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UNIVERSIDADE FEDERAL DE CAMPINA GRANDE CENTRO DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES CAMPUS DE CAJAZEIRAS/PB UNIDADE ACADÊMICA DE ENFERMAGEM (UAENF) CURSO DE BACHARELADO EM ENFERMAGEM DISCIPLINA: PORTUGUÊS INSTRUMENTAL SEMESTRE: 2025.2 ANA GRAZIELE NOGUEIRA GOMES ANTHONY RODRIGUES DA SILVA JUNIO DE SOUZA SOARES NADGILA IOHANA FERREIRA ALVES YUSCA CIPRIANO BEZERRA RESUMO CRÍTICO SOBRE À OBRA A LÍNGUA DE EULÁLIA: NOVELA SOCIOLINGUÍSTICA, DE MARCOS BAGNO CAJAZEIRAS-PB 2026 O prazer devotado em resumir de forma crítica uma determinada obra nos mostra que a linguagem, por ser tão ampla e maleável, carrega consigo muitos ensinamentos. Assim, é importante compartilharmos esses saberes haja vista que o preconceito destinado à fala das pessoas, por exemplo, ainda é um dos desafios que precisamos combater enquanto profissionais em formação. Graças ao avanço das Ciências Humanas e Sociais, a área da Saúde tem recebido fortes contribuições para que possamos estabelecer um elo afetivo e respeitoso entre todas as pessoas, independente do seu nível de instrução ou letramento. Com base nesse argumento inicial, a obra A língua de Eulália: novela sociolinguística, de autoria de Marcos Bagno, se apresenta como uma das principais referências que todo estudioso sobre os fenômenos da língua(gem) precisa conhecer. O primeiro capítulo apresenta a chegada de Eulália, uma mulher simples, vinda do interior, à casa de uma família urbana e escolarizada, onde passará a trabalhar. Sua chegada causa curiosidade e estranhamento entre os moradores da casa, principalmente por seu jeito de falar, que foge da norma culta do português. Desde os primeiros diálogos, por exemplo, os personagens percebem que Eulália utiliza uma maneira de falar “diferente”, ou seja, uma variedade popular da língua pela qual é marcada por traços regionais. Esses traços, por sua vez, são considerados muitas vezes como “errados” pela gramática tradicional e, consequentemente, algumas pessoas acabam expandindo essa forma de preconceito. Essa diferença linguística chama a atenção da professora Irene, do marido e dos filhos, que passam a observar e comentar a fala da nova empregada. Este capítulo mostra o início da convivência entre Eulália e a família, destacando o contraste entre o ambiente escolarizado e urbano da casa inter-relacionado com a origem humilde e rural da personagem. A narrativa sugere, de forma sutil, que a forma de falar de Eulália será motivo de julgamento e preconceito, antecipando os debates sociolinguísticos que se desenvolverão ao longo da obra. Dessa maneira, “A chegada” funciona como uma introdução ao tema central do livro: o conflito entre a norma padrão e a língua popular, além de discutir como a linguagem revela as desigualdades sociais, culturais e educacionais. No segundo capítulo, a convivência entre Eulália e a família continua, e o foco passa a ser a reação dos personagens ao modo de falar da protagonista. A fala de Eulália desperta risos, comentários irônicos e correções constantes por parte dos membros da família, especialmente por considerarem sua linguagem “errada” ou “engraçada”. Os personagens, por sua vez, começam a comentar entre si as expressões, pronúncias e construções gramaticais usadas por Eulália, tratando-as como motivo de humor. Esses risos, no entanto, não são apenas uma brincadeira inocente, muito pelo contrário: eles revelam uma atitude de superioridade social e cultural da família em relação à empregada. A narrativa mostra que Eulália percebe, mesmo que de forma indireta, o estranhamento em relação à sua fala, mas continua se expressando naturalmente, sem se envergonhar. O contraste entre a segurança linguística da família e a posição social de Eulália evidencia como a língua pode ser usada como instrumento de julgamento e exclusão. Ao longo do capítulo, o narrador sugere que o riso é uma forma de preconceito, pois ridicularizar a maneira de falar de alguém é ridicularizar sua identidade, sua origem e sua classe social. Assim, o capítulo aprofunda o conflito introduzido, mostrando que o problema não está na língua de Eulália, mas na forma como ela é vista pelos outros. No terceiro capítulo, a família passa a refletir mais profundamente sobre a forma de falar de Eulália, e a discussão deixa de ser apenas riso ou estranhamento. Os personagens começam a questionar que tipo de língua a personagem fala e se aquilo pode ser considerado “português correto”. Nesse ínterim, a professora Irene, por ter formação acadêmica, inicia uma reflexão mais teórica sobre a linguagem, explicando que o português não é uma língua homogênea e que existem diversas maneiras de falar/expressar, dependendo da região, da classe social e do nível de escolaridade. Ela observa que a fala de Eulália representa uma variedade popular e regional do português, que segue regras próprias mesmo que não coincida com a norma padrão ensinada na escola. Durante as conversas, surgem exemplos de palavras, pronúncias e construções gramaticais usadas por Eulália e os personagens percebem que essas formas não são aleatórias, mas fazem parte de um sistema linguístico coerente. O capítulo destaca que aquilo que é considerado “erro” pela gramática tradicional pode, na verdade, ser apenas uma variação linguística. Dessa maneira, ao final do capítulo, fica claro que a linguagem de Eulália não é uma “linguagem errada”, mas uma variedade legítima do português brasileiro e que a norma padrão é apenas uma das muitas formas de falar, associada ao prestígio social e à escolarização. No quarto capítulo, a discussão sobre a língua de Eulália se torna mais séria e reflexiva. O que antes era motivo de riso passa a ser visto como um problema social e educacional. A professora Irene e os demais personagens começam a perceber que a maneira como julgam a fala de Eulália não é apenas uma questão de gosto ou correção gramatical, mas envolve preconceito e desigualdade. A narrativa mostra diálogos em que os personagens refletem sobre como a escola, os livros didáticos e a sociedade valorizam apenas a norma padrão, tratando as outras formas de falar como erradas, feias ou inferiores. Irene explica que essa postura pode causar exclusão social, pois muitas pessoas são discriminadas no trabalho, na escola e na vida cotidiana por não dominarem a variedade prestigiada da língua. Eulália, por sua vez, continua sendo o exemplo concreto dessa situação: sua fala representa milhões de brasileiros que não tiveram acesso à escolarização formal, mas que possuem uma língua completa e funcional. O capítulo, portanto, enfatiza que o problema não está na língua popular, mas na forma como ela é julgada e usada para inferiorizar as pessoas. Assim, para finalizar, o narrador deixa claro que o preconceito linguístico é um problema social sério, que reproduz desigualdades e impede a valorização da diversidade cultural e linguística do país. No quinto capítulo, a narrativa se concentra nas características da fala de Eulália, especialmente na forma simplificada com que ela constrói frases. Os personagens observam que ela, muitas vezes, não segue as regras de concordância da norma padrão, reduz flexões e usa estruturas mais diretas e econômicas. Durante os diálogos, a professora Irene explica que essa forma de falar não é desorganizada nem sem regras. Pelo contrário: trata-se de uma língua funcional e eficiente, que comunica perfeitamente o que o falante deseja dizer. Assim sendo, ela mostra que a língua popular tende a simplificar estruturas complexas da gramática tradicional, eliminando marcas consideradas desnecessárias na comunicação cotidiana. O capítulo em discussão destaca que essas simplificações não surgem por ignorância, mas são processos naturais de economia linguística, presentes em todas as línguas do mundo. O narradorreforça que a norma padrão conserva formas antigas e mais complexas, enquanto a língua falada evolui, simplifica e se adapta ao uso cotidiano. Eulália continua sendo apresentada como exemplo dessa língua “enxuta”, que funciona plenamente na comunicação, mesmo sendo vista como “errada” pela gramática normativa. O capítulo reforça, dessa forma, a ideia de que toda variedade linguística possui uma gramática própria e lógica interna. No sexto capítulo, a discussão sobre a língua de Eulália se amplia e ganha um tom social e político. Os personagens passam a refletir não apenas sobre a linguagem, mas sobre justiça social, cidadania e igualdade de oportunidades. A professora Irene conduz a conversa, mostrando que a língua está profundamente ligada ao poder e às desigualdades da sociedade. A narrativa presente neste capítulo destaca que a norma padrão é associada às classes sociais mais altas e à escolarização formal, enquanto a língua popular é associada às classes menos favorecidas. Por conseguinte, Irene argumenta que considerar apenas a norma culta como correta é uma forma de “elitismo” linguístico, que exclui grande parte da população do reconhecimento social e acadêmico. Eulália simboliza essas pessoas que falam variedades populares e são desvalorizadas por isso. O capítulo defende que todas as formas de falar devem ser respeitadas e que a escola deve ensinar a norma padrão sem desqualificar a língua materna dos alunos, tendo em vista que isso fere sua identidade e autoestima. Sendo assim, o título Liberdade, fraternidade, igualdade remete aos ideais de igualdade social, sugerindo que a democratização da linguagem é parte da luta por direitos e cidadania. O capítulo, portanto, reforça que respeitar a diversidade linguística é uma questão ética e social. No sétimo capítulo, a narrativa se concentra nas formas verbais usadas por Eulália e em como elas diferem da norma padrão. A família observa expressões como “nóis vai”, “eles fez”, “a gente vai fazê”, dentre outras, e questiona essas construções, considerando-as “erros” gramaticais. A professora Irene explica que essas formas verbais não são aleatórias, mas seguem padrões de simplificação comuns na língua falada. Ela mostra que a conjugação verbal do português padrão é muito complexa, com muitas flexões, e que a língua popular tende a reduzir essas variações, usando formas mais simples e regulares. Durante a conversa, Irene também comenta que as línguas mudam ao longo do tempo e que muitas formas consideradas “erradas” hoje podem se tornar “normais” no futuro. Ela ainda cita que o próprio português padrão já passou por mudanças históricas e que a língua falada pelo povo é um motor dessas transformações. Nesse limiar de discussão, Eulália continua sendo o exemplo vivo dessa evolução linguística, mostrando que a língua está sempre em movimento e este capítulo reforça que o uso popular dos verbos não indica ignorância, mas reflete processos naturais de mudança linguística e adaptação ao uso cotidiano. No oitavo capítulo, a atenção dos personagens se volta para a pronúncia das palavras e os sons da fala da personagem centralizadora. Eles observam como ela reduz palavras, junta sons e modifica pronúncias no cotidiano, como em expressões do tipo “pra”, “cê”, “vamo”, “pruquê”, entre outras. Novamente, a professora Irene explica que esses fenômenos são chamados de assimilação e redução fonética, processos naturais da fala em todas as línguas. Ela demonstra que, na comunicação oral, as pessoas tendem a falar mais rápido e de forma mais econômica, o que provoca mudanças nos sons das palavras. O capítulo, nesse sentido, destaca a diferença entre língua falada e língua escrita. Para tanto, Irene explica que a escrita é uma convenção mais formal e conservadora, enquanto a fala é dinâmica, espontânea e sujeita a variações. Como efeito, a família percebe que ninguém fala exatamente como escreve, nem mesmo as pessoas escolarizadas. Eulália, mais uma vez, representa a língua viva e cotidiana, mostrando que a oralidade não segue rigidamente as normas gramaticais, mas obedece a regras próprias de pronúncia e ritmo. O capítulo em questão reforça, dessa forma, que essas mudanças fonéticas não são erros, mas características naturais do funcionamento da linguagem. No nono capítulo, a narrativa se volta para a pronúncia regional e o valor afetivo da língua. Os personagens continuam observando o modo de falar de Eulália, agora prestando atenção a palavras pronunciadas de forma diferente da norma padrão, como “sodade”, “muié”, “cabra”, entre outras expressões populares e regionais. A professora Irene explica que essas pronúncias não são “erradas”, mas refletem variações regionais e históricas do português brasileiro. Ela ainda tem a preocupação em evidenciar que muitas dessas formas vêm do português antigo, de influências indígenas, africanas e de outros processos históricos de formação da língua no Brasil. Assim, a fala de Eulália carrega marcas da história e da cultura popular. O capítulo em questão enfatiza que a língua não é apenas um conjunto de regras gramaticais, mas também memória, identidade e emoção. As palavras e pronúncias expressam pertencimento a uma região, a um grupo social e a uma tradição cultural. A fala de Eulália, sob esse viés, representa não só uma variedade linguística, mas também uma forma de ver e sentir o mundo. Por sua vez, os personagens passam a perceber que julgar a pronúncia de alguém é desvalorizar sua cultura e sua identidade. Sendo assim, o capítulo reforça a ideia de que a diversidade linguística faz parte da riqueza cultural do país e deve ser respeitada. O décimo capítulo é dedicado aos personagens para conversar sobre poesia, rimas e o uso da língua na literatura e na música. Isso evidencia o caráter multifacetado da linguagem, evidenciando que existem outras maneiras de nos expressarmos além do dia a dia. Como crítica, este capítulo questiona a ideia de que apenas a linguagem culta pode ser estética, mostrando que toda forma de expressão linguística pode ser poética a partir do momento que refletimos sobre como as palavras produzem sentidos e emoções. De maneira similar, o décimo primeiro capítulo discute a relação entre língua e música, observando as variações linguísticas presentes nas letras de canções populares. O autor, dessa forma, critica a desvalorização da linguagem popular, mostrando que ela também tem valor cultural e comunicativo. O décimo segundo capítulo mostra os personagens debatendo sobre palavras difíceis e o vocabulário da língua, mostrando como algumas palavras são vistas como “estranhas” ou “complicadas”. Bagno critica a elitização do vocabulário e a ideia de que palavras difíceis indicam superioridade intelectual (ideia ainda difundida nos dias de hoje). Sendo assim, precisamos defender a comunicação sempre será o pilar fundamental que rege a nossa língua e que isso é bastante observado em Eulália. Em contrapartida, o décimo terceiro capítulo analisa frases ambíguas e a importância da organização das palavras e da pontuação na construção do sentido. Fator fundamental para conseguirmos explorar, através da reflexão de Bagno, essa outra dimensão da língua portuguesa. Durante o capítulo, o autor mostra que o sentido depende do contexto, criticando o ensino que ignora a interpretação e foca apenas em regras mecânicas e puramente gramaticais. O décimo quarto capítulo mostra os personagens discutindo a língua portuguesa antiga e as mudanças históricas do português ao longo do tempo. A figura da professora mostra-se demasiadamente importante para que todos possam compreender essa parte e desmitificar algumas concepções impregnadas que traziam consigo. Nesse sentido, o capítulo estabelece a crítica da ideia de que a língua é fixa e imutável, defendendo que ela está sempre em transformação. Além disso, o décimo quinto capítulo observaos usos populares da língua em placas e anúncios, percebendo variações e desvios da norma-padrão. Isso nos permite compreender que a linguagem está em todos os ambientes, desde aqueles mais formais ao menos formal. Para isso, Bagno critica o julgamento social sobre essas formas populares de escrita e fala, evidenciando a maneira como a sociedade muitas vezes age inconsequentemente. No décimo sexto capítulo, os personagens conversam sobre expressões populares, ditados e linguagem figurada presentes no cotidiano. A partir deste momento, conseguimos perceber que eles vão tomando consciência dos usos e das funções que a linguagem possibilita. Para finalizar, o capítulo cumpre o intuito de valorizar a cultura popular e critica a visão que considera essas expressões como inferiores. De maneira análoga, o décimo sétimo capítulo realça o debate da norma-padrão, da gramática e do ensino da língua na escola. O autor, portanto, critica o ensino tradicional que privilegia uma única variedade linguística e ignora a diversidade. No décimo oitavo capítulo, os personagens discutem a influência das línguas indígenas no português brasileiro e a identidade cultural indígena. Para isso, é necessário a crítica ao preconceito contra os povos indígenas e suas línguas. Assim, compreendemos que elas possuem o seu valor e merece o reconhecimento necessário em todas as instâncias da população brasileira. Em contrapartida, outro fator relevante no décimo nono capítulo é que observamos a importância de todos realizarmos atividades práticas, aplicando os conceitos discutidos sobre a língua em exemplos reais de acontecimento, a exemplo das próprias vivências da personagem Eulália. No vigésimo capítulo, os personagens refletem sobre o aprendizado e a importância de mudar a forma de ensinar a língua. Por sua vez, Bagno critica o modelo educacional tradicional e propõe uma educação linguística mais inclusiva para que todos possam tomar consciência de seus atos enquanto falantes. Assim, aliado ao que foi exposto nessa parte da narrativa e para caminhar para às conclusões finais, o livro termina com a despedida dos personagens, simbolizando o encerramento da discussão sobre a língua e ao respeito as variações linguísticas, assim, Bagno sugere que o aprendizado da língua é contínuo, criticando a ideia de conhecimento fechado e definitivo. Mediante todas as críticas elencadas durante à obra, é pertinente julgar como altamente recomendável à leitura do livro de Marcos Bagno, haja vista que o autor oferece uma reflexão ampliada dos fenômenos da variação, da interação e da subjetividade que cada falante do português brasileiro possui. REFERÊNCIA BAGNO, M. A língua de Eulália: novela sociolinguística. 10. ed. São Paulo: Contexto, 2001.