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Conteudista: Dr. Carlos Eduardo de Oliveira Garcia Objetivos da Unidade: Identificar os principais conceitos e fatores que interferem na estruturação e no planejamento de projetos. Analisar os principais fatores que interferem na redação, implementação e na conclusão de projeto. 📄 Material Teórico 📄 Referências Gestão, Licenciamento e Legislação Ambiental Página 1 de 2 📄 Material Teórico A Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo em 1972, é amplamente reconhecida como o marco fundador da governança ambiental moderna. Segundo vários autores inclusive Sachs (1993), Estocolmo representou "o momento em que o mundo percebeu que o crescimento econômico ilimitado estava produzindo efeitos deletérios sobre a vida humana e os ecossistemas". Nesse sentido, Estocolmo consolidou princípios e diretrizes que influenciaram legislações nacionais ao redor do mundo, especialmente no que diz respeito ao controle prévio de atividades poluidoras, ao planejamento ambiental e à integração entre desenvolvimento e proteção ecológica. Foram organizados e redigidos 26 princípios na Declaração de Estocolmo (ONU, 1972), entre os mais influentes para o Brasil estão: Princípio 1: o ser humano tem direito a condições de vida adequadas e a um meio ambiente saudável; Princípio 6: os Estados devem prevenir a poluição e adotar políticas de gestão de riscos; Princípio 17: necessidade de planejamento ambiental; Princípio 19: importância da pesquisa científica para decisões ambientais; Princípio 20: papel da educação ambiental; Princípios 22–24: cooperação internacional e responsabilidade compartilhada. De acordo com Kiss e Shelton (2004), esses princípios formaram “a base ética e jurídica do moderno Direito Ambiental internacional”. Podemos dizer que no Brasil, a Conferência de Estocolmo modulou o Direito Ambiental moderno, influenciou e impulsionou a criação de instituições ambientais como as Secretarias de Estado do Meio Ambiente (SEMA), a formulação da Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA-Lei nº 6.938/1981) e, sobretudo, a implantação do licenciamento ambiental como instrumento obrigatório de controle de atividades potencialmente poluidoras. A Constituição de 1988 representa o auge da incorporação do Direito Ambiental ao ordenamento jurídico brasileiro. Em seu art. 225, estabelece: BRASIL, 1988 A temática ambiental, desde a segunda metade do século XX, consolidou-se como uma das mais relevantes agendas globais, sobretudo após a intensificação da industrialização e dos impactos socioambientais decorrentes do crescimento “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado […] incumbindo ao Poder Público exigir, na forma da lei, estudo prévio de impacto ambiental para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação ambiental.” econômico acelerado. No âmbito jurídico e institucional, a ampliação dos marcos regulatórios ambientais ocorreu paralelamente à evolução de instrumentos de gestão que buscavam integrar eficiência produtiva, conservação ambiental e responsabilidade social. No Brasil, dois pilares estruturantes se destacam nesse processo: o Licenciamento Ambiental – instrumento central da Política Nacional do Meio Ambiente – e os Sistemas de Gestão Ambiental (SGA), cuja referência internacional mais difundida é a norma ISO 14001. Ambos os instrumentos, embora pertencentes a esferas distintas – um de natureza jurídico-administrativa pública e outro de natureza voluntária, vinculada à gestão organizacional – convergem na promoção da melhoria contínua do desempenho ambiental, da prevenção de impactos e da integração entre atividade produtiva e conservação. A compreensão de suas inter-relações, fundamentos históricos e aplicabilidade prática constitui etapa essencial para análises em políticas públicas, conservação ambiental, gestão empresarial e estudos interdisciplinares sobre sustentabilidade. A Lei, denominada Lei Geral do Licenciamento Ambiental, estabelece normas gerais para o licenciamento de atividade ou de empreendimento utilizador de recursos ambientais, efetiva ou potencialmente poluidor ou capaz, sob qualquer forma, de causar degradação do meio ambiente, previsto no art. 10 da Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981. Paralelamente, a disseminação de sistemas de gestão, destacamos o desenvolvimento do conjunto de normas técnicas elaboradas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) para padronizar e garantir a qualidade, segurança e eficiência de produtos, serviços e processos no Brasil, na área ambiental destacamos a ABNT NBR ISO 14001, uma norma internacional que especifica os requisitos para um Sistema de Gestão Ambiental (SGA), permite que organizações internalizem práticas sistematizadas de controle e melhoria de desempenho ambiental. A relação entre esses instrumentos consolida um modelo de governança ambiental contemporâneo, preventivo, integrado e coerente com os desafios da sustentabilidade e da gestão eficiente dos recursos naturais. Dessa forma podemos evidenciar que nos anos finais do séc. XX o avanço dos instrumentos internacionais (Estocolmo, Relatório Brundtland, Eco-92, Agenda 21) contribuíram para a implantação e o fortalecimento da legislação ambiental brasileira quanto para a incorporação de práticas de gestão ambiental pelas organizações públicas e privadas. Como citada anteriormente a Lei nº 6.938/1981 estabelece a Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA) e, apesar de ter sofrido alterações ao longo do tempo, continua sendo um marco legal fundamental para a legislação ambiental brasileira e não foi expressamente revogada, até o final da redação dessa disciplina em 2025. Essa mesma lei pode ser considerada o principal marco legal da gestão ambiental no Brasil. A PNMA estabeleceu conceitos, princípios e instrumentos essenciais, destacando-se entre eles o licenciamento ambiental (art. 9º, IV), definido como um procedimento administrativo destinado a controlar atividades potencialmente poluidoras. A PNMA afirma que o objetivo maior da política ambiental brasileira é a “preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida” (BRASIL, 1981). Para atingir esse objetivo, podemos citar a criação: Do Sistema Nacional do Meio Ambiente (SISNAMA); Do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA); A literatura brasileira destaca que o licenciamento ambiental foi “um dos mecanismos mais influenciados pelos debates e recomendações de Estocolmo, especialmente no que se refere à avaliação prévia de impactos” (SILVA, 2005). A partir da década de 1980, a Resolução CONAMA nº 001/1986 que estabelece os critérios e diretrizes gerais para a Avaliação de Impacto Ambiental (AIA) e estabelece que atividades que podem causar significativo impacto ambiental requerem a elaboração de um Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e um Relatório de Impacto Ambiental (RIMA). O RIMA deve apresentar as informações do EIA de forma acessível à população e é uma peça fundamental no processo de licenciamento ambiental. Conforme o CONAMA (1997), trata-se de um processo preventivo, que analisa a viabilidade ambiental e estabelece condições para a instalação e operação de empreendimentos. Para Sánchez (2013), o EIA/RIMA representa “a incorporação prática da ciência ecológica ao processo decisório”, permitindo avaliar: Impactos diretos, indiretos, cumulativos e sinérgicos; Alternativas tecnológicas; Alternativas locacionais; Medidas mitigadoras e compensatórias. Já citamos anteriormente o Sistema de Gestão Ambiental (SGA), mas afinal; o que é exatamente esse sistema? Segundo Barbieri (2016), um SGA busca assegurar que os processos organizacionais estejam alinhados às diretrizes ambientais internas e externas, promovendo desempenho elevado e redução de riscos; envolve políticas, procedimentos, responsabilidades e práticas destinadas a controlar os impactos ambientais de uma organização. Podemos defini-locomo um conjunto de metodologias estruturadas de planejamento, execução e melhoria contínua, baseadas nos princípios da gestão empresarial moderna. Dentre os vários modelos de SGA reconhecidos globalmente, destaca-se a ISO 14001, publicada em 1996, fundamentada no ciclo PDCA (plan–do–check–act), relacionado à metodologia de melhoria contínua dividida em quatro etapas: Planejar, Fazer, Verificar e Agir (tradução livre). Segundo a International Organization for Standardization (ISO, 2015), a norma não estabelece metas ambientais específicas, mas fornece estrutura para que cada Figura 1 – Ciclo PDCA Fonte: Adaptada de Getty Images #ParaTodosVerem: o diagrama circular do PDCA apresenta quatro etapas em tons de azul. A etapa superior, "PLANEJAR". À direita, a etapa "DESENVOLVER". Na parte inferior, a etapa "CHECAR". À esquerda, fechando o ciclo, a etapa "AGIR". No centro, o texto "PDCA" está escrito em preto sobre o fundo branco. Fim da descrição. organização defina seus objetivos conforme os requisitos legais, riscos e aspectos ambientais significativos e incorpora princípios como: Prevenção da poluição; Atendimento a requisitos legais; Desempenho ambiental mensurável; Participação e conscientização interna e comunicação com partes interessadas. A versão mais recente da norma, ISO 14001:2015, adota a High-Level Structure (HLS), integrando-se a sistemas de gestão como ISO 9001 norma internacional que estabelece requisitos para um Sistema de Gestão da Qualidade (SGQ), ISO 45001 norma internacional que estabelece os requisitos para um Sistema de Gestão de Saúde e Segurança no Trabalho (SGSST), ampliando seus principais elementos: Contexto da organização; Liderança e políticas ambientais; Planejamento (riscos e oportunidades, aspectos ambientais, requisitos legais); Apoio (competência, comunicação, recursos); Operação (controles operacionais, resposta a emergências); Avaliação de desempenho (monitoramento, indicadores, auditorias); Melhoria (ações corretivas e aperfeiçoamento contínuo). Para a implementação e gestão de projetos ambientais precisamos diferenciar com muita clareza e saber estabelecer a relação entre Licenciamento Ambiental e Sistemas de Gestão Ambiental. O licenciamento ambiental estabelece condições, limites e obrigações impostas pelo poder público (natureza jurídica) fundamentadas em normas legais. Já o SGA cria mecanismos internos voluntários (gerencial) que podem ser auditados e certificados por agências especializadas assegurando que a organização cumpra tais requisitos e avance para além deles. Barbieri (2016) afirma que: “O licenciamento ambiental pode ser fortalecido quando a empresa possui um Sistema de Gestão Ambiental robusto, que Dessa forma a implementação de um SGA robusto facilita e viabiliza o controle de aspectos e impactos ambientais; o gerenciamento de resíduos e efluentes; a mitigação de passivos ambientais. Além disso a implantação de um sistema como a ISO 14001 dá suporte à conformidade legal; atua de forma contínua, proporcionando melhorias ao longo da operação incluindo: Cumprimentos dos requisitos legais e leis ambientais; Atendimentos das licenças ambientais e resoluções do CONAMA; Cumprimento das normas estaduais e municipais; Monitoramento contínuo; Revisão de indicadores ambientais; Redução de desperdícios e emissões; Capacitação interna; Preparação para emergências; Auditorias internas e externas periódicas. Assim, a certificação torna-se uma evidência documentada de que a empresa monitora e atualiza continuamente sua conformidade normativa diminuindo a probabilidade de infração ambiental (IBAMA, 2018). permita o cumprimento contínuo das condicionantes e a redução de riscos”. Figura 2 – Ações econômicas #ParaTodosVerem: a imagem apresenta um diagrama sobre desenvolvimento sustentável. No centro, há um grande triângulo azul com as palavras "Desenvolvimento Sustentável" escritas em branco na base. Ao redor deste triângulo, três retângulos de cantos arredondados em azul-escuro indicam os pilares do conceito: "Social" no topo, "Econômico" no canto inferior esquerdo e "Ambiental" no canto inferior direito. Setas pretas de ponta dupla conectam esses três retângulos externamente, formando um contorno triangular que reforça a interdependência entre as áreas. Fim da descrição. A integração entre instrumentos legais (Licenciamento Ambiental) e voluntários (implantação de IS14001) sustenta o avanço da agenda ambiental, a melhoria da gestão pública e contribui de forma decisiva para um objetivo maior na implantação de ações que promovam o desenvolvimento sustentável. A articulação e ações sinérgicas entre a implantação do SGA e o licenciamento ambiental resultam em um reforço da cultura de responsabilidade socioambiental, aprimoram a governança ambiental empresarial, reduzem riscos e passivos ambientais; facilitam os processos de conformidade e fiscalização integrando inovação e sustentabilidade em modelos produtivos. Como já ressaltamos antes a evolução da legislação ambiental brasileira, guiada por marcos internacionais e nacionais, considera o licenciamento ambiental um pilar fundamental para a prevenção de impactos e degradação ambiental; assim como uma condição para se estabelecer o desenvolvimento sustentável de uma atividade na área ambiental. No artigo 2º da Lei complementar nº 140, de 8 de dezembro de 2011, o Licenciamento Ambiental é considerado um processo administrativo destinado a licenciar atividade ou empreendimento utilizador de recursos ambientais, efetiva ou potencialmente poluidor ou capaz, sob qualquer forma, de causar degradação do meio ambiente. O licenciamento ambiental deve prezar pela participação pública, pela transparência, pela preponderância do interesse público, pela celeridade e economia processual, pela prevenção do dano ambiental, pelo desenvolvimento sustentável, pela análise dos impactos e, quando couber, dos riscos ambientais. O licenciamento ambiental no Brasil está em alinhamentos aos princípios 6 e 17 de Estocolmo citados no início dessa unidade. Segundo Machado (2014) “O licenciamento ambiental brasileiro nasce da compreensão internacional de que danos ambientais devem ser prevenidos antes que ocorram, e não simplesmente reparados após sua concretização” e podemos inferir a ideia de que o licenciamento ambiental opera como instrumento concreto da conciliação de crescimento econômico e proteção ambiental. Podemos dizer que o Licenciamento ambiental é fundamental para a conservação de áreas naturais sensíveis, no sentido que regula supressão vegetal; exige planos de manejo; avalia efeitos sobre fauna, ictiofauna, zonas costeiras e comunidades tradicionais; integra medidas de mitigação e compensação. Por outro lado, temos que superar desafios contemporâneos do licenciamento ambiental como a fragilidades na fiscalização pós-licença; burocratização; tentativas de flexibilização legislativa; falta de integração com políticas de ordenamento territorial entre outras. No cenário atual, há debates intensos que discutem modelos de licenças únicas, análises simplificadas e flexibilização em setores de infraestrutura. Há risco de retrocessos, principalmente em ecossistemas frágeis, o que reforça a necessidade de relembrar os princípios de Estocolmo. O licenciamento ambiental é uma peça-chave para a conservação da biodiversidade, o ordenamento territorial e a compatibilização entre desenvolvimento e proteção ambiental. Página 2 de 2 📄 Referências ANTUNES, P.B . Direito Ambiental. 12. ed. São Paulo: Atlas, 2018. BARROS, H.S. História do Direito Ambiental Brasileiro. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2013. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado, 1988. CARSON, R. Silent Spring. Boston: Houghton Mi�in, 1962. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR ISO 14001:2015. Sistemas de gestão ambiental – Requisitos com orientações para uso. Rio de Janeiro, 2015. ISO. 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