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Núcleo e Retículo Endoplasmático Prof. Dr. Emerson Fioretto Núcleo O núcleo é a principal organela compartimentada da célula eucariótica. Sua função essencial é separar fisicamente a transcrição (nuclear) da tradução (citoplasmática), criando uma janela temporal que permite o processamento do RNA. splicing, capping e poliadenilação — antes que a mensagem chegue aos ribossomos. Esse refinamento é a base do controle eucariótico da expressão gênica, inexistente em procariontes. Transcrição Ocorre no núcleo. O DNA é copiado em pré-mRNA, que é processado antes de ser exportado. Processamento Splicing, capping 5' e cauda poli-A ocorrem no nucleoplasma antes da exportação. Tradução Ocorre no citoplasma. Ribossomos leem o mRNA maduro e sintetizam proteínas. O Envoltório Nuclear e a Lâmina Membrana Nuclear Externa (MNE) Contínua com o Retículo Endoplasmático. Possui ribossomos aderidos e participa ativamente da síntese proteica, integrando o envelope ao sistema de endomembranas. Membrana Nuclear Interna (MNI) Contém proteínas integrais exclusivas (como Emerin e LBR) que servem de ancoragem para a Lâmina Nuclear e organizam a cromatina periférica. Lâmina Nuclear Rede de filamentos intermediários — Laminas A, B e C — que reveste a face interna da MNI. Fornece suporte mecânico e organiza a heterocromatina periférica. Por que a Lâmina Importa? Função Mecânica: Mantém a forma esférica e a integridade estrutural do núcleo sob estresse físico. Função Genética: Âncora a heterocromatina periférica, posicionando genes silenciados próximos à periferia nuclear — uma forma de controle epigenético espacial. Função Regulatória: Participa da regulação do ciclo celular e da replicação do DNA. Laminopatias: Quando a Arquitetura Falha Mutações no gene LMNA comprometem a integridade estrutural do núcleo e causam um espectro de doenças chamadas Laminopatias, com manifestações que vão de distrofias musculares ao envelhecimento prematuro. Progeria de Hutchinson-Gilford Uma forma truncada e tóxica da Lamina A, chamada Progerina, se acumula na MNI. Causa invaginações anômalas do envoltório, perda de heterocromatina e instabilidade genômica. O resultado: danos catastróficos ao DNA e envelhecimento sistêmico precoce em crianças. Distrofias Musculares em Cães Em raças como o Golden Retriever, mutações em proteínas do envelope nuclear fragilizam o núcleo das células musculares. Sob estresse mecânico repetido das contrações, o núcleo frágil rompe, levando à morte celular precoce e degeneração muscular progressiva. Complexo do Poro Nuclear (NPC) O NPC não é um simples canal aquoso — é um filtro hidrofóbico seletivo de ~120 MDa. Proteínas estruturais: Nucleoporinas, possuem repetições de aminoácidos Fenilalanina-Glicina (FG-repeats) que formam um "gel" no centro do poro, impedindo a passagem livre de macromoléculas. TRANSPORTE PASSIVO: Pequenas moléculas ( RAN-GTP (núcleo), RAN-GDP (citoplasma) Controle realizado por 2 enzimas: RAN-GEF (núcleo) e RAN-GAP (citoplasma) Territórios Cromossômicos e o Nucléolo Os cromossomos não se misturam aleatoriamente no nucleoplasma. Cada cromossomo ocupa um "território" específico. As regiões de heterocromatina — genes silenciados — ficam ancoradas à lâmina nuclear em domínios chamados LADs (Lamina Associated Domains). Essa organização espacial é uma camada fundamental de regulação epigenética: genes afastados da lâmina tendem a ser mais ativos. Nucléolo: Fábrica de Ribossomos O maior condensado biomolecular do núcleo, organizado em três zonas funcionais: • Centro Fibrilar (CF): Onde residem os genes do rRNA (DNA ribossômico) • Componente Fibrilar Denso (CFD): Onde ocorre a transcrição ativa do rRNA • Componente Granular (CG): Onde as subunidades ribossômicas 40S e 60S completam a montagem antes da exportação Retículo Endoplasmático Rugoso O RER é o primeiro ponto de controle de qualidade e logística da via secretora. Função principal: síntese, dobramento e modificação de proteínas destinadas à exportação ou a organelas, participar do transporte intracelular Proteínas destinadas a membranas, lisossomos ou ao meio extracelular são sintetizadas por ribossomos aderidos à sua membrana e inseridas no lúmen, onde chaperonas — principalmente a BiP/GRP78 — assistem o dobramento tridimensional correto. Somente proteínas com conformação nativa são aprovadas para prosseguir. Logística de Saída do RER Seleção de Carga Proteínas com sinais de saída se ligam a receptores de carga na membrana do RE. A GTPase Sar1 inicia a curvatura da membrana. Montagem COPII O complexo COPII (Sec23/24 e Sec13/31) envolve a vesícula, garantindo que apenas proteínas aprovadas pelo controle de qualidade sejam transportadas ao Golgi. Sinal KDEL (Recuperação) Chaperonas residentes do RE (ex: BiP) carregam a sequência KDEL. Se escapam ao Golgi, vesículas COPI as reconhecem e fazem o transporte retrógrado de volta ao RE. Sistema COPII/COPI > circuito bidirecional > mantém identidade molecular de cada compartimento do sistema de endomembranas Patologias do RER em Medicina Veterinária Condrodisplasia Hipocondroplásica Em certas raças de cães, mutações nos genes do colágeno impedem o dobramento correto no RER das condrócitos (células da cartilagem). As proteínas defeituosas ficam retidas no lúmen, ativando o estresse do RE e a UPR. O resultado clínico é o nanismo desproporcional característico de raças braquiocefálicas e condrodistróficas. Hipotireoidismo Congênito Defeitos na síntese ou no dobramento da Tireoglobulina no RER impedem sua secreção pela glândula tireoide. O acúmulo da proteína mal dobrada no lúmen ativa o estresse do RE. Clinicamente, observa-se bócio (hipertrofia compensatória da glândula) e baixos níveis de hormônios tireoidianos em cães e bezerros, com consequências no crescimento e metabolismo. Retículo Endoplasmático Liso O REL é abundante em células com alta atividade metabólica: hepatócitos, células esteroidogênicas e músculo esquelético. Desprovido de ribossomos, especializa-se em biossíntese lipídica, detoxificação (via Citocromo P450) e homeostase do cálcio intracelular — funções essenciais para a sobrevivência e comunicação celular. Biossíntese Lipídica Síntese de fosfolipídios, colesterol e esteroides. A Scramblase garante o crescimento simétrico da bicamada, transferindo lipídios aleatoriamente entre as faces da membrana. Homeostase de Cálcio A Bomba SERCA estoca Ca²⁺ no lúmen contra o gradiente. A liberação via receptores de Rianodina ou IP3 é crucial para contração muscular e sinalização celular. Detoxificação As enzimas Citocromo P450 (CYP) do REL metabolizam fármacos, toxinas e hormônios em compostos mais hidrossolúveis para excreção. Patologias do REL Hipertermia Maligna (Suínos e Cães) Mutação no Receptor de Rianodina (RYR1) do REL muscular. Após exposição a anestésicos inalatórios como o Halotano, o canal de Ca²⁺ fica permanentemente aberto, causando: • Liberação massiva e descontrolada de Ca²⁺ • Contrações tetânicas generalizadas • Hipermetabolismo e produção extrema de calor • Febre fatal se não tratada imediatamente Lipidose Hepática (Gatos e Ruminantes) Durante mobilização intensa de gordura (anorexia, balanço energético negativo no periparto), o REL hepático fica sobrecarregado. Incapaz de empacotar os triglicerídeos em VLDL na velocidade necessária, ocorre: • Acúmulo de lipídios no citoplasma do hepatócito • Vacuolização e disfunção celular • Insuficiência hepática progressiva — condição grave especialmente em gatas obesas Indução do REL e Farmacologia Veterinária Comparada O REL é plástico: sua massa e conteúdo enzimáticoaumentam em resposta à demanda metabólica — um fenômeno chamado indução enzimática. Isso tem consequências diretas na terapêutica veterinária, especialmente porque diferentes espécies metabolizam fármacos de forma radicalmente distinta. Importância Clínica: Gatos possuem deficiência em vias de conjugação (Fase II — glucuronidação). Isso torna a Fase I (P450 no REL) perigosa, pois intermediários reativos — normalmente conjugados e excretados rapidamente — permanecem mais tempo na célula, gerando toxicidade. Paracetamol, por exemplo, é fatal para gatos em doses terapêuticas humanas. Indutores Fenobarbital, Rifampicina Aumentam o REL Menor eficácia de antibióticos ou anestésicos; ajuste de dose necessário Inibidores Cetoconazol, Cimetidina, Cloranfenicol Bloqueiam o P450 Risco de intoxicação — ex: acúmulo de Ciclosporina Categoria Fármacos Veterinários Efeito no P450 Consequência Clínica Estresse do RE e a Resposta UPR Quando proteínas mal dobradas se acumulam no lúmen além da capacidade das chaperonas, instala-se o estresse do RE. A célula ativa então a UPR (Unfolded Protein Response) — um programa de sinalização que tenta restaurar a homeostase. Se bem-sucedida, a célula sobrevive; se o dano for irreversível, a UPR muda de caráter e induz a apoptose. Em condições normais, a chaperona BiP mantém os três sensores inativos na membrana do RE. Sob estresse, a BiP se desprende para auxiliar no dobramento das proteínas acumuladas, ativando os sensores: PERK Fosforila o fator de iniciação da tradução eIF2α, causando uma parada global na tradução. Reduz imediatamente o influxo de novas proteínas no RE, aliviando a carga luminal. ATF6 Migra para o Golgi, onde é clivado por proteases. O fragmento ativo transloca ao núcleo e ativa genes de chaperonas adicionais (BiP, GRP94), aumentando a capacidade de dobramento. IRE1 Realiza o splicing não- convencional do mRNA do fator de transcrição XBP1. O XBP1 ativado promove a expansão física da membrana do RE e aumenta a capacidade do sistema ERAD. Sobrevivência ou Apoptose UPR Protetora (Fase Adaptativa) Quando o estresse é transitório ou moderado, os três ramos da UPR trabalham em conjunto para: • Reduzir a carga tradutória (PERK/eIF2α) • Aumentar a capacidade de dobramento (ATF6 → chaperonas) • Expandir o RE e degradar proteínas aberrantes (IRE1/XBP1 e ERAD) Se bem-sucedidos, os sensores são desligados e a homeostase é restaurada. UPR Terminal (Fase Apoptótica) Se o estresse persiste e as proteínas continuam mal dobradas, a sinalização muda de caráter. Os mesmos sensores agora ativam: • Fator CHOP (DDIT3): Suprime genes antiapoptóticos e ativa genes pró- apoptóticos • Caspase-12 (específica do RE em roedores; Caspase-4 em humanos): Inicia a cascata de morte celular de forma independente das vias mitocondriais clássicas Aplicação Clínica Abiotrofia Cerebelar Equinos, caninos e felinos. Degeneração progressiva dos neurônios de Purkinje resulta de erro no dobramento de proteínas essenciais. A via IRE1/XBP1 falha > PERK ativa o CHOP, levando à apoptose neuronal massiva. Clinicamente: ataxia progressiva e tremores de intenção sem inflamação. Mielopatia Degenerativa (Cães) Mutações no gene SOD1. Proteína mutante forma agregados tóxicos que sequestram chaperonas do RE, incluindo a BiP. Chaperonas esgotadas > sensores de estresse ativos > degeneração axonal progressiva da medula espinhal — quadro semelhante à ELA humana. Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB) A proteína priônica PrPSc (forma patogênica) é resistente à proteólise e "entope" o sistema ERAD (degradação associada ao RE). O RE > distendido e disfuncional. A falha no sistema de limpeza gera vacúolos citoplasmáticos (aspecto espongiforme característico) > apoptose neuronal via Caspase-12, com evolução invariavelmente fatal. Diabetes Mellitus em Gatos Acúmulo IAPP (Amiloide das Ilhotas Pancreáticas). Síntese excessiva de insulina e IAPP sobrecarrega o RER das células beta. O acúmulo de IAPP mal dobrado ativa UPR crônica → morte progressiva das células beta → a resistência periférica à insulina evolui para deficiência absoluta — um mecanismo distinto do diabetes tipo 2 humano. Slide 1 Slide 2 Slide 3 Slide 4 Slide 5 Slide 6 Slide 7 Slide 8 Slide 9 Slide 10 Slide 11 Slide 12 Slide 13 Slide 14 Slide 15 Slide 16