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CONSTRUTIVISMOCONSTRUTIVISMO SEMIÓTICO-CULTURAL SEMIÓTICO-CULTURAL ética, ontologia e epistemologiaética, ontologia e epistemologia Danilo Danilo Silva GuimarãesSilva Guimarães Lívia Mathias Lívia Mathias SimãoSimão CONSTRUTIVISMO SEMIÓTICO-CULTURAL ética, ontologia e epistemologia UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Reitor: Aluisio Augusto Cotrim Segurado Vice-reitora: Liedi Légi Bariani Bernucci INSTITUTO DE PSICOLOGIA Diretora: Ianni Regia Scarcelli Vice-diretora: Patrícia Izar Capa e fotografia Danilo Silva Guimarães Diagramação Danilo Silva Guimarães Revisão de diagramação Lívia Mathias Simão Índice remissivo Danilo Silva Guimarães e Lívia Mathias Simão CONSTRUTIVISMO SEMIÓTICO-CULTURAL ética, ontologia e epistemologia Danilo Silva Guimarães Lívia Mathias Simão Catalogação na publicação Biblioteca Dante Moreira Leite Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo Silva Guimarães, Danilo Construtivismo semiótico-cultural: ética, ontologia e epistemologia (recurso eletrônico) / Danilo Silva Guimarães e Lívia Mathias Simão. São Paulo: Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo / Programa de Pós-Graduação em Psicologia Experimental, 2026. 215 p. ISBN: 978-65-87596-83-9 DOI: 10.11606/9786587596839 1. Construtivismo. 2. Semiótica das culturas. 3. Ética. 4. Ontologia. 5. Epistemologia. I. Simão, Lívia Mathias. I. LC BF 697 Esta obra é de acesso aberto. É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte e autoria e respeitando a Licença Creative Commons indicada. Ficha elaborada por: Aparecida Angélica Zoqui Paulovic Sabadini: CRB 3995 Expressamos nossa gratidão a todas as pesquisadoras e pesquisadores que contribuíram com a trajetória do CSC, ao se envolverem com as leituras, participarem das discussões do laboratório, propondo estudos, publicando os resultados de suas pesquisas. Especial agradecimento a Marcus Vinicius Arcanjo Braga e Daniel Correia dos Santos, estudantes de graduação do Instituto de Psicologia que se vincularam ao Programa Unificado de Bolsas da USP em um projeto que visou a construção de materiais didáticos para disciplinas da área de História e Filosofia da Psicologia. Dentre as atividades propostas, os alunos realizaram a leitura integral do material, comentaram e propuseram ajustes para melhoria da qualidade didática do texto. O presente trabalho foi realizado com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Brasil (processo nº 2018/13145-0) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (processo nº 306149/2023-0). PREFÁCIO Este livro foi escrito visando apresentar a perspecti- va do Construtivismo Semiótico-Cultural (CSC) a pessoas interessadas em refletir sobre a psicologia como um conhe- cimento culturalmente situado, elaborado por pessoas que significam suas experiências na temporalidade das trocas que realizam com outras pessoas no mundo. Ele nasce de nossa vontade de oferecer uma visão geral do CSC, embora não totalizada, introdutória, mas sem simplificar de forma redutora e segmentadora noções que emergiram articuladas a reflexões histórico-filosóficas sobre problemas teóricos e metodológicos da psicologia. A demanda para elaboração do livro emergiu de ex- periências que tivemos na tentativa de apresentar reflexões sobre os processos de construção cultural do sentidos e sig- nificados das experiências psicológicas a estudantes de gra- duação do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP) e pesquisadores do Laboratório de Interação Verbal e Construção de Conhecimento (LIVCC), fundado em 1992 no Departamento de Psicologia Experimental do IPUSP. A primeira tentativa de apresentar um quadro sis- temático e introdutório do CSC em uma disciplina de gra- duação foi proposta em 2016. Na construção da proposta da disciplina nos deparamos com o número restrito de tex- tos em língua portuguesa que satisfizessem os critérios de apresentação histórica e filosófica da área que nortearam a construção da disciplina. Naquele momento, ainda não 10 havia uma sistematização organizadora do conjunto de re- flexões propostas desde os trabalhos precursores na década de 80 do século XX. Ao longo dos anos em que seguimos buscando al- ternativas para introduzir a perspectiva do CSC para estu- dantes de graduação interessados muitas vezes em elabo- rar projetos de iniciação científica, que se aproximavam da equipe de docentes, também nos colocamos o desafio de aprofundar o debate no âmbito da pós-graduação. Ao longo dos cursos recebemos, recorrentemente, a apreciação dos estudantes quanto ao potencial das noções discutidas nas aulas para abordar diversas dimensões da pesquisa e do exercício profissional em psicologia, ao mesmo tempo que sua complexidade. Desse modo, o CSC foi se mostrando como uma perspectiva que oferecia suporte para pesquisas sobre questões psicológicas, sociais e profissionais diversi- ficadas. No percurso das nossas aulas de graduação e pós- -graduação, grupos de estudo e orientações no âmbito do LIVCC e do CSC, pudemos construir inúmeras conexões interdisciplinares, para além das mais evidentes relações da perspectiva com estudos no campo da história e da filoso- fia: pesquisadoras das áreas de educação, da saúde e das ar- tes contribuíram com diálogos e pesquisas para a contínua revitalização do CSC. A compreensão dos processos de elaboração teó- rico-metodológica a partir da singularidade das preocupa- ções de nossos alunos, graduandos e pós-graduandos, jun- tamente com as nossas, se tornou um aspecto central nas reflexões da área. Entendendo a prática psicológica, incluí- do aí o fazer pesquisa, como processo cultural de constru- ção dos sentidos e significados de experiências pessoais e 11 coletivas, na temporalidade das relações entre as pessoas envolvidas nas atividades do LIVCC. Com a ampliação do número de orientações passamos a viver com ainda maior intensidade os tensionamentos decorrentes da diversidade de interesses ao nos aproximar das singularidades de cada novo integrante do grupo de estudos e pesquisas, aliando esforços de ordenação do campo no amplo especto temáti- co contemporâneo, na pesquisa e no exercício profissional da psicologia. Diante do horizonte de questões aqui exposto, em 2018, propusemos um projeto que obteve recursos de auxí- lio à pesquisa da FAPESP (processo número 2018/13145- 0) com o objetivo explicitar as posições do CSC em relação aos planos epistemológico, ontológico e ético da reflexão filosófica. As pesquisas referidas no livro remontam ao ma- terial tomado para análise neste projeto. Entendíamos que a explicitação dessas posições nos permitiria situar a aborda- gem em relação ao conjunto diversificado de teorias e sis- temas psicológicos presentes na formação dos estudantes para os quais ministrávamos nossas aulas e para as pesqui- sadoras do LIVCC em nível de iniciação científica, mestra- do, doutorado e pós-doutorado. Como desdobramento de nosso esforço de sistematização organizadora do conjunto de reflexões emergentes em cerca de 40 anos de estudos, consideramos ter, agora, condições de elaborar um material de referência norteador dos processos de construção de co- nhecimento empreendidos em nossas atividades de ensino, pesquisa, cultura e extensão universitárias. A proposta se assenta na percepção de que é rele- vante entender os desafios que as pesquisas na área vêm lidando desde seu percurso de origem para compreender o que significa avançar na construção de conhecimento nesse 12 campo de estudos, focalizando o que tem orientado nossas pesquisas, para além do papel integrador de um conjunto de pesquisadores que o rótulo possa abarcar. O livro é resulta- do dos esforços de explicitação dos resultados da pesquisa em um material que faça sentido e tenha significado para estudantes, pesquisadores e profissionais da psicologia. Não se trata de uma coletâneacia da pesquisa-ação no Brasil, que teve influências sobre os debates da área. A relação pesquisador-participante não é concebida como puramente objetivo-instrumental ou neu- tra, no estilo das pretensões positivistas, mas afetiva e so- cialmente implicada. Construir conhecimento em psicologia é uma ação com implicações sociais (Boesch, 2008). Sendo o conhecimento construção semiótica e cultural (Valsiner, 52 2017a; 2017b, 2019b), a racionalidade instrumental que ca- racteriza a pesquisa científica se volta para a construção de recursos semióticos capazes de aprofundar a reflexividade sobre as implicações éticas das ações no âmbito das rela- ções humanas eu-outro-mundo. Tal reflexividade demanda o envolvimento da pesquisadora em ações socialmente di- rigidas, mas também um distanciamento reflexivo para que a pesquisadora, inquietada em sua experiência de ser no mundo com os outros, contribua desde sua posição singular com o processo de transformação do conhecimento e da sociedade (Simão, 2004a; 2004b), na direção de ampliar o potencial de diálogo da psicologia com diversas posições ativas socialmente presentes e, eventualmente, o potencial de criação de novas posições. Como resultado de diálogo crítico e continuado em torno às experiências, ideias e autores, tais como os aqui referidos, descritas, analisadas e discutidas nos projeto de pesquisa já levados a cabo e em atual andamento, a área chega ao campo das reflexões metapsicológicas. As con- cepções básicas integradoras no cerne do CSC como campo de saber coerente e propositivo em psicologia, forçosamen- te em constante transformação, são a hermenêutica e o dia- logismo. A área chega, também, à centralidade da reflexão ética no processo de pesquisa, enfatizando que o sentido de avanço na construção de conhecimento psicológico aponta para a elaboração de possibilidades teórico-metodológicas concretas, factuais, de se alcançar formas cada vez mais inclusivas de lidar com 1) a relação entre diversidade das manifestações psicológicas particulares ligadas a contextos e situações específicas e 2) a universalidade das compreen- sões dos processos psicológicos no campo dos discursos e práticas, teorias e sistemas. ÉTICA Ponto de partida para a construção de conhecimento Ao longo do século XX a fenomenologia filosófi- ca fez uma transição progressiva de questionamentos que partem de uma crítica ao plano epistemológico, dirigindo- -se, inicialmente, ao plano ontológico e posteriormente ao plano ético (cf. Coelho Junior, 2008). No âmbito das refle- xões sobre os sistemas e teorias da psicologia, a reflexão de Figueiredo acompanhou esse movimento (cf. Figueiredo, 2013), deslocando-se da epistemologia à ética das práticas e discursos psicológicos. Desde a reflexão sobre as matri- zes do pensamento psicológico, a dispersão e desconexão entre disciplinas e orientações teóricas em psicologia pre- nunciavam a ausência de critérios epistemológicos segu- ros que permitissem um movimento de superação paradig- mática no desenvolvimento científico da área. Figueiredo (2010) constatou que ao longo do século XX, a psicologia se consolidou como ciência independente marcada por sua diversidade de origem que persiste até o presente momento. A diversidade da psicologia não se acentuou ao longo do tempo e os projetos de unificação da psicologia encontra- ram resistências intransponíveis. O mapeamento das matrizes do pensamento psico- lógico reflete e expressa, na concepção de Figueiredo, dife- rentes formas de relação humana fundadas na modernidade 54 e que persistem na contemporaneidade. Figueiredo (2013) aprofunda a reflexão sobre o ecletismo e o dogmatismo em psicologia como posturas epistemológicas que bloqueiam o acesso da pesquisadora e da psicóloga à experiência. O dogmatismo desqualifica, de antemão, todas as vozes que divergem das preconcepções teórico-metodológicas da pesquisadora e da psicóloga, sejam elas advindas das múl- tiplas posições teóricas ou da própria prática profissional. O ecletismo inclui apenas aparentemente a diversidade da psicologia, posto que pressupõe haver uma unidade de fun- do entre as teorias e sistemas, sem, contudo, se compro- meter com a compreensão dos pontos de tensão entre elas. Figueiredo (2013) argumenta que a capacidade de experi- mentar, por sua vez, implica poder entrar em contato com a alteridade, em contato com aquilo que excede as precon- cepções dogmáticas e ecléticas, constituindo-se como fonte de angústias e inquietações no processo de construção de conhecimento psicológico. A dimensão ética da psicologia reside em articular ao campo das reflexões teórico-metodológicas “uma dis- cussão histórica, sociológica e filosófica acerca do mundo em que vivemos, das formas dominantes de existir neste mundo e como as psicologias contemporâneas são modos de tomar partido em relação aos problemas da contempo- raneidade” (Figueiredo, 2013, p. 30), sendo que “as ver- dadeiras questões éticas são [...] as que dizem respeito às posições básicas que cada sistema ou teoria ocupa no contexto da cultura contemporânea diante dos desafios que dela emanam” (p. 30). Ao articular as noções de éti- ca e de ethos, Figueiredo (2013) concebe que de cultura para cultura e de época para época podem variar os padrões implícitos, os códigos em relação aos aspectos da conduta 55 a serem considerados, colocados sob controle, bem como as formas de impor e exigir obediência aos sujeitos e de punir eventuais transgressões. De modo que “podemos ver as éticas como dispositivos “ensinantes” de subjetivação: elas efetivamente sujeitam os indivíduos, ou seja, ensinam, orientam, modelam e exigem a conversão dos homens em sujeitos morais historicamente determinados” (p. 67). É possível fazer aqui uma ligação com o termo gre- go ethnos que era originalmente utilizado para se referir às qualidades de um povo, pessoas que compartilham um ethos, ou seja, costumes e hábitos, princípios, valores, nor- mas de ação e ideais (cf. Partridge, 2006). Na medida em que o ethos de cada cultura pressupõe diferentes costumes, diferentes hábitos, por meio dos quais as pessoas podem construir suas moradas serenas e confiáveis, os modos de coexistir e se relacionar com a cultura do outro são consti- tutivos das condições para que cada pessoa possa fruir, tra- balhar, pensar, brincar e experimentar seus mundos, sendo estas dimensões relevantes para a saúde humana (Figueire- do, 2013). A psicologia se constituiu como ciência moderna a partir das tensões histórico-culturais que guiaram proces- sos de subjetivação do homem que compartilhava um ethos assentado nas tradições da área cultural sob influência dos povos europeus. As preocupações constitutivas do espaço do psicológico foram gestadas, na modernidade, a partir de reflexões que acionaram pressupostos, muitas vezes irre- fletidos, sedimentados em concepções e costumes cultural- mente situados nas tradições gregas, romanas, judaicas e cristãs, recursivamente desdobradas, vieram a adquirir no- vos contornos na contemporaneidade. Mas isso não é tudo. A psicologia também emergiu das fissuras provocadas pelo 56 encontro dos povos da Europa com a diversidade das coisas e das pessoas ao redor do mundo. Embora a psicologia nem sempre tenha mantido uma proximidade efetiva ou refletida com a diversidade cultural, não pode deixar de reconhecer a pertinência das preocupações antropológicas e a presença incessante de referências à diversidade cultural na consti- tuição dos discursos legitimadores de suas teorias e práti- cas, independentemente da abordagem teórica privilegiada. Cada tradição cultural, por sua vez, tem uma história que lhe é própria, concebe o mundo e mantém preocupações orientadas por princípios e valores que lhes são peculiares. Uma das tarefas do CSC, em suas preocupações metateóricas, é a de proporcionar à psicologia uma reflexão que reconhece a multiplicidade de vozes constitutivas do espaço do psicológico,para além das preocupações libe- rais, românticas e disciplinares, características dos modos de subjetivação do homem moderno. O CSC se propõe a essa tarefa provocado pelas questões ontológicas pelas quais tem se deixado interpelar desde seu início, e que bus- ca responder, assim como por suas raízes epistemológicas e teóricas ligadas à sociogênese e à psicologia cultural. Nes- se sentido, há um diálogo entre dois âmbitos deste livro, o ontológico e o ético, discutido e aprofundado em sua con- tinuidade. Levando em conta o que foi apresentado até aqui, a explicitação do posicionamento ético do CSC pode viabi- lizar uma ampliação da noção de “território da ignorância” tal como concebida por Figueiredo (2007, p. 146) para deli- near um conjunto de ideias e práticas que organizam a vida no tipo de sociedade em que a psicologia emergiu como ciência moderna. Para este autor, o espaço do psicológico é conflitivo e é impossível ocupar uma posição panotípica 57 de visibilidade integral à todas as suas dimensões. De modo que ocupar uma posição na psicologia, implica desconsi- derar ou ignorar outras posições constitutivas da própria posição em que se está. Ver algo desde um ponto de vista implica deixar de ver algo que configura a própria posição mesma a partir da qual este algo está sendo visado. Saber-se ignorante de algo, ainda que não se saiba exatamente que ‘algo’ é esse e se deixar interpelar pelo di- verso ao seu ponto de vista, em busca de experimentar e compreender, não necessariamente concordando, a respeito daquele algo não visto até então. Trata-se de um movimen- to que, a rigor, nunca se esgota, mas que abre espaço para a emergência de novos conhecimentos. A ampliação da com- preensão daquilo que permanece ignorado pode se dar com a inclusão de vozes oriundas de outras culturas como parte constitutiva da psicologia. É desdobramento da produção de reflexões sobre as possibilidades de construção e manu- tenção de um ethos capaz de abrigar o diverso no mundo contemporâneo marcado pelo acirramento de polaridades, opressões, tentativas de silenciamento e aprisionamento da alteridade. Diversas questões focalizadas nas pesquisas rea- lizadas na perspectiva do CSC visaram as possibilidades psicológicas de abertura à diversidade de perspectivas. Es- sas questões se expressaram por meio da diversidade das proveniências culturais e acadêmicas de pesquisadores e participantes de pesquisas desenvolvidas desde a perspec- tiva do CSC, que por sua vez originam diversidade nas re- lações pesquisadora-participante de pesquisa, resultando na discussão, na produção de textos, em diversos modos de abertura da psicologia para o outro, na negociação de sentidos das experiências concretamente vividas e na plu- 58 ralidade dos conhecimentos diversamente elaborados sobre elas. Por exemplo: • Abertura para um processo transformativo de si na relação com o mundo e os outros, para a questão da diversidade sexual em psicologia, para universos semiótico-culturais de pessoas e grupos sociais diferenciados, para a singularidade do outro no trabalho colaborativo; • Abertura subjetiva à multiplicidade de ver- sões sobre conhecimentos emergentes nas relações sociais, abertura para a pluralidade dos discursos e práticas psicológicas, para possibilidades não con- vencionais de elaboração dos sentidos das experiên- cias, como crítica às teorias e métodos hegemônicos de construção científica. • Abertura para ressignificação da tradição, para diferentes noções de natureza dos fenômenos históricos, para continuidades e descontinuidades na relação entre particular e geral, à multiplicidade de construções reflexivas. • Abertura para vozes sociais, para a diversi- dade cultural no processo de estruturação semiótica, para tradições culturais e grupos étnicos historica- mente excluídos do diálogo sobre o conhecimento psicológico. • Abertura para a perspectiva do outro, para os significados produzidos por diferentes atores so- ciais sobre temas diversos, como saúde e educação, artes e as próprias psicologias. • Abertura para alteridade de si e do outro, alteridades interpessoais e intrapessoais, para ser e 59 sentir a si-mesmo, para as dimensões afetivas cons- titutivas de si, para expressão partir de marcas cor- porais. • Abertura para a afetividade nas relações eu-outro-mundo, para vivenciar experiências in- quietantes, imprevisibilidade e esquecimento, para experiência poética, para o estrangeiro e para dife- renças geracionais. Tais aberturas, que no processo de pesquisa signi- ficam pesquisadores deixarem-se interpelar por, se desdo- bram na direção de ampliação do escopo de tradições cul- turais na constituição do espaço psicológico, das condições de escuta, leitura e compreensão do mundo, da escuta das pessoas em instituições totais em sua multiplicidade de tra- jetórias, escuta das dimensões afetivas no processo de for- mação profissional, crítica à modos de hierarquização na relação professor-aluno. Das experiências de escuta e apoio na ampliação de diálogos as pesquisas vêm enfatizando o envolvimento da pesquisadora e da psicóloga no processo de construção do conhecimento psicológico e suas implicações com o con- texto em que o conhecimento é construído, bem como a exigência de que a pesquisadora também viva experiências de desalojamento na reflexão sobre fenômenos-temas de pesquisa selecionados. Decorre daí a percepção, nas pes- quisas tomadas para análise, de esforços para construção de uma base confiável para os atores em suas relações in- terpessoais e consigo mesmos, em cada caso e contexto só- cio-cultural. A área toca, assim, os temas 1) das buscas por proteção simbólica nas relações de cuidado na intervenção psicológica diante de experiências de vida dolorosas; 2) da 60 construção da continuidade frente a experiências traumáti- cas; 3) as buscas pelo sucesso em terapêuticas no campo da saúde; 4) pelo sucesso na reabilitação e melhora na quali- dade de vida dos atendidos, entendendo por reabilitação a superação de uma realidade adversa; e 4) por construção de consensos em dinâmicas de cooperação, entendimento e concordância entre os envolvidos, conectando pessoas e trabalhos. O conhecimento psicológico se constrói em meio a relações do tipo sujeito-sujeito, relações de reciprocidade em que há parceria e coautoria na relação pesquisadora- -participante. Nos processos colaborativos, entretanto, também são vividas experiências de tensão, afastamentos e recons- trução dos vínculos inerentes às relações eu-outro. É por meio da elaboração de dimensões do sujeito que excedem a instrumentalidade da ação humana, dos contínuos ajustes e reparos na relação de alteridade, que a pessoa tem a oportu- nidade de interrogar e ser interrogada no processo de trans- formação de si e da cultura da qual faz parte. Quem constrói conhecimento realiza constantes movimentos de saída de si para voltar a si modificado (Simão, 2023), em processos de constante transformação. As transformações na pesquisado- ra e na participante da pesquisa exprimem o sentido de de- senvolvimento adotado nas pesquisas da área, de mudança da ação e da percepção de si e da realidade social na relação com os outros e o mundo, diante da experiência inquietante gerada pela diferença percebida de uma em relação à outra, seja quanto ao fenômeno-tema de pesquisa, seja à própria relação eu-outro durante a pesquisa, dada a diversidade ine- rente à pessoa humana e a impossibilidade de aceso direto e completo à subjetividade de outrem. O desenvolvimento humano tem sido pensado no horizonte das relações sociais 61 que o propicia, articulando desenvolvimento sociocultural e desenvolvimento de indivíduos na cultura, bem como de diferentes contextos culturais em relação. Tais questões apontam para preocupações com o pa- pel da educação na reprodução das relações de exploração e conflitos históricos. O conhecimento, como produto cultu- ral é sempre ideologicamentemotivado, porém a imposição de formas de interpretar e construir o passado pode entrar em conflito com formas de relação com a tradição e pers- pectivas para futuras gerações de comunidades específicas. Pesquisas ligadas ao CSC tematizaram impactos do proces- so colonial resultante da invasão dos europeus os territórios por eles denominados de Américas, da promoção ativa da desorganização comunitária dos povos originários como forma de violência a serem revertidas por conhecimentos capazes de descolonizar o mundo em que vivemos (Silva Guimarães, 2019). Trata-se de uma preocupação ética aten- ta a conflitos imbricados na história, que se posiciona con- tra o que tem sido identificado como persistente genocídio e etnocídio indígena. A possibilidade de transformação da realidade social é fonte de movimento na cultura, como ten- tativa de elaboração de sofrimentos na tensão criativa ende- reçada a perspectivas de futuro, desejos e comportamentos que valorizem diversidades culturais e pessoais. Considerando o futuro como abertura ao desconhe- cido nas relações eu-outro-mundo, dada sua imprevisibili- dade, um dos caminhos éticos da psicologia implica a bus- ca por constituição de transformações no campo da cultura capazes de proporcionar algum grau de reciprocidade nas relações, conferir legitimidade ao discurso dos outros e re- conhecer os outros como constitutivos de si. A reflexivida- de humana aparece como crítica da experiência na tradição 62 promovendo mudanças e novas possibilidades de compar- tilhamento, contemplando, simultaneamente, permanência e transformação de si na abertura para os outros e o mundo. Sendo o mundo experimentado segundo distintos modos de construção de realidades. Além do exposto até aqui, a título de ilustração da amplitude da reflexividade ética na área do CSC, pesqui- sas na área tematizaram os dilemas éticos no exercício da medicina (cf. Simão, 2013), implicações emocionais das situações de adoecimento em pesquisas com uma orientan- da com formação em fisioterapia (cf. Laskovski & Simão, 2015), políticas públicas e seus efeitos sobre a população focalizada em pesquisas com uma orientanda de mestrado e diálogos com um pesquisador de pós-doutorado na psi- cologia (cf. Sousa, Gonzalez & Silva Guimarães, 2020), a relação entre humanos e não-humanos em uma pesquisa de mestrado com orientando vindo do curso de jornalismo (cf. Kawaguchi & Silva Guimarães, 2018), a formação uni- versitária e recomendações para a prática profissional em pesquisas de iniciação científica na psicologia (cf. Silva Guimarães e Benedito, 2018; Achatz e Silva Guimarães, 2018), a função das artes cênicas na educação básica brasi- leira e o desenvolvimento afetivo-cognitivo de pessoas em experiências teatrais em pesquisas de mestrado e doutorado com um orientando vindo da formação em artes cênicas (cf. Sampaio, 2018; Simão e Sampaio, 2018), dilemas e suas implicações no exercício profissional de psicólogas no sis- tema prisional (Bulcão e Simão,2019) dentre outras ques- tões que foram o foco de projetos de pesquisa que se desdo- braram após o ano de 2018, ao qual se refere a pesquisa nos arquivos da área que serviu de base para escrita deste livro. 63 Intersubjetividade e construção da subjetividade nos processos de construção de conhecimento Uma das principais vias de transformação no de- senvolvimento humano ocorre através da busca do sujeito pelo compartilhamento de experiências com o outro, isto é, através da busca pela intersubjetividade. A busca pela in- tersubjetividade demanda um movimento de descentração sujeito (Rommetveit, 1979), um esforço de compreensão despendido por ambos os interlocutores que visam ir além de suas pré-concepções originais. A noção de preconcepção tem o sentido hermenêu- tico elaborado por Gadamer (2008) e discutido por Simão (2010), segundo o qual a construção de conhecimento re- quer uma permanente abertura para a possibilidade de re- núncia em relação ao que é congruente com as experiências prévias de alguém, sem, contudo, supor uma neutralidade ou anulação da subjetividade de cada um. No esforço de descentração do sujeito em direção à compreensão do outro são experimentadas rupturas, transições e reelaborações da experiência subjetivas. A intersubjetividade nas relações sociais se apresen- ta como um campo de negociação de sentidos da experi- ência em que os participantes da relação se esforçam para alcançar algum grau de compartilhamento a respeito de um objeto da experiência dos interlocutores. Este esforço, por sua vez, nunca é suficientemente conclusivo. A persistência de aspectos do outro que excedem às preconcepções e ree- laborações compreensivas do eu nos remetem, por sua vez, à noção de alteridade e ao movimento de desordenação da subjetividade, que permite caracterizar a experiência inter- 64 subjetiva, do ponto de vista fenomenológico, como resul- tado do esforço do sujeito na direção de abrigar aquilo do outro que o excede (cf. Lévinas, 1980). A noção de intersubjetividade tem sido debatida de diferentes maneiras por pensadores contemporâneos da psicologia e das ciências humanas, dentre as quais aquelas realizadas a partir do campo da filosofia fenomenológica. No âmbito do CSC, a abordagem de Nick Crossley, pro- fessor de sociologia da universidade de Manchester (Rei- no Unido), que parte da fenomenologia de Alfred Schutz (1899-1959), filósofo e sociólogo austríaco radicado nos Estados Unidos, exerceu importante influência na reflexivi- dade sobre processos de construção de conhecimento para pensar os processos sociais de construção da subjetividade. Conforme discutido adiante, ela permite estabelecer uma relação entre a noção de intersubjetividade e os processos de desenvolvimento por meio da distinção entre dois tipos de intersubjetividade, denominadas “radical” e “egológi- ca”, que se sucedem na trajetória de vida de uma pessoa e passam a coexistir em suas experiências no mundo com os outros. Em seguida, neste tópico, será exposto o panorama apresentado por Coelho Junior e Figueiredo (2003; 2004) de quatro figuras da intersubjetividade, desenvolvido a par- tir da reflexão filosófica oriunda de diferentes vertentes da fenomenologia filosófica, da psicologia social e da psica- nálise. A reflexão desses autores é importante para o CSC porque se dirige ao campo dos fundamentos histórico-filo- sóficos da noção de intersubjetividade e o potencial dessas noções para a construção de concepções teórico-metodo- lógicas no âmbito da psicologia. A organização das noções de intersubjetividade, segundo as quatro figuras articuladas 65 de maneira suplementar, na proposta por Coelho Junior e Figueiredo (2003; 2004), por sua vez, foi criticada por pes- quisadores do campo da psicologia cultural e da psicologia dialógica em um número especial do periódico Culture & Psychology, em 2003. Dentre as reflexões críticas realiza- das foram selecionados os comentários de Alex Gillespie, professor de Ciências Psicológicas e Comportamentais na London School of Economics e Ivana Marková (1938-2024), autora já mencionada no capítulo anterior (Gillespie, 2003; Marková, 2003a). Os comentários deles expressam alguns limites de encaixe de concepções teórico-metodológicas de autores do campo da psicologia dialógica nas figuras da in- tersubjetividade propostas por Coelho Junior e Figueiredo (2003; 2004). Ao final do presente capítulo, serão tecidas algumas considerações sobre os desafios presentes na reflexão his- tórico-filosófica sobre noções voltadas à compreensão das experiências humanas no diálogo entre filosofia e psicolo- gia. A construção social da subjetividade por meio de processos intersubjetivos As concepções de Crossley (1996) acerca de pro- cessos envolvidos na construção social da subjetividade podem ser sintetizadas em quatro ideias centrais: 1) a sub- jetividade não é matéria privada do mundo interno, mas é pública e intersubjetiva; 2) a subjetividade consisteem uma abertura e um engajamento em relação à alteridade, que se realiza de modo pré-reflexivo, em vez de em uma experi- ência e objetivação dela; 3) a ação humana, particularmen- te a fala, assume necessariamente uma forma socialmente 66 instituída, a qual é essencial para seu significado; 4) muito da experiência e da ação humana surge das situações dia- lógicas, ou de sistemas, que são irredutíveis aos sujeitos humanos individuais. Desse modo, “[...] tomados conjuntamente, esses quatro pontos nos permitem conceitualizar a intersubjeti- vidade como um inter-mundo irredutível de significados compartilhados e compreender a subjetividade humana como necessariamente intersubjetiva.” (Crossley, 1996, p. 24). Tendo em vista esta concepção de subjetividade, Cros- sley (1996) distingue dois modos coexistentes de relação intersubjetiva: a intersubjetividade radical e a intersubjeti- vidade egológica. A noção de intersubjetividade radical envolve um relacionamento mútuo, uma relação de harmonização de si mesmo com o outro, de tal modo que ele não experimenta a si mesmo como separado, mas a partir de uma abertu- ra incondicional para o outro. A intersubjetividade radical, segundo Crossley (1996), inaugura um entremundo irre- dutível de significados compartilhados, a partir de um en- gajamento pré-reflexivo do sujeito, em primeira instância, na sua abertura à alteridade. A noção de intersubjetividade egológica é entendida através da experiência de uma in- tencionalidade empática, em que o eu experimenta o outro reflexivamente, a partir de uma transposição imaginária de si mesmo para o lugar do outro, por meio de analogias. A intersubjetividade egológica emerge como possibilidade derivada da intersubjetividade radical. Crossley (1996) articula, especialmente, o processo de gênese do sentido de si mesmo e das capacidades refle- xivas que ele ensejará à emergência da intersubjetividade egológica. Com emergência da dimensão egológica da in- 67 tersubjetividade o eu pode se envolver em uma experiência que nunca coincide completamente consigo mesmo. Dada a limitação do sujeito em perceber claramente a si mesmo, isto é, dada a sua própria opacidade de sujeito diante de si mesmo, ele necessita do olhar do outro para completar o ciclo reflexivo. O sentido egológico de mim se remete à experiência de captura de si pela percepção do outro, que desloca o sujeito para fora de si o distanciando da experiên- cia imediata. O outro passa a ter acesso à imagem exterior e pública do eu e essa experiência de existir para o outro aliena o sujeito de si. Quando uma pessoa se coloca no lu- gar da outra, é a esta imagem pública que ele se vincula produzindo uma inferência acerca daquilo que o outro e si mesmo são. Este modo experiência do outro e de si mesmo ocorre de modo imaginário com base em elementos simbó- licos compartilhados. Para Crossley (1996), a imaginação é um fenômeno intersubjetivo: as atividades imaginativas são comumente coletivas, compartilhadas nos jogos, em narrativas e em imagens construídas pelos sujeitos. A aquisição da linguagem e o diálogo são, desde estas reflexões, importantes para o desenvolvimento da subjetividade, porque demandam o reconhecimento da es- pecificidade da perspectiva do sujeito, que nunca consegue apreender totalmente a perspectiva do outro. O diálogo ex- plicita a lacuna entre a experiência singular de cada inter- locutor. Pluralidade de compreensões sobre a experiência da intersubjetividade Coelho Junior e Figueiredo (2003; 2004) apresen- taram uma “caracterização do conceito e da experiência da 68 intersubjetividade a partir de quatro matrizes” consideradas como “figuras organizadoras e elucidativas de diferentes dimensões da alteridade” (2004, p. 9). São elas: a intersub- jetividade trans-subjetiva, a intersubjetividade traumática, a intersubjetividade interpessoal e a “intersubjetividade” intrapsíquica. Estas matrizes, por sua vez, “nunca ocupam de forma pura e exclusiva o campo das experiências huma- nas” e “podem ser concebidas como elementos simultâneos nos diferentes processos de constituição e elaboração sub- jetivas” (p. 9). Nesta perspectiva, a alteridade é uma di- mensão constitutiva de si mesmo, sendo que a noção de intersubjetividade expressa um desdobramento crítico da tradição moderna que [...] concebe o Eu como uma unidade auto-constituída, independente da existência de um Outro e de outros sin- gulares diferenciados. Opõe-se também à clássica oposi- ção sujeito/objeto, marca epistemológica do pensamento moderno, que fez com que a noção de intersubjetividade fosse recusada e considerada sem interesse, principal- mente para teorias, como as psicológicas, que preten- diam ser ciência. (2004; p. 10) Coelho Junior e Figueiredo (2003; 2004) apontam que a filosofia fenomenológica, desde Edmund Husserl (1859-1938), filósofo alemão que exerceu grande influên- cia sobre a filosofia fenomenológica do século XX, trouxe a questão da intersubjetividade para o primeiro plano, ques- tionando o “panorama determinado pelo pensamento mo- derno” (p. 11). Tais questões também foram profundamente abordadas no contexto norte-americano, nas reflexões do chamado interacionismo simbólico, protagonizadas por Mead, autor mencionado no capítulo anterior, caraceteri- zando uma “proximidade entre as elaborações fenomeno- 69 lógicas e as de G. H Mead” (p. 11) que se desdobrou, por exemplo, no campo da sociologia fenomenológica de Peter L. Berger (1929-2017) e Thomas Luckmann (1927-2016), dois sociólogos de origem austríaca, radicado nos Estados Unidos, bastante conhecidos pelos seus trabalhos conjuntos na proposição de uma sociologia de base fenomenológica. Coelho Junior e Figueiredo (2003; 2004) afirmam que “o estudo do surgimento das relações entre um Eu e um Outro é uma das marcas principais do pensamento contem- porâneo em filosofia, psicologia, psicanálise e mesmo em etologia” (p. 13). Nesses estudos são comumente distingui- dos três significados de intersubjetividade: 1) a intersubje- tividade como “comunhão interpessoal entre sujeitos que mutuamente estão sintonizados em seus estados emocionais e em suas respectivas expressões” (p. 13); 2) a intersubje- tividade como “a atenção conjunta a objetos de referência em um domínio compartilhado de conversação linguística ou extra-linguística” (p. 13); e 3) a intersubjetividade como “capacidade de estabelecer-se inferências sobre intenções, crenças e sentimentos de outros, que envolveriam a simula- ção ou capacidade de “leitura” de estados mentais e proces- sos de outros sujeitos, que de alguma forma nos remeteria ao clássico conceito de Einfühlung (empatia)” (p. 13). Adi- cionalmente, em teorias e sistemas psicológicos diversos o termo intersubjetividade tem sido usado para indicar [...] a situação na qual, por suas mútuas relações, nume- rosos (ou apenas dois) sujeitos formam uma sociedade ou comunidade ou um campo comum e podem dizer: nós. Pode ser definida também como sendo o que é vivi- do simultaneamente por várias mentes, surgindo então a denominação “experiência intersubjetiva”. (p. 13) 70 Do ponto de vista epistemológico, o estudo das re- lações intersubjetivas foi marcado pela questão de como estabelecer pontes, comunicação entre os polos eu-outro. Quanto a isso, Husserl apontava que a possibilidade de co- nhecimento do outro é sempre mediada por uma consciên- cia intencional, que não é fechada em si mesma. Os estudos de Mead, por sua vez, apontavam que a própria constituição da consciência emergiria a partir da interação com os outros significativos e com o outro generalizado, de modo que a alteridade precede a subjetividade, constrói e estabiliza a identidade do Eu. Haveria modalidades pré-subjetivas em que as pontes ou comunicação entre eu e outro são ineren- tes ao plano original de indiferenciação entre as subjetivi- dades: o problema se inverte, o que precisa ser entendido é separação, a ausência de intersubjetividade.O contraponto a essa questão será dado pelas filosofias da diferença, que apontam a excedência do outro: ainda que afetado pelo ou- tro, em um plano original de coexistência em relação ao qual não se tem escolha, o outro comporta sentidos não assimiláveis ao eu, demandando esforços de compreensão. Finalmente, de acordo com Figueiredo (2007), as matrizes de compreensão das relações intersubjetivas são as mesmas que atuam no psiquismo, ou seja, os modos de ser das re- lações intersubjetivas são internalizados e atuam intrassub- jetivamente na atividade criativa de construção de sentido das experiências pessoais. No âmbito da figura denominada intersubjetividade trans-subjetiva está o questionamento do cogito, de que a consciência deve ser, antes de tudo consciência de si, como ponto de partida para o conhecimento. Esta figura emerge de reflexões a partir das filosofias fenomenológicas do ale- mão Max Scheler (1874-1928), do francês Merleau-Ponty 71 (1908-1961), e do alemão Martin Heidegger (1889-1976) dentre outros filósofos que enfatizam as modalidades pré- -subjetivas de existência, baseadas numa esfera original de quase-indiferenciação e de compartilhamento de experiên- cias (Coelho Junior; Figueiredo 2003; 2004). A experiência subjetiva é aqui tomada como primor- dialmente pré-pessoal. Só tardiamente é que a percepção realiza a diferenciação entre si mesmo, o outro e o mundo: no campo da intercorporeidade a compreensão está vincu- lada, por exemplo, à participação primordial de si mesmo no continente materno. Os corpos vividos com outros cor- pos são porosos e permeáveis. Quanto a isso, o psicólogo e pesquisador norueguês Dankert Vedeler enfatiza: [...] Heidegger tem o mérito de colocar nossa relação com o mundo no foco, como oposta à morada na in- trospecção, que tem uma longa tradição, de Agostinho a Bergson, passando por Descartes (é claro), mas também Peirce e James. (Vedeler, 2015, p. 138) Desde esta perspectiva haveria uma compreensão prévia do mundo, implícita, que constrói as subjetividades no contexto de uma tradição. No horizonte das compreen- sões prévias que cria e delimita as condições da experiência não há absoluta sincronicidade, coincidência ou simulta- neidade na relação entre as subjetividades. A precariedade da sincronicidade permite o reconhecimento da diferença na relação eu-outro e a percepção da diferença entre cada um dos corpos em relação. Assim, as relações são marcadas pela simultaneida- de diferenciação e indiferenciação de consciências corpó- reas que tocam e são tocadas umas pelas outras em um solo inaugural e “anterior inclusive à possibilidade instituída de 72 um eu que venha a se opor ou se relacionar com um outro” (p. 20). Como contraponto à figura da intersubjetividade trans-subjetiva, está figura designada como intersubjetivi- dade traumática, segundo a qual o outro não apenas pre- cede o eu mas também o excede. Não se trata de simples impossibilidade de sobreposição ou desidentificação en- tre eu e outro, mas de uma relação de má adaptação que causa fraturas, provoca sofrimento e demanda esforço de acolhimento do outro pelo eu (Coelho Junior; Figueiredo 2003). Este modo de relação supõe que a abertura ao outro é incondicional, contudo, o outro que precede o eu não se oferece como um ser assimilável ao campo do já sabido, disponível para uso e controle. A subjetividade se constitui pelo esforço de acolhimento da irrupção da alteridade em um processo no qual o outro emerge sempre deixando algo que escapa à assimilação pelo eu. A obra de Emmanuel Lévinas (1906-1995), filóso- fo mencionado no capítulo anterior e que foi discípulo de Husserl, assim como foram Merleau-Ponty e Heidegger, dirige o olhar para a dimensão da intersubjetividade que se relaciona especialmente à questão ética. A dimensão ética vem na tensão com a possibilidade de que a resposta do sujeito à irrupção alteridade se dê como contínua assimi- lação daquilo do outro que é mesmo para o eu. Trata-se, nesse caso, de um processo de repetição, sem lugar para rupturas ou modificação da experiência subjetiva, trata-se de resistência ao impacto provocado pela apresentação da alteridade (Coelho Junior; Figueiredo 2003). George Hebert Mead (1863-1931) foi o proponen- te das ideias que Coelho Junior e Figueiredo (2003; 2004) designam como a figura da intersubjetividade interpessoal. Mead criticava a concepção de que há uma precedência da 73 consciência sobre o mundo, apontando que a consciência emerge pela relação com outros significativos. Desde o campo da gestualidade, paradigmático e fundamental nas proposições de Mead, o acesso ao significado dos gestos se dá pela mediação do outro possibilitando sua comple- tude. A noção de interpessoalidade pressupõe que das in- terações concretas com outros sujeitos, já diferenciados no desenvolvimento individual, emerge a noção de si mesmo como mim e de outro generalizado (Coelho Jr; Figueiredo; 2003;2004). Finalmente, na sistematização de Coelho Junior e Figueiredo (2003; 2004) a psicanálise é, por excelência, o campo de investigação da “intersubjetividade” intrapsíqui- ca. Ela oferece uma proposta para se analisar a dinâmica específica entre elementos internos e intersubjetivos da personalidade humana: a psicanálise, ao estabelecer em seu campo de análise a primazia do inconsciente toma-o como um espaço mental repleto de objetos internos, com leis pró- prias quanto à rede de relações entre eles. Os objetos internos, por sua vez, produzem efeitos e consequências subjetivas. Aqui, o outro comparece como presença ausente uma vez que, embora os objetos internos possam emergir a partir da relação do sujeito com os outros e com o mundo, passam a estabelecer relações no plano psí- quico que independem e não funcionam segundo a lógica das relações percebidas no mundo externo (Coelho Junior; Figueiredo 2003; 2004). Cada uma das figuras apresentadas a respeito das relações intersubjetivas apresenta aspectos que a outra di- mensão não dá conta segundo sua lógica interna de com- preensão. As figuras são consideradas trilhas simultâneas que coexistem na construção da subjetividade. Os proces- 74 sos de internalização na relação do sujeito com os outros e com o mundo desde um solo trans-subjetivo primordial fazem emergir, de forma suplementar, uma distância com- preendida na noção de mundo interno, singular e parcial- mente cindido do mundo externo, sem a expectativa de sín- tese entre esses padrões de intersubjetividade. No processo de fazer sentido, o ser humano transitaria pelas diferentes figuras da intersubjetividade, sendo que nenhuma delas dá conta da totalidade das experiências pessoais. Coelho Ju- nior e Figueiredo (2003; 2004) apresentam uma forma de integração das figuras apoiando-se na lógica da suplemen- taridade, proposta pelo filósofo francês Jacques Derrida (1930-2004). A lógica da suplementaridade se baseia na ideia de uma relação inclusiva. As figuras da intersubjetividade não se articulam mecanicamente umas em relação às outras, mas as fraquezas ou incompletudes de uma dimensão inter- subjetiva são suplementadas pela força da outra dimensão que lhe é exterior e a completa, estabelecendo a comuta- ção entre distintas teorias segundo uma abordagem que, de acordo com Gillespie (2003), não é fundacionista, linear, mas, perspectivista. Ou seja, para cada ponto de comutação onde uma teoria entra em colapso há uma outra teoria que faz a suplementação. A questão da excedência no âmbito das relações intersubjetivas O artigo de Coelho Junior e Figueiredo (2003) foi objeto de uma série de comentários em uma edição espe- cial do periódico Culture & Psychology. Os comentários visaram aprofundar aspectos da formulação desses autores 75 e identificar acidentes que pudessem ser objeto de novas reflexões e formulações. A seguir, são discutidos aspectos selecionados a partir de comentários de Gillespie (2003) e Marková (2003a) dirigidos ànoção de figuras da intersub- jetividade. Gillespie (2003), aponta que [...] a caracterização da literatura nos termos das quatro dimensões propostas parece correr o risco de obscurecer aspectos das teorias que estão para além das dimensões prescritas, portanto, silenciando contradições potencial- mente frutíferas entre abordagens que estariam em cada uma das dimensões e entre as dimensões (p. 215) Gillespie (2003) toma a noção de arquitetura da in- tersubjetividade de Rommetveit (1976), autor mencionado no capítulo anterior, como um exemplo de formulação te- órica que se situaria entre duas matrizes: a trans-subjetiva e a interpessoal, por focalizar o processo de sintonização e compartilhamento parcial, como condição para que um di- álogo aconteça no âmbito do reconhecimento mútuo entre interlocutores. Neste caso, não se poderia falar em matrizes que se suplementam, porque a teorização de Rommetveit, desenvolvida a partir de Mead, Vygotsky, Merleau-Ponty e do filósofo da linguagem austríaco-britânico Ludwig Witt- genstein (1889-1951), toma aspectos dos dois polos, trans- -subjetivo e interpessoal, como uma unidade. Gillespie (2003) reflete sobre a questão da ética e do traumático, focalizada na segunda matriz de Coelho Jr. e Figueiredo (2003), articulando elementos da teoria da ética em Mead: Para Mead, embora o outro seja, inicialmente, tudo, é apenas posteriormente que as demandas éticas emergem. 76 Mead localiza a ética na dissolução do self que emerge quando se reconhece a perspectiva do outro. Além disso, porque tomar a perspectiva do outro é implícito em todo conhecimento, então a habilidade ética se expande com o conhecimento, em vez de preceder o conhecimento. Sobre essa questão ética, ambos, Lévinas e Mead po- deriam ser posicionados na dimensão traumática, ainda que suas abordagens não sejam complementares e te- nham diferenças fundamentais. (p. 214) Gillespie (2003) enfatiza que Mead é um perspecti- vista teorizando a respeito do ato enquanto unidade de aná- lise. Aponta que o ato como unidade de análise não pode ser reduzido à oposição binária entre intrapsíquico e inter- pessoal. O ato acontece entre as perspectivas incomensurá- veis do ator e do observador que se excedem mutuamente. A diferença entre Mead e Lévinas seria, adicionalmente, uma diferença de ponto de vista: Mead se posiciona fora da perspectiva do si mesmo e do outro, ao passo que Lévinas ocupa a posição de si mesmo, de onde o outro passa a ser considerado como aquele que o excede. Gillespie (2003) se aproxima da noção de excedente para se referir aos pontos cegos entre as perspectivas: [...] porque o ato cruza duas perspectivas, o ator tem acesso privilegiado à etapa interior, enquanto o obser- vador tem acesso privilegiado à etapa exterior. Eu es- tou interessado na etapa exterior e vou me referir como excedente o excesso específico que o outro tem sobre o self. Comportamentos do self como rubor, atos falhos e aparência compreendem alguns dos excedentes cotidia- nos que o outro tem sobre o self. [...] (p. 217) Avançando no terceiro tema deste capítulo, a crítica de Marková (2003a) acerca dos modos intersubjetividade sistematizadas por Coelho Junior e Figueiredo (2003) traz para o debate a questão da coautoria proposta por Marková 77 (2003a), que começa refletindo sobre a diversidade onto- lógica nas abordagens sobre o tema da intersubjetividade. Mais especificamente, ela aponta que subjacente às quatro figuras da intersubjetividade propostas estariam duas con- cepções ontológicas distintas. A primeira concepção ontológica parte da ideia de que a relação eu-outro compõe uma díade irredutível: a subjetividade entendida de acordo com esse paradigma não pode ser pensada, por exemplo, como construção privada e solitária. Ao contrário, é compreendia em relação ao diálo- go realizado entre si-mesmo e os outros da realidade social. De acordo com esta ontologia, a comunicação é resultado de uma colaboração recíproca na elaboração da mensagem. Aqui encontram-se as matrizes trans-subjetiva e interpes- soal vinculadas às concepções de mundo natural e mundo cultural compartilhado, ideias encontradas na abordagem fenomenológica da sociologia, por exemplo, no pensamen- to de Schutz e de Berger e Luckmann. A segunda concepção ontológica que permeia as matrizes da intersubjetividade propostas por Coelho Junior e Figueiredo (2003) é a de que eu e outro são existencial- mente separados havendo uma lacuna ou fosso inapreen- sível na fronteira entre eu e outro (Marková, 2003a). De acordo com esta ontologia, a comunicação se configura como passividade em relação à expressão do outro. As fi- guras traumática e intrapsíquica estariam vinculadas a esta perspectiva ontológica. A despeito das diversidades discutidas acima, há, no entanto, ao menos um tipo de paralelo, em vez de uma similaridade, entre os significados de intersubjetividade nas quatro figuras, seja em âmbito psicológico, religioso, ético ou outro. Em todos esses casos a intersubjetividade 78 busca reduzir a distância entre Eu e Outro(s). (Marková, 2003a, p. 253) No processo de comunicação com o outro, de re- dução das lacunas entre eu e outro, a intersubjetividade constitui a subjetividade, contudo, a subjetividade é, para Marková (2003a) algo além da busca de proximidade com o outro. Ela inclui a falta de consenso na base do diálogo para além do eu e do outro em relação. Há, necessariamen- te, no diálogo, um estranhamento entre eu e outro que gera tensão. Uma tensão que não pertence a uma ou outra subje- tividade, mas que é criada entre os participantes do diálogo. Cada indivíduo vive ‘em um mundo das palavras dos ou- tros (Bakhtin, 1979/1986, p. 143). Seres humanos fazem o mundo nos termos dos outros, e a existência inteira do self é orientada na direção da linguagem dos outros e do mundo dos outros. Começamos a vida aprendendo as palavras dos outros, o mundo multifacetado dos ou- tros se torna parte da nossa própria consciência e todos os aspectos da cultura preenchem nossa própria vida e orienta nossa existência na direção dos outros. Mas viver no mundo dos outros é expresso por Bakhtin como coau- toria em vez de intersubjetividade. Coautoria demanda a avaliação do outro, esforço com o outro e julgamento da mensagem do outro. (p. 256) A noção de dialogicidade como coautoria emerge, desse modo, como uma forma de compreender a constru- ção da subjetividade que aparentemente não se encaixa nas figuras da intersubjetividade propostas por Coelho Jr. e Fi- gueiredo (2003; 2004), justamente por não pressupor ou vi- sar o compartilhamento, mas operar sobre a dinâmica das tensões na relação eu-outro. 79 Da intersubjetividade à coautoria na construção de conhecimento psicológico Crossley (1996) utiliza a terminologia dimensões da intersubjetividade salientando que as dimensões radical e egológica da intersubjetividade se alternam continuamente na relação eu-mundo e eu-outro de maneira complementar. A ideia de fases diz respeito à gênese das intersubjetivi- dades, segundo a qual a intersubjetividade radical é con- dição de possibilidade para a emergência da intersubjeti- vidade egológica. Uma vez que ambas as dimensões da intersubjetividade emergem, permanecem concomitantes como possibilidades na relação sujeito-mundo, ocorrendo em alternância, em movimentos de vai-e-vem. Esta con- cepção pode dialogar com as figuras da intersubjetividade de Coelho Junior e Figueiredo (2003; 2004). A noção de intersubjetividade radical de Crossley (1996) se aproxima da figura da intersubjetividade trans-subjetiva, que focaliza as experiências humanas como imbricadas numa esfera ori- ginal de quase-indiferenciação. A intersubjetividade egológica, tal como concebida por Crossley (1996), se aproxima da figura de intersubjeti- vidade interpessoal, que aponta que o acesso ao significado dos gestos se dá pela mediação do outro, que possibilita a completude da significação. A teorizaçãode Crossley é uma situação semelhante àquela caracterizada por Gillespie (2003) de teorias que não podem ser posicionadas em uma ou outra figura da intersubjetividade, mas articulam duas ou mais figuras ao mesmo tempo. Ao refletir sobre proces- sos subjetivos como caracterizados por processos imagina- tivos e pela linguagem, as formulações de Crossley (1996) permitem refletir sobre processos de construção subjetiva 80 como resultados da internalização do campo social sem se posicionar a respeito da existência de leis tais como as de- finidas no escopo da psicanálise, que seriam características do campo de relações dinâmicas no âmbito intrapsíquico segundo Coelho Junior e Figueiredo (2003;2004). Con- temporaneamente, teorias como a do Self Dialógico, ori- ginalmente proposta pelos psicólogos holandeses Hubert Hermans, Harry Kempen (1937-2000) e Rens J. P. van Loon (Hermans, Kempen e van Loon, 1992), concebem que o mundo interno, intrapsíquico, pode ser compreendido como um mundo social imaginado composto por vozes de múltiplos atores sociais. A psicologia dialógica, portanto, aponta para possibilidades de se pensar a construção sub- jetiva a partir de concepções que se articulam à filosofia da linguagem de Bakhtin, à filosofia hermenêutica de Ga- damer e à filosofia da alteridade de Lévinas, dentre outros filósofos da dialogicidade (cf. Marková, 2006). Finalmente, a noção de abertura incondicional do eu à aspectos do outro que o excedem demandando um esforço de acolhimento foi caracterizada como figura da intersubje- tividade traumática por Coelho Junior e Figueiredo (2003; 2004). A questão da alteridade, por sua vez, vem sendo te- matizada por meio da noção de experiência inquietante no âmbito do CSC em Psicologia (cf. Simão, 2010; 2016a) en- fatizando sua relevância no processo de desenvolvimento humano, considerando que a subjetividade se transforma ao realizar movimentos de descentração em seu esforço sem- pre inconcluso de busca de compreensão do outro. Experiências inquietantes fazem emergir zonas amorfas de significado e situações ambíguas para o self. Elas per- tencem à ordem fenomenológica dos sentimentos con- 81 cernentes a experiências subjetivas que tocam a pessoa afetiva e pré-reflexivamente. Como tal, elas são vividas em primeira pessoa. Experiências inquietantes criam instabilidade, tensão, perturbam ou mesmo ferem as ex- pectativas da pessoa sobre sua ‘habilidade-de-entender’ a si mesmo e às suas relações Eu-Outro-Mundo, insti- gando a pessoa a sentir, pensar e agir de modo cognitivo e afetivo, em diferentes direções daquelas que ela estava seguindo até então; de tal modo que a pessoa pode che- gar a integrar sentimentos despertados por ela em sua base afetivo-cognitiva, que, por sua vez, irá também mu- dar. (Simão, 2015a, p. 67) A noção de experiência inquietante como experiên- cia que, no nível psicológico, caracteriza a relação de al- teridade (cf. Simão, 2003b; 2004a; 2015a) no âmbito das relações intersubjetivas emerge, predominantemente, na in- terface entre as intersubjetividades transubjetiva e traumá- tica, sem, contudo, encontrar um lugar fixo em uma dessas figuras. Na experiência inquietante a instabilidade e tensão que perturba ou fere a expectativa da pessoa sobre sua pos- sibilidade de compreensão do outro faz emergir uma lacu- na, um excesso inassimilável, ainda que temporariamente. Tal lacuna propicia um movimento de integração afetivo- -cognitiva do sujeito como parte de um esforço que trans- forma e constrói a subjetividade. A transformação pode se dar no movimento de busca da pessoa pelo compartilha- mento de experiências com o outro, isto é, através da busca pela intersubjetividade. Mas na medida em que esta é uma busca inconclusa, a dinâmica das tensões na relação eu-ou- tro permanece, instaurando situações em que prevalecem a coautoria como marca do distanciamento para além das possibilidades de proximidade intersubjetiva com o outro. As presentes proposições apontam para um duplo risco para as pesquisas na área de História de Filosofia da Psi- 82 cologia. A organização de ideias complexas presentes no campo psicológico e filosófico em categorias aparentemen- te claras e distintas permite ao leitor a identificação de ten- dências ou polos no desenvolvimento do pensamento sobre um determinado tema, como o da intersubjetividade. Mas, muitas vezes, as categorizações claras e distintas acabam por eliminar nuances das teorias ou reflexões filosóficas focalizadas. Tais classificações devem servir, então, como norteadoras de reflexões que devem se aprofundar pela via da imersão do pesquisador na compreensão dos sistemas de pensamento específicos e sofisticados, ou seja, debruçando- -se sobre as obras dos autores clássicos. Há complexidade na passagem da reflexão que acontece no nível das reflexões filosóficas para o nível das reflexões sobre as experiências empíricas, que estão, por exemplo, no âmbito da psicologia enquanto área de conhe- cimento. A experiência empírica no campo da psicologia, ainda que sempre pensada a partir de noções e conceitos organizados em sistemas teóricos, parece sempre exceder, em alguma medida, as compreensões formuladas por esses sistemas teóricos. Neste sentido, a construção subjetiva, en- quanto processo concretamente vivido pelas pessoas, se ar- ticula à busca pela intersubjetividade, mas também excede essa busca e se realiza num campo de tensionamentos que compreende esforços de afastamento, em vez de aproxima- ção. A dinâmica entre excedência e tentativas de abarcar aquilo que excede a experiência é o motor inquietante que, de acordo com o CSC, guia o processo infinito de constru- ção de conhecimento em psicologia. ONTOLOGIA Reflexões sobre as relações eu-outro-mundo As reflexões no campo da ontologia dizem respeito à natureza do ser, da existência humana, englobando as di- mensões do compartilhamento e da diferença como aspec- tos universais da experiência no mundo com os outros. A psicologia, por sua vez, se dirige à compreensão do ser hu- mano como pessoas concretas, empíricas, que vivem suas vidas e se comportam de modo particular e/ou segundo padrões culturalmente estabelecidos. Simão (2016b) argu- menta que, resguardando as diferenças entre o escopo das reflexões filosóficas e psicológicas, as questões ontológicas são o campo de interpelação filosófica à psicologia, consti- tuindo uma fronteira dinâmica entre esses campos de saber. A inevitabilidade da psicologia ser interpelada e responder às questões ontológicas, conscientemente ou não para o pesquisador, se deve ao fato de que as questões onto- lógicas se relacionam com as diferentes maneiras do sujeito psicológico, tácita ou explicitamente, interpretar o mundo participando dele. A reflexão ontológica enfatiza os funda- mentos existenciais que são condição para a reflexividade humana, promovendo o questionamento do cogito, concep- ção de que a consciência deve ser, antes de tudo consciên- cia de si, como ponto de partida para o conhecimento. Cabe à psicologia compreender as modalidades pré-subjetivas de existência, baseadas na permeabilidade e compartilhamen- 84 to de experiências entre eu e outro. Mesmo diferenciados, os corpos vividos com outros corpos, são porosos e perme- áveis. A reflexão ontológica aproxima a psicologia da ne- cessidade de compreensão do ethos em que as suas teorias e sistemas fazem sentido. Figueiredo (2013) discute que a noção de ethos se refere a uma forma de “[...] propiciar, configurar, formar e constituir tantos homens como seus mundos— suas moradas, tanto os sujeitos como seus ob- jetos, tanto as experiências sociais quanto as experiências privadas e “subjetivas” de cada indivíduo” (p. 48). O ethos, portanto, diz respeito a “instalações do humano” (p. 48), formas de se habitar o mundo. Figueiredo (2013) sugere que a tarefa de compreensão de cada ethos ao qual as teorias e sistemas psicológicos estão vinculados se dá por meio dacompreensão das alianças e conflitos básicos entre roman- tismo, liberalismo e regime disciplinar. Ou seja, é relevante levar em conta o ethos fissurado do homem constituído nos desdobramentos modernos da história dos povos europeus, de sua maneira de estar no mundo. Nos capítulos anteriores deste livro, foi abordada a importância de se colocar a rela- ção entre as pessoas e com o mundo no foco, como distinta da morada na introspecção que tem uma longa tradição na filosofia e forte penetração na psicologia. Ou seja, compre- ender a psicologia implica compreender os processos histó- ricos, sociais, culturais e ambientais em que os fenômenos e processos psicológicos participam. Sobre a introspecção, reflexões no âmbito do CSC têm se pautado por uma concepção de introspecção que remete ao fato de que, em pesquisa, a pesquisadora que pratica a introspecção irá depois refletir criticamente sobre aquilo que foi trazido a si por ela própria e pela participan- 85 te, isto é, a introspecção funciona segundo o par dialógico introspecção-retrospecção. Há também que se considerar na introspecção ocorre pré-reflexivamente uma seletividade segundo um foco que toca a pessoa [pesquisadora] na temporalidade da- queles sentimentos, valores, acontecimentos. Quando se trata de uma introspecção com fins de pesquisa, há ain- da que se considerar que a seletividade da constelação de motivações e objetivos da pesquisa inevitavelmente entra em jogo. E assim o Outro, o pesquisador, se insi- nua. Nesse sentido há sempre em nossas experiências, a pesquisa aí incluída, um interlocutor de nós mesmos à espreita, talvez anônimo, vago, imaginário, mas que de alguma forma precisamos reconhecer, acolher e validar na ética da reflexão sobre nossas experiências no mundo. Como nos ensinou Ivana Marková, o ser humano funcio- na em termos de Ego-Álter” (Simão, 2025) Questões desta natureza têm sido privilegiadas em pesquisas na área do CSC, em relação aos temas da inter- subjetividade e da alteridade. Exemplos disso podem ser encontrados no capítulo escrito em coautoria entre as pro- fessoras da USP Kátia Amorim, Lívia Simão e a professora da Universidade Federal de Pernambuco, Isabel Pedrosa, sobre a questão do tempo nas relações eu-outro e seus im- pactos na compreensão de processos de desenvolvimento (Amorim, Simão e Pedrosa, 2011). Os autores deste livro também trabalharam juntos sobre os temas da intersubje- tividade e da alteridade em algumas publicações coautora- das (Silva Guimarães e Simão, 2006; 2007a; 2007b; 2007c; 2008). O trabalho de Sampaio e Simão (2013) abordam as noções no âmbito das artes cênicas. Destaca-se a série de trabalhos de Simão sobre os temas, desde o ano de 2004 a 2013 (Simão, 2004a; 2006; 2007; 2012; 2013), nas suas parcerias com colegas que atuam no campo da psicoterapia 86 no Chile (Simão, Molina e del Río, 2011), com o já men- cionado psicólogo cultural Jaan Valsiner (Simão e Valsiner, 2006b), dentre outros trabalhos. Um das referências centrais da área, já menciona- da nos capítulos anteriores deste livro, Marková (2003a) reflete sobre a diversidade ontológica nas abordagens do tema da intersubjetividade apontando que, usualmente, na reflexão psicológica e filosófica estariam duas concepções ontológicas distintas. A primeira concepção ontológica par- te da ideia de que a relação eu-outro compõe uma díade irredutível: a subjetividade entendida de acordo com esse paradigma, não pode ser pensada, por exemplo, como cons- trução privada e solitária. Ao contrário, é compreendia em relação ao diálogo realizado entre si-mesmo e os outros da realidade social. A segunda concepção ontológica diz res- peito à pressuposição de que eu e outro são existencialmen- te separados, havendo uma lacuna ou fosso inapreensível na fronteira entre eu e outro. De acordo com essa ontologia, a comunicação se configura como passividade em relação à expressão do outro, acolhimento do outro em sua diferença. A noção de dialogicidade como coautoria, como discutido no capítulo anteriores, não se encaixa na oposição entre on- tologias que pressupõem o compartilhamento intersubjetivo ou a impossibilidade desse compartilhamento, justamente por operar sobre a dinâmica das tensões na relação eu-outro como dimensão constitutiva da experiência humana. O aprofundamento da reflexão sobre ontologia da experiência inquietante, articulada à questão da coautoria no campo do dialogismo teórico-metodológico, é aqui pro- posto visando contribuir para, no nível empírico (ôntico), o aprofundamento da compreensão do papel da pesquisadora como alguém que busca ordenar as experiências inquietan- 87 tes em um sistema de conhecimento coerente que garanta a inteligibilidade das experiências. A ação da pesquisadora, interpretativa e predicativa, estrutura as coisas, os eventos e as ações das outras pessoas no mundo em um processo afetivo de cognição da realidade empreendido pelo seu cor- po sensível permeável em um ambiente de trocas e atenção mútua entre as corporeidades. Grande parte das questões ontológicas destacadas das produções do CSC dizem respeito ao pertencimento cultural da pessoa que constrói conhecimentos. O foco re- cai sobre as condições culturais que viabilizam o ser huma- no como criador, enquanto condições existenciais refletidas a partir da centralidade dos processos psicológicos que se abrem ao mundo configurado e se configurando a partir de práticas e concepções culturais específicas que cultivam o ser humano. A concepção de cultura que se coloca no CSC toma tanto a sua definição como campo de ação simbóli- ca, desde Boesch (1991), autor mencionado nos capítulos anteriores, como também se vale centralmente da lógica co-genética proposta por Herbst (1995), pondo em questão a unidade psicológica como uma estrutura isolada, autorre- ferenciada e racional. Os processos psicológicos se conser- vam e se transformam imersos na participação da pessoa nas comunidades concretas, e a partir das experiências e mediações semióticas, a pessoa concebe sua existência e constrói conhecimento. Pesquisas no campo do CSC partem da compreen- são de que há uma predicação ontológica na base das teo- rias e sistemas psicológicos que supõe o envolvimento das proponentes dessas teorias e sistemas na tradição cultural que as constituiu como pessoa (cf. Simão, 2016b). É a partir de suas trajetórias de vida singulares que as pesqui- 88 sadoras propõem questões para a construção de teorias e sistemas gerais na psicologia, mas não só. A natureza se- miótica e dialógica das experiências humanas se organiza segundo processos inerentemente culturais de construção de conhecimento. A cultura é um campo de oportunidades, regras e limites de ação, que configura distintos ambien- tes no qual as formas de agir e conceber as experiências são convencionadas. Desse modo, as diferentes teorias e sistemas psicológicos não são transparentes uns para os outros, bem como os discursos e práticas psicológicas se distinguem, sobremaneira, de outras complexas formas de atividade cultural. Cada tradição pressupõe conjuntos de experiências e narrativas da experiência como condições para a subsistência da cultura e fundamento de perspectivas em aberto no horizonte de construção do conhecimento. Parte dos estudos da área enfatizam que a corpo- reidade, a intersubjetividade e as sugestões socioculturais formam as condições da pessoa no mundo, que emerge, por sua vez, como um campo de ação simbolicamente constru- ído por seus participantes. Em grande medida, a formação da pessoa na cultura é guiada, pré-reflexivamente, pela or- ganização de hábitos inscritos no corpo, que disponibilizam ou restringem possibilidades de experimentar o mundo e de se inquietar diante de experiências distintas. Tanto a pes- quisadora, quanto a psicóloga, participam do mundo pes- quisado, dos processos de cuidado consigo, com os outros e com o mundo, promovendo estabilidade e mudança por meio doentrelaçamento de diversos elementos de suas ex- periências inter e intrasubjetivas, bem como em coautoria com seus interlocutores. Estabilidade e mudança, por sua vez, acontecem na temporalidade das experiências culturais em que há elaboração de diversos regimes de linguagem. A 89 questão da temporalidade foi explicitamente abordada em diversos estudos realizados e em andamento na perspectiva do CSC. Estudos que se articulam às noções de tradição e de horizonte no fluxo irreversível das experiências pesso- ais. Compreende que as pessoas vivem, inexoravelmente, a experiência inquietante de constante mudança das coisas. Ao passo que a mudança é inerente aos processos psicoló- gicos que se dão na duração dos eventos, as pessoas com- põem a memória reconstrutiva e as vozes do passado sobre o presente como vestígios de uma estabilidade possível diante da impossibilidade de determinar, prever e controlar, em grande medida, o futuro. A historicidade dos proces- sos psicológicos coloca todas pessoas diante de uma tarefa hermenêutica que inclui a produção de inferências sobre os processos geradores dos eventos psicologicamente experi- mentados em sua interdependência com os demais even- tos sociais e cósmicos. O termo “cósmico”, na acepção de Manoel Bomfim (1868-1932), fundador do primeiro labo- ratório de psicologia experimental do Brasil, corresponde ao mundo psicologicamente experimentado sem mediações diretas ou explícitas de outras pessoas (cf. Bomfim, 1916). O ser humano se encontra em constante proces- so de mudança a partir de suas relações consigo, com o outro e com o mundo. Nas relações sociais, cada pessoa entra em contato com uma multiplicidade de referentes a partir das elaborações semióticas dos participantes dos di- álogos. Contudo, cada uma das expressões de outrem não afeta uns aos outros de forma equivalente. A ação humana é estruturada por imagens simbólicas elaboradas por meio de sínteses estéticas (Boesch, 1984). As tensões inerentes às relações eu-outro-mundo expressam, dentre outras coi- sas, a abertura do ser em um campo existencial disponível 90 à criatividade humana. Nos últimos anos, o CSC abordou, então, reflexões sobre a diversidade das formas de se tornar pessoa: o ser na fronteira com os outros (Marsico, 2015), ser no ambiente (Silva Guimarães, 2016e), incluindo a per- cepção dos territórios configurados pelo processo colonial (Silva Guimarães, 2016b), ser nas instituições (Miranda e Silva Guimarães, 2015), ser no mundo intercultural e in- terétnico (Sousa e Silva Guimarães, 2015), ser na cultura (Nigro e Silva Guimarães, 2015), em construção e difusão (Wagoner, 2015), o modo de ser racional do cientista (Val- siner, 2015), a pessoa em formação nas experiências artís- ticas (Sampaio, 2018), nas áreas da saúde (Simão e Marsi- co, 2018; Florsheim e Simão, 2015), do bem estar social, a construção de hábitos e práticas sustentáveis nos territórios (Silva Guimarães, 2016c) e os infinitos modos de ser na diversidade sociocultural humana (Kiki e Silva Guimarães, 2018), dentre outras produções. Os aspectos histórico-culturais constitutivos da construção de conhecimento em psicologia tem sido fo- calizados em pesquisas da área como dimensão básica da gênese dos processos psicológicos nas relações eu-outro- -mundo em que algum grau de indeterminação configura estruturas de significação sempre dinâmicas, processuais. Algumas pesquisas visaram entender como a construção de significados é imanente às relações eu–outro situadas, ao campo sociocultural onde se dão as relações eu-outro- -mundo, explicitando as tensões inerentes. O mundo apare- ce como sendo visado a partir de formas compartilhadas de habitar integradas às narrativas que extrapolam a descrição estabilizadora das coisas para se pensar outras possibilida- des passadas, presentes e futuras. As formas compartilha- das de habitar, por sua vez, configuram a situação extra- 91 verbal da experiência, em parte disponível aos processos ativos de nomeação por parte da atividade do sujeito, em parte resistindo a esses processos e podendo gerar, assim, experiências inquietantes pelo excedente das alteridades. O ethos da pesquisa e exercício profissional em psi- cologia não foge a esse processo, pressupondo experiên- cias inquietantes de desregramento e incompletude como potencialidade latente de reinvenção da realidade. Dentre as realidades focalizadas, tem se apresentado às pesquisas da área, com destaque para os trabalhos apresentados no Semiotic-Cultural Constructivism Workshop realizado em 2013 no Instituto de psicologia da USP, mas não apenas nele: a forte presença de questões relativas aos impactos persistentes da colonização nas experiências sociais das pessoas (Simão e Sampaio, 2018), das relações eu-outro- -mundo em instituições e comunidades (Bulcão, 2018; Mi- randa, 2018), da construção de pontos de vista na tradição/ instituição (Moura e Silva Guimarães, 2013), processos formativos e cuidado em saúde (Laskovski, 2017), a na- tureza relacional da confiança (Simão, 2013), a mediação temporal nos processos intersubjetivos (Freitas e Silva Gui- marães, 2015), a borda entre o interno e o externo do orga- nismo socialmente construída (Silva Guimarães e Cravo, 2015), concepções de saúde e doença (Florsheim e Simão, 2015), experiências corporal-estéticas (Morais e Silva Gui- marães, 2015) etc. A seguir, o capítulos egue aprofundando reflexões metapsicológicas concernentes à relevância da reflexivi- dade ontológica na compreensão de processos dialógicos entre pessoas e seus contextos socioculturais. Perspectivas ontológicas em psicologia dizem respeito às dimensões que qualificam diferencialmente o objeto da psicologia de todas 92 as outras instâncias que não são ele próprio, sujeito psicoló- gico (Simão, 2016a, p. 572). Diferentes predicações trazem implicações éticas e desdobramentos em diálogos diversos, possíveis ou não, com a diversidade das abordagens em psi- cologia e outras áreas de conhecimento. A metapsicologia dialógica do Construtivismo Semiótico-Cultural O dialogismo, presente no CSC, diz respeito à pro- posta epistemológica para as ciências humanas (cf. Bakh- tin, 1986) que pressupõe um modo específico de relação com o processo de conhecimento distinto do funcionalismo cientificistas. No funcionalismo o objeto do conhecimento, quando humano, é uma parte ou aspecto daquele ser huma- no que deve se comportar segundo solicitações feitas pelo sujeito do conhecimento (pesquisadora) para que se descu- bra algo sobre o aspecto de interesse da pesquisadora. Nes- se sentido, o objeto pode deve responder e pode até contes- tar, o que será tomado dentro de uma perspectiva prévia da pesquisadora. Ou seja, as pré-concepções da pesquisadora, no sentido hermenêutico, não teriam espaço para serem de- safiadas. Já no dialogismo, o conhecimento sobre um fenô- meno-tema de estudo (Simão, 1989; 1992) se dá por meio da interação entre sujeitos que se posicionam ativamente a respeito do fenômeno-tema de estudo, expressando suas perspectivas através das quais orientam as compreensões sobre algum tema focalizado, de interesse para ambas as partes, ainda que esse interesse não possa geralmente ser caracterizado como sendo “o mesmo”, dadas as posições relativas, diversas e necessárias de pesquisadora e de parti- cipante da pesquisa. 93 Dado que as perspectivas no campo social são múl- tiplas, diversas e variam dinamicamente entre os sujeitos envolvidos no diálogo, estes se transformam a partir das interações. O conhecimento dialógico privilegia a compre- ensão da processualidade transformativa dos temas situa- dos nas interações em vez de buscar a regularidades nos resultados pontuais descritivos das posições particulares expressas no diálogo, sempre transitórias. As ciências exatas representam uma forma monológica do conhecimento: o intelecto contempla a coisa e se ex- pressa sobre ela. Aqui somente existe um sujeito, o cog-noscitivo (contemplativo) e falante (enunciador). O que se lhe opõe é tão-somente uma coisa sem voz. Qualquer objeto do conhecimento (inclusive o homem) pode ser percebido e compreendido como coisa. Porém um sujei- to como tal não pode ser percebido nem estudado como coisa, uma vez que sendo sujeito não pode, se continua sendo-o, permanecer sem voz; portanto seu conhecimen- to só pode ter caráter dialógico. (Bajtin,1985, p. 383) Sendo o conhecimento dialógico fundado na intera- ção entre sujeitos ativos, cada qual contemplando e enun- ciando o mundo através de sua posição particular, o pen- samento, a linguagem e a ação humana não derivam de um processamento neutro, individualizado, de informação. Marková (2016) propõe que o conhecimento, na epistemo- logia dialógica, pressupõe uma ontologia e uma ética deri- vadas das capacidades humanas de: 1) Avaliar a diferença entre a percepção e a ação de si e do outro, de imaginar a perspectiva do outro como diferente da sua própria; 2) Avaliar a diferença entre atual e o possível na coordenação das ações e percepções entre eu e outro, teleologicamen- te orientadas; 3) Comprometer-se com o outro ou romper compromissos. A avaliação entre convergências e diver- 94 gências na relação eu-outro-mundo se desdobra em proces- sos afetivos de construção e desconstrução da confiança em si, no outro e no mundo, que escapam à previsibilidade e controles absolutos, uma vez que se dão na processualidade temporal, fugindo à redução da relação eu-outro a algo fixo e imutável. A ética dialógica, em psicologia, se vincula à per- manente e inevitável abertura de si para o outro tendo em vista a responsabilidade de cada proposta da psicóloga em relação às respostas que oferece aos impasses com os quais se depara pela ação simbólica do outro, suas requisições e demandas. Já a reflexão ontológica se dirige para os predi- cados dos conhecimentos psicológicos, ou seja, a confiança que a psicóloga pode ter, ainda que temporariamente, nas referências de uma tradição como base para a construção de interpretações e entendimentos mútuos. A imersão das teo- rias e sistemas psicológicos na tradição é em grande medi- da implícita, pouco tomada como objeto, tema de reflexão. Contudo, a tradição constitutiva da situação em que os co- nhecimentos psicológicos são construídos, se construídos dialogicamente, abre e mesmo exige que, em seu processo de construção, as pessoas em interação façam antecipações, coordenações e sincronizações de ações e intenções entre si. Trata-se de avaliar a propriedade dos conhecimentos as- sim gerados para o que as pessoas buscam da interação. Nesse sentido, ontologia e ética formam uma unidade es- trutural, sem entretanto se fundirem uma com a outra. Reflexão ontológica, incluída ou excluída das preocupações psicológicas A dialogia, conforme expõe e discute Marková 95 (2012), não significa simplesmente o diálogo face a face entre uma pessoa e outra, mas implica, necessariamente, que eu e outro sejam fontes de comunicação, um para o outro. Na comunicação ocorrem tensões, assimetrias, apro- ximações e afastamentos entre quem se relaciona. Isto é uma parte inerente à comunicação dialógica. Os encontros comunicativos são únicos e irrepetíveis, eles colocam a si mesmo e ao outro em diferentes posições um em relação ao outro. Isto se dá a cada momento, nos processos de desen- volvimento de cada um ao longo da vida. Todo esse pro- cesso só é possível graças à “capacidade da mente huma- na conceber, criar e comunicar sobre as realidades sociais como ‘Alter’”, cerne da relação constitutiva Ego–Alter-Ob- jeto (Marková, 2003b, p.xiii). Por isso, conversar é mais que somar ou descartar idéias. Dialogar é mais que buscar compartilhamento. Estão aí possibilidades e limites de re- organizações simbólicas de si e do outro diante de dado ob- jeto, que podem trazer reorganizações de si mesmos diante do objeto em foco em dada situação (Simão, 2010). O dialogismo é uma perspectiva metapsicológica uma vez que os axiomas e conceitos da epistemologia dia- lógica são propostos como subjacentes aos processos so- ciais de pensamento, comunicação e ação. A epistemologia dialógica pressupõe uma ontologia que leva em conta a co- existência, em interação, de diferentes trajetórias de cons- trução de conhecimentos na diversidade de teorias e siste- mas, como parte de um processo social de convergências e divergências, ressonâncias e ruídos entre as perspectivas de pessoas sobre os objetos referidos em suas expressões. A epistemologia dialógica implica “assumir que a natureza e a vida humanas são constituídas nas interrelações com ‘o outro’, ou seja, em sua orientação para o outro” (Linell, 96 2009, p. 13). No campo da psicologia cultural, a concepção de uma ontologia naturalizada e estática tem sido criticada nos últimos anos (cf. Valsiner, 2017a, 2017b, 2019a, 2020). A ‘ontologização’ de noções do senso comum levaria à ele- vação de pseudoconceitos ao estatuto de entidades causais, sem a suficiente problematização de tais noções (cf. Valsi- ner e Brinkmann, 2016). Um exemplo desta insuficiência está no tratamento das diferentes culturas como entidades ontologicamente estáveis, algo que não encontra evidên- cias nos movimentos migratórios de pessoas ao redor do planeta, que tem sido cada vez mais tematizado contem- poraneamente (cf. Valsiner, 2017a). Da ontologia naturali- zada e estática derivam epistemologias incapazes de lidar com questões concernentes à temporalidade (Simão, Silva Guimarães e Valsiner, 2015) e teorias psicológicas que sim- plificam a realidade em esquemas pontuais, referidos a en- tidades visíveis ou invisíveis, existentes ou não-existentes, a partir de distintos pontos de vista. Ao contrário, para a abordagem semiótica da psi- cologia cultural de Valsiner, os produtos das elaborações semióticas humanas se transformam infinitamente segundo processos dinâmicos a serem focalizados pela psicologia: Toda experiência, axiomaticamente, acontece no tempo irreversível e é regulada por signos. Signos permitem aos seres humanos criarem noções do presente estendi- do variando de milissegundos à eternidade. No no últi- mo caso, a construção de um tempo estático-a noção de tempo como signo-cria a ilusão de liberdade em relação ao tempo irreversível. Essa construção de signos torna todas as perspectivas não desenvolvimentais possíveis. No estudo das mentes humanas em sua forma estática, a psicologia primeiramente abandona a irreversibilidade do tempo. Isso acontece através dos signos que esten- 97 dem a noção de tempo presente infinitamente, tanto para o futuro quanto para o passado. O resultado é o desa- parecimento do tempo como um signo. [...] Ontologias são entidades construídas, não dadas. A perspectiva de- senvolvimental em psicologia é o ponto de partida geral para as perspectivas não-desenvolvimentais-não o con- trário. (Valsiner, 2017a, pp. 320-321) Valsiner rejeita a ontologia estática e naturalizada em favor de uma ontologia relacional (cf. Raudsepp, 2017). Na medida em que as ontologias são construídas e não en- tidades pressupostas, passa a ser fundamental para a psi- cologia refletir sobre tais processos construtivos. Vygotsky (1991) refletiu sobre o sentido da crise da psicologia diante da diversidade de teorias e sistemas ora dogmaticamente apartados, ora ecleticamente misturados. Esteve atento às dificuldades para se integrar perspectivas diversas sobre diferentes objetos. Marcadamente, para Vygotsky (1991), a oposição entre as ontologias materialista-organicista e idealista-espiritualista organizava a diversidade de teorias e sistemas psicológicos em dois campos de disputa a serem superados pelo avanço da compreensão sócio-histórica no desenvolvimento do pensamento e da linguagem científicas em psicologia. Ao deslocar a questão do predicado dos objetos tematizados pela psicologia para a reflexão sobre os pro- cessos semióticos de construção de conhecimento,de pesquisas, mas de um dimensionamento do sentido que as pesquisas tomaram na constituição de uma perspectiva sobre a psicologia em sen- tido amplo. A presente reflexão histórico-filosófica e teórico- -metodológica nos coloca diante da trajetória do CSC para que possamos reconhecer aonde chegamos e avançar na sistematização conceitual, tendo em vista as bases funda- cionais da perspectiva, sua expansão e diversificação nos desdobramentos mais contemporâneos. Sobre os capítulos do livro e sua organização Na introdução estão destacadas algumas das ideias seminais do CSC, como o campo se engendrou a partir de estudos precursores da professora Lívia Mathias Simão (IPUSP). Em seguida, o livro está estruturado segundo os três eixos indicados no subtítulo: ética, ontologia e episte- mologia. A ordem dos capítulos não foi disposta ao acaso. Embora muitos manuais de ciência e psicologia tendam a considerar em primeiro plano o fundamento epistemológi- co das proposições, aqui está marcada a compreensão de que a dimensão ética é o ponto de partida para a constru- ção de conhecimento, considerando perspectivas filosóficas que serão discutidas no texto. Das relações sociais com seu 13 fundamento ético, emergem os universos existenciais, ônti- cos, o mundo da vida e as preocupações ontológicas. Dada as condições de existir e cultivar mundos próprios, só então as preocupações com a pertinência dos conhecimentos e os debates sobre validade tomam lugar, no âmbito da reflexi- vidade epistemológica. Em cada um dos capítulos são apre- sentados argumentos, referências de base e também exem- plos desde as pesquisas realizadas na trajetória do CSC. São Paulo, 02 de fevereiro de 2026, Danilo Silva Guimarães e Lívia Mathias Simão Sumário INTRODUÇÃO 17 ÉTICA 53 ONTOLOGIA 83 EPISTEMOLOGIA 109 CONCLUSÃO 143 REFERÊNCIAS 175 ÍNDICE REMISSIVO 199 INTRODUÇÃO Considerações sobre a gênese do CSC Este capítulo apresenta ideias precursoras do CSC, selecionadas a partir de um conjunto de produções publica- das entre os anos de 1984 e 2004. A discussão do conjunto de ideias presentes nas produções mapeadas deixa explí- cito posicionamentos em relação à psicologia como área de conhecimento que se apresenta de forma heterogênea e diversa. Em um trabalho apresentado no III Congresso Nor- te Nordeste de Psicologia, que aconteceu em João Pessoa/ PB entre os dias 27 e 31 de maio de 2003, Simão expôs, pela primeira vez, um delineamento sintético do Construti- vismo Semiótico-Cultural, em termos aproximados ao que utilizamos ainda hoje. A abordagem construtivista semiótico - cultural aos fe- nômenos psicológicos se assenta, principalmente, em proposições de Lev Vygotsky (1896 – 1934) , Mikhail Bakhtin (1895 – 1975), George Mead (1863 - 1931) Pierre Janet (1859 – 1947) , Jean Piaget (1896 - 1980) e, mais contemporaneamente, Ernst Boesch (1916-[2014]) e Jaan Valsiner (1951-). Do amálgama das proposições teóricas desses autores, o construtivismo semiótico – cultural vem emergindo, criativamente, como perspec- tiva teórico – metodológica, epistemológica e ética em Psicologia, que focaliza a construção intersubjetiva da subjetividade humana (Simão, 2003c, s. p.). Neste delineamento são trazidas referências funda- 18 mentais de autores precursores do CSC e de autores con- temporâneos que figuram como interlocutores importantes das ideias em elaboração criativa. É possível estabelecer uma relação entre os autores tomados como referência e o próprio rótulo. Vygotsky, psicólogo russo, e Piaget, biólogo e psi- cólogo suíço, por exemplo, são classicamente conhecidos por sua aproximação ao campo do construtivismo. O cons- trutivismo demanda da psicologia uma atenção ao conjunto estruturado de dimensões psicológicas, sociais e ambientais que se relacionam dinamicamente constituindo um proces- so. O processo dinâmico de transformação de si na relação com os outros e com o mundo dá origem, é a gênese, de novas estruturas que passam a compor o sistema dinâmico. Em meio a estas estruturas, processos e gêneses, o cons- trutivismo destaca que os organismos são ativos e nunca completamente determinados pela história do meio, condi- ção orgânica ou mesmo trajetória de vida. A cada momento há a possibilidade de distanciamento e tomada de decisão que coloca o ser diante do imprevisível. Vygotsky e Piaget são também conhecidos por seus respectivos enfoques na importância da linguagem e sua relação com o pensamento no processo de transformação dos sistemas psicológicos. Bakhtin, filósofo russo, por sua vez, é destacado no CSC por suas contribuições à filosofia da linguagem na propo- sição do conceito de dialogismo que será discutido mais adiante no livro. Crítico das propostas semióticas puramen- te formalistas ou estruturalistas, Bakhtin propõe a com- preensão do processo de comunicação como evento social e historicamente situado, com ênfase no ato comunicativo que toma em consideração a concretude de alguém de carne e osso que se dirige a si próprio, a outra pessoa concreta, 19 ou ainda, a coletivos e públicos mais amplos segundo di- ferentes modos de se expressar. Mead, por sua vez, foi um filósofo norte-americano que se destacou, dentre muitas de suas contribuições, pelos estudos na área das relações in- terpessoais no campo social, permitindo convergências no campo do CSC com os autores acima mencionados. Final- mente Janet é uma referência importante para a compreen- são da centralidade dos processos emocionais no conjunto dos processos psicológicos. Este conjunto de autores construíram suas obras no início do século XX, embora alguns tenham continuado por mais tempo ultrapassando a segunda metade do sécu- lo. Embora atuando em diferentes contextos socioculturais, como a Rússia, a europa ocidental e os Estados Unidos, é possível reconhecer que trazem preocupações de um tempo histórico que permitiu aos próprios estabelecerem aproxi- mações e afastamentos entre suas proposições, enquanto interlocutores mais ou menos evidentes nas obras. Algu- mas dessas aproximações e afastamentos foram retomados nas obras posteriores de duas referências também citados. Boesch, por exemplo, é um psicólogo cultural suíço que considerava Piaget como sendo seu mestre, mas se desta- cou de Piaget quando propôs a centralidade dos processos afetivos e formulou a teoria da ação simbólica. Valsiner, por sua vez, é um psicólogo cultural estoniano que apro- fundou seus estudos na obra de Vygotsky e tem produzido diálogos entre a história e a filosofia da psicologia europeia e a produção contemporânea da psicologia cultural em di- versas partes do mundo. Considerando a complexidade de ideias presentes nas obras dos referidos autores, o CSC enfatiza a preocu- pação teórico-metodológica a partir de reflexões que são 20 ao mesmo tempo epistemológicas e éticas no campo da psicologia, sendo a subjetividade humana entendida como resultante de processos construtivos a partir das relações intersubjetivas. Na exposição feita por Simão no contex- to da citação acima, as noções de corporeidade, assimetria, tensão e opacidade foram apontadas como exercendo papel central enquanto balizadores do desenvolvimento humano. Adicionalmente, a precedência do outro na construção de si foi apontada como fundamental, nos remetendo às ques- tões da ontologia e do papel da tradição nos processos de subjetivação. Foi explicitado, no momento daquela exposição no Congresso, um conjunto de noções que passaram a ser ob- jeto de estudo da área, tornando-se mediadores de estudos sobre processos psicológicos (corporeidade, assimetria, tensão, opacidade e tradição) retomados com regularidade em projetos de pesquisa do LIVCC que se sucederam ao evento de 2003 e para as quais, inevitavelmente, este livro retorna. No contexto de fundação da CSC, Bettoi e Simão (2002) fizeram referência a reflexões já presentes no grupo de pesquisa que, à época, constituía o LIVCC. Bettoi era, então, pesquisadora psico- logia cultural torna irrelevante a oposição natureza-cultura em seus estudos. Sven Hroar Klempe, psicólogo e pesqui- sador norueguês, argumentou que a fronteira que opõe o natural do artificial, por exemplo, é irrelevante desde uma perspectiva psicológica, uma vez que tal reflexão parte da pressuposição de que a fronteira natureza-cultura é uma en- tidade existente, enquanto pressuposto ontológico: 98 […] ‘distinções’ pressupõem um tipo de realidade e, portanto, pertence à filosofia, enquanto ‘oposições’ são resultados de diferenças nas cargas afetivas e, ao invés, sublinha a perspectiva psicológica nas bordas. No entan- to, a consequência mais importante dessa investigação é que o entendimento psicológico do significado tem que ser bem diferente do entendimento filosófico. (Klempe, 2016, p. 89) No campo da psicologia a importância é centraliza- da nos modos como as bordas são definidas em termos de oposições em vez de distinções naturalizadas. Para Simão (2016b), contudo, a diferença entre filosofia e psicologia não prescinde da relevância das reflexões ontológicas na psicologia, em diálogo com a filosofia. A reflexão ontoló- gica focaliza os aspectos tomados como universais, gerais, enquanto a psicologia é uma ciência idiográfica, preocu- pada com a facticidade da vida das pessoas, isto é, na sua contextualização presente com os outros na cultura (Simão, 2017). Dessa perspectiva: […] questões ontológicas perguntam sobre a natureza das relações eu-outro-mundo que permitem a constitui- ção e transformação do sujeito; elas visam a predicação do ser, que se desdobra em aspectos significativos que distinguem um sujeito psicológico de todas as outras ins- tâncias que ele não é em diferentes psicologias. (Simão, 2016b, p. 572) A metapsicologia dialógica do CSC propõe o diá- logo com as reflexões ontológicas da filosofia, como cami- nho para a compreensão das diferenças entre trajetórias de construção de conhecimentos em psicologia. Para tanto, é preciso refletir a respeito da facticidade, eventicidade ou contingência das experiências das pessoas, em que os pro- cessos psicológicos estão imersos numa tradição, ao mes- 99 mo tempo em que abertos ao encontro do outro e estabele- cimento de relações de alteridade. A reflexividade sobre as raízes histórico-filosóficas das proposições teórico-meto- dológicas em psicologia é importante para a epistemologia dialógica considerando seu pressuposto segundo o qual não é possível compreender o avanço do conhecimento como resultante de processos estritos de indução a partir de dados empíricos ou dedução racional desde premissas previamen- te definidas a respeito dos fenômenos psicológicos: […] a palavra, como o sol em uma gota de água, reflete, completamente, os processos e as tendências no desen- volvimento de uma ciência. Uma certa unidade funda- mental do conhecimento em ciência vem à luz desde os mais altos princípios até a seleção da palavra. O que ga- rante essa unidade do sistema científico como um todo? O esqueleto metodológico fundamental. O investigador, dado que não é um técnico, um registrador, um executor, é sempre um filósofo que durante a investigação e des- crição, está pensando sobre o fenômeno, e seu modo de pensar é revelado nas palavras que ele usa. (Vygotsky, p. 1927) A reflexão filosófica permeia o processo de cons- trução de conhecimento em psicologia, para além das ati- vidades técnicas de pesquisa ou exercício profissional. A qualidade dessa reflexão se expressa na explicitação dos predicados daqueles que constroem conjuntamente o co- nhecimento, em especial, pesquisadoras e participantes da pesquisa. Com isso, novos conhecimentos se tornam gene- ralizáveis na medida em que são capazes de problematizar os predicados, as preconcepções de uma determinada área de saber, transformando-as. Trata-se de refletir sobre os pressupostos e impensados de cada posição no campo do psicológico enquanto tarefa da metapsicologia dialógica. 100 Sendo a reflexão ontológica um critério de demar- cação entre filosofia e psicologia (Klempe, 2016) e o co- nhecimento psicológico situado, histórico e idiográfico, a generalização proporcionada na construção do conheci- mento psicológico supõe a formulação de teorias e sistemas transitórios. A temporalidade da tradição (Gadamer, 1996), por sua vez, coloca a psicologia diante de questões ontoló- gicas que afetam as escolhas teórico-metodológicas daque- les que constroem o conhecimento. Este tema se relaciona com as condições de compreensão de processos psicoló- gicos cada vez mais diversos, que excedem o conjunto de processos previamente abarcados pelas teorias e sistemas já constituídos. Os conhecimentos construídos, por sua vez, promovem transformações nas maneiras como a própria re- alidade é percebida e imaginada pelas pessoas, dado que disponibilizam novos horizontes de compreensão dos fenô- menos-temas abordados. A metapsicologia dialógica coloca a psicologia diante de dois aspectos concomitantes da tradição. 1) A tradição em que a pessoa que constrói conhecimento está imersa e vem sendo formada na relação com os outros e com o mundo diz respeito ao campo social em que a factici- dade da vida se dá, guiando princípios, valores, normas de ação e ideais presentes na reflexividade ética do senso co- mum. 2) A tradição filosófica que está na base das reflexões ontológicas e epistemológicas, que fundamentam a elabo- ração de propostas teórico-metodológicas na construção do conhecimento científico. Os dois aspectos da tradição se articulam heterogeneamente na reflexão sobre a diver- sidade das experiências de pessoas cultivadas em campos socioculturais diversos tensionando a pesquisa e a prática profissional em psicologia e demandando novas articula- 101 ções no diálogo entre elas. O desdobramento de uma disciplina científica arti- cula processos sociais e posições epistemológicas que em momentos históricos propícios viabilizam a emergência de espaços sui generis de reflexão, com objetos e métodos es- pecíficos de estudo. A noção de multiplicação dialógica é uma das formas emergentes no campo do CSC para siste- matizar o imbricamento de tradições no território da psico- logia. Multiplicação dialógica A noção de multiplicação dialógica (MD) pode ser utilizada para sistematizas o encontro entre múltiplas tradi- ções que configuram a experiência de psicologas e de pes- soas com as quais interagem, guiando a comunicação e o trânsito entre suas realidades. A partir de um diálogo com as reflexividade ontológica no pensamento indígena, con- cebe que cada comunidade e todos os povos estabelecem um lugar para ver, sentir e viver a partir do seu “processo de territorialização do espaço/tempo em que finalmente se estabelecem como uma cultura” (Quintero Weir, 2021). O lugar para ver, sentir e viver é chamado de horizonte na filosofia hermenêutica que fundamenta o CSC. Psicologi- camente, o horizonte permite uma perspectiva onde o eu se posiciona numa paisagem de um mundo específico coleti- vamente construído com os outros. Múltiplos mundos de seres vivos, incluindo tradições e comunidades humanas, interpenetram-se uns aos outros, configurando realidades ambientais distintas para as vidas uns dos outros. Diálogo, no sentido dialógico do termo, pressupõe o reconhecimento de que perante cada ser existe um mundo 102 formado por pessoas e interações em relação ao qual qual- quer interlocutor apenas tem acesso a vestígios fragmen- tados. Lidar com o limite do que alguém pode aceder ou compreender dos outros e dos seus mundos é essencial para configurar uma ética dialógica de respeito pelo excedente que existe para além dos vestígios de algo ou alguém. MD foi originalmente proposta no campo da psico- logia a fim de criar um diálogo entre a concepção dialógica presente no CSC (cf. Simão, 2010; Silva Guimarães, 2021, 2022; Silva Guimarães e Simão, 2021 e outros) e a noção de perspectiva na teoria antropológica doPerspectivismo Ameríndio (cf. Lima, 1996; Viveiros de Castro, 1996 e ou- tros). Desdobramentos posteriores têm ampliado o enten- dimento do conjunto de questões discutidas ao longo desse livro de forma sistemática. A noção também vem passando por contínuas revisões tendo em vista a sua utilização como instrumento de orientação da prática profissional e da pes- quisa em psicologia. A MD organiza parte de um conjun- to de noções articuladas no campo do CSC configurando uma unidade de análise em que as seguintes dimensões e camadas são interdependentes umas em relação às outras, numa relação de interdependência que não é arbitrária. 1) A primeira camada diz respeito a um campo existencial de in- determinação entre os horizontes ou perspectivas de tradi- ções distintas. Cada comunidade, pertence e cria diferentes tradições, vê, sente e vive num mundo com sentido próprio. Mas existe uma zona de desconhecimento entre elas, uma vez que os caminhos para a compreensão mútua não são diretos ou transparentes (cf. Rasmussen, 2011). 2) A segun- da camada apresenta as infinitas perspectivas que emergem na temporalidade das percepções e imaginações fluidas de seus participantes. A temporalidade entendida aqui como 103 o sentido de passagem do tempo das experiências vividas em atividades recíproca. A percepção como o ato pelo qual a pessoa se coloca perante algo ou alguém, a situação e no momento presente. A imaginação como um ato através do qual a pessoa presentifica uma ausência, ou seja, algo ou alguém, o ser desejado concebido em pensamento. 3) A terceira camada aborda como os horizontes ou perspectivas são cultivados através de ritos, mitos, reflexão e coopera- ção. Os ritos entendidos como formas regulares de os seres se afetarem uns aos outros no ambiente. As trocas adqui- rem um ritmo e as experiências com o outro, que podem ser inquietantes, podem se tornar mais inteligíveis com o reconhecimento de acontecimentos regulares. Os mitos es- tão no terreno linguístico das experiências, que pressupõem regularidades e alguma ruptura de regularidades, permitin- do a descrição narrada dos acontecimentos e a sua avalia- ção subjectivo-afetiva como exemplos que guiam a vida de uma pessoa. A crítica reflexiva das experiências vividas e aprendidas com o discurso de alguém, permitem uma es- truturação afetivo-cognitiva do horizonte ou perspectiva, incluindo a avaliação de tendências e elaboração de orien- tações mais estáveis para a vida. Já a cooperação se esta- belece como coordenação de meios, fins, coisas e pessoas no ambiente para uma ação que se pretende eficaz diante da vida. 4) A quarta camada diz respeito a como as realida- des interobjetivas colocam um assunto num campo situado, como tema de discussão, que pode tornar-se mais abstrato como um fenômeno-tema de estudo em pesquisa, ou ainda, recursos simbólicos utilizáveis como um objeto-tema, dis- positivo, etc. Aqui é relevante entender como as múltiplas posições singulares das pessoas, e nas pessoas, interagem, Eu-para-mim, seria a forma como uma posição se percebe e 104 se imagina a si própria e muda na duração das experiências. Eu-para-os-outros, descreve o movimento de expensão em direção a outras posições. Os-outros-para-mim, diz respei- to a como uma posição percebe e imagina que as outras a veem e agem sobre ela. Eles-para-si-próprios, diz respeito a como uma posição imagina que uma comunidade, que não é a sua, compreende as suas relações sociais a partir da sua perspectiva interna. Eles-para-seus-outros, aponta para como uma pessoa observa e imagina o significado da ação da sua própria comunidade em relação a seus interlocutores de outras comunidades. Os-outros-para-eles, enfatiza como uma pessoa observa e imagina o significado da ação dos outros, das outras comunidades, em relação à suas própria. O desdobramento das camadas interdependentes acima descritas é um processo dinâmico em que uma mul- tiplicidade centrífuga de sentidos e significados é construí- da a partir da experiência no campo existencial da indeter- minação entre os horizontes ou perspectivas de tradições distintas. Há uma encruzilhada onde posições oriundas de tradições distintas se encontram. Cada uma irá elaborar o impacto afetivo através de meios semióticos ancorados em suas percepções e imaginações anteriores e, neste processo, estabilizar novos sentidos e significados sobre o que antes era desconhecido ou nebuloso sobre si mesmo, o outro e o mundo. Experiências significativas emergem, se estabilizam e se dissipam na temporalidade dos encontros vividos como atividade recíproca. Algo ou alguém emerge, se estabiliza e se dissipa repetidamente ao longo de uma série de experi- ências no campo da indeterminação entre os horizontes de cada pessoa. Quando um ciclo de encontro com o outro é concluído, cada participante não volta ao mesmo ponto de 105 partida, à mesma posição que ocupava antes da relação ter se estabelecido. Cada ciclo de encontro retomado é mar- cado por uma diferença que faz avançar o processo de ela- boração de sentidos e significados, fazendo a si mesmo e aos outros regressarem em um novo começo que demanda novas elaborações. A experiência da temporalidade é guia- da pela sintonia rítmica produzida pela atenção mútua entre seres num determinado ambiente onde cada um exerce um impacto sobre os processos recursivos do outro. O processo acima descrito produz consequências para as camadas de MD relevantes para as investigações acadêmicas baseadas na metateoria CSC. Faz-se necessá- rio retomar algumas noções previamente articuladas. Ritos como experiências cósmicas e sociais regulares, por exem- plo, conferem ritmo do mundo da vida e a possibilidade de identificar rupturas nas regularidades da experiência. Mitos como relatos sobre experiências percebidas e imaginadas, por exemplo, permitem notar experiências silenciadas que estão presentes como um tabu. Reflexões críticas deman- dam inferência da psicóloga e demais participantes de uma interação sobre o significado das rupturas nas regularidades das experiências relatadas ou registadas, bem como infe- rências da psicóloga e das participantes sobre o significado daquilo que pode estar presente ainda que de forma silen- ciosa. Ações e cooperação demandam convenções, méto- dos e procedimentos para partilhar as qualidades relevantes da experiência. Dado que os mundos de seres vivos dis- tintos se interpenetram configurando realidades ambientais distintas para as suas vidas um tópico importante para uma elaboração refletida ativa e partilhada é a configuração de um ritmo de intercâmbio entre eu, outros e seus horizontes, que permita a colaboração e a aprendizagem mútua sem 106 homogeneizar diferenças importantes. Assim, a reflexividade ética não se refere a qual- quer declaração moral ou protocolo estático, mas aborda as aberturas e restrições de propostas teórico-metodológi- co-práticas na ciência para a construção de conhecimentos que contemplem necessidades humanas concretas, para não dizer humanitárias, de cuidados para a sobrevivência da só- cio-biodiversidade planetária, incluindo as infinitas, embo- ra não arbitrárias, formas de ser e conhecer nos caminhos singulares e coletivos da vida. As condições para o diálogo dependem do questio- namento de uma realidade social comum partilhada como algo natural. As experiências e os entendimentos entre as comunidades em relação são diferentes inclusive na con- sideração quanto à situação extra-verbal, não partilhada. A disponibilidade para o encontro e a construção de regula- ridades na frequência dos encontros entre as comunidades tendem a sedimentar possibilidades de significado comum proporcionando oportunidades para se criar uma situação extra-verbal partilhada. A situação extra-verbal não é dada, mas construída. As experiências que ganham regularidade assumem a forma de um rito e permitem o reconhecimento da série de acontecimentos em sucessão, com o reconheci-mento ou identificação de algumas das variações selecio- nadas. Os acontecimentos em que ocorrem variações na sucessão temporal dos ritos experimentados regularmente definem pelo menos três trajetórias parcialmente interliga- das: A trajetória da psicóloga, a trajetória da pessoa com a qual a psicóloga se relaciona (por exemplo, a participan- te de uma pesquisa) e a trajetória de suas experiências em conjunto. A reflexão crítica sobre as trajetórias é especial- 107 mente exigida quando se percebe algum desconforto e pre- cisamos a avaliar a situação. Por exemplo, em alguns ca- sos, a colaboração produtiva entre as participantes de uma interação resulta na continuidade ou na expansão das metas previamente identificadas. Em outros casos, a colaboração pode resultar na revisão ou descontinuidade das metas pre- viamente identificadas. EPISTEMOLOGIA Construindo conhecimentos no referencial teórico-metodológico do CSC A epistemologia é o campo de reflexões filosófi- cas que concerne à capacidade humana de conhecer e aos processos de validação do conhecimento. As epistemolo- gias construtivistas se posicionaram historicamente de um modo muito particular e crítico em relação às preocupações presentes no momento de fundação da psicologia como ciência moderna. Por um lado, as teorias clássicas da psi- cologia apostavam na positividade dos fatos, dos dados e insistiam nos pressupostos das epistemologias realistas, acreditando, portanto, “na possibilidade e na exigência de uma total subordinação dos conceitos, dos modelos e das teorias aos “fatos” psicológicos e/ou comportamentais” (Figueiredo, 2013, pp. 174). Por outro lado, para o cons- trutivismo, o conhecimento direto da realidade é impossí- vel porque as pessoas têm apenas acesso à experiência da realidade. Esse pressuposto redefine o critério de validação do conhecimento que não será mais a busca por corres- pondências através de uma representação que é cópia do mundo. O psicólogo social e psicoterapeuta construtivista Álvaro Pacheco Duran afirma que no construtivismo o co- nhecimento válido é aquele que possui consistência interna, é intersubjetivamente compartilhável e que torna viável o alcance de resultados almejados pela pessoa concreta que 110 ocupa a posição de sujeito ativo construtor o conhecimento (cf. Duran, 2001; 2004). Marková (2003b) distingue as epistemologias fun- dacionistas das epistemologias dialógicas, sendo que estas últimas configuram a ‘perspectiva meta-teórica’ do CSC. Ela aponta que no processo de transformação do conheci- mento a compreensão do sentido das expressões e concep- ções científicas precisam levar em conta o enraizamento histórico e cultural das pessoas que são construtoras do conhecimento, cujas elaborações participam de um campo comunicacional. A concepção dialógica que compreende o conheci- mento como um fenômeno histórico e culturalmente cons- tituído, em processo de transformação, aponta para as ten- sões e os conflitos presentes nos embates epistemológicos social e historicamente situados. Demanda análise e refle- xão sobre processos de construção dos discursos e concei- tos científicos. Estes são compreensíveis por meio de uma hermenêutica voltada a explicitar as expectativas e quadros de referências pressupostos que guiam a reflexão sobre os dados construídos pelas pesquisadoras juntamente com sua imaginação teórica e suas suposições sobre o fenômeno-te- ma de interesse. A noção de história aqui trabalhada parte de uma compreensão de temporalidade que não a identifica com a mera descrição de uma série de eventos elencada no tempo de acordo com sua ocorrência em um intervalo cronológico ou sistema regular de intervalos de datas que representam o tempo de forma especializada. Pesquisas realizadas por Carlos Cornejo, professor da Pontifícia Universidade Cató- lica do Chile, em conjunto com então orientando Himmbler Olivares, atualmente docente e pesquisador na Universida- 111 de de Concepción, Chile, expõem um debate sobre críti- cas da espacialização do tempo na filosofia bergsoniana. Outro aprofundamento sobre o tema pode ser encontrado em Vedeler (2015). Através da reflexão histórica, pesquisas no CSC visam a processualidade de questões situadas que permite compreender a emergência de proposições teóri- co-metodológicas em um determinado campo de conheci- mento. A área tem acompanhado a compreensão do filósofo norueguês Jan Smedslund segundo a qual a psicologia não pode ser entendida por meio de uma ideia de acumulação de fatos objetivos (cf. Smedslund, 2016). Qualquer visa- da da história da psicologia é feita a partir de uma seleção que focaliza aspectos relevantes para atender a questões presentes. Ou seja, as experiências pregressas seleciona- das para o foco estabelecem com as experiências presentes uma articulação dialógica em que tanto a história quanto as compreensões atuais se transformam por meio da relação estabelecida. A tarefa hermenêutica implica situar histórico-filo- soficamente aspectos da dispersão de ideias, demarcar os acidentes, os desvios, as inversões e as dificuldades que têm guiado a produção das concepções teóricas presentes. Trabalhos já clássicos nessa direção foram desenvolvidos por Figueiredo, no âmbito das teorias e sistemas psicológi- cos que lhe eram de interesse à época, gerando as Matrizes do Pensamento Psicológico (Figueiredo, 2010) e A Inven- ção do Psicológico (Figueiredo, 2007), ambos relevantes às preocupações no campo do CSC. Dentre as preocupações relevantes estão também as reflexões histórico-filosóficas de Valsiner, especialmente em uma produção conjunta com o professor da universidade de Leiden, Holanda, René van der Veer, que focalizaram as teorias e sistemas ligados às 112 perspectivas sociogenética e histórico-cultural em psicolo- gia (Valsiner e Van der Veer, 2000). A professora de história da psicologia da USP, Marina Massimi, por sua vez, apon- ta as ligações persistentes entre a construção da psicologia científica e as pré-concepções das tradições místicas e reli- giosas dos antigos gregos e romanos aos mais contemporâ- neos judeus e cristãos (cf. Massimi, 2016). Quanto ao processo de constituição do espaço de reflexões psicológicas, Figueiredo (2007) discute que a dis- solução das bordas internas e o encontro com bordas ex- ternas ao território Europeu no período do Renascimento permitiu a emergência de hibridismos e transformações étnicas, linguísticas, religiosas, nos usos, costumes e ritos da vida cotidiana. Ao invés de um mundo íntegro e pleno com identidades pessoais e coletivas duráveis, passaram a predominar experiências de desregramento. Ao longo dos séculos seguintes um conjunto de transformações foi objeto de reflexão na vida intelectual do homem europeu: a refor- ma religiosa, a busca de construção de sistemas filosóficos consistentes nos quais as deduções racionais estariam no centro da organização dos fenômenos, o fortalecimento de estudos empíricos, a consolidação das ciências modernas como espaços de legitimação do conhecimento verdadeiro contra os perigos do irracionalismo relativista. Cabe destacar deste contexto de intensas transfor- mações o papel desempenhado pelo ideário iluminista e pensamento romântico nos séculos XVII e XVIII enquan- to “diferentes versões do mesmo processo de constituição da subjetividade moderna através das lutas e acomodações entre as esferas públicas e privadas” (Figueiredo, 2007, p. 108). Para que os projetos de psicologia ganhassem for- 113 ça na modernidade era necessário que a privacidade, uma vez consolidada, entrasse em crise (Figueiredo, 2007). As convulsões sociais que marcaram o século XIX, tais como guerras, lutas operárias, recessões econômicas, permanên- cia e proliferação de bolsões de miséria urbana, a delin- quência etc., trataram de demandar revisões da ideologia liberal. Neste ensejo, a psicologia emerge, em alguma me- dida, como uma ciência contra os excessos do irracionalis-mo associado ao indivíduo privado, articulada às demandas de adaptação do indivíduo à sociedade, mas também em contraposição às tendências de conformação do sujeito aos critérios do conhecimento científico, lidando com conflitos intrapessoais e entre a pessoa, sua tradição e grupo social. Figueiredo (2007) nomeia o território triádico de emergência da psicologia, constituído pelos polos Libera- lismo, Romantismo e regime Disciplinar, com o termo ter- ritório da ignorância, “uma vez que é da natureza desse es- paço que ele seja um espaço de desconhecimento” (p. 148), que caracteriza a vida cindida do homem moderno. A tarefa hermenêutica realizada por Figueiredo na organização das matrizes do pensamento psicológico, por sua vez, privilegiou a elucidação das condições de perti- nência e viabilidade das diferentes teorias e sistemas psi- cológicos, procurando suas condições nos pressupostos im- plícitos, reagrupando e confrontando teorias, explicitando, entre elas, “afinidades insuspeitáveis e oposições imprevi- síveis” (Figueiredo, 2013, pp. 43-44). Contudo, no escopo das matrizes do pensamento psicológico ficou de fora uma parte significativa do debate epistemológico em psicologia, especialmente aquele empreendido no âmbito da psicolo- gia sociocultural de Vygotsky e no âmbito da epistemologia dialógica de Bakhtin. A obra destes autores, por sua vez, 114 tem centralidade nas formulações do CSC focalizadas no presente projeto e foram desdobradas contemporaneamente nas proposições de Valsiner, Rommetveit e Marková, den- tre outros pesquisadores ligados à área. A história da psicologia mostra que em conjun- to com as necessidades concretas da psicologia aplicada, o empirismo enquanto um retorno à ingênuo experiência não é um terreno suficientemente seguro para os psicólogos (cf. Smedslund, 2016). Os fatos visados pela psicologia são sempre examinados à luz de teorias que se assentam sobre bases filosóficas (Vygotsky, 2001), por sua vez, definidoras de perspectivas ontológicas que balizam as teorias, as prá- ticas profissionais e de pesquisa. O posicionamento filosó- fico da pesquisadora precede sua apreensão da experiência e orienta suas escolhas teóricas para compreensão ou expli- cação dos eventos experimentados. Portanto, a construção científica é também identitária. O avanço do conhecimento científico depende da pessoa da pesquisadora, que é sele- tiva quanto aos temas e teorias focalizadas. Não se trata, entretanto, de seletividade aleatória e baseada exclusiva- mente em preferências pessoais forjadas na eventualidade de sua vida, mas de uma seletividade que se dá conforme as identificações que a pesquisadora ativamente constrói e reconstrói levando em conta sua formação em uma tradição (cf. Bildung em Gadamer, 2008). Ou seja, uma seletivida- de que emerge da necessidade de organizar afetivo-cogni- tivamente as experiências tomadas para estudo conferindo um sentido de coerência e continuidade, ainda que com possíveis torções e rupturas, em relação às compreensões prévias da experiência. Quanto a isto, veja-se a menção ao processo dialógico de introspecção-retrospecção no capítu- lo anterior. 115 Em síntese, no âmbito do CSC, o conhecimento construído pela pesquisadora não é determinado única e exclusivamente pela sua condição individual e pessoaliza- da de sujeito ativo. Ao deslocar-se para a posição de pes- quisadora, a pessoa individualizada assume compromissos com um campo social, estruturado segundo princípios e valores muito específicos, orientadores das ações huma- nas na comunidade dos pesquisadores. Por exemplo, se de um lado, o fazer científico se aproxima do fazer artístico (Valsiner, 2017a), nas dimensões introspectivas, reflexivas e singulares do processo de construção de conhecimento, de outro lado, o cientista orienta sua produção segundo processos distintos do fazer artístico, envolvendo, dentre outras especificidades, a necessidade de explicitação meto- dológica, a disponibilidade para ser questionado e revisar concepções prévias, o empenho para a construção de ins- trumentos eficazes para a solução de problemas concretos da vida humana. A racionalidade instrumental que orienta a construção de conhecimento nas ciências resultando nos aclamados desenvolvimentos tecnológicos para a guerra, para tratamentos em saúde, para a indústria de bens e de serviços, para as tecnologias em informática e mídias so- ciais, etc., coloca pesquisadoras e psicólogas diante da ta- refa de se atentar à facticidade, eventicidade e contingência da vida social, que inclui provocações artísticas, políticas, econômicas, ambientais, dentre outras, na criação de novas elaborações teórico-metodológicas e na reflexão sobre sua aplicabilidade diante de problemas identificados que justi- ficam o investimento social na ciência. O olhar histórico-filosófico do CSC aponta para a necessidade continuada de que psicólogas e pesquisado- ras da área entrem em contato com os problemas situados 116 na tradição da qual fazem parte e para que no processo de construção de conhecimento retenha e elabore criticamente as transformações experimentadas por essas pesquisadoras, no que diz respeito às suas seleções e inovações teórico- -metodológicas. E desse modo, aportar novos horizontes de investigação que, possivelmente, desvelem novas facetas sobre os objetos da psicologia focalizados para além da- quelas que estavam na raiz dos problemas e soluções origi- nadoras do CSC, mas que são delas tributárias. Considerando que as ideias precisam ser entendidas em relação ao seu momento histórico, também é relevante reconhecer que no diálogo com a história é necessário uma postura desacomodada. Autores clássicos da psicologia usualmente se mostram mais complexos e multifacetados do que as simplificações acerca de suas teorias expressas nos manuais de psicologia. O olhar histórico-filosófico de- sacomoda porque mostra pontos cegos e fragilidades das concepções presentes sobre proposições seminais. Proble- matiza concepções ingênuas de progresso científico. É tam- bém nesse sentido que foi destacado no capítulo anterior o processo de interpelação da ontologia à psicologia. Para onde aponta a construção de conhecimento? O sentido de avanço na construção de conhecimento psicológico tomando a emergência do CSC em psicologia é um caso particular de estudo. É pressuposto que construção de conhecimentos em psicologia é parte de um processo histórico-cultural que se articula a desdobramentos das re- flexões epistemológicas, ontológicas e éticas que marcaram a emergência das ciências modernas. Tais reflexões apon- 117 tam para complexidades e desafios decorrentes da posição peculiar da psicologia dentre as ciências a colocando na situação do que o filósofo alemão Wilhelm Windelband (1848-1915) considera ser o fiel da balança entre ciências naturais e ciências humanas, nomotéticas e idiográficas (cf. Windelband, 1980). O tema da fronteira aparece também na obra de outros autores previamente citados no livro como a noção de que a psicologia está, via de regra, no centro do embate entre idealismo e materialismo (cf. Vygotsky, 1991), ou podendo inclusive se situar na multiplicidade de matrizes cientificistas, românticas e pós-românticas (cf. Fi- gueiredo, 2009). A peculiar posição da psicologia se deve, pelo menos em parte, ao fato de que o campo psicológi- co diz respeito ao “nexo de vida” que conecta as pessoas ao mundo, à sua experiência holística no mundo (Dilthey, 2010). Cabe ressaltar que a presente reflexão é, ao mes- mo tempo, a partir da psicologia e sobre a psicologia. Ha- bitando esta dupla posição reflexiva, este capítulo retoma argumentos que apontam que a compreensão do sentido de avanço na construção de conhecimento psicológico não pode ser feita a partir de um ponto de vista exterior, supos- tamente neutro, a respeito da eficácia de instrumentos de- senvolvidos pelo chamado “progresso científico”. Reafirma que a pesquisadoraé culturalmente situada, a ciência é um campo de produção de obras culturais que visam criar pers- pectivas de conhecimento sobre o mundo (cf. Gadamer, 2008; Simão, 1989, 2015a; Figueiredo, 2013). Considera que é possível e necessário construir algum distanciamento em relação à implicação presente das pesquisadoras com seu campo de estudos para que possa haver compreensão do sentido de avanço em seu processo de construção de co- 118 nhecimento. O distanciamento é proporcionado pelo olhar histórico-filosófico em relação às proposições teórico-me- todológicas da área de pesquisa na qual se está situado. A construção de conhecimento é entendida como ação e intervenção, diferente de simples captação do real para representá-lo como conhecimento. O processo de transmissão cultural confecciona perspectivas apoiadas em um pano de fundo cosmológico evidenciado em mitos que estruturam as compreensões que as pessoas fazem de si e de seus mundos. Destaca-se aí o outro no entendimento de si e das próprias convenções sociais bem como o processo ativo da pessoa na reconstrução de entendimentos momentâneos do mundo emergentes na sua experiência no mundo com os outros. Na estrutura triádica da relação eu-outro-mundo as verdades extra-científicas constituem as margens entre o sabido e o insabido por uma dada pessoa ou comunida- de construtora de conhecimento. A pessoa ou comunidade que num momento histórico singular troca mensagens ex- pressas em palavras ações. Decorre dessas compreensões a observação de modos de construir conhecimento que não se encaixam na lógica formal, mas compões a dualidade dialógica razão-desrazão. Tem sido relevante nas pesqui- sas da área a realização inferências sobre os modos como conhecimentos são diversamente elaborados em diferentes contextos da vida. Uma aproximação ao conjunto das produções do CSC deixa notar o debate sobre os fundamentos epistemo- lógicos do construtivismo, do interacionismo e do raciona- lismo em psicologia, discutido na pesquisa de doutorado de Nilson Guimarães Doria (2011) e por Simão (2017). Dis- cussões sobre a noção de sujeito e concepção de objeto fo- ram feitas no mestrado e doutorado de Juliano Casimiro de 119 Camargo Sampaio (cf. Sampaio e Simão, 2013), questiona- mentos quanto ao dialogismo teórico-metodológico em es- tudos empíricos qualitativos estão presentes num artigo em parceria com Mogens Jensen, professor da Universidade de Aalborg, Dinamarca (cf. Jensen e Silva Guimarães, 2018) e na pós-doutoramento de Vivian Volkmer Pontes (2015), em estudos experimentais, por exemplo, nas pesquisas de Djalma Francisco Costa Lisboa de Freitas (Freitas e Silva Guimarães, 2013; Freitas, 2018). Estudos conceituais e her- menêuticos de noções como autenticidade, interdisciplina- ridade e discussões sobre o estudo de obras literárias estão presentes desde a pesquisa de mestrado de Tatiana Borba de Vasconcellos (Vasconcellos e Simão, 2013) à de Maria Eloisa do Amaral Leão (Leão e Silva Guimarães, 2017). A pesquisa sobre relações de poder em instituições foi rele- vante nas pesquisas de mestrado de Bulcão e Simão (2019) e no doutorado de Sirlene Lopes de Miranda (2018) Algumas acepções sobre o conhecimento emergi- ram nos trabalhos: conhecimento e modo de ser racional (Valsiner, 2015), conhecimento na relação intersubjetiva no trabalho da psicóloga italiana, da Universidade de Salerno, Pina Marsico (2015), conhecimento a partir dos dados em- píricos (Pontes, 2015), conhecimento sobre objetos focali- zados, eventos e processos psicológicos, como no mestrado e doutorado de Suara Bastos (cf. Bastos e Silva Guimarães, 2016) e conhecimento como elaboração semiótica no tra- balho da pesquisadora dinamarquesa Jensine Nedergaard (2015). A ciência entendida como construção particular (Simão, 2015a) entre outras construções culturais supõe um processo hermenêutico e uma epistemologia recursiva guiando as compreensões sobre os eventos que se sucedem na relação pesquisadora-participante, incluindo o diálogo 120 com o pesquisador Hernán Sanchéz da Univalle, Colômbia, em Simão, Guimarães, Freitas, Bastos e Sánchez (2015). Considerando os modos relacionais (Glaveanu, 2015) de entender o mundo, o sentido hermenêutico filosófico de tradição (Simão, 2015a) apontou para os ancoramento em conhecimentos prévios no processo de construção de co- nhecimentos novos. O conhecimento é entendido como organização da existência senciente da pesquisadora, de quem as experi- ências corporal-estéticas são fomentadoras da pluralidade teórica e metodológica existente na psicologia (Sampaio e Simão, 2013). O conhecimento geral é entendido como um processo ativo, construtivo, da pesquisadora que faz inferências diante de eventos sempre únicos e singulares. A formação da pessoa que constrói conhecimento foi te- matizada como marcada pela unidade afeto-cognição, de modo que a construção do texto acadêmico-científico não é entendida como puramente racional, mas também poética e criativa, fundada no tecido ritual e mítico, como no estudo de Iniciação Científica de Kwami Fleury Serge Kiki (Kiki e Silva Guimarães, 2018) das tradições culturais a qual cada pessoa está vinculada. Assim, a criação artística emergiu como analogia da construção sensível do ser humano e a constituição de sua visão de mundo. O conhecimento que se constrói a partir das relações das pessoas consigo e com o outro, articula percepções e imaginações afetivamen- te experimentadas pelas pessoas (Sánchez Ríos e Simão, 2020). A noção de cultura como campo de ação (Boesch, 1991) aponta para eventos que precisariam ser compreen- didos para além de sua articulação por meio de expressões verbais e reflexivas. Finalmente, quanto aos conjuntos de questões que 121 privilegiam o debate epistemológico, a tensão entre dog- matismo e ecletismo nos processos histórico-filosóficos de construção das teorias e sistemas psicológicos permeou as pesquisas da área (cf. Silva Guimarães, 2014). Pontualmen- te, questões quanto ao poder de generalização das teorias psicológicas (Silva Guimarães e Simão, 2017), a relação entre perspectivas idiográficas e a formulação de guias uni- versais (Simão e Marsico, 2018), dificuldades na apreensão objetiva dos fenômenos psicológicos, como na pesquisa de doutorado de David Florsheim (cf. Florsheim e Simão, 2015) e a multiplicidade teórica prevaleceu, como no mes- trado de João Marcel Ferreira Lopes (2014). Quanto a isso a inclusão de conhecimentos indígenas (Silva Guimarães, 2016d), por exemplo, apareceu como um desafio, na am- pliação das concepções sobre fenômenos de relevante sig- nificação cultual, como no que diz respeito a concepções de saúde, doença e de morte, processos de ensino, aprendiza- gem e desenvolvimento humano, produzindo rupturas com preconcepções. As pesquisas mencionadas acima refletem, também, diferenças entre pensamento científico, artístico e ordinário e o posicionamento do conhecimento psicológico na mediação entre diferentes formas de conhecer as dife- rentes experiências possíveis no mundo com os outros. No âmbito dos estudos bibliográficos e nos debates das referências fundamentais de pesquisas empíricas preva- lecem no CSC questionamentos em relação à heterogenei- dade de abordagens dialógicas em psicologia, sobre a noção de sujeito, conhecimento como negociação e hermenêutica. Desse modo, o debate sobre as metodologias de pesquisa tem demandado reflexão sobre os fundamentos epistemoló- gicos da interdisciplinaridade desde a perspectiva dialógi- ca. Isso incluiu um aprofundamento seletivo sobre questões 122 que se encontram na fronteira entre psicologia e filosofia, raízes filosóficas do CSC, bem como sobre as bases míticas do processo de conhecimento, sobre processos semióticos a respeito da trajetória de construção de signos e os desafios da tradução entre contextos étnicos em que conhecimentos são construídos a partir de bases semiótico-culturais diver- sas, comono mestrado de Douglas Kawaguchi (Kawaguchi e Silva Guimarães, 2018). Conceitos, teorias e sistemas psicológicos foram entendidos como associados a precon- cepções culturais que precisariam ser permanentemente re- vistas na abertura da pesquisadora a novas experiências em seu mundo da vida. Muitos trabalhos no campo do CSC enfatizam as noções de desenvolvimento em psicologia (Doria e Simão, 2018), as relações entre ciência idiográfica e nomotética, as possibilidades dialógicas de compreensão do estudo expe- rimental em psicologia cultural. Parte dos aprofundamentos interdisciplinares envolveram compreender as naturezas de conhecimento do e no fazer teatral na escola (Sampaio, 2018); o debate sobre a história da educação, como num diálogo que incluiu a parceria com o psicólogo Marcos Lanner de Moura (Moura e Silva Guimarães, 2013); e o debate sobre a criação estética (Sampaio e Simão, 2013), que inclui as pesquisas de Hércules Zacharias Lima Morais (Morais e Silva Guimarães, 2015) e Kleber Ferreira Nigro (Nigro e Silva Guimarães, 2016), Estudos empíricos têm sido amplamente discutidos como uma espécie de pesquisa-ação participante, como no doutorado de Andrezza Campos Moretti da Escola de Edu- cação Física e Esporte da USP (Moretti, 2014). Tal apro- ximação já estava presente desde o doutorado de Simão (1988) e veio sendo retomada mais recentemente. Outra 123 pesquisa com entrevistas no contexto da formação em edu- cação física foi o doutorado de Cassia Moreira (2011). A participação social da pesquisadora é definidora de suas in- dagações trazidas para o âmbito da formulação de projetos de pesquisa. O dialogismo teórico-metodológico aparece com centralidade nas produções da área até o momento, com destaque, no caso de pesquisas empíricas, para estu- dos de caso com construção e análise de dados qualitati- vos. Parte dos estudos empíricos utilizou te métodos de pesquisa de campo (cf. Bastos e Silva Guimarães, 2016) com construção e análise de dados que refletem a aproxi- mação e estranhamento da pesquisadora em relação à situa- ção extraverbal constitutiva dos diálogos (Silva Guimarães, 2016a), questão abordada também na pesquisa de Iniciação Científica de Rafaela Waddington Achatz (Achatz e Silva Guimarães, 2018) e no mestrado de Flaviana Sousa (Sousa e Silva Guimarães, 2015). A área pressupõe, portanto, que a pesquisa se apoie em, e em decorrência, apresente uma análise fenomenológica da experiência humana, questão presente no mestrado e doutorado de Larissa Laskovski (cf. Laskovski e Simão, 2015) e de Flávia Duarte (Duarte e Si- mão, 2015). A noção de multiplicação dialógica emergiu como ferramenta para análise micro, meso ou macrogenética de dados empíricos em alguns dos estudos realizados, incluin- do a compreensão de processos de conversação e o deba- te sobre descolonização do corpo. Na compreensão desses processos, a relação entre o tácito e o refletido no diálogo emergiu como aspectos relevantes aos quais o pesquisador precisa se atentar na análise de dados. Como capturar o fe- nômeno em seu fluxo? O questionamento da unidade de análise permaneceu aberto. 124 A organização coletiva do conhecimento demanda procedimentos em que escutar, perguntar, dialogar são con- dições para conhecer. No âmbito das aproximações com os conhecimentos indígenas, por exemplo, estudos da área têm apontado a relevância de se estabelecer a confiança prévia na capacidade das comunidades identificarem problemas e mobilizarem recursos segundo concepções que lhes são es- pecíficas. O fenômeno-tema de investigação deriva de um campo-tema, noção proposta pelo pesquisador da Pontifí- cia Universidade Católica de São Paulo, Peter Spink (2003) e introduzida em pesquisas no campo do CSC. O campo-te- ma constituído por discursos diversos emergentes da parti- cipação da pesquisadora no campo-social. A área veio realizando, também, reflexões singula- res sobre a articulação entre as dimensões do exercício pro- fissional e pesquisa acadêmica a partir da proposta metodo- lógica da participação observante (cf. Albert, 2002; 2014; Bastien, 2007; Malfitano & Marques, 2011). Bruce Albert é um antropólogo francês que construiu conhecimentos a partir de sua participação em diálogos com lideranças Ia- nomâmi, em especial, Davi Kopenawa. Bastien Soulé é professor de sociologia na universidade de Lião, na Fran- ça. Ana Paula Serrata Malfitano é professora da UFSCAR da área de Terapia Ocupacional, já Ana Cláudia Rodrigues Marques é professora da Association pour le Développe- ment, l’Enseignement et la Recherche en Ergothérapie em Paris. Estes pesquisadores discutem que a participação ob- servante pressupõe uma reorientação da direção da cons- trução de conhecimento. Ao invés de partir de questões forjadas no ambiente acadêmico buscando se abrir para o mundo dos outros, toma as concepções emergidas nas si- tuações concretas da vida profissional e comunitária como 125 base para a proposição de indagações que possam, even- tualmente, resultar em conhecimentos acadêmicos e am- plamente relevantes. A participação observante subverte o método qualitativo de construção de conhecimento da con- vencional observação participante, proposta metodológica segundo a qual “é o pesquisador que vai ao campo para re- alizar uma investigação. Seu objetivo não é a participação, mas a observação” (Malfitano & Marques, 2011, p. 290). Ao contrário, para o CSC é desde a participação no cam- po sociocultural que a pessoa observa os fenômenos que aí ocorrem e se propõe a refletir sobre eles. Desdobra uma pesquisa de sua participação. Ou seja, quem pesquisa está primeiro na condição de participante de um certo campo sócio-cultural do qual emergem as questões relevantes de serem estudadas. Sem pretensões objetivistas de verificar a factualidade do reportado por meio de observações di- retas, a proposta é desdobrar reflexões a partir do material analisado, abrindo seu potencial dialógico para aprofunda- mento dos sentidos ali emergidos. Ao analisar as produções culturais como vestígios de relações sociais, as pesquisa- doras precisam fazer inferências sobre os tensionamentos dialógicos inerentes ao processo comunicativo do qual os vestígios tomados para estudo fazem parte. A seguir, este capítulo aprofunda algumas das refle- xões aqui situadas com foco na diferenciação entre inter- subjetividade e coautoria nos processos de construção de conhecimento no âmbito do CSC. Implicações teórico-metodológicas para pesquisa e prática profissional em psicologia Análogo ao processo histórico que viabilizou a 126 constituição das ciências modernas, no contexto das tradi- ções culturais das sociedades europeias em sua necessidade de abertura para a diversidade, num mundo que se apresen- tava como alteridade em relação a preconcepções até então predominantes naquela tradição, tornar-se pesquisadora em psicologia implica disponibilizar-se para viver e elaborar experiências inquietantes, no sentido proposto por Simão (2003b; 2015b; 2016a). Essa atitude em pesquisa, volta- da para a elaboração de experiências inquietantes da pes- quisadora, é discutida, por exemplo, em Silva Guimarães (2020a; 2020b), considerando a ruptura nas expectativas prévias de qualquer pessoa que se dispõe a estabelecer uma relação sistemática com o que é, até então, insabido (Leão e Silva Guimarães, 2021). As teorias e sistemas psicológicos disponibilizam modos de se relacionar com as experiências e de elaboração dos efeitos dessa relação, ao mesmo tempo em que esses modos de se relacionar permanecem abertos à revisão, à medida em que se mostram insuficientes à elabo- ração de conhecimentos gerais que atendam às demandas para a solução de problemas sociais relevantes. Ainda que não visem, necessariamente, a aplicação imediata do co- nhecimento produzido. Tendo em vista que a emergência das ciências modernas tem forte relação com condições e necessidades socioculturais do momento históricoem que se deu, a continuidade do desenvolvimento científico de- pende da persistência da necessidade e de condições de in- vestimento social, dentre outros direcionamentos dirigidos à formação de pessoal com interesse e ferramentas neces- sárias à sustentação dos espaços e tempos dedicados à ci- ência. A ciência é um fazer cultural de uma cultura coletiva que se constrói entre as pessoas e de modo singular em cada pessoa. Valsiner (2012) propõe uma compreensão da distin- 127 ção entre as noções de cultura pessoal e cultura coletiva em uma proposta que se distingue radicalmente da noção de cultura como variável independente das pessoas. A noção de cultura como variável independente das pessoas situa a pesquisadora fora da cultura, em um lugar de sobrevoo que lhe daria condições privilegiadas de explicar as dinâmicas empíricas da existência cultural das participantes da pesquisa. Contudo, as especificidades dos problemas de pesquisa atendem a demandas da cultura da pesquisadora que, ao supor plausível a representatividade de amostras comparativas entre culturas, que as informa- ções oferecidas pelas participantes se encaixam de maneira confortável com as informações requeridas pela pesquisa- dora, a equivalência de significados dos instrumentos de medida nas diferentes culturas, ignora as idiossincrasias pessoais das investigadoras como parte da investigação e não é capaz de refletir sobre os efeitos da pesquisa para além dos objetivos explícitos no projeto, supostamente bem-intencionados (cf. Boesch, 2007). As proposições de Boesch (cf. 1991; 1997) se en- dereçam à compreensão da necessária articulação das di- mensões objetivo-instrumentais e subjetivo-funcionais na construção do conhecimento psicológico. Isto é, para que determinados fins pressupostos no horizonte ético da vida humana comunitária sejam possíveis de serem realizados é necessária a coordenação de ações. Porém a redução da metodologia de pesquisa à mera instrumentação, enquanto coordenação de instrumentos segundo métodos e procedi- mentos pré-definidos descolada da reflexão sobre o sentido ético de sua realização, acaba por esvaziar a própria legiti- midade da pesquisa científica, dado que ela fica à mercê de interesses irrefletidos por aquele que deveria ser sujeito ati- 128 vo, construtora de conhecimento, a pesquisadora. Boesch (2008) recusa a concepção de que a pesquisadora é desinte- ressada e propõe uma psicologia cultural implicada, atenta aos temas sociais que envolvem os processos de escolha e responsabilidade da psicologia em relação às persistentes formas de opressão restritivas das possibilidades de criação humanas. Valsiner (2017) também propõe uma psicologia cul- tural inclusiva, voltada para o entendimento da coexistên- cia de diversas culturas e interesses no campo social e para questionar os limites e imposições autoritárias às possibili- dades humanas de ser, conhecer e aprender. Para o pesqui- sador, as teorias e sistemas psicológicos são elaborações semióticas que organizam o fluxo das experiências caóticas e indeterminadas que segue continuamente na duração da existência temporal. Contudo, embora a psicologia tenha produzido conceitos pontuais que equivocadamente reti- ram a dinamicidade dos fenômenos psicológicos, Valsiner (2017) propõe que a abstração generalizante também pode assumir a forma de um campo pleromatizado, ou seja, de um sistema semiaberto capaz de abarcar a processualidade do fenômeno focalizado, a afetividade, a corporeidade e a multiplicidade de perspectivas presentes no processo co- municativo que leva à construção de conhecimentos. A psicologia dialógica de Marková (2016), por sua vez, é fundada em pressupostos éticos e ontológicos segun- do os quais a pessoa que enuncia algo numa situação dia- lógica o faz através de um conhecimento constituído desde sua tradição cultural, comunitária. Os enunciados nunca podem ser dialogicamente compreendidos sem uma infe- rência que se remete a um subtexto ou a um terceiro nem sempre aparente que constitui a disjunção de perspectivas 129 entre aquela que fala e aquela que escuta. Aquela que se pronuncia, o faz em resposta a uma enunciado precedente, explícito ou implícito, e visa, na continuidade do diálogo, a resposta de outrem. A ontologia e a ética dialógicas pres- supõem as capacidades humanas de 1) Avaliar a diferença entre a percepção e a ação de si e do outro, de imaginar a perspectiva do outro como diferente da sua própria; 2) Avaliar a diferença entre atual e o possível na coordenação das ações e percepções entre eu e outro, teleologicamen- te orientadas; 3) Comprometer-se com o outro, ou romper compromissos. A avaliação entre convergências e diver- gências na relação eu-outro-mundo se desdobra em proces- sos afetivos de construção e desconstrução da confiança em si, no outro e no mundo que escapam à previsibilidade e controles absoluto. Boesch, Valsiner e Marková estão entre os pensado- res da psicologia mais referidos nas pesquisas do CSC, tal como foi possível identificar no mapeamento das produções realizadas no período de 2011 a 2018. Decorre, de suas con- siderações, dentre as selecionadas acima, que toda pesquisa é, em si mesmo, um processo singular que, ao mesmo tem- po, visa à construção de conhecimentos gerais. A relação singular da pesquisadora com o fenômeno-tema da investi- gação se configura como uma relação de alteridade. O foco da investigação excede as preconcepções da pesquisadora que, ao mesmo tempo, é parte de uma comunidade em que conhecimentos prévios já vêm sendo elaborados segundo uma tradição. É na fronteira entre o pensado e o impensado de uma dada tradição a qual se pertence, mas que também guarda dimensões excedentes às compreensões que a pes- quisadora faz, de si, de seu contexto e de seu tema de estu- dos, que se situa o potencial inovador da pesquisa. No CSC 130 se compreende, então, que o processo de pesquisa é situa- do no território do insabido demarcado pelos vértices dos posicionamentos ético, ontológico e epistemológico que a pesquisadora assume reflexiva ou pré-reflexivamente, con- figurando indagações quanto ao fenômeno tema, opções e construções teórico-metodológicas. Posicionamento metateórico O CSC se posiciona como um campo de reflexões metateóricas em psicologia (cf. Simão, 2015c), dada sua compreensão da articulação entre as experiências inquie- tantes e os processos semióticos de elaboração dessas ex- periências articuladas à tradição da pesquisadora e psicólo- ga (Simão, 2020), formadora de seus posicionamentos nos planos ético, ontológico e epistemológico. Os instrumen- tos de que objetivamente lança mão para a elaboração das tensões provocadas pelas experiências inquietantes variam infinitamente, já que, pelo que veio sendo discutindo neste livro, são engendrados no próprio processo de construção de conhecimento, no contexto das experiências, tradições, compreensão e afetos presentes nas reações pesquisadora- -participante na pesquisa e, ao mesmo tempo, visa à sig- nificação para o campo sócio-histórico de que emerge a pesquisa e a quem ela deve dar resposta. Por isso, incluem desde recursos materiais a recursos simbólicos constituti- vos dos métodos e procedimentos para construção e análise dos dados selecionados da experiência. A seleção é feita sobre os experimentos, as observações naturalísticas, os estudos de campo, as entrevistas qualitativas, os recortes de introspecção, as autoetnografias, as revisões bibliográfi- cas críticas, a interlocução com outras pesquisadoras etc., e 131 também a maneira como o conjunto de experiências é ana- lisado no aprofundamento sobre aspectos das experiências e articulado de modo qualitativamente diferente na propo- sição de explicações ou compreensões revisadas sobre os fenômenos e temas abordados. Neste processo emerge a necessidade de que a pes- quisadora apresente e discuta 1) a relação entre a experi- ência inquietante focalizada, tal comoaqui entendida, e o campo sociocultural ao qual essa experiência se vincula; 2) as preconcepções da pesquisadora em relação ao fenô- meno-tema delineado a partir da experiência inquietante; 3) o posicionamento ético, ontológico e epistemológico a partir do qual o fenômeno-tema da pesquisa é visado; 4) a pertinência dos instrumentos selecionados para abordar o fenômeno-tema e que o convertem em objeto de estudo. No deslocamento da experiência inquietante da pesquisadora para o delineamento de uma questão viável para construção de conhecimento generalizável, há a emergência de uma refração na pessoa da pesquisadora, de que participa o pro- cesso de retrospecção, já referido em capítulos anteriores. Ela se vê diante da demanda de argumentar a relevância social da pesquisa e sua contribuição para o avanço de uma certa tradição em pesquisa a qual está vinculada. A experi- ência inquietante precisa, portanto, mobilizar o pesquisa- dor a ponto de assumir a responsabilidade de estabelecer uma relação de continuidade, tanto quanto possível, de suas questões a perguntas e respostas presentes no campo-tema (cf. Spink, 2003) e nos estudos prévios que caracterizam, o estado da arte das pesquisas existentes sobre o fenômeno, tomando-os todos, além da participante, como ‘outros’ no diálogo inter e intrassubjetivo de seu pesquisar. Em outros termos, a emergência da pesquisado- 132 ra na pessoa que se propõe realizar tal empreendimento, passa pela delimitação de um fenômeno-tema de pesquisa (Simão, 1989) a partir das pré-concepções da pessoa, no sentido hermenêutico-dialógico, em uma dada situação ex- perimentada no mundo com os outros. A pessoa, contudo, precisa construir um outro de si posicionando-se em meio à diversidade de suas posições subjetivas, na refração do campo social pela pesquisadora, por meio da vinculação de suas questões pessoais ao fluxo das perguntas e respos- tas já presentes em dada tradição científica. A experiência inquietante da pessoa passa, então, a ser descrita segundo um conjunto de noções que formam um sistema, tornando essa experiência inteligível para seus pares. Tal passagem da experiência para o relato da experiência (cf. Engelmann, 2002) encontra maior plausibilidade na medida em que são explicitados tensionamentos com formas de expressão pre- sentes no campo-tema como indicador de relevância social e acadêmica da pesquisa. Uma vez delineado o fenômeno-tema, estruturado um projeto e selecionada parte dos dados da experiência refratada da pesquisadora a serem tomados para análise, compõe-se a configuração de uma Gestalt a ser investigada em suas partes constitutivas e articulações entre as partes. A relação de quem faz a pesquisa com os dados construídos O processo de construção de conhecimentos pressu- põe a identificação das partes constitutivas da experiência refratada em dados tomados para reflexão. No caso de pes- quisas empíricas usualmente realizadas no âmbito do CSC, a partir da análise das produções identificadas no percur- 133 so da pesquisa que deu origem ao presente livro, os dados se constroem a partir da relação pesquisadora-participante numa dada situação concreta, sendo a relação eu-outro- -mundo uma unidade de análise irredutível (cf. Simão, 2010 2023). No âmbito das pesquisas bibliográficas que também são prevalentes na área, a relação da pesquisadora com a obra de um ou mais autores presentificada na situação de leitura também se configura como uma unidade relacional eu-outro-mundo, cabendo à pesquisadora reconhecer, num primeiro momento, a tensão entre suas posições prévias a respeito dos temas abordados e as posições de suas inter- locutoras (empíricas ou bibliográficas), na medida em que cada participante na unidade dialógica se expressa por meio de referências a subtextos e a terceiros nem sempre aparen- tes ou explicitados na relação. O processo de refração da experiência leva à cons- trução uma Gestalt que, para ser analisada, precisa ser observada em suas partes e subpartes constitutivas num processo que tende ao infinito, na medida que as partes e subpartes podem ser indefinidamente selecionadas como novas totalidades a serem analisadas num movimento re- cursivo de aprofundamento (cf. Silva Guimarães, 2016a). Os objetivos da pesquisa se tornam, no momento da aná- lise, demarcadores fundamentais, tanto dos critérios para identificação das partes relevantes a serem selecionadas da totalidade dos dados, como para a determinação dos li- mites de uma análise que pode se desdobrar sobre si mes- ma indefinidamente. Cabe à pesquisadora, no processo de construção de conhecimento, fazer inferências a respeito dos subtextos e dos terceiros não explicitados, em espe- cial quando eles não emergem refletidos nas experiências que servem de base à construção dos dados. Cabe também 134 delimitar momentaneamente para a pesquisa, os limites da análise de modo a atenderem aos objetivos daquela pesqui- sa. A pesquisadora, assim, deixará sempre atrás de si, para um futuro, algo que excede as possibilidades de pesquisa naquele momento, mas que pode orientá-la na direção de novas pesquisas, assim como a outras pesquisadoras. Nesse sentido também, a pesquisa no CSC é hermeneuticamente instruída, orientada. Nas pesquisas dialógicas, que guardam os compro- missos da reflexividade ética, ontológica e epistemológicas, os dados são construídos como enunciados expressos entre pessoas interlocutoras na temporalidade de suas trocas. Im- plica a alternância entre quem se expressa, a coordenação dessas expressões, a situação em que essas expressões ocor- rem e as dimensões de alteridade, de excedência ou desco- nhecimento a respeito de cada uma das partes da unidade com referência às condições precedentes e aos horizontes teleológicos da ação comunicativa. Ou seja, os dados são entendidos como eventos selecionados na processualidade dos acontecimentos significativos da experiência da pes- quisadora. Diante dela há algo que se apresenta como co- nhecimento de si, do outro, de si para o outro e da situação relacional e há algo que emerge como insabido, que se pode buscar conhecer a depender dos objetivos da pesquisa. Os eventos, por sua vez, podem ser organizados em séries nas quais os constituintes da unidade eu-outro-mundo se trans- formam viabilizando a reformulação das inferências que a pesquisadora faz acerca de seus objetivos visados. Neste processo, dois tipos de seriação importantes. Na série longitudinal uma dada relação eu-outro-mundo é retomada diversas vezes num período de tempo, permitin- do à pesquisadora acompanhar e fazer inferências sobre as 135 transformações de si, do outro e do mundo nesse proces- so, configurando um estudo de caso único, com um mesmo participante, usualmente em um mesmo enquadre relacio- nal, embora o quadro também possa mudar. Na série trans- versal, a relação eu-outro-mundo é marcada pela mudança do outro com o qual a pesquisadora se relaciona, permi- tindo a comparação de diferenças entre os casos tomados para análise. São opções teórico-metodológicas que muitas vezes se complementam e dizem respeito à compreensão das diversidades presentes na heterogeneidade intrapessoal ou interpessoal no processo de pesquisa. O outro (ou os outros) da unidade eu-outro-mundo se torna figura e as inferências da pesquisadora se dirigem ao conhecimento que se pode construir a respeito da(s) par- ticipante(s)-para-si, na série de expressões emergentes em seus atos comunicativos no período selecionado em que a experiência relacional é refratada, constituindo o even- to tomado como dado de análise. A(s) participante(s), ou as autoras dos textos, no caso das pesquisas bibliográficas, são interlocutoras que endereçam suas expressões para a pesquisadora ou seu público-alvo, demandando inferên- cias da pesquisadora à respeito dela(s)-para-seus-outro(s), incluindo-se aí, os terceiros eventualmente não explicita- dos ou não refletidos desse endereçamento.As inferências da pesquisadora se desdobram para refletir que o processo relacional está sempre situado num mundo diante do qual a expressão da(s) participante(s) ou autora(s) de uma obra responde a questões endereçadas dos outros-para-ele(s). 136 A construção de inferências sobre as perspectivas expressas nos dados Os campos-tema, noções, conceitos e experiências perspectivadas nas expressões da(s) participante(s) ou au- toras focalizadas em um conjunto de dados de pesquisa po- dem ser tomados como oriundos de sujeitos igualmente re- flexivos em relação à pesquisadora. Cabe a ela, entretanto, realizar inferências a partir dos vestígios de processos psi- cológicos na série de expressões comunicadas pela(s) par- ticipante(s) e autora(s) focalizada(s). A inferência é neces- sária porque outrem mencionado reflete a si mesmo numa posição diferente da posição de quem lhe faz referência, endereça suas expressões e responde a situações concretas distintas daquela que constitui as experiências em que se baseiam a construção dos dados, considerando que: O pensamento começa com a possibilidade de conceber uma liberdade exterior à minha. Pensar uma liberdade exterior à minha é o primeiro pensamento. Ele marca a minha própria presença no mundo. O mundo da percep- ção manifesta um rosto: as coisas nos afetam como pos- suídas por outrem. […] As coisas, como coisas, têm sua independência primeira do fato de não me pertencerem - e elas não me pertencem, porque estou em relação com homens dos quais elas vêm [...]. (Lévinas, 2004, p. 39) Os vestígios de outrem, por sua vez, podem ser or- ganizados segundo séries longitudinais, configurando-se como uma narrativa de eventos que sucedem ao longo do tempo, enquanto a narrativa da ordem em que algo é co- municado (cf. microgênese no processo comunicativo). A seriação é ser utilizada para a reconstituição temporal dos eventos referidos na comunicação como uma possibilidade 137 construtiva do pesquisador. Os vestígios também podem ser organizados em séries transversais, quando se busca com- parar percursos de duas ou mais pessoas perspectivadas no vestígio das expressões de uma ou mais participantes e au- toras preliminarmente convertidas em dados. Por exemplo, num excerto da tese de doutorado de Ávila (2016), um estudo sobre a identidade sonora de crianças com autismo, o autor relata oficinas terapêuticas realizadas por ele e uma equipe composta por psicólogos e estudantes de psicologia pelo período de um ano no Insti- tuto de Psicologia da USP. Não se trata de uma tese defen- dida no campo do CSC, contudo, nos permite compreender com nitidez questões teórico-metodológicas focalizadas nesse tópico do artigo. É descrito na tese que as sessões foram registradas por câmeras de vídeo e tiveram segmen- tos selecionados, viabilizando a constituição de uma série de eventos como dados de análise. As séries longitudinal e transversal são explicitadas com referência a como o pes- quisador construiu o processo de cada uma das 5 crianças ao longo do período em que participaram das oficinas, pos- sibilitando a comparação dos efeitos das oficinas entre as crianças. A seguir está um excerto da tese em que o autor- -pesquisador apresenta um dos casos por ele analisado: Pablo é a criança mais nova do grupo, com cinco anos. Além disso, sua constituição física confirma também esse conceito: magro, de baixa estatura, postura encur- vada e uma voz sem volume e para dentro, difícil de ser compreendida. Apesar de não ter um diagnóstico, ele é encaminhado pela escola, justamente pelas questões de linguagem – falava em espanhol e apresentava um atraso na comunicação – e uma dificuldade de se separar. A fa- mília é composta pelo avô e a avó, naturais da Argentina, e a mãe, todos vivendo juntos na mesma casa junto com o noivo atual da mãe e padrasto de Pablo. Os avós con- 138 tam que a mãe teve um evento conturbado com o pai de Pablo, e que ele a abandonou durante a gravidez: [O pai biológico] vê ainda Pablo de vez em quando, mas não mantém contato regular; já aconteceu, inclusive, dele avisar Pablo que o visitaria – criando, então, grande expectativa na criança – mas, sem avisos ou explicações, não aparecer. Resultado: Pablo ficou visivelmente frus- trado, e tudo indica que não encontrou jeito de comuni- car sua angústia com seus familiares, que preferem não tocar no assunto, porque assim, quem sabe, o Pablo es- quece (Relato de atendimento individual). (Ávila, 2016, pp. 54-55) É possível analisar, do caso, que quem faz a pes- quisa (ela-para-si) seleciona eventos tendo em vista os ob- jetivos da pesquisa a partir de sua experiência. Os eventos são descritos de forma narrativa (ele-para-seus-outros) e endereçados a um público que demanda dele, pesquisador, uma contribuição pertinente ao campo de estudos em que a pesquisa se situa (outros-para-ele). Nesta situação são construídas a série de expressões organizadas na tese da qual selecionamos um excerto. Ou seja, à semelhança do que Ávila (2016) fez a partir de sua experiência com os participantes de seu estudo, é feito agora em na experiência dos autores deste capítulo com ele, por meio da leitura de sua tese tendo em vista os objetivos da presente pesquisa (nós-para-nós) que guiam o processo de escrita deste livro (nós-para-nossos-outros). Tem em vista o que os autores de agora entendem como relevante de ser comunicado a respeito das reflexões teórico-metodológicas acerca de pro- blemas da pesquisa psicológica. Ou seja, tem em vista os posicionamentos do CSC nos planos da reflexividade ética, ontológica e epistemológica (outros-para-nós). O excerto, por sua vez, apresenta uma série de vestí- gios dos participantes de pesquisa mediados pela expressão do pesquisador. Ao passo que Pablo é de fato o participante 139 da pesquisa, uma série outros emergem a partir das expres- sões de Pablo, ou de seus avós no relato de atendimento individual. Aparecem, por exemplo, a mãe e o padrasto de Pablo, perspectivados a partir da pessoa que atendeu os avós de Pablo. Quem lê a tese apenas tem acesso aos vestígios destas pessoas nas palavras escritas na tese, ou seja, na experiência convertida em dados. Quem lê a tese acessa também as inferências do pesquisador a partir dos vestígios sistematizados de outrem e suas preconcepções teórico-metodológicas, evidente na expressão, “tudo indi- ca que não encontrou jeito de comunicar sua angústia com seus familiares”, marcando, assim, um posicionamento de sua leitura do fenômeno no campo psicanalítico. Desde o CSC, o campo das experiências guarda excedentes de sen- tidos e outras trajetórias de elaboração da experiência são possíveis. É o papel ativo da pesquisadora em sua situação dialógica que a constrói assim, demandando, no processo de pesquisa, a explicitação da natureza do conhecimento, sua epistemologia, através da qual a realidade é construída numa dada direção em meio à facticidade, eventicidade ou contingência dos eventos experimentados (ôntico). Sendo a reflexividade sobre os predicados, o que está pressuposto como ser da experiência endereçado ao campo da ontolo- gia. Como a pesquisadora é ativa neste processo, é também responsável pelos efeitos das significações que constrói num campo de tensões e excedências em relação às suas apreensões do fenômeno (ética). Compreensão das tensões dialógicas entre as perspectivas Concomitante aos movimentos analíticos em que 140 partes e subpartes constitutivas do todo são selecionadas para maior aprofundamento em direção aos objetivos de pesquisa, é pertinente buscar entender como essas partes mantém relações de tensão entre si, o que tem sido abor- dado na área a partir das noções boeschianas de fronteira e barreira (Simão, 2016a; 2017) e da noção de borda (cf. Marsico, 2015; Morais e Guimarães, 2015; Simão, 2012; 2015b; Simão e Marsico, 2018), com a colaboração ativa da pesquisadora Pina Marsico, da Universidade de Saler- no, Itália. Mapeandoo conjunto de fronteiras que emergem no campo relacional das múltiplas perspectivas que se ex- pressam sobre o campo-tema focalizado pelas pesquisas, a compreensão do fenômeno dialógico implica identificar e discutir as tensões nos pontos de vista: da pesquisadora preliminar e posterior à realização da pesquisa; entre a pes- quisadora, a(s) participante(s) da pesquisa e a(s) autor(as) consultado(s) na articulação do corpus conceitual, na série das relações longitudinais estabelecidas com elas; entre as participantes da pesquisa e autoras consultadas, na série transversal, comparativa entre as diferentes pessoas envol- vidas. A respeito de cada participante da pesquisa ou autora consultada, é pertinente notar a heterogeneidade intrapes- soal, ou seja, a existência de tensões entre perspectivas tra- zidas por essas pessoas em suas expressões, os vestígios de terceiros explicitados ou inferidos, em relação aos quais a expressão documentada na pesquisa é uma resposta. Tam- bém é importante aportar os conhecimentos ou a tradição por meio da qual a expressão tem sentido. Da implicação da pesquisadora com a questão de pesquisa, na articulação da multiplicidade de perspectivas mobilizadas no processo de investigação, deve emergir uma compreensão a ser delineada num sistema processu- 141 al, conceitual e generalizado. Tal sistema, abstraído a par- tir dos movimentos analíticos e compreensivos das tensões dialógicas pode ser, então, colocado em diálogo com outras concepções presentes no campo sociocultural. É relevante avaliar seu potencial para aprofundar o entendimento do campo-tema abordado pela pesquisa, com concepções teó- rico-metodológicas da área à qual a pesquisa está vinculada e com noções histórico-filosóficas acerca do fenômeno, seu processo de conhecimento e suas implicações para a am- pliação de possibilidades criativas de ser e existir no mundo com os outros. Considerações parciais A presente reflexão histórico-filosófica e teórico- -metodológica a respeito da trajetória de desenvolvimento de um dado campo de conhecimento teve como finalidade avançar na sistematização do corpus conceitual do CSC, tendo em vista suas preocupações fundacionais, identi- ficando os sentidos de avanço do conhecimento na área, considerando sua expansão e diversificação nos desdobra- mentos mais contemporâneos. O livro chegou a proposição reflexões teórico-metodológicas coerentes com esses des- dobramentos a partir da reflexão metodológica inicial e o percurso tomado a partir do mapeamento da totalidade das pesquisas desenvolvidas até o ano de 2018. Ficou explicitada a emergência da centralidade da reflexividade ontológica e ética no CSC e como essa re- flexividade se expressa na produção acadêmica da área, trazendo contribuições para consideração do papel da pesquisadora diante de questões éticas que emergem no processo de construção de conhecimento em psicologias. 142 Pesquisadora e participante da pesquisa são ativas e consti- tuem pontos de vista em tensão no processo comunicativo e dialógico inerente à construção conhecimento nas relações eu-outro-mundo (cf. Boesch, 1984; 1991; Simão, 2010; Marková, 2016; Valsiner, 2017a; 2017b). Assim, o avanço do conhecimento na área diz respeito ao aprofundamento da reflexividade ética sobre as participantes a respeito do campo-tema em que estão situados, sendo a relação produ- tora dessa reflexividade o fenômeno privilegiado em estu- dos no âmbito do CSC. A reflexividade ética, por sua vez, está imbricada na reflexividade ontológica e epistemológica. Dado que a reflexividade ética pressupõe a reflexão sobre os efeitos do posicionamento da pesquisadora sobre os outros e os mun- dos constituídos por essa relação, ela diz respeito à tem- poralidade das tradições em que cada pessoa é formada, à eventicidade, facticidade e contingência das experiências, aos pensados e aos impensados a respeito daquilo que se julga saber e do que é insabido num dado processo de in- vestigação científica. Fica evidente, assim, possibilidades e limites de construção de conhecimentos gerais nas relações da pessoa ativa com outras pessoas ativas, construtoras de mundos compartilhados, dada sua estruturação semiótica, e no reconhecimento de excedências mútuas de uns para com os outros. CONCLUSÃO Ponto de chegada, ponto de partida O presente livro se baseou em uma pesquisa que teve como objetivo explicitar as posições do Construtivis- mo Semiótico-Cultural em psicologia (CSC) em relação aos planos epistemológico, ontológico e ético da reflexão filosófica. Para tanto, foi delineado no projeto inicial, qua- tro etapas de pesquisa que resultaram na publicação de ar- tigos sobre a explicitação do posicionamento do CSC no plano epistemológico (Silva Guimarães, 2021), a explicita- ção do posicionamento do CSC no plano ontológico (Silva Guimarães e Simão, 2023) e a explicitação do posiciona- mento do CSC no plano ético (Silva Guimarães, 2023). A realização das etapas esteve assentada no dialogismo teóri- co-metodológico, em especial na noção de heterogeneidade de vozes de James Wertsch, pesquisador dialógico da psi- cologia sociocultural (cf. Wertsch, 1991; Silva Guimarães, 2016a). As etapas de pesquisa histórico-filosófica orienta- ram o mapeamento de toda a bibliografia pertinente à área do CSC, desde textos precursores aos mais contemporâ- neos até o ano de 2018. A análise do material selecionado como enunciados viabilizou a identificação de referentes de conteúdo semântico presentes nos textos, relacionados aos planos epistemológico, ontológico e ético, e seus aspectos expressivos. A discussão do material analisado se deu entre os pesquisadores vinculados ao projeto buscando construir 144 inferências interpretativas quanto ao posicionamento do CSC nos referidos planos. A expectativa com a realização do processo analítico-interpretativo dos textos era de poder sistematizar um conjunto de ideias nucleares, norteadoras das pesquisas da área e que se estiveram dispersas em estu- dos sobre variados fenômenos-temas ao longo dos anos. A sistematização na forma de uma monografia, que originou este livro, visava se constituir como material de referência para pesquisas futuras inseridas ou vinculadas à área. A pesquisa que resultou na escrita deste livre teve início em dezembro de 2018 com o delineamento de três conjuntos de produção do CSC, organizados segundo o eixo temporal: O primeiro momento, de 1982 até 2004, compreende uma etapa inicial em que ideias constituti- vas começaram a ser esboçadas estabelecendo uma rela- ção original entre autores e concepções psicofilosóficas, ao mesmo tempo em que demarcando um afastamento com posições antagônicas em psicologia, por exemplo as matri- zes exclusivamente funcionalistas e mecanicistas do pen- samento psicológico. Embora articulações presentes nos termos construtivismo, semiótico e cultural já estivessem presentes nos textos anteriores escritos pela segunda au- tora deste livro, apenas em 2004 as publicações começam a nomear, explicitamente, a perspectiva metodológica do CSC como uma unidade particularizada e integradora de conhecimentos diversos. Nas produções de 2005 a 2010 foi possível reconhecer um período de consolidação da área que culmina com a produção da tese de Livre-Docência de Lívia Mathias Simão e a posterior publicação de um livro com o conteúdo dessa tese (Simão, 2010), revisado e repu- blicado posteriormente (Simão, 2023). Nestas produções, noções-chave semiótico-construtivistas são articuladas a 145 noções filosóficas, especialmente atinentes à diversidade, alteridade, temporalidade e tradição. Instaura-se um diá- logo do qual irão emergir as questões e direcionamentos epistemológico, ontológico e ético que caracterizarão a perspectiva do CSC em psicologia até hoje. Finalmente, nas produções realizadas entre 2010 e 2018, é possível re- conhecer um adensamento da consolidação do período an- terior, com aprofundamento psicofilosóficoproduzindo sua tese de doutorado foca- lizando os processos de construção de representações sobre a profissão na cultura profissional dos psicólogos. Estudou junto com suas colegas: Cyrus, que realizava uma pesquisa de doutorado sobra a construção de significados de ami- zade através das interações verbais entre crianças, a partir da leitura de histórias em quadrinhos da Turma da Mônica, e Oliveira, também doutoranda, investigando processos de interação verbal e construção de conhecimento por díades de crianças do ensino fundamental que tentavam resolver 21 juntas problemas de matemática. Simão, Bettoi, Cyrus e Oliveira (2000), argumentaram que questões metodológi- cas, quando compreendidas a partir de um referencial epis- temológico “objetivista”, surgiam, em várias abordagens de psicologia preponderantes à época, como problemas técni- cos para engendrar procedimentos de pesquisa visando ob- ter dados e resultados os mais próximos possíveis de uma realidade externa da pesquisadora, a qual ela deveria buscar retratar com o máximo de precisão e fidelidade possível. Contudo, desde um referencial epistemológico se- miótico-construtivista, as chamadas questões metodoló- gicas eram, na verdade, teórico–metodológicas, uma vez que dizem respeito às possíveis formas de apreensão, no acontecimento empírico, das manifestações daquilo que é vislumbrado ou insinuado pelos modelos e hipóteses cons- truídas. Ou seja, toda realidade supostamente externa à pes- quisadora só se torna conhecida por meio de elaborações de sentido da pesquisadora que, enquanto pessoa, apreende o mundo segundo referências do seu campo cultural de per- tencimento. Por esse raciocínio, o conhecimento avançaria, na medida em que a plausibilidade e coerência da constru- ção da pesquisadora à respeito do significado da realidade empírica, vai sendo, sucessivamente reconstruída. A realidade empírica, por sua vez, permite eviden- ciar a generalidade dos processos focalizados por pesqui- sadoras e demais participantes da pesquisa, mas também psicólogas e pessoas atendidas quando tratamos do espaço de atuação profissional em psicologia. As proponentes do CSC realizaram uma crítica ao papel da acumulação de informação empírica, evidencian- do as exigências que a construção de conhecimento impõe à relação da pesquisadora e psicóloga com seus “outros so- 22 ciais”, incluindo o “sujeito da pesquisa”, ou a pessoa aten- dida, que seria, neste caso, uma participante coconstrutora. Ou seja, a pesquisa na área, e a atuação profissional, não se proporia ao acúmulo de informações sobre o fazer de pessoas a respeito de algo que interessa apenas ao pesqui- sador ou profissional e à sua área de pesquisa e atuação, mas se propõe a coconstruir conhecimento sobre o fazer das pessoas que se relacionam em uma dada circunstância. A situação de pesquisa e de exercício profissional da psico- logia, que se volta para eventos interacionais concretos e singulares, mobilizam afetividade e cognição de pesquisa- doras, profissionais e demais participantes a respeito de fe- nômenos-tema que podem ser muito diversos. Na fronteira entre filosofia e psicologia, Simão, Bettoi, Cyrus e Oliveira (2000) já destacavam três questões norteadoras das refle- xões sobre problemas teóricos e metodológicos da pesqui- sa, que diziam respeito: 1) às possibilidades e limites da pesquisa empírica para a construção da generalidade teóri- ca, tendo em vista, as diferenças entre generalidade dos da- dos e a generalidade teórica, o status de construção científi- ca e o reconhecimento da relevância social da pesquisa; 2) à particularidade da interdependência da pessoa na relação com o mundo em que vive na construção das inferências psicológicas, não sendo procedente a dissolução do indi- vidual no sociocultural e vice-versa e 3) ao predicado da unidade afetivo-cognitiva dos processos psicológicos. Bettoi e Simão (2002) destacaram que o CSC tinha como meta-teoria a perspectiva epistemológica construti- vista, em que se pressupõe que as teorias são oriundas da atividade coconstrutiva da pesquisadora e das participantes da pesquisa. Em sua atividade, a pesquisadora ativamente faz recortes em meio à multiplicidade de opções disponíveis 23 em seu campo de ação e propõe uma maneira de ver a natu- reza da realidade. Desse modo, a garantia de fidedignidade e precisão no retratar uma realidade externa objetiva, que pressupõe uma separação radical entre sujeito pesquisador e objeto da pesquisa, dá lugar, no nível teórico-metodológi- co, ao processo de construção de novas formas de apreen- são, no acontecimento eventual, de aspectos pelos quais a realidade se manifesta, tendo em vista “a plausibilidade e coerência da coconstrução da pesquisadora à respeito do significado da realidade empírica que, num movimento dia- lógico, atua na reconstrução teórica” (p. 613). Trata-se da perspectiva de que o conhecimento da realidade é construído em interação com essa mesma reali- dade, que não existe de maneira independente da pessoa e que a pessoa só tem acesso indireto à realidade, pela inte- ração. Tal conhecimento vai, portanto, sendo reconstruído na temporalidade interativa, na medida em que toda fonte de contato com a realidade é, em princípio, fonte legítima de construção de conhecimento. O CSC passou a priorizar, desse modo, a busca das possíveis formas com que a diver- sidade humana se manifesta quando as pesquisadoras e as participantes são reconhecidas como sujeitos-atores, cons- trutores de soluções para questões que aparecem a respeito de um fenômeno-tema de pesquisa que a ambas interessa, ainda que por diferentes razões. Os estudos que se seguiram, nos trabalhos do LI- VCC, observados no período de 2005 até 2010, culmina- ram com uma reformulação no delineamento do CSC, com a ampliação do número de referências intelectuais precur- soras e focalização do escopo das pesquisas para o campo da filosofia da psicologia: 24 O rotulo “construtivismo semiótico-cultural” deve ser tomado aqui no sentido de um guia temporário e flexí- vel para a investigação qualitativa no campo da filosofia da psicologia, não remetendo a pretensões tipológicas (cf. Simão, 2005, 2007b). Por construtivismo semióti- co-cultural entendo a perspectiva teórico-metodológica que vem emergindo na psicologia, especialmente des- de as duas últimas décadas do século XX, a partir do amálgama transformativo das ideias de George Hebert Mead (1863-1931), Heinz Werner (1890-1964), James Mark Baldwin (1861-1934), Kurt Lewin (1890-1947), Jean Piaget (1896-1980), Lev Semanovich Vigotski (18961934), Mikhail Mikhailóvitch Bakhtin (1895- 1975), Pierre Janet (1859-1947) e William James (1842- 1910). Dentre as abordagens contemporâneas represen- tativas dessa perspectiva estão as de Ernst Boesch e de Jaan Valsiner. Já o termo semiótico foi escolhido para indicar um aspecto central em minha compreensão dos processos de comunicação eu-outro: são processos de significação, do quais a crítica reconstrutiva das mensa- gens é parte inerente, não havendo, pois, a possibilidade mesma de compreensão especular entre os interlocuto- res. A vertente construtivista que estou chamando de semió- tico-cultural focaliza especialmente o processo indivi- dual de desenvolvimento humano, em que as interações eu-outro, que se desdobram do espaço sociocultural, as- sim como o formam, têm papel primordial. Nessa pers- pectiva, a comunicação eu-outro é entendida como um processo bidirecional de socialização, em que cada ator da interação transforma ativamente as mensagens comu- nicativas recebidas do outro, tentando integrá-las em sua base cognitivo-afetiva a qual, por sua vez, também pode sofrer transformações durante esse processo (cf. Valsi- ner, 1989; Wertsch, 1991). (Simão, 2010, pp. 19-20) O CSC aparece, no excerto acima, como um guia para a investigação qualitativa no campo da filosofia da psicologia, temporário e flexível, isto é, passível de ser transformadodo CSC quanto ao lugar que aí ocupam as noções de alteridade, temporali- dade, aqui incluída a concepção hermenêutica de tradição. Emerge também, nesse período, a noção de experiência in- quietante, que virá a ocupar lugar central na perspectiva do CSC (Simão, 2015a, 2015b, 2016a). Também neste período houve um movimento de interlocução com áreas de frontei- ra e diversificação das temáticas abordadas pelas pesquisas, estabelecendo relações interdisciplinares com o campo das artes, da saúde e da antropologia, além das relações com a filosofia que sempre estiveram e estão presentes como fun- damentais no CSC. Na pesquisa que gerou este livro, a explicitação do posicionamento do CSC em relação ao plano epistemológi- co partiram de reflexões produzidas em um diálogo com a noção de matrizes do pensamento psicológico (cf. Figuei- redo, 2009; 2007) incluindo a centralidade da influência da psicologia sócio-histórica e dialógica nas formulações do CSC. Foi possível identificar dispersões, desvios e tentati- vas de unificação que configuram a diversidade da área. As matrizes do pensamento psicológico segregam dois gran- des agrupamentos de proposições teóricas e metodológicas da psicologia que se subdividem em outras tantas oposições internas. A primeira oposição se dá entre as matrizes cien- tificistas e as matrizes românticas e pós-românticas. Dentre 146 as matrizes cientificistas estão a 1) nomotética e quantifica- dora; 2) atomicista e mecanicista; 3) funcionalista e organi- cista. Dentre as matrizes românticas e pós-românticas estão a 1) vitalista e naturalista; e as matrizes compreensivas 2) o historicismo idiográfico; 3) o estruturalismo; e 4) a feno- menologia. Das interfaces de cada uma dessas matrizes com as proposições teórico-metodológicas do CSC emergiu uma fronteira dialógica entre o posicionamento da área em rela- ção aos objetos da psicologia e às formas pressupostas de conhecê-los. Adicionalmente, foram trazidos para o diálo- go concepções histórico-filosóficas no campo da epistemo- logia da psicologia que excedem o delineamento proposto pelas matrizes do pensamento psicológico. Por exemplo, as reflexões de Vygotsky (1927/1991) sobre o significado histórico da crise da psicologia e as subsequentes propostas desenvolvidas por ele no campo da investigação do pensa- mento e da linguagem, da formação de conceitos científicos como saída para a construção de uma unidade no campo das investigações psicológicas. A pesquisa de Valsiner e van der Veer (1991/2000) também ofereceu uma impor- tante contribuição sobre o contexto de elaboração do pen- samento de Vygotsky incluindo suas interfaces com ouros pensadores contemporâneos a ele. No percurso da pesquisa houve aprofundamento da crítica de Bakhtin (1992, 2014, 2015) na direção de uma concepção dialógica da linguagem que, por sua vez, tem centralidade nas produções contem- porâneas do CSC. Do mapeamento e análise de todas as produções do CSC de 1982 a 2010 foi possível identificar as bases epis- temológicas na fronteira entre o funcionalismo, matrizes românticas e pós românticas, não sendo possível localizar 147 a área em apenas uma dessas matrizes. Desde as preocu- pações explicitamente epistemológicas dos textos iniciais precursores da área, a presença de reflexões ontológicas e implicações éticas que se desdobram dessas preocupações permaneceram implícitas num primeiro momento. As di- mensões epistemológicas, ontológicas e éticas não são es- tritamente separáveis nos textos, mas estabelecem relações do tipo figura-fundo. A transformação das pessoas, do mundo e do co- nhecimento, se dá na temporalidade das trocas humanas, tema central para o CSC. A noção de temporalidade, dis- tinta da noção de tempo, cronologia ou história, tem longa trajetória na história da filosofia (cf. Cornejo e Olivares, 2015; Klempe, 2015; Vedeler, 2015). Um dos marcos dessa distinção está no desenvolvimento da noção de temporali- dade como a experiência subjetiva do tempo, cujas análi- ses fenomenológicas foram propostas por Bergson, James, Husserl dentre outros pensadores que lhes foram contem- porâneos. Nas fenomenologias de Merleau-Ponty e de Hei- degger, contudo, o foco da compreensão da temporalidade é deslocado da consciência individual para a relação do homem com o mundo. A temporalidade é experimentada na ação de ser e fazer que excede o si mesmo individual, entrelaçando a dimensão subjetiva à relação da pessoa com a tradição (Cornejo e Olivares, 2015). A temporalidade se dá e pode ser compreendida apenas no curso da vida em meio à reciprocidade de ações nas quais a pessoa ao realizar suas tarefas atende a outras pessoas e às demais instancias do mundo culturalmente significado ao qual está vinculado (cf. Ingold, 2000). A ciência, mas também as artes, dentre outras es- feras de ação simbólica humana, são entendidas como 148 modos específicos de construção de sentidos emergidos a partir de experiências da pessoa cultivada em uma deter- minada tradição cultural (cf. Simão, 2005; 2010; 2015a; Silva Guimarães, 2017a). O CSC, portanto, se distingue das epistemologias fundacionistas que dominaram o pro- cesso de emergência das ciências modernas e permanecem hegemônicas contemporaneamente. A psicologia moderna hegemônica visou a identificação do sujeito empírico ao su- jeito epistêmico “plenamente coincidente consigo mesmo e senhor absoluto de sua consciência e de sua vontade, um sujeito qualificado para a função de fundamento autofun- dante dos sistemas representacionais e de assento seguro para o mundo das representações” (Figueiredo, 2013, p. 37). Ao contrário das epistemologias fundacionistas, o CSC concebe que a ação humana é predicativa e interpretativa. Ela estrutura as coisas, eventos e ações das outras pessoas numa relação de interdependência com a experiência sub- jetiva, que, por sua vez, resulta na construção de sentidos e significados constantemente negociados com os outros e consigo mesmo de modo ativo e reflexivo (Simão, 2015a). Decorre, daí, que a construção científica é concebida como cultural e temporalmente situada. Cabe retomar que a noção de cultura no CSC é fruto de um diálogo interdisciplinar que inclui a antropologia e a filosofia (cf. Sánchez e Simão, 2016; Simão e Sánchez, 2016; 2017; Silva Guimarães, 2017b; Silva Guimarães e Simão, 2017). Quanto ao diálogo com a filosofia, ele se dá na própria formação dessa perspectiva meta-teórica, como destacado diversas vezes nas páginas deste livro. O diálogo com a antropologia, por sua vez, foi bastante aprofundado nas obras de Boesch (cf. 1991), fazendo-se também notar nos trabalhos de Valsiner (cf. 2007; 2014). Nos últimos 10 149 (dez) anos, projetos de pesquisa da área envolveram uma aproximação com o perspectivismo ameríndio em antropo- logia, o que resultou na proposição da noção de multipli- cação dialógica (MD). Desde a sua proposição, um con- junto de pesquisas vinculadas a noção de MD se voltou à compreensão da articulação entre teorias e sistemas psico- lógicos (cf. Lopes, 2014), ao processo de registro, análise e interpretação de dados empíricos de pesquisa (Freitas e Silva Guimarães, 2013; Bastos e Silva Guimarães, 2014), às construções narrativas produzidas em diferentes campos culturais, envolvendo a produção artística (Morais e Silva Guimarães, 2015; Nigro e Silva Guimarães, 2016; Leão e Silva Guimarães, 2017), as instituições sociais e as políti- cas públicas (Achatz, Sousa, Benedito e Silva Guimarães, 2016; Miranda e Silva Guimarães, 2015). Outro conjunto de pesquisas no campo do CSC tem promovido diálogos interdisciplinares envolvendo a questão da temporalidade (cf. Simão, Silva Guimarães e Valsiner, 2015), da cons- trução cultural do corpo (Silva Guimarães e Cravo, 2015; Laskovski e Simão, 2015; Sampaio e Simão, 2013; Sam- paio, 2018) e da transmissão cultural por meio de elemen- tos simbólicos não verbais (cf. Freitas e Silva Guimarães, 2013; 2015; Freitas, 2018).A explicitação do posicionamento metateórico na fronteira entre a psicologia e a filosofia é essencial para a compreensão do significado das proposições teóricas emer- gentes, situando-as em relação aos conjuntos culturais de que fazem parte bem como em relação ao projeto auto- contraditório de constituição da psicologia como ciência independente. No plano epistemológico foram exploradas as interfaces do CSC com as matrizes do pensamento psi- cológico (cf. Figueiredo, 2009; 1992/2007),em que as te- 150 orias e sistemas psicológicos aparecem agrupados segun- do princípios derivados de uma reflexão genealógica que identifica dispersões, desvios e tentativas de unificação que configuram a diversidade da psicologia contemporânea. No plano ontológico, o foco se voltou para a relação herme- nêutica que constitui as dimensões objetivo-instrumental e subjetivo-funcional das ações coordenadas entre as pesso- as, numa relação de coautoria do mundo e do sentido das experiências (cf. Marková, 2003a; Simão, 2015a). No pla- no ético, a reflexão se dirigiu para a exigência de contínua abertura dos pesquisadores da área para entendimentos da experiência que excedem suas preconcepções, impactando na possibilidade de emergência de inovações teórico-meto- dológicas capazes de acolher, progressivamente, a diversi- dade cultural humana, sem reduzi-la a conceitos que homo- geneízam a alteridade. Revisitando as ideias precursoras e concepções emergentes no campo do CSC em psicologia O primeiro conjunto de materiais tomado para es- tudo, organizados segundo critério temporal, apresentou a necessidade de retomada das reflexões produzidas nas eta- pas da pesquisa que geraram este livro, dado que as preo- cupações epistemológicas, ontológicas e éticas apareciam imbricadas nos textos com fronteiras tênues e permeáveis. Ou seja, embora os textos iniciais, precursores da área, trouxessem de forma mais explícitas preocupações teóri- co-metodológicas, as dimensões epistemológicas, ontoló- gicas e éticas alternavam, ora como figura, ora como fundo, nas proposições daqueles textos. Por exemplo, um excerto do texto de Simão (1986) 151 diz o seguinte: Bori e colaboradores, em 1978, desenvolveram um pro- cedimento de investigação em que os dados são obtidos através de informações coletadas durante reuniões pla- nejadas, entre pesquisadores e participantes, durante as quais ocorrem relatos verbais destes ultimas, a respei- to do assunto que os levou a participarem da pesquisa. Assim, os relatos verbais dos participantes a respeito de suas ações e relações cotidianas, de como se deram e do que eles pensam sobre elas, se constituem, por assim dizer, na “matéria prima” da investigação. As informa- ções coletadas em uma reunião são analisadas e classi- ficadas conforme o significado funcional de seu conteú- do e, então, reapresentadas aos participantes na reunião seguinte. A partir delas, eles prosseguem seu relato, completando-o e modificando- o através da inclusão de novas informações. Estas novas informações, por sua vez, possibilitam ao pesquisador continuar o processo de análise e classificação dos eventos relatados. Desta forma, partindo-se da ação cotidiana dos participantes, o conhecimento é construído através de ações conjuntas do participante e do pesquisador (p. 84). É possível perceber no excerto que a preocupação explicitamente procedimental se articula a questões episte- mológicas sobre o conhecimento psicológico que deixa de ser entendido como “coletado” e passa a ser entendido como “construído” na relação pesquisadora-participante. Tal re- flexão pressupõe uma ontologia do fenômeno psicológico constituído no acontecimento das relações humanas e não como propriedade empiricamente observada no participan- te ou racionalmente definidas nas classificações “conforme o significado funcional de seu conteúdo”. O conhecimento psicológico é incompleto e ressignificado na temporalidade das relações da pesquisadora com seus outros no mundo. Estas são questões ontológicas e éticas que passaram a ser aprofundadas na área em estudos mais recentes. Portanto, 152 já no texto da década de 80 produzidos pela segunda auto- ra deste livro estão presentes ideias seminais precursoras do CSC, cujas contribuições quanto aos posicionamentos epistemológicos, ontológicos e éticos se encontram conti- nuamente em elaboração na área. O rótulo CSC aparece, em seu início, como uma abordagem dirigida aos “fenômenos psicológicos” com foco na “construção intersubjetiva da subjetividade hu- mana”. Aparece como uma “perspectiva teórico – meto- dológica, epistemológica e ética”. Embora a dimensão da reflexividade ontológica não esteja explicitada nos textos publicados naquele momento, aparece o predicado de que “Tal subjetividade aí se coloca como construída e recons- truída durante toda a vida do sujeito, nunca de modo pro- gressivo linear, mas num movimento multidirecional e, a priori, imprevisível” (Simão, 2003b, s/n). Isto está escrito em seguida ao parágrafo em que o rótulo é apresentado, completando com a reflexividade ontológica a tríade dos posicionamentos sobre o que dá nome aos capítulos cen- trais deste livro. A partir da leitura e discussão dos textos seleciona- dos do período de 1982 até 2004, vinte concepções emer- gentes do material analisado puderam ser destacados na ordem cronológica de sua emergência ao longo dos textos. Estas concepções são constitutivas do CSC até o presente. Trata-se de um esforço de síntese que visou explicitar os problemas situados na tradição da qual fazem parte os pes- quisadores da área, reter o progresso alcançado por esses pesquisadores no que diz respeito às suas seleções e inova- ções teórico-metodológicas: • O conhecimento não é representação neu- 153 tra da realidade, mas a natureza do conhecimento é cultural, bem como os percursos metodológicos de construção e validação dos conhecimentos pro- duzidos; • A construção de conhecimento é resultante da condição ativa de pesquisador e participante da pesquisa que possuem metas próprias e coordenam suas ações na temporalidade da interação, transfor- mando o curso de sentidos por eles produzidos. • O conhecimento do fenômeno é diferente do conhecimento do processo. Cabe à pesquisado- ra produzir inferências a respeito do processo, não relatável pelas participantes da interação, mas que subjaz as questões de pesquisa em foco. • Pesquisadora e participante possuem inte- resses distintos, há uma dimensão de outridade que repercute na relação levando a transformações no curso de coordenação de ações em pesquisa. • As coordenações de ação nos processos de construção de conhecimento se dirigem tanto ao objeto do conhecimento focalizado quanto para as participantes da interação e à configuração da situ- ação interativa. • A realidade objetiva e abstraída no conheci- mento generalizante das ciências é construída pela pessoa que objetiva um mundo preenchido de signi- ficados estético-afetivos. • A coordenação de valores culturais distintos é marcada por conflitos expressos nas ações comu- nicativas que precisam compreendidos em seu pro- cesso de contínua regulação afetiva e participação nos processos de constituição de identidades. Isto é 154 inerente à atividade de pesquisa. Ou seja, as identi- dades dizem respeito não só àqueles que a pesquisa tematiza, mas também à pesquisadora. às partici- pantes e a orientadoras e supervisoras da pesquisa. • Duas disposições afetivas: a) o outro como barreira permanece como coautor particularizado no desafio de coordenar objetivos pessoais; b) o ou- tro como fronteira é um interlocutor que pode ofere- cer recursos que colaborem para a meta pré-definida pelo sujeito que propõe a pesquisa. • A diferenciação entre sujeitos de uma rela- ção se dá a partir de zonas hierarquicamente estrutu- radas, situação extra-verbal, que as pessoas supõem serem compartilhadas entre participantes de uma coordenação de ações e orienta a avaliação decon- flitos, falhas e limites pessoais. • A ação comunicativa tem o papel funda- mental de viabilizar a construção de uma base com- partilhada para a ação comum em um mundo mar- cado por conflitos e visões de mundo que não são necessariamente consoantes. • O sujeito epistemológico é afetivo-cogniti- vo, fundado na ação simbólica. • O objeto da ação também é ativo na medida em que as pessoas o constrói ao habitar um mundo simbolicamente estruturado segundo múltiplas rea- lidades pessoal e coletivamente construídas. • O sujeito utiliza operadores semióticos para guiar-se seletivamente na fronteira entre presente e futuro. • Enquanto sujeitos corpóreos, as assimetrias entre eu e outro são inevitáveis e demandam tran- 155 sições de modo a reaproximar a experiência da ex- pectativa. • A experiência da lacuna entre experiência e expectativa gera desconforto e angústia, demandan- do uma reorganização do significado da experiência de modo a produzir novos encaixes e redução de tensão. • A precedência do outro na construção de si é fundamental, remetendo às questões da ontologia e do papel da tradição nos processos de subjetivação. • As relações humanas guardam dimensões implícitas e explícitas, conscientes e não-conscien- tes, que demandam uma disponibilidade afetiva para elaborar interpretações singulares da experiência. • As relações de alteridade implicam um pro- cesso em que construções e reconstruções simbóli- cas são dinamicamente produzidas na medida em que a experiência do diverso produz inquietação e busca por compreensão. • Há uma impossibilidade de entendimento absoluto do outro, demandando uma constante dis- ponibilidade de abertura para as expressões de alte- ridade, o que é um compromisso ético. • Além da abertura para o outro o compromis- so ético também diz respeito à possibilidade de se colocar como outro para alguém, promovendo, des- sa forma seu desenvolvimento. Em relação a estas ideias é possível reconhecer uma alternância do CSC entre uma ênfase teórico-metodológi- ca e uma ênfase metateórica em psicologia, conjuntamente com o delineamento de posições epistemológicas, ontoló- 156 gicas e éticas. A conformação do CSC nas produções de 2005 a 2010 O CSC se conformou entre 2005 e 2010 como uma perspectiva meta-teórica que busca suscitar reflexões teóri- co-metodológicas à psicologia semiótico-cultural contem- porânea, especialmente quanto às relações eu-outro-mundo (Simão, 2003b, 2010, 2015a). Neste período, passou a arti- cular de maneira mais explícita questões filosóficas, princi- palmente relativas à alteridade e temporalidade, propostas por James, Bergson, Lévinas e Merleau-Ponty, com noções centrais da psicologia semiótico-cultural, especialmente as de Boesch e Valsiner. Metodologicamente, essa articulação se deu dado pelo diálogo hermenêutico, no sentido Gada- meriano, com a psicologia semiótico-cultural desde a pers- pectiva epistemológica do dialogismo de Bakhtin, Romme- tveit e Marková. A tradição em pesquisa do CSC em psicologia também se conformou a partir de estudos desenvolvidos sistematicamente em pesquisas que continuam sendo pro- duzidas no Laboratório de Interação Verbal e Construção de Conhecimento, do Departamento de Psicologia Experi- mental do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, por seus integrantes docentes, pós-graduandos, pós- -doutorandos e colaboradores externos, em nível nacional e internacional. Considerando os esforços de conceituação e delimitação do CSC, o rótulo veio sendo utilizado para identificar caminhos teórico-metodológicos de pesquisas qualitativas realizadas no referido Laboratório. A ativi- dade de pesquisa é entendida nesse contexto de investiga- 157 ções como um tipo de ação simbólica (Boesch, 1991) que transforma as pessoas, o mundo e o próprio conhecimento. A teoria da ação simbólica em psicologia cultural pressu- põe a pervasividade do simbolismo, ou seja, que em toda ação e situação a dimensão simbólica é parte constitutiva da variação de sentidos. A ação humana articula dimensões objetivo-instrumentais e subjetivo-funcionais assimilan- do e acomodando a experiência da pessoa no mundo (cf. Boesch, 1991, 1997). Do ponto de vista ético-filosófico, o ser humano é visto como autônomo e criativo capaz de transformar codeterminações filogenéticas, sociogenéticas e ontogenéticas que definem possibilidades e limites de sua ação no campo cultural. O CSC se constituiu no período de conformação como referência teórica e metodológica para o conjunto de atividades de pesquisa, formação acadêmica e exercício profissional. Como é próprio do desenvolvimento de áreas novas e ainda mais das interdisciplinares, os trabalhos que se seguiram após este período, na maioria das vezes, ainda se encontram dispersos em temas e reflexões. Passaram a identificar caminhos teórico-metodológicos de pesquisas qualitativas realizadas no referido Laboratório, assim como por pesquisadores de outras instituições, que haviam se for- mado no Laboratório, e que mantêm vínculos de pesquisa com ele. Em cada pesquisa um recorte do campo passou a ser delineado e diversas aproximações interdisciplinares foram empreendidas, num processo qualitativo que diz res- peito à atividade da pesquisadora na busca por construir co- nhecimentos sobre experiências vividas como inquietantes (cf. Simão, 2003a; 2004a; 2004b; 2015a). Decorre dessa ampliação, algumas das preocupa- ções que definiram os objetivos da pesquisa que gerou este 158 livro. Considerando que nem tudo que se faz em psicolo- gia é ou pode caber no CSC, coube explicitar quais os po- sicionamentos epistemológicos, ontológicos e éticos que fundamentam os conhecimentos da área. Também se fez necessário sistematizar um conjunto de implicações meta- -teóricas para a pesquisa em psicologia, que na produção do Laboratório se davam a partir de bases teórico-meto- dológicas diversas, tanto no âmbito da psicologia quanto interdisciplinares. Do período de conformação do CSC, de 2005 a 2010, o primeiro trabalho analisado foi Simão (2005), que estabeleceu um diálogo entre as psicologias culturais de Boesch e Valsiner com a filosofia hermenêutica de Gadamer. Uma questão epistemológica que aparece no texto diz respeito à posição da psicologia cultural quanto ao funcionalismo presente nas teorias construtivistas, com foco nos processos de equilibração. No CSC é enfatizada a tensão presente nos processos culturais. Dentre as tensões no âmbito epistemológico e ontológico discutidas, estavam as diferenças entre filosofia e psicologia, a questão da pri- mazia da reflexão psicológica sobre o sujeito ou sobre a relação eu-outro-mundo, o etnocentrismo ou relativismo cultural nas teorias psicológicas, a diferença entre controle do comportamento e ação coordenada, as dificuldades de se pensar a diversidade em pesquisas nomotéticas. A auto- ra reflete sobre contribuições da hermenêutica para a com- preensão de dinâmicas de continuidade e ruptura, empatia e alteridade, temas fundamentais da psicologia cultural contemporânea. No mesmo período, em conjunto com as professoras Vera Regina Jardim Ribeiro Marcondes Fon- seca, do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, e Vera Silvia Raad Bussab, professora da área de Etologia do Instituto de Psicologia 159 da USP, Lívia Simão abordou a dialogicidade na relação terapeuta-paciente, num estudo que se realizou a partir da abordagem clínica psicanalítica (Fonseca, Bussab e Simão, 2005). Seis pontos teóricos foram elaborados a partir de um estudo de caso: o pressuposto da simultaneidade entre si- milaridade e diversidade entre mundos fenomenológicos na relação terapeuta-paciente, intersubjetividade e alteridade; a fala do outro pode ser tomada como barreira ou fronteira; a mútua constituição na relação sem que isso implique fu- são; as noções de diferenciação e expectativas, concordân- cias e discordâncias, assimetria na distribuição do trabalhocomunicativo; e ênfase na continuidade do diálogo em vez da busca da verdade factual sobre as situações emergentes no relato da paciente. Em nova parceria, que incluiu o professor José Moysés Alves da Universidade Federal do Pará, Simão e Bussab problematizaram a dicotomia afeto-razão presentes em modelos mecanicistas e organicistas a respeito da ação humana (Alves, Simão e Bussab, 2006). Situam a cultura como jogo lúdico em que a afetividade, base das condutas, está na constituição da meta das ações guiando seu plane- jamento, coordenações instrumentais e sociais. No mesmo ano, Simão (2006) publicou um capítulo estabelecendo um diálogo com a filosofia de Henri Bergson quanto ao tema da aproximação e afastamento afetivo-cognitivo na relação eu- -outro-mundo. Propôs a compreensão de que ser diferente é estar em relação, porém a relação pode se dar na direção de maior isolamento ou convergência com o campo social de forma automatizada ou mais refletida. O riso aparece como um indicador de um processo de elaboração inteligente da experiência por quem ri e uma demanda por transformação que pode ser desdobrada ou não por quem produz uma ação 160 risível para os outros. Ainda em 2006, Simão e Valsiner (2006b) orga- nizaram um livro cujo título é emblemático das questões geradas pelos capítulos de autoria de diversos pesquisado- res e pesquisadoras:” Otherness in Question : Labirynths of the Self” (“Outridade em Questão: Labirintos do Self”). Por meio deste trabalho, trouxeram reflexões norteadoras de caminhos pelos quais pesquisadoras do campo da psi- cologia cultural podem refletir sobre aproximações e dife- renças entre as noções de outridade e de alteridade, funda- mentais para o Construtivismo Semiótico-Cultural (CSC) em psicologia. Os próximos quatro capítulos aqui referidos são produções do livro que se articulam diretamente com o CSC. 1) Silva Guimarães e Simão (2006) discutem que a noção de intersubjetividade é elaborada a partir da opo- sição entre intersubjetividade radical, referindo-se a uma condição de pertencimento de si a uma intercorporeidade partilhada com os outros, e intersubjetividade egológica, que parte da distinção eu-outro e mútuo reconhecimento de suas posições relativas no mundo. Um tanto dessas ideias estão discutidas no capítulo sobre ética deste livro. A mul- tiplicidade de vozes e temas nos campos inter e intrapesso- ais de cada pessoa em relação nos permitiu conceber como múltiplas realidades simbolicamente construídas emergem dessas distintas qualidades da intersubjetividade. 2) Simão e Duran (2006) realizaram uma entrevista com o psicólogo cultural Ernst Boesch, na qual a teoria da ação simbólica é situada como uma resposta a teorias deterministas em psi- cologia, enfatizando as dualidades entre transformação e conservação na cultura por meio da ação em direção a um ideal de perfeição visado por quem age, porém, nunca atin- gido plenamente pelo agente. 3) Simão e Valsiner (2006a) 161 escreveram um capítulo de fechamento daquele livro em que reconhecem a heterogeneidade de abordagens, um mosaico teórico, metodológico e ético de reflexões sobre o lugar do outro e da alteridade em psicologia cultural. As similaridades aparentes entre as teorias apontam para dife- renças na compreensão ontológica dos aspectos referidos nas noções utilizadas pelas pesquisadoras. Nem o ecletis- mo nem o dogmatismo seriam saídas consistentes para lidar com as desorganizações provocadas nos sistemas semióti- cos na tentativa de construir conhecimento sobre aquilo que cada um é com o outro, aquilo que cada um percebe como diferente em relação ao outro, aquilo que cada um negocia com o outro e aquilo do outro que é excedente, indefinível e inquietante. Em outro artigo, Silva Guimarães e Simão (2006) discutem a noção de desejo e intersubjetividade compreen- dendo que a subjetividade é inerentemente intersubjetiva e que a alteridade pode ser percebida em afastamentos na relação eu-outro, intrapessoais e interpessoais. Tais afas- tamentos se evidenciam em desentendimentos e rupturas que podem mobilizar esforços para reparos e construção do compartilhamento. A noção de desejo proposta se diferen- cia da ideia de volição em direção à ideia de movimento da subjetividade para abrigar o que a excede, aproximando o CSC da fenomenologia de Lévinas. 162 No ano seguinte, Simão (2007a) elaborou questões relativas a tensões vivenciadas por estudantes de graduação em psicologia, entre o que é acolhedor e o que é inesperado, desconhecido, incompreensível e desalojador. Diferenciou as noções de polarização inclusiva de polarização excluden- te, dogmatismo e ecletismo, responsabilidade pela seleção e desimplicação a-seletiva, com consequências éticas para a atividade de docência. Já em Simão (2007b) o foco es- teve na noção de experiência inquietante como mediadora da relação entre processos de construção de conhecimento e em reflexões epistemológicas e éticas imbricadas nesses processos. A relação pesquisadora-participante pressupõe distintas perspectivas a partir das quais sentidos e significa- dos a respeito de um fenômeno-tema tomado para estudo se transformam. Com implicações para a cultura coletiva de uma área de conhecimento, impactos sociais e éticos inevi- táveis. Ainda neste ano, Simão (2007c), aprofundou a rela- ção do CSC com aquilo que é cognoscível, passível de ser conhecido a respeito do outro, e aquilo que é desconhecido e não passível de ser conhecido em sua completude a res- peito do outro (o excedente da alteridade). O sujeito ético é focalizado como alguém que elabora sentidos e significa- dos de suas experiências em meio a assimetrias, desacordos e desentendimentos entre perspectivas em relação. Tal pro- cesso é inerente ao diálogo no sentido dialógico do termo. A questão da alteridade é apontada como fundamental do ponto de vista teórico-metodológico, para ser desdobrada em pesquisas futuras da área. Silva Guimarães e Simão (2007) abordaram, um ano depois, a tensão entre intersubjetividade e alteridade, inquietação, compartilhamento e convergência nas relações eu-outro. O endereçamento da fala e a noção de imagina- 163 ção foram trabalhadas para a compreensão de processos de coordenação e reorganização simbólica nas interações sociais. Já Simão (2008) tomou uma questão existencial humana básica a respeito do lugar da pessoa no universo. Apresentou caminhos para compreensão psicológica do lu- gar da pessoa na totalidade em direção a um entendimento holístico de seu ser-no-mundo: um processo ativo de per- cepção, transformação e integração de objetos, afetivamen- te significado a partir das metas da ação humana em busca por consistência em direção a possibilidades desconhecidas presentes no campo cultural em que a pessoa vive. Silva Guimarães (2009) discutiu as diferenças cul- turais na forma de se conceber o mundo e a linguagem: de um lado a compreensão de que cada elemento da re- alidade é expressivo estabelecendo uma relação de con- tiguidade com as expressões verbais, de outro lado, uma teoria metafórica da linguagem em relação ao mundo, to- mando a linguagem como representação descolada da re- alidade. Tais concepções de linguagem têm implicações para o entendimento da natureza do conhecimento, seja como decodificação de significados preexistentes no mun- do ou como construção e ação transformadora do mundo do qual as pessoas fazem parte. Em uma parceria com os psicólogos Teo Weingrill Araújo e Marília Marra de Al- meida, Silva Guimarães refletiu sobre a experiência de um curso de extensão de psicologia destinado a uma comuni- dade de um bairro próximo à Universidade de São Paulo (Araújo, Almeida e Silva Guimarães, 2009). Destacaram que o processo de ensinar temas de psicologia associados aos eixos da reflexão ética e da singularidade, por meio de uma aprendizagem significativa, produziram uma fronteira em que o ensino e a prática profissional do psicólogo se 164tornam permeáveis. No estudo apresentado, as limitações na compreensão dos processos de construção de sentidos e significados pelo outro permitiram que o processo de formação fosse permanentemente reinventado. O mestra- do da fisioterapeuta Clóris Regina Elias de Moraes Canto discutiu a tensão na coexistência, na diferença entre dois mundos subjetivos, de fisioterapeuta e de paciente, articu- lando questões relativas à imagem corporal, personalidade e fenômeno social (Canto e Simão, 2009). Observaram que a noção de cuidado de si pode entrar em tensão com uma concepção desintegrada da unidade corpo-mente difundida na cultura. Uma perspectiva humanizadora pode emergir em fisioterapia quando a relação estabelecida é pautada por uma disponibilidade para discussão e reflexão dos aspectos subjetivo-emocionais envolvidos no tratamento. Em 2010, Silva Guimarães (2010b) abordou as rela- ções entre sentimentos e sua mediação por meio de objetos simbólicos que guiam possibilidades de mútua compreen- são intersubjetiva por meio de duas trajetórias distintas: numa delas, a produção da obra de arte abre a relação com o interlocutor para múltiplas possibilidades recursivas de significação da experiência. No caso da produção da obra científica há uma intervenção na realidade que cria uma fronteira entre produtor e fruidor da obra, reduzindo pos- sibilidades interpretativas. Cada uma das produções, obra de arte e obra científica, atende a interesses distintos na re- lação eu-outro-mundo. Silva Guimarães (2010a) discutiu como narrativas-mestre socialmente difundidas são inter- nalizadas de modo singular pelas pessoas ao estruturarem os significados de suas experiências vividas. Tais estrutura- ções são resultantes da atividade do sujeito que articula, de modo não completamente previsível, percepções concretas 165 e de imagens difundidas nas narrativas dominantes dispo- nibilizadas. Em uma parceria com o psicólogo Renato Cury Tardivo é realizada uma discussão de que a posição subje- tiva isolada não é determinante da construção do sentido a partir de análises de uma obra literária e cinematográfica (Tardivo e Silva Guimarães, 2010). O sentido se encontra no entrejogo eu e outro em que o corpo delineia uma pers- pectiva como abertura da pessoa para o que lhe é alheio. A recursividade desse processo guia o contato da pessoa com uma sucessão de percepções internalizadas em imagens ca- pazes de mobilizar um processo de recriação da realidade vivida. Finalmente, neste ano houve publicação do livro de Simão (2010), revisado e republicado em inglês em 2023. Constituído por cinco ensaios, o livro discute implicações epistemológicas, ontológicas e éticas do modo de ver as relações eu-outro no âmbito do CSC, em que: 1) Estabi- lidade e transformação, copresença e tensão, essencial e desejável, são noções trabalhadas desde o primeiro ensaio. O CSC aponta para possibilidades de relação com a dife- rença que há no outro e para o papel ativo da pessoa na mu- dança de si mesmo. A pessoa age em direção a um futuro imprevisível necessitando fazer escolhas entre o presente e o futuro iminente que flui sobre nós com toda sua incer- teza. Nesse percurso, os sentimentos configuram qualitati- vamente a totalidade da experiência humana. É proposto uma compreensão holística do estar no mundo, inclusiva das inquietações relativas à impossibilidade de convergên- cia absoluta entre eu e outro. 2) O segundo ensaio situa o CSC no campo das metateorias construtivistas, focali- zando a crença em um mundo social compartilhado como um metaprocesso importante no desenvolvimento humano. Interditada a perspectiva de fusão eu-outro, concebe que 166 outro tem consciência e vive em um mundo objetivo seme- lhante ao do eu, sendo desejável o intercâmbio de pontos de vista e congruência de sistemas de relevância. 3) O en- saio 3 toma a cultura como um ambiente construído para o bem-estar, no sentido de viabilizar o sentir-se em casa e a continuidade consistente entre mediações autobiográficas do objeto: passado e presente, pessoa e outros. As pessoas agem na direção de aumentar suas possibilidades de con- tinuarem agindo sobre o mundo. 4) O ensaio 4 enfatiza os limites das ciências nomotéticas para a compreensão das interpelações do outro e do mundo que demandam viver experiências desalojadoras. A busca permanente reconstru- tiva do self se vincula à compreensão de que o ponto de vista universal, para onde o conhecimento psicológico deve apontar, é aquele que é inclusivo dos pontos de vista de outros, enquanto processo de se tornar hermeneuticamente formado. Contradição e conflito são, nesse sentido, polari- dades básicas da vida. 5) O quinto ensaio discute a questão da disponibilidade para se relacionar com o diferente, com o que que ultrapassa cada um a partir do desejo. Trata-se de um compromisso suplementar que emerge com a demanda do outro por ser abrigado. A relação eu-outro é entendida como irreversível, há impossibilidade de reciprocidade to- tal. A escassez de informação sobre o futuro e sobre o outro atesta a precariedade da razão e a centralidade da apreensão emocional nos processos de tomada de decisão sobre o cur- so das ações humanas. A ação humana é interpretativa e qualificadora da experiência Na explicitação do posicionamento do CSC em re- 167 lação ao plano ontológico, as reflexões produzidas visaram o aprofundamento da compreensão da ação da pesquisa- dora, interpretativa, predicativa. Estruturando as coisas, os eventos e as ações das outras pessoas no mundo em um pro- cesso afetivo de cognição da realidade empreendido pelo seu corpo sensível cultivado em uma dada tradição cultural que regula as trocas e a atenção mútua entre as corporei- dades. O foco se voltou para a relação hermenêutica que constitui as dimensões objetivo-instrumental e subjetivo- -funcional (Boesch, 1991) das ações coordenadas entre as pessoas numa relação de coautoria do mundo e do sentido das experiências (cf. Marková, 2003a; Simão, 2015a). Fo- ram focalizadas as condições e a diversidade de sentidos daquilo que se dá e se configura na experiência. A reflexão ontológica se dirigiu aos aspectos que embora constituti- vos da experiência não se mostram na própria experiência e nem devem ser buscados a partir da experiência, mas para além dela. A compreensão dos sentidos constitutivos da ex- periência humana exige um esforço de interpretação que inclui o universo semiótico apreendido pelas pessoas que se formam em uma dada tradição. A discussão em torno do papel metateórico da onto- logia na relação da filosofia com a psicologia (Simão, 2002; 2016b; 2017) foi retomada focalizando a questão da onto- logia da experiência inquietante que, no âmbito do CSC, caracteriza psicologicamente a relação de alteridade (cf. Simão, 2003b; 2004a; 2004b; 2015a; 2015b). Foi abordado também a questão do cuidado nos processos de cultivo de si em meio a um ethos diversificado no trânsito entre as diferentes tradições culturais humanas. Estiveram presen- tes reflexões do âmbito da hermenêutica da facticidade (cf. Heidegger, 1999; Gadamer, 2008; 2010). Adicionalmente, 168 foram introduzidas reflexões antropológicas que caracteri- zam concepções ontológicas distribuídas em diferentes tra- dições culturais presentes em etnografias produzidas sobre distintos povos ao redor do mundo a partir dos trabalhos do francês Philippe Descola (2005) e do britânico Tim Ingold (2000). Foi discutida a questão das rotas ontológicas que estariam na base de entendimentos e de práticas de diferen- tes tradições culturais (cf. Descola, 2005). As diferentes ro- tas que coexistem num campo existencial multiétnico têm sido descritas com detalhes no campo antropológico e sua sistematização tem sido alvo de intensas discussões, por exemplo, nos trabalhos do antropólogo e sociólogo francês Bruno Latour (2009) e do antropólogo brasileiro Eduardo Batalha Viveiros de Castro (2013). A introdução do pen- samentoantropológico contribuiu com a reflexão sobre a questão da pertinência e dos limites do campo de estudos emergente das psicologias indígenas em sua aproximação com o campo das psicologias culturais. Tal psicologia in- dígena em construção, se tona evidente na formação em psicologia de estudantes que participam do serviço Rede de Atenção à Pessoa Indígena (Rede Indígena), ligado ao Departamento de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia da USP. O serviço é sediado no Laboratório de Interação Verbal e Construção de Conhecimentos onde fo- ram desenvolvidas, predominantemente, as pesquisas iden- tificadas com o rótulo Construtivismo Semiótico Cultural. O Serviço abriga, ainda, a Casa de Culturas Indígenas da Universidade de São Paulo, um espaço único em ambien- tes acadêmicos no Brasil, construído por indígenas desde suas proposições comunitárias endereçadas a um projeto colaborativo com a universidade. O espaço é gerador de condições extraverbais para a emergência de diálogos, no 169 sentido dialógico do termo, entre comunidades indígenas e acadêmicas. Caminhos que se abrem e potencialidades para desdobramentos futuros Desde 2012 a partir das ideias seminais do CSC veio sendo elaborados projetos de extensão que culmina- ram com a instituição do serviço Rede Indígena em 2015. Esses projetos criaram condições para compreensão de po- tencialidades da noção de Multiplicação Dialógica (MD) para a elaboração de estratégias de intervenção em psico- logia. A equipe vinculada ao serviço realizou diversas vi- sitas a comunidades indígenas de São Paulo, participou de rodas de conversas, acompanhou práticas tradicionais de intervenções em saúde e práticas pedagógicas em escolas indígenas, colaborou com atividades que visaram fomen- tar o diálogo reflexivo sobre a situação da saúde, garantia de direitos, demarcação de terras, fortalecimento da cultura tradicional e educação diferenciada. Movimentar-se entre os diferentes horizontes socio- culturalmente situados, por caminhos serenos e confiantes, é importante para a saúde, na medida em que é condição para a experiência do corpo como fonte de prazer e conhe- cimento, de coisas e pessoas, para proteção, moradia, sub- sistência e gozo (cf. Figueiredo, 1995). Embora a história colonialista recente tenha procurado eliminar as diferenças ou homogeneizar os povos de acordo com sistemas de assi- milação (Estado, mercado, escolaridade, etc.), a passagem entre as diferentes perspectivas socioculturalmente confi- guradas não permite a homogeneização de suas diferenças, porque não há tradução possível entre horizontes incomen- 170 suráveis. A compreensão histórica da área, proposta neste li- vro, encontra relevância ao tomarmos a noção do pesquisa- dor da Universidade de Tallin, professo Aaro Toomela, para quem a especialização e dispersão em um dado campo de estudos viabiliza o avanço do conhecimento no contexto da elaboração de uma abordagem geral e sintetizadora, que se disponibiliza como instrumento para solução de problemas concretos da vida humana em sociedade (Toomela, 2016). O conhecimento científico em busca de universalidade se relaciona a fins e objetivos que excedem a contemplação desinteressada dos fenômenos ou recepção passiva, empí- rica ou racional da essência das coisas, legitimando-se em sua articulação com interesses constituídos no campo de tensões socioculturais de que o pesquisador faz parte, mas que também o afetam e transformam. A construção de um conhecimento geral é, portanto, sempre histórica e cultural- mente situada. A compreensão do processo histórico-cul- tural de sua emergência e transformação permite aos pes- quisadores refletirem sobre os pressupostos e impensados de suas posições no campo do psicológico viabilizando a continuidade do avanço do conhecimento por meio da con- tinuidade das reflexões. Desde a perspectiva psicológica aqui trazida, a construção de conhecimento sobre o si mesmo e seu mundo emergem de processos ativos em que sentidos e significa- dos a respeito de experiências concretamente vividas são elaborados por pessoas socioculturalmente situadas num dado mundo em que outras pessoas, seres vivos e objetos não vivos se fazem presentes. Trata-se dos processos de construção de conhecimento nas e das relações eu-outro- -mundo em que o conhecimento científico que se constrói 171 pela pesquisa psicológica não é exceção. As relações eu-outro-mundo no campo das expe- riências de elaboração dos conhecimentos psicológicos expressam convergências e divergências entre diferentes trajetórias socioculturais de pesquisadoras e profissionais. Elas são sujeitos ativos, proponentes de concepções teóri- co-metodológicas que vem caracterizando a natureza do co- nhecimento sobre as relações eu-outro-mundo antes mesmo dessas concepções serem reconhecidas pelo rótulo de psi- cológicas. As diferentes trajetórias criam uma diversidade teórico-metodológica que, no caso da psicologia, caracteri- za-se pelo fato de que a relação entre suas proposições não prenuncia nem expressa um caminho de integração em um campo unificado de ideias que possibilitariam um diálogo consistente entre elas. Pelo contrário, via de regra, as tenta- tivas de unificação acabam por expressar, paradoxalmente, confrontos explícitos ou implícitos. Tentativas de articula- ção ecléticas acabam por desembocar em reducionismos das diversas proposições umas às outras. Nas reflexões epistemológicas e nas proposições teórico-metodológicas presentes em diversos trabalhos do CSC, há considerações sobre a ampla diversidade de for- mas em que as relações eu-outro-mundo são abordadas nas diversas psicologias, em seu caráter ontológico. Isto porque tal diversidade aponta para o confronto de ideias entre au- tores, ressonâncias e ruídos entre teorias e práticas psico- lógicas que dizem respeito à pluralidade de entendimentos possíveis a respeito do ser psicológico. Focalizando esse interesse, a área passa a uma dimensão metapsicológica. Ou seja, partindo de considerações teórico-metodológicas sobre a construção de conhecimento nas relações eu-ou- tro-mundo em psicologia, os estudos do CSC passam a se 172 situar no âmbito da constituição histórico-filosófica do es- paço do psicológico e de seus desdobramentos em diferen- tes possibilidades de pensar o “ser psicológico”. É nesta dimensão metapsicológica que se situa este livro, ao trazer a discussão das perspectivas epistemológica, ontológica e éticas do CSC em psicologia. Na explicitação do posicionamento do CSC em re- lação ao plano ético, este livro se encaminha para o desen- volvimento de uma noção de eficácia ética, por meio da qual é situada a sistematização de formulações exaustiva- mente refletidas na área sobre as possibilidades e limites de abertura de si para o acolhimento da alteridade a partir de sua formação (Bildung, cf Gadamer, 2008) enraizada em uma tradição específica. A noção de eficácia ética, contu- do, não pôde ser completamente elaborada para a escrita do presente livro, embora tenha sido refletida no percurso da pesquisa que esteve na base desta produção enquanto uma proposição no campo da psicologia indígena. No pla- no ético, a reflexão se dirigiu para a exigência de contínua abertura dos pesquisadores da área para entendimentos da experiência que excedem suas preconcepções, impactando na possibilidade de emergência de inovações teórico-me- todológicas capazes de acolher, progressivamente, a di- versidade cultural humana, sem reduzi-la a conceitos que homogeneízam a alteridade. É a partir “de um primordial sentir-se em casa que se criam as condições para as expe- riências de encontro da alteridade e para os consequentes acontecimentos desalojadores” (Figueiredo, 2013, pp. 73). Em diversos trabalhos no campo do CSC, a psicologia passa a ser pensada como um produto da cultura, de uma tradição que participa do processo de sensibilização das pessoas em direção a certos questionamentos e reflexões nomundo em 173 que vivem. A psicologia não apenas participa da constru- ção das ciências, estabelecendo uma fronteira com elas ao propor compreensões sobre a relação do sujeito no mundo e seus processos de construção de conhecimento, mas ela mesma se configura como desdobramento de uma tradição. A noção de casa, também trabalhada por Boesch (1991), é importante para discutir a ideia de fronteira como metáfora à concepção de corpo. A casa estaria na fronteira entre uma experiência íntima da esfera pessoal e a vida com os outros. A partir da casa e do corpo é possível estabele- cer uma relação de estranhamento na ampla sociedade dos humanos. Assim, a vida humana é organizada ao redor de um centro, a casa ou o corpo, fonte de ações, raiz da iden- tidade, em constante interação com as estruturas culturais. A criança começa a explorar o mundo com seu corpo ini- cialmente situado em um local protegido: o corpo feminino da mãe. Posteriormente, é o campo protegido da casa que ganha fundamental importância: a casa, com seus habitan- tes cuidadores torna-se referência para os hábitos corporais da criança e das maneiras dela interagir com os outros. O universo primevo de sensações passa a ganhar sentido atra- vés das relações continuadas com os cuidadores que com suas mediações simbólicas oferecem bordas delimitadoras da realidade à criança. Este processo acontece, usualmente, num lugar reservado, longe das variações abruptas da exte- rioridade. Em síntese: tanto casas como corpos estabelecem fronteiras entre interior e exterior, ao mesmo tempo em que possuem dispositivos que permitem trocas com o exterior: portas e janelas num caso, ouvidos, nariz, mãos etc., em ou- tro caso. Adicionalmente, corpos como casas estabelecem áreas de reclusão segura através das quais se fazem viáveis o estabelecimento de relações criativas e de alteridade. 174 O campo sociocultural é constituído por experi- ências que se apresentam em sua dimensão de alteridade, como excedente de sentido em relação às pré-compreen- sões que alguém possa fazer delas. O fundamento da ética, a partir de Lévinas (2004), consiste em acolher a alteridade do outro sem aprisioná-la na forma de conceitos. Há aí um claro limite aos propósitos compreensivos das psicologias. Da epistemologia à ética a psicologia passa a se preocupar com a construção de um campo de conhecimento sobre as formas de se viabilizar a construção de um ethos capaz de acolher a diversidade das formas criativas humanas de ser e expressar. O desenvolvimento da noção de eficácia ética, a ser aprofundado em pesquisas futuras, aponta para a elabo- ração de critérios de avaliação do potencial das concepções e práticas psicológicas na direção de constituição deste ethos. A tarefa inclui as aproximações que o CSC realizou em seu percurso com as ciências da linguagem e das artes, na compreensão dos atos comunicativos do ser humano. Também é importante reconhecer os processos cultural- mente enraizados de subjetivação nas diversas culturas que excedem o contexto de emergência da psicologia. Ou seja, refletir sobre processos de subjetivação que acontecem para além do ethos fissurado do homem constituído nos desdo- bramentos modernos da história dos povos europeus. Con- siderando que diferentes perspectivas filosóficas instruem diferentes psicologias, a explicitação deste posicionamento metateórico objetivada neste livro permite situar o CSC em relação aos mais amplos conjuntos culturais dos quais faz parte, incluindo processo histórico e autocontraditório de constituição da psicologia como ciência. REFERÊNCIAS Achatz, R. W., & Silva Guimarães, D. S. (2018). An Invi- tation to Travel in an Interethnic Arena: Listening Care- fully to Amerindian Leaders’ Speeches. Integrative psy- chological and behavioral sciences, 52(4), 595-613. Achatz, R. W.; Sousa, F. R.; Benedito, M. A. & Silva Gui- marães, D. (2016). Considerações sobre o trabalho com comunidades indígenas a partir do serviço “Rede de Atenção à Pessoa Indígena” In Povos indígenas e psico- logia: a procura do bem viver (pp. 189-198) São Paulo: CRPSP. Albert, B. (2002). O ouro canibal e a queda do céu: uma crítica xamânica da economia política da natureza. Bra- sília: Ed. 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O delineamento mais contemporâneo indica que no âmbito do CSC estão sendo propostas pesquisas qualitati- vas norteadas pela perspectiva filosófica que instrui o CSC e não apenas pesquisas psicológicas norteadas por uma te- mática que pode ser abordada desde perspectivas diversas à mencionada. Neste sentido, no texto de Simão (2010) acen- tua-se a relevância da filosofia da psicologia em relação ao texto de Simão e cols. (2000), afastando assim o CSC de um guia dirigido ao estudo de fenômenos psicológicos desde quaisquer perspectivas filosóficas. O CSC é, ainda, posicionado como uma perspectiva teórico-metodológica, instruído por uma meta-teoria construtivista e dialógica so- bre a comunicação humana. Heinz Werner (psicólogo alemão radicado nos Es- tados Unidos), James Mark Baldwin (filósofo e psicólogo norte americano), Kurt Lewin (psicólogo social alemão) e William James (filósofo e psicólogo norte americano) pas- sam a compor o quadro de autores precursores de grande relevância da área. São autores que também viveram a vi- rada do século XIX para o século XX. De Werner é possí- vel destacar aquilo que chamou de princípio orthogenético, enquanto maneira de compreender os processos de desen- volvimento por meio do acúmulo de experiências e reorga- nização sistêmica das mesmas dando origem às estruturas de significação das mesmas. De modo que toda experiência é hierarquicamente organizada e estruturada por aquele que vive a experiência. Baldwin produziu inúmeras contribui- 26 ções no campo da compreensão de processos de desenvol- vimento, precursoras de proposições de Piaget, e também propõe uma teoria estética da realidade que se aproxima do que, posteriormente, Boesch defenderá em contraste com Piaget. Lewin, por sua vez, contribui com a noção de cam- po psicológico na produção de estudos que apontam para o mundo da vida, em conjunto com as relações interpessoais. James é, por sua vez, uma grande referência que irá con- tribuir, dentre muitas dimensões, com a reflexão quanto à noção de self, futuridade e fluxo da experiência. No livro Ensaios Dialógicos (Simão, 2010), mais uma vez novas referências de grande relevância aparecem, vinculadas à reflexividade hermenêutica do filósofo alemão Hans-Georg Gadamer (1900-2002) e à filosofia fenomeno- lógica da alteridade do francês nascido na Lituânia, em uma família judaica, Emmanuel Lévinas (1905-1995). Adicio- nalmente, no campo das proposições dialógicas em psico- logia, o psicólogo norueguês Ragnar Rommetveit (1924- 2017) e a psicóloga britânica nascida na República Tcheca, Ivana Marková (1938-) emergiram, no livro de 2010, como referências de primeira ordem. Retornar às referências fundamentais aqui listadas permite entender, dentre muitas coisas, que os fundamentos histórico-filosóficos das concepções teórico-metodológicas em psicologia supõem a articulação de um duplo ponto de vista sobre o conhecimento psicológico. 1) A compreensão dos processos histórico-culturais que articulam um conjun- to de experiências a ser tomado como de interesse reflexivo, nas elaborações das pesquisadoras e psicólogas, que, por sua vez, são sujeitos empíricos que se colocam a tarefa de construção de conhecimento sobre dada realidade significa- tiva para suas vidas e para a vida das pessoas com as quais 27 se relacionam. 2) Observar que as ferramentas conceituais que os sujeitos empíricos construtores de conhecimento dispõem para sua reflexão sobre os acontecimentos da vida concreta são vinculadas à tradição em que são formados. Ideias, costumes, histórias míticas, versões de fatos, refle- xões filosóficas que precedem o momento presente de uma dada pesquisa são trazidas ao diálogo atual, isto é, revisita- das e transformadas na direção de alguma compreensão que é, strictu sensu, futura. A articulação deste duplo ponto de vista—históri- co-cultural e filosófico—é relevante considerando que os fundamentos das concepções teórico-metodológicas em psicologia não se subordinam aos fatos ou dados empíricos, como pressuposto pelas epistemologias positivistas. O fato só existe a partir dos pressupostos conceituais, eles são fei- tos, ou construídos pela pesquisadora que pertence a uma determinada comunidade científica ou profissional, a uma dada comunidade de ofício. Na medida em que cada co- munidade de pesquisa e ofício habita e constrói um mundo de sentidos e significações, os conhecimentos construídos estão imbricados em interesses e pressupostos, que, sendo diversos, demandam também esforços de articulação em direções diversas por pesquisadoras e profissionais em seus processos de construção de conhecimentos e práticas. O conjunto de ideias e autores fundamentais apre- sentados aqui será revisitado ao longo do livro. Por ora, o fluxo textual segue apresentando reflexões cruciais publi- cadas entre 1982 e 2004. São produções precursoras do pe- ríodo de consolidação do CSC, reconhecível entre os anos de 2005 e 2008 e resultou nos Ensaios Dialógicos (Simão, 2010), obra nucleadora dos trabalhos mais recentes da área revisada, traduzida e publicada em inglês no ano de 2023. 28 Quando as coisas começaram A apresentação que se segue é resultado de um ma- peamento de todas as produções acadêmicas do CSC dis- poníveis em periódicos científicos e em livros até o ano de 2019. Por meio do mapeamento, houve a identificação de três momentos importantes de amadurecimento da perspec- tiva do CSC. O primeiro momento, de 1982 até 2004, foi um período em que ideias fundamentais começaram a ser es- boçadas, estabelecendo uma relação original entre autores e concepções psicofilosóficas, ao mesmo tempo em que demarcando um afastamento com posições antagônicas, tais como as perspectivas exclusivamente funcionalistas e mecanicistas em psicologia. Embora articulações presentes nos termos ‘construtivismo’, ‘semiótico’ e ‘cultural’ já esti- vessem presentes em textos anteriores, apenas em 2004 as publicações começaram a nomear, explicitamente, a pers- pectiva metodológica do CSC com contornos mais nítidos. O período entre os anos de 2005 e 2010, de con- formação da área, culminou com a produção da tese de Livre-Docência de Simão (2008) e a posterior publicação do livro Ensaios Dialógicos: compartilhamento e diferença nas relações eu-outro. O livro que trouxe o conteúdo da tese passou por uma revisão e tradução para língua inglesa e posterior publicação no exterior (Simão, 2023). Finalmente, entre 2010 e 2019 é possível observar uma expansão do CSC com aprofundamentos psicofilo- sóficos, especialmente quanto ao lugar que aí ocupam as noções de alteridade, temporalidade, aqui incluída a con- cepção hermenêutica de tradição, e experiência inquietante. Por experiência inquietante Simão (2015a; 2015b) não pro- 29 põe, necessariamente, que sejam eventos danosos ou con- siderados ruins para quem os experimenta, mas algo que surpreende. O que está em jogo é a ruptura da expectativa entre o que é, o que deve ser e o que poderia ser, sentida então como tensão e com potencial para engendrar trans- formações subjetivas e intersubjetivas. Tais noções, que já vinham sendo focalizadas desde antes, passaram a ser abor- dadas em um número crescente de trabalhos. No mesmo período é possível notar o crescente número de pesquisas que estabeleceram relações interdisciplinares com o campo das artes, da saúde e da antropologia, além da continuidade das relações com osrevisitadas. In Anais do V Congresso Norte-Nordeste de Psicologia (p. 1495). Ma- ceió, AL: CONPSI. Simão, L. M. (2008). Ernst E. Boesch’s holistic cultural psy- chology. In R. Diriwächter & J. Valsiner (Orgs.), Striv- ing for the whole: Creating theoretical syntheses (pp. 131–150). 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History and Theory, 19(2):169-185 ÍNDICE REMISSIVO A abstração 32, 48, 128 ação humana 35, 37, 47, 60, 65, 66, 89, 93, 148, 157, 159, 163, 166 ato 18, 76, 103 Achatz 62, 123, 149, 175 ações comunicativas 33, 35, 36, 37, 153 ações recíprocas 31, 32 acontecimento 21, 23, 151 acúmulo de informações 22 adaptação 47, 72, 113 afetividade 22, 34, 59, 128, 159 afetiva 24, 25, 34, 35, 39, 41, 48, 51, 153, 155 afetivamente 33, 38, 47, 120 afetivo-cognitiva 22, 81, 103 Agostinho 71 Albert 124, 175 Almeida 163, 176 alteridade 26, 28, 39, 40, 41, 42, 47, 48, 50, 51, 54, 57, 58, 60, 63, 65, 66, 68, 70, 72, 80, 81, 85, 99, 126, 129, 134, 145, 150, 155, 156, 158, 159, 160, 161, 162, 167, 172, 173, 174, 178, 182, 190 Alves 159, 175 amizade 20 Amorim 85, 175 antielementarista 47 antropologia 29, 145, 148, 149 Araújo 163 argumentação 35 assimetria 20, 32, 40, 47, 159 atividade ativo 25, 31, 36, 39, 40, 50, 148, 154, 163, 165 ativos 18, 91, 93, 170, 171 ator-ator-objeto 33 200 B Bakhtin 17, 18, 24, 45, 78, 80, 92, 113, 146, 156, 176, 182 Bajtin 93, 176 Baldwin 24, 25 baliza balizadores 20, 40 Barbalet 34 barreira 35, 140, 154, 159 Bastide 30, 176, 189 Bastien 124, 176 Bastos 119, 120, 123, 149, 176, 177, 182, 193 Benedito 62, 149, 175, 188 Berger 69, 77 Bergson 71, 147, 156, 159 Bettoi 20, 21, 22, 177, 193 bidirecional 24, 45 Boesch 17, 19, 24, 26, 33, 34, 36, 37, 41, 47, 51, 87, 89, 120, 127, 128, 129, 142, 148, 156, 157, 158, 160, 167, 173, 177, 189, 190, 191, 192, 193 Bomfim 89, 177 Branco 50 Brinkmann 96, 196 Bulcão 62, 91, 119, 177 Bussab 158, 159, 175, 179 C campo 10, 11, 12, 18, 19, 20, 21, 23, 24, 26, 29, 31, 32, 35, 37, 38, 41, 42, 43, 44, 45, 47, 48, 51, 52, 54, 60, 61, 63, 64, 65, 68, 69, 71, 72, 73, 80, 82, 83, 85, 86, 87, 88, 89, 90, 93, 96, 98, 99, 100, 101, 102, 103, 104, 109, 110, 111, 115, 117, 120, 122, 123, 124, 125, 128, 130, 131, 132, 137, 138, 139, 140, 141, 142, 145, 146, 149, 150, 157, 159, 160, 163, 165, 168, 170, 171, 172, 173, 174, 175, 183, 189, 195 campo-tema 124, 131, 132, 140, 141, 142 Canto 164, 177 Casa de Culturas Indígenas 168 ciência 12, 30, 44, 53, 55, 56, 68, 98, 99, 106, 109, 113, 115, 117, 119, 122, 126, 147, 149, 174, 179 ciências modernas 112, 116, 126, 148 coconstrução 201 coconstrutiva 22, 23 Coelho Júnior 37 coerência 21, 23, 49, 114 cognição 22, 87, 120, 167 cognitivo-afetiva 24 coletividade 11, 37, 67, 112 coletivo coletiva 11, 37, 67, 112 compartilhamento 28, 32, 46, 62, 63, 71, 75, 78, 81, 83, 86, 95, 161, 162, 191 compreensão 10, 12, 18, 19, 24, 26, 27, 30, 31, 32, 33, 34, 36, 37, 38, 41, 43, 44, 47, 50, 51, 54, 57, 59, 63, 65, 70, 71, 73, 80, 81, 82, 83, 84, 85, 86, 87, 91, 93, 97, 98, 100, 102, 110, 111, 114, 117, 122, 123, 126, 127, 130, 135, 140, 147, 149, 155, 158, 159, 161, 163, 164, 165, 166, 167, 169, 170, 174 comunicação 18, 24, 25, 70, 77, 78, 86, 95, 101, 136, 137 comunidade comunidades 27, 69, 101, 102, 104, 115, 118, 129, 163, 176 concretude concreto concreta 18 Congresso Norte Nordeste de Psicologia 17, 34 conhecimento 9, 11, 12, 17, 20, 21, 22, 23, 24, 26, 27, 30, 31, 35, 42, 43, 44, 45, 50, 51, 52, 53, 54, 58, 59, 60, 61, 63, 64, 70, 76, 79, 82, 83, 87, 88, 90, 92, 93, 97, 99, 100, 109, 110, 111, 112, 113, 114, 115, 116, 117, 118, 119, 120, 121, 122, 124, 125, 126, 127, 128, 130, 131, 133, 134, 135, 139, 141, 142, 147, 151, 152, 153, 157, 161, 162, 163, 166, 169, 170, 171, 173, 174, 186, 189, 190, 191, 193 consenso 78 construção de conhecimento 11, 12, 20, 21, 23, 26, 30, 31, 35, 42, 43, 49, 50, 51, 52, 53, 54, 63, 64, 79, 82, 88, 90, 97, 99, 115, 116, 117, 118, 124, 125, 130, 131, 133, 141, 153, 162, 170, 171, 173, 189, 190, 191, 193 construtivismo 17, 18, 24, 28, 39, 40, 109, 118, 144, 191 Construtivismo Semiótico-Cultural 9, 17, 40, 43, 92, 143, 160, 182 CSC 9 contemporaneidade 54, 55 contingência 98, 115, 139, 142 Cornejo 110, 147, 178 corporeidade 20, 40, 88, 128 corporal 42, 91, 120, 164 202 Cravo 91, 149, 188 crianças 20, 137, 176 criatividade criativamente criativo criativa 17 Crossley 64, 65, 66, 67, 79, 178 CSC 7, 9, 10, 11, 12, 13, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 27, 28, 29, 30, 32, 33, 34, 36, 37, 38, 39, 40, 41, 42, 43, 44, 45, 46, 47, 48, 49, 50, 51, 52, 56, 57, 61, 62, 64, 80, 82, 84, 85, 87, 89, 90, 92, 98, 101, 102, 105, 109, 110, 111, 114, 115, 116, 118, 121, 122, 124, 125, 129, 130, 132, 134, 137, 138, 139, 141, 142, 143, 144, 145, 146, 147, 148, 149, 150, 152, 155, 156, 157, 158, 160, 161, 162, 165, 166, 167, 169, 171, 172, 174 cultura 11, 20, 33, 36, 37, 54, 55, 60, 61, 78, 87, 88, 90, 97, 98, 101, 120, 126, 127, 148, 159, 160, 162, 164, 166, 169, 172, 190, 194 cultura profissional 20 Cyrus 20, 21, 22, 193 D del Río 86 Departamento de Psicologia Experimental 9, 156, 168 Descartes 71 Descola 168, 178 descontinuidade 38, 107 desenvolvimento 20, 24, 25, 26, 35, 38, 39, 40, 41, 42, 44, 47, 53, 60, 61, 62, 63, 64, 67, 73, 80, 82, 85, 95, 97, 99, 121, 122, 126, 141, 147, 155, 157, 165, 172, 174, 175, 179, 190 dialógico dialógicas 26, 45, 66, 110, 121, 122, 129, 134, 139, 141 diálogo 27, 29, 32, 33, 42, 44, 49, 52, 56, 58, 65, 67, 75, 77, 78, 86, 93, 95, 98, 101, 102, 106, 116, 119, 122, 123, 129, 131, 141, 145, 146, 148, 156, 158, 159, 162, 169, 171, 182, 189, 190, 194 Dilthey 117, 178, 185 discordância 35 discursos 52, 53, 56, 58, 88, 110, 124, 179 dispersão 44, 53, 111,170 distanciamento 18, 52, 81, 117, 118, 191, 194 diversidade 11, 23, 43, 44, 49, 51, 52, 53, 54, 56, 57, 58, 60, 77, 86, 90, 92, 95, 97, 100, 126, 132, 145, 150, 158, 159, 167, 171, 172, 174 diversa 203 diverso 17 dogmatismo 54, 121, 161, 162 Doria 118, 122, 177, 178, 179, 180, 184, 185, 195, 197 doutorado 11, 20, 31, 62, 118, 119, 122, 123, 137 Duarte 123 Duran 109, 110, 160, 179, 193 Duveen 38 E ecletismo 54, 121, 161, 162 eficácia ética 172, 174 emergência da novidade 32 emoção emocionais 19, 62, 69, 164 empírico 21, 86, 148 empíricos 26, 27, 99, 112, 119, 122, 123, 149 Engelmann 132, 179 Ensaios Dialógicos 26, 27, 28, 191 ensino 11, 20, 32, 121, 163, 176, 177, 186 epistêmico epistêmica 35 epistemologia epistemológico 11, 12, 21, 38, 53, 70, 113, 121, 130, 131, 143, 145, 149, 154, 158 Estabilidade estabilização 88, 165 estabilização 38 estético-afetivos 33, 153 estéticos esteticamente 48 estéticas 89, 91, 120 estético-afetivos 35, 38 estranheza 43 estrangeiro 59 estrutura 18, 25, 33, 90, 173 estruturação 33, 35, 47, 48, 58, 103, 142 estruturação da realidade 33 estudantes 7, 9, 10, 11, 12, 137, 162, 168 ética ético 11, 13, 42, 43, 53, 56, 77, 127, 130, 131, 143, 145, 150, 155, 157, 161, 162, 172, 191 204 eu-outro 24, 28, 35, 36, 37, 41, 43, 51, 52, 59, 60, 61, 70, 71, 77, 78, 79, 81, 83, 85, 86, 89, 90, 91, 94, 98, 118, 129, 133, 134, 135, 142, 156, 158, 159, 160, 161, 162, 164, 165, 166, 170, 171, 175, 191 eu-outro-mundo 41, 51, 52, 59, 61, 83, 89, 90, 91, 94, 98, 118, 129, 133, 134, 135, 142, 156, 158, 159, 164, 170, 171 evento 18, 20, 30, 40, 135, 138, 189 exercício profissional 10, 11, 22, 49, 62, 91, 99, 124, 157 profissional 10, 11, 22, 49, 62, 91, 99, 124, 157 existência universos existenciais existente 13 expectativa 29, 39, 74, 81, 138, 144, 155 experiência 24, 25, 26, 28, 31, 32, 36, 37, 38, 39, 41, 45, 46, 48, 51, 52, 54, 59, 60, 61, 63, 65, 66, 67, 69, 71, 72, 80, 81, 82, 83, 86, 88, 89, 91, 96, 101, 104, 105, 109, 114, 117, 118, 123, 130, 131, 132, 133, 134, 135, 138, 139, 145, 147, 148, 150, 155, 157, 159, 162, 163, 164, 165, 166, 167, 169, 172, 173 experiência inquietante 28, 39, 41, 51, 60, 80, 81, 86, 89, 131, 132, 145, 162, 167 expressão expressar 19, 171, 174 extensão universitária 11 extraverbal 43, 45, 90, 123 F familiaridade 43 FAPESP 7, 11 fatos fato 27, 43, 109, 111, 114 fenomenologia fenomenológica 26, 46, 64, 68, 69, 77, 80, 123 fenômeno-tema fenômenos-tema 23, 31, 60, 92, 103, 110, 124, 129, 131, 132, 162 fidedignidade 23 fidelidade 21 Figueiredo 44, 46, 48, 53, 54, 55, 56, 64, 65, 67, 68, 69, 70, 71, 72, 73, 74, 75, 76, 77, 78, 79, 80, 84, 109, 111, 112, 113, 117, 145, 148, 149, 169, 172, 178, 179 filosofia 9, 12, 25, 27, 82, 83, 99, 109, 111, 114, 122, 141, 145, 146, 156, 174 filosófica 9, 11, 12, 25, 49, 53, 54, 64, 65, 83, 86, 99, 100, 141, 143, 205 172, 180 Florsheim 90, 91, 121, 179 fluxo 26, 27, 89, 123, 128, 132 Fonseca 158, 159, 179 formação 11, 33, 37, 47, 59, 62, 88, 90, 114, 120, 123, 126, 146, 148, 157, 164, 168, 172, 177, 182 Freitas 91, 119, 120, 149, 180, 193, 197 Freud 37, 190 fronteira 22, 35, 40, 41, 77, 83, 86, 90, 97, 117, 122, 129, 140, 145, 146, 149, 154, 159, 163, 164, 173 funcionalistas 28, 38, 144 funcionalista 47, 146 futuridade 26, 30, 39 G Gadamer 26, 50, 63, 80, 100, 114, 117, 158, 167, 172, 180, 191 generalidade 21, 22 gênese 17, 18, 66, 79, 90 Gestalt 132, 133, 179 Gillespie 38, 65, 74, 75, 76, 79, 180 Glaveanu 120, 180 Gonzalez 62, 195 graduação 7, 9, 10, 162 H Habermas 35, 36, 37, 190 habitar habita 27 Heidegger 71, 72, 147, 167, 181 Herbst 41, 87, 181 Hermans 80, 181 hermenêutica 26, 28, 43, 44, 50, 52, 80, 89, 101, 110, 113, 121, 145, 150, 158, 167, 180 heterogeneidade heterogênea 17 hierárquico 25, 154 hipóteses 21 história 9, 12, 19, 26, 27, 46, 49, 55, 64, 65, 90, 99, 100, 110, 111, 112, 115, 116, 118, 121, 125, 126, 130, 141, 143, 146, 170, 172, 174 História e Filosofia da Psicologia 7, 44 histórico-biográfica 46 206 horizonte 11, 46, 60, 71, 88, 89, 101, 103, 127 Husserl 68, 70, 72, 147 I identidade 38, 39, 46, 49, 70, 137, 173, 176 idiográfico 43, 46, 100, 146 imaginação 67, 103, 110, 162 imaginário 67, 85 imprevisível imprevisibilidade 18, 152, 165 indígena 61, 101, 168, 172, 194 individual 22, 24, 41, 42, 73, 115, 138, 139, 147 inferência 46, 67, 105, 128, 136 Ingold 147, 168, 181 iniciação cientifica 10 inquietante experiência inquietante 28, 39, 41, 51, 60, 80, 81, 82, 86, 89, 131, 132, 145, 161, 162, 167 instituições 59, 90, 91, 119, 149, 157 Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo IPUSP 9, 156 instrumental 34, 47, 48, 51, 52, 115, 150, 167 interação 20, 23, 24, 32, 33, 35, 37, 70, 92, 93, 94, 95, 105, 107, 153, 173, 190 interacionais 22 interações verbais 20 interdisciplinar 10, 29, 122, 145, 149, 157, 158 interindividual 32, 35 interpessoal interpessoais 19, 26, 38, 58, 59, 161 intersubjetividade 63, 64, 65, 66, 67, 68, 69, 70, 72, 73, 74, 75, 76, 77, 78, 79, 80, 81, 82, 85, 86, 88, 125, 159, 160, 161, 162, 178 intersubjetiva 17, 63, 65, 66, 69, 74, 81, 119, 152, 161, 164 intraindividual 32 Ivinson 38 J James 24, 25, 26, 34, 39, 71, 143, 147, 156 Janet 17, 19, 24, 40, 190 Jensen 119, 181 207 K Kawaguchi 62, 122, 181 Kempen 80, 181 Kiki 90, 120, 181 Klempe 97, 98, 100, 147, 181, 195, 196 L Laboratório de Interação Verbal e Construção de Conhecimento LIVCC 9, 156 lacunas 46, 47, 78 Laskovski 62, 91, 123, 149, 182 Latour 168, 182 Leontiev 34 Lévinas 26, 64, 72, 76, 80, 136, 156, 161, 174, 178, 182 Lewin 24, 25, 26 Lima 102, 122, 182 linguagem 18, 43, 45, 67, 75, 78, 79, 80, 88, 93, 97, 137, 146, 163, 174, 195 Lívia Mathias Simão Simão 1, 5, 12, 13, 37, 49, 144 longitudinal 134, 137 Lopes 119, 121, 149, 182 Luckmann 69, 77 M Malfitano 124, 125, 183 Marková 26, 65, 75, 76, 77, 78, 80, 85, 86, 93, 94, 95, 110, 114, 128, 129, 142, 150, 156, 167, 183 Marques 124, 125, 183 Marsico 90, 119, 121, 140, 183, 185, 188, 192, 193 Martínez 41, 179, 190 Massimi 112, 183 matrizes do pensamento psicológico 44, 48, 53, 113, 145, 146, 149 Mead 17, 19, 24, 68, 69, 70, 72, 73, 75, 76 mediação mediada 38, 70 Merleau-Ponty 70, 72, 75, 147, 156 mestrado 11, 62, 118, 119, 121, 122, 123, 164 meta 22, 25, 33, 34, 35, 38, 110, 148, 154, 156, 158, 159, 196 metapsicológicas 52, 91 208 meta-teoria 22, 25 meta-teórica 38, 110, 148, 156 metodologia 9, 22, 46, 153, 156, 157, 197 metodológicas 21, 26, 27, 44, 52, 54, 64, 65, 99, 100, 111, 115, 116, 118, 125, 130, 135, 137, 138, 139, 141, 145, 146, 150, 152, 156, 158, 171, 172, 193 microgênese 136 Miranda 90, 91, 119, 149, 183, 184 mito míticas 27, 122 mitos 103, 118 modelos 21, 109, 159 modernidade 53, 55, 113 Molina 86, 194 Morais 91, 122, 140, 149, 184 Moreira 123, 183, 184 Moretti 122 motivação 34 Moura 91, 122, 184 multiplicação dialógica 101, 123, 149, 182 multiplicidade 22, 56, 58, 59, 89, 104, 117, 121, 128, 140, 160 mundo 9, 13, 18, 19, 21, 22, 26, 27, 33, 35, 37, 39, 41, 43, 46, 48, 50, 51, 52, 54, 56, 57, 58, 59, 60, 61, 62, 64, 65, 66, 71, 73, 74, 77, 78, 79, 80, 83, 84, 85, 87, 88, 89, 90, 91, 93, 94, 98, 100, 101, 102, 104, 105, 109, 112, 117, 118, 120, 121, 122, 124, 126, 129, 132, 133, 134, 135, 136, 141, 142, 147, 148, 150, 151, 153, 154, 156, 157, 158, 159, 160, 163, 164, 165, 166, 167, 168, 170, 171, 172, 173 mundo da vida 13, 26, 46, 105, 122 N nebulosidade 40 Nedergaard 119, 184, 193 Nigro 90, 122, 149, 184, 185 nomotética 46, 122, 146 O objetivista 21 objetivo-instrumental 47, 51, 150, 167 Olivares 110, 147, 178 Oliveira 20, 21, 22, 175, 193, 194 ôntico 13 209 ontologia ontológico 11, 53, 56, 97, 130, 131, 143, 145, 150, 158, 167, 171 opacidade 20, 40, 67 operadores semióticos 38, 40, 154 orthogenético 25 outridade 9, 43, 49, 50, 51, 57, 62, 71, 74, 87, 88, 89, 90, 92, 98,102, 104, 115, 119, 130, 134, 139, 141, 142, 145, 147, 148, 157, 167, 170, 171 P Parsons 34 participação observante 31, 124, 125 participantes 21, 22, 23, 31, 32, 35, 45, 46, 57, 63, 78, 88, 89, 99, 102, 105, 107, 127, 137, 138, 140, 142, 151, 153, 154 Partridge 55, 185 Pedrosa 85, 175 pensamento 18, 44, 48, 53, 68, 69, 77, 82, 93, 95, 97, 101, 103, 112, 113, 121, 136, 144, 145, 146, 149, 168, 178, 179 percepção 11, 48, 59, 60, 67, 71, 90, 93, 103, 129, 136, 163 permanência do ausente 43 perspectiva 9, 10, 12, 17, 22, 23, 24, 25, 28, 37, 45, 47, 57, 58, 67, 68, 71, 76, 77, 89, 92, 93, 95, 97, 98, 101, 102, 103, 104, 110, 121, 129, 144, 145, 148, 152, 156, 164, 165, 170, 189, 195 pertencimento 21, 87, 160 pesquisa 10, 11, 12, 20, 21, 22, 23, 27, 30, 31, 32, 43, 45, 46, 48, 49, 50, 51, 52, 57, 59, 60, 62, 84, 85, 91, 92, 99, 100, 102, 103, 106, 114, 118, 119, 121, 122, 123, 124, 125, 126, 127, 129, 130, 131, 132, 133, 134, 135, 136, 138, 139, 140, 141, 142, 143, 144, 145, 146, 149, 150, 151, 153, 154, 156, 157, 158, 171, 172, 183, 193 pesquisa-ação 31, 51, 122 pesquisador 20, 22, 24, 30, 31, 32, 43, 44, 45, 46, 48, 50, 51, 62, 71, 82, 83, 85, 97, 110, 119, 120, 123, 124, 125, 128, 131, 137, 138, 139, 143, 151, 153, 170, 189 pesquisadora 20, 22, 24, 30, 31, 32, 43, 44, 45, 46, 48, 50, 51, 62, 71, 82, 83, 85, 97, 110, 119, 120, 123, 124, 125, 128, 131, 137, 138, 139, 143, 151, 153, 170, 189 pesquisador-participante 30, 31, 32, 46, 50, 51, 119 pesquisadora-participante 32, 60, 130, 133, 151, 162 pessoa atendida 22 pessoas 9, 11, 21, 22, 26, 37, 38, 41, 43, 50, 55, 56, 58, 59, 60, 62, 82, 83, 84, 87, 89, 91, 94, 95, 96, 98, 100, 101, 102, 103, 109, 110, 117, 210 118, 120, 126, 127, 134, 137, 139, 140, 142, 147, 148, 150, 154, 157, 163, 164, 166, 167, 169, 170, 172, 183 Piaget 17, 18, 19, 24, 26, 37, 190 plausibilidade 21, 23, 43, 132 Pontes 119, 185 pós-doutorado 11, 62 práticas 27, 30, 48, 52, 53, 56, 58, 87, 88, 90, 106, 114, 168, 169, 171, 174, 179 precisão 21, 23 preconcepção 63 predicado 22, 97, 152 procedimentos de pesquisa 21 processo 10, 11, 18, 23, 24, 25, 31, 32, 35, 36, 37, 40, 41, 43, 45, 46, 47, 48, 49, 50, 52, 54, 58, 59, 60, 61, 66, 72, 74, 75, 78, 80, 82, 87, 89, 90, 91, 92, 94, 95, 99, 101, 104, 105, 110, 112, 114, 115, 116, 117, 118, 119, 120, 122, 125, 128, 129, 130, 131, 132, 133, 134, 135, 136, 137, 138, 139, 140, 141, 142, 144, 148, 149, 151, 153, 155, 157, 159, 162, 163, 164, 165, 166, 167, 170, 172, 173, 174 professor-aluno 32, 33, 59 Psaltis 38 psicofilosóficas 28, 144 psicologia 9, 10, 11, 12, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28, 31, 34, 38, 39, 40, 44, 47, 48, 49, 50, 51, 52, 53, 54, 55, 56, 57, 58, 61, 62, 64, 65, 69, 80, 82, 83, 84, 88, 89, 90, 91, 92, 94, 96, 97, 98, 99, 100, 101, 102, 109, 111, 112, 113, 114, 116, 117, 118, 120, 121, 122, 125, 126, 128, 129, 130, 137, 143, 144, 145, 146, 148, 149, 150, 155, 156, 157, 158, 160, 161, 162, 163, 167, 168, 169, 171, 172, 173, 174, 175, 176, 178, 179, 188, 190, 195 psicologia cultural 19, 34, 50, 56, 65, 96, 97, 122, 128, 157, 158, 160, 161, 188, 195 público 19 Q qualitativa 24, 44, 49 Quintero Weir 101, 185 R racionalidade 39, 48, 52, 115, 190 Rasmussen 102, 185 Raudsepp 97, 185 realidade externa 21, 23, 38 211 realidade externa objetiva 23 reconstrução 24, 89, 166 reconstruído 23 reconstrutiva reconstruído 24, 89, 166 recursos simbólicos 38, 130 Rede de Atenção à Pessoa Indígena 168, 175 Rede Indígena 168, 169 reflexividade 13, 26, 47, 48, 52, 61, 62, 64, 83, 91, 99, 100, 101, 106, 134, 138, 139, 141, 142, 152 refração 131, 132, 133 regulação 35, 153 relação inclusiva 45, 46, 74 relação social 31 relato relatado 31 relevância social 22, 131, 132 representações 20, 37, 148, 183 ritos 103, 106, 112 Rommetveit 26, 36, 63, 75, 114, 156, 186 rupturas 32, 38, 63, 72, 105, 114, 121, 161 S Sampaio 62, 85, 90, 91, 119, 120, 122, 149, 186, 194 Sánchez 120, 186 Scheler 70 Schutz 64, 77 self 26, 35, 38, 41, 76, 78, 80, 183, 188, 191, 193, 194, 195 semiótica semiose 39 semiótico 18, 87, 89, 96, 128 sentidos 9, 10, 24, 25, 27, 41, 46, 48, 57, 58, 63, 70, 104, 105, 125, 139, 141, 148, 153, 157, 162, 164, 167, 170, 191 Shills 34 significado 9, 59 significados 9, 10, 20, 24, 25, 31, 33, 35, 42, 46, 58, 66, 69, 77, 90, 104, 105, 127, 148, 153, 162, 163, 164, 170 Silva Guimarães 1, 5, 13, 61, 62, 85, 90, 91, 102, 119, 120, 121, 122, 123, 126, 133, 143, 148, 149, 160, 161, 162, 163, 164, 165, 175, 176, 177, 181, 184, 185, 186, 187, 188, 189, 194, 195 simbólico 33, 68 212 simbolizador 36 simbólico-emocional 33 singularidade 11 sistemas 11, 18, 43, 44, 52, 53, 54, 66, 69, 82, 84, 87, 88, 94, 95, 97, 100, 111, 112, 113, 121, 122, 126, 128, 148, 149, 150, 161, 166, 169 situação de pesquisa 22 Smedslund 111, 114, 195 Simão 1, 5, 12, 13, 17, 20, 21, 22, 24, 25, 26, 27, 28, 30, 31, 32, 33, 34, 35, 36, 37, 38, 39, 40, 41, 42, 43, 44, 45, 46, 47, 49, 52, 60, 62, 63, 80, 81, 83, 85, 86, 87, 90, 91, 92, 95, 96, 98, 102, 117, 118, 119, 120, 121, 122, 123, 126, 130, 132, 133, 140, 142, 143, 144, 145, 148, 149, 150, 152, 156, 157, 158, 159, 160, 161, 162, 163, 164, 165, 167, 175, 177, 178, 179, 180, 181, 182, 184, 185, 186, 188, 189, 190, 191, 192, 193, 194, 195, 196, 197 social 18, 19, 22, 25, 31, 60, 61, 64, 65, 77, 80, 86, 90, 93, 95, 100, 106, 109, 110, 113, 115, 123, 124, 126, 128, 131, 132, 159, 164, 165, 183, 189, 195, 196 socialização 24 sociocultural 22, 24, 43, 61, 90, 113, 125, 131, 141, 143, 174, 197 Sousa 62, 90, 123, 149, 175, 195 Souza 37, 41, 175, 190, 191 Spink 124, 131, 195 subjetivação 20, 40, 55, 56, 155, 174, 179 subjetividade 20, 39, 40, 41, 60, 63, 64, 65, 66, 67, 70, 72, 73, 77, 78, 80, 81, 86, 112, 152, 161 subjetivo-funcional 47, 150, 167 sujeito da pesquisa 22 sujeitos-atores 23 T Tardivo 165, 195 temporalidade 9, 11, 23, 28, 43, 85, 88, 89, 96, 100, 102, 104, 105, 110, 134, 142, 145, 147, 149, 151, 153, 156, 186 tensão tensionamentos 11, 20, 29, 39, 40, 47, 54, 60, 61, 72, 78, 81, 82, 121, 125, 132, 133, 140, 142, 155, 158, 162, 164, 165 teoria 9, 22, 82, 159, 197 Toomela 170, 195 totalidade 45, 46, 47, 74, 133, 141, 163, 165, 182 tradição 20, 27, 28, 30, 40, 56, 58, 61, 68, 71, 84, 87, 88, 89, 91, 94, 98, 100, 113, 114, 116, 120, 126, 128, 129, 130, 131, 132, 140, 145, 213 147, 148, 152, 155, 156, 167, 172, 173 trajetória de vida 18, 64 transformação 18, 25, 41, 42, 50, 52, 60, 61, 62, 63, 81, 98, 110, 147, 159, 160, 163, 165, 170 transição 38, 53 transversal 135, 137, 140 trocas 9, 87, 103, 134, 147, 167, 173 U unidade de análise 45, 76, 102, 123, 133 unidade dialógica 45, 133 universalidade 38, 52, 170 V validade 13, 37 valores 33, 35, 38, 55, 56, 85, 100, 115, 153 Valsiner 17, 19, 24, 36, 45, 47, 50, 51, 86, 90, 96, 97, 111, 112, 114, 115, 119, 126, 128, 129, 142, 146, 148, 149, 156, 158, 160, 178, 181, 182, 185, 188, 191, 192, 193, 194, 195, 196 van der Veer 111, 146, 196, 197 van Loon 80, 181 Vasconcellos 119, 196 Vedeler 71, 111, 147, 196 vestígio 137 Viveiros de Castro 102, 168, 196 Vygotsky 17, 18, 19, 75, 97, 114, 117, 179, 197 W Wagoner 90, 183, 187, 197 Weber 34 Werner 24, 25 Wertsch 24, 143, 197 Windelband 117, 185, 197 Wittgenstein 75 Z Zittoun 38 Sobre os autores: Danilo Silva Guimarães é indígena de ancestralidade Tikmũ’ũn (Maxakali). Psicólogo (CRP 06/95800), mestre e doutor pelo Programa de Pós-Graduação Psicologia Experimental e livre-docente na área de História e Filosofia da Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Coordena o serviço Rede de Atenção à Pessoa Indígena, que abriga a Casa de Culturas Indígenas da USP. Suas pesquisas e publicações se situam no âmbito das psicologias culturais, dialógicas e indígenas, em relação as quais é proponente da noção de Multiplicação Dialógica. No ano de 2020 publicou o livro DialogicalMultiplication: Principles for an Indigenous Psychology, pela editora Springer. O livro foi traduzido e publicado na língua alemã em 2023. Lívia Mathias Simão é Psicóloga (CRP 06/4487), Mestre, Doutora e Livre-Docente pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, onde atuou, em regime de dedicação exclusiva à docência e pesquisa, de 1987 a 2018. Desde então continua atuando como Professora Colaboradora Senior do mesmo Instituto. Fundou, em 1992, o Laboratório de Interação Verbal e Construção de Conhecimento do (LIVCC- IPUSP). Suas pesquisas e publicações, desde a perspectiva do Construtivismo Semiótico-Cultural em Psicologia (CSC) dizem respeito à compreensão de processos subjetivos contextualmente situados, reflexões sobre implicações éticas desses processos e filiação histórico-filosófica do próprio CSC. É proponente da noção de Experiência Inquietante, no contexto do CSC. Este livro é fruto de uma parceria de mais de 20 anos entre seus autores, dedicada à construção e aprofundamento do construtivismo semiótico-cultural em psicologia.campos filosóficos que estiveram pre- sentes desde os primórdios do CSC . Delineados os três períodos que caracterizam a tra- jetória do CSC, optamos por iniciar o estudo do primeiro período, para o qual foram selecionadas todas as produções acadêmicas da pesquisadora proponente do CSC, publica- das na forma de artigos em periódicos, capítulos de livro e apresentações orais em congressos entre 1984 e 2004. Ao todo, foram 16 produções selecionadas para análise. O ma- terial foi integralmente revisado, com a montagem de um protocolo de análise, a partir do qual foram identificados temas, antinomias, conceitos emergentes, o diálogo estabe- lecido com autores que estão na base dos principais funda- mentos dos conceitos identificados e questões anunciadas que se desdobraram em reflexões que vieram a ser elabora- das em publicações posteriores. Preocupações e ideias precursoras no engendramento do CSC As primeiras ideias que apontam na direção do que, 30 posteriormente, veio a ser nomeado como CSC, foram en- contradas no trabalho apresentado por Simão no 4o Semi- nário de Cultura Brasileira, que aconteceu na FFLCH/USP em 1984, com o tema ‘Revisitando a terra de contrastes: a atualidade de Roger Bastide’. O trabalho foi publicado em 1986 numa espécie de anais do evento. Na ocasião, Si- mão focalizou diferenças culturais a respeito de processos de construção de conhecimento, a partir da leitura da obra do antropólogo francês Roger Bastide, com foco no texto La Connaissance de L’Evenement de 1968. Simão (1986) fez uma disscussão comparada entre o endereçamento das preocupações científicas em busca de uma compreensão causal dos fenômenos visado pela tradição ocidental mo- derna e os processos divinatórios de construção de conheci- mento, presentes, por exemplo, nas práticas de matriz afro- -brasileira relacionadas ao Ifá, jogo de búzios, por vezes referido como uma ciência da adivinhação. Aproximações e afastamentos entre dois tipos de conhecimento do evento, na pesquisa acadêmico-científica e na chamada ciência da adivinhação, indicam que, ambas as ciências se aproximam em relação a certas características e preocupações com a futuridade, por exemplo, e dependem da relação dialógi- ca pesquisador-participante ou adivinho-consulente, para serem construídas. A questão em foco pela pesquisadora, naquele momento, e que tem ressonância no CSC até hoje, é a questão do conhecimento do evento tomada a partir do trabalho de Bastide (1968), explicitando a condição cultu- ral de qualquer conhecimento, seja ele científico ou divina- tório. O segundo trabalho articulado na série das preo- cupações e ideias precursoras do CSC é um artigo publi- cado no periódico brasileiro Ciência e Cultura, no ano de 31 1989, refletindo aspectos da pesquisa que resultou da tese de doutorado de Simão. O texto focaliza a relação pesqui- sador-participante refletindo sobre o processo de constru- ção de conhecimento como resultado de ações recíprocas entre os sujeitos em relação. Propõe uma distinção entre 1) o fenômeno tal como relatado pelos participantes; 2) os indicadores explícitos a respeito de condições dispostas pelo pesquisador e pelo participante; e 3) o processo não relatável, que somente poderia ser inferido por aqueles que se dispõem a construir relações de sentido sobre as expe- riências objetivadas nos fragmentos selecionados e relata- dos pelo participante com base em sua experiência sobre o fenômeno-tema que é foco da pesquisa. A pesquisa é enten- dida como um modo de relação social planejada. O artigo discute que o conhecimento que se constrói nas relações sociais comunicativas diz respeito àquilo que é vivenciado na experiência ativa dos participantes, e pode ser analisado e interpretado em busca de significados que variam e distin- guem as trajetórias do pesquisador e do participante da pes- quisa. O pesquisador é entendido como alguém que produz transformações no que é relatado pelo participante ao bus- car estabelecer relações generalizantes. Ao comunicar suas reflexões ao participante durante o processo de pesquisa, o pesquisador também pode atender a demandas importantes dele. De modo que a pesquisa pode cumprir um papel ati- vo em alinhamento com as demandas do campo social em que está situada, algo que se popularizou sob o rótulo de pesquisa-ação e participação observante, enquanto metodo- logias de pesquisa. Decorre disso uma dimensão relevante da pesquisa em psicologia, que não se limita à produção de uma representação que replica o fenômeno, mas produz transformações significativas na compreensão daquele fe- 32 nômeno no curso do diálogo, para ambas as partes, tanto o pesquisador quanto o participante da pesquisa. Outro artigo que fez parte da gestação do CSC foi publicado no periódico Psicologia Teoria & Pesquisa, em 1992, por Simão. Também focalizou a relação ativa pesqui- sador-participante, contudo, aprofundando a compreensão da relação entre processos particulares de interação e o in- teresse generalizante da pesquisadora. Há, desde o ponto de vista sistematizado nessa produção, a compreensão da assimetria entre os participantes de uma interação, que, ao coordenarem suas ações, se transformam. O artigo enfatiza a relevância de se abordar a heterogeneidade interindivi- dual e intraindividual no processo da pesquisa, entendida como um contexto de interações sociais. A abstração em- preendida pela pesquisadora, por meio dos processos in- ferenciais, é parte da relação pesquisadora-participante da pesquisa com a finalidade de ampliar os limites de entendi- mento da experiência situada. No ano de 1996, Simão e Takechi Sato, então do- cente do Instituto de Psicologia da USP, com pesquisas na área de comportamento animal e teoria da informação, apresentaram um artigo no XXVI International Congress of Psychology, em Montreal no Canadá, no qual abordam as trajetórias interativas na interação professor-aluno, com centralidade em como se dá a constituição de um campo compartilhado para a realização de tarefas conjuntas. O objeto focalizado, no caso dessa pesquisa, era o ensino de matemática. Do compartilhamento à emergência da novi- dade, observaram a presença de rupturas e tentativas de adequação em relação às concepções que cada participante tem de objetos referidos na relação, chegando a um duplo direcionamento de ações recíprocas: de um lado as ações 33 dirigidas ao contexto interativo e às ações de outrem, de ou- tro lado, as ações dirigidas ao próprio objeto tematizado nas ações comunicativas recíprocas emergentes na relação pro- fessor-aluno. Uma proposição importante que emerge deste trabalho é que cada ator age sobre a ação do outro. A ação de cada um visa não somente pode provocar alterações em uma dada situação externa de que os atores fazem parte, ou provocar alterações no objeto que ambos focam, mas que a ação de cada um também visa provocar alterações e trans- formações na ação do outro. Importante notar a ênfase na triangulação ator-ator-objeto do diálogo, nessa publicação. De 1998 foi destacado um artigo de Simão, publica- do no periódico Cadernos de Psicologia, que traz uma refle- xão sobre a condição simbólico-emocional do sujeito epis- têmico, que orienta suas ações segundo valores subjetivos. Tais valores envolvem a formação da meta, a avaliação de condições de encaixe subjetivo-objetivo levando em conta procedimentos que o sujeito lança mão para consumação de suas ações em contextos socioculturais concretos. As ações concretas não são apenas instrumentais, mas também se articulam aos valores estético-afetivos de quem se dispõe a realizá-las, expressam uma visão de mundo. Assim, as estruturas materiais e sociais do mundo concreto dialogam com processos individuais de estruturação da realidade, sendo o mundo objetivo construído pela pessoa preenchido de significados que se vinculam à dinâmica da interação pessoa-cultura. Importante atentar-se para a compreen- são de que a meta é entendida,aqui, como afetivamente orientada, enquanto a execução da ação é entendida como emocional e cognitivamente elaborada, pensada. Como percurso basilar para o CSC em gestação, o artigo salien- ta a interlocução com o psicólogo cultural Ernst Boesch, 34 um dos pioneiros da psicologia cultural contemporânea. A partir dessa interlocução e da ligação do psicólogo cultural com a psicologia de William James, Simão (1998) cons- trói uma articulação com uma psicologia da ação que vinha sendo foco do interesse desde estudos preliminares. A ar- ticulação entre psicologia cultural e psicologia da ação no CSC se desdobra por meio da psicologia de William James, pela via de seu funcionalismo fenomenológico, articulado as proposições de Ernst Boesch. No ano seguinte, uma conferência de Simão (1999) publicada nos anais do I Congresso Norte Nordeste de Psicologia, realizado em Salvador, Bahia, aprofundou a compreensão da determinação afetiva da meta da ação, que integra e preenchendo uma lacuna quanto a concep- ções presentes em trabalhos anteriores, nos quais a meta era dada, ou seja, não se discutia de onde emergia. Seguindo na pista da herança Jamesiana em Boesch e através das re- ferências ao sociólogo australiano Barbalet, encontra uma solução para o que havia buscado resposta. As teorias da atividade de Leontiev e Weber, anteriormente buscadas por Simão, focalizavam, sobremaneira, o papel instrumental da ação. A questão da centralidade da afetividade na definição da meta da ação, por sua vez, havia sido acenada quando a autora recorreu à obra de Parsons e Shills, dois sociólogos estadunidenses proponentes de uma importante teoria da ação que enfatiza a relação da meta com a motivação da pessoa. Esse caminho, contudo, não aprofundava suficien- temente, a compreensão da determinação afetiva que vinha sendo buscada pela autora. Seguindo , então, em sua bus- ca por referências consistentes a esse respeito, e desta vez com mais sucesso, Simão faz uma aproximação operando uma discussão comparativa entre as ideias de Boesch e do 35 filósofo alemão Habermas, sobre a qual retoma no o pró- ximo trabalho, apresentado no ano 2000. Ainda, no texto de 1999, a relação eu-mundo e eu-outro é entendida como marcada por continuas regulações afetivas que articulam valores estéticos e morais na estruturação objetivo-subje- tiva que cada pessoa constrói da realidade concretamente vivida. Nesse processo, as identidades pessoais e culturais se tornam mais evidentes, na medida em que, para alcan- çar uma meta visada, uma pessoa em particular precisa, na maior parte das vezes, coordenar e construir possibilidades de cooperação em âmbito coletivo. As ações comunicativas têm um papel central viabilizando a negociação de signifi- cados a partir das expressões de concordância e discordân- cia, argumentação e contra-argumentação, dirigidas pelos participantes da interação uns aos outros. Na 3rd Conference for Sociocultural Research, que aconteceu em Campinas, no estado de São Paulo, Simão (2000), tomou como ponto central a necessidade de se co- nhecer o outro no processo de desenvolvimento humano e construção de conhecimento. O self foi tomado em sua dimensão epistêmica, como conhecedor em um campo cul- tural estruturado e aberto a transformações pela ação huma- na. Novamente, o aspecto da regulação afetiva da interação aparece como sendo necessária à coordenação de objetivos visados pelos participantes em uma coordenação interin- dividual. Algumas metas permanecem pré-reflexivas e as ações podem se diversificar temporária ou permanentemen- te a partir do curso dos acontecimentos. No desenvolvi- mento humano, o outro aparece ora como barreira em uma relação de coautoria, ora como fronteira, em uma relação de interlocução e colaboração com objetivos pré-definidos por uma pessoa. As noções de barreira e fronteira foram ar- 36 ticuladas a partir da obra de Boesch (1991). Aqui também é importante o fato de que a ação comunicativa vai ser incor- porada na agenda do CSC, por assim dizer, dado que a rela- ção eu-outro implica ações comunicativas, embora não só; daí a aproximação da área com concepções de Habermas. No ano seguinte (Simão, 2001a) publicou um ar- tigo no periódico Culture & Psychology, no qual refletiu sobre a concepção de cultura como sistema, o sujeito como simbolizador ativo e os objetos como polivalentes, ideias tomadas de Boesch (1991). Em sua interpretação da Teoria da Ação Simbólica de Boesch, Simão trouxe para o CSC a irredutibilidade e, ao mesmo tempo, indissociabilidade da tríade ação, sujeito, objeto, ainda que nomeiem dimensões distintas da experiência psicológica. Ao mesmo tempo, sujeito e outro se constroem de forma interdependente a partir de uma ilusão fundada na crença na similaridade en- tre mundos fenomenológicos (atitude natural), aspecto este que traz de Valsiner (2000) e que retomará em trabalhos futuros, dialogando com Rommetveit (Simão, 2010, 2023). Nessa articulação, a proposição da concepção boeschiana de outro como objeto, isto é, do outro em seu simbolis- mo para outrem, possibilita um processo de diferenciação eu-outro. Eu e outro como diferentes partes de um siste- ma mutuamente constituído se diferenciam, embora man- tenham expectativas de concordância. As experiências de falha na compreensão mútua e de conflito nas interações humanas mediadas por zonas culturalmente estruturadas participam da avaliação subjetiva das possibilidades e dos limites para se alcançar certos objetivos no curso da vida. Ainda no ano de 2001, o trabalho apresentado no 28o Congresso Interamericano de Psicologia, em Santia- go, Chile, Simão (2001b) focaliza o papel da ação comu- 37 nicativa enquanto atividade semiótica que permite mediar conflitos na relação eu-outro e estabelecer algum equilíbrio provisório, baseado na formação de laços para o delinea- mento de percursos culturalmente pertinentes das pessoas em interação. As ações comunicativas fazem confrontar ob- jetivos individuais, mundos próprios representados e repre- sentações coletivas com a dupla intenção de compreensão e influência de uns sobre os outros. Saber o que o outro pensa, familiarizar-se e aumentar a transparência atendem à urgência de viver em um mundo consoante com o ou- tro, propiciando, inclusive, a construção de uma base para a ação comum. Neste processo, distintas visões de mundo são confrontadas. Questões como a da validade das ações comunicativas para os atores sociais foram tematizadas e incluídas na perspectiva do CSC, especialmente através da reflexão sobre a noção de ação em Habermas e Boesch. Em 2002 um livro foi organizado pelos professores Maria Tereza Souza, Nelson Coelho Júnior e Lívia Mathias Simão sobre a noção de objeto e a concepção de sujeito em Freud, Piaget e Boesch. Nele, Simão (2002) discutiu concepções ontológicas emergentes no CSC, a partir da teoria da ação simbólica de Boesch (1991). Primeiro, a compreensão de que a cultura não pode ser pensada como uma variável independente das pessoas, mas como campo regulador de ação, do qual a pessoa participa ativamente. Desse modo, há uma interdependência entre as estrutura- ções objetiva e subjetiva que as pessoas fazem dos elemen- tos presentes em seu campo regulador de ação, constituindo mundos fenomenológicos que julgam mais ou menos com- partilhados com os outros. Embora as pessoas costumem ter uma experiência dualista que distingue o mundo físico do psicológico, a ação humana demanda uma integração 38 entre essas dimensões, bem como articula passado e pre- sente, assegurando a identidade do sujeito. A estabilização do self é necessária no curso de uma ação orientada por uma meta afetivamente constituída. O capítulo discute que o sujeito epistemológico é afetivo-cognitivo, fundado na ação simbólica. Trata-se de uma proposição/afirmação on- tológica sobre quem é o sujeito psicológico que conhece, fazendo com que o CSC seja uma proposta meta-teórica também. Surgea necessidade de compreender a universa- lidade das diferenças de sentido das ações simbólicas num campo regulador que configura trajetórias possíveis para as pessoas, estabelecendo uma relação com as ciências idio- gráficas, afastando-se de abordagens estritamente funcio- nalistas e organicistas em psicologia. A realidade externa é subjetivamente mediada segundo valores estéticos cultural- mente diversos em oposição à unidade de um juízo moral padronizado. As diferenças interpessoais, por sua vez, são fontes de conflitos que demandam ultrapassagens nas inte- rações humanas ao longo da vida. No ano de 2003, três produções relevantes para o CSC foram destacadas, conforme o que se segue. O artigo Beside rupture--Disquiet; Beyond the other--Alterity, publicado no períodico Culture & Psy- chology, traz comentários ao artigo de pesquisadores da Universidade de Cambridge (Reino Unido) Tania Zittoun, Gerard Duveen, Alex Gillespie, Gabrielle Ivinson e Charis Psaltis, sobre o uso de recursos simbólicos em processos de transição no desenvolvimento humano. Simão (2003b) aprofunda a compreensão dos operadores semióticos como recursos simbólicos que atuam em situações de ruptura ou descontinuidade nas experiências ordinárias. Emerge a compreensão de que as rupturas produzem uma experiên- 39 cia afetiva inquietante como decorrência dos excedentes de significado característicos das relações de alteridade. O enfoque é a construção ontológica da subjetividade hu- mana na qual se faz presente uma lacuna entre expectativa e experiência. A experiência da lacuna gera desconforto e angústia demandando uma reorganização do significado da experiência de modo a produzir encaixes e conforma- ção com redução de tensão. A relação de alteridade é uma oportunidade de experimentar o diverso aproximando a re- flexão sobre questões éticas, ao tratar da possibilidade de reconhecer a própria identidade e legitimar o outro como diferente. Enquanto sujeitos corpóreos as assimetrias entre eu e outro são inevitáveis e demandam transições de modo a reaproximar a experiência da expectativa. Tais processos regulatórios são contínuos gerando reflexões e produção de novas perspectivas, que incluem a possibilidade de olhar para si como outro. Neste texto aparece pela primeira vez no CSC a menção à experiência inquietante, já articulada à questão da alteridade e de uma questão anteriormente abor- dada, relativa à futuridade desde William James. No III Congresso Norte-Nordeste de Psicologia que aconteceu em João Pessoa/PB, foram apresentados dois tra- balhos, sendo um deles um artigo intitulado ‘afeto e racio- nalidade na ação: considerações semiótico-construtivistas’. Nele, Simão torna pública, pela primeira vez, a noção de construtivismo semiótico, com uma concepção de semiose ligada ao dialogismo teórico-metodológico. Modelos orga- nicistas e mecanicistas em psicologia, baseados em concep- ções atomistas voltadas para comportamentos isolados ou desenvolvimento de habilidades foram rejeitados. Em seu lugar, a autora enfatizou a condição reflexiva humana que aponta para a ideia de sujeito ativo que age no mundo de 40 forma propositiva. Na formulação das metas da ação es- taria em foco uma base emocional diante da incerteza do futuro. Cabe ao sujeito, então, lançar mão de operadores semióticos para se guiar seletivamente na fronteira entre presente e futuro. Neste artigo está proposto que a noção de ação simbólica resolve a questão da dicotomia afeto-razão e, ao fazê-lo, também supõe, enquanto reflexão ontológica, um sujeito que, por ser ativo, cria condições para seu pró- prio desenvolvimento, embora não o possa fazer isolada- mente de outrem. O outro artigo apresentado no congresso foi ‘Sociogênese e alteridade em Pierre Janet’. Nele, Simão apresentou, uma definição de Construtivismo Semiótico- -Cultural mais assemelhada à que utilizamos hoje e que apresentamos no início desse capítulo. O texto focalizou o processo intersubjetivo de construção da subjetividade no qual as noções de corporeidade, assimetria, tensão e opaci- dade têm papel central enquanto balizadores do desenvol- vimento humano. A precedência do outro na construção de si foi considerada fundamental, remetendo às questões da ontologia e do papel da tradição nos processos de subjeti- vação. Em 2004, mais três produções foram destacadas em nossos estudos. Dessa vez, dois capítulos de livro e uma apresentação em evento científico internacional, a Third in- ternational conference on the Dialogical Self, que aconte- ceu em Varsóvia, na Polônia. O trabalho apresentado na conferência discutiu a noção de outridade no, então, já rotulado, construtivismo semiótico-cultural. Simão (2004c) apontou que o CSC é um guia temporário, flexível, com propósitos instrumen- tais para a realização de pesquisas em psicologia, que toma como central a questão da assimetria, nebulosidade e tensão 41 nas relações eu-outro-mundo. Enfatizou os processos bidi- recionais de transformação que se dão nos encontros huma- nos, em que compartilhamentos e diferenças se configuram mutuamente. Para a autora, as relações guardam dimensões implícitas e explícitas, conscientes e não-conscientes, que demandam uma disponibilidade afetiva para elaborar inter- pretações singulares da experiência. Esse processo é fun- damental no desenvolvimento do self, na medida em que permite um descentramento e a emergência de novidades no curso da vida de pessoas concretas. Um dos capítulos publicados naquele ano compôs o livro ‘Os sentidos de construção: o si-mesmo e o outro’, organizado pela professora do Instituto de Psicologia da USP, Maria Thereza Souza. Simão (2004b) passou a sinali- zar a direção que as pesquisas no campo do CSC precisam tomar, propondo a centralidade da noção de experiência inquietante na área. O enfoque foi, novamente, a cons- trução ontológica da subjetividade, com foco na maneira como cada pessoa elabora de modo singular as sugestões culturais num processo transformativo, individual, de as- similação. Considera que significar é produzir distinções, constituindo a fronteira de uma unidade triádica entre o que é, o que não é e o que poderia ou deveria ser, aspecto esse trazido de seus estudos sobre a obra de Boesch e Herbst referidas acima. Considera que as relações de alteridade, por sua vez, implicam um processo em que construções e reconstruções simbólicas são dinamicamente produzidas uma vez que a experiência do diverso produz inquietação e busca por compreensão. O segundo capítulo do ano foi publicado em um li- vro organizado por Lívia Simão em colaboração com Mi- tjáns Martínez, sobre ‘o outro no desenvolvimento huma- 42 no’. Ao tratar do tema da alteridade no diálogo e construção de conhecimento, Simão (2004a) focaliza as diferenças de pontos de vista fundadas no posicionamento corporal de cada pessoa. O desenvolvimento individual se dá na relação com o outro, sendo que cada pessoa constitui um sistema semiaberto. Concebe a impossibilidade de entendimento absoluto do outro, demandando uma constante disponibili- dade de abertura para as experiências de alteridade enquan- to compromisso ético. Na abertura das identidades para as alteridades, há a possibilidade de transformação e constru- ção de novos significados. Além da abertura para o outro, o compromisso ético também diz respeito à possibilidade de se colocar como outro para alguém, promovendo, dessa forma, transformações. Ao todo, foram dezesseis produções elencadas, de um período de 20 anos, cada uma delas trazendo importan- tes contribuições para o delineamento do campo do CSC. No tópico seguinte, estão discutidos aspectos dessas contri- buições visando explicitar a articulação entre ideias funda- cionais da área aqui mencionadas. Discussão e desdobramentos das ideias precursoras do CSC Na análise do material elencado acima, é possível compreender que as preocupações dos primeiros trabalhos precursores ao CSC eram predominantementeepistemoló- gicas, embora as dimensões ontológicas e éticas já apare- cessem de forma implícita nos textos. Por exemplo, o artigo de Simão (1992) inicia com uma questão gadameriana que implica uma relação entre epistemologia e ontologia, sendo que essa relação repercute no debate sobre a metodologia 43 de pesquisa no âmbito do CSC. A metodologia é entendida como geradora de fatos, planejada para tal e pressupõe uma compreensão prévia da natureza dos fatos gerados. Isso abre portas para o entendimento de que a busca de generalização se dá pelo caminho idiográfico, ou seja, as preocupações de elaboração de um conhecimento geral são articuladas por um pesquisador ou grupo de pesquisa em particular, que se relaciona com o mundo e com outras pessoas situadas num dado campo sociocultural. A metodologia organiza um conjunto de possibilidades na relação eu-outro, incluin- do as dimensões psicológicas de quem faz a pesquisa no processo de construção de conhecimento. Este aspecto, por sua vez, tem implicações metateóricas porque diz respeito às condições particulares da construção de todo e qualquer conhecimento científico, incluído, aí, as teorias e sistemas psicológicos em sua diversidade. No mesmo texto (Si- mão, 1992) está delineada a raiz hermenêutica do CSC que aponta para o conhecimento como resultante da dinâmica entre familiaridade e estranheza. As dimensões da lingua- gem verbal e extraverbal são relevantes e possibilitadoras da permanência do ausente, viabilizando o afastamento do pesquisador em relação à sua situação presente para pensar a plausibilidade do conhecimento em outras situações. As reflexões abrem espaço para as futuras questões relativas à questão da ação simbólica humana, usos e limites de um dado conhecimento e ao tema da temporalidade. Progressivamente, nas publicações da área, questões ontológicas e éticas passaram a ser explicitadas. A partir de 2003, quando o rótulo Construtivismo Semiótico-Cultural foi apresentado publicamente pela primeira vez, o aspecto ético foi enfatizado ao lado do enfoque teórico-metodológi- co voltado para a construção de conhecimento em pesquisa 44 qualitativa (cf. Simão, 2003c). A discussão que segue perpassa um diálogo com as matrizes do conhecimento psicológico de Figueiredo (2009), obra de referência da área de História e Filosofia da Psicologia no IPUSP. As matrizes organizam uma com- preensão da diversidade de teorias e sistemas psicológicos segundo princípios derivados de uma reflexão genealógica que identifica dispersões, desvios e tentativas de unificação que configuram a diversidade da psicologia contemporâ- nea. A operação hermenêutica na organização das matrizes do pensamento psicológico privilegiou a elucidação das condições de possibilidade das diferentes teorias, procuran- do essas condições nos seus pressupostos implícitos, rea- grupando e confrontando teorias, explicitando, entre elas, “afinidades insuspeitáveis e oposições imprevisíveis” (Fi- gueiredo, 2013, pp. 43-44). O autor parte da compreensão de que a dispersão e desconexão entre disciplinas e orien- tações teóricas em psicologia prenunciavam a ausência de critérios epistemológicos seguros que permitissem um mo- vimento de superação paradigmática no desenvolvimento científico da área. E constata que ao longo do século XX, a psicologia se consolidou como ciência independente mar- cada por sua diversidade de origem que persiste até o pre- sente momento. Considerando o posicionamento do CSC no âmbi- to das matrizes do pensamento psicológico, fica nítido, ao considerar a produção do período, um afastamento da área em relação às matrizes atomistas e mecanicistas que orien- tariam o pesquisador à procura de “relações deterministas ou probabilísticas, segundo uma concepção linear e unidi- recional de causalidade” (cf. Figueiredo, 2009, p. 28). As reflexões teórico-metodológicas que se desdobram no cam- 45 po do CSC não visam elementos que causam mecanica- mente os fenômenos complexos, mas unidades dialógicas que permitem ao pesquisa dor produzir inferências sobre os processos psicológicos em curso. A noção de unidade dialógica pressupõe uma relação inclusiva (cf. Simão e Val- siner, 2006a) na qual a relação dinâmica, bidirecional, entre as partes de um sistema reconfigura sua totalidade. Simul- taneamente, a configuração do todo orienta a identificação das partes constitutivas e de suas relações. As proposições da área apontam, ainda, para a ideia de que o significado completo de uma produção cultural humana nunca pode ser plenamente alcançado, nem pela pessoa que a expressa, nem pelo interlocutor que se rela- ciona com o que foi expresso. O significado emerge como uma construção temporária a partir das interpretações que cada pessoa faz, trazendo consigo sua perspectiva cultural e disposições afetivas. A elaboração do significado também depende das zonas de sentido e estabilidade que participam no sistema cultural da linguagem, gênero do discurso e si- tuação extraverbal na qual as palavras são expressas (cf. Bakhtin, 2015). Assim, o processo semiótico-cultural de construção do significado demanda uma metodologia que contemple o aspecto bidirecional do conhecimento, como processo comunicativo. É preciso entender as partes que compõem a unidade de análise ao mesmo tempo em que sua articulação em um todo integrado, na medida em que as partes constitutivas da unidade são heterogêneas e não se encontram fundidos em campo de indiferenciado. A experiência concreta de pesquisador e partici- pantes da pesquisa instaura um ambiente fenomenologi- camente estruturado segundo a intencionalidade das ações humanas. As ações são orientadas a objetos situados no 46 horizonte do mundo da vida, experimentado como uma su- cessão de eventos na duração da experiência. A sucessão de eventos assegura e transforma a identidade de si, dos outros e das coisas do mundo. Descrever a configuração fenomenológica da experiência, contudo, é parte do traba- lho do psicólogo que exige, adicionalmente, a interpretação do processo como inferência de relações não evidentes nas configurações que se sucedem e se transformam na duração das experiências. O processo de interpretação é entendido, na área, como um movimento hermenêutico (Simão, 1989, 1992, 2010) em que pontos de vista de pesquisadores e par- ticipantes da pesquisa são negociados e renegociados pro- duzindo uma variação de sentidos nas trajetórias singulares das relações. No lugar de uma elaboração nomotética e quanti- ficadora, segundo a qual o pesquisador buscaria a “ordem natural dos fenômenos psicológicos e comportamentais na forma de classificações e leis gerais com caráter preditivo” (Figueiredo, 2009, p. 27), o CSC enfatiza a questão da sin- gularidade da ação concreta na relação pesquisador-partici- pante, aproximando-se dos desafios teórico-metodológicos do historicismo-idiográfico. O sentido das experiências é compreendido como momento e expressão de uma totali- dade histórico-biográfica (cf. Rezende Junior, 2017) que inclui dimensões individuais não compartilhadas, o senti- mento de compartilhamento temporário de alguns sentidos e significados sobre o que foi e está sendo vivido, lacunas em relações humanas concretamente situadas em um dado momento histórico e uma dada situação presente delimita- da. Cientes de que não é possível obter previsão e contro- le absolutos quanto ao resultado das relações segundo os procedimentos que estabelecem a relação inclusiva entre as 47 partes de uma relação dialógica, idiográfica, as pesquisas da área buscam construir generalizações quanto a proces- so psicológicos envolvidos (Simão e Valsiner, 2007a), tais como a presença de tensões nos esforços de coordenação de indivíduos que não orientam suas ações segundo critérios estritamente racionais. Tais tensões dizem respeito às qua- lidades de estruturação das experiências, sempre cultural e pessoalmente distintas, estética e afetivamente organiza-das, . Pelo que pôde ser destacado dos textos precursores trazidos aqui, as propostas no campo do CSC se aproxi- mam de uma reflexividade ontológica antielementarista, sem, contudo, abandonar a noção de sistema composto de unidades distinguíveis nas situações estruturadas tomadas para estudo. Os processos psicológicos estão disponíveis para realização de procedimentos analíticos e vinculados à temática da sobrevivência e da adaptação, por exemplo, na compreensão da ação humana como comportando uma dupla-faceta: objetivo-instrumental e subjetivo-funcional a partir de Boesch (1991). Isso coloca o CSC diante de preo- cupações de cunho funcionalista em psicologia. O funciona- lismo típico das abordagens construtivistas em psicologia, embora tenha seu lugar no CSC, não se apresenta, entretan- to, como dominante, pela ênfase que, no desenvolvimento dessa perspectiva, têm as noções de assimetria, lacuna, al- teridade e tensão na formação subjetiva. Os processos de construção de significado e de sentido são, em última ins- tância, entendidos como inabarcáveis em sua totalidade. As tensões provocadas pelas lacunas inerentes à relação de al- teridade seriam movidas por uma ambivalência irredutível entre conflito e cooperação que têm à disposição conteúdos culturalmente dispersos para sua concretização. Os objetos 48 das ações humanas não se subordinam à racionalidade ins- trumental, pelo contrário, as propostas da área concebem que a estruturação afetiva da experiência se vincula a uma dinâmica de formas esteticamente orientadas, socialmente cultivadas, que guiam a formulação e a percepção de possi- bilidades de ação, adequando metas e regulando processos afetivo-cognitivos de abstração. A reflexividade ética é tomada como central e ela- borada como disponibilidade do pesquisador para incluir relações de alteridade psicologicamente descritas como experiências inquietantes singulares vivenciadas nas rela- ções que a pesquisa promove no mundo com os outros. A reflexão ética aponta para a efetivação da possibilidade de construção de sentidos que se abrem para aquilo que exce- de às concepções preliminares subjacentes às teorias e prá- ticas psicológicas já constituídas, guiando a inovação em psicologia. Orienta o esforço para que pesquisadoras e pro- fissionais da psicologia não fixem o mundo e os outros em constructos rigidamente estabelecidos, mas questionem as predeterminações esperadas, ou preconcepções, a partir da- quilo que emerge como novidade na experiência. A postura ética, portanto, impõe demandas infinitas a pesquisadoras e profissionais no campo do CSC, guiando o processo de repensar, para além de posicionamentos delimitados por al- guma das matrizes do pensamento psicológico (cf. Figuei- redo, 2009), na direção de propostas criativas no campo da psicologia e da ação cultural humana. Considerações parciais Este capítulo apresentou um conjunto de ideias pre- sentes nos textos precursores do CSC pertinentes à forma 49 como a área se constituiu e vem se consolidando contem- poraneamente. Os textos inaugurais da área a apresentava como um guia temporário e flexível aspecto de um instru- mento para a pesquisa qualitativa, sem o propósito de se constituir como uma tipologia epistemológica (cf. Simão, 2004c). Tal formulação foi, no momento de sua proposição, resultado de uma série de esforços e interlocuções buscadas na atividade preliminar de Lívia Mathias Simão em suas in- terlocuções com ideias e autores, com seus alunos, alunas e colegas, presentes nas coautorias das apresentações e publi- cações abordadas até aqui e adiante neste livro. Tais esfor- ços foram centrais e norteadores de pesquisas e produções futuras. A área não se constituiu como desdobramento das ideias de um único autor, mas de muitas ideias de muitos autores que, em sua diversidade, nem sempre concordavam entre si. Como desdobramento disso, são as pesquisadoras de hoje que seguem construindo, em permanente diálogo, a coerência da área, articulando a reflexão histórico-filosófica às experiências e leituras novas, bem como a releituras dos precursores, configurando novos campos de debates acadê- micos, científicos e profissionais em psicologia. O processo de sistematização de soluções previa- mente encontradas a problemas identificados no período preliminar à emergência do CSC em 2004 permite, den- tre outras coisas, notar que para além de um conjunto de referências que configuram a identidade da área existem princípios orientadores da pesquisa em psicologia consis- tentemente propostos. No âmbito da pesquisa e do exer- cício profissional, é relevante delinear critérios, ainda que sempre parciais e temporários, como indicado já desde as primeiras propostas do CSC, mas que permitem identifi- car se o trabalho de pesquisa está avançando na constru- 50 ção de conhecimento psicológico, bem como se o trabalho profissional está avançando no cuidado a que se presta e o qual demanda. No âmbito do CSC, o chamado progres- so ou avanço do conhecimento pode ser caracterizado ou identificado quando a compreensão sobre um conjunto de experiências se transforma. Mas para onde? O processo de mudança do conhecimento diz respeito à reflexão que a psi- cóloga e pesquisadora faz de suas experiências no mundo com outras pessoas que também refletem sobre as expe- riências vividas pessoal e coletivamente. Desde as preocu- pações explicitamente epistemológicas dos textos iniciais precursores da área, a presença de reflexões ontológicas e éticas que se desdobram dessas preocupações. Assim, as di- mensões epistemológicas, ontológicas e éticas não são es- tritamente separáveis nos textos, mas estabelecem relações do tipo figura-fundo. Um dos primeiros passos no percurso de consti- tuição do CSC foi fundamentar a premissa de que não há neutralidade na relação pesquisador-participante, dada a predicação do sujeito ativo socialmente situado. Tais con- cepções se articulam à filosofia hermenêutica de Gadamer e, contemporaneamente, no âmbito da psicologia cultural, à concepção de ciclo metodológico (Branco e Valsiner, 1997). Nos processos de construção de conhecimento a voz da pesquisadora está sempre situada como uma dentre ou- tras, de modo que fazer pesquisa e atuar profissionalmente em psicologia, implica a responsabilidade da pesquisadora e da profissional no processo de transformação da realidade que se põe a conhecer. No fazer e orientar pesquisa, o processo de constru- ção de conhecimento se produz de forma nebulosa em que as relações de alteridade são inerentes. Os textos precur- 51 sores do CSC transitam de uma reflexão sobre processos de construção de conhecimento para o tema das relações eu-outro-mundo que acabou por se tornar predominante nos trabalhos mais recentes. Nos textos consultados, até 1992, a relação pesquisador-participante da pesquisa era focalizada. Em seguida, essa relação específica (pesquisa- dor-participante) passa a ser entendida como um tipo de relação eu-outro, a ser tematizado dentre tantos tipos de re- lação constitutivas do campo cultural. Essa mudança dos termos utilizados nos textos indica também uma mudança de enfoque do CSC que amplia a reflexão sobre os pro- cessos de construção de conhecimento para compreensão dos processos psicológicos com os quais a construção de conhecimento e outras ações humanas interagem. Encon- tramos, finalmente, a emergência da centralidade da noção de experiência inquietante para o CSC. A ação cultural hu- mana desdobra a experiência de inquietude do sujeito em sua relação de alteridade consigo mesmo, com os outros e com o mundo. Deixam evidentes como excedentes de com- preensão podem vir a ser elaborados de forma responsável e, portanto, comprometida com o reconhecimento e valori- zação da diversidade de pontos de vista culturalmente en- raizados a respeito dos acontecimentos humanos. Cabe notar, ainda, que o período de emergência do CSC é o mesmo em que emerge o movimento de emergên-