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1 CCDD ─ Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico História Contemporânea das Relações Internacionais Aula 3 Prof. Andrew Traumann 2 CCDD ─ Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico Conversa Inicial Na aula de hoje abordaremos dois momentos muito importantes que precedem a Segunda Guerra Mundial. O período entre guerras (1919-1939) é marcado por turbulências políticas decorrentes da situação econômica da Alemanha e do governo impopular da República de Weimar, atingido por tentativas de golpe tanto pela esquerda quanto pela direita. E a Crise de 29, que causará um cataclismo na economia mundial permitindo a ascensão de regimes autoritários no mundo todo, devido a desilusão com o liberalismo, entre eles o nazismo que com sua ideologia racista e expansionista arrastou o mundo para o maior conflito da história. Segundo o historiador britânico Eric Hobsbawm, é impossível compreender a Segunda Guerra Mundial sem entender previamente o que ocorreu no cenário internacional no chamado Período Entreguerras (décadas de 1920 e 1930). É nessas décadas que se dará a ascensão do regime Fascista na Itália, do Nazista na Alemanha, do Franquista na Espanha e do Salazarista em Portugal, só para ficar em alguns exemplos. O terremoto econômico que sacudiu o mundo, em 1929, levou vários países a uma onda de autoritarismo e protecionismo em todo o globo. O liberalismo, desacreditado até a década de 1980, daria lugar a economias e governos centralizados, substituição de importações e nacionalismos exacerbados e beligerantes. Devemos buscar compreender esse período, portanto, com base em dois eventos: o Tratado de Versalhes, que imputava toda a culpa da Primeira Guerra Mundial à Alemanha − endividando-a e consequentemente afundando- a em terrível crise econômica −; e à Crise de 29, que atingiu toda a economia global, desde países exportadores de frutas tropicais até as Grandes Potências, fazendo com que o socialismo soviético fosse visto pela primeira vez como uma alternativa ao sistema capitalista. 3 CCDD ─ Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico A Alemanha pós Primeira Guerra Mundial A Alemanha do pós-guerra encontrava-se em uma situação bastante difícil. Pela primeira vez o País vivia sob um regime republicano e liberal, mas em circunstâncias bastante adversas. O fato de a República de Weimar, que sucedera o Império Alemão após a renuncia de Guilherme II, ter assinado a rendição na Primeira Guerra e o Tratado de Versalhes − que fez com que a Alemanha perdesse território, população e assumisse uma dívida impagável − fez com que o liberalismo tivesse vida curta naquele país. O sentimento de humilhação pelo Tratado de Versalhes se aprofundou com a ocupação francesa do Vale do Ruhr, o centro industrial alemão. O principal problema era que a França, no intento de deixar a Alemanha permanentemente enfraquecida, queria receber suas indenizações devidas em espécie e não em mercadorias ou renda de exportação e, para isso, invadiu a Alemanha. A comunidade internacional se mobilizou e exigiu a retirada da França que, aliás, não conseguiu seu intento, uma vez que os trabalhadores alemães pacificamente resistiram a trabalhar para os franceses. A situação econômica era trágica: a inflação chegou a inacreditáveis 29.500% ao mês e um dólar valia 4 bilhões de marcos alemães. Famílias inteiras viam a poupança de uma vida toda desaparecer, corroída pela inflação. Desde o princípio de seu governo, o presidente Friedrich Ebert foi questionado tanto pela esquerda quanto pela direita alemã. Já em 1916, Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo haviam fundado a Spartakusbund ou Liga Espártaco, em homenagem ao famoso líder de uma rebelião escrava na Roma Antiga. A Spartakusbund tentou uma tomada de poder em Berlim, mas foi detida pelos Freikorps (“corpos livres”, milícias de extrema direita apoiadas extraoficialmente pelo governo para eliminar seus inimigos). Os Freikorps assassinaram a tiros Liebknecht e Luxemburgo a mando de Ebert. Apesar das tentativas de tomada do poder, o comunismo na Alemanha tinha apoio apenas 4 CCDD ─ Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico em camadas específicas da sociedade, como o operariado e alguns intelectuais. Na verdade, naquele momento, o único discurso que poderia reunir os alemães seria o discurso nacionalista da revanche sobre o que aconteceu em Versalhes. E esse discurso estava com a direita. O jovem Adolf Hitler, que participou da Primeira Guerra Mundial e que se sentia extremamente frustrado com a rendição da Alemanha, passa a frequentar as reuniões do recém-fundado Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães e, logo, torna-se um de seus principais líderes. Assim como fez Mussolini, que organizou uma Marcha sobre Roma e ascendeu ao poder na Itália, Hitler tentou chegar ao poder: na manhã de 08/11/1923 ele e mais um grupo de seguidores tentaram um golpe que ficou conhecido como o Putsch da Cervejaria. A ideia era marchar da Cervejaria para o palácio do governo, pois foi negociado que o governador da Baviera Gustav Von Kahr lhe cederia o poder. No entanto, no último momento, Kahr mudou de ideia e decidiu confrontar os nazistas. Vários foram mortos ou feridos em enfrentamento com as forças do governo. Hitler fugiu durante o tiroteio, mas acabou preso em sua casa. Em seu julgamento em 01 de abril de 1924, Hitler obteve permissão para fazer sua própria defesa. Naquele momento nascia o Hitler orador. Em sua defesa, justificou a tentativa de golpe, expressando todo o ressentimento do povo alemão com o que ocorrera com o país nos últimos anos. Seu discurso foi tão impressionante que sua pena foi reduzida de 5 anos para 9 meses. No período em que permaneceu na cadeia, escreveu a obra síntese do Nazismo: “Mein Kempf”, ou “Minha Luta”, em que destila seu ódio contra os judeus, o bolchevismo, o liberalismo e a República, proclamando uma “luta de raças” na qual, com base em uma visão distorcida da teoria darwinista, a raça ariana dominaria as demais. Daquele momento em diante, contudo, Hitler desistiria de chegar ao poder por meio de golpes. Decidiu que ascenderia 5 CCDD ─ Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico pelas vias legais e só então, lá do alto do poder, chutaria a escada da democracia e a destruiria por dentro. A crise econômica, por sua vez, teria os EUA como epicentro. No início do século XX, os EUA já eram o maior exportador do mundo, o segundo maior importador e responsável por 42% da produção mundial. O período que antecede a Primeira Guerra Mundial foi um período de grande imigração europeia para o continente americano. No entanto, a partir de 1915, os EUA passaram a restringir a entrada de novos imigrantes. Se entre 1900 e 1914, quinze milhões de imigrantes haviam entrado no país, em 1930 foram apenas 750 mil. Tal redução ocorreu devido a uma onda de protecionismo que se espalhou pelo globo. Os EUA pouco foram afetados pela Primeira Guerra Mundial e, assim, sua produção se manteve a mesma do pré-guerra. No entanto, o mesmo não se dava com seus parceiros comerciais. Naquele momento, a Europa se dividia entre países arruinados, incapazes de importar nos mesmos níveis de antes da guerra, e aqueles que já começavam a se reerguer estabeleceram um plano de substituição de importações. O que ocorre em seguida é bastante lógico: a oferta é muito maior que a demanda. E o mesmo aconteceu internamente, pois com o aumento da produção, não sendo acompanhado por aumentos salariais, o consumo interno estagnou. Além de salários congelados, não se geravam novos postos de trabalho. A concentração de renda também era um problema: 50% do capital estava nas mãos de 200 empresas. O governo começou então uma campanha de expansão do crédito para a compra de automóveis e casas, e os bancospassaram a incentivar em seu portfólio de serviços o investimento em ações. Assim, títulos de empresas passaram a ser vistos como patrimônio pessoal, e a especulação fez com que seus preços ficassem sem lastro, ou 6 CCDD ─ Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico seja, eram cotados a preços irreais, muito acima de seus valores. Em suma, todos queriam vender, mas ninguém queria comprar. Na ânsia de vender e se monetizar, acionistas passaram a baixar seus preços de venda. Hoje, em qualquer movimento semelhante, o pregão seria interrompido. Em outubro de 1929, as negociações prosseguiram com o preço dos papéis despencando progressivamente até não valerem praticamente nada. Com a estagnação do consumo, as empresas começaram a demitir. As demissões levaram à inadimplência daqueles que haviam contraído empréstimos. Além disso, as pessoas passaram a utilizar o dinheiro de suas poupanças, e os investidores deixaram de investir, o que deixou bancos e empresas sem capital para trabalhar. Dessa forma, os bancos reduziram o crédito. É uma bola de neve: nos EUA o número de desempregados chegou a 13 milhões. Entre 1929 e 1933, cento e dez mil falências foram decretadas, e mil hipotecas foram executadas por dia no país. O PIB caiu pela metade, e os salários sofreram baixa de 60%. A diminuição na demanda industrial afetou também os países produtores de matérias-primas. Com a queda na produção automobilística, a produção de borracha nos países em desenvolvimento foi praticamente paralisada. A diminuição na venda de roupas levou a demissões tanto nas empresas quanto nas lavouras de algodão dos países produtores. O Brasil sofreu bastante com a Crise, pois o café representava 72% da sua produção e, de repente, tal produto não tinha mais demanda: aliás, nem o café, o cacau e a banana, três dos principais produtos da pauta brasileira, classificada por alguns economistas como “economia de sobremesa”. De 1929 até quase o final da Segunda Guerra Mundial, o País queimou café em seus portos ou o usou como substituto do carvão nas locomotivas para impulsionar sua valorização. O Brasil foi, portanto, duplamente afetado: pela natureza de sua pauta de exportação (considerada pelo mercado internacional como de 7 CCDD ─ Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico produtos supérfluos) e porque seu maior parceiro comercial, os EUA, reduziu drasticamente suas importações. Na Europa, a situação era ainda mais dramática: com a Crise, os EUA, cujos empréstimos financiavam a recuperação alemã (e aproveitavam a sua mão de obra barata), simplesmente retiraram seus investimentos dos bancos europeus. A paralisação da cadeia produtiva aumentou o desemprego para 23% na Grã-Bretanha, 27% nos EUA e 44% na Alemanha. Naquela época, menos de 60% dos britânicos tinham acesso ao seguro desemprego. Conforme a Crise se prolongava, mais dramática ficava a situação dos desempregados, cujas economias se esvaíam levando famílias inteiras às emblemáticas filas de pão e de sopa. O economista britânico John Maynard Keynes terá, então, suas ideias aplicadas em todo o mundo, mas mais surpreendentemente nos EUA. Para Keynes, uma sociedade com base no consumo necessita do pleno emprego e de boa distribuição de renda. O autointitulado médico do capitalismo dizia que o desemprego era socialmente explosivo e que cabia ao Estado gerar empregos onde a iniciativa privada não poderia ou não queria investir, por meio da construção de obras. A ideia era quebrar o ciclo vicioso de demissões e queda no consumo gerado justamente pela baixa do poder de compra do desempregado. O plano ficou conhecido como New Deal e aliviou muito a crise econômica norte-americana: o desemprego caiu para 1% apenas, graças à construção de 77 mil pontes, 285 obras, como aeroportos, usinas, estradas, escolas e hospitais. O restante do mundo também aceitou a ideia da maior intervenção do Estado para gerar empregos e reaquecer a economia. Muitos destes países, no entanto, não passaram apenas por mudanças econômicas, mas também 8 CCDD ─ Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico políticas. Na América Latina, houve 12 mudanças de governo no início da década de 1930. Dez delas por meio de golpes militares. Houve uma guinada à direita em todo o mundo. Diante das incertezas causadas pela Crise, as massas pareciam se sentirem confortadas com a ideia de um governo forte, centralizador e paternalista, que as protegessem tanto do liberalismo − representado pelas grandes transnacionais, que poderiam acabar com a pequena indústria local − como do comunismo e suas ideias ateístas e de fim da propriedade privada. Nazi-Fascismo A Crise de 1929 representou um tempo de incertezas e instabilidades política e econômica. Representou também um retorno ao nacionalismo de antes da Primeira Guerra Mundial. Os problemas econômicos fragilizaram a democracia, que era recente e frágil. Para muitos, desacostumados com os trâmites tradicionais da democracia, pois tal regime era demasiado lento para a resolução de problemas urgentes que afligiam suas nações. Estes regimes que ascenderam ao poder na Europa e em várias outras partes do mundo souberam usar de forma muito eficiente a propaganda para canalizar essas emoções, utilizando-se de símbolos e ritos presentes no inconsciente de cada nação. Economicamente, houve grande cooperação entre Estado e empresariado, em que este último foi bastante beneficiado pelos projetos de infraestrutura e rearmamento do primeiro, aceitando pequenas concessões na área trabalhista para evitar eventuais levantes de caráter comunista. Figura 1: O fasces ou feixe, símbolo da magistratura romana. O feixe simboliza a força pela união, já que uma haste isolada é fácil de ser quebrada, enquanto o feixe é muito mais difícil de se quebrar. O machado, que na Antiguidade Romana simbolizava a Justiça, nos Estados 9 CCDD ─ Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico fascistas passa a simbolizar o Estado, que é maior que a soma de seus indivíduos e em torno do qual todos devem se unir. Fonte: http://www.isimbolidelladiscordia.it/2013/01/fascio-si-fascio-no.html. O objetivo declarado de Benito Mussolini era sepultar a herança das revoluções de 1789 e 1917, ou seja, era antiliberal e antimarxista. Para os fascistas, o uso da razão, valorizado pelo liberalismo clássico, levava à dúvida e ao debate, e isso fragmentava a Nação, portanto deveria ser combatido. O povo deveria permitir que Il Duce, O Líder, pensasse por eles. A livre concorrência evidentemente também levava à competição e ao conflito, portanto o Estado deveria ser o principal ator econômico. Da mesma forma, a luta de classes apregoada pelo marxismo também era uma forma de dividir o país e deveria ser combatida. A proposta de Mussolini para os trabalhadores era de que eles deveriam se unir em prol da Nação Italiana, e que seriam feitas reformas para o seu bem-estar sem necessidade de revolução. O slogan do partido resumia bem essa forma de pensar: “Um Líder, um partido, uma vontade”. Sua principal base de apoio era a classe média baixa, que esperava um Estado que a protegesse do grande capital e da revolução proletária, além de possuir um caráter de conservadorismo cristão. Mussolini surgiu dentro de um contexto muito complexo para a Itália: o país havia se retirado da Tríplice Aliança na I Guerra em troca de colônias na 10 CCDD ─ Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico África e de algumas partes da Áustria, e tais promessas não foram cumpridas. Mesmo não tendo participado do conflito, a situação econômica do País não era diferente da dos demais: fome, desemprego, inflação e greves. Movimentos trabalhistas ocupavam fábricas e camponeses ocupavam terras. Tais movimentos, apesar de desordenados (tanto as fábricas quanto as terras eram desocupadas em poucosdias), levou a uma sensação de insegurança e medo nas classes média e alta, e Mussolini soube explorar este medo. Então, fundou o Partido Fascista em 1919, reunindo uma milícia chamada de Camisas Negras, formada por veteranos da Primeira Guerra Mundial, e jovens em geral, dispostos a invadir sindicatos e agredir seus membros. Os sindicatos, por sua vez também formaram sua milícia, os Camisas Vermelhas. Os constantes confrontos aumentaram a sensação de que a Itália estava à beira de uma guerra civil. Motivado pelo apoio recebido, em 1922, Mussolini dá uma cartada ousada (na verdade um blefe) que acaba funcionando: exige que o Rei Vítor Emanuel III lhe ceda o poder ou o tomaria pela força com seus vinte mil Camisas Negras. Alguns conselheiros do rei, na verdade simpatizantes do fascismo, convencem Vitor Emanuel III a ceder sob a alegação de que o enfrentamento causaria um “banho de sangue” e Benito Mussolini é alçado ao posto de Primeiro-Ministro. Uma vez no poder, dissolve o Parlamento, persegue adversários políticos, controla os sindicatos e suspende direitos constitucionais como a liberdade de expressão e de associação. Para melhorar a situação econômica do país tomou medidas nacionalistas demagógicas, fechando vários setores da economia à importação, sob a alegação de valorizar os produtos nacionais. Sem concorrentes, contudo, tais produtores aproveitaram para aumentar os preços, causando insatisfação geral. Para contê-la, o Partido Fascista se utilizou da propaganda que repetia o tempo todo como a situação na Itália estava melhor sob o governo fascista. Com resultados nada impressionantes na economia, 11 CCDD ─ Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico não é de se surpreender que Mussolini não tenha obtido na Itália o mesmo grau de adoração e de obediência que Hitler tinha na Alemanha. Talvez seu maior legado seja o Tratado de Latrão, em 1929. Este finalmente resolveu com a Igreja a questão dos Estados Pontifícios (ou Questão Romana, como era conhecida), na qual a Santa Sé reconheceu Roma como capital da Itália, renunciando aos Estados Pontifícios e aceitando que sua soberania se limite ao Estado do Vaticano com apenas 0,44 km quadrados. Em troca, a Igreja recebeu uma indenização de 750 bilhões de liras, o status de religião oficial do país, a proibição do divórcio, o foro privilegiado para clérigos e a promoção pelo Estado do ensino do catolicismo nas escolas. Nazismo Adolf Hitler (1889-1945) nasceu em Linz, na Áustria. Pintor frustrado, viveu de empregos temporários e de uma pensão para órfãos dos 19 aos 21 anos. Justamente ao chegar nessa idade recebeu uma herança de uma tia, o que o permitiu mais alguns anos de ociosidade, acordando tarde e frequentando teatros e óperas à noite. Rejeitado duas vezes pela Academia de Artes de Viena, o então jovem Hitler teve sua vida mudada pela Primeira Guerra Mundial. O conflito lhe dá uma razão para viver. Condecorado com a Cruz de Ferro por duas vezes, ele se viu extremamente frustrado com a rendição alemã e com a subsequente humilhação em Versalhes. Figura 2: A suástica é um símbolo antiquíssimo, presente em diversas culturas. Foram encontradas suásticas em templos e estátuas na Índia, sudeste asiático e até entre os índios navajos norte-americanos. A suástica possui vários simbolismos: representa os quatro elementos (água, ar, fogo e terra), o sol e o trovão, além de seu desenho passar a imagem de movimento e dinâmica. As cores da bandeira nazista (preto, branco e vermelho) remetem ao Sacro Império Romano-Germânico, cujo território deveria ser recriado pelo III Reich, segundo a ideologia nazista. 12 CCDD ─ Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico Fonte: http://m.wangchao.net.cn/baike/scdetail_26135.html Em 1920, Hitler se une ao recém-fundado Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (Partido Nazista), em que logo se torna sua principal liderança. Apesar do nome, o partido compreendia o socialismo de uma forma completamente distinta do que se entende como socialismo hoje, nutrindo ódio pelo marxismo e pela luta de classes. Para os nazistas, a palavra “socialismo” remetia ao coletivismo, a união dos alemães em contraposição ao individualismo tipicamente liberal. O Nazismo era frontalmente contra a ideia de igualdade proposta pelo socialismo. Trata-se de uma ideologia baseada na ideia de hierarquia racial, nacional, militar etc. Além disso, de forma similar ao fascismo, o nazismo também propunha a aniquilação das vontades individuais em prol da pátria. A ideologia nazista estava baseada nos três R’s: Reich (Reino): retorno aos tempos gloriosos do Sacro Império Romano-Germânico, tanto em poderio quanto em extensão. Figura 3: Mapa do Sacro Império Romano-Germânico 13 CCDD ─ Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico Fonte: http://cdn7.mihistoriauniversal.com/wp-content/uploads/mapa-sacro-imperio- germanico.jpg Raum (espaço): com base nas ideias do geopolítico alemão Friedrich Ratzel, que dizia que “um Estado deve ser do tamanho da sua capacidade de organização”, ou seja, que um Estado tem o direito de se expandir territorialmente mesmo à custa de outros povos, para que se desenvolvesse plenamente com base na “superioridade” da raça dominante. Rasse (raça): o conceito de raça é a chave para se compreender o pensamento de Hitler. Para ele, o mundo era dividido em uma pirâmide de raças na qual os arianos ocupavam o topo. No meio da pirâmide estavam povos como os árabes, latinos e eslavos, que poderiam servir como mão de obra escrava para os arianos. Na base da pirâmide encontravam-se os indesejáveis, que deveriam ser exterminados, como judeus, negros, homossexuais, ciganos e Testemunhas de Jeová. Também estavam passíveis de extermínio deficientes físicos e mentais, chamados pelos nazistas de “vidas indignas de serem vividas”. 14 CCDD ─ Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico E por que tais ideias, que hoje nos soam repulsivas, tiveram aceitação não só na Alemanha, mas em várias partes do mundo? A resposta é o “carimbo” da ciência. No início do século XX, surgiu uma pseudociência chamada Eugenia (bem nascer), criada pelo primo de Charles Darwin, Francis Galton. Inspirado em Gregor Mendel, mas subvertendo suas ideias de que a miscigenação era algo bom para a espécie humana, Galton passa a pensar a espécie humana da mesma forma que muitos criadores de cavalos, ou seja, o aprimoramento da “raça” por meio de cruzamentos apropriados e a proibição de cruzamentos indesejados. Nos EUA a Eugenia se tornou política pública em 29 Estados, que aprovaram leis de esterilização em massa de negros, judeus, hispânicos, alcoólatras, mendigos etc. O Nazismo se apropriou dessas ideias, mas as levou a um novo patamar de perversidade: em vez de esterilizar (o que já seria uma violação em si), o extermínio puro e simples dos ditos “inferiores”. Para Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, o nazismo poderia ser definido como “biologia aplicada”. Com a propaganda martelando a mente dos alemães e a garantia de que tais ideias eram “cientificamente comprovadas”, as esterilizações e, mais tarde, a matança passam a ser vistas como a dedetização de uma “praga” dentro da sociedade, um ato que a faria melhor no futuro. Os judeus em especial eram vistos como o oposto de tudo que havia de positivo na sociedade alemã: eram os criadores do marxismo, do pacifismo, do liberalismo, da psicanálise, enfim, de tudo aquilo que contrariava a “lei do mais forte”, proposta pelo nazismo. O povo judeu já havia sofrido perseguições durante a Inquisição e foi proibido de exercer determinadas profissões, como a de médico, restando-lhes o comércio, a ourivesaria e o trabalho que mais atraía o ódio da população alemã, a agiotagem. Tal ocupação facilitou e muito a construção da imagem do judeu comoparasita social, que lucrava em cima da desgraça do povo alemão. No entanto, na Alemanha nazista, a situação dos 15 CCDD ─ Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico judeus era pior do que na Europa do século XVI: afinal, naquela época, o judeu ainda tinha como se salvar das perseguições por meio da conversão ao cristianismo; como o antissemitismo nazista não era baseado em crenças, mas em características biológicas, esse povo não tinha como se defender. Em 1938, a perseguição se tornaria oficial. O embaixador alemão em Londres foi morto por um jovem judeu. Tal incidente foi o pretexto para a Noite dos Cristais, em que sinagogas foram saqueadas, propriedades de judeus confiscadas e estes passaram a viver em uma espécie de apartheid em relação aos alemães, sendo proibidos de frequentar as mesmas escolas, clubes e de se casarem com esses. Com a Crise de 1929, o Partido Nazista começa sua ascensão ao poder. Nas eleições de 1930, obteve mais de seis milhões de votos em comparação aos oitocentos mil que conseguiu dois anos antes. Em 1932, obteve 37% dos votos e 230 cadeiras no Parlamento. Franz Von Papen, que pouco antes havia renunciado ao cargo de chanceler, passou a admirar Hitler e o via como um dique de contenção ao comunismo. Assim, convenceu o presidente Paul Von Hindenburg a nomear Adolf Hitler como chanceler, medida que teve apoio de industriais e latifundiários. Em fevereiro de 1933, Hitler adotou como pretexto um incêndio ao Reichstag (parlamento) realizado por um andarilho holandês, que se dizia comunista, para pressionar Hindenburg a suspender os direitos civis sob a alegação de que a Alemanha estava sob ataque. Hitler aproveita para cassar mandatos de políticos de esquerda e assim consolidar a maioria no Parlamento para o seu partido. Em março, ele consegue a aprovação de uma lei que lhe deu plenos poderes, tornando-se, assim, um ditador por meios democráticos como concebera quase dez anos antes. 16 CCDD ─ Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico A vida sob o nazismo era regida pela propaganda. Hitler dizia que as massas eram femininas, pois se orientavam pela emoção e pela palavra falada, e que slogans simples deveriam ser constantemente repetidos para que a mensagem entrasse em seus corações como golpes de aríetes. Todas as associações, clubes e escolas estavam sob o controle do partido. O currículo escolar foi adaptado à ideologia nazista. Economicamente, o Estado Alemão se aliou aos oligopólios e aplicou receitas keynesianas que eliminaram o desemprego. A aliança com a indústria transformou a Alemanha em uma máquina de guerra. A Igreja Católica, mais preocupada com o comunismo, também apoiou Hitler. Em meados da década de 1930, a Alemanha havia eliminado o desemprego e recuperado o vigor militar e industrial. Por meio de gigantescas paradas militares, amplamente divulgadas pelo mundo em filmes e fotografias, a Alemanha se mostrava pronta para a revanche.