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Vamos fazer um tour pela rota nova? Conheça a nova cara e os novos recursos da sua rota de aprendizagem. 1 / 10 Aula 1 DIREITO CONSTITUCION AL Silvano Alves Alcantara A partir de agora, começaremos a estudar o Direito Constitucional. Aqui, abordaremos a Teoria da Constituição, o constitucionalismo, explicando um pouco o seu histórico e também a própria constituição. Video Audio 1. Conversa Inicial 2. O Estado 3. A Constituição e o Direito Constitucional 4. Classificação das constituições 5. Aplicabilidade e eficácia das normas constitucionais 6. Poder constituinte 7. Na Prática 8. Finalizando Tocar Vídeo DIREITO CONSTITUCIONAL AULA 1 Prof. Silvano Alves Alcantara Conversa inicial A partir de agora, começaremos a estudar o Direito Constitucional. Aqui, abordaremos a Teoria da Constituição, o constitucionalismo, explicando um pouco o seu histórico e também a própria constituição. Falaremos ainda sobre o Estado e seus poderes, bem como sobre a aplicabilidade e eficácia das normas constitucionais. Você sabe como uma constituição é criada? Vamos discutir sobre isso. Estudaremos também o poder constituinte original e derivado. TEMA 1 – O ESTADO O constitucionalismo e a constituição embasam o Estado Democrático de Direito. Streck e Morais (2006, p. 98) entendem que: O Estado Democrático de Direito tem como princípios a constitucionalidade, entendida como vinculação deste Estado a uma Constituição, concebida como instrumento básico de garantia jurídica; a organização democrática da sociedade; um sistema de direitos fundamentais individuais e coletivos, de modo a assegurar ao homem uma autonomia perante os poderes públicos, bem como proporcionar a existência de um Estado amigo, apto a respeitar a dignidade da pessoa humana, empenhado na defesa e garantia da liberdade, da justiça e solidariedade; a justiça social como mecanismo corretivo das desigualdades; a igualdade, que além de uma concepção formal, denota-se como articulação de uma sociedade justa; a divisão de funções do Estado a órgãos especializados para seu desempenho; a legalidade imposta como medida de Direito, perfazendo-se como meio de ordenação racional, vinculativamente prescritivo de normas e procedimentos que excluem o arbítrio e a prepotência; a segurança e correção jurídicas. É, por assim dizer, entender que o “Estado” está vinculado e pretenso a determinar suas normas dentro do Direito. No ensinamento de Canotilho (2003, p. 11): Estado de direito é um Estado ou uma forma de organização político-estatal cuja atividade é determinada e limitada pelo direito. ‘Estado de não direito’ será, pelo contrário, aquele em que o poder político se proclama desvinculado de limites jurídicos e não reconhece aos indivíduos uma esfera de liberdade ante o poder protegida pelo direito. Sob o olhar de Bobbio (1988, p. 18), ao se conceituar Estado de Direito, necessário é esclarecer os limites dos poderes do Estado e suas funções, pois assim também ficaria mais compreensíveis as diferenças entre liberalismo e Estado de Direito: O liberalismo é uma doutrina do Estado limitado tanto com respeito aos seus poderes quanto às suas funções. A noção corrente que serve para representar o primeiro é Estado de direito; a noção corrente para representar o segundo é Estado mínimo [...] Enquanto o Estado de direito se contrapõe ao Estado absoluto entendido como legitibus solutus, o Estado mínimo se contrapõe ao Estado máximo: deve-se, então, dizer que o Estado liberal se afirma na luta contra o Estado absoluto em defesa do Estado de direito e contra o Estado máximo em defesa do Estado mínimo, ainda que nem sempre os dois movimentos de emancipação coincidam histórica e praticamente. (Itálicos no original) Sendo o Estado mínimo aquele onde a intervenção, a ingerência, a concentração do poder do Estado são diminutas, determinando as normas gerais e deixando com que o próprio mercado, as relações em geral cheguem ao termo que lhes interesse. A CF/1988 já aponta no parágrafo único de seu art. 1º quem é o titular do poder, afirmando que “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. Portanto, o poder do Estado é uno e indivisível, mas, para exercê-lo, ele cria 3 (três) grandes funções, a função executiva, a legislativa e a judiciária ou jurisdicional, respaldado no art. 2º da CF/1988: “São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário”. Explicando cada uma dessas funções, traz-se o ensinamento de Silva (2022, p. 15): - A legislativa consiste na edição de regras gerais (Leis), abstratas, impessoais e inovadoras da ordem pública; - A executiva resolve os problemas concretos e individualizados, de acordo com as leis; - A jurisdicional tem por objeto aplicar o direito aos casos concretos a fim de dirimir conflitos de interesse. É bem verdade que os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário possuem outras funções secundárias, não menos importantes, como as funções administrativas e fiscalizadoras, mas as descritas são as principais ou típicas de cada poder. Explicando a harmonia entre os poderes, tida como princípio a ser aplicado, Jose Afonso da Silva diz que (op. cit., p.198): Ao contemplar tal princípio o legislador constituinte teve por objetivo tirante as funções atípicas previstas pela própria Constituição, ou seja, não permitir que um dos poderes se arrogue o direito de intervir nas competências alheias, portanto não permitindo, por exemplo, que o executivo passe a legislar e também a julgar ou que o legislativo que tem por competência a produção normativa aplique a lei ao caso concreto. Já se sabe que o poder do Estado é uno, mas a CF/1988 afirma em seu artigo 2º que “São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário”, sendo que tal divisão é conhecida como tripartição dos poderes. É e claro que a cada um deles impõem-se o cumprimento à lei. Assim explica Bobbio (1988, p.19): [...] na doutrina liberal, Estado de Direito significa não só a subordinação dos poderes públicos de qualquer grau às leis gerais do país, limite que é puramente formal, mas também subordinação das leis ao limite material do reconhecimento de alguns direitos fundamentais considerados constitucionalmente, e, portanto, em linha de princípio invioláveis. Importante, portanto, tratar das características de cada um desses poderes. O Poder Legislativo federal é exercido pelo Congresso Nacional, que por sua vez é composto pelo Senado Federal e pela Câmara dos Deputados. Por simetria, nos Estados, no Distrito Federal e nos Municípios, são as Assembleias Legislativas, a Câmara Legislativa e as Câmaras de Vereadores, respectivamente. No âmbito do Poder Legislativo Federal, a Câmara dos Deputados é composta por representantes do povo, eleitos nos Estados e no Distrito Federal, de maneira proporcional à população de cada ente federado, num total de 513 membros. Já o Senado Federal é composto por representantes dos Estados e do Distrito Federal, também eleitos, mas em número de 3 (três) para cada ente federado, num total de 81 membros. A CF/1988 determina competências tanto para o Congresso Nacional, como um todo, quanto particularmente a cada uma de suas casas. Genericamente, para o Congresso Nacional, as atribuições são as disposições relativas à competência da União, como o sistema tributário, a arrecadação e distribuição de rendas, o plano plurianual e orçamento anual, entre outras. Particularmente, para a Câmara dos Deputados, dentre outras atribuições, cabe a competência de autorizar, desde que por pelo menos 2/3 (dois terços) de seus membros, a instauração de processo contra o Presidentee o Vice-Presidente da República e os Ministros de Estado. Para o Senado Federal, cabe privativamente processar e julgar as maiores autoridades do país por crime de responsabilidade, tais como o Presidente e o Vice-Presidente da República, os Ministros de Estado, os comandantes das forças armadas e os ministros do STF. O Poder Executivo é exercido pelo Presidente da República, eleito majoritariamente para um mandato de 4 (quatro) anos, em eleições que devem ocorrer a cada quatro anos “[...] no primeiro domingo de outubro, em primeiro turno, e no último domingo de outubro, em segundo turno, se houver, do ano anterior ao do término do mandato presidencial vigente”. Essa é a letra do artigo 77 da CF/1988. Entre as atribuições do Presidente da República está a de manter relações com Estados estrangeiros e a de celebrar tratados internacionais, estes, sujeitos a referendo do Congresso Nacional. Por simetria, os chefes do Poder Executivo nos Estados e Municípios são, respectivamente, os Governadores e os Prefeitos. E, por fim, mas não menos importante, está o Poder Judiciário, que Hack (2012, p.150) diz que “tem a função de dirimir os litígios que lhe são apresentados pela aplicação da lei ao caso concreto”. É assim composto: Art. 92. São órgãos do Poder Judiciário: I - o Supremo Tribunal Federal; I-A - o Conselho Nacional de Justiça; II - o Superior Tribunal de Justiça; II-A - o Tribunal Superior do Trabalho III - os Tribunais Regionais Federais e Juízes Federais; IV - os Tribunais e Juízes do Trabalho; V - os Tribunais e Juízes Eleitorais; VI - os Tribunais e Juízes Militares; VII - os Tribunais e Juízes dos Estados e do Distrito Federal e Territórios. Cada um dos órgãos que compõem o Poder Judiciário possui competências distintas, atribuídas pela Constituição Federal. TEMA 2 – A CONSTITUIÇÃO E O DIREITO CONSTITUCIONAL Primeiramente, há que se esclarecer que, a par da doutrina estudada, analisando-se cada visão, o que se nota é que a evolução do constitucionalismo trouxe enorme influência especialmente para o ocidente, pois foi, e é, fundamental na história do direito ocidental. Pode-se dizer, hodiernamente, que o constitucionalismo é um movimento político, jurídico e social, e também, e de certa forma, ideológico, por meio do qual se criam as constituições e a própria organização dos Estados. Assim, está sustentado obrigatoriamente a dois baluartes, que são a estruturação do Estado e os direitos fundamentais. Note-se que esse movimento em si é muito antigo, por mais que o termo utilizado seja moderno. Sob a ótica de Dallari (2005, p.198): O constitucionalismo nasceu com a decadência do sistema político medieval e evoluiu atingindo o apogeu no século XVIII, coincidindo com o surgimento de documentos legislativos aos quais se deu o nome de Constituição. A conjugação de três grandes objetivos resultou no constitucionalismo. São eles: a afirmação da supremacia do indivíduo; a clássica e sistemática necessidade de limitação do poder dos governantes; e a crença na racionalização do poder, difundida principalmente por pensadores franceses que integravam o movimento do Iluminismo, o qual teve grande influência na eclosão da Revolução Francesa em 1789. O constitucionalismo moderno, segundo Canotilho (op.cit., p.35): " [...] é uma técnica específica de limitação do poder com fins garantir limitação do poder do Estado". Nos dias atuais, o constitucionalismo é visto sob outro prisma, não deixando mais que a Constituição fique relegada a ser um diploma retórico e com viés meramente político, mas, sim, um documento estritamente jurídico, trazendo em seu bojo normas obrigatórias e vinculantes. De acordo com Riccitelli (2007, p.42), “o constitucionalismo é a técnica da liberdade ou a técnica jurídica que assegura aos cidadãos o exercício dos seus direitos individuais e coloca o Estado em determinada situação na qual se torna impossível violá-los”. Não é por acaso que a Lei Fundamental ocupa o ápice da pirâmide hierárquica do ordenamento jurídico, mas, sim, pelo conjunto de disposições que produz, deixando-a com referencial para todas as demais normas a serem elaboradas e que a ela se sujeitam. ● Teoria do Ordenamento Jurídico Assim nos ensina Kelsen (1998, p. 247) em sua Teoria Pura do Direito: A ordem jurídica não é um sistema de normas jurídicas ordenadas no mesmo plano, situadas umas ao lado das ouras, mas é uma construção escalonada de diferentes camadas ou níveis de normas jurídicas. [...] Se começarmos levando em conta apenas a ordem jurídica estadual, a Constituição representa o escalão de Direito positivo mais elevado. Traz-se a pirâmide kelseniana, devidamente adaptada ao ordenamento jurídico brasileiro atual, tão somente para deixar claro que desde sempre, no pensamento positivista, a Constituição Federal ocupou o lugar de maior destaque. ● Pirâmide de Hans Kelsen - Constituição Federal - Leis: Complementares Ordinárias Delegadas - Medidas Provisórias - Decretos - Normas complementares: Portarias Atos Normativos Circulares Sob a ótica de Alcantara e Veneral (2023, p. 37): As normas jurídicas são hierárquicas. Entre elas, as normas constitucionais são consideradas magnas ou supremas, porque exercem completa autoridade sobre as demais - afinal, todas devem respeito à Constituição -, razão pela qual são as mais importantes dentro do ordenamento jurídico de um Estado democrático de direito. (grifos no original) Dessa maneira, a supremacia da Constituição torna-se evidente, fazendo com que sua força normativa tenha que ser respeitada e aplicada pelas diversas relações jurídicas. Assim, podendo-se afirmar que não existe fato jurídico que não esteja ou que não possa estar no amago da Constituição, quer seja de cunho propriamente jurídico, social ou de qualquer outra área. Para que fosse possível alcançar a ideia de Constituição em seu sentido normativo, torna-se relevante destacar que, no processo de formação do Estado moderno e, por assim dizer, como um contraponto à toda forma de concentração do poder político, o ideal constitucionalista desempenhou um papel primordial para a formação do Estado Constitucional de Direito. Isso ocorre porque o constitucionalismo propõe a limitação do poder e a supremacia da lei, vinculando-se à concepção de Estado de Direito. Ainda que muitos movimentos constitucionalistas tenham culminado com a elaboração de uma Constituição escrita, cumpre informar que esse ideal pode existir mesmo quando ausente tal Carta escrita, a exemplo do Reino Unido. Da mesma forma, a simples existência de um documento formal e solene não é garantia da presença desse ideal. Destarte, dentro do ordenamento jurídico de um Estado Democrático de Direito, a Constituição é seu diploma mais importante, sendo ela escrita ou não. Normalmente é conhecida e chamada por vários nomes, como Carta Magna, Lei Maior, Lei das Leis, Lei Fundamental, entre outros. Mas, salienta-se, que não se trata de uma lei propriamente dita, ela simplesmente determina as normas de base para todo o direito, dispondo sobre o Estado e sua organização política e jurídica, como também sobre as garantias e direitos individuais do cidadão, e sobre todos os demais assuntos que considere importantes e relevantes para aquela determinada coletividade onde tem abrangência e onde deverá ser aplicada. Para corroborar com esse entendimento, traz-se o ensinamento de José Afonso da Silva (op. cit., p.39); A constituição do Estado, considerada sua lei fundamental, seria, então, a organização dos seus elementos essenciais: um sistema de normas jurídicas, escritas ou costumeiras, que regula a forma do Estado, a forma de seu governo, o modo de aquisição e o exercício do poder, o estabelecimento de seus órgãos, os limites de sua ação, os direitos fundamentais do homem e as respectivas garantias;em síntese, é o conjunto de normas que organiza os elementos constitutivos do Estado. O direito constitucional, por sua vez, é o ramo do Direito Público que estuda as normas constitucionais, interpretando e explicando-as. TEMA 3 – CLASSIFICAÇÃO DAS CONSTITUIÇÕES Para que o estudo das constituições pudesse ficar mais tranquilo, os renomados autores que escrevem sobre o direito constitucional dividem as constituições de diversas maneiras. Como a classificação adotada pelo mestre José Afonso da Silva (op. cit., p.40), que assim entende: Classificação das Constituições: 1. Quanto ao conteúdo: materiais e formais; 2. Quanto à forma: escritas e não escritas; 3. Quanto ao modo de elaboração: dogmáticas e históricas; 4. Quanto à origem: populares (democráticas) ou outorgadas; 5. Quanto à estabilidade: rígidas, flexíveis e semirrígidas. Melhor explicando, a constituição material está ligada à organização do Estado, ao regime político e aos direitos fundamentais, podendo ser com as normas escritas ou baseadas nos costumes e sendo escritas, não necessariamente codificadas em um documento. Já a constituição formal é escrita em um único documento, elaborado solenemente pelo poder constituinte, e suas alterações ou modificações estão atreladas a formalidades por ela mesma estabelecidas. Segundo Moraes (2022, p. 9): “Constituição material consiste no conjunto de regras materialmente constitucionais, estejam ou não codificadas em um único documento; enquanto a Constituição formal é aquela consubstanciada de forma escrita, por meio de um documento solene estabelecido pelo poder constituinte originário”. A constituição escrita é aquela elaborada em texto único, pelo poder constituinte, determinando toda a estrutura e organização do Estado, com seus poderes e limites de atuação, como também definindo os direitos e garantias fundamentais dos cidadãos. Na constituição não escrita, não existe um documento, pois suas normas são baseadas nos costumes da sociedade e do Estado, na jurisprudência, nas convenções e em outros diplomas legais esparsos. A constituição dogmática é a elaborada pela assembleia constituinte, composta por dogmas, que são doutrinas políticas ou filosófica dominantes no momento de sua criação, que a princípios são indiscutíveis. A constituição histórica, também chamada de costumeira, tem a própria história e os costumes daquela sociedade e daquele Estado como base para a sua criação, baseando-se em suas tradições e em acontecimentos sócio-políticos. A constituição é popular quando é elaborada por um poder constituinte devidamente eleito, que representa aquela determinada sociedade. Já a constituição outorgada é imposta pelo poder dominante, sem que a sociedade possa dela participar. A constituição rígida é aquela cujas modificações ou alterações somente podem acontecer, por meio de processos especiais e outros. Por sua vez, a constituição flexível pode ser modificada pelo legislador com mais facilidade, utilizando-se do mesmo processo para a elaboração de leis ordinárias. A constituição semirrígida é aquela que possui uma parte rígida e uma parte flexível. Ainda da doutrina de Moraes (op. cit., p. 11): Rígidas são as constituições escritas que poderão ser alteradas por um processo legislativo mais solene e dificultoso do que o existente para a edição das demais espécies normativas (por exemplo: CF/1988 - art. 60); por sua vez, as constituições flexíveis, em regra não escritas, excepcionalmente escritas, poderão ser alteradas pelo processo legislativo ordinário. [...] Ressalte-se que a Constituição Federal de 1988 pode ser considerada como super-rígida, uma vez que em regra poderá ser alterada por um processo legislativo diferenciado, mas, excepcionalmente, em alguns pontos é imutável. (CF, art. 60, § 4.°- cláusulas pétreas) De toda a sorte, a doutrina majoritária classifica a Carta Magna de 1988 como sendo formal, escrita, promulgada, rígida, analítica e dogmática. TEMA 4 – APLICABILIDADE E EFICÁCIA DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS Quando pensamos nas normas estampadas na Constituição, é crível imaginar que sejam todas elas eficazes e que possam ser aplicadas imediatamente. Mas, ao analisarmos uma pouco mais, verificando o bojo de normas que se apresentam, começamos a notar que para algumas delas faltam determinados requisitos para que tenham eficácia e aplicabilidade de imediato, podendo ser autoexecutáveis ou não, sendo elas classificadas em normas constitucionais de eficácia plena; contida ou limitada. Na visão do insigne José Afonso da Silva (2012, p. 63): [...] são auto executáveis “as determinações, para executar as quais, não se haja mister de constituir ou designar uma autoridade, nem criar ou indicar um processo especial, e aquelas onde o direito instituído se ache armado por si mesmo, pela sua própria natureza, dos seus meios de execução e preservação”. As normas não auto executáveis são as que “não revestem dos meios de ação essenciais ao seu exercício os direitos, que outorgam, ou os encargos, que impõem: estabelecem competências, atribuições, poderes, cujo uso tem de aguardar que a Legislatura, segundo o seu critério, os habilite a exercerem. Segue o referido autor (op. cit. p. 64) classificando as normas constitucionais relativamente à sua aplicabilidade e eficácia: A. Normas constitucionais de eficácia plena e aplicabilidade imediata; B. Normas constitucionais de eficácia contida e aplicabilidade imediata, mas passíveis de restrição; C. Normas constitucionais de eficácia limitada ou reduzida (que compreendem as normas definidoras de princípio institutivo e as definidoras de princípio programático), em geral dependentes de integração infraconstitucional para operarem a plenitude de seus efeitos. Vários são os autores que conseguem classificar as normas constituições dentro de suas óticas, mas, como regra, seguindo esse mesmo ponto de vista. De todo a sorte, preferimos continuar com a classificação adotada por Jose Afonso da Silva, tentando explicá-las um pouco mais. 4.1 Normas constitucionais de eficácia plena Este tipo de norma constitucional se distingue das demais, por ser autoexecutável, possuindo aplicabilidade imediata, não dependendo, portanto, de nada que a complemente ou regule. De acordo com Dutra (2018, p. 46): “as normas constitucionais de eficácia plena, desde sua gênese, produzem, ou ao menos possuem a possibilidade de produzir, todos os efeitos visados pelo constituinte (originário ou derivado). São, portanto, autoaplicáveis”. Trazemos alguns artigos da Carta Magna de 1988, onde fica evidenciada sua eficácia plena: Art. 21. Compete à União: I - manter relações com Estados estrangeiros e participar de organizações internacionais; II - declarar a guerra e celebrar a paz; III - assegurar a defesa nacional; [...] Art. 84. Compete privativamente ao Presidente da República: I - nomear e exonerar os Ministros de Estado; II - exercer, com o auxílio dos Ministros de Estado, a direção superior da administração federal; III - iniciar o processo legislativo, na forma e nos casos previstos nesta Constituição; [...] Art. 101. O Supremo Tribunal Federal compõe-se de onze Ministros, escolhidos dentre cidadãos com mais de trinta e cinco e menos de setenta anos de idade, de notável saber jurídico e reputação ilibada. Parágrafo único. Os Ministros do Supremo Tribunal Federal serão nomeados pelo Presidente da República, depois de aprovada a escolha pela maioria absoluta do Senado Federal. Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda da Constituição, cabendo-lhe: I - processar e julgar, originariamente: [...] Deixando claro que outras normas de eficácia plena estão contidas na atual Lei Fundamental de 1988. 4.2 Normas constitucionais de eficácia contida As normas constitucionais de eficácia contida possuem aplicabilidade diretae imediata, mas por algum motivo necessitam de algo mais, pois sua aplicabilidade não é integral, podendo seu alcance ser reduzido ou restringido pelo Poder Público. Sob o prisma de Temer (2014, p. 27), estas normas constitucionais: “[...] são aquelas que têm aplicabilidade imediata, integral, plena, mas que podem ter reduzido seu alcance pela atividade do legislador infraconstitucional. Por isso mesmo, aliás, preferimos denominá-las de normas constitucionais de eficácia redutível ou restringível”. Citamos aqui alguns exemplos de normas de eficácia contida da CF/1988: Art. 5º [...] XXII - é garantido o direito de propriedade; [...] XXIV - a lei estabelecerá o procedimento para desapropriação por necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social, mediante justa e prévia indenização em dinheiro, ressalvados os casos previstos nesta Constituição; [...] XXV - no caso de iminente perigo público, a autoridade competente poderá usar de propriedade particular, assegurada ao proprietário indenização ulterior, se houver dano; [...] Art. 133. O advogado é indispensável à administração da justiça, sendo inviolável por seus atos e manifestações no exercício da profissão, nos limites da Lei. 4.3 Normas constitucionais de eficácia limitada As normas constitucionais de eficácia limitada não podem ser aplicadas direta e imediatamente, pois precisam de regulamentação pela Lei, não produzindo, pois, seus efeitos essenciais enquanto não sobrevier legislação infraconstitucional que a regulamente. Barroso (2023, p. 252) assim explica as normas constitucionais de eficácia limitada: [...] normas de eficácia limitada são as que não receberam do constituinte normatividade suficiente para sua aplicação, o qual deixou ao legislador ordinário a tarefa de completar a regulamentação das matérias nelas traçadas em princípio ou esquema. Estas normas, contudo, ao contrário do que ocorria com as ditas não autoaplicáveis, não são completamente desprovidas de normatividade. Pelo contrário, são capazes de surtir uma série de efeitos, revogando as normas infraconstitucionais anteriores com elas incompatíveis, constituindo parâmetro para a declaração da inconstitucionalidade por ação e por omissão, e fornecendo conteúdo material para a interpretação das demais normas que compõem o sistema constitucional. Como exemplo, colhemos algumas normas de eficácia limitada do texto constitucional de 1988: Art. 7º [...] V - salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender às suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim; [...] Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. Deixamos claro que todas as normas constitucionais são cobertas de eficácia jurídica, porém nem sempre possuem aplicabilidade imediata, direta e irrestrita. TEMA 5 – PODER CONSTITUINTE A própria Constituição determina quem tem a competência de elaborá-la e de alterá-la. Aquele que pode elaborar uma constituição detém o chamado Poder Constituinte Originário e quem pode alterar uma Constituição detém o Poder Constituinte Derivado, também chamado de Poder Reformador. Na Constituição vigente no Brasil, a CF/1988 e o Poder Constituinte Originário vêm já do parágrafo único de seu art. 1º, quando afirma que: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. Exercendo este poder, o povo brasileiro elege uma Assembleia Nacional Constituinte para elaborar e promulgar uma nova Constituição, que pode ser o Congresso Nacional, composto do Senado e da Câmara Federal, como foi para a criação da CF/1988. Esta Assembleia Nacional Constituinte se desfaz após a promulgação da nova Constituição. Já a Constituição em vigor pode ser alterada, por meio de emendas constitucionais, não mais por quem possui o Poder Constituinte Originário, mas por quem detém o Poder Derivado, que também pelo povo é eleito. No caso da CF/1988, é o próprio Congresso Nacional, com poderes dados pela Constituição. Nos ensina Jose Afonso da Silva (op. cit., p. 49), [...] a Constituição conferiu ao Congresso Nacional a competência para elaborar emendas a ela; o próprio poder constituinte originário, ao estabelecer a CF, instituiu um poder constituinte reformador; no fundo, o agente ou sujeito da reforma, é o poder constituinte originário, que, por esse método, atua em segundo grau, de modo indireto, pela outorga de competência à um órgão constituído para, em seu lugar, proceder às modificações na Constituição [...]. Assim dispõe a CF/1988 em seu art. 60: [...] § 2º A proposta será discutida e votada em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, considerando-se aprovada se obtiver, em ambos, três quintos dos votos dos respectivos membros. § 3º A emenda à Constituição será promulgada pelas Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, com o respectivo número de ordem. [...] É bem verdade que nem todas as normas existentes na Constituição podem ser modificadas pelo Poder Constituinte Derivado, são as “cláusulas pétreas”, como a determinação do mesmo art. 60, em seu § 4º: [...] § 4º Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: I - a forma federativa de Estado; II - o voto direto, secreto, universal e periódico; III - a separação dos Poderes; IV - os direitos e garantias individuais. [...] São estas as principais características do Poder Constituinte. Na prática A Constituição do Brasil vigente desde 1988, chamada de Constituição cidadã, tem como um de seus objetivos fundamentais, de acordo com o artigo 3º, inciso III, erradicar a pobreza e a marginalização. Como você define e caracteriza esse tipo de norma constitucional? Será uma norma de eficácia plena, contida ou limitada? FINALIZANDO Vimos nesta etapa o Estado e seus poderes constituídos. Pudemos também fazer uma abordagem sobre a Constituição, suas classificações, sua aplicabilidade, por meio do estudo das eficácias das normas constitucionais, bem como de que maneira ela pode ser elaborada e posteriormente modificada. REFERÊNCIAS ALCANTARA, S. VENERAL, D. Direito aplicado. 4.ed. Curitiba: InterSaberes, 2023. BARROSO, L. Curso de direito constitucional contemporâneo. 11.ed. São Paulo: Saraiva, 2023. BOBBIO, N. Liberalismo e democracia. (Trad. brasileira de Marco Aurélio Nogueira). 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1988. BRASIL. Constituição (1988). Diário Oficial da União, Brasília, 5 out. 1988. Disponível em: . Acesso em: 5 abr. 2023. CANOTILHO, J. Direito constitucional e teoria da constituição. 7 ed. Coimbra: Livraria Almedina, 2003. DALLARI, D. Elementos de teoria geral do estado. 25. ed. São Paulo: Saraiva, 2005. DUTRA, L. Direito constitucional essencial. Rio de Janeiro: Método. 4.ed. 2018. HACK, É. Direito constitucional: conceito, fundamentos e princípios básicos. Curitiba: InterSaberes, 2012. KELSEN, H. Teoria pura do direito. São Paulo: Martins Fontes, 1998. RICCITELLI, A. Direito constitucional: teoria do Estado e da constituição. Barueri: Manole, 2007. MORAES, A. Direito constitucional. 38. ed. São Paulo: Atlas, 2022. SILVA, J. Curso de direito constitucional positivo. 44. ed. São Paulo: Malheiros, 2022. _____. Aplicabilidade das normas constitucionais. 8.ed. São Paulo: RT, 2012. STRECK, L. MORAIS, J. Ciência política e teoria do Estado. 5. ed. PortoAlegre: Livraria do Advogado, 2006. TEMER, M. Elementos de direito constitucional. 24. ed. São Paulo: Malheiros, 2014. Esta ação abrirá um link externo. Tem certeza de que deseja acessá-lo? Vamos fazer um tour pela rota nova? Aula 1 DIREITO CONSTITUCIONAL Silvano Alves Alcantara Conversa inicial TEMA 1 – O ESTADO TEMA 2 – A CONSTITUIÇÃO E O DIREITO CONSTITUCIONAL TEMA 3 – CLASSIFICAÇÃO DAS CONSTITUIÇÕES TEMA 4 – APLICABILIDADE E EFICÁCIA DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS 4.1 Normas constitucionais de eficácia plena 4.2 Normas constitucionais de eficácia contida 4.3 Normas constitucionais de eficácia limitada TEMA 5 – PODER CONSTITUINTE Na prática FINALIZANDO REFERÊNCIAS