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PÁGINA 45 Introdução Caro aluno, nesta unidade você entenderá o processo histórico que fez surgir o fenômeno da loucura. Ademais, perceberá que as maneira como se olha para este fenômeno, ou seja, as concepções ideológicas sobre a loucura, prediziam o tratamento que seria adequado em determinada época. Por fim, será possível vislumbrar como o louco sempre foi excluso do convívio social e exposto a terapêuticas extremamente violentas que violavam seus direitos humanos em um sentido bem subjetivo, pois impediam a pessoa de ser quem ela é. Desenvolvimento A loucura, como um conceito historicamente construído, apenas pode ser compreendida ao olharmos o espírito da época, ou zeitgeist, na qual ela foi concebida. Frayze-Pereira (1949) discorre que na Idade Média, até meados do século XV, a figura do louco estava associada ao leproso, e a explicação para as “cabeças alienadas” estava às voltas do misticismo, fundamentando-se, paradoxalmente, em bênçãos ou ira divina. O advento do Renascimento trouxe consigo a crença veemente na razão e na ciência. Este período, fortemente influenciado pela filosofia de René Descartes, trazia em seu imaginário social a crença de que o “sujeito que duvida” é o único a que se pode alcançar o conhecimento verdadeiro. Tal premissa figura-se, portanto, como uma utopia para o “alienado”, pois o ato de duvidar implica o pensamento, e aquele que não pensa, não existe. A dicotomia razão versus não-razão configura, então, o elemento originário da loucura, e a ciência psiquiátrica insere-se a posteriori nesta relação. Assim, temos, no século XVII, a emergência de um enaltecimento da razão que, para existir em si, necessita da aparição da loucura. Amarante (2007) pontua que “até o momento desta transformação, a loucura e os loucos tinham múltiplos significados – de demônios a endeusados, de comédia e tragédia, de erro e verdade”. A partir, então, do surgimento de sujeito da razão, os então chamados de loucos são designados como sujeitos que perderam a racionalidade por meio de um agente exógeno que lhes roubou o pensamento lógico, e que lhes condena a viver à deriva, visto que eles não mais sucumbem às régias morais e, portanto, adotam condutas animalescas (Paulon, 2017). Tendo como norte este novo conceito, surge então a necessidade de proteger os sujeitos que não perderam a razão. Neste ponto, Amarante (2007) discorre sobre a criação dos Hospitais Gerais, PÁGINA 46 no século XVII, que nasceram com intuito filantrópico, ao oferecer assistência religiosa aos miseráveis, desabrigados e doentes, exercendo, pois, uma função atrelada ao estabelecimento da ordem social. A internação nestes asilos hospitalares era, então, determinada juridicamente, de modo que as autoridades reais, supostamente detentoras da razão, teriam o poder de condenar ao enclausuramento hospitalar. Esta metamorfose dos hospitais, originalmente atendendo à fundamentos pautados na caridade religiosa, passa então a atender às demandas mais sociais e políticas. Por conseguinte, em fins do século XVIII, os hospitais passaram a ser, então, regidos pelos novos e promissores saberes médicos, e adotaram a função de tratamento de enfermidades. Paulon (2017) destaca os apontamentos de Foucault ao revelar que a medicina social foi de grande aporte aos ideais capitalistas, ao desenvolver práticas higienistas, que aniquilassem a irracionalidade das cidades, por meio da criação de dispositivos de poder. Nesta mesma dialética, Vladimir Safatle (2005), ao refletir sobre a suposta “crise da psicanálise”, estampada em mídias sensacionalistas, que apontam para uma ineficácia do saber psicanalítico, justifica que tal argumento sustenta-se pela crescente aposta no saber psiquiátrico de cunho organicista. Nesta via, o autor declara que a Psicanálise não se opõe aos conhecimentos biologistas, mas nega, isso sim, a hegemonia deste, que acaba por reduzir o estado mental a um estado puramente neuronal. Safatle argumenta, então, que nesta lógica, os vínculos sociais e investimentos libidinais são tratados com certo desdém, de modo que se instala uma “política de vitimização”, onde o sujeito, acometido por uma desordem neuronal, deve ser velozmente medicalizado, para que não deixe de produzir. Por fim, o escritor problematiza ao revelar que esta guinada organicista salienta uma política de controle social que é, por sua vez, substanciada por pesquisas de indústrias farmacêuticas que parecem produzir o medicamento antes do surgimento da própria doença. Haja vista, portanto, a necessidade social que possibilitou a construção dos hospitais gerais, vemos, então, um processo de departamentalização deste em diversas áreas de cuidado. Neste ponto, é inexorável a importância do médico Philippe Pinel, quando em 1793 tornou-se diretor do Hospital de Bicêtre, em Paris. Pinel dedicou-se a entender a alienação e, para tanto, propôs que os loucos fossem liberados das correntes e segregados dos demais enfermos. O médico, então, fundou os primeiros hospitais psiquiátricos e submeteu os loucos a um tratamento moral. Embasado pela crença de que os fatores que geram alienação acometiam os indivíduos em seu meio social, o médico entendia que o isolamento do enfermo poderia devolver-lhe a razão, desenvolvendo, pois, o primeiro modelo de terapêutica para a alienação. (Amarante, 2007). Temos então, que os loucos, apesar de libertos das correntes, “permaneceram