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AAAAA tradução da Bíblia feita por Lutero, que usou
uma linguagem acessível ao povo, constituiu um
importante instrumento de propagação da Reforma.
Filho de um camponês que se tornou mineiro,
Martinhop Lutero, nasceu em Eislebem, no então rei-
no da Saxônia, regiao histórica ao sudeste da Alema-
nha, no dia 10 de novembro de 1483, recebendo se-
vera educação, entretanto, voltada para a vida mun-
dana. Após fazer seus primeiros estudos em
Mansfeld, foi enviado pelo pai à Escola dos Irmãos
da Vida Comum, de Magdeburgo, cursando a seguir
a Universidade de Erfurt. Era professor de Filosofia
quando entrou para a ordem agostiniana (1507),
devido a uma mensagem divina que dizia ter rece-
bido de Santa Ana num dia de violenta tempestade,
prometendo na ocasião tornar-se monge.
Ordenou-se em 1507 e foi enviado para Roma em
1511 a fim de interceder junto ao Papa pela solução
de alguns problemas da ordem agostiniana, quando
pôde observar de perto o mercado das indulgências.
Com a confiança abalada no Papado, voltou angusti-
ado para a Alemanha, deu continuidade a seus estu-
dos, doutorando-se em Teologia (1512), e, receben-
do a cadeira das sagradas Escrituras, na Universida-
de de Winttenberg. Enquanto Lutero se debatia en-
tre a Igreja e a verdadeira fé (como ele via), o clero
explorava a venda de indulgências impostas aos fiéis
para a completa absorvição dos pecados, que cons-
tituíam importante fonte de renda para a Igreja.
Lutero não aceitava essa situação e encontrou res-
posta para suas dúvidas na Epístola de Paulo aos Ro-
manos: “O homem é justificado pela fé, independen-
temente das obras de lei”. Tomou posição contra a
Igreja, chegando à conclusão de que a liturgia deve-
ria incluir um diálogo entre Deus e o fiel, e de que
somente os verdadeiros sacramentos, instituídos pelo
Cristo, formariam um elo entre o Salvador e os cris-
tãos. Foi precisamente a campanha dirigida, em 1517,
pelo dominicano Tetzel em favor das indulgências
concedidas aos que colaborassem na construção da
Basílica de São Pedro em Roma, que levou Lutero a
divulgar seus pensamentos .
Aproveitando seu prestígio como professor em
Wittenberg preparou na porta da igreja do castelo da
cidade, noventa e cinco de suas teses, na maioria de-
las dirigida contra as indulgências, ato que marcou
oficialmente o início da Reforma. Suas manifestações
e o modelo de encarar a religião, desafiando o poder
de Roma, repercutiram violentamente em toda a Ale-
manha. O reformador passou a receber apoio de to-
das as camadas sociais fazendo renascer velhos an-
tagonismos entre a Igreja e os súditos do Império
Romano-Germânico.
As divergências com Roma
Os escritos revolucionários de Lutero foram envi-
ados a Roma e formou-se um tribunal (a primeira Di-
eta de Augsburgo, em 1518), para ouvi-lo na própria
Alemanha. O representante do Papa, Cardeal Caeta-
no, célebre teólogo tomista, propôs-se a conseguir do
Papa a licença para que Lutero fosse julgado pelas
universidades alemãs, em troca da cessação de toda
a polêmica. Desconfiado, Lutero deixou Augsburgo
clandestinamente e refugiou-se em Wittenberg, onde
ficou sob proteção do eleitor Frederico III da Saxônia.
Um ano depois, outro representante do Papa, Karl von
Militz, tentou novamente negociar com Lutero, mas
Especial
Por Maria Aparecida Romano
CONTESTANDO O PODER DE ROMA, LUTERO LANÇOU AS BASES DA REFORMA
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EM SEU CATECISMO MAIOR, LUTERO APRESENTA A SEGUINTE DEFINIÇÃO CLÁSSICA: “EU
CREIO QUE HÁ SOBRE A TERRA UM PEQUENO GRUPO SANTO E CONGREGAÇÃO DE SANTOS
PUROS SOB UMA CABEÇA, CRISTO, CHAMADOS PELO ESPÍRITO SANTO PARA UMA FÉ, UMA
MENTE E UMA COMPREENSÃO, COM DONS MULTIFORMES, ENTRETANTO CONCORDANDO EM
AMOR, SEM SEITAS NEM CISMAS. TAMBÉM FAÇO PARTE DO MESMO, SENDO PARTICIPANTE E
CO-PROPRIETÁRIO DE TODOS OS BENS QUE POSSUI, TRAZIDO A ELE E INCORPORADO NELE
PELO ESPÍRITO SANTO PELO OUVIR E PELO CONTINUAR A OUVIR A PALAVRA DE DEUS, QUE É
O PROCESSO DE INICIAÇÃO NELE. POIS, ANTERIORMENTE, ANTES DE TERMOS ALCANÇADO
ISTO, PERTENCÍAMOS AO DIABO, NADA SABENDO DE DEUS E DE CRISTO. ASSIM, ATÉ O
ÚLTIMO DIA, O ESPÍRITO SANTO PERMANECE COM A SANTA CONGREGAÇÃO, OU
CRISTANDADE, POR INTERMÉDIO DA QUAL ELE NOS TRAZ A CRISTO, E É ELA QUE O ESPÍRITO
SANTO UTILIZA PARA NOS ENSINARA A PREGAR A PALAVRA; PELA IGREJA ELE AGE E PROMOVE A
SANTIFICAÇÃO, FAZENDO-A CRESCER DIARIAMENTE E FORTALECENDO-A NA FÉ E NOS FRUTOS
QUE ELE FAZ PRODUZIR”. (O CREDO. ART. III, CF. LIVRO DE CONCÓRDIA, P. 454).
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sem sucesso, quando o reformador demonstrou que
suas idéias eram incompatíveis com as da Igreja.
Quando Carlos V subiu ao trono, em 1519, pensou
em prender Lutero, mas recebendo uma reação vio-
lenta do povo, contentou-se em citá-lo para respon-
der um inquérito. Seguro de si, o reformador decla-
rou: “Retratar-me do que quer que seja não posso e
não quero, porque agir contra a própria consciência
não é nem seguro nem honesto”. Em represália a sua
atitude foi banido do Império e seus livros foram quei-
mados como heréticos. Condenado pela Sorbonne,
pelas Faculdades de Colônia e de Louvain e, depois,
pela bula de Leão X, “Exsurge Domine”, de 15 de ju-
nho de 1520, Lutero queimou-a em praça pública, e
depois publicou “Por que os livros do Papa e de seus
discípulos foram queimados pelo doutor Martinho
Lutero”. Em resposta, a Igreja Católica decidiu sua
excomungação em 3 de janeiro de 1521.
Com a ruptura definitiva, Lutero passou a atacar
Roma abertamente, através da publicação das três
Grandes obras reformadoras, fundamentos do Lute-
ranismo: “A nobreza cristã da nação alemã”, onde
criticou a supremacia romana, insistindo na idéia do
sacerdócio universal dos cristãos; O cativeiro da
Babilônia, onde contestou a teoria romana dos sacra-
mentos (com exceção do batismo e da ceia), o celi-
bato dos padres, o jejum e os votos monásticos; e,
Da liberdade do cristão, onde formulou uma nova dou-
trina da Igreja e insistiu sobre o caráter falacioso da
Tradição tal como Roma apresentava.
Citado perante a Dieta de Worms, apresentou-se,
mas recusou submeter-se a um inquérito. Novamen-
te salvo da prisão por Frederico da Saxônia, passou
um ano no seu castelo de Wartburgo, sob o nome de
cavaleiro George. Foi nessa época que conseguiu tra-
duzir a Bíblia para o alemão, usando uma linguagem
clara e simples, para que fosse entendida por todos;
obra que se constituiria num importante instrumen-
to de propagação da Reforma. Embora não fosse seu
intento, Lutero transformou radicalmente a língua de
seu país, lançando com essa tradução as bases do
alemão moderno.
Inclinando-se ao conservadorismo
Tendo retornado a Wittenberg (1522), devido às
confusões causadas pelas diversas interpretações
(principalmente sectárias) dos seus pensamentos,
durante a sua permanência na cidade, procurou agra-
dar os nobres, para as suas idéias sobreviverem, e sob
a proteção da nobreza, geralmente por questões
materiais, percorreu a Alemanha pregando a Refor-
ma. Na sua obra Da Autoridade Temporal, Lutero de-
fendeu o domínio dos nobres sobre o povo, posição
fortalecida durante a “Guerra dos camponeses”, de
inspiração religiosa, quando a seita dos anabatistas,
liderados por Thomas Münzer, lutaram em toda a Ale-
manha contra as condições miseráveis em que vivi-
am, exigindo uma reforma agrária.
Quando perceberam o conservadorismo a que
Lutero estava se inclinando, os humanistas, esperan-
çosos de um retorno às origens da doutrina cristã,
retiraram o apoio a suas tese. Em 1524, Erasmo de
Roterdam, humanista holandês (1469-1556), ex-sa-
cerdote que obteve uma dispensa dos votos, recusou-
se tomar partido da Reforma escrevendo o Tratado do
livre-arbítrio, onde denunciou o pessimismo do refor-
A TRADUÇÃO DA BÍBLIA FEITA POR LUTERO, QUE USOU UMA LINGUAGEM ACESSÍVEL
AO POVO, CONSTITUIU UM IMPORTANTE INSTRUMENTO DE PROPAGAÇÃO
DA REFORMA, TRANSFORMANDO RADICALMENTE A LÍNGUA DE SEU PAÍS,
LANÇANDO COM ESSA TRADUÇÃO, AS BASES DO ALEMÃO MODERNO
Lutero casou-se em 1525 com Katharina von Bora, uma
ex-freira do mosteiro de Cister, na França
Especial
59mador, marcando a ruptura de ambos. Embora ten-
do rompido com Erasmo e conseqüentemente com o
humanismo, Lutero não se abateu, dando prossegui-
mento à sua luta reformista. Casou-se em 1525 com
Katharina von Bora, uma ex-freira do mosteiro de
Cister, na França, que lhe deu seis filhos.
Novamente em julgamento
A partir de 1530, na formação da 2º Dieta de
Augsburgo para julgá-lo, Lutero foi representado por
seu amigo Phillip Melanchthon, professor de grego,
teólogo, reformador e humanista (que havia redigi-
do em 1521, o primeiro relatório da Teologia da Re-
forma). Melachthon leu diante dos juízes a conden-
sação dos princípios luteranos, conhecida mais tar-
de como Confissão de Augsburgo, porém, as teses da
Reforma por ele apresentadas foram rejeitadas pela
Dieta, e os protestantes elaboraram então, a Liga de
Schmalkalden, artigos redigidos pelo próprio Lutero,
que completaram a confissão de Augsburgo, acentu-
ando ainda mais as divergências da Igreja Romana.
Com a morte do seu protetor Frederico da Saxô-
nia, o grande reformador foi apoiado pelo sucessor
Jean da Saxônia e pelo margave (governador da pro-
víncia) F. de Hesse. Lutero passou os últimos anos de
sua vida lutando contra os adversários de sua dou-
trina e contra os próprios partidários mais exaltados,
entre eles, Melanchthon e Andreas Osander. Místico
e iluminado (acreditava ter visto muitas vezes o
diabo, atirando-lhe certo dia com um tinteiro à ca-
beça), foi, à parte do seu importante papel religio-
so, um dos criadores da prosa alemã.
Além de lançar bases de uma nova religião, foi no-
tável também a ação de Martinho Lutero no desenvol-
vimento da instrução popular, na adoção dos princípi-
os pedagógicos do Renascimento, na defesa da língua
materna com base de aquisição dos conhecimentos, na
propaganda da disciplina escolar suave e da educação
feminina. A última obra (inacabada) de Lutero foi Con-
tra o Papado; que morreu em plena atividade no dia
18 de fevereiro de 1546. Após a sua morte, Melan-
chthon, tornou-se chefe do movimento luterano, ado-
tando um posição mais humanista que seu mestre.
Somente após a sua morte foi levantado o proble-
ma da constituição jurídica do movimento e da eluci-
dação de seus credos. Surgiram, então, várias contro-
vérsias, na tentativa de definir os fundamentos da fé
luterana. No fim do século XVI, apareceu o Livro de
Concórdia, que reúne nove documentos definindo a fé
protestante: Credos Apostólicos; Niceno e Atanasiano
da Igreja primitiva; Confissão de Augsburgo (e a apo-
logia dela); Artigos de Schmalkalden; Dois catecismos
de Lutero e a Fórmula de Concórdia. Atualmente, ape-
nas os credos primitivos e a Confissão de Augsburgo
são reconhecidos nas comunidades luteranas.
Quando rompeu com a política papal, Lutero não
chegou a prever o aparecimento de uma nova Igre-
ja. Dez anos depois da morte do seu fundador, o lu-
teranismo se estenderia pela maior parte da Alema-
nha e, junto com o Calvinismo, alcançaria os países
do norte da Europa, França, Suíça, Áustria, Lituânia,
Polônia e os Países Baixos. Aos poucos espalharia-se
por quase todo o mundo e os protestantes organiza-
ram-se em uma Federação Mundial e fazem parte do
Conselho Mundial de Igrejas.
Castelo onde Martinho Lutero ficou confinado durante 10 meses após ter sido excomungado pela Igreja Católica, em 3 de janeiro de
1521, na Dieta de Worms