos que o sexo é uma categoria biológica e o gênero 
uma categoria social, todavia, essa afirmação gera uma dicotomia entre ambos 
os objetos. 
2.1 O que é relação social? 
Para Kergoat (2002), a relação social se assimila como uma “tensão” que 
está presente na sociedade. Essa tensão se cristaliza como forma de confronto 
entre seres humanos postos em desafios de novos modos de agir e pensar 
produzidos na sociedade. Tudo aquilo que surge nessa tensão se constitui nos 
grupos sociais pela dinâmica das relações sociais. Segundo Kergoat (2002, p. 
51): 
[...] as relações sociais são múltiplas e nenhuma delas determina a 
totalidade do campo que estrutura. Juntas, tecem a trama da sociedade 
e impulsionam sua dinâmica: elas são consubstanciais. Logo, a noção 
de relação social remete ao mesmo tempo a um princípio de geração 
(as relações sociais produzem e reproduzem, pela mediação dos 
desafios, as práticas sociais que, por sua vez, agem sobre as tensões 
que são as relações sociais) e a um princípio heurístico (as relações 
sociais servem para compreender as práticas observadas). 
 Portanto, relação social é uma relação de antagonismo, que se envolve 
em disputa entre grupos sociais, como mulher e homem; homem e homem; 
mulher e mulher; homossexualidade e heterossexualidade, entre outras formas 
de grupos sociais que se relacionam na própria existência humana. Vale 
salientar que esses grupos sociais não são apenas opostos, em que o significado 
de um contrapõe o significado do outro. Não são grupos sociais dicotômicos. 
 
 
5 
2.2 O sexo e a divisão sexual do trabalho 
Como entendemos como funciona uma relação social, passamos agora a 
discutir as relações sociais de sexo, que para Kergoat (2002), são tensões entre 
grupos sexuados não biologicamente distintos, mas socialmente e 
historicamente enquanto constructos sociais. Na aula anterior, o sexo era visto 
unicamente como algo natural e biológico, mas que também aparecia como uma 
construção social. 
Entendemos sexo como categoria histórica que esteve presente por muito 
tempo para explicar as relações sociais divididas entre seres humanos na 
sociedade. Sua noção está em sua organização das ideias e saberes como 
representações, mitos e utopias sobre um sexo concedido apenas às práticas 
que se relacionam entre os sexos (Mathieu, 2005). A categoria de sexo é 
contraditória, pois não só revela as relaçõesentre homens e mulheres pela 
divisão sexual, mas baseada em uma consciência de classe. Para Nicole-Claude 
Mathieu (2005), o sexo corresponde a uma perspectiva sociológica entre o sexo 
e o gênero: o gênero constrói o sexo. Portanto, não se fala de sexo sem se falar 
de gênero e vice-versa. 
O fato de desnaturalizar o termo sexo como uma definição puramente 
biológica dos sexos se dá pela racionalização do termo de classes de sexo, e 
para algumas feministas francesas, a classe das mulheres pode ser definida na 
relação que as mantêm com a classe dos homens e vice-versa (Rial; Lago; 
Grossi, 2005). 
Para as autoras Rial, Lago e Grossi (2005), afirmar que as relações entre 
os sexos se constituem em uma relação social é formar um sistema que está 
presente em todos os setores da sociedade, estruturando-se e organizando-se 
do mesmo modo em que as relações de classe ou de raça. As relações sociais 
de sexo, para Rial, Lago e Grossi (2005, p. 680-681) se formam em quatro 
características: 
1. são antagônicas, relações de força que opõem os dois grupos em 
questão, um procurando manter sua dominação e o outro tentando 
libertar-se; 2. são transversais, não se limitando a uma esfera da 
sociedade e não se baseando, como se pretende com frequência, 
principalmente na família; 3. são dinâmicas e historicamente 
construídas e o resultado de uma correlação de forças em movimento 
contínuo. [...] 4. elas bicategorizam, definindo de forma hierárquica as 
categorias sociais de sexo, ou seja, atribuem posições para os homens 
e as mulheres na sociedade. 
 
 
6 
Uma contribuição muito importante das autoras é que, no item três, 
demonstram que essas relações não se baseiam somente na família, pois a 
dominação masculina se encontra em todas as sociedades como uma 
construção sócio-histórica, no qual homens e mulheres já nascem nesses 
espaços já definidos pelas relações sociais de sexo, também fazendo parte no 
processo de produção e reprodução dessas relações (Rial; Lago; Grossi, 2005). 
As relações sociais de sexo em grupos sexuados de homens e mulheres 
produzem tensões, conflitos e oposições antagônicas, ocorrendo de diversas 
formas nas interações sociais complexas do ser humano, tanto presente em 
relacionamentos quanto no trabalho. Essas relações têm tanto como base 
material como de produção das ideias, como explicita Foucault (2017) que 
qualquer poder precisa de um saber. 
A divisão sexual do trabalho é uma forma decorrente das relações sociais 
de sexo, que, historicamente, foi se adaptando para cada sociedade (Kergoat, 
2009). Sua característica é a prioridade dos homens às esferas de produção de 
maior valor social e das mulheres às esferas de reprodução sexual. Podemos 
ver a incitação política moralista na história da sexualidade, que de acordo com 
Foucault (2017), era feita por uma divisão sexual do trabalho. 
Na igreja, o homem era o único que poderia estar na posição de padre, 
aquele que detinha o maior poder sobre os saberes religiosos. Nas esferas 
políticas atuais, está visível que a maior parte dos partidos políticos são 
compostos por homens cisgêneros e, em sua grande maioria, em cargos de 
maiores responsabilidades públicas. Há também uma divisão desigual de 
salários. 
Com isso, para Kergoat (2009), as relações sociais de sexo e a divisão 
sexual do trabalho são dois termos indissociáveis e, epistemologicamente, um 
sistema, isto é, a divisão sexual do trabalho tem um status de disputa sobre as 
relações sociais de sexo. Para que fique mais claro, Kergoat (2009, p. 71) coloca 
as características desse status entre os dois termos: 
[...] a relação entre os grupos assim definidos é antagônica; as 
diferenças constatadas entre as práticas dos homens e das mulheres 
são construções sociais e não provenientes de uma causalidade 
biológica; esta construção social tem uma base material e não é 
unicamente ideológica – em outros termos, a “mudança de 
mentalidades” jamais acontecerá espontaneamente se estiver 
desconectada da divisão de trabalho concreta – podemos fazer uma 
abordagem histórica e periodizá-la; estas relações sociais se baseiam 
antes de tudo em uma relação hierárquica entre os sexos, trata-se de 
uma relação de poder, de dominação. 
 
 
7 
Em síntese, falar da categoria de sexo é falar de relações sociais, cuja 
historicidade é uma relação de hierarquização, poder e de dominação entre os 
sexos. O sexo não se reduz apenas ao biológico, tampouco aos órgãos genitais. 
Falar em termos das relações sociais de sexo permite demonstrar a dominação 
masculina em um duplo processo de: “[...] “biologização do social” e a 
“socialização do biológico”, ou seja, que o social interpretava o sexo biológico, 
conferindo-lhe um determinado sentido” (Rial; Lago; Grossi, 2005, p. 681). 
TEMA 3 – O GÊNERO ENQUANTO CATEGORIA ANALÍTICA E HISTÓRICA NA 
PSICOLOGIA 
Existem diversas produções do conhecimento sobre o termo de gênero, 
mas aqui iremos nos concentrar apenas em seu significado de acordo com Scott 
e Saffioti para que, posteriormente, possamos defini-lo em relação ao sexo. 
Como vimos, os homens detêm o poder de determinar condutas 
específicas em outras pessoas, como punir aqueles(as) que apresentam desvio 
para sociedade (pessoas homossexuais). Nesse sentido, por meio das normas 
sociais, isto é, das relações de poderes, os próprios homens permitem que suas 
masculinidades sejam executadas por vias de violências contra outras pessoas 
exploradas. Isso é o que Saffioti chama de desvio, como qualquer outro tipo de 
masculinidade – e o próprio gênero feminino – que não seja o dominador. O 
desvio é tido como tudo aquilo que é diferente. 
O termo gênero é recente, tendo aparecido primeiro entre feministas 
americanas que buscavam rejeitar o determinismo biológico implícito no uso do 
termo “sexo”, uma vez que seu caráter fundamental era social (Scott, 1988). Para 
Scott (1988), o gênero é uma categoria útil de análise, como diz em seu próprio 
artigo a respeito do tema. 
Para Scott (1988), o gênero é utilizado para designar as relações sociais 
entre os sexos, o que rejeita as justificativas biológicas, se tornando uma maneira 
de indicar um novo modelo inteiramente social do conhecimento sobre os papéis 
entre homens e mulheres. É por isso que consideramos o gênero uma 
construção social. Para Scott (1988, p. 21), gênero é: 
[...] é um elemento constitutivo de relações sociais baseado nas 
diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é uma forma primeira 
de significar as relações de poder. As mudanças na organização das 
relações sociais correspondem sempre à mudança nas 
 
 
8 
representações de poder, mas a direção da mudança não segue 
necessariamente um sentido único. 
O gênero é uma forma de decodificar o sentido e compreender as relações 
complexas humanas. Entretanto, o gênero, para Saffioti (2011), não é somente 
uma categoria de análise, mas uma categoria histórica, que domina e regula as 
relações entre homens-mulheres, homem-homem, mulher-mulher. 
O gênero não representa em sua marca apenas a relação entre os dois 
sexos, mas evidencia a marca em sua materialidade, isto é, em sua atividade 
humana, pois se fundamenta na divisão sexual do trabalho e nos meios de 
produção, bem como na sua organização social sobre a procriação (Amaral, 
2019). Ou seja, o gênero é uma construção social que se fortalece conforme o 
capitalismo se expandiu na sociedade. 
Portanto, o gênero designa a construção social do masculino e do 
feminino com base em imagens, atributos de personalidades, comportamentos, 
e representações sociais do que sejam designados especificamente a esses dois 
gêneros (Saffioti, 2011), mas além disso, designa a sociedade em uma visão 
binária de que tudo que é de apropriação do ser humano tem um gênero. 
As construções sociais em torno do gênero se limitam ao decorrerem das 
transformações sociais, políticas e culturais da nossa sociedade, tendo em vistaque hoje o gênero não se limita apenas ao feminino e ao masculino. Nesse 
sentido, hoje temos uma maior amplitude do que seja gênero, ainda que 
colocado a uma perspectiva de construção social, mas que atenda a todas as 
urgências históricas da sociedade. 
Atualmente, podemos falar da inclusão de outras perspectivas em estudos 
de gênero, as quais ampliam o conhecimento do sujeito na contemporaneidade 
brasileira, como os estudos da transgeneridade, termo guarda-chuva para 
explicar categorias autoidentificatórias de pessoas que não se reconhecem de 
acordo com o sexo/gênero que foi imposto ao nascimento. Estudaremos mais a 
respeito na próxima aula. 
TEMA 4 – RELAÇÕES SOCIAIS DE SEXO/GÊNERO 
Tendo em vista o que já falamos sobre as relações sociais de sexo e sobre 
categoria de gênero, precisamos analisar como ocorrem as relações sociais de 
sexo/gênero e por que gênero pode ser um termo mais adequado para os dias 
atuais. 
 
 
9 
As feministas materialistas compreendem que só o uso do termo gênero 
é como equivalente ao sexo social, sendo o masculino e o feminino. Todavia, 
isso pode gerar a dicotomia entre sexo e gênero, dando a entender que o sexo 
biológico era um dado “primeiro” e não cultural também. Isso significa que é 
como se existisse antes do social, como forma imutável e inatingível. Por isso, 
para Michèle Ferrand em Rial, Lago e Grossi (2005), o gênero é uma releitura 
social e hierarquizada das diferenças “anatômicas”, que em si não possuíam 
algum significado. 
O uso sozinho da categoria de gênero pode não apresentar as relações 
desiguais entre homens e mulheres. Por isso, contrapõe as perspectivas que 
produzem uma visão dualista, essencialista e a priori sobre os fenômenos 
sociais. Para Mathieu (2009, p. 227), o uso do termo apenas exclusivo ao gênero 
pode remeter alguns problemas, dos quais destaca três: 
1) O termo “gênero” isolado tende a ocultar que o “sexo” (a definição 
ideológica e prática que lhe é dada) funciona efetivamente como 
parâmetro na variabilidade das relações sociais concretas e das 
elaborações simbólicas. [...] Como no caso da substituição do termo 
“raça” por “etnia”, deixar o sexo fora do campo do gênero implica o risco 
de manter incontornável o seu estatuto de realidade. 2) Evidentemente, 
as análises feministas mostram que o funcionamento do gênero, 
incluindo as estruturas sociocognitivas (Hurtig e Pichevin, 1991), é 
hierárquico. Mas o termo continua a ser usado pela maioria das 
pessoas como uma bicategorização inofensiva. [...] Isso permite 
estudar os aspectos simbólicos e ideológicos do masculino e do 
feminino, sem referência à opressão do sexo feminino. 3) Pode-se 
constatar que muitos escritos em inglês, inclusive feministas, utilizam 
gender em diversos sentidos, e principalmente como um eufemismo 
para sexo (o que aumenta a confusão frequente entre sexo e 
sexualidade). Segundo Brigitte Lhomond (1997), o abandono de toda 
distinção entre sexo e gênero conduz ao risco de naturalizar o gênero 
[...]. 
Nesse sentido, adota-se uma perspectiva segundo a qual falar de 
relações sociais entre homem-mulher, homem-homem, mulher-mulher ou de 
grupos sociais de pessoas que não se autorregulam homem ou mulher, é falar 
sobre sexo/gênero em uma maior totalidade de vivências e experiências de vida 
na sociedade. 
Assim, compreendemos, em conjunto com Amaral (2016) e Cisne (2012), 
que a relação social de sexo/gênero não se anula, mas marca historicamente as 
transformações na sociedade com base nas relações de dominações, isto é, 
permite que sejam feitas análises do masculino com um olhar mais crítico sobre 
a dominação masculina. 
 
 
10 
Portanto, as relações sociais de sexo/gênero determinam e são 
determinadas na sociedade por fatores históricos, sociais e culturais, de forma 
que mulheres, pessoas homossexuais, pessoas transexuais, não-binárias, entre 
outros grupos sociais, são exploradas por meio de uma dominação de 
sexo/gênero opressiva. 
Os estudos feministas materialistas têm contribuído para os campos da 
Psicologia com uma maior análise das categorias de gênero, sexo e sexualidade, 
que constituem o sujeito na sociedade e, consequentemente, sua subjetividade. 
Esse é o termo que é analítico e histórico, para que se possa estudar outras 
formas de sexualidade. Isso em uma perspectiva da Psicologia Histórico-
Cultural. 
TEMA 5 – IDENTIDADE PARA A PSICOLOGIA HISTÓRICO-CULTURAL 
Visto que o sujeito é marcado pelas suas vivências que são atreladas por 
modos de subjetivações, o conceito de identidade proporciona analisar o sujeito 
enquanto um papel ativo na sociedade e em como ele se reconhece fazendo 
parte dela. Sua identidade é o que pode mediar as relações sociais nos espaços 
em que esteja inserido. 
Ciampa (1987) conceitua a identidade como consequência das relações 
sociais que atravessam os sujeitos e das condições que apresentam essas 
relações que apresentam uma identidade como uma resposta a cada momento. 
Na teoria da identidade, Ciampa (1987) analisa a identidade por meio do 
que chama de sintagma: identidade-metamorfose-emancipação. Dessa forma, a 
identidade é um processo contínuo de metamorfoses voltadas para 
emancipação, que busca projetos de vidas que levem os sujeitos a uma 
possibilidade de autonomia frente às relações de poderes na sociedade 
(Ciampa, 2009; Dantas, 2017). O sujeito é evidenciado pela sua identidade para 
que busque novas formas de emancipação das amarras das relações de 
opressão (Lara Junior; Lara, 2017). 
A identidade pode ser vista como uma diferença e igualdade, ou seja, 
conforme o tempo vai passando, vamos nos diferenciando e nos igualando a 
vários grupos sociais dos quais fazemos parte. Então, o conhecimento de si é 
dado pelo reconhecimento recíproco dos indivíduos identificados por meio de 
determinado grupo social. Esses grupos surgem por intermédio de relações 
 
 
11 
sociais que os sujeitos estabelecem entre si no meio em que vivem, com suas 
práticas e seus modos de agir (Ciampa, 1987; Lara Junior; Lara, 2017). 
Como já falamos sobre relações sociais, a sociabilização do sujeito 
nesses grupos proporciona o desenvolvimento de uma identidade política, um 
importante processo que acontece pela emancipação. 
 A emancipação contrapõe-se às ideias essencialistas e a-históricas sobre 
identidade. O sujeito tem um papel importante na construção de sua identidade, 
em um processo contínuo e historicamente em movimento (Ciampa, 1987). 
Nesse sentido, é no exercício de uma identidade política que o sujeito alcança o 
direito de romper com as normas de poderes sociais e alcançar seus direitos e 
sua cidadania (Dantas, 2017). 
Para González Rey (2010), a identidade permite que o sujeito se posicione 
a todo momento em suas experiências de vida e desenvolva novas dimensões 
de si mesmo. Também o permite manter-se ativo nas áreas de sua vida que 
considera importantes (Meireles; Ferrarini, 2019). 
Trazemos o termo de identidade política para que possamos pensar a 
constituição de um sujeito que, perpassado pelas suas relações sociais na 
sociedade, chegue em um projeto político de identidade. Projeto que é 
desenvolvido pela coletividade. 
NA PRÁTICA 
Com o que foi discutido até aqui, como o(a) psicólogo(a) pode contribuir 
para a não produção de uma dicotomia entre sexo e gênero nas políticas 
públicas? Como exemplo, algumas pesquisas sobre a mulher que sofre violência 
doméstica e o atendimento no CREAS (Centro de Referência Especializado de 
Assistência Social) demonstraram que não há estabelecimento de uma 
abordagem mais eficaz devido à falta de capacitação dos(as) profissionais(as) a 
respeito do tema. 
Dessa forma, o(a) psicólogo(a) faz parte de uma equipe multiprofissional, 
que geralmente inclui: um(a) coordenador(a), um(a) assistente social, um(a) 
psicólogo(a), um(a) advogado(a), dois/duas profissionais com ensino superior 
que atuem na abordagem de usuários e um(a) auxiliaradministrativo. Nesse 
caso, é papel do(a) psicólogo(a) atender a vítima, mas os pacientes também 
serão atendidos pelos(as) outros(as) profissionais. Como o(a) psicólogo(a) pode 
ajudar na melhoria do atendimento da equipe relacionado a esse tipo de caso? 
 
 
12 
FINALIZANDO 
Nesta aula, aprendemos alguns conceitos que podem ser úteis para a 
Psicologia e seus campos de atenção. Inicialmente, aprendemos sobre o sujeito, 
aquele(a) que está inserido em uma sociedade que tem como seu sistema o 
capitalismo. É um sujeito histórico e social que produz e é produzido pelas 
relações sociais, tanto de classe quanto de sexo/gênero. 
As relações sociais importantes aqui são as de sexo/gênero, que 
permitem que possamos analisar o sujeito e as desigualdades sociais, além de 
aprendermos mais sobre a sexualidade, que é um caminho possível para pensar 
as complexidades do ser humano. As diversidades tornam a sexualidade uma 
discussão amplamente contemporânea, para que se observe a relação não 
linear entre o sexo, gênero, identidade de gênero e orientação sexual. Estudar 
gênero, sexo e identidade é carregar sua historicidade política e social das 
relações sociais, presente nos processos de humanização. 
A identidade política pode ser um conceito possível para a Psicologia 
contribuir com a emancipação dos sujeitos das amarras dos processos de 
desigualdade social, de sexo/gênero, econômica e das opressões que excluem 
e produzem sofrimento para a população. 
 
 
 
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