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APOSTILA_parte_23

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Introdução
Caro aluno, nesta unidade você entenderá o processo histórico que fez surgir o 
fenômeno da loucura. Ademais, perceberá que as maneira como se olha para 
este fenômeno, ou seja, as concepções ideológicas sobre a loucura, prediziam 
o tratamento que seria adequado em determinada época. 
Por fim, será possível vislumbrar como o louco sempre foi excluso do convívio 
social e exposto a terapêuticas extremamente violentas que violavam seus 
direitos humanos em um sentido bem subjetivo, pois impediam a pessoa de ser 
quem ela é. 
Desenvolvimento
A loucura, como um conceito historicamente construído, apenas pode ser 
compreendida ao olharmos o espírito da época, ou zeitgeist, na qual ela foi 
concebida. Frayze-Pereira (1949) discorre que na Idade Média, até meados do 
século XV, a figura do louco estava associada ao leproso, e a explicação para 
as “cabeças alienadas” estava às voltas do misticismo, fundamentando-se, 
paradoxalmente, em bênçãos ou ira divina. O advento do Renascimento trouxe 
consigo a crença veemente na razão e na ciência. Este período, fortemente 
influenciado pela filosofia de René Descartes, trazia em seu imaginário social 
a crença de que o “sujeito que duvida” é o único a que se pode alcançar o 
conhecimento verdadeiro. Tal premissa figura-se, portanto, como uma utopia 
para o “alienado”, pois o ato de duvidar implica o pensamento, e aquele que 
não pensa, não existe. 
A dicotomia razão versus não-razão configura, então, o elemento originário da 
loucura, e a ciência psiquiátrica insere-se a posteriori nesta relação. Assim, 
temos, no século XVII, a emergência de um enaltecimento da razão que, para 
existir em si, necessita da aparição da loucura. Amarante (2007) pontua que 
“até o momento desta transformação, a loucura e os loucos tinham múltiplos 
significados – de demônios a endeusados, de comédia e tragédia, de erro e 
verdade”. 
A partir, então, do surgimento de sujeito da razão, os então chamados de 
loucos são designados como sujeitos que perderam a racionalidade por meio 
de um agente exógeno que lhes roubou o pensamento lógico, e que lhes 
condena a viver à deriva, visto que eles não mais sucumbem às régias morais 
e, portanto, adotam condutas animalescas (Paulon, 2017). Tendo como norte 
este novo conceito, surge então a necessidade de proteger os sujeitos que não 
perderam a razão. 
Neste ponto, Amarante (2007) discorre sobre a criação dos Hospitais Gerais, 
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no século XVII, que nasceram com intuito filantrópico, ao oferecer assistência 
religiosa aos miseráveis, desabrigados e doentes, exercendo, pois, uma 
função atrelada ao estabelecimento da ordem social. A internação nestes 
asilos hospitalares era, então, determinada juridicamente, de modo que as 
autoridades reais, supostamente detentoras da razão, teriam o poder de 
condenar ao enclausuramento hospitalar. Esta metamorfose dos hospitais, 
originalmente atendendo à fundamentos pautados na caridade religiosa, passa 
então a atender às demandas mais sociais e políticas. Por conseguinte, em 
fins do século XVIII, os hospitais passaram a ser, então, regidos pelos novos 
e promissores saberes médicos, e adotaram a função de tratamento de 
enfermidades.
Paulon (2017) destaca os apontamentos de Foucault ao revelar que a 
medicina social foi de grande aporte aos ideais capitalistas, ao desenvolver 
práticas higienistas, que aniquilassem a irracionalidade das cidades, por meio 
da criação de dispositivos de poder. Nesta mesma dialética, Vladimir Safatle 
(2005), ao refletir sobre a suposta “crise da psicanálise”, estampada em mídias 
sensacionalistas, que apontam para uma ineficácia do saber psicanalítico, 
justifica que tal argumento sustenta-se pela crescente aposta no saber 
psiquiátrico de cunho organicista. Nesta via, o autor declara que a Psicanálise 
não se opõe aos conhecimentos biologistas, mas nega, isso sim, a hegemonia 
deste, que acaba por reduzir o estado mental a um estado puramente neuronal. 
Safatle argumenta, então, que nesta lógica, os vínculos sociais e investimentos 
libidinais são tratados com certo desdém, de modo que se instala uma “política 
de vitimização”, onde o sujeito, acometido por uma desordem neuronal, 
deve ser velozmente medicalizado, para que não deixe de produzir. Por fim, 
o escritor problematiza ao revelar que esta guinada organicista salienta uma 
política de controle social que é, por sua vez, substanciada por pesquisas 
de indústrias farmacêuticas que parecem produzir o medicamento antes do 
surgimento da própria doença.
Haja vista, portanto, a necessidade social que possibilitou a construção dos 
hospitais gerais, vemos, então, um processo de departamentalização deste 
em diversas áreas de cuidado. Neste ponto, é inexorável a importância do 
médico Philippe Pinel, quando em 1793 tornou-se diretor do Hospital de 
Bicêtre, em Paris. Pinel dedicou-se a entender a alienação e, para tanto, 
propôs que os loucos fossem liberados das correntes e segregados dos demais 
enfermos. O médico, então, fundou os primeiros hospitais psiquiátricos e 
submeteu os loucos a um tratamento moral. Embasado pela crença de que os 
fatores que geram alienação acometiam os indivíduos em seu meio social, o 
médico entendia que o isolamento do enfermo poderia devolver-lhe a razão, 
desenvolvendo, pois, o primeiro modelo de terapêutica para a alienação. 
(Amarante, 2007).
Temos então, que os loucos, apesar de libertos das correntes, “permaneceram

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