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32 Aula 07 – Ato Administrativo 1) Elementos a) Sujeito “Sujeito é aquele a quem a lei atribui competência para a prática do ato.” Funcionários públicos da adm direta e indireta e particulares, mediante delegação. DIREITO CIVIL: SUJEITO DEVE TER CAPACIDADE DIREITO ADMINISTRATIVO: SUJEITO DEVE TER COMPETÊNCIA (conjunto de atribuições definidas em lei). b) Objeto “Objeto ou conteúdo é o efeito jurídico imediato que o ato produz.” Deve ser: Lícito: conforme à lei Possível: realizável no mundo dos fatos e do direito Certo: definido quanto ao destinatário, aos efeitos, ao tempo e ao lugar Moral: em consonância com os padrões comuns de comportamento, aceitos como corretos, justos, éticos. c) Forma “exteriorização do ato, ou seja, o modo pelo qual a declaração se exterioriza; nesse sentido, fala- se que o ato pode ter a forma escrita ou verbal, de decreto, portaria, resolução etc.;” Há também “uma concepção ampla, que inclui no conceito de forma, não só a exteriorização do ato, mas também todas as formalidades que devem ser observadas durante o processo de formação da vontade da Administração, e até os requisitos concernentes à publicidade do ato..” DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. d) Fim ou Finalidade “é o resultado que a Administração quer alcançar com a prática do ato. (...) A finalidade do ato administrativo é sempre a que decorre explícita ou implicitamente da lei.” e) Motivo “pressuposto de fato e de direito que serve de fundamento ao ato administrativo.” 2) Conceito Diferentemente dos contratos administrativos, os atos administrativos são unilaterais e dependem apenas da vontade da administração pública ou dos particulares que estejam exercendo prerrogativas públicas. Além disso, eles têm o condão de gerar efeitos jurídicos, independentemente de qualquer interpelação. Mas estão sujeitos ao controle do Poder Judiciário. Eles também possuem como finalidade o interesse público e se sujeitam ao regime jurídico de direito público. Diferente de um contrato administrativo, que é bilateral. Silêncio administrativo é quando a administração pública é omissa. É um “nada” jurídico, não deveria existir. Somente vai produzir efeitos se esses efeitos estiverem previstos em lei. Ex.: No DF, ao abrir um comércio, pede um alvará. A Adm pública tem um prazo para fazer a vistoria no local e falar se está ok ou não para exercer as atividades. A lei fala que, se não for feito em tantos dias, considera-se ok. Precisa estar determinado em lei. Ele produz efeitos automáticos de concordância? Não, somente se estiverem escritos na lei. 3) Espécies Atos podem ser administrativos, legislativos e judiciais (exercícios da jurisdição). Mesmo que o legislativo e judiciário pratiquem atos próprios, são também atos administrativos. Podem emanar atos administrativos na sua função dentro daquele órgão. Estão submetidos ao regime jurídico de direito público / administração pública. 33 Caso 1 Guarda de trânsito identifica um motorista que avançou o sinal de trânsito vermelho e aplica-lhe uma multa com fundamento no art. 208 do Código de Trânsito Brasileiro. Ato unitaleral Caso 2 Fiscal da Receita Federal identifica que a empresa ABC deixou de emitir notas fiscais referente a vendas de produtos e arbitra o valor de impostos e contribuições devidas, lavra um auto de infração (Código Tributário Nacional art. 148) e notifica o contribuinte. Caso 3 O Prefeito do Município XYZ resolve desapropriar um terreno para construir um posto de saúde e escolhe o imóvel de um desafeto político, como vingança. Caso 4 O servidor público José da Silva, conhecido pelo apelido de “Molezinha”, por sua constante baixa de produtividade, foi transferido pelo Secretário de saúde do Município para a unidade de atendimento de Marsilac para “atrapalhar menos o trabalho”. 4) Atributos ou características dos atos administrativos Presunção de legitimidade e veracidade: A presunção de legitimidade significa que os atos foram realizados em conformidade com a lei. Já a presunção de veracidade significa que os atos, por serem alegados pela administração, presumem-se verdadeiros. Logo, isso significa que para gerar celeridade aos processos, os atos produzirão efeitos e são válidos até que se prove o contrário. Imperatividade: A imperatividade traz a possibilidade de os atos administrativos serem impostos a terceiros independentemente da concordância destes. Mas não são todos os atos administrativos que são dotados deste atributo. Autoexecutoriedade: significa que o ato pode ser executado independentemente de ordem judicial. Mas não confunda! Isso não significa que não pode haver controle judicial do ato. Este atributo só poderá estar presente diante de lei ou em casos urgentes. Tipicidade: Já a tipicidade prevê que o ato administrativo deve estar definido em lei para que se torne apto para produzir determinados resultados. Legitimidade: A presunção de legitimidade é um atributo previsto em todo ato administrativo, assim como a tipicidade. Já a imperatividade e a autoexecutoriedade estão previstos em alguns deles. Código Tributário Nacional: “Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível.” LEITE — Mnemônico para os atributos dos atos administrativos Letra Atributo Significado L Legalidade Presumida Todo ato é presumido legal e verdadeiro até prova em contrário E Exigibilidade O ato administrativo pode ser exigido e cumprido pelo interessado I Imperatividade O ato se impõe ao particular, mesmo sem sua concordância T Tipicidade O ato administrativo deve estar previsto em lei, com tipificação das suas espécies e características. E Executoriedade O ato administrativo pode ser executado administrativamente, ou seja, a administração pode garantir o seu cumprimento mesmo contra a vontade do destinatário. 34 Quizz O Prefeito da cidade de Caixaprego expede um decreto em que avoca para si as atribuições de secretário de finanças para movimentar as contas bancárias do município, contrariando a Legislação municipal. Em seguida, emite um cheque em nome da Prefeitura. Você orientaria o gerente da agência a pagar o cheque? Não orientaria o gerente da agência a efetuar o pagamento do cheque emitido pelo Prefeito. Isso porque a avocação das atribuições do Secretário de Finanças por meio de decreto contraria a legislação municipal e configura vício de competência, resultando na nulidade do ato administrativo. Na Administração Pública, a competência é regra legal e, salvo disposição expressa, não pode ser transferida ou assumida por conveniência, sob pena de excesso de poder. A emissão do cheque, como ato subsequente, também é nulo de pleno direito, sendo inaplicável a presunção de legitimidade dos atos administrativos neste caso. Em respeito ao princípio da legalidade (CF, art. 37), que exige estrita observância da norma legal, o gerente deve se recusar a efetuar o pagamento e comunicar imediatamente a irregularidade ao setor jurídico do município, bem como, se necessário, ao Ministério Público ou ao Tribunal de Contas, a fim de evitar corresponsabilização por eventual dano ao erário. 5) Competência Poder legal conferido ao agente para desempenhar as atribuições. Então, de forma mais informal, seria o sujeito da realização do ato. Elementos vinculados são aqueles previstos em lei, então, a competência é um elemento vinculado. Se é a lei que define a competência, será que esta pode ser transferida? A titularidade da competência é intransferível, mas o exercício de parte das atribuições pode ser transferido em caráter temporário. E o meio de realizar essa transferênciaé por delegação ou por avocação. A delegação é a atribuição para terceiro, com ou sem hierarquia, do exercício de atribuição do delegante. Pode ser realizada, exceto se houver vedação legal. Por exemplo, não pode haver delegação de: ato de competência exclusiva, atos normativos e recursos administrativos. Já a avocação é atrair para si competência de subordinado. Logo, existe hierarquia. Além disso, em regra, não pode ser realizado, exceto se for excepcional, por motivos relevantes e justificados e for temporária. 6) Finalidade A finalidade geral do ato administrativo é satisfazer ao interesse público. Já a finalidade específica, por sua vez, é aquela que a lei elegeu para o ato em específico. Como não se concebe que o ato não satisfaça ao interesse público ou da finalidade prevista em lei, é um elemento vinculado. 7) Forma A forma é o modo de exteriorização do ato, a maneira de se manifestar no mundo externo. Por exemplo, o edital é a forma de se tornar pública a realização do concurso público. Em sentido amplo, também se incluem como forma as exigências procedimentais para realização do ato. Já que as formalidades estão previstas em lei e devem ser seguidas, também se considera a forma como elemento vinculado dos atos administrativos. 8) Motivo É a situação de fato e de direito que gera a vontade do agente que pratica o ato. Mas não o confunda com motivação, já que esta é definida como a exposição desse motivo. Logo, todo ato deve ter um motivo, mas nem todo ato precisa da exposição dele. Por exemplo, a exoneração de 35 ocupante de cargo de provimento em comissão não precisa de motivação, mas precisa de motivo. Vale ressaltar também que a teoria dos motivos determinantes afirma que uma vez motivado o ato, o motivo se vincula a ele. Então em caso de inexistente ou falho, o ato é nulo, independentemente de a motivação ser obrigatória ou não. 9) Objeto/conteúdo Considerando que a finalidade é o resultado mediato desejado para o ato, considera-se que o objeto é o fim imediato do ato. Assim sendo, representa o resultado prático a que determinado ato administrativo conduz. 10) Classificação a) Quanto ao conteúdo Autorização Licença Permissão Admissão Aprovação Homologação Parecer Visto Segundo Hely Lopes Meirelles Negociais Normativos Enunciativos Ordinatórios Punitivos b) Quanto à forma Decreto Resolução e portaria Circular Despacho Alvará 11) Nulidade Planos Existência: reúne os elementos essenciais – Ato imperfeito ainda não é existente. Validade: conformidade com o direito vigente Eficácia: capaz de produzir efeitos jurídicos – Ato pendente não é eficaz. Nulidade ou anulabilidade? “(...) em Direito Público não há lugar para os atos anuláveis(...). Isto porque a nulidade (absoluta) e a anulabilidade (relativa) assentam, respectivamente, na ocorrência do interesse público e do interesse privado na manutenção ou eliminação do ato irregular. Quando o ato é de exclusivo interesse dos particulares o que só ocorre no Direito Privado embora ilegítimo ou ilegal, pode ser mantido ou invalidado segundo o desejo das partes; quando é de interesse público e tais são todos os atos administrativos sua legalidade impõe-se como condição de validade e eficácia do ato, não se admitindo o arbítrio dos interessados para sua manutenção ou invalidação, porque isto ofenderia a exigência de legitimidade da atuação pública.” 36 12) Vícios dos atos administrativos O vício mais conhecido de competência é o excesso de poder. O sujeito tem a competência legal para prática de alguns atos, mas excede os limites dessa competência. Ainda assim é possível a convalidação do ato, se a autoridade competente ratificar o ato da autoridade incompetente. Entretanto não é possível a convalidação no caso de competência exclusiva. Já o vício principal da finalidade é o desvio de poder. É quando o ato não atende a finalidade do interesse público, e muitas vezes atende a necessidades particulares. Os dois vícios vistos acima, o excesso de poder e o desvio de poder, são espécies do Gênero abuso de poder. Para não haver confusão: a) Sujeito Vícios de Incompetência: falta de atribuição legal de competência Usurpação de função: a pessoa não foi investida no cargo; Excesso de poder: o agente excede os limites de sua competência; Função de fato: “o agente está investido irregularmente no cargo, emprego ou função, mas apresenta aparência de legalidade.” Incapacidade: vício no exercício da competência Direito Civil (arts. 3º e 4º do CC e nos casos de erro, dolo, coação, simulação ou fraude). Impedimento (art. 18 LPA) interesse do agente na matéria; Suspeição (art. 20 LPA) amizade íntima ou inimizade notória com interessados DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. 30ª ed. Direito administrativo. Rio de Janeiro: Forense, 2016. p. 246 b) Objeto Proibido por lei Diverso do previsto em lei Impossível Imoral Incerto DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. 30ª ed. Direito administrativo. Rio de Janeiro: Forense, 2016. p. 286-287 c) Forma “O vício de forma consiste na omissão ou na observância incompleta ou irregular de formalidades indispensáveis à existência ou seriedade do ato” Lei nº 4.717/1965 – Lei da Ação Popular – art. 2º, p.u., “b”. d) Finalidade Desvio de Poder ou de Finalidade: “... o agente pratica o ato visando a fim diverso daquele previsto, explícita ou implicitamente, na regra de competência”. Lei nº 4.717/1965 – Lei da Ação Popular – art. 2º, p.u., “b”. “Ocorre desvio de poder, e, portanto, invalidade, quando o agente se serve de um ato para satisfazer finalidade alheia à natureza do ato utilizado.” BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de direito administrativo. 33ª ed. São Paulo: Malheiros, 2016. p. 418. 37 “Verifica-se, então, o desvio de poder, que consiste num afastamento do espírito da lei, ou seja, numa aberratio finis legis. O desvio de poder, base para anulação dos atos administrativos que nele incidem, difere dos outros casos, porque não se trata aqui de apreciar objetivamente a conformidade ou não-conformidade de um ato com uma regra de direito, mas de proceder-se a uma dupla investigação de intenções subjetivas: é preciso indagar se os móveis que inspiraram o autor dum ato administrativo são aqueles que, segundo a intenção do legislador, deveriam, realmente, inspirá-lo.” e) Motivo Inexistência ou falsidade dos motivos: “... quando a matéria de fato ou de direito, em que se fundamenta o ato, é materialmente inexistente ou juridicamente inadequada ao resultado obtido”. Lei nº 4.717/1965 – Lei da Ação Popular – art. 2º, p.u., “d”. Teoria dos motivos determinantes: “a validade do ato se vincula aos motivos indicados como seu fundamento, de tal modo que, se inexistentes ou falsos, implicam a sua nulidade. Por outras palavras, quando a Administração motiva o ato, mesmo que a lei não exija a motivação, ele só será válido se os motivos forem verdadeiros.” DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo. 31. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2018. p. 244. f) Convalidação Convalidação é “o refazimento de modo válido e com efeitos retroativos do que fora produzido de modo inválido.” Tipo de Vício Pode ser convalidado? Explicação Exemplo Prático Competência (não exclusiva) ✅ Sim Quando outro agente poderia ter praticado o ato se tivesse autorização legal. Ato assinado por servidor de setor errado, mas validado pelo chefe competente. Forma (não essencial) ✅ Sim Quando a forma não for exigência legal indispensável para a validade do ato. Publicação em mural interno em vez de diário oficial, mas sem prejuízo a ninguém. Motivação ausente ⚠ Depende Pode ser suprida se os motivos puderem ser comprovados posteriormente, sem má-fé. Multa sem motivação escrita, mas com provas que justificam o ato. Finalidade (desvio de finalidade) ❌ Não Ato feito para fim diverso do previsto em lei. Transferir servidorpor perseguição política. Objeto ilícito ❌ Não Quando o conteúdo do ato contraria a lei ou é impossível. Nomear menor de idade para cargo público. Incompetência exclusiva ❌ Não Quando apenas uma autoridade específica pode praticar o ato. Presidente nomeando juiz, ato exclusivo do poder judiciário. STJ DIREITO ADMINISTRATIVO. CONVALIDAÇÃO DE VÍCIO DE COMPETÊNCIA EM PROCESSO LICITATÓRIO. Não deve ser reconhecida a nulidade em processo licitatório na hipótese em que, a despeito de recurso administrativo ter sido julgado por autoridade incompetente, tenha havido a posterior homologação de todo o certame pela autoridade competente. Isso porque o julgamento de recurso por autoridade incompetente não é, por si só, bastante para acarretar a nulidade do ato e dos demais subsequentes, tendo em vista o saneamento da irregularidade por meio da homologação do procedimento licitatório pela autoridade competente. Com efeito, o ato de homologação supõe prévia e detalhada análise de todo o procedimento, atestando a legalidade dos atos praticados, bem como a conveniência de ser mantida a licitação. Ademais, o vício relativo ao sujeito — competência — pode ser convalidado pela autoridade superior quando não se tratar de competência exclusiva. REsp 1.348.472-RS, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 21/5/2013. 38 TCU Em relação à proposta de nulidade do certame, muito embora a Administração Pública possa declarar a nulidade dos seus próprios atos, essa medida somente deve ser tomada quando for a mais consentânea ao interesse público. Vezes há, porém, em que a convalidação do ato atende melhor à administração e aos administrados. Não por outra razão que a Lei 9.784/99 admite expressamente a possibilidade de convalidação dos atos administrativos que apresentarem defeitos sanáveis. TCU. Plenário. Acórdão 966/2012. Rel. Min. Walton Alencar Rodrigues. J. 25.04.2012. 13) Extinção A extinção de um ato administrativo ocorre quando ele perde sua eficácia, deixando de produzir efeitos jurídicos. Isso pode se dar naturalmente (pela fluência do tempo ou cumprimento dos efeitos) ou por intervenção da Administração ou do administrado. a) Extinção Natural do Ato Administrativo São formas de extinção que ocorrem sem a necessidade de interferência posterior da Administração: Tipo Explicação Exemplo prático Esgotamento do conteúdo jurídico O ato cumpre totalmente seus efeitos dentro do prazo previsto. Alvará temporário para funcionamento de barraca em festa de rua. Execução material O ato tem por finalidade uma providência concreta, que, uma vez realizada, o extingue. Determinação para retirada de entulho de calçada. Implemento de condição ou termo final Ato perde validade pelo decurso de prazo (termo) ou pelo ocorrer de condição resolutiva. Termo: contrato com vigência de 1 ano. Condição: autorização válida até mudança de endereço. a) Extinção pelo Desaparecimento do Objeto ou Sujeito Ocorre quando falta um dos elementos essenciais para a continuidade dos efeitos do ato: Situação Explicação Exemplo prático Desaparecimento do sujeito A pessoa sobre a qual recai o ato deixa de existir. Falecimento de beneficiário de pensão extingue o direito. Desaparecimento do objeto A coisa ou situação jurídica deixa de existir. Autorização para uso de imóvel extinta após destruição por incêndio. 39 c) Extinção pela Retirada do Ato Administrativo É a forma de extinção em que a própria Administração retira o ato de forma ativa, por razões legais ou de conveniência. Tipo de Retirada Efeitos Fundamento jurídico Exemplo prático Anulação Retroativos (ex tunc) Ilegalidade do ato Nomeação feita por servidor incompetente é anulada. Revogação Prospectivos (ex nunc) Inoportunidade ou inconveniência Licença para evento cancelada por mudança na política pública. Cassação Prospectivos (ex nunc) Descumprimento das condições pelo beneficiário Cassação de alvará de funcionamento por violar normas sanitárias. Caducidade Prospectivos (ex nunc) Superveniência de norma legal incompatível Licença válida deixa de produzir efeitos após nova lei proibir determinada prática. Contraposição ou derrubada Prospectivos (ex nunc) Edição de novo ato com efeitos opostos Portaria que revoga outra anterior com orientação divergente. d) Extinção por Renúncia do Beneficiário Tipo Efeitos Explicação Exemplo prático Renúncia Ex nunc (não retroage) O particular abre mão dos efeitos favoráveis de um ato administrativo. Comerciante devolve espontaneamente o alvará de funcionamento. 40 Aula 08: Processo Administrativo 1) Introdução Como alguém forma uma convicção sobre um evento? A convicção jurídica é formada pela análise dos elementos disponíveis no processo: provas, fatos, argumentos, normas aplicáveis e a interpretação feita pela autoridade competente. A subjetividade pode influenciar, mas no Direito, busca-se a objetividade e a razoabilidade da conclusão. Existe uma verdade absoluta? No campo jurídico, fala-se mais em "verdade processual" do que em verdade absoluta. A verdade processual é aquela que se constrói por meio da produção de provas dentro do procedimento legal, com observância ao contraditório e à ampla defesa. A influência da organização das ideias A forma como os argumentos são organizados influencia diretamente a persuasão e clareza do raciocínio jurídico. Uma argumentação bem estruturada facilita a compreensão e pode ser determinante para a formação de convicção por parte do julgador. O que é algo verdadeiro? É aquilo que corresponde aos fatos e é comprovado com elementos objetivos, dentro dos critérios legais. No Direito Administrativo, busca-se apurar essa verdade com observância ao devido processo legal e aos princípios constitucionais. 2) Conceitos Nomenclatura Processo: refere-se à sucessão formal de atos no âmbito do Poder Judiciário. Procedimento: designa a sucessão ordenada de atos no âmbito da Administração Pública. A doutrina, como Celso Antônio Bandeira de Mello, destaca que os termos não devem ser fonte de controvérsia. Em sentido técnico, "processo" pode ser usado para a sequência ordenada com finalidade decisória, enquanto "procedimento" se refere à forma, ao rito pelo qual o processo se desenvolve. 3) Características Sequência de atos: Os atos administrativos são praticados em uma ordem lógica e encadeada. Finalidade: Todos visam à prática de um ato final que resolva a situação. Autonomia funcional: Cada ato possui função própria, mesmo fazendo parte do todo. 4) Princípios do Processo Administrativo Princípios Gerais Aplicam-se ao processo administrativo os princípios do Direito Administrativo em geral, como: Legalidade: a atuação da Administração deve estar conforme a lei. Impessoalidade: proibição de favorecimento pessoal. Moralidade: ética na atuação administrativa. Publicidade: transparência dos atos. Eficiência: busca pelo melhor resultado com menor custo. Ampla defesa e contraditório: direito de o administrado participar e responder no processo. a) Oficialidade O princípio da oficialidade ou impulso oficial determina que a Administração deve promover o andamento do processo por sua própria iniciativa. Não depende exclusivamente da parte interessada. 41 b) Obediência às Formas Embora o processo administrativo deva prezar por formas simples e econômicas, há a exigência de respeito às formalidades essenciais que garantam os direitos do administrado. A forma escrita é a regra, salvo previsão legal em contrário. c) Gratuidade Prevê-se a gratuidade como regra geral nos processos administrativos, exceto quando a lei estabelecer cobrança. O direito de petição e de obtenção de certidões também é assegurado sem cobrança de taxas. d) Vedação de Depósito Prévio Não pode haver exigência de pagamento prévio de valores como condição para interposiçãode recurso administrativo, exceto se houver disposição legal. Tal prática é vedada por súmulas do STF e STJ. e) Tipicidade Em regra, a Administração só pode aplicar sanções previstas em lei (tipicidade). Contudo, quando há relação de sujeição especial, como em casos disciplinares, pode haver certa flexibilidade. f) Participação Popular Prevê mecanismos de participação direta dos administrados na formação de decisões administrativas, como: Consulta pública (facultativa) Audiência pública (determinada pelo caso) Participação individual ou por associações no processo 5) Recursos Administrativos Conceito São instrumentos pelos quais o administrado pode requerer a revisão de atos administrativos, dentro da própria Administração Pública, antes de recorrer ao Judiciário. a) Base Legal A legislação sobre recursos administrativos é descentralizada. Cada ente federativo pode editar normas específicas. A Lei nº 9.784/1999 rege os processos federais. b) RAC é Recurso Administrativo? Sim, a Reclamação ao STF contra ato administrativo que desrespeite súmula vinculante é considerada um instrumento de controle com natureza recursal atípica. c) Classificações Incidental: ocorre no curso de outro processo. Autônomo: tem vida própria, inicia novo processo. Hierárquico próprio: dentro do mesmo órgão ou estrutura. Hierárquico impróprio: dirigido a outro ente, com previsão legal específica. d) Exaustão das Instâncias Via de regra, não é necessário exaurir todas as instâncias administrativas para se recorrer ao Judiciário. Há exceções constitucionais e legais (ex.: Justiça Desportiva). e) Direito a Recorrer O direito de recorrer está vinculado ao direito de ampla defesa e contraditório, garantido constitucionalmente (art. 5º, LV). 42 f) Reformatio in Pejus A reformatio in pejus (reforma para pior) é admitida somente se o recorrente for previamente intimado e puder apresentar defesa. É vedada em revisões. g) Legitimidade Podem recorrer: Partes interessadas diretas ou indiretamente afetadas Associações Cidadãos, quando envolver interesse difuso h) Prazos Os prazos variam conforme a lei específica. A Lei nº 9.784/99 prevê 10 dias. Outros exemplos: licitações (3 dias úteis), defesa da concorrência (15 dias corridos). 6) Interposição O recurso é apresentado à autoridade que proferiu a decisão. Esta pode reconsiderar no prazo de 5 dias ou encaminhar à autoridade superior. 7) Efeitos O recurso não tem efeito suspensivo, salvo se houver justo receio de dano irreparável. Pode ser concedido efeito suspensivo pela autoridade competente. 8) Não conhecimento O recurso pode não ser conhecido se for intempestivo, apresentado por parte ilegítima, a órgão incompetente ou após esgotamento das instâncias. Ainda assim, a Administração pode rever de ofício o ato ilegal, desde que não haja preclusão. 9) Decadência e Prescrição Decadência Prazo de 5 anos para a Administração anular atos que beneficiam o particular, salvo se houver má-fé. (Lei nº 9.784/99, art. 54) A regra geral do prazo prescricional para a punição administrativa de demissão é de cinco anos, nos termos do art. 142, I, da Lei n. 8.112/90, entre o conhecimento do fato e a instauração do processo administrativo disciplinar, SALVO constatada má-fé. a) Quando a Infração também é Crime Quando o servidor público comete infração disciplinar também tipificada como crime, somente se aplicará o prazo prescricional da legislação penal se os fatos também forem apurados em ação penal.” STJ. MS 15.462/DF. 1ª Seção. Rel. Min. Humberto Martins. J. 14.03.2011 10) Processo Administrativo Disciplinar (PAD) Noções Aberto quando um servidor comete uma infração funcional. Informado pelo princípio da adequação punitiva ou da sanção adequada. Tem como fundamento a hierarquia administrativa. Sempre formal., garantindo defesa ampla e contraditório. Base Legal Constituição Federal (art. 41, §1º, II) e Lei nº 8.112/90. Cada ente pode regulamentar o PAD segundo sua legislação. 43 A Constituição Federal, em seu artigo 41, §1º, inciso II, estabelece que o servidor público estável somente poderá perder o cargo por meio de processo administrativo disciplinar, assegurada a ampla defesa. Isso significa que, uma vez adquirida a estabilidade, o servidor não pode ser demitido de forma arbitrária, sendo indispensável a instauração de um procedimento formal que respeite os princípios do contraditório e da ampla defesa, nos moldes do devido processo legal. No âmbito federal, esse processo disciplinar é regulamentado pela Lei nº 8.112/1990, que dispõe sobre o regime jurídico dos servidores públicos civis da União. Essa norma detalha as hipóteses de infração, os prazos, as competências, os trâmites do processo, as penalidades possíveis e os direitos do acusado. Contudo, é importante destacar que a Lei nº 8.112/90 se aplica exclusivamente aos servidores da administração pública federal direta, autárquica e fundacional. Cada ente da federação — Estados, Distrito Federal e Municípios — possui autonomia para estabelecer suas próprias normas e estatutos, que regulam o processo administrativo disciplinar no âmbito de sua respectiva esfera de governo. Embora as regras específicas possam variar de um ente federativo para outro, todos devem observar os princípios constitucionais que regem a administração pública e o devido processo legal. Assim, ainda que os procedimentos e prazos possam ser diferentes, a essência garantidora da ampla defesa e do contraditório deve ser preservada em qualquer processo que possa resultar na perda do cargo por servidor estável. Abertura Súmula 611 do STJ. “Desde que devidamente motivada e com amparo em investigação ou sindicância, é permitida a instauração de processo administrativo disciplinar com base em denúncia anônima, em face do poder-dever de autotutela imposto à administração.” Sindicância Preliminar: Apuração inicial dos fatos e de autoria. Não há contraditório. Acusatória: Apenas para casos de advertência e suspensão até 30 dias. Contraditório e ampla defesa. Patrimonial: investiga crescimento patrimonial incompatível Resp 509.318/PR: “1. A sindicância, quando instaurada com caráter punitivo e não meramente investigatório ou preparatório de um processo disciplinar, tem natureza de verdadeiro processo disciplinar principal, no qual é indispensável a observância das garantias do contraditório e da ampla defesa e, além disso, do princípio da impessoalidade e da imparcialidade, mediante a convocação de uma comissão disciplinar composta por três servidores.” STJ. Resp 509.318. 6ª T. Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j. 17.02.2009. Verdade Sabida É a noção de que a autoridade pode aplicar penalidade com base no seu conhecimento direto da infração. Está superada pela exigência de contraditório e ampla defesa (art. 5º, LV, CF). Processo Administrativo Disciplinar Ordinário O Processo Administrativo Disciplinar Ordinário é um rito formal utilizado para apurar infração funcional grave praticada por servidor público estável, podendo culminar em penalidades severas, como demissão, cassação de aposentadoria ou destituição de cargo em comissão. A sua condução deve observar o devido processo legal, garantindo ao servidor o contraditório e a ampla defesa (CF/88, art. 5º, incisos LIV e LV). É conduzido por uma comissão formada por três servidores estáveis, com um deles ocupando a presidência dos trabalhos. 44 Fases do PAD Ordinário Instauração Ato formal da autoridade competente (normalmente o dirigente máximo do órgão) que determina a abertura do PAD por meio de Portaria, nomeando a comissão processante. Exemplo prático: Um servidor é denunciado por usar indevidamente veículos oficiais para fins pessoais. O diretor do órgão instaura o PAD por Portaria e nomeia três servidores estáveis para a comissão. Inquérito É a fase destinada à apuração dos fatos, oitiva de testemunhas,reunião de provas documentais, interrogatório do acusado, entre outros atos instrutórios. Essa etapa estrutura o processo como um verdadeiro "inquérito administrativo". Exemplo prático: Testemunhas são ouvidas, o GPS do carro oficial é analisado e documentos são juntados comprovando que o servidor usou o carro em horários incompatíveis com sua função. Instrução Pode ser considerada parte do inquérito ou sua fase final. Trata-se da complementação da coleta de provas, confronto de testemunhos e análise final dos dados colhidos. É também onde o acusado pode ser interrogado formalmente. Exemplo prático: O servidor é interrogado pela comissão e nega ter cometido qualquer irregularidade, afirmando que tinha autorização verbal. Não apresenta prova documental disso. Defesa O servidor é citado formalmente e tem assegurado prazo (em regra, 10 dias prorrogáveis) para apresentar sua defesa escrita, podendo ser assistido por advogado. Exemplo prático: O servidor apresenta defesa alegando desconhecimento da norma que proíbe o uso do carro para fins pessoais e junta fotos para tentar demonstrar que estava a trabalho. Relatório A comissão elabora um relatório conclusivo, fundamentado nos elementos de prova e na defesa apresentada, sugerindo a aplicação ou não de penalidade. Esse relatório não vincula a autoridade julgadora, mas orienta sua decisão. Exemplo prático: A comissão conclui que houve infração ao dever funcional de zelo pelo patrimônio público e sugere suspensão por 30 dias. Julgamento A autoridade competente analisa o relatório e profere decisão final. Pode acolher ou divergir da recomendação da comissão, desde que fundamente sua decisão. Exemplo prático: A autoridade superior entende que houve má-fé e reiteração da conduta, desconsidera a sugestão de suspensão e aplica a pena de demissão. SV 5 do STF: defesa técnica por advogado não é obrigatória, salvo previsão legal.