Prévia do material em texto
CORPO, GÊNERO E SEXUALIDADE AULA 2 Prof. Victor Hugo Brandão Meireles 2 CONVERSA INICIAL Nesta aula, vamos aprender sobre a constituição do sujeito social pela perspectiva da Psicologia Histórico-Cultural com aproximações das teorias femininas materialistas e francesas em suas contribuições para as categorias de sexo, gênero e identidade. Os objetivos para esta aula são conceituar a categoria de sujeito para a Psicologia Histórico-Cultural e sua relação com outros principais eixos desta aula; aprender um pouco sobre a categoria de sexo por meio da relação social que o constitui; discutir o gênero como uma categoria analítica e histórica na Psicologia; aprender sobre a relação social de sexo/gênero em uma perspectiva contemporânea; e conceituar identidade também para a Psicologia Histórico- Cultural. TEMA 1 – A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO SOCIAL O sujeito é uma das categorias mais estudadas na Psicologia por diferentes abordagens. Cada uma tem um olhar epistemológico diferente sobre o ser humano. Essa categoria é importante para que possamos pensar a relação do sujeito com a sociedade. Usaremos a palavra humano/ser humano como tentativa de superação do sexismo presente na palavra homem, que em diversos momentos na produção do conhecimento, é designado para generalizar contextos e situações para homens, mulheres e outras pessoas. A categoria de sujeito se torna evidente para Psicologia no mesmo momento em que ela se constitui enquanto uma ciência. É um momento histórico de transição do humano para sujeito, na dialética entre objetividade e subjetividade. Para essa aula iremos aprender o que é sujeito para Psicologia Histórico-Cultural. O sujeito e a sociedade se articulam de modo dialético combatendo visões dicotômicas e binárias, que insistem em separar essas duas instâncias. O ser humano é um ser ativo que transforma o mundo material de acordo com suas necessidades e desejos e é nessa trajetória que a sociedade e o indivíduo são constituídos. O nós (o coletivo) se constitui no sujeito (nossa singularidade) por meio das relações sociais dialéticas. A relação entre o sujeito e a coletividade aparece dentro do nosso campo de atuação e, com isso, precisamos entender cada um e a relação de ambos por 3 meio da dialética. Para Bock, Furtado e Teixeira (2010), o sujeito é marcado pela sua singularidade, produz e é produzido pela sociedade por meio das relações sociais que se desenham no cotidiano. Um eu constituído por nós. A singularidade é exatamente o momento em que se apropria do seu tempo e do lugar em que está inserido, posto enquanto um ser singular nesse meio (Bock; Furtado; Teixeira, 2010). A possibilidade de existência do sujeito se constitui pelos contextos sociais e históricos na sociedade. E isso não torna a sociedade uma contraposição do sujeito, pois além da possibilidade de existência, também há uma possibilidade de existência da subjetividade (Bock; Furtado; Teixeira, 2010). Na construção desse novo olhar do ser humano na sociedade em suas transformações econômicas, sociais e políticas, emerge a construção da noção de subjetividade. Para explicar os processos psicológicos desse sujeito, para a Psicologia Histórico-Cultural, a subjetividade é o fenômeno psicológico de análise. A subjetividade constitui esse sujeito, sendo um sistema que representa unidades em formas organizacionais produzidas por sentidos subjetivos nos mais variados espaços sociais em que ocorre a atividade humana. Nesse sentido, ela se desdobra e se desenvolve no interior de realidades e processos objetivos que caracterizam a organização social na sociedade (González Rey, 2005). Para González Rey e Mitjáns Martínez (2017), o sujeito representa aquele que abre uma via própria de subjetivação, que transcende o espaço social normativo dentro das quais as experiências acontecem. Representa a capacidade das pessoas de se posicionarem dentro dos limites das próprias produções simbólicas das culturas e dos recursos subjetivos existentes, assumindo desafios que vão além da existência da experiência humana (González Rey; Mitjáns Martínez, 2017). O sujeito é autor(a) das tomadas de decisões que irá assumir em seus posicionamentos para a produção e desenvolvimento de conhecimentos e compromissos ativos que abrirão novos processos humanos atrelados às decisões que acontecem nos mais variados contextos sociais em que os indivíduos estão inseridos. Seus atos singulares, de forma recorrente, se tornam sociais pelos processos que vão além da sua consciência ou da sua previsão imediata do ato singular em si (González Rey; Mitjáns Martínez, 2017). 4 Portanto, o sujeito está inserido em uma sociedade atravessada por relações históricas, sociais e culturais específicas, sendo constituído com base nas mesmas. Sua relação social com o meio constitui sua subjetividade, mas essas relações não anulam sua singularidade por cada um construir de modos parcialmente distintos na sociedade. O sujeito é histórico, social e singular. TEMA 2 – A RELAÇÃO SOCIAL DO SEXO Se como vimos na aula anterior, existem diversas produções de saberes sobre o sexo, como ele é considerado como parte de um sujeito? Por meio do que chamamos de relação social? Nesse sentido, adotaremos a perspectiva de relações sociais de sexo e gênero para aprofundar nossa discussão sobre a sexualidade por meio das produções feministas materialistas. Geralmente, aprendemos que o sexo é uma categoria biológica e o gênero uma categoria social, todavia, essa afirmação gera uma dicotomia entre ambos os objetos. 2.1 O que é relação social? Para Kergoat (2002), a relação social se assimila como uma “tensão” que está presente na sociedade. Essa tensão se cristaliza como forma de confronto entre seres humanos postos em desafios de novos modos de agir e pensar produzidos na sociedade. Tudo aquilo que surge nessa tensão se constitui nos grupos sociais pela dinâmica das relações sociais. Segundo Kergoat (2002, p. 51): [...] as relações sociais são múltiplas e nenhuma delas determina a totalidade do campo que estrutura. Juntas, tecem a trama da sociedade e impulsionam sua dinâmica: elas são consubstanciais. Logo, a noção de relação social remete ao mesmo tempo a um princípio de geração (as relações sociais produzem e reproduzem, pela mediação dos desafios, as práticas sociais que, por sua vez, agem sobre as tensões que são as relações sociais) e a um princípio heurístico (as relações sociais servem para compreender as práticas observadas). Portanto, relação social é uma relação de antagonismo, que se envolve em disputa entre grupos sociais, como mulher e homem; homem e homem; mulher e mulher; homossexualidade e heterossexualidade, entre outras formas de grupos sociais que se relacionam na própria existência humana. Vale salientar que esses grupos sociais não são apenas opostos, em que o significado de um contrapõe o significado do outro. Não são grupos sociais dicotômicos. 5 2.2 O sexo e a divisão sexual do trabalho Como entendemos como funciona uma relação social, passamos agora a discutir as relações sociais de sexo, que para Kergoat (2002), são tensões entre grupos sexuados não biologicamente distintos, mas socialmente e historicamente enquanto constructos sociais. Na aula anterior, o sexo era visto unicamente como algo natural e biológico, mas que também aparecia como uma construção social. Entendemos sexo como categoria histórica que esteve presente por muito tempo para explicar as relações sociais divididas entre seres humanos na sociedade. Sua noção está em sua organização das ideias e saberes como representações, mitos e utopias sobre um sexo concedido apenas às práticas que se relacionam entre os sexos (Mathieu, 2005). A categoria de sexo é contraditória, pois não só revela as relaçõesentre homens e mulheres pela divisão sexual, mas baseada em uma consciência de classe. Para Nicole-Claude Mathieu (2005), o sexo corresponde a uma perspectiva sociológica entre o sexo e o gênero: o gênero constrói o sexo. Portanto, não se fala de sexo sem se falar de gênero e vice-versa. O fato de desnaturalizar o termo sexo como uma definição puramente biológica dos sexos se dá pela racionalização do termo de classes de sexo, e para algumas feministas francesas, a classe das mulheres pode ser definida na relação que as mantêm com a classe dos homens e vice-versa (Rial; Lago; Grossi, 2005). Para as autoras Rial, Lago e Grossi (2005), afirmar que as relações entre os sexos se constituem em uma relação social é formar um sistema que está presente em todos os setores da sociedade, estruturando-se e organizando-se do mesmo modo em que as relações de classe ou de raça. As relações sociais de sexo, para Rial, Lago e Grossi (2005, p. 680-681) se formam em quatro características: 1. são antagônicas, relações de força que opõem os dois grupos em questão, um procurando manter sua dominação e o outro tentando libertar-se; 2. são transversais, não se limitando a uma esfera da sociedade e não se baseando, como se pretende com frequência, principalmente na família; 3. são dinâmicas e historicamente construídas e o resultado de uma correlação de forças em movimento contínuo. [...] 4. elas bicategorizam, definindo de forma hierárquica as categorias sociais de sexo, ou seja, atribuem posições para os homens e as mulheres na sociedade. 6 Uma contribuição muito importante das autoras é que, no item três, demonstram que essas relações não se baseiam somente na família, pois a dominação masculina se encontra em todas as sociedades como uma construção sócio-histórica, no qual homens e mulheres já nascem nesses espaços já definidos pelas relações sociais de sexo, também fazendo parte no processo de produção e reprodução dessas relações (Rial; Lago; Grossi, 2005). As relações sociais de sexo em grupos sexuados de homens e mulheres produzem tensões, conflitos e oposições antagônicas, ocorrendo de diversas formas nas interações sociais complexas do ser humano, tanto presente em relacionamentos quanto no trabalho. Essas relações têm tanto como base material como de produção das ideias, como explicita Foucault (2017) que qualquer poder precisa de um saber. A divisão sexual do trabalho é uma forma decorrente das relações sociais de sexo, que, historicamente, foi se adaptando para cada sociedade (Kergoat, 2009). Sua característica é a prioridade dos homens às esferas de produção de maior valor social e das mulheres às esferas de reprodução sexual. Podemos ver a incitação política moralista na história da sexualidade, que de acordo com Foucault (2017), era feita por uma divisão sexual do trabalho. Na igreja, o homem era o único que poderia estar na posição de padre, aquele que detinha o maior poder sobre os saberes religiosos. Nas esferas políticas atuais, está visível que a maior parte dos partidos políticos são compostos por homens cisgêneros e, em sua grande maioria, em cargos de maiores responsabilidades públicas. Há também uma divisão desigual de salários. Com isso, para Kergoat (2009), as relações sociais de sexo e a divisão sexual do trabalho são dois termos indissociáveis e, epistemologicamente, um sistema, isto é, a divisão sexual do trabalho tem um status de disputa sobre as relações sociais de sexo. Para que fique mais claro, Kergoat (2009, p. 71) coloca as características desse status entre os dois termos: [...] a relação entre os grupos assim definidos é antagônica; as diferenças constatadas entre as práticas dos homens e das mulheres são construções sociais e não provenientes de uma causalidade biológica; esta construção social tem uma base material e não é unicamente ideológica – em outros termos, a “mudança de mentalidades” jamais acontecerá espontaneamente se estiver desconectada da divisão de trabalho concreta – podemos fazer uma abordagem histórica e periodizá-la; estas relações sociais se baseiam antes de tudo em uma relação hierárquica entre os sexos, trata-se de uma relação de poder, de dominação. 7 Em síntese, falar da categoria de sexo é falar de relações sociais, cuja historicidade é uma relação de hierarquização, poder e de dominação entre os sexos. O sexo não se reduz apenas ao biológico, tampouco aos órgãos genitais. Falar em termos das relações sociais de sexo permite demonstrar a dominação masculina em um duplo processo de: “[...] “biologização do social” e a “socialização do biológico”, ou seja, que o social interpretava o sexo biológico, conferindo-lhe um determinado sentido” (Rial; Lago; Grossi, 2005, p. 681). TEMA 3 – O GÊNERO ENQUANTO CATEGORIA ANALÍTICA E HISTÓRICA NA PSICOLOGIA Existem diversas produções do conhecimento sobre o termo de gênero, mas aqui iremos nos concentrar apenas em seu significado de acordo com Scott e Saffioti para que, posteriormente, possamos defini-lo em relação ao sexo. Como vimos, os homens detêm o poder de determinar condutas específicas em outras pessoas, como punir aqueles(as) que apresentam desvio para sociedade (pessoas homossexuais). Nesse sentido, por meio das normas sociais, isto é, das relações de poderes, os próprios homens permitem que suas masculinidades sejam executadas por vias de violências contra outras pessoas exploradas. Isso é o que Saffioti chama de desvio, como qualquer outro tipo de masculinidade – e o próprio gênero feminino – que não seja o dominador. O desvio é tido como tudo aquilo que é diferente. O termo gênero é recente, tendo aparecido primeiro entre feministas americanas que buscavam rejeitar o determinismo biológico implícito no uso do termo “sexo”, uma vez que seu caráter fundamental era social (Scott, 1988). Para Scott (1988), o gênero é uma categoria útil de análise, como diz em seu próprio artigo a respeito do tema. Para Scott (1988), o gênero é utilizado para designar as relações sociais entre os sexos, o que rejeita as justificativas biológicas, se tornando uma maneira de indicar um novo modelo inteiramente social do conhecimento sobre os papéis entre homens e mulheres. É por isso que consideramos o gênero uma construção social. Para Scott (1988, p. 21), gênero é: [...] é um elemento constitutivo de relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é uma forma primeira de significar as relações de poder. As mudanças na organização das relações sociais correspondem sempre à mudança nas 8 representações de poder, mas a direção da mudança não segue necessariamente um sentido único. O gênero é uma forma de decodificar o sentido e compreender as relações complexas humanas. Entretanto, o gênero, para Saffioti (2011), não é somente uma categoria de análise, mas uma categoria histórica, que domina e regula as relações entre homens-mulheres, homem-homem, mulher-mulher. O gênero não representa em sua marca apenas a relação entre os dois sexos, mas evidencia a marca em sua materialidade, isto é, em sua atividade humana, pois se fundamenta na divisão sexual do trabalho e nos meios de produção, bem como na sua organização social sobre a procriação (Amaral, 2019). Ou seja, o gênero é uma construção social que se fortalece conforme o capitalismo se expandiu na sociedade. Portanto, o gênero designa a construção social do masculino e do feminino com base em imagens, atributos de personalidades, comportamentos, e representações sociais do que sejam designados especificamente a esses dois gêneros (Saffioti, 2011), mas além disso, designa a sociedade em uma visão binária de que tudo que é de apropriação do ser humano tem um gênero. As construções sociais em torno do gênero se limitam ao decorrerem das transformações sociais, políticas e culturais da nossa sociedade, tendo em vistaque hoje o gênero não se limita apenas ao feminino e ao masculino. Nesse sentido, hoje temos uma maior amplitude do que seja gênero, ainda que colocado a uma perspectiva de construção social, mas que atenda a todas as urgências históricas da sociedade. Atualmente, podemos falar da inclusão de outras perspectivas em estudos de gênero, as quais ampliam o conhecimento do sujeito na contemporaneidade brasileira, como os estudos da transgeneridade, termo guarda-chuva para explicar categorias autoidentificatórias de pessoas que não se reconhecem de acordo com o sexo/gênero que foi imposto ao nascimento. Estudaremos mais a respeito na próxima aula. TEMA 4 – RELAÇÕES SOCIAIS DE SEXO/GÊNERO Tendo em vista o que já falamos sobre as relações sociais de sexo e sobre categoria de gênero, precisamos analisar como ocorrem as relações sociais de sexo/gênero e por que gênero pode ser um termo mais adequado para os dias atuais. 9 As feministas materialistas compreendem que só o uso do termo gênero é como equivalente ao sexo social, sendo o masculino e o feminino. Todavia, isso pode gerar a dicotomia entre sexo e gênero, dando a entender que o sexo biológico era um dado “primeiro” e não cultural também. Isso significa que é como se existisse antes do social, como forma imutável e inatingível. Por isso, para Michèle Ferrand em Rial, Lago e Grossi (2005), o gênero é uma releitura social e hierarquizada das diferenças “anatômicas”, que em si não possuíam algum significado. O uso sozinho da categoria de gênero pode não apresentar as relações desiguais entre homens e mulheres. Por isso, contrapõe as perspectivas que produzem uma visão dualista, essencialista e a priori sobre os fenômenos sociais. Para Mathieu (2009, p. 227), o uso do termo apenas exclusivo ao gênero pode remeter alguns problemas, dos quais destaca três: 1) O termo “gênero” isolado tende a ocultar que o “sexo” (a definição ideológica e prática que lhe é dada) funciona efetivamente como parâmetro na variabilidade das relações sociais concretas e das elaborações simbólicas. [...] Como no caso da substituição do termo “raça” por “etnia”, deixar o sexo fora do campo do gênero implica o risco de manter incontornável o seu estatuto de realidade. 2) Evidentemente, as análises feministas mostram que o funcionamento do gênero, incluindo as estruturas sociocognitivas (Hurtig e Pichevin, 1991), é hierárquico. Mas o termo continua a ser usado pela maioria das pessoas como uma bicategorização inofensiva. [...] Isso permite estudar os aspectos simbólicos e ideológicos do masculino e do feminino, sem referência à opressão do sexo feminino. 3) Pode-se constatar que muitos escritos em inglês, inclusive feministas, utilizam gender em diversos sentidos, e principalmente como um eufemismo para sexo (o que aumenta a confusão frequente entre sexo e sexualidade). Segundo Brigitte Lhomond (1997), o abandono de toda distinção entre sexo e gênero conduz ao risco de naturalizar o gênero [...]. Nesse sentido, adota-se uma perspectiva segundo a qual falar de relações sociais entre homem-mulher, homem-homem, mulher-mulher ou de grupos sociais de pessoas que não se autorregulam homem ou mulher, é falar sobre sexo/gênero em uma maior totalidade de vivências e experiências de vida na sociedade. Assim, compreendemos, em conjunto com Amaral (2016) e Cisne (2012), que a relação social de sexo/gênero não se anula, mas marca historicamente as transformações na sociedade com base nas relações de dominações, isto é, permite que sejam feitas análises do masculino com um olhar mais crítico sobre a dominação masculina. 10 Portanto, as relações sociais de sexo/gênero determinam e são determinadas na sociedade por fatores históricos, sociais e culturais, de forma que mulheres, pessoas homossexuais, pessoas transexuais, não-binárias, entre outros grupos sociais, são exploradas por meio de uma dominação de sexo/gênero opressiva. Os estudos feministas materialistas têm contribuído para os campos da Psicologia com uma maior análise das categorias de gênero, sexo e sexualidade, que constituem o sujeito na sociedade e, consequentemente, sua subjetividade. Esse é o termo que é analítico e histórico, para que se possa estudar outras formas de sexualidade. Isso em uma perspectiva da Psicologia Histórico- Cultural. TEMA 5 – IDENTIDADE PARA A PSICOLOGIA HISTÓRICO-CULTURAL Visto que o sujeito é marcado pelas suas vivências que são atreladas por modos de subjetivações, o conceito de identidade proporciona analisar o sujeito enquanto um papel ativo na sociedade e em como ele se reconhece fazendo parte dela. Sua identidade é o que pode mediar as relações sociais nos espaços em que esteja inserido. Ciampa (1987) conceitua a identidade como consequência das relações sociais que atravessam os sujeitos e das condições que apresentam essas relações que apresentam uma identidade como uma resposta a cada momento. Na teoria da identidade, Ciampa (1987) analisa a identidade por meio do que chama de sintagma: identidade-metamorfose-emancipação. Dessa forma, a identidade é um processo contínuo de metamorfoses voltadas para emancipação, que busca projetos de vidas que levem os sujeitos a uma possibilidade de autonomia frente às relações de poderes na sociedade (Ciampa, 2009; Dantas, 2017). O sujeito é evidenciado pela sua identidade para que busque novas formas de emancipação das amarras das relações de opressão (Lara Junior; Lara, 2017). A identidade pode ser vista como uma diferença e igualdade, ou seja, conforme o tempo vai passando, vamos nos diferenciando e nos igualando a vários grupos sociais dos quais fazemos parte. Então, o conhecimento de si é dado pelo reconhecimento recíproco dos indivíduos identificados por meio de determinado grupo social. Esses grupos surgem por intermédio de relações 11 sociais que os sujeitos estabelecem entre si no meio em que vivem, com suas práticas e seus modos de agir (Ciampa, 1987; Lara Junior; Lara, 2017). Como já falamos sobre relações sociais, a sociabilização do sujeito nesses grupos proporciona o desenvolvimento de uma identidade política, um importante processo que acontece pela emancipação. A emancipação contrapõe-se às ideias essencialistas e a-históricas sobre identidade. O sujeito tem um papel importante na construção de sua identidade, em um processo contínuo e historicamente em movimento (Ciampa, 1987). Nesse sentido, é no exercício de uma identidade política que o sujeito alcança o direito de romper com as normas de poderes sociais e alcançar seus direitos e sua cidadania (Dantas, 2017). Para González Rey (2010), a identidade permite que o sujeito se posicione a todo momento em suas experiências de vida e desenvolva novas dimensões de si mesmo. Também o permite manter-se ativo nas áreas de sua vida que considera importantes (Meireles; Ferrarini, 2019). Trazemos o termo de identidade política para que possamos pensar a constituição de um sujeito que, perpassado pelas suas relações sociais na sociedade, chegue em um projeto político de identidade. Projeto que é desenvolvido pela coletividade. NA PRÁTICA Com o que foi discutido até aqui, como o(a) psicólogo(a) pode contribuir para a não produção de uma dicotomia entre sexo e gênero nas políticas públicas? Como exemplo, algumas pesquisas sobre a mulher que sofre violência doméstica e o atendimento no CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) demonstraram que não há estabelecimento de uma abordagem mais eficaz devido à falta de capacitação dos(as) profissionais(as) a respeito do tema. Dessa forma, o(a) psicólogo(a) faz parte de uma equipe multiprofissional, que geralmente inclui: um(a) coordenador(a), um(a) assistente social, um(a) psicólogo(a), um(a) advogado(a), dois/duas profissionais com ensino superior que atuem na abordagem de usuários e um(a) auxiliaradministrativo. Nesse caso, é papel do(a) psicólogo(a) atender a vítima, mas os pacientes também serão atendidos pelos(as) outros(as) profissionais. Como o(a) psicólogo(a) pode ajudar na melhoria do atendimento da equipe relacionado a esse tipo de caso? 12 FINALIZANDO Nesta aula, aprendemos alguns conceitos que podem ser úteis para a Psicologia e seus campos de atenção. Inicialmente, aprendemos sobre o sujeito, aquele(a) que está inserido em uma sociedade que tem como seu sistema o capitalismo. É um sujeito histórico e social que produz e é produzido pelas relações sociais, tanto de classe quanto de sexo/gênero. As relações sociais importantes aqui são as de sexo/gênero, que permitem que possamos analisar o sujeito e as desigualdades sociais, além de aprendermos mais sobre a sexualidade, que é um caminho possível para pensar as complexidades do ser humano. As diversidades tornam a sexualidade uma discussão amplamente contemporânea, para que se observe a relação não linear entre o sexo, gênero, identidade de gênero e orientação sexual. Estudar gênero, sexo e identidade é carregar sua historicidade política e social das relações sociais, presente nos processos de humanização. A identidade política pode ser um conceito possível para a Psicologia contribuir com a emancipação dos sujeitos das amarras dos processos de desigualdade social, de sexo/gênero, econômica e das opressões que excluem e produzem sofrimento para a população. 13 REFERÊNCIAS AMARAL, M. M. do. Dimensão subjetiva da masculinidade: significações de homens gays sobre o papel da escola no processo de constituição da masculinidade. 243 f. Dissertação (Mestrado em Educação: Psicologia da Educação) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2019. BOCK, A, M; FURTADO, O; TEIXEIRA, M. L. T. O Sujeito e a Coletividade. In: BOCK, A, M; FURTADO, O; TEIXEIRA, M. L. T. (Org.). Psicologia Fácil. São Paulo: Saraiva, 2010. CIAMPA, A. C. A estória do Severino e a história da Severina: um ensaio da Psicologia Social. São Paulo: Brasiliense; 1987. ______. Identidade. In: LANE, S. T. M.; CODO, W. (Orgs.). Psicologia Social: o homem em movimento. 13. ed. São Paulo: Brasiliense, 2009. p. 58-75. CISNE, M. Gênero: uma análise histórico-crítica em torno de suas abordagens teóricas. In: ______. Gênero: divisão sexual do trabalho e Serviço Social. São Paulo: Outras Expressões, 2012. p. 77-108. DANTAS, S. S. Identidade política e projetos de vida: Uma contribuição à teoria de Ciampa. Psicol. Soc., Belo Horizonte, v. 29, 2017. FOUCAULT, M. História da sexualidade I: A vontade de saber. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. 4. ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2017. GONZÁLEZ REY, F. Sujeito e Subjetividade: uma aproximação histórico- cultural. São Paulo: Pioneira Thompson Learning, 2003. ______. As configurações subjetivas do câncer: um estudo de casos em uma perspectiva construtivo-interpretativa. Psicol. cienc. prof., Brasília, v. 30, n. 2, p.328-345, 2010. GONZÁLEZ REY, F.; MARTÍNEZ, M. A. Subjetividade, teoria, epistemologia e método. Campinas: Editora Alínea, 2017. KERGOAT, D. A relação social de sexo da reprodução das relações sociais à sua subversão. Pro-posições, v. 13, n. 1, p. 47-59, 2002. 14 KERGOAT, D. Divisão sexual do trabalho e relações sociais de sexo. In: HIRATA, H. et al. (Orgs.). Dicionário Crítico do Feminismo. 2. ed. São Paulo: UNESP, 2009, p. 67-76. LARA JUNIOR, N.; LARA, A. P. S. Identidade: Colonização do mundo da vida e os desafios para a emancipação. Psicol. Soc., Belo Horizonte, v. 29, e170998, 2017. MATHIEU, N-C. ¿Identidad sexual/sexuada/de sexo? Tres modos de conceptualización de la relación entre sexo y género. In: CURIEL, O.; FALQUET, J. (Orgs.). El patriarcado al desnudo: Tres feministas materialistas. Buenos Aires: Brecha Lésbica, 2005. p. 130-175. ______. Sexo e Gênero. In: HIRATA, H. et al. (Orgs.). Dicionário Crítico do Feminismo. São Paulo: UNESP, 2009. p. 222-30. MEIRELES, V. H. B.; FERRARINI, N. L. Heteronormatividade e suas implicações nas subjetividades de estudantes universitários gays cisgêneros. In: II SIMPÓSIO NACIONAL DE EPISTEMOLOGIA QUALITATIVA E SUBJETIVIDADE, 2019, Brasília. Anais eletrônicos. Campinas, GALOÁ, 2019. RIAL, C.; LAGO, M. C. de S.; GROSSI, M. P. Relações sociais de sexo e relações de gênero: entrevista com Michèle Ferrand. Rev. Estud. Fem., Florianópolis, v. 13, n. 3, p. 677-690, dec. 2005. SAFFIOTI, H. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2011. SCOTT, J. Gênero: uma categoria útil para a análise histórica. Tradução de Cristine Rufino Dabate. Recife: SOS Corpo, 1988.