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CCDD ─ Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 
 
 
 
 
 
História Contemporânea das Relações 
Internacionais 
 
 
 
Aula 3 
 
 
 
Prof. Andrew Traumann 
 
 
 
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CCDD ─ Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 
Conversa Inicial 
Na aula de hoje abordaremos dois momentos muito importantes que 
precedem a Segunda Guerra Mundial. 
O período entre guerras (1919-1939) é marcado por turbulências 
políticas decorrentes da situação econômica da Alemanha e do governo 
impopular da República de Weimar, atingido por tentativas de golpe tanto pela 
esquerda quanto pela direita. 
E a Crise de 29, que causará um cataclismo na economia mundial 
permitindo a ascensão de regimes autoritários no mundo todo, devido a 
desilusão com o liberalismo, entre eles o nazismo que com sua ideologia 
racista e expansionista arrastou o mundo para o maior conflito da história. 
Segundo o historiador britânico Eric Hobsbawm, é impossível 
compreender a Segunda Guerra Mundial sem entender previamente o que 
ocorreu no cenário internacional no chamado Período Entreguerras (décadas 
de 1920 e 1930). É nessas décadas que se dará a ascensão do regime 
Fascista na Itália, do Nazista na Alemanha, do Franquista na Espanha e do 
Salazarista em Portugal, só para ficar em alguns exemplos. O terremoto 
econômico que sacudiu o mundo, em 1929, levou vários países a uma onda de 
autoritarismo e protecionismo em todo o globo. O liberalismo, desacreditado 
até a década de 1980, daria lugar a economias e governos centralizados, 
substituição de importações e nacionalismos exacerbados e beligerantes. 
Devemos buscar compreender esse período, portanto, com base em 
dois eventos: o Tratado de Versalhes, que imputava toda a culpa da Primeira 
Guerra Mundial à Alemanha − endividando-a e consequentemente afundando-
a em terrível crise econômica −; e à Crise de 29, que atingiu toda a economia 
global, desde países exportadores de frutas tropicais até as Grandes 
Potências, fazendo com que o socialismo soviético fosse visto pela primeira 
vez como uma alternativa ao sistema capitalista. 
 
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A Alemanha pós Primeira Guerra Mundial 
A Alemanha do pós-guerra encontrava-se em uma situação bastante 
difícil. Pela primeira vez o País vivia sob um regime republicano e liberal, mas 
em circunstâncias bastante adversas. O fato de a República de Weimar, que 
sucedera o Império Alemão após a renuncia de Guilherme II, ter assinado a 
rendição na Primeira Guerra e o Tratado de Versalhes − que fez com que a 
Alemanha perdesse território, população e assumisse uma dívida impagável − 
fez com que o liberalismo tivesse vida curta naquele país. O sentimento de 
humilhação pelo Tratado de Versalhes se aprofundou com a ocupação 
francesa do Vale do Ruhr, o centro industrial alemão. O principal problema era 
que a França, no intento de deixar a Alemanha permanentemente 
enfraquecida, queria receber suas indenizações devidas em espécie e não em 
mercadorias ou renda de exportação e, para isso, invadiu a Alemanha. A 
comunidade internacional se mobilizou e exigiu a retirada da França que, aliás, 
não conseguiu seu intento, uma vez que os trabalhadores alemães 
pacificamente resistiram a trabalhar para os franceses. A situação econômica 
era trágica: a inflação chegou a inacreditáveis 29.500% ao mês e um dólar 
valia 4 bilhões de marcos alemães. Famílias inteiras viam a poupança de uma 
vida toda desaparecer, corroída pela inflação. 
Desde o princípio de seu governo, o presidente Friedrich Ebert foi 
questionado tanto pela esquerda quanto pela direita alemã. Já em 1916, Karl 
Liebknecht e Rosa Luxemburgo haviam fundado a Spartakusbund ou Liga 
Espártaco, em homenagem ao famoso líder de uma rebelião escrava na Roma 
Antiga. A Spartakusbund tentou uma tomada de poder em Berlim, mas foi 
detida pelos Freikorps (“corpos livres”, milícias de extrema direita apoiadas 
extraoficialmente pelo governo para eliminar seus inimigos). Os Freikorps 
assassinaram a tiros Liebknecht e Luxemburgo a mando de Ebert. Apesar das 
tentativas de tomada do poder, o comunismo na Alemanha tinha apoio apenas 
 
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em camadas específicas da sociedade, como o operariado e alguns 
intelectuais. Na verdade, naquele momento, o único discurso que poderia 
reunir os alemães seria o discurso nacionalista da revanche sobre o que 
aconteceu em Versalhes. E esse discurso estava com a direita. 
O jovem Adolf Hitler, que participou da Primeira Guerra Mundial e que se 
sentia extremamente frustrado com a rendição da Alemanha, passa a 
frequentar as reuniões do recém-fundado Partido Nacional Socialista dos 
Trabalhadores Alemães e, logo, torna-se um de seus principais líderes. Assim 
como fez Mussolini, que organizou uma Marcha sobre Roma e ascendeu ao 
poder na Itália, Hitler tentou chegar ao poder: na manhã de 08/11/1923 ele e 
mais um grupo de seguidores tentaram um golpe que ficou conhecido como o 
Putsch da Cervejaria. A ideia era marchar da Cervejaria para o palácio do 
governo, pois foi negociado que o governador da Baviera Gustav Von Kahr lhe 
cederia o poder. No entanto, no último momento, Kahr mudou de ideia e 
decidiu confrontar os nazistas. Vários foram mortos ou feridos em 
enfrentamento com as forças do governo. Hitler fugiu durante o tiroteio, mas 
acabou preso em sua casa. Em seu julgamento em 01 de abril de 1924, Hitler 
obteve permissão para fazer sua própria defesa. Naquele momento nascia o 
Hitler orador. Em sua defesa, justificou a tentativa de golpe, expressando todo 
o ressentimento do povo alemão com o que ocorrera com o país nos últimos 
anos. Seu discurso foi tão impressionante que sua pena foi reduzida de 5 anos 
para 9 meses. No período em que permaneceu na cadeia, escreveu a obra 
síntese do Nazismo: “Mein Kempf”, ou “Minha Luta”, em que destila seu ódio 
contra os judeus, o bolchevismo, o liberalismo e a República, proclamando uma 
“luta de raças” na qual, com base em uma visão distorcida da teoria darwinista, 
a raça ariana dominaria as demais. Daquele momento em diante, contudo, 
Hitler desistiria de chegar ao poder por meio de golpes. Decidiu que ascenderia 
 
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pelas vias legais e só então, lá do alto do poder, chutaria a escada da 
democracia e a destruiria por dentro. 
A crise econômica, por sua vez, teria os EUA como epicentro. No início 
do século XX, os EUA já eram o maior exportador do mundo, o segundo maior 
importador e responsável por 42% da produção mundial. O período que 
antecede a Primeira Guerra Mundial foi um período de grande imigração 
europeia para o continente americano. No entanto, a partir de 1915, os EUA 
passaram a restringir a entrada de novos imigrantes. Se entre 1900 e 1914, 
quinze milhões de imigrantes haviam entrado no país, em 1930 foram apenas 
750 mil. Tal redução ocorreu devido a uma onda de protecionismo que se 
espalhou pelo globo. 
Os EUA pouco foram afetados pela Primeira Guerra Mundial e, assim, 
sua produção se manteve a mesma do pré-guerra. No entanto, o mesmo não 
se dava com seus parceiros comerciais. Naquele momento, a Europa se dividia 
entre países arruinados, incapazes de importar nos mesmos níveis de antes da 
guerra, e aqueles que já começavam a se reerguer estabeleceram um plano de 
substituição de importações. O que ocorre em seguida é bastante lógico: a 
oferta é muito maior que a demanda. E o mesmo aconteceu internamente, pois 
com o aumento da produção, não sendo acompanhado por aumentos salariais, 
o consumo interno estagnou. Além de salários congelados, não se geravam 
novos postos de trabalho. A concentração de renda também era um problema: 
50% do capital estava nas mãos de 200 empresas. O governo começou então 
uma campanha de expansão do crédito para a compra de automóveis e casas, 
e os bancospassaram a incentivar em seu portfólio de serviços o investimento 
em ações. 
Assim, títulos de empresas passaram a ser vistos como patrimônio 
pessoal, e a especulação fez com que seus preços ficassem sem lastro, ou 
 
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seja, eram cotados a preços irreais, muito acima de seus valores. Em suma, 
todos queriam vender, mas ninguém queria comprar. Na ânsia de vender e se 
monetizar, acionistas passaram a baixar seus preços de venda. Hoje, em 
qualquer movimento semelhante, o pregão seria interrompido. Em outubro de 
1929, as negociações prosseguiram com o preço dos papéis despencando 
progressivamente até não valerem praticamente nada. 
Com a estagnação do consumo, as empresas começaram a demitir. As 
demissões levaram à inadimplência daqueles que haviam contraído 
empréstimos. Além disso, as pessoas passaram a utilizar o dinheiro de suas 
poupanças, e os investidores deixaram de investir, o que deixou bancos e 
empresas sem capital para trabalhar. Dessa forma, os bancos reduziram o 
crédito. É uma bola de neve: nos EUA o número de desempregados chegou a 
13 milhões. Entre 1929 e 1933, cento e dez mil falências foram decretadas, e 
mil hipotecas foram executadas por dia no país. O PIB caiu pela metade, e os 
salários sofreram baixa de 60%. A diminuição na demanda industrial afetou 
também os países produtores de matérias-primas. Com a queda na produção 
automobilística, a produção de borracha nos países em desenvolvimento foi 
praticamente paralisada. A diminuição na venda de roupas levou a demissões 
tanto nas empresas quanto nas lavouras de algodão dos países produtores. 
O Brasil sofreu bastante com a Crise, pois o café representava 72% da 
sua produção e, de repente, tal produto não tinha mais demanda: aliás, nem o 
café, o cacau e a banana, três dos principais produtos da pauta brasileira, 
classificada por alguns economistas como “economia de sobremesa”. De 1929 
até quase o final da Segunda Guerra Mundial, o País queimou café em seus 
portos ou o usou como substituto do carvão nas locomotivas para impulsionar 
sua valorização. O Brasil foi, portanto, duplamente afetado: pela natureza de 
sua pauta de exportação (considerada pelo mercado internacional como de 
 
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produtos supérfluos) e porque seu maior parceiro comercial, os EUA, reduziu 
drasticamente suas importações. 
Na Europa, a situação era ainda mais dramática: com a Crise, os EUA, 
cujos empréstimos financiavam a recuperação alemã (e aproveitavam a sua 
mão de obra barata), simplesmente retiraram seus investimentos dos bancos 
europeus. A paralisação da cadeia produtiva aumentou o desemprego para 
23% na Grã-Bretanha, 27% nos EUA e 44% na Alemanha. Naquela época, 
menos de 60% dos britânicos tinham acesso ao seguro desemprego. Conforme 
a Crise se prolongava, mais dramática ficava a situação dos desempregados, 
cujas economias se esvaíam levando famílias inteiras às emblemáticas filas de 
pão e de sopa. 
O economista britânico John Maynard Keynes terá, então, suas ideias 
aplicadas em todo o mundo, mas mais surpreendentemente nos EUA. Para 
Keynes, uma sociedade com base no consumo necessita do pleno emprego e 
de boa distribuição de renda. O autointitulado médico do capitalismo dizia que 
o desemprego era socialmente explosivo e que cabia ao Estado gerar 
empregos onde a iniciativa privada não poderia ou não queria investir, por meio 
da construção de obras. A ideia era quebrar o ciclo vicioso de demissões e 
queda no consumo gerado justamente pela baixa do poder de compra do 
desempregado. 
O plano ficou conhecido como New Deal e aliviou muito a crise 
econômica norte-americana: o desemprego caiu para 1% apenas, graças à 
construção de 77 mil pontes, 285 obras, como aeroportos, usinas, estradas, 
escolas e hospitais. 
O restante do mundo também aceitou a ideia da maior intervenção do 
Estado para gerar empregos e reaquecer a economia. Muitos destes países, no 
entanto, não passaram apenas por mudanças econômicas, mas também 
 
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políticas. Na América Latina, houve 12 mudanças de governo no início da 
década de 1930. Dez delas por meio de golpes militares. Houve uma guinada à 
direita em todo o mundo. Diante das incertezas causadas pela Crise, as 
massas pareciam se sentirem confortadas com a ideia de um governo forte, 
centralizador e paternalista, que as protegessem tanto do liberalismo − 
representado pelas grandes transnacionais, que poderiam acabar com a 
pequena indústria local − como do comunismo e suas ideias ateístas e de fim 
da propriedade privada. 
 
 
Nazi-Fascismo 
A Crise de 1929 representou um tempo de incertezas e instabilidades 
política e econômica. Representou também um retorno ao nacionalismo de 
antes da Primeira Guerra Mundial. Os problemas econômicos fragilizaram a 
democracia, que era recente e frágil. Para muitos, desacostumados com os 
trâmites tradicionais da democracia, pois tal regime era demasiado lento para a 
resolução de problemas urgentes que afligiam suas nações. Estes regimes que 
ascenderam ao poder na Europa e em várias outras partes do mundo 
souberam usar de forma muito eficiente a propaganda para canalizar essas 
emoções, utilizando-se de símbolos e ritos presentes no inconsciente de cada 
nação. Economicamente, houve grande cooperação entre Estado e 
empresariado, em que este último foi bastante beneficiado pelos projetos de 
infraestrutura e rearmamento do primeiro, aceitando pequenas concessões na 
área trabalhista para evitar eventuais levantes de caráter comunista. 
Figura 1: O fasces ou feixe, símbolo da magistratura romana. O feixe simboliza a força pela 
união, já que uma haste isolada é fácil de ser quebrada, enquanto o feixe é muito mais difícil de 
se quebrar. O machado, que na Antiguidade Romana simbolizava a Justiça, nos Estados 
 
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fascistas passa a simbolizar o Estado, que é maior que a soma de seus indivíduos e em torno 
do qual todos devem se unir. 
 
Fonte: http://www.isimbolidelladiscordia.it/2013/01/fascio-si-fascio-no.html. 
O objetivo declarado de Benito Mussolini era sepultar a herança das 
revoluções de 1789 e 1917, ou seja, era antiliberal e antimarxista. Para os 
fascistas, o uso da razão, valorizado pelo liberalismo clássico, levava à dúvida 
e ao debate, e isso fragmentava a Nação, portanto deveria ser combatido. O 
povo deveria permitir que Il Duce, O Líder, pensasse por eles. A livre 
concorrência evidentemente também levava à competição e ao conflito, 
portanto o Estado deveria ser o principal ator econômico. Da mesma forma, a 
luta de classes apregoada pelo marxismo também era uma forma de dividir o 
país e deveria ser combatida. A proposta de Mussolini para os trabalhadores 
era de que eles deveriam se unir em prol da Nação Italiana, e que seriam feitas 
reformas para o seu bem-estar sem necessidade de revolução. O slogan do 
partido resumia bem essa forma de pensar: “Um Líder, um partido, uma 
vontade”. Sua principal base de apoio era a classe média baixa, que esperava 
um Estado que a protegesse do grande capital e da revolução proletária, além 
de possuir um caráter de conservadorismo cristão. 
Mussolini surgiu dentro de um contexto muito complexo para a Itália: o 
país havia se retirado da Tríplice Aliança na I Guerra em troca de colônias na 
 
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África e de algumas partes da Áustria, e tais promessas não foram cumpridas. 
Mesmo não tendo participado do conflito, a situação econômica do País não 
era diferente da dos demais: fome, desemprego, inflação e greves. Movimentos 
trabalhistas ocupavam fábricas e camponeses ocupavam terras. Tais 
movimentos, apesar de desordenados (tanto as fábricas quanto as terras eram 
desocupadas em poucosdias), levou a uma sensação de insegurança e medo 
nas classes média e alta, e Mussolini soube explorar este medo. Então, fundou 
o Partido Fascista em 1919, reunindo uma milícia chamada de Camisas 
Negras, formada por veteranos da Primeira Guerra Mundial, e jovens em geral, 
dispostos a invadir sindicatos e agredir seus membros. Os sindicatos, por sua 
vez também formaram sua milícia, os Camisas Vermelhas. Os constantes 
confrontos aumentaram a sensação de que a Itália estava à beira de uma 
guerra civil. Motivado pelo apoio recebido, em 1922, Mussolini dá uma cartada 
ousada (na verdade um blefe) que acaba funcionando: exige que o Rei Vítor 
Emanuel III lhe ceda o poder ou o tomaria pela força com seus vinte mil 
Camisas Negras. Alguns conselheiros do rei, na verdade simpatizantes do 
fascismo, convencem Vitor Emanuel III a ceder sob a alegação de que o 
enfrentamento causaria um “banho de sangue” e Benito Mussolini é alçado ao 
posto de Primeiro-Ministro. Uma vez no poder, dissolve o Parlamento, 
persegue adversários políticos, controla os sindicatos e suspende direitos 
constitucionais como a liberdade de expressão e de associação. 
Para melhorar a situação econômica do país tomou medidas 
nacionalistas demagógicas, fechando vários setores da economia à 
importação, sob a alegação de valorizar os produtos nacionais. Sem 
concorrentes, contudo, tais produtores aproveitaram para aumentar os preços, 
causando insatisfação geral. Para contê-la, o Partido Fascista se utilizou da 
propaganda que repetia o tempo todo como a situação na Itália estava melhor 
sob o governo fascista. Com resultados nada impressionantes na economia, 
 
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não é de se surpreender que Mussolini não tenha obtido na Itália o mesmo 
grau de adoração e de obediência que Hitler tinha na Alemanha. Talvez seu 
maior legado seja o Tratado de Latrão, em 1929. Este finalmente resolveu com 
a Igreja a questão dos Estados Pontifícios (ou Questão Romana, como era 
conhecida), na qual a Santa Sé reconheceu Roma como capital da Itália, 
renunciando aos Estados Pontifícios e aceitando que sua soberania se limite 
ao Estado do Vaticano com apenas 0,44 km quadrados. Em troca, a Igreja 
recebeu uma indenização de 750 bilhões de liras, o status de religião oficial do 
país, a proibição do divórcio, o foro privilegiado para clérigos e a promoção 
pelo Estado do ensino do catolicismo nas escolas. 
 
Nazismo 
Adolf Hitler (1889-1945) nasceu em Linz, na Áustria. Pintor frustrado, 
viveu de empregos temporários e de uma pensão para órfãos dos 19 aos 21 
anos. Justamente ao chegar nessa idade recebeu uma herança de uma tia, o 
que o permitiu mais alguns anos de ociosidade, acordando tarde e 
frequentando teatros e óperas à noite. Rejeitado duas vezes pela Academia de 
Artes de Viena, o então jovem Hitler teve sua vida mudada pela Primeira 
Guerra Mundial. O conflito lhe dá uma razão para viver. Condecorado com a 
Cruz de Ferro por duas vezes, ele se viu extremamente frustrado com a 
rendição alemã e com a subsequente humilhação em Versalhes. 
Figura 2: A suástica é um símbolo antiquíssimo, presente em diversas culturas. Foram 
encontradas suásticas em templos e estátuas na Índia, sudeste asiático e até entre os índios 
navajos norte-americanos. A suástica possui vários simbolismos: representa os quatro 
elementos (água, ar, fogo e terra), o sol e o trovão, além de seu desenho passar a imagem de 
movimento e dinâmica. As cores da bandeira nazista (preto, branco e vermelho) remetem ao 
Sacro Império Romano-Germânico, cujo território deveria ser recriado pelo III Reich, segundo a 
ideologia nazista. 
 
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Fonte: http://m.wangchao.net.cn/baike/scdetail_26135.html 
Em 1920, Hitler se une ao recém-fundado Partido Nacional Socialista 
dos Trabalhadores Alemães (Partido Nazista), em que logo se torna sua 
principal liderança. Apesar do nome, o partido compreendia o socialismo de 
uma forma completamente distinta do que se entende como socialismo hoje, 
nutrindo ódio pelo marxismo e pela luta de classes. Para os nazistas, a palavra 
“socialismo” remetia ao coletivismo, a união dos alemães em contraposição ao 
individualismo tipicamente liberal. O Nazismo era frontalmente contra a ideia de 
igualdade proposta pelo socialismo. Trata-se de uma ideologia baseada na 
ideia de hierarquia racial, nacional, militar etc. Além disso, de forma similar ao 
fascismo, o nazismo também propunha a aniquilação das vontades individuais 
em prol da pátria. 
A ideologia nazista estava baseada nos três R’s: 
Reich (Reino): retorno aos tempos gloriosos do Sacro Império 
Romano-Germânico, tanto em poderio quanto em extensão. 
Figura 3: Mapa do Sacro Império Romano-Germânico 
 
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Fonte: http://cdn7.mihistoriauniversal.com/wp-content/uploads/mapa-sacro-imperio-
germanico.jpg 
 
Raum (espaço): com base nas ideias do geopolítico alemão Friedrich Ratzel, 
que dizia que “um Estado deve ser do tamanho da sua capacidade de 
organização”, ou seja, que um Estado tem o direito de se expandir 
territorialmente mesmo à custa de outros povos, para que se desenvolvesse 
plenamente com base na “superioridade” da raça dominante. 
Rasse (raça): o conceito de raça é a chave para se compreender o 
pensamento de Hitler. Para ele, o mundo era dividido em uma pirâmide de 
raças na qual os arianos ocupavam o topo. No meio da pirâmide estavam 
povos como os árabes, latinos e eslavos, que poderiam servir como mão de 
obra escrava para os arianos. Na base da pirâmide encontravam-se os 
indesejáveis, que deveriam ser exterminados, como judeus, negros, 
homossexuais, ciganos e Testemunhas de Jeová. Também estavam passíveis 
de extermínio deficientes físicos e mentais, chamados pelos nazistas de “vidas 
indignas de serem vividas”. 
 
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E por que tais ideias, que hoje nos soam repulsivas, tiveram aceitação 
não só na Alemanha, mas em várias partes do mundo? A resposta é o 
“carimbo” da ciência. No início do século XX, surgiu uma pseudociência 
chamada Eugenia (bem nascer), criada pelo primo de Charles Darwin, Francis 
Galton. Inspirado em Gregor Mendel, mas subvertendo suas ideias de que a 
miscigenação era algo bom para a espécie humana, Galton passa a pensar a 
espécie humana da mesma forma que muitos criadores de cavalos, ou seja, o 
aprimoramento da “raça” por meio de cruzamentos apropriados e a proibição 
de cruzamentos indesejados. Nos EUA a Eugenia se tornou política pública em 
29 Estados, que aprovaram leis de esterilização em massa de negros, judeus, 
hispânicos, alcoólatras, mendigos etc. O Nazismo se apropriou dessas ideias, 
mas as levou a um novo patamar de perversidade: em vez de esterilizar (o que 
já seria uma violação em si), o extermínio puro e simples dos ditos “inferiores”. 
Para Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, o nazismo poderia 
ser definido como “biologia aplicada”. Com a propaganda martelando a mente 
dos alemães e a garantia de que tais ideias eram “cientificamente 
comprovadas”, as esterilizações e, mais tarde, a matança passam a ser vistas 
como a dedetização de uma “praga” dentro da sociedade, um ato que a faria 
melhor no futuro. 
Os judeus em especial eram vistos como o oposto de tudo que havia de 
positivo na sociedade alemã: eram os criadores do marxismo, do pacifismo, do 
liberalismo, da psicanálise, enfim, de tudo aquilo que contrariava a “lei do mais 
forte”, proposta pelo nazismo. O povo judeu já havia sofrido perseguições 
durante a Inquisição e foi proibido de exercer determinadas profissões, como a 
de médico, restando-lhes o comércio, a ourivesaria e o trabalho que mais atraía 
o ódio da população alemã, a agiotagem. Tal ocupação facilitou e muito a 
construção da imagem do judeu comoparasita social, que lucrava em cima da 
desgraça do povo alemão. No entanto, na Alemanha nazista, a situação dos 
 
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judeus era pior do que na Europa do século XVI: afinal, naquela época, o judeu 
ainda tinha como se salvar das perseguições por meio da conversão ao 
cristianismo; como o antissemitismo nazista não era baseado em crenças, mas 
em características biológicas, esse povo não tinha como se defender. 
Em 1938, a perseguição se tornaria oficial. O embaixador alemão em 
Londres foi morto por um jovem judeu. Tal incidente foi o pretexto para a Noite 
dos Cristais, em que sinagogas foram saqueadas, propriedades de judeus 
confiscadas e estes passaram a viver em uma espécie de apartheid em relação 
aos alemães, sendo proibidos de frequentar as mesmas escolas, clubes e de 
se casarem com esses. 
Com a Crise de 1929, o Partido Nazista começa sua ascensão ao poder. 
Nas eleições de 1930, obteve mais de seis milhões de votos em comparação 
aos oitocentos mil que conseguiu dois anos antes. Em 1932, obteve 37% dos 
votos e 230 cadeiras no Parlamento. Franz Von Papen, que pouco antes havia 
renunciado ao cargo de chanceler, passou a admirar Hitler e o via como um 
dique de contenção ao comunismo. Assim, convenceu o presidente Paul Von 
Hindenburg a nomear Adolf Hitler como chanceler, medida que teve apoio de 
industriais e latifundiários. 
Em fevereiro de 1933, Hitler adotou como pretexto um incêndio ao 
Reichstag (parlamento) realizado por um andarilho holandês, que se dizia 
comunista, para pressionar Hindenburg a suspender os direitos civis sob a 
alegação de que a Alemanha estava sob ataque. Hitler aproveita para cassar 
mandatos de políticos de esquerda e assim consolidar a maioria no Parlamento 
para o seu partido. Em março, ele consegue a aprovação de uma lei que lhe 
deu plenos poderes, tornando-se, assim, um ditador por meios democráticos 
como concebera quase dez anos antes. 
 
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A vida sob o nazismo era regida pela propaganda. Hitler dizia que as 
massas eram femininas, pois se orientavam pela emoção e pela palavra falada, 
e que slogans simples deveriam ser constantemente repetidos para que a 
mensagem entrasse em seus corações como golpes de aríetes. Todas as 
associações, clubes e escolas estavam sob o controle do partido. O currículo 
escolar foi adaptado à ideologia nazista. Economicamente, o Estado Alemão se 
aliou aos oligopólios e aplicou receitas keynesianas que eliminaram o 
desemprego. A aliança com a indústria transformou a Alemanha em uma 
máquina de guerra. A Igreja Católica, mais preocupada com o comunismo, 
também apoiou Hitler. Em meados da década de 1930, a Alemanha havia 
eliminado o desemprego e recuperado o vigor militar e industrial. Por meio de 
gigantescas paradas militares, amplamente divulgadas pelo mundo em filmes e 
fotografias, a Alemanha se mostrava pronta para a revanche.

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