Prévia do material em texto
LINGUAGEM E COGNIÇÃO DIVERSIDADES, PERCEPÇÕES, ACESSOS E INTEGRAÇÃO ORGANIZAÇÃO Cristina Lopomo Defendi Mônica Maria Soares Santos Fraulein Vidigal de Paula Renata Barbosa Vicente COORDENAÇÃO GERAL Maria Célia Lima-Hernandes Paulo Eduardo Capel Cardoso Esculturas: Karen Montija. Foto: Cecília Bastos | Jornal da USP UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Reitor: Aluísio Augusto Cotrim Segurado Vice-reitora: Liedi Légi Bariani Bernucci INSTITUTO DE ESTUDOS AVANÇADOS Diretora: Roseli de Deus Lopes Vice-diretor: Marcos Buckeridge Esta obra é de acesso aberto. É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citadas a fonte e a autoria e respeitando-se a Licença Creative Commons indicada. como citar: LIMA-HERNANDES, M. C.; CARDOSO, P. E. C. (coords). Linguagem e cognição: diversidades, percepções, acessos e integração. São Paulo: Instituto de Estudos Avançados da USP, 2026. DOI: 10.11606/9786587773933 Catalogação na Publicação Divisão de Gestão de Tratamento da Informação da Agência de Bibliotecas e Coleções Digitais da USP Linguagem e cognição: diversidades, percepções, acessos e integração [recurso eletrôni- co] / organização Cristina Lopomo Defendi... [et al.]; coordenação geral Maria Célia Lima-Hernandes, Paulo Eduardo Capel Cardoso – São Paulo : Instituto de Estudos Avançados, Universidade de São Paulo, 2026. 268 p. : il. isbn 978-65-87773-93-3 doi 10.11606/9786587773933 1. Neurociências 2. Linguagem 3. Inclusão social. 4. Acessibilidade. 5. Cognição social. 6. Deficiência visual. I. Defendi, Cristina Lopomo. II. Lima-Hernandes, Maria Célia. III. Cardoso, Paulo Eduardo Capel. cdd (23.ed) – 362.4 Elaborado por Cristina Miyuki Narukawa – crb-8/8302 https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/ C OMISSÃO CIENTÍFICA DO EVENTO Briseida Dôgo de Resende (IP-USP) Christian Lehmann (Erfurt Universität) Edwiges Maria Morato (IEL-UNICAMP) Hernán Joel Cervantes (IF-USP) Jussara Abraçado (UFF) Lennie Bertoque (UFMT-CUA) Mariana Nucci Penteado (InRad-HC-FM-USP) Rosângela Gabriel (UNISC) Sylvia Barrera (USP-RP) Tânia Gastão Saliés (UERJ) Tânia Quintal (UNIFESP) C OMISSÃO CIENTÍFICA DA PUBLICAÇÃO Alice Pereira Santos (IFSP) Andreia Moroni (Fac.Barcelona) Anna Karolina Miranda Oliveira (LinC-USP) Camila Lira (Universidade de Munique) Charles Borges Casemiro (IFSP) Cláudia Roberta Tavares Silva (UFRPE) Jussara Abraçado (UFF) Lennie Bertoque (UFMT) Ludmila Guimarães (UNIRIO/USP-PD) Marli Quadros Leite (USP) Nilza Barrozo Dias (UFF) Saulo César Paulino e Silva (LinC-USP-PD) Xiang Zhang, Rodrigo (UPMacau) R EDES PARCEIRAS Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Instituto Federal de São Paulo Universidade Federal Fluminense Universidade de Santiago Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) Sumário 11 Apresentação geral Cristina Lopomo Defendi, Maria Célia Lima-Hernandes, Fraulein Vidigal de Paula, Renata Barbosa Vicente e Mônica Maria Soares Santos SEÇÃO 1 entre vozes e olhares: narrativas de abertura 16 Áudio 1: Mesa de abertura do evento LinCog Marli Quadros Leite, Fraulein Vidigal de Paula e Cristina Lopomo Defendi, Marcos da Costa, Silvia Grecco, Carlos Eduardo Procópio, Bernadete Angelina Gatti, e Susana Inês Cordoba de Torresi (representante de Paulo Alberto Nussenzveig) Áudio 2: Conferência inaugural Cleyton Ferrarini (mediação), José Vitor Hansen, Gelson Inácio dos Santos e Fabiana Bonilha 17 Arte de Karen Montija: entre visível e invisível Paulo Eduardo Capel Cardoso SEÇÃO 2 caminhos da inclusão: diálogos com instituições parceiras 20 Apresentação de instituições parceiras Paulo Eduardo Capel Cardoso 22 Laramara: do bebê à pessoa idosa, mais de três décadas de ações especializadas e de inclusão social voltadas às pessoas com deficiência visual Eliana Maria Ormelezi 26 Centro de Reabilitação Visual – Instituto dos Cegos de São José do Rio Preto-SP Milena Perpetua da Silva Bertoni Romera 31 Fundação Dorina Nowill para Cegos Danielle Freitas Silva 33 Instituto Jundiaiense Luiz Braille Everton Godim 34 Lar das Moças Cegas: Instituição Mantenedora do Centro de Educação e Reabilitação para Deficientes Visuais (CERDV) Marta da Cruz Valdívia Camargo 38 Relato de práticas de instituições especializadas: Lar das Moças Cegas Centro Especializado em Deficiência Visual (CEDV) Natália da Silva Ferreira SEÇÃO 3 perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão 42 Cognição social/sociocognição: notas sobre a natureza social da cognição nos estudos da linguagem Edwiges Maria Morato 48 Desafios da avaliação das funções cognitivas em pessoas com restrições sensoriais Antonio de Pádua Serafim 56 Escrever entre línguas: ortografia e outridades no português língua de herança Andreia Sanchez Moroni 63 Línguas de herança como produto do contato linguístico Camila de Lira Santos 71 Complexidade e percepção em leitura secundada por audiodescrição: um estudo com ressonância magnética funcional Mariana Nucci Penteado, Hernán Joel Cervantes Rodríguez e Cristina Lopomo Defendi 79 Metáforas situadas e gatilhos mentais: um olhar sobre cegos congênitos e videntes Renata Barbosa Vicente e Maria Célia Lima-Hernandes 84 Aprendizado do Braille por mulheres com cegueira adquirida: desafios educacionais e sociais Mônica Maria Soares Santos 91 Contexto de pessoas cegas congênitas em comparação a pessoas com baixa visão Keli Roberta Mariano Matheus 95 O olhar sobre a própria deficiência como estratégia de desconstrução do capacitismo interiorizado Sueli Yngaunis 101 Adaptação de jogos para pessoas com deficiência visual Rachel Maria Campos Menezes de Moraes e Lindiane Faria do Nascimento 107 Áudio 3: Políticas científicas e políticas públicas de acessibilidade e inclusão Ignacio Maria Poveda, Ana Maria Fonseca Almeida e Ghisleine Trigo Silveira Áudio 4: Tecnologia assistiva a serviço da qualidade de vida da pessoa com deficiência visual Paulo Capel e Marcelo Mikley Áudio 5: Condições oftalmológicas que podem levar à cegueira infantil Everton Gondim SEÇÃO 4 interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate 109 Uma análise dos recursos sintáticos presentes na arquitetura de “Missa do Galo” de Machado de Assis Gabriela Cardoso Generato e Cristina Lopomo Defendi 115 Análise funcional dos usos de longe de em língua portuguesa funcional Gláucia dos Santos Nogueira 121 Música, linguagem e neuroplasticidade no envelhecimento: implicações para a reabilitação cognitiva na Doença de Alzheimer Mônica Maria Soares Santos 128 Metáfora conceptual em charges políticas: o papel das informações visuais na construção do sentido Maria Eduarda de Oliveira Alves e Jan Edson Rodrigues Leite 136 A aquisição da linguagem e a apraxia de fala na infância − perspectivas teóricas Renata Teixeira da Vitória Libotti 143 Leitura e cognição: processos de desenvolvimento da aquisição lexical Gleibson Giorge Silva do Nascimento 148 Processamento linguístico-visual da espacialidade no português brasileiro Samara Hellenn Juvito da Costa, Jan Edson Rodrigues Leite e Maria Beatriz Lourenço de Macedo Silva 153 O bilinguismo como um fator de reserva cognitiva em casos de Alzheimer Isabella Silva Cantos e Maria Célia Lima-Hernandes 158 A influência da oralidade na escrita: marcas linguísticas na produção de alunos do ensino secundário em Moçambique Mônica Maria Soares Santos e Simão João Gonhamo Cuboia 163 Cognição multimodal na era digital: a relação entre fotografia e poesia no Instagram a partir de uma análise do perfil @cronicadafoto Maria Luiza Pimentel Oliveira e Yuri Deus Correa de Arruda 168 Processamento de metáforas nominais: um estudo de eye-tracking Gisele Rodrigues Abrantes 173 Objetificação do corpo feminino: uma análise a partir de metáforas visuais Denise Sousa dos Santos 177 Sororidade lusófona: construção da relação entre Capitu e Maria Eduarda em Madame, de Maria Velho da Costa Gabriela de Azevedo Zanni e Kelly Mendes Lima 183 A perspectiva sociocognitiva-discursivaDentre todas as atividades desenvolvidas no CERDV, em seu plano de ensino, podemos enfatizar três obrigatórias, com os seguintes objetivos de: • Alfabetização e aprendizado no sistema Braille/Sorobã: habilitar o deficiente visual a ler e escrever utilizando os códigos do sistema Braille e, assim, adquirir conhecimento, ter acesso à informação e à análise de documentos. Desenvolver no aluno o raciocínio lógico, possibilitando rapidez e precisão na execução das operações matemáticas. • Atividades da Vida Autônoma e Social (Avas) e higiene e saúde: em sala totalmente equipada como um pequeno apartamento, desenvolver atividades que proporcionem independência ante a rotina do ambiente doméstico e social, oferecendo condições de organizar e participar das tarefas do grupo familiar, bem como orientar os alunos sobre os pro- cedimentos adequados quanto à sua higiene pessoal e ambiental, além das aulas de Educação Sexual. • Orientação e mobilidade: oferecer condições para que o deficiente visual possa orientar-se e locomover-se com independência, segurança, eficiência e adequação, de acordo com seu potencial, com três módulos: Básico/Intermediário/Avançado. Em nossa Matriz Curricular, no tocante às crianças e contraturno escolar, são desenvolvidas as atividades: • Intervenção pedagógica: estimula os sentidos remanescentes dos alunos com idades de 6 meses até 5 anos e 11 meses, para que sejam capazes de conhecer e comunicar-se com o mundo, de acordo com suas possibilidades. • Intervenção educativa: promove no aluno, com idades de 6 e até 8 anos, com deficiência visual e atrasos neuropsicomotores, a estimulação global. • Atendimento educacional especializado pedagógico: orienta e realiza atividades de Apoio Educacional Especializado, no contraturno, aos 36 SEÇÃO 2 Caminhos da inclusão: diálogos com instituições parceiras alunos inclusos no sistema regular de Ensino Fundamental e Médio, como também organiza encontro com as escolas para que sejam feitas vivências e palestras que ajudam a definir estratégias adequadas ao aprendizado, com professores e técnicos das escolas regulares onde nossos alunos estão matriculados. • Atendimento educacional especializado educativo: realiza atividades de Apoio Educacional Especializado, aos alunos com múltiplas defici- ências, inclusos no sistema regular de Ensino Fundamental, respeitando limites e especificidades. Contamos, também, com atividades visando preparar o deficiente visual a ser inserido na sociedade, em sua plenitude: • Assinatura e prática da escrita à tinta: oportuniza ao aluno a condição básica para reconhecimento como cidadão alfabetizado, como também exercitar e resgatar sua grafia cursiva. Trabalhar a coordenação motora e promover a autoestima no sentido de mais um meio de comunicação. • Culinária trivial // Padaria inclusiva: visa permitir que o deficiente visual possa preparar o seu alimento de forma independente e segura, como também aprender a arte de confeccionar pães e confeitaria, em uma sala totalmente equipada. A área da educação física, muito importante ao deficiente visual, visa proporcio- nar aos alunos equilíbrio harmônico entre corpo e mente, bem-estar físico, psicológico e social, dando apoio às demais atividades, oferecemos os seguintes esportes: • Musculação em nossa academia totalmente equipada, e Alongamento, para proporcionar ao aluno os benefícios globais que esta atividade confere aos sistemas músculo esquelético e psicomotor, como também melhor mobilidade articular e flexibilidade. • Natação adulta, infantil e hidroginástica em nosso Centro Aquático: visa alcançar o bem-estar físico, psicológico e social do aluno trabalhan- do-o de forma global, explorando os benefícios da água (meio líquido), e ao mesmo tempo respeitando as limitações individuais. • Capoeira e musicalidade na capoeira: aprimora diversas condutas psicomotoras e fomenta o sentido da comunidade, além de desenvolver a prática da Capoeira. • Iniciação ao Goallbal: com alunos na faixa etária de 12 a 16 anos, como forma de iniciar no único esporte que não foi adaptado para o deficiente visual. Na área da educação artística, oferecemos: • Oficina pedagógica: com o objetivo de exercitar no aluno a percepção tátil, por meio de atividades manuais que utilizam pequenas ferramen- tas na produção de peças. • Oficina de artes: Desenvolve a coordenação motora dos alunos por meio de atividades artísticas, criativas e lúdicas, a fim de que possam realizar outras atividades no ambiente escolar e em seu ciclo social, tornando-lhes independentes em suas tarefas e habilidades. 37 SEÇÃO 2 Caminhos da inclusão: diálogos com instituições parceiras • Música: desenvolve o interesse pela música de modo que o aluno con- siga trabalhar com ritmos, harmonia e afinação. Fazem parte desse conteúdo aulas de Iniciação Musical, Ritmo e Música, Banda, Coral, Flauta, Violão, Cavaquinho, Teclado, Escaleta. Na área tecnológica oferecemos: • Informática: prepara o aluno, em um Laboratório totalmente atualizado e acessível, para o uso do computador, ferramenta contemporânea indis- pensável para leitura, pesquisa, aquisição de conhecimentos com aulas ministradas por meio do programa dosvox e do leitor de tela nvda. Oferecemos para utilização pelos alunos: scanner de voz, linha braille, monitores articulados, tablets, Mesa Alfabeto e teclados específicos. • Tecnologia assistiva: facilita o deficiente visual no manuseio de apare- lhos celulares com acessibilidade. Insere o aluno, por meio de aplicativos acessíveis, tão necessário em nossa atualidade. Como práticas de incentivo à acessibilidade e inclusão, temos: • Imprensa Braille, com objetivos de atender deficientes visuais inte- grados a escolas/universidades regulares e produzir material impresso para a comunidade e empresas que necessitem de textos codificados em Braille ou tipos ampliados. • Impressora 3D, cujos objetivos são promover acessibilidade ao defi- ciente visual, por meio de peças em 3D e produzir material solicitado pelos alunos, que são predominantemente táteis, para que possam “visu- alizar” e apreender conforme suas expectativas, como também serem utilizados pelos professores em sala de aula. Podemos concluir afirmando o oferecimento de variadas atividades ao deficiente visual elaboradas, praticando a alteridade e respeitando as especificidades do aluno, proporcionando formações contínuas de nossos profissionais na busca de um trabalho de excelência a ser oferecido, instalações compatíveis e equipamentos sempre atualiza- dos, em ambiente saudável e acolhedor. Com isso conseguimos atingir nossa missão em habilitar/reabilitar o deficiente visual, em um trabalho extramuros com inserção na sociedade, praticamente em sua plenitude. Equipe responsável pelo trabalho exercido com qualidade, competência, comprometimento e amor | Foto: Juliana Gonçalves Correia 38 SEÇÃO 2 Caminhos da inclusão: diálogos com instituições parceiras Relato de práticas de instituições especializadas: Lar das Moças Cegas Centro Especializado em Deficiência Visual (CEDV) Natália da Silva Ferreira apresentação O Lar das Moças Cegas (LMC), referência na Baixada Santista, está situado na cidade de Santos (SP) e há 81 anos vem habilitando e reabilitando as pessoas com deficiência visual desde o nascimento até a terceira idade. A nossa Instituição tem como atuação o tripé de atendimento nas áreas da Assistência Social, Educação e Saúde, e nos últimos anos vem investindo em equi- pamentos e infraestrutura. Promove, ainda, a capacitação de profissionais na área da Saúde, representada pelo Centro Especializado em Deficiência Visual (CEDV) objetivando melhorar ainda mais a qualidade dos atendimentos. Esse Centro iniciou suas atividades em 6 de agosto de 2018 com o objetivo de carac- terizar a área da Saúde de maneira completa na Instituição, e apresenta um importante papel na adesão das pessoas com deficiência visual em seu processode reabilitação. Nessa perspectiva, pode-se afirmar que o CEDV é a porta de entrada para todos os serviços oferecidos. O setor conta com uma equipe multidisciplinar completa composta pelos profissionais das seguintes áreas: Oftalmologia, Ortopedia, Psicologia, Terapia Ocupacional, Fonoaudiologia, Fisioterapia, Psicopedagogia. Conta, ainda, com técnicos de enfermagem, recepcionistas e coordenadores técnicos de serviço. O principal objetivo do Centro Especializado é realizar um atendimento completo para o deficiente visual e sua família, que vai desde a triagem inicial até a sua possível inserção ou reinserção no mundo do trabalho. centro especializado em deficiência visual (cedv) O Centro Especializado em Deficiência Visual (CEDV) teve origem a partir do setor de visão subnormal que era o responsável pela admissão de novos assistidos (pacientes) na Instituição. Era composto por uma equipe reduzida com intuito de confirmar diagnósticos, orientar benefícios, realizar os encaminhamentos internos e externos. Naquele momento, existia o setor de terapias, composto por uma equipe técnica multi- disciplinar, que atuava no acompanhamento das alterações do desenvolvimento motor, cognitivo, social, visual e da linguagem. Esse setor atuava nas atividades da área de Educação da Instituição, pois não tinha sua própria equipe estruturada. No ano 2018, o CEDV foi oficialmente instituído e passou a ter uma equipe multidisciplinar completa, realizando triagens e atendimentos especializados na área da Reabilitação Visual. A área física do Centro Especializado (CEDV) se encontra na sede da Instituição, em um prédio anexo ao primeiro andar, com uma área construída de 252,22 metros quadrados, com salas de atendimentos individuais e climatizadas. 39 SEÇÃO 2 Caminhos da inclusão: diálogos com instituições parceiras Atualmente conta com vinte profissionais, realizando anualmente cerca de 5.500 atendimentos entre consultas oftalmológicas, exames e terapias gratuitamente. O Centro Especializado em Deficiência Visual tem importante papel na adesão do paciente para o seu processo de reabilitação no Lar das Moças Cegas, pois é no Centro que se inicia o processo de triagem com a consulta oftalmológica, confirmando a deficiência visual do indivíduo e realizando os exames complementares necessários. Atualmente, atende não só pacientes com baixa visão, mas também aqueles que não apresentam nenhum resíduo visual, ou seja, cegos. Para que isso seja possível, conta com a participação de uma equipe multidisciplinar no processo de triagem, que objetiva acolher, orientar e encaminhar o paciente e sua família, de acordo com as suas necessidades. Os modelos de atendimento estão organizados em interno e externo. O primeiro (interno) compreende aqueles oferecidos para o público que realiza o processo de reabilitação mais completo e o externo aqueles que, após a triagem, apresentam a necessidade de atendimentos pontuais, como o treinamento de recursos ópticos e não ópticos e eletrônicos. Em ambas as situações, os pacientes têm seu plano terapêutico individual elaborado de acordo com as suas necessidades e expectativas. Para iniciar o processo de triagem, é necessário que o paciente apresente o laudo atestando a deficiência visual e o encaminhamento para a Instituição onde realizará sua reabilitação visual. programas específicos O ATENDIMENTO INFANTIL Os atendimentos infantis abrangem as faixas etárias de 0 a 14 anos. No Lar das Moças Cegas, os pacientes apresentam não só deficiência visual, como etiologia para intervenção, mas também outros comprometimentos, como cognitivos, motores e sensoriais. Tendo-se como referência esse perfil, a trajetória das intervenções acaba não ocorrendo de forma linear. O encaminhamento dos pacientes para outras ins- tituições, que atendem as demais comorbidades, ocorre até a faixa etária esperada para maturidade do sistema visual. Para crianças com deficiência visual total, em que seu maior comprometimento não seja o visual, o encaminhamento pode ocorrer em qualquer faixa etária como nos casos de alteração cognitiva ou motora. PROGR AMA DE ESTIMULAÇÃO VISUAL O “Programa de Estimulação Visual” teve início no ano 2018 com a proposta de acolher as crianças que já recebem atendimentos em outros locais, por causa de suas comorbidades e, mesmo assim, ainda necessitam de intervenção específica visual. Os atendimentos poderão ser semanal, quinzenal, mensal, trimestral ou semestral. PROGR AMA DE INTERVENÇÃO PRECOCE Considerando-se a ocorrência da deficiência visual em crianças, faz parte do ser- viço o Programa de Intervenção Precoce, que atende crianças de 0 a 5 anos e 11 meses. A abordagem nesse período sensível do desenvolvimento é imprescindível não só para a criança, que precisa ser acompanhada em diversos aspectos sensoriais, motores, cog- nitivos e sociais, mas também para sua família e escola. Dessa forma, será possível dar 40 SEÇÃO 2 Caminhos da inclusão: diálogos com instituições parceiras continuidade ao trabalho terapêutico em ambiente externo, por meio de orientações e vivências com os profissionais. recursos de diagnóstico Em razão de ser um serviço ambulatorial, com oferta de atendimentos gratuitos, não vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS), foi possível identificar a necessidade de incorporar também exames para confirmação de diagnóstico e acompanhamento das patologias oftalmológicas São oferecidos os seguintes exames: • Potencial Visual Evocado (Padrão Reverso); • Tomografia de Coerência Óptica; • Angio OCT; • Microscopia Especular; • Paquimetria; • Topografia; • Gonioscopia; • Mapeamento de Retina; • Tonometria; • Teste de Olhar Preferencial – Teller. perfil de atendimento Nossa Instituição é referência em reabilitação visual na Baixada Santista e Vale do Ribeira, e os nossos pacientes têm como prioridade o diagnóstico de deficiência visual. No entanto, suas singularidades patológicas de base, comorbidades, origem e outras informações se fazem necessárias para caracterizar o perfil de atendimento ofertado pelo CEDV. O público é majoritariamente feminino (aproximadamente 55%), com faixa etária 48% acima de 60 anos, e as patologias mais frequentes são doenças como a Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI) e o Glaucoma. Essas informações vão ao encontro dos levantamentos relacionados ao tema feitos pela Organização Mundial da Saúde (OMS). conclusão Entendemos que o Lar das Moças Cegas tem em sua história grande contribuição para evolução da reabilitação visual não só na cidade de Santos, mas também no estado de São Paulo, destacando-se também no Cenário Nacional. Por isso, buscamos aprimorar nossa atuação na área de saúde e nas demais áreas afins. Portanto, nosso maior compromisso sempre será com a qualidade de vida, a auto- nomia e a segurança da Pessoa com Deficiência Visual. 3 PERSPECTIVAS E INTERSECÇÕES: DIÁLOGOS SOBRE COGNIÇÃO, LINGUAGEM E INCLUSÃO 42 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão Cognição social/sociocognição: notas sobre a natureza social da cognição nos estudos da linguagem Edwiges Maria Morato introdução A compreensão da cognição humana (e da cognição linguística, naturalmente) parece rivalizar com qualquer um dos temas de grandeza fundamental da agenda científica contemporânea (Morato, 2019). O interesse pela cognição social tomada, em um sentido largo, como processo que orienta as condutas ou as ações dos indivíduos ante os seus pares de forma socio- culturalmente disciplinada é compartilhado por paradigmas e modelos epistêmicos distintos, embora próximos, tal como o construtivismo, o interacionismo, o socio- cognitivismo etc. Em um interessante artigo intitulado “A natureza social da cognição: questões sobre a construção do conhecimento”, com base em aportes teóricos e metodológicos interdisciplinares provindos da Análise da Conversação, da Etnometodologia e da Linguística Cognitiva, Leite (2003) identifica“duas teorias-padrão, que se prestam a explicar a cognição social”. A primeira entende o uso da expressão “cognição social” como o “processamento mental de informação” sobre o mundo. Nesse caso, afirma o autor, “social” se refere “apenas aos objetos da cognição e à preocupação com os mecanismos psicológicos usados pelos sujeitos para perceberem a si mesmos e aos outros” (Leite, 2003, p.220). Um segundo entendimento da natureza social da cognição, associado ao termo “socio- cognição”, se ocuparia a partir “da percepção e da construção do nosso conhecimento sobre o mundo”. Nesse caso, afirma o autor, o foco estaria no modo pelo qual se dá “a percepção e a descrição do mundo social pelos membros de uma cultura particular, e de como o mundo social é pensado ou é descrito no curso da interação” (ibidem). De nossa parte, consideramos que a posição epistêmica socialmente forte a res- peito da natureza da cognição humana é a que se pauta pela apreensão social (histó- rica, ideológica, cultural e coletivizada) dos objetos e regimes simbólicos, capacidade tida como característica propriamente humana, chamada por vezes de “ultrassocial” (Tomasello, 2014b). O termo que preferimos utilizar para fazer referência a essa característica dos seres humanos, fruto de uma longa história filogenética cuja infra- estrutura pragmática, cultural, interacional e intersubjetiva se deixa ver na ontogê- nese, é a cognição social. Por esse termo, fazemos referência à forma de ser de nossa cognição, isto é, ao todo da cognição humana, e não a um tipo ou uma parte dela que seria considerada social. Em que pesem diferenças de ênfase entre as várias acepções e abordagens da cognição social, dentro e fora do campo da Linguística, a tese segundo a qual a prá- xis social é a base da modulação da experiência cognitiva acaba sendo uma espécie de regulador epistêmico geral da noção. Na perspectiva sociogênica, em seu sentido 43 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão forte, contudo, admite-se que a cognição, ao contrário de ser um antecedente, é um resultado da interação social com a qual estabelece uma relação de reciprocidade nas múltiplas situações humanas. a noção de cognição social nos estudos da linguagem A entrada da noção de cognição no sistema nocional da Linguística, mesmo que tardia, significou uma inflexão importante nos estudos da linguagem. Com o interesse explícito pelo caráter “social” da cognição, essa inflexão epistemológica resultou em movimentos revisionais em muitas áreas da Linguística tanto em termos teóricos quanto empíricos. Trata-se de um dos temas mais desafiadores que integram a agenda dos estudos da linguagem e dos processos mentais humanos. Entre os temas dessa agenda podemos citar a natureza da categorização e de nossas estruturas conceituais, o papel da experiência na construção conceitual, a compreensão das interações exis- tentes entre o sistema linguístico e outros sistemas cognitivos em situações de uso, a base empírica de uma concepção sociobiológica e dinâmica da atividade cerebral. O interesse pela constituição da cognição social (situada, distribuída, pragmá- tica, encarnada, discursiva, multimodal, recursiva), por vezes, chamada de “socio- cognição”, marca de forma geral um posicionamento crítico ao Naturalismo e ao Cognitivismo Mentalista, centrados no interesse pela cognição privada ou interna ao indivíduo e seu cérebro. Por outro lado, marcada seja pelo programa racionalista, seja pela elevação da interação à condição de princípio explicativo, a noção de cognição social, reivindicada para dar conta de fenômenos distintos, como criatividade linguística, recursividade comunicativa, inferência, indexicalidade, processamento anafórico, figuratividade, construções gramaticais complexas, perspectivação conceptual, integração semiótica, textualidade, processos de ordem meta, prosódia, rituais interacionais ou reabilitação linguístico-cognitiva após comprometimento neurológico, não deixa de ser um tanto difusa (Morato, 2019). Em um regime de mão dupla, em que trafegam de forma solidária fatores externos e internos aos indivíduos, ela tem se mostrado um processo multifatorial pelo qual nos tornamos “humanos”, com o concurso de motivações de variadas ordens (interacionais, biológicas, mentais, afetivas, linguísticas, históricas, culturais e ideológicas). Como vimos na descrição da primeira perspectiva sobre a natureza da cognição humana, aludida por Leite (2003), o caráter social atribuído à cognição se concentra nas formas de relação entre o funcionamento cognitivo dos indivíduos e as representa- ções sociais. Tal relação seria possível em razão de uma espécie de “bagagem mental” dos indivíduos, que se deixaria ver na capacidade que teriam para acessar, interpretar e manipular objetos como textos ou fenômenos sociais, como o racismo, a misoginia, o capacitismo dentre outros. Essa perspectiva instrumental da cognição social, a nosso ver, não deixa de estar asso- ciada ao que Ehrenberg (2008) chamou de “naturalismo às avessas”, isto é, uma explicação internalista (biológica ou mesmo organicista) decisiva sobre a sociabilidade humana. Essa forma de “naturalismo como ideia social”, para usar uma expressão do autor, reputa ao cérebro o lócus e a responsabilidade pela sociabilidade humana, deixando para um segundo plano explicativo as áreas da Ciência historicamente a ela dedicadas, como a Sociologia, a Antropologia, a Psicologia e a Linguística (Morato, 2012; 2019; 2023). 44 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão A plasticidade cerebral e cognitiva, a sensoriomotricidade ou os esquemas ima- géticos, fenômenos humanos como a empatia, a figuratividade, a moralidade ou o compartilhamento de intenções deixam de ser compreendidos a partir das instituições sociais a que estão indissoluvelmente associados (Ehrenberg, 2008). Para os que defendem, alternativamente, a presença de uma teoria social mais forte ou explícita (em termos políticos, sociológicos, históricos, culturais ou pragmáti- cos) na constituição da cognição humana, a questão epistêmica principal se apresenta da seguinte forma: como se dá a infraestrutura sociocultural requerida pelos processos e fatores que constituem a cognição? Aqui, a questão não se refere propriamente à capacidade cognitiva dos indivíduos para acessar objetos sociais, mas de ser essa capacidade constituída socialmente (Morato, 2023). bases dos vetores sociogênicos da cognição humana Podemos destacar alguns dos principais expoentes da perspectiva sociogênica da cognição humana como L. S. Vygotsky (1978; 1987, dentre outras) e A. R. Luria (1981; 1976, dentre outras), fundadores da abordagem dita sócio-histórica do desen- volvimento humano e, também, M. Tomasello (1999; 2014a; 2019, dentre outras), separado dos primeiros em perspectiva e tempo, mas com uma obra na qual se reco- nhece a inspiração vygotskiana, apesar das diferenças que mantém com o bielorusso. Tomasello (2019), que se autodenomina “neovygotskiano”, procura apontar e desen- volver aquilo que, em sua opinião, Vygotsky deixou de enfatizar ou explicitar em sua obra. Tanto as hipóteses evolutivo-construtivistas de Tomasello, que procuram esta- belecer um quadro relacional mutuamente constitutivo entre o biológico e o cultural, quanto o interacionismo preconizado por Vygotsky e Luria, assentado nos aspectos materiais e simbólicos da vida em sociedade, procuram trilhar caminhos alternati- vos às questões dicotômicas clássicas, que marcam o campo de investigação sobre a cognição humana. Tais dicotomias, como mente versus corpo, natureza versus ambiente e inatismo versus experencialismo, por exemplo, de acordo com diferentes correntes teóricas, impedem que compreendamos mais amplamente a cognição humana, cuja singulari- dade é, precisamente, ter desenvolvido uma infraestrutura pragmática e cultural que a tornou “social” e permitiu a emergênciada linguagem. Um gesto teoricamente importante feito por Vygotsky (1978), ao postular que as “funções cognitivas superiores” são o resultado da capacidade dos humanos de interagir entre si e o mundo circundante, especialmente em torno da criação e do uso de artefatos e símbolos culturais, foi apontar que elas, para serem o que são, têm também um suporte biológico, isto é, “não são descarnadas de seus usuários”. Nesse cenário explicativo, a respeito das relações entre o biológico e o cultural, o cérebro, integrado às condições multifatoriais da vida humana, é compreendido como parte do processo de desenvolvimento cognitivo, mas não é todo ele. Além disso, sendo dependente tanto de processos internos, quanto externos a si mesmo, o cérebro se configura como um sistema integrado, aberto e dinâmico, de grande plasticidade estrutural e funcional (Luria, 1981). Para Tomasello (2019), o que estaria faltando nos estudos de Vygotsky seria um relato mais pormenorizado (sobretudo em relação à primeira infância) das adap- tações particulares ou únicas dos seres humanos para a perspectivação conceptual, 45 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão a comunicação intersubjetiva e a aprendizagem cultural, algo que nos capacita, mas não aos símios, para nos tornarmos criaturas inteiramente simbólicas, ultrassociais (Tomasello, 2014b). Contrapondo-se à tese de que a linguagem é inata (no sentido de que algo não é adquirido, como na perspectiva chomskiana), ou um instinto (tal como defende Pinker (1994)), Tomasello (2014a) defende que um tipo de cognição, “cultural” desenvolvida no tempo histórico da filogênese, responsável pelo grau de cooperação interpessoal não encontrada em primatas não humanos, estaria na base da emergência da linguagem. É bem conhecida a argumentação de inspiração vygotskiana de Tomasello rela- cionada ao caráter sociogênico (do desenvolvimento) da cognição humana na qual defende que as habilidades cognitivas básicas não são criadas pelas práticas sociais, culturais e discursivas; essas seriam responsáveis por “transformar habilidades cog- nitivas básicas em habilidades cognitivas extremamente complexas e sofisticadas” (Tomasello, 2003, p.264), como a aprendizagem cultural, o compartilhamento de intenção, a cooperação intersubjetiva ou a leitura mental recursiva. Na esteira dos trabalhos iniciados por Vygotsky, Tomasello vem se dedicando, na fase mais recente de seus estudos, a focalizar empiricamente os elementos consti- tuintes da infraestrutura (sócio)pragmática da cognição social já nos primeiros anos de vida da criança, que são a cooperação intersubjetiva, a atenção conjunta, a inten- cionalidade coletivizada, a emoção compartilhada, os sistemas de (auto)regulação, o pensamento cooperativo e a moralidade. O neurologista russo A. R. Luria, que não usava o termo cognição ou mesmo cognição social, à maneira do psicólogo e educador L. S. Vygotsky, é enfático em relação ao vetor sociogênico da atividade mental humana, postulando uma relação de reciprocidade entre o biológico e o social, como se vê em sua descrição do cérebro como um “sistema funcional complexo” no qual intervêm a cultura, a aprendizagem, as interações de diversas ordens. Nos retornos circulares da ciência ao naturalismo (do qual é caudatário, entre outros, o já mencionado naturalismo “às avessas”), as estruturas cerebrais passam a ter um papel fundamental na compreensão das condutas sociais como ressaltam vários autores, dentre eles Butman e Allegri (2001), que fazem referência ao neocortex e às outras regiões corticais. Por exemplo, sobre processos cognitivos associados ao córtex pré-frontal ventromedial, à amígdala, o córtex somatossensorial direito e a ínsula. Para Luria (1981), contudo, tais estruturas e processos não seriam apenas biomar- cadores, ou marcadores somáticos. Essas estruturas cerebrais, uma vez desenvolvidas em razão das demandas evolutivas, atuariam como mediadoras entre as representa- ções perceptuais e a recuperação do conhecimento que os estímulos podem ativar. O cérebro, para Luria, lembremos, é concebido como ação, em ação, como bem sugere o título de uma de suas obras (The working brain, de 1949, e que foi traduzida em para o português como Fundamentos de Neuropsicologia, em 1981). A essas reflexões sobre a sociogênese da cognição humana podemos somar, no esforço de compreensão da constituição da cognição social, as premissas gerais das “Linguísticas Cognitivas” (Morato, 2019), isto é, aquelas que tomam a linguagem como sistema cognitivo derivado de uma intersubjetividade corporificada e cultural (Gallese; Lakoff, 2005, entre outros) que se deixa ver em situações sociais e em práticas discursivas variadas. 46 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão Nesse ponto, fazemos remissão aos estudos sociocognitivos no campo das assim chamadas “Linguísticas Cognitivas”, isto é, aquelas áreas da ciência da linguagem interessadas explicitamente na problemática cognitiva (Morato, 2019). É o caso, por exemplo, de várias áreas da Linguística que se pautam por fenômenos conceptuais, aquisicionais, semântico-pragmáticos, textuais, psicolinguísticos, neurolinguísticos, semióticos e interacionais. O grupo de pesquisa Cogites (Cognição, Interação e Significação), por nós coor- denado, por exemplo, inscreve-se, como tantos outros, entre as “linguísticas cogniti- vas”, desenvolvendo pesquisas sobre contextos que envolvem (ou não) patologias de linguagem em uma perspectiva sociocognitiva interacionista de base vygotskiana e tomaselliana que leva em conta os fundamentos e as metodologias da Neurolinguística e da Linguística Textual. O Cogites é um dos grupos de pesquisa que integram o Laboratório de Fonética e Psicolinguística (Lafape), do Instituto de Estudos da Linguagem, da Universidade Estadual de Campinas/Unicamp. considerações finais Vimos nas seções anteriores que o estudo da cognição social no campo da Linguística diz respeito a questões humanas tangíveis, como a aquisição, a apren- dizagem e a reabilitação da linguagem após comprometimento neurológico dentre outras. Além da relevância científica que o estudo cognitivo da linguagem encerra, há também uma incomensurável importância social dos estudos que envolvem a relação entre linguagem e cognição ou a cognição linguística. Por outro lado, a constituição (discursiva, corpórea, experiencial e psicoafetiva) da cognição social não é um tema que pertence a um determinado campo do saber; pelo contrário, trata-se de uma questão essencialmente interdisciplinar. Longe de colocar em risco o objeto da Linguística, essa noção faz a Ciência da Linguagem acompanhar, necessariamente, o avanço científico interdisciplinar, que se projeta em torno dele quando se fala de quaisquer fenômenos sociais e situações humanas como ensino e aprendizagem, comunicação de massa, vida política, interação intercultural, rituais interacionais, inteligência artificial, robótica e tecnologias de comunicação dentre outros. No ponto em que estamos, uma das questões que exigem uma resposta objetiva é a seguinte: seria possível pensar e descrever de maneira complexa a cognição (a memória, a percepção, a consciência, a linguagem, a atenção conjunta, a intencionalidade, o julgamento moral, a conceptualização etc.) sem que os estudos linguísticos sejam parte da resposta? Uma outra questão fundamental que se apresenta pode ser sintetizada na seguinte pergunta: uma teoria linguística, para explicar a linguagem em uso, poderia prescindir de uma teoria cognitiva e de uma teoria social forte (Marcuschi, 2002)? A nosso ver, a resposta para essas perguntas seria não. Isso implica admitir, ao pensarmos na ontogênese da cognição humana, uma ordem social – uma ordem cognitiva social. Dessa maneira, em face das explicações sobre a natureza social da cognição humana, tanto uma teoria linguística quanto uma teoria social(Leezenberg, 2015; Marcuschi, 2002, entre outros) a ela vinculada tornam-se imprescindíveis. 47 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão referências BUTMAN, J.; ALLEGRI, R. F. A cognição social e o córtex cerebral. Psicologia: Reflexão e Crítica, v.14, n.2, p.275-9, 2001. EHRENBERG, A. Le cerveau “social »: chimère epistemologique et verité sociologi- que. Espirit, v.341, p.79-103, 2008. GALLESE, V.; LAKOFF, G. The Brain’s Concepts: The Role of the Sensory-Motor System in Conceptual Knowledge. Cognitive Neuropsychology, v.21, p.1-26, 2005. LAKOFF, G.; JOHNSON, M. Metaphors we live by. Chicago: UCPress, 1980. LEEZENBERG, M. Da linguística cognitiva à ciência social: 30 anos após Metáforas da Vida Cotidiana. Revista Investigações, v.28, n.2, p.1-28, 2015. LEITE, J. E. R. A natureza social da cognição: questões sobre a construção do conhe- cimento. Veredas. Revista de Estudos Linguísticos, v.7, n.1, p.217-32, 2003. LURIA, A. R. Basic problems of Neurolinguistcs. The Hague: Mouton, 1976. _______. Fundamentos de Neuropsicologia. São Paulo: Edusp, 1981. MARCUSCHI, L. A. Do código para a cognição: o processo referencial como ativi- dade criativa. Veredas, v.6, n.1, p.43-62, 2002. MORATO, E. M. O estudo da metaforicidade no campo da Neurolinguística: velhas questões, novos desafios. MOURA, H.; GABRIEL, R. (Org.) Cognição na linguagem. Florianópolis: Insular, 2012. p.177-218. _______. A cognição como objeto da Linguística – questões contemporâneas e diá- logos interdisciplinares. In: CAVALCANTE, S.; MILITÃO, J. (Org.) Linguagem e Cognição – desafios e perspectivas contemporâneas. Campinas: Mercado de Letras, 2019. v.1, p.3-339. _______. Âncoras na deriva simbólica – textos como formas de cognição social. Revista da ANPOLL, v.54, p.e1901, 2023. PINKER, S. The language instinct. New York: William Morrow, 1994. TOMASELLO, M. Language is not an instinct. Cognitive Development, v.10, n.1, p.131-56, 1995. _______. Origens culturais da aquisição do conhecimento humano. Trad. Cláudia Berliner. São Paulo, Martins Fontes, 2003. _______. A Natural History of Human Thinking. S. l.: HUP, 2014a. _______. The ultra‐social animal. European Journal of Social Psychology, v.44, n.3, p.187-94, 2014b. _______. Becoming human: a theory of ontogeny. S. l.: HUP, 2019. VYGOTSKY, L. S. Mind in society. Harvard, The President and Fellows of Harvard College, 1978. _______. Thinking and speaking. The collected works of L. S. Vygotsky. V.I. Problems of general psychology. New York: Plenum Press, 1987. http://lattes.cnpq.br/6794591756569605 http://lattes.cnpq.br/6794591756569605 48 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão Desafios da avaliação das funções cognitivas em pessoas com restrições sensoriais Antonio de Pádua Serafim apresentação O ciclo vital humano é um processo dinâmico marcado por aquisição, manutenção e eventual declínio de habilidades e competências ao longo da vida. Durante a infância e a adolescência, observa-se um período crítico de desenvolvimento, no qual ocorre a aquisição e o refinamento de diversas capacidades cognitivas, emocionais e motoras. Na fase adulta, embora a aprendizagem continue, há um foco predominante na con- solidação e manutenção das habilidades previamente adquiridas. Por sua vez, o envelhecimento é caracterizado por um declínio progressivo em diferentes domínios funcionais, cujas magnitude e velocidade variam entre pessoas. Esse panorama reflete o curso típico do desenvolvimento humano, no qual a pro- gressão das capacidades é seguida por um período de estabilidade e, posteriormente, por um declínio gradual. Entretanto, há de ficar claro que esse percurso representa o panorama do ciclo vital em um contexto de normalidade. Diante da complexidade dos fatores que influenciam esse ciclo, é essencial uma investigação rigorosa, baseada em metodologias sólidas para compreender as variáveis envolvidas. A Psicologia, como ciência abrangente, oferece modelos explicativos e estratégias metodológicas para analisar processos mentais e comportamentais em diferentes contextos (Serafim; Moraes; Saffi, 2024). Entre suas áreas, a avaliação psicológica se destaca na mensuração de aspectos cognitivos, emocionais e com- portamentais ao longo do ciclo vital. Nessa perspectiva, pode-se afirmar que está ancorada em princípios psicométricos, abordagens qualitativas e quantitativas, per- mitindo, portanto, identificar padrões psicológicos e orientar intervenções eficazes e contextualizadas. As relações humanas têm se tornado mais complexas diante das rápidas trans- formações sociais, culturais e tecnológicas. Esses processos exigem maior capaci- dade adaptativa, como flexibilidade cognitiva, regulação emocional e resiliência. No entanto, a adaptação nem sempre ocorre de forma equilibrada, podendo levar a vul- nerabilidade psicossocial. Nesse contexto, a exclusão social, o adoecimento mental e o sofrimento psicológico são consequências significativas quando há dificuldades no desenvolvimento de estratégias de enfrentamento ou exposição contínua a barreiras. Entre essas barreiras, destacam-se a discriminação estrutural, o isolamento social e a precarização das condições de vida, que perpetuam desigualdades em saúde mental (Kirkbride et al., 2024). A teoria do estresse social aponta que a exposição prolongada a adversidades, especialmente em contextos de marginalização, aumenta o risco de transtornos psi- quiátricos, como ansiedade e depressão, por sobrecarga emocional e limitação de recursos para resiliência psicológica (Thoits, 2010). No caso de pessoas com restrições sensoriais, essas dificuldades são agravadas por barreiras na comunicação, no acesso à 49 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão informação e na participação social e profissional, dificultando a construção de redes de apoio, aumentando a exclusão social e a solidão (Jaiswal; Fraser; Wirrich, 2014). A literatura indica que a privação sensorial impacta diretamente o funcionamento neurocognitivo e emocional, afetando processos essenciais à adaptação ao ambiente, como regulação do estresse, percepção de ameaças e resposta aos desafios psicossociais (Greven et al., 2019). Em pessoas com deficiência visual ou auditiva, observa-se maior isolamento social pelo fato de existirem barreiras na comunicação e na ausência de acessibilidade em contextos como educação, trabalho e lazer (Emerson et al., 2011). Esse isolamento compromete o bem-estar psicológico, influenciando a autoestima e a qualidade de vida, além de afetar o funcionamento cognitivo global. Evidências sugerem que a privação sensorial, especialmente desde o nascimento ou em estágios iniciais do desenvolvimento, pode modificar padrões de neuroplasticidade, levando a adaptações funcionais e estruturais no cérebro (Merabet; Pascual-Leone, 2010). Pessoas com deficiência visual tendem a aprimorar habilidades táteis e auditi- vas, enquanto aquelas com deficiência auditiva desenvolvem maior percepção visual e processamento espacial. No entanto, a ausência de estímulos sensoriais convencionais pode comprometer funções como memória operacional, velocidade de processamento e flexibilidade cognitiva, sobretudo em contextos de interação social limitada. O isolamento social prolongado e a baixa participação em atividades cognitiva- mente estimulantes também podem prejudicar habilidades como resolução de pro- blemas, planejamento e tomada de decisão, funções mediadas pelo córtex pré-frontal. Além disso, dificuldades de acessibilidade e exclusão social aumentam o risco de estresse crônico e sintomatologia depressiva, fatores que impactam negativamente a memória episódica e a atenção sustentada (Rodrigues; Delerue-Matos, 2025). Logo, a ausência de políticas inclusivas e de suporte psicossocial adequado agrava esse cenário, reforçando um ciclo de exclusão e vulnerabilidadeemocional (Brunnberg et al., 2008). Essa vulnerabilidade pode resultar em prejuízos adicionais na regulação emocional e no desenvolvimento de habilidades metacognitivas, essenciais para a adaptação a novos desafios e contextos (Livingstone; Srivastava, 2018). Assim, estra- tégias de intervenção que promovam acessibilidade, suporte educacional adequado e inclusão social são fundamentais, não apenas para o bem-estar psicológico, mas, também, para a preservação e otimização das funções cognitivas ao longo da vida. desenvolvimento A psicologia científica e a prática profissional devem avançar para uma forma- ção integrada e interdisciplinar, considerando tanto fundamentos teóricos e técnicos quanto demandas emergentes da sociedade. Isso exige aprimoramento nos meca- nismos de avaliação para torná-los mais sensíveis à diversidade e instrumentalizar profissionais na investigação e intervenção em contextos como o das pessoas com restrições sensoriais. O desenvolvimento de metodologias inovadoras em avaliação psicológica e neu- ropsicológica é essencial para adaptar a prática profissional às complexidades indi- viduais e grupais. Testes padronizados, baseados em habilidades verbais e visuais, frequentemente dependem da integridade sensorial, o que compromete sua validade para pessoas com deficiência visual ou auditiva. Indivíduos com deficiência visual enfrentam desafios em tarefas que exigem percepção espacial e reconhecimento visual, 50 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão enquanto a deficiência auditiva pode impactar significativamente o processamento fonológico e a compreensão verbal. Pessoas com restrições sensoriais, entretanto, frequentemente desenvolvem mecanismos compensatórios, refletindo a plasticidade neural. Pessoas com deficiên- cia visual aprimoram a memória verbal e o processamento tátil, com recrutamento de áreas corticais visuais para funções alternativas, como percepção auditiva e tátil (Silva et al., 2018). Pessoas com surdez congênita apresentam diferenças no proces- samento linguístico e nas funções executivas, influenciadas pelo uso da Língua de Sinais (Hall et al., 2018). Estudos indicam que essas pessoas apresentam vantagens em habilidades visuoespaciais e padrões diferenciados na ativação de áreas corticais associadas à linguagem (MacSweeney et al., 2008). Além disso, a privação auditiva afeta determinados processos cognitivos como a atenção e a memória de trabalho, pois apresenta maior dependência de pistas visuais na comunicação (Powell et al., 2022). Diante dessas particularidades, cria-se uma lacuna crítica na avaliação cognitiva de indivíduos com restrições sensoriais, pois os instrumentos padronizados frequentemente não contemplam as especificidades dessa população. A ausência de adaptações metodo- lógicas pode introduzir um viés significativo na mensuração do desempenho cognitivo, comprometendo a validade e a precisão diagnóstica (Hill-Briggs et al., 2007). Testes desenvolvidos para a população em geral podem tanto superestimar quanto subestimar habilidades cognitivas específicas, resultando em interpretações distorcidas sobre o fun- cionamento neuropsicológico e, consequentemente, em decisões clínicas inadequadas. Nesse contexto, a adaptação de instrumentos avaliativos não deve ser vista apenas como uma estratégia compensatória, mas como uma exigência metodológica essencial para garantir a equidade na avaliação neuropsicológica. Órgãos internacionais, como a American Psychological Association (APA, 2020), já enfatizam a necessidade de se flexibilizar a aplicação dos testes, incluindo-se modificações na apresentação dos estímulos, no formato das respostas, na alocação de tempo, no ambiente de testagem e, sempre que viável, no uso de instrumentos alternativos que assegurem uma men- suração mais fidedigna das funções cognitivas avaliadas. Posto isso, evidencia-se que a adequação dos procedimentos avaliativos não apenas favorece uma compreensão mais precisa das capacidades cognitivas das pessoas com res- trições sensoriais, mas também contribui para a construção de um modelo de avaliação mais inclusivo e eticamente responsável, alinhado com os princípios da neuropsicologia contemporânea. Assim, a Neuropsicologia e outras áreas da avaliação psicológica devem incorporar métodos que respeitem essas singularidades, promovendo abordagens mais inclusivas e culturalmente sensíveis na avaliação cognitiva de populações com restrições sensoriais, considerando outros fatores como expostos na Figura 1. Figura 1 - Fatores a serem considerados na avaliação neuropsicológica em diferentes demadas | Fonte: Elaborada pelo autor. 51 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão Conforme ilustrado na Figura 1, a avaliação neuropsicológica requer, indepen- dentemente da demanda, a coleta sistemática de informações por meio de entrevistas abrangentes. Esse processo deve contemplar variáveis contextuais como o ambiente e o contexto social, bem como aspectos do desenvolvimento e particularidades neu- ropsicológicas do indivíduo. Dessa forma, a análise deve considerar desde habilidades psicomotoras e linguísticas até processos emocionais, eficiência intelectual e desem- penho das funções cognitivas, garantindo uma compreensão integrada e aprofundada do funcionamento neuropsicológico. estratégias para avaliação neuropsicológica adaptada A avaliação neuropsicológica desempenha um papel crucial na identificação de déficits e potencialidades cognitivas, sendo fundamental para delinear estratégias de intervenção eficazes. No entanto, pessoas com restrições sensoriais apresentam desa- fios específicos que exigem adaptações metodológicas e instrumentais para garantir uma avaliação justa e representativa de suas capacidades cognitivas. Nesse sentido, a avaliação neuropsicológica deve ser compreendida como um processo investigativo sis- temático, que possibilita uma compreensão dimensional do funcionamento cognitivo, emocional e comportamental do indivíduo. Esse processo não apenas identifica fragili- dades, mas também reconhece habilidades compensatórias e potenciais, permitindo a proposição de intervenções mais adequadas e personalizadas. A Figura 2 apresenta de forma esquematizada o processo para realização de uma avaliação neuropsicológica. Figura 2 – Fluxo da avaliação neuropsicológica | Fonte: elaborada por Antonio de Pádua Serafim ADAPTAÇÃO DE INSTRUMENTOS AVALIATIVOS A adequação dos instrumentos de avaliação é um dos pilares fundamentais para garantir acessibilidade e precisão na mensuração das funções cognitivas em pessoas com restrições sensoriais. A neuropsicologia tradicionalmente utiliza testes padro- nizados que, muitas vezes, pressupõem habilidades visuais e auditivas intactas, o que pode comprometer a validade da avaliação quando aplicada a indivíduos com deficiências sensoriais. 52 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão Para suprir essa lacuna, é essencial desenvolver e validar testes neuropsicológicos que sejam sensorialmente acessíveis, sem comprometer sua validade ecológica e psi- cométrica. Isso pode envolver a substituição de estímulos predominantemente visuais por estímulos táteis ou auditivos, bem como o uso de linguagens alternativas, como Braille ou Língua Brasileira de Sinais (Libras). Além disso, é fundamental que esses instrumentos sejam submetidos a processos rigorosos de normatização, garantindo que os resultados obtidos reflitam de maneira fidedigna as habilidades cognitivas avaliadas e não sejam influenciados pelas barreiras impostas pela deficiência sensorial. Estudos indicam que testes adaptados, como a versão háptica de avaliações visuais para pessoas cegas, possibilitam uma análise mais precisa das funções executivas, memória e atenção (Bathelt et al., 2018). Já em populações com deficiência auditiva, instrumentos que consideram o impactoda privação auditiva no desenvolvimento da linguagem e da memória verbal são fundamentais para evitar vieses interpretativos (Hall et al., 2019). UTILIZAÇÃO DE TECNOLOGIAS ASSISTIVAS O avanço das tecnologias assistivas apresenta novas possibilidades para a avalia- ção neuropsicológica adaptada, permitindo maior acessibilidade e fidedignidade nos resultados. Os softwares de leitura de tela e o uso da audiodescrição possibilitam que indivíduos com deficiência visual acessem testes tradicionalmente dependentes de estímulos gráficos, enquanto dispositivos hápticos (relativos ao tato) permitem a simulação de tarefas cognitivas por meio do estímulo tátil. A realidade virtual, por sua vez, tem sido explorada como um recurso inovador para a avaliação neuropsicológica, permitindo a criação de ambientes tridimensionais adaptados às necessidades de pessoas com restrições sensoriais. Estudos recentes apon- tam que o uso de realidade virtual pode ser eficaz na avaliação de funções executivas e navegação espacial em indivíduos com deficiência visual congênita, evidenciando padrões compensatórios de processamento espacial (Lahav; Schloerb; Srinivasan, 2015). Além disso, tecnologias de inteligência artificial e aprendizado de máquina estão sendo incorporadas a avaliações neuropsicológicas assistidas por computador, permi- tindo análises mais detalhadas do desempenho cognitivo e reduzindo interferências causadas por limitações sensoriais. Dessa forma, a tecnologia assistiva amplia signi- ficativamente a precisão e acessibilidade da avaliação neuropsicológica em populações com restrições sensoriais. TREINAMENTO DE PROFISSIONAIS Para uma avaliação neuropsicológica adaptada eficaz, neuropsicólogos devem estar capacitados para compreender as restrições sensoriais e suas implicações cog- nitivas. O treinamento deve abranger teoria e prática, incluindo neuroplasticidade em deficiências sensoriais, comunicação alternativa (Libras e Braille) e o uso de tec- nologias assistivas. Profissionais que reconhecem habilidades compensatórias desses indivíduos conduzem avaliações mais precisas, minimizando vieses e garantindo um processo mais justo e representativo. 53 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão conclusão A Psicologia, como ciência e prática voltada à avaliação do comportamento humano, aplica seus princípios, métodos e conhecimentos científicos para diagnosticar, tratar, modificar e prevenir dificuldades que impactam a adaptação e o bem-estar do indivíduo. Essas dificuldades podem se manifestar em diferentes dimensões, incluindo aspectos físicos, cognitivos, emocionais, sensoriais e sociais, os quais influenciam o desenvolvimento humano ao longo do ciclo vital. Assim, a prática da avaliação psicológica exige do(a) profissional não apenas um conhecimento aprofundado sobre os fundamentos teóricos e metodológicos subjacen- tes aos instrumentos psicológicos, mas também uma compreensão abrangente do fun- cionamento psicológico normal e patológico das pessoas (Gazzaniga; Halpern, 2016). Para isso, torna-se essencial um domínio consistente de áreas como Psicopatologia, Psicologia do Desenvolvimento, personalidade (abrangendo tanto traços quanto transtornos), Psicologia Cognitiva (incluindo atenção, memória, pensamento e outros processos psicológicos) e técnicas avançadas de avaliação psicológica (Serafim; Rocca, 2021). A integração dessas perspectivas não apenas qualifica a prática do(a) psicólo- go(a), mas também amplia a compreensão sobre os desafios psicológicos enfrentados pelos indivíduos em diferentes realidades sociais, possibilitando, assim, intervenções mais eficazes e contextualizadas. A avaliação neuropsicológica de pessoas com restrições sensoriais é complexa e essencial para a prática clínica, social e educacional. A adaptação de instrumentos, o uso de tecnologias assistivas e a capacitação profissional são fundamentais para se garantir avaliações precisas e equitativas. Testes tradicionais não captam as capaci- dades dessa população, tornando-se necessário o desenvolvimento de instrumentos específicos que ajustem modalidades de apresentação e resposta como métodos táteis, auditivos ou visuais adaptados. referências AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. Task Force on Psychological Assessment and Evaluation Guidelines. APA Guidelines for Psychological Assessment and Evaluation. 2020. Disponível em: https://www.apa.org/about/policy/guidelines- -psychological-assessment-evaluation.pdf. BATHELT, J. et al. Executive abilities in children with congenital visual impairment in mid-childhood. Child Neuropsychology: a journal on normal and abnormal deve- lopment in childhood and adolescence, v.24, n.2, p.184-202, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.1080/09297049.2016.1240158 BRUNNBERG, E.; LINDÉN-BOSTRÖM, M.; BERGLUND, M. Tinnitus and hearing loss in 15–16-year-old students: mental health symptoms, substance use, and exposure in school. International Journal of Audiology, v.47, n.11, p.688-94, 2008. Disponível em: https://doi.org/10.1080/14992020802233915. https://www.apa.org/about/policy/guidelines-psychological-assessment-evaluation.pdf https://www.apa.org/about/policy/guidelines-psychological-assessment-evaluation.pdf https://doi.org/10.1080/09297049.2016.1240158 Https://doi.org/10.1080/14992020802233915 54 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão EMERSON, E. et al. Intellectual and physical disability, social mobility, social inclusion, and health: Background paper for the World Health Organization’s World Report on Disability. World Health Organization, 2011. Disponível em: https://www.who. int/publications/i/item/9789241564182. GAZZANIGA, M.; HALPERN, D. Psychological Science. 5.ed. New York: W.W. Norton. 2016. GREVEN, C. U. et al. Sensory Processing Sensitivity in the context of Environmental Sensitivity: A critical review and development of research agenda. Neuroscience and Biobehavioral Reviews, v.98, p.287-305, 2019. https://doi.org/10.1016/j. neubiorev.2019.01.009 HALL, M. L. et al. Executive Function in Deaf Children: Auditory Access and Language Access. Journal of speech, language, and hearing research: JSLHR, v.61, n.8, p.1970-88, 2018. https://doi.org/10.1044/2018_JSLHR-L-17-0281 HALL, W. C. et al. Deaf children need language, not (just) speech. First Language, v.39, n.4, p.367-95, 2019. https://doi.org/10.1177/014272371983 HILL-BRIGGS, F. et al. Neuropsychological assessment of persons with physical dis- ability, visual impairment or blindness, and hearing impairment or deafness. Archives of Clinical Neuropsychology, v.22, n.3, p.389-404, 2007. https://doi.org/10.1016/j. acn.2007.01.013. JAISWAL, A.; FRASER, S.; WITTICH, W. Barriers and Facilitators That Influence Social Participation in Older Adults with Dual Sensory Impairment. Front. Educ, v.5, n.127, 2020. https://doi:org/ 10.3389/feduc.2020.00127 KIRKBRIDE, J. B. et al. The social determinants of mental health and disorder: evidence, prevention and recommendations. World Psychiatry: official journal of the World Psychiatric Association (WPA), v.23, n.1, p.58-90, 2024. https://doi. org/10.1002/wps.21160 LAHAV, O.; SCHLOERB, D.; SRINIVASAN, M. Virtual Environments for People who Are Visually Impaired Integrated into an Orientation and Mobility Program. Journal of Visual Impairment & Blindness, v.109, n.1, p.5-16, 2015. https:// doi.org/10.1177/0145482X1510900102 LIVINGSTONE, K.; SRIVASTAVA, S. Up-regulating and down-regulating positive emotions: Emotion regulation strategies in everyday life, adjustment, and well-being. Emotion, v.18, n.2, p.174-86, 2018. https://doi.org/10.1037/emo0000325 MACSWEENEY, M. et al. The signing brain: the neurobiology of sign lan- guage. Trends in Cognitive Sciences, v.12, n.11, p.432-40, 2008. https://doi. org/10.1016/j.tics.2008.07.010 MERABET, L.; PASCUAL-LEONE, A. Neural reorganization following sensory loss: theopportunity of change. Nature reviews. Neuroscience, v.11, n.1, p.44-52, 2010. https://doi.org/10.1038/nrn2758 https://www.who.int/publications/i/item/9789241564182 https://www.who.int/publications/i/item/9789241564182 https://www.amazon.com/Michael-S-Gazzaniga/e/B00JA616NU/ref=dp_byline_cont_book_1 https://www.amazon.com/s/ref=dp_byline_sr_book_2?ie=UTF8&field-author=Diane+Halpern&text=Diane+Halpern&sort=relevancerank&search-alias=books https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2019.01.009 https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2019.01.009 Https://doi.org/10.1044/2018_JSLHR-L-17-0281 https://doi.org/10.1177/0142723719834102 https://doi.org/10.1016/j.acn.2007.01.013 https://doi.org/10.1016/j.acn.2007.01.013 https://loop.frontiersin.org/people/951598 https://loop.frontiersin.org/people/206917 https://loop.frontiersin.org/people/743645 https://doi:org/ 10.3389/feduc.2020.00127 https://doi.org/10.1002/wps.21160 https://doi.org/10.1002/wps.21160 https://doi.org/10.1177/0145482X1510900102 https://doi.org/10.1177/0145482X1510900102 https://doi.org/10.1037/emo0000325 https://doi.org/10.1016/j.tics.2008.07.010 https://doi.org/10.1016/j.tics.2008.07.010 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=%22Merabet%20LB%22%5BAuthor%5D https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=%22Pascual-Leone%20A%22%5BAuthor%5D https://doi.org/10.1038/nrn2758 55 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão POWELL, D. S. et al. Hearing Loss and Cognition: What We Know and Where We Need to Go. Frontiers in Aging Neuroscience, v.13, 769405, 2022. https://doi. org/10.3389/fnagi.2021.769405 RODRIGUES, P. M. F.; DELERUE-MATOS, A. The effect of social exclusion on the cognitive health of middle-aged and older adults: A systematic review. Archives of Gerontology and Geriatrics, v.130, 105730, 2025. https://doi.org/10.1016/j. archger.2024.105730 SERAFIM, A. de P.; ROCCA, C. C. A. Avaliação neuropsicológica ao longo da vida. In: MIGUEL, E. C. et al. (Org.) Clínica Psiquiátrica: Os fundamentos da psiquiatria. 2.ed. Barueri-SP: Manole, 2021. v.1, p.349-60. SERAFIM, A. de P.; MORAES, A. J. J.; SAFFI, F. Testes Neuropsicológicos. In: GUIMARÃES, L. D. A. (Org.) Manual de Perícia Psicológica Forense: Fundamentos e metodologias. São Paulo: Editora Vetor, 2024. v.1, p.479-97. SILVA, P. R. et al. Neuroplasticity in visual impairments. Neurology International, v.10, n.4, 7326, 2018. https://doi.org/10.4081/ni.2018.7326 THOITS, P. A. Stress and health: Major findings and policy implications. Journal of Health and Social Behavior, v.51, n.1 (suppl), S41-S53, 2010. https://doi. org/10.1177/0022146510383499 https://doi.org/10.3389/fnagi.2021.769405 https://doi.org/10.3389/fnagi.2021.769405 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=Rodrigues+PMF&cauthor_id=39731813 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=Delerue-Matos+A&cauthor_id=39731813 https://doi.org/10.1016/j.archger.2024.105730 https://doi.org/10.1016/j.archger.2024.105730 http://lattes.cnpq.br/8816931104732445 https://doi.org/10.4081/ni.2018.7326 Https://doi.org/10.1177/0022146510383499 Https://doi.org/10.1177/0022146510383499 56 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão Escrever entre línguas: ortografia e outridades no português língua de herança Andreia Sanchez Moroni apresentação Este capítulo apresenta uma reflexão sobre as particularidades da escrita que deveriam nos atravessar quando buscamos trabalhar o letramento com crianças e jovens usuários do Português como Língua de Herança (PLH). Para isso, me basearei em dados de um projeto de pesquisa1 que acompanhou 9 alunos residentes na Alemanha, na Itália e na Espanha, em aulas de PLH on-line, focadas no letramento e na formação literária, e na experiência das I e II Olimpíadas de PLH (OPLH) de Barcelona (Moroni et al., 2023), realizadas em 2021 e 2022, as quais incluíram elaborar uma redação. Partimos do entendimento de que uma Língua de Herança (LH) é uma língua minoritária deslocada (Van Deusen-Scholl, 2014; Moroni, 2017). Deslocada geogra- ficamente, no caso dos grupos migrantes, como os brasileiros que residem no exterior, ou deslocada de majoritária a minoritária por pressões externas, por exemplo, quando o português passa a ser usado pelas novas gerações de grupos antes falantes de uma língua originária. Fato é que, se há língua de herança, ela estará sempre em contato com outra ou outras línguas majoritárias. Sendo assim, para pensarmos como um usuário de LH irá escrever na LH, deve- mos ter presentes dois aspectos: primeiro, essa pessoa é um sujeito plurilíngue, pois, além de sua LH, sabe outra língua, e, segundo, a língua que sabe melhor costuma ser a língua majoritária – não a língua de herança (Moroni, 2017). Para as crianças e jovens nos quais nos centraremos aqui, os de origem brasileira que residem no exterior, o habitual é se escolarizarem na língua majoritária de onde moram – não em portu- guês. Logo, suas práticas sociais de escrita e leitura (Chartier, 2001) serão muito mais frequentes e extensas em sua língua de escolarização – e não em português. Tal como pode ocorrer na língua oral, a produção escrita dessas crianças e jovens apresentará marcas de plurilinguismo ou de translinguagem (Canagarajah, 2013; García; Wei, 2014; Gomes; Harada, 2021), o que não é apenas uma questão linguística, mas revela suas vivências e sua identidade como sujeitos que transitam entre culturas. Para um falante de português como língua materna, como quem cresceu e viveu no Brasil nesse contexto a vida toda, as produções linguísticas do usuário de PLH podem causar estranhamento. Isso porque, nesses registros plurilíngues, pode haver, entre outros fenômenos: 1 “Letramentos em português como língua de herança: literatura e literacia”, PI 80/2022 da Universidad Internacional de La Rioja – Unir, do qual a autora é a investigadora principal. O projeto acompanhou 9 alunos que frequentaram aulas entre 2020 e 2023 por ao menos dois anos e continua a acompanhar 2 alunos que ainda as frequentam. Ao iniciar as aulas, os alunos tinham entre 7 e 9 anos. 57 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão • Inadequações sintáticas, quando há interferência da língua majoritária na sintaxe do português, por exemplo, quando alguém diz “eu gosto da amarela camiseta”, por interferência do inglês, língua em que os adjeti- vos precedem os substantivos, e não “eu gosto da camiseta amarela”, o que seria a ordem mais natural em português; • Empréstimos lexicais, em construções como “tenho que aparcar” (pois “aparcar” é “estacionar” em espanhol), “vou brincar com minha puppe- tona” (pois poupée é boneca em francês – aqui o radical francês é uti- lizado com o sufixo aumentativo -ona do português); • Na língua falada, também marcas da prosódia e de aspectos fonético-fo- nológicos da língua majoritária, o que muitos identificam como “sotaque”; • E, na língua escrita, inadequações ortográficas dos mais diversos tipos, já que há uma tendência do usuário de PLH em aplicar o sistema orto- gráfico da língua majoritária ao da LH, no caso de pouca ou nenhuma instrução formal na segunda. É sobre esse último fenômeno, o da ortografia, que iremos nos deter nesta reflexão, não sem pensar no que isso tem a nos revelar sobre identidades, outridades e o que não se pode escamotear numa LH. as crenças limitantes dos familiares adultos sobre a escrita em plh Saber escrever na língua parece ser uma preocupação no contexto dos usuários de PLH. De fato, em pesquisa anterior com familiares de crianças brasileiras que fre- quentavam aulas de português numa associação de PLH na Catalunha (Moroni, 2017), os participantes do grupo focal manifestaram que falar, mas não saber escrever, seria como se a língua “não servisse pra nada”, “não é conhecer a língua” e “é equivalente a ser analfabeto”, como se observa no registro a seguir. Ou seja: saber falar não basta para ser capaz de escrever. PARTICIPANTE 4: Eu mepreocupo que eles aprendam a escrever. PARTICIPANTE 5: É o conhecimento formal da língua, não o conhe- cimento do uso, porque, afinal, se você não tem o conhecimento formal da língua, é equivalente a ser analfabeto. [...] PARTICIPANTE 4: É como se não servisse pra nada. Ou seja, eles não teriam acabado de aprender a língua, de ser brasileiros. [...]. PARTICIPANTE 5: …no mundo do trabalho […], conhecer só os rudimentos da língua, ou só a modalidade falada, não é conhecer a língua... e por exemplo, nós aqui... PARTICIPANTE 6: É conhecer um 80% da língua. (Moroni, 2017, p.187) Pude observar percepções semelhantes ao conversar com familiares de participantes em potencial das Olimpíadas de PLH de Barcelona, um concurso cultural pensado para crianças e jovens de até 15 anos que incluía, entre outras tarefas, uma redação para os que já soubessem ler e escrever em sua língua de escolarização, o espanhol e/ou catalão. 58 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão Mesmo que as Olimpíadas tivessem sido cuidadosamente pensadas para o público de PLH, considerando suas especificidades (as línguas em contato, a educação na ou nas línguas majoritárias, a proximidade do catalão e do espanhol ao português, a possi- bilidade de que o participante nunca tenha recebido instrução formal em português) (Moroni et al, 2023), diversas mães e pais reagiram inicialmente com a negativa de que seus filhos participassem, pois “não sabem escrever em português”. Em alguns casos, tratava-se de crianças e jovens com boa fluência oral na LH e com bom desempenho escolar, condições que deveriam ser suficientes, acreditava-se, para realizar a tarefa de produção de texto em português2. Se essas crianças e jovens sabem escrever textos em catalão e espanhol, organi- zando suas ideias e atendendo às especificidades de gêneros textuais variados (carta, bilhete, opinião pessoal etc.) e sabem falar bem português, não seriam capazes de escrever um texto em português? O que falta, nesse imaginário dos familiares adultos, para acreditar que seus pequenos usuários de PLH sejam capazes de executar uma tarefa de redação em português? Como se verá, essas percepções estão relacionadas a um domínio adequado da ortografia padrão da língua – como se, para escrever bem, tudo dependesse disso. a ortografia e a “invenção” de uma língua Mas o que é a ortografia num sistema de escrita? As línguas de sistema de notação alfabético (Morais; Teberosky, 1994) tentam representar graficamente os sons da fala – o que não ocorre, por exemplo, com os ideogramas chineses. Tentam porque, no português, assim como em muitas outras línguas, esse sistema não é perfeito e exato, mas apresenta muitas irregularidades (Oliveira; Morais, 2016). Por que “casa” se escreve com S e não com Z? Porque “ joelho” se escreve com J, mas “geada”, com G, se o som é o mesmo? Por que “hoje” precisa de um H que não tem som no início, mas “ontem” não? Haverá explicação para diversos desses casos mas não para todos – se esmiuçarmos a etimologia das palavras ou se observarmos que algumas delas são contextuais, ou seja, a forma de grafar depende das letras vizinhas: a letra G soa como /ʒ/ se depois vem o E (como em GElo), mas como /g/ se há um U entre G e E como em GUErra. Enfim, o que essa reflexão nos recorda é que a correspondência entre grafemas e fonemas não é tão óbvia e a ortografia, esse modo de representar com letras os sons, não passa de uma convenção. Outro lembrete: de acordo com o Ethnologue, 3.011, das 7.164 línguas vivas do mundo, ou 42% delas, não têm um sistema de escrita (Eberhard; Simons; Fennig, 2024). E, das que têm, muitas não terão ainda estruturado tudo aquilo que lhes dá estabilidade, convenções e normas: livros de gramática que, num primeiro momento, descrevam as normas da língua (ou, mais provavelmente, de uma de suas variantes, a qual gozará de mais prestígio por estar dotada dessa sistematização) e, num segundo momento, prescrevam, quer dizer, orientem como a língua deve ser usada, estipulando o que é “certo” ou “errado”; também os dicionários, que irão definir a grafia, essa cor- respondência entre som e símbolo, de cada termo, além de determinar quais são as palavras que pertencem à língua; também as Academias de Letras, responsáveis, entre 2. A respeito das semelhanças do catalão com o português, ver Comellas (2023), e, sobre as semelhanças do espanhol com o português, ver Godoy (1997). 59 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão outras questões, por discutir a incorporação de novas palavras, reformas ortográficas e outras questões que... padronizam e dão forma à norma da língua. Todas essas estruturas – criadas, inventadas, sistematizadas, e não algo que seja natural e inerente a um idioma – estabilizam a língua e convidam seus usuários letra- dos a usá-la assim, do “ jeito certo” (nunca do “geito serto”), para que continuemos a nos entender melhor, por mais tempo e em mais espaços. São tentativas de conter os processos de evolução e mudança das línguas, tão vivas, tão dinâmicas, tão sujeitas a gostar de neologismos ou se deixar influenciar por modismos de línguas-colegas vizinhas ou muito populares, entre outros. O português, a oitava língua com mais falantes no mundo e uma das mais usadas na internet (Eberhard; Simons; Fennig, 2024), é uma língua muito sistematizada, diferente de línguas orais ou que estão em processo de sistematização. Dominar as normas que compõem essa estrutura, entre elas a ortografia, funciona como um ele- mento de prestígio para o falante da língua: é algo associado à alta escolaridade, à cultura e a outras esferas de poder dos que controlam não só a ortografia, mas leis, decisões econômicas e outras questões que afetam aqueles que compartilham esse espaço-língua. E não dominar a ortografia padrão do português – ameaçada, nos contextos de PLH, pela sombra de outras convenções ortográficas que o usuário da língua conhece – delata, muito rapidamente, esse desacordo com tantas convenções. A questão é saber se os desvios da ortografia padrão impossibilitam escrever em PLH ou estão apenas desautorizados – e impedidos de existir – no imaginário dos usuários letrados da língua portuguesa. não saber ou não ter a oportunidade de escrever em português? Mas e as crianças e jovens usuários de PLH se sentem capazes diante do desafio de escrever em sua LH? Até o momento, pude observar, pelo grupo de nove alunos estu- dados frequentando aulas de português, que, para os alunos que iniciaram as aulas com 9-10 anos, as primeiras tarefas formais de escrita geraram mais desconforto. Os próprios alunos, por nunca terem feito uma tarefa escolar de produção escrita nessa língua, também achavam que “não sabiam” escrever em português e se sentiam inseguros para dar o passo inicial. Por outro lado, quando a prática da escrita em português se iniciou mais cedo, por volta dos 7-8 anos, quando as crianças ainda estão terminando o processo de aquisição da leitura e escrita na língua majoritária na escola e, portanto, talvez mais abertas e acostumadas às correções ortográficas dos professores, menos parecem se preocupar com saber ou não escrever em PLH e realizaram a tarefa com mais tranquilidade. O que se observou nas aulas foi que todos conseguiram realizar tarefas de pro- dução de texto em português, porém com inadequações ortográficas que revelam processos de transferência do sistema de representação de fonemas em grafemas de sua língua majoritária – esse grande “outro” que assombra. A extensão do texto e sua complexidade também dependem do nível cognitivo do aluno e do quanto e do que são capazes de produzir em sua língua de escolarização: alunos de sete anos têm menos domínio de leitura e escrita (em qualquer língua de seu repertório) e produzirão textos 60 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão mais simples quealunos de dez anos. Fatores como a fluência em português e domínio léxico na LH também impactam o resultado. Sem dúvida, há transferências e interferências em nível ortográfico: alunos falan- tes de alemão escreveram “um gato schamado Samba”, “sangi” (e não “sangue”), usaram a letra K com frequência em vez do C e utilizaram letras maiúsculas nos substantivos, por exemplo. Alunos falantes de italiano grafaram palavras como “que” e “é” tal como no italiano: “che” e “è”, além de grafar o dígrafo do português NH como GN: “cam- pagna”. Os que falam espanhol, com frequência escreveram “y” para a conjunção “e”, utilizaram N em vez de M no final de palavras e acentuaram (ou deixaram de usar o acento gráfico) de acordo com sua língua majoritária (sendo o acento a única diferença nessas línguas ao grafar palavras como “sabía/sabia”, “historia/história” etc.). Aos pou- cos, com a exposição a mais leituras, prática da escrita e processos de revisão de texto, alunos que frequentam aulas de PLH vão adquirindo as convenções ortográficas do português (ver, a esse respeito, Moroni, 2023). O que se observou na experiência das I e II Olimpíadas de PLH de Barcelona, em termos da ortografia, foi parecido: tentativas de representar foneticamente o português falado com hipóteses de escrita que incorporam os conhecimentos das línguas de esco- larização (catalão e espanhol) e elementos próprios do português em aquisição: “chego” em vez de “chegou”, “arrois com feijau”, “Tambenh gosto de estrogonofi”. Inadequações ortográficas, sim, e abundantes, pois não se adquire a ortografia padrão de uma língua sem errar muito, e os erros serão mais frequentes quanto menos exposição houver à língua escrita – voltamos a recordar, aqui, que o PLH é língua minoritária. Há que destacar, no entanto, que, apesar das inadequações ortográficas – diferentes das de quem aprende a escrever em português como língua materna comete, pois revelam o “outro”, a presença do sistema de notação alfabética de outra língua –, os 13 participan- tes da I OPLH e 16 da II OPLH que compareceram à prova de redação conseguiram realizar a tarefa. Cumpriram o enunciado de modo adequado, desenvolveram o texto dentro da extensão solicitada e não houve folhas em branco entregues. Esse resultado nos urge a refletir sobre o que é escrever em PLH: mais que ortografia, é aprender a ler na sombra do outro. “estamos aqui para aprender” Na sombra de uma escrita que se manifesta com transferências das línguas majo- ritárias, as produções de texto dos usuários de PLH aqui comentadas revelam, nos contextos mencionados, crianças e jovens capazes de compreender os enunciados sobre os quais deveriam escrever, capacidade de organizar suas ideias por escrito, conheci- mento de gêneros textuais diversos e a possibilidade de expressar seus saberes sobre o universo de suas vivências em português. Tudo isso é necessário para escrever – e não só a ortografia. E tudo isso existe, em parte, graças ao “outro”: é no outro sistema linguístico que, em sua escolarização, aprenderam o que não é específico do PLH e podem aplicá-lo ou transferi-lo em suas incursões pela escrita em PLH. Há, também, desejo e motivação. E o convite para que, com processos de revisão significativos dos quais os autores dos textos participem, como os que culminaram em publicações (Moroni, 2023; Moroni; Pereira, 2023), o caminho para a ortografia padrão se transforme em brilho e retire o “outro”, a sombra da língua majoritária, para 61 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão a coxia – pois ambos os idiomas terão que dividir o palco das letras. Que a sombra de outro sistema de notação alfabética, o majoritário, não nos impeça de ver que a escrita na língua de herança pode existir: é potência, é possibilidade, só precisa de oportuni- dades para acontecer, como nos revela Mônica, de 11 anos, participante das I OPLH3: Eu comecei a falar português com três anos, [...] Da literatura já li alguns livros que o meu pai traz para mim do Brasil e eu gosto muito das palavras que se usam nos livros. Algumas não entendo, é claro, mas estamos aqui para aprender. Também não tenho nem ideia de como escrever em português, mas estou aqui para aprender. (Moroni; Pereira, 2023, p.57) referências CANAGARAJAH, S. Translingual Practice: Global Englishes and Cosmopolitan Relations. New York: Routledge, 2013. CHARTIER, R. Práticas da leitura. 2.ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2001. COMELLAS, P. Portuguès per a catalanoparlants. Argentona: Voliana Edicions, 2023. EBERHARD, D. M.; SIMONS, G. F.; FENNIG, C. D. (Org.) Ethnologue: Languages of the World. 27.ed. Dallas, Texas: SIL International, 2024. Disponível em: http:// www.ethnologue.com. Acesso em: 30 jan. 2025. GARCÍA, O.; WEI, L. Translanguaging: Language, Bilingualism and Education. Hampshire: Palgrave Macmillan, 2014. GODOY, E. Ensino do português como segunda língua: que fazer? Letras, n.47, p.131-40, 1997. GOMES, J. A.; HARADA, A. S. A translinguagem no ensino de uma língua de herança: Proposta metodológica para contextos de línguas em contato. Revista Interdisciplinar em Estudos de Linguagem, v.3, n.2, p.21-39, 2021. MORAIS, A. G. de; TEBEROVSKY, A. Erros e transgressões infantis na ortografia do português. Discursos, n.8, p.15-51, 1994. MORONI, A. S. Português como língua de herança na Catalunha: representações sobre identificação, proficiência e afetividade. Campinas, 2017. Tese (Doutorado) – Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas. _______. “Um dia uma pessoa com uma espada cortou o ar e criou um portal que me sugou”: itinerário de escrita criativa como caminho para o letramento em Português Língua de Herança. In: LIRA, C.; MORONI, A. S.; AZEVEDO-GOMES, J. (Org.) O POLH na Europa: Português como Língua de Herança. Lisboa: Sagarana, 2023. v.4 – Espanha, p.460-509. MORONI, A. S. et al. Olimpíadas do Português como Língua de Herança: relato de experiência e desafios. Horizontes de Linguística Aplicada, v.22, n.2, p.1-19, 2023. 3. Esta é a versão revisada do texto, publicada em livro, mas nunca houve dúvidas sobre o que Mônica escreveu e do brilho de suas palavras originais com inadequações ortográficas. http://www.ethnologue.com http://www.ethnologue.com 62 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão MORONI, A. S.; PEREIRA, V. T. Eu Sou um pouco de cada um: narrativas de bra- sileirinhos e brasileirinhas da Espanha. Barcelona: Consulado-Geral do Brasil em Barcelona, 2023. OLIVEIRA, E.; MORAIS, A. Evolução nos conhecimentos de crianças sobre rela- ções entre fonemas e grafemas na escrita de palavras, após alcançarem uma hipótese alfabética. In: IV CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, Anais.... Ed. Realize, 2016. VAN DEUSEN-SCHOLL, N. Research on Heritage Language Issues. In: WILEY, T. G. et al. Handbook of Heritage, Community and Native American Languages in the United States. New York: Routledge, 2014. p.76-84. 63 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão Línguas de herança como produto do contato linguístico Camila de Lira Santos apresentação Em razão da crescente mobilidade social, muitas pessoas vivenciam sua língua e cul- tura fora das fronteiras de sua terra natal, transmitindo-as à sua família, especialmente aos seus filhos, no local onde vivem. Essas transformações globais colocam as línguas em contato umas com as outras e criam espaços para o uso plurilíngue da linguagem (Jungbluth, 2012). O contato linguístico pressupõe certas condições sociais e motiva- ções comunicativas que podem ser intrínsecas às condições comunitárias, individuais e linguísticas do processo de línguas em contato. Assim, um estudo detalhado sobre esse conceito considera tanto as condições externas (sociais e individuais) quanto as internas (linguísticas) que possibilitam esse contato, além de definir quais relações dentro do fenômeno do contatoe crítica nos estudos da linguagem: gerando inteligibilidades sobre temas contemporâneos Tânia Gastão Saliés 189 Os livros e as novas tecnologias no ensino de língua portuguesa: um estudo na EAC e no CEN em Moçambique Mônica Maria Soares Santos e Leonardo Mascarenhas Manuel 195 Inter-relações no contexto de aculturamento por meio da Casa Brasil Liechtenstein: expansão do contato linguístico Lucilene Lisboa Rehberg 201 Intimidade desencarnada: estudo da categoria ghosting à luz da análise sociocognitiva e crítica do discurso José Mauro Ferreira Pinheiro 205 Terror e humor na produção de memes na pandemia: um estudo sobre recategorização no enfrentamento da crise na saúde Carolina de Mello Decco 211 Aproximação às questões de assimilação de conteúdos e inibição de aprendizagem: caso do português na Guiné-Bissau Isnaba Tique 220 A multissensorialidade de pessoas cegas congênitas e a percepção de cores na audiodescrição de livros ilustrados Adriana da Paixão Santos 227 Autoeficácia: fundamentos e aplicações Ingrid de Lima Hernandes e Fraulein Vidigal de Paula 233 O impacto da conversação no desenvolvimento da produção oral em sala de aula Mônica Maria Soares Santos e Valissóvia Felizardo Alexandre Paiva 239 Metodologias ativas e aprendizagem criativa Priscila Ferreira de Alécio 244 Linguagem e ensino: proposta de prática pedagógica voltada para a diversidade linguística na sala de aula Elannia Cristhina Idelfonso Lins 250 Storytelling no ensino de língua portuguesa e suas metáforas Diana de Jesus Ribeiro 258 Lacan e a pulsão escópica no Estallido Social chileno: o desejo usurpado das vítimas de trauma ocular Monique Santana de Oliveira Sousa 265 Sobre os autores 11 apresentação geral Apresentação geral Cristina Lopomo Defendi, Maria Célia Lima-Hernandes, Fraulein Vidigal de Paula, Renata Barbosa Vicente e Mônica Maria Soares Santos (Organização e Coordenação geral) Esta obra em formato de e-book/audiobook é herdeira da realização de uma pesquisa e de um evento inéditos, conduzidos com o espírito de compartilhar conhecimentos e construir perspectivas inovadoras a respeito da cognição humana, com o propósito de ampliar percepções, acessos e equidades, de um modo especial voltados a pessoas com deficiência visual. Da mesma maneira, esta obra foi concebida para ser acessível e compreensível a diferentes públicos, criar oportunidades para o surpreendente e para o diálogo que promove mudanças verdadeiras em seus interlocutores. Os textos aqui reunidos em diferentes formatos derivam das apresentações e dis- cussões conduzidas durante o V Simpósio Internacional sobre Linguagem e Cognição (V LinCog), realizado sob os auspícios do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP). O tema central eleito foi “Diversidade, percep- ções, acessos e integração”. O LinCog, em sua quinta edição, assumiu, mais uma vez, um caráter agregador de diferentes públicos e perspectivas e de vanguarda, ao incor- porar inovações no modo de construir sua programação. Nesta última edição, ocorrida de 6 a 9 de novembro de 2024, reuniram-se pesquisadores de diversas ramificações do estudo da cognição e da linguagem humanas. A interdisciplinaridade foi garan- tida com a participação de representantes da Psicologia, da Linguística, da Medicina da Oftalmologia, das Neurociências, da Medicina Radiológica, da Fisioterapia, da Educação, da Engenharia da Computação, da Engenharia de Materiais, da Educação Física e Esportes, da Física, da Linguagem e da Medicina. Garantiu a intersetoria- lidade, ao oportunizar o encontro, a colaboração e diálogo entre diferentes setores governamentais e civis da sociedade, incluindo membros de instituições assistivas a pessoas com deficiência visual dos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, especial- mente do Instituto Benjamin Constant, gestores públicos governamentais e acadêmi- cos, jornalistas, pesquisadores, colaboradores participantes da pesquisa, professores, estudantes e demais interessados. A inspiração da temática escolhida para esta obra e para o V LinCog veio da realização de uma pesquisa, liderada pela Profa. titular Maria Célia Lima-Hernandes, guiada de um modo mais amplo pelas seguintes questões: O que as pessoas que não dispõem da visão desde idades tenras – denominados cegos congênitos – podem nos ensinar sobre o que estamos deixando de conhecer a respeito do nosso mundo e a respeito de nós mesmos (nossa cognição)? Como os cegos congênitos lidam com o pro- cessamento da linguagem, especialmente no reconhecimento auditivo e no julgamento de diferentes tipos de metáforas? E como o cérebro funciona durante a reavaliação dessa atividade em pessoas cegas e videntes? Como os saberes a respeito daquilo em que somos diversos pode nos ajudar a construir um modo de ser em sociedade que não deixe ninguém de fora ou em desvantagem? 12 apresentação geral Atualmente, o conhecimento científico que temos a respeito de fenômenos da linguagem e da cognição humanas apoia-se nos resultados de pesquisas majoritaria- mente conduzidas com a participação de pessoas típicas, sem quaisquer tipos de defi- ciência, predominantemente falantes e letrados em um dos mais de sete mil idiomas existentes. Desse modo, pesquisas e publicações que se dispõem a tomar em conta a diversidade de existências e as experiências humanas têm o potencial de contribuir para: (1) ampliar nosso entendimento a respeito dos mesmos fenômenos em popula- ções atípicas ou diversas; (2) bem como rever, refinar e aperfeiçoar os fundamentos teórico-metodológicos do conhecimento científico, de modo a torná-lo mais elegante e abrangente em seu potencial explicativo e preditivo destes mesmos fenômenos; (3) consequentemente, abrem-se caminhos para a novidade e a inovação no desenvolvi- mento de tecnologias aplicadas ao propósito de promover equidade no acesso à saúde integral, à aprendizagem, ao bem viver e conviver para todas as pessoas. Tais potencialidades também se ampliam quando diferentes disciplinas (interdis- ciplinaridade) da comunidade científica, diferentes setores governamentais e não-go- vernamentais (intersetorialidade) se encontram para colaborar, compartilhar saberes e dialogar em torno de soluções e inquietações. Para tanto, uma equipe multidisciplinar e intersetorial reunida tem se dedicado a essa pesquisa a partir do projeto intitulado “Recursos inferenciais na metáfora situada e audiodescrição – estudo contrastivo”, com financiamento pela Chamada Universal do CNPq/MCTI/FNDCT n.18/2021 – Faixa B – Grupos Consolidados Processo n.423337/2021-1, focado especialmente nos avanços obtidos no tema do processamento cognitivo correlacionado com o grau de complexidade linguística, bem como com o aprimoramento de técnicas e méto- dos. Para a sua realização foram firmadas parcerias com várias instituições que têm como propósito a atenção integral às pessoas cegas e com baixa visão. Para além do trabalho acadêmico, o foco recaiu também sobre um trabalho primoroso no campo da deficiência visual e da cegueira. Dessa forma, tivemos participações valiosas: da Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual Laramara; do Centro de Reabilitação Visual de São José do Rio Preto; do Comitê de Treinamento Paralímpico; da Fundação Dorina Nowill; do Instituto Jundiaiense Luiz Braille; do Instituto Santa Luzia de Itu; do Lar das Moças Cegas de Santos; da Organização dos cegos do Brasil; colocados aqui em ordem alfabética, pois todos têm igual importância na parceria firmada e nos trabalhos empreendidos antes, durante e após o V LinCog. Enquanto equipe, o encontro e a colaboração com pessoas comprometidas e insti- tuições parceiras que se voluntariaram para viabilizar o trabalho de campo da pesquisa nos surpreenderam e trouxeram contribuições enormes e de várias maneiras. Nesse tempo em que convivemos, também começamos a ganhar a compreensão dos desa- fios extraordinários impostos à pessoa cega e com baixa visãolinguístico podem ser analisadas considerando o objeto de estudo (cf. Földes, 2005). Entendem-se por condições externas a oferta de diferentes situações linguísticas, o local do contato linguístico, o apoio institucional e a pertença a um grupo linguístico, as quais muitas vezes servem como informações de base nas pesquisas e são analisadas sob a perspectiva da sociolinguística para explicar fenômenos linguísticos estruturais resultantes do contato entre línguas. A análise das línguas, por essas condições, é focada em diferentes áreas para exa- minar mais de perto os fenômenos do contato linguístico. Grupos inseridos em uma sociedade, redes sociais como o Facebook ou até mesmo desenvolvimentos individuais são observados para descrever o comportamento linguístico em uma determinada situação de contato. Hamers e Blanc (2000) lembram que um único fator social não influencia a produção linguística por si só, mas que as atitudes da comunidade em relação às línguas são determinantes para a produção e o comportamento linguístico. As autoras enfocam o contato linguístico à luz do bilinguismo e mencionam a teoria da linguística de contato como “the use of two or more codes in interpersonal and intergroup relations as well as the psychological state of an individual who uses more than one language” (Hamers; Blanc, 2000, p.6). Para elas, o uso de duas ou mais línguas é constante e, ao mesmo tempo, variável. Como o contato entre línguas (e as mudanças linguísticas associadas a ele) ocorre por meio de falantes bilíngues ou plurilíngues, os pontos de interseção entre o estudo do contato linguístico e o plurilinguismo são evidentes. Riehl (2014) critica o fato de que a expressão contato linguístico frequentemente seja usada em oposição ao termo multilinguismo, embora fenômenos específicos, como a alternância e a mistura de códigos (code-switching e code- mixing), sejam abordados tanto na pesquisa sobre contato entre línguas quanto no estudo do multilinguismo. Nesse sentido, o Conselho da Europa (2011) também considera o multilinguismo importante e o promove em combinação com competências culturais como um obje- tivo político, que não se limita apenas ao benefício econômico, mas também à evolução 64 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão plurilíngue do indivíduo. Assim, a aquisição de línguas não é mais vista apenas como o aprendizado e a aplicação das quatro habilidades – ouvir, falar, ler e escrever – em uma única língua, mas como o uso de uma ou mais línguas e suas variedades em dife- rentes situações (García, 2009). Elas “formam [...] conjuntamente uma competência comunicativa, à qual todos os conhecimentos e experiências linguísticas contribuem e na qual as línguas estão interligadas e interagem entre si” (Conselho da Europa, 2001). A relação entre as línguas é construída não apenas no âmbito social, mas também de forma individual; trata-se, portanto, de um construto individual baseado em fato- res sociais (como a cultura transmitida entre gerações) e, ao mesmo tempo, seu uso social é influenciado pelo entendimento individual. Para manter essa relação, deve haver um equilíbrio entre as línguas e suas funções nos diferentes níveis mencionados. Um conceito importante em relação a esse equilíbrio é o valor atribuído às línguas. Enxergar uma língua de forma positiva, segundo Hamers e Blanc (2000), não é apenas um instrumento de comunicação nos níveis social e individual, mas também um dos aspectos mais relevantes das línguas em contato, que deve ser estudado. Segundo Thomason (2008), a história de uma língua coincide com a história de seus falantes. A língua não é um fenômeno independente, mas sim um reflexo de quando e como fatores sociais influenciaram uma mudança linguística. Riehl (2014) descreve o multilinguismo como um processo dinâmico, que está sempre em movi- mento entre fases de estabilização das competências linguísticas e mudanças em seu repertório linguístico. Além disso, somente quando línguas se encontram em um nível social é que surgem transferências e interferências na comunicação, dependendo da função que as línguas assumem no momento do encontro. Uma pessoa plurilíngue e sua competência linguística se desenvolvem, portanto, ao longo de toda a vida, sendo essa competência influenciada pelos fatores citados acima e pelo status de uma língua na família, na escola e na sociedade (c.f Bialystok, 2009). É importante enfatizar que existem diferentes tipos de bi- ou plurilinguismo. As pessoas podem aprender línguas como línguas estrangeiras nas escolas, mas também por meio da vivência em um país cuja língua ainda não conhecem. Muitas vezes, o bilinguismo também surge em famílias onde os pais transmitem aos filhos sua língua materna, que não é a língua do ambiente em que vivem. Esse último tipo é denominado língua de herança. língua de herança Valdés (1995) oferece à expressão "Língua de Herança", doravante LH, uma explicação para a relação dos indivíduos bilíngues com sua língua, que não pode ser facilmente definida como língua materna, língua de migrantes, língua não dominante, língua do lar, entre outras. A autora define falantes de língua de herança como aqueles que apresentam uma conexão histórica e pessoal com essa língua. Ela se diferencia da língua dominante do ambiente, e as competências de um falante de língua de herança podem variar conforme suas experiências na aquisição da língua e no contato linguístico com outros falantes. Além disso, Valdés (2001) define o falante de língua de herança como aquele que foi criado em um lar onde se fala uma língua não inglesa, que fala ou apenas compreende a língua de herança e que é, em algum grau, bilíngue em inglês e na língua de herança. Geralmente, a LH é adquirida por crianças da segunda geração de migrantes, mas também por crianças que emigraram com seus pais. Van Deusen Scholl (2003) 65 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão define LH como aquela que deve abranger e transmitir contextos individuais, sociais, políticos e nacionais. A autora argumenta que o termo deve ir além da definição de um falante de língua de herança e que, após identificar um falante de língua de herança, pode-se construir a LH como um conjunto de conceitos centrais. E por isso, apresenta a língua de herança baseada na definição de seus falantes: “Heritage language [learners] comprise a heterogeneous group […] who may be generations removed but who may feel culturally connected to a language” (Van Deusen Scholl, 2003, p.221). Nesse contexto, a conexão cultural desempenha um papel essencial, pois envolve a identificação com as características de uma comunidade (tradições, estilo de vida etc.). Mesmo que o indivíduo não fale a língua e que sua conexão familiar remonte a gerações passadas, ele pode sentir a necessidade de fazer parte desse grupo e considerar essa pertença um aspecto importante de sua identidade. Sobre a transmissão da cultura por meio da língua de herança, Fishman (2001) confirma a relação e a dependência entre língua e cultura, propondo, assim, uma definição alternativa para o falante de língua de herança: trata-se de indivíduos que aprendem uma língua relevante para suas famílias e, por meio dela, identificam-se com a cultura associada. Eles percebem o mundo de maneira diferente e enxergam o con- tato entre sua cultura e a cultura dominante sob outra perspectiva, observando como aprendem essa outra língua e de que maneira a língua e a cultura se manifestam em seu comportamento. Com base nas definições mencionadas antes, este estudo utiliza a seguinte definição para falantes de herança: falantes de herança são pessoas plurilín- gues que se sentem ligadas à sua língua de herança por meio de diversas competências linguísticas em conexão com contextos culturais e identitários (Lira Santos, 2022). Essas pessoas têm competências plurilíngues para se comunicar em razão de diversosfatores extralinguísticos; no entanto, podem dominar a língua de forma heterogênea e apenas parcialmente, mas ainda assim sentir-se parte de uma comunidade linguística. o português como língua de herança em munique, alemanha Este ensaio apresenta um estudo realizado no contexto do ensino de português brasileiro para crianças e adolescentes da associação Linguarte e.V. em Munique. A Linguarte é uma associação brasileira com sede em Munique, cujo objetivo é a promo- ção e a difusão da língua portuguesa do Brasil e da cultura brasileira, além de fomentar a integração de brasileiros que vivem na Alemanha (Lira, 2017). A associação con- centra suas atividades na oferta de cursos e atividades, assim como projetos sobre a cultura brasileira, para crianças cujos pais falam português, na formação continuada para professores de português como língua estrangeira e segunda língua bem como no apoio a projetos, pesquisas e palestras focadas na cultura e na língua brasileiras. A associação oferece cursos infantis, que ocorrem quinzenalmente aos sábados, com três horas de duração e um intervalo de 30 minutos, contando com 53 crianças, organizadas em cinco grupos conforme a idade e a competência linguística em por- tuguês: Recrearte, Alpha, Beta, Avante e Plus. Como os cursos totalizam 6 horas mensais, as crianças permanecem aproximadamente três anos em cada nível até con- cluírem o programa de ensino daquela etapa. 66 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão O primeiro nível, Recrearte, é voltado para crianças em idade pré-escolar. Nesse curso, as crianças têm um primeiro contato com a língua de maneira lúdica, focam for- temente na oralidade e na cultura brasileira, promovendo o aprendizado e a ampliação do vocabulário. O próximo grupo, Alpha, recebe crianças de 6 a 9 anos. Como a maio- ria das crianças ainda está nos primeiros anos da escola alemã, a introdução à escrita acontece gradualmente, incentivando as crianças a escreverem algumas palavras da maneira que conseguirem. Com o avanço da alfabetização em alemão, elas passam a tentar transpor esses conhecimentos para o português brasileiro e a se familiarizar com a ortografia do português brasileiro e a assimilá-la. Por volta dos nove anos, as crianças passam para o grupo Beta. O programa desse curso trabalha aspectos específicos da gramática do português brasileiro, além da aplicação de regras ortográficas, com ênfase em dígrafos, nasalização e acentuação. O último nível da Linguarte, chamado Plus, é voltado para adolescentes de até 16 anos. Nessa etapa, o foco está no aperfeiçoamento da escrita por meio de diferentes mídias, como a criação de peças teatrais ou programas de rádio. Além disso, são abordados diversos aspectos da cultura, com destaque para a história do Brasil. O caso de estudo relatado neste ensaio apresenta uma criança teuto-brasileira que vive com seus pais em Munique. Ela tem entre seis e nove anos e participou dos cursos oferecidos pela Linguarte. retrato linguístico como biografia linguística Segundo Krumm (2010), a aquisição e o uso da língua ocorrem em situações sociais e biográficas concretas, inseridas em um contexto histórico. A biografia linguística permite ilustrar e refletir sobre as experiências pessoais relacionadas à aquisição e ao uso da língua. No que diz respeito à biografia linguística, Lin-Huber (2014) destaca que não se pode partir de uma “biografia padrão”, ou seja, de um crescimento em um ambiente homogêneo ou de uma aquisição de línguas em que diferentes idiomas são aprendidos de forma linear e sucessiva. O uso das biografias linguísticas na pesquisa sobre multilinguismo vai além da compreensão do repertório linguístico de uma pessoa, pois investiga fatores como as condições de aquisição da língua (contexto, identidade, atitudes em relação às lín- guas, entre outros). Como métodos para essa abordagem, utilizam-se narrativas orais, escritas e visuais, como entrevistas narrativas, textos autobiográficos e desenhos que expressam as possibilidades de comunicação, os quais podem servir como ponto de partida para conversas biográficas (cf. Lin-Huber, 2014). Entre as metodologias mais aplicadas em crianças, destaca-se o uso de retratos linguísticos. Nessa atividade, Krumm (2010) utliza-se da metodologia da seguinte forma: cada criança recebe uma folha com a silhueta de um corpo e deve pintar suas diferentes línguas com cores distintas em diferentes partes do corpo, representando sua relação com cada idioma. O autor busca analisar os dados coletados por meio de uma interpretação livre, considerando nesse caso, as narrativas das crianças e obser- vando categorias como línguas estrangeiras, idade, escola, entre outras. Já Franceschini (2001) desenvolveu o “modelo dinâmico centro-periferia”, no qual a posição – ou seja, o local onde as línguas são desenhadas – é considerada um fator de interpretação. Segundo a autora, “no centro do sistema linguístico encontram-se as variedades que, 67 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão em determinado momento da vida, são usadas sob pressupostos de normalidade e imediatismo, e com as quais o falante mais se identifica” (Franceschini, 2001, p.144). As outras línguas são representadas de forma periférica. Com relação à interpretação, Krumm (2010) destaca três fatores essenciais a serem considerados na análise: a família, o local de aprendizagem e o contato com as línguas. Além disso, a identidade dos participantes da pesquisa também pode ser ana- lisada por meio dessa abordagem. Para a coleta de dados nos grupos, foram utilizados o modelo de silhueta corporal de Aktaş et al. (2016). Como se tratava de uma atividade em sala de aula, a tarefa foi inicialmente explicada, e a discussão posterior foi gravada em áudio. Dessas gravações de apoio foram selecionados alguns trechos relevantes para a análise e interpretação dos retratos, como por exemplo a sua identificação com a língua e a cultura brasileiras em comparação com outros idiomas. Apresentaremos aqui um exemplo de retrato linguístico de um dos participantes, MAT, que frequentava o grupo Alfa desde os 6 anos. Em entrevista coletada com sua mãe, MAT tem um nível baixo de proficiência em português, que melhora sempre que visita o Brasil: “[...] Português: nível médio baixo, sendo que com estadia no Brasil o desenvolvimento é bem rápido. Com as aulas de português na Alemanha conseguimos manter o nível atingido nas férias”. De fato, MAT tem apenas conhecimentos básicos em sua língua de herança, apesar de se esforçar e receber diferentes estímulos da mãe. No entanto, a entrevista revelou que o input em português é pouco frequente, pois a mãe acredita que, vivendo na Alemanha, a família precisa dar prioridade ao domínio do alemão. Mesmo assim, os pais procuram oferecer a ele diferentes oportunidades de contato com novas lín- guas. No entanto, o português funciona como uma “língua secreta”, utilizada quando não querem ser compreendidos pelos outros. A mãe percebe que MAT reconhece o poder da linguagem na comunicação quando viajam para outros países, o que, em sua opinião, contribui para o desenvolvimento linguístico do filho: “Ele percebe que, quando estamos em outros países onde ele não sabe a língua, nós podemos nos comu- nicar. Isso incentiva, no meu ponto de vista, o seu desenvolvimento (linguístico)”. Essa percepção sobre as línguas fica evidente no retrato linguístico de MAT. Ele se esforçou bastante para representar graficamente as línguas que conhece e já ouviu ou usou em viagens, que são faladas por seus pais ou aquelas que ele deseja aprender. Diferente das outras crianças, MAT construiu uma imagem altamente plurilíngue de si mesmo. Embora o português e o alemão estejam no centro do desenho, ele também pintou diversas bandeiras de países diferentes. Um detalhe interessante não é apenas onde ele posicionou as bandeiras do Brasil e da Alemanha, mas o fatode também incluir a bandeira da União Europeia e a do estado da Baviera. Outro ponto marcante é a importância do alemão para ele: a língua aparece repre- sentada no coração, na camiseta e nos sapatos. Em seu relato, MAT explicou que isso acontece porque vive na Alemanha e sua mobilidade no dia a dia ocorre em alemão. Já o português aparece em uma posição periférica, apesar de também estar pintado no cora- ção. Ele o colocou próximo à sua mão, pois é uma língua que fala e escreve parcialmente. MAT também demonstrou interesse em aprender sueco e japonês, pois gosta dessas línguas. Como viaja frequentemente com seus pais, desenhou as bandeiras da Itália e da França, dizendo que consegue falar um pouco dessas línguas. Já o polonês apareceu em seu desenho porque sua mãe viaja frequentemente a trabalho para a 68 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão Polônia e conta a ele sobre a língua. Além disso, ele incluiu o dialeto bávaro, pois vive na Baviera, mais especificamente em Munique, e, para ele, essa identidade regional não poderia faltar. Com base na definição de plurilinguismo proposta pelo Conselho da Europa (2001) e descrita no início deste texto, podemos encaixar MAT perfeitamente nesse conceito. Para ele, as línguas são uma forma de expandir e descobrir o mundo. Sua percepção sobre dialetos e socioletos (como o “dialeto de Munique”) demonstra muita consciência linguística. Como se pode perceber, para MAT todas as línguas têm o mesmo valor e prestígio, dependendo da função e do significado que ele atribui a cada uma. O português está associado a sentimentos (“eu gosto”), enquanto o alemão predomina no uso diário, seja na escola ou em sua mobilidade pelo país. A consciência linguística de MAT é bastante elevada, impulsionada pelos diver- sos estímulos que recebe e pela abertura da família para outras línguas. Por isso, ele descreve suas competências tanto em alemão quanto em português como língua de herança como muito boas. Isso reflete a importância da linguagem para ele: a comu- nicação (Lira Santos, 2022). conclusão Neste estudo explicamos como as línguas de herança podem ser observadas por meio do contato linguístico. A pesquisa sobre contato linguístico fornece informações sobre a natureza do contato entre as línguas e analisa as relações que a interação entre a língua de herança e a língua dominante pode gerar em diferentes níveis, como o social, linguístico e individual. Como descrevem Riehl (2014) e Hamers e Blanc (2000), o contato linguístico observa o uso simultâneo de duas ou mais línguas. Esse processo é dinâmico e contínuo, levando em consideração características que variam de indivíduo para indivíduo, além de aspectos que afetam as línguas em contato. Esse fenômeno não ocorre isoladamente da língua, mas é transmitido por meio dela, desempenhando um papel fundamental no sentimento de pertencimento a uma comunidade linguística. O retrato linguístico de MAT mostra-nos que apesar do pouco input recebido, e da insuficiência de acesso à língua de herança para aprimorar suas competências no português como língua de herança, sua família desempenha um papel fundamental comparecendo a quase todas as atividades da associação que o filho frequenta e apoia seu processo de aquisição da língua, embora sua mãe fale com ele mais alemão do que português. Um dos objetivos de sua família é reconhecer a importância de falar outras línguas. Por isso, MAT demonstra uma forte conexão com idiomas que gosta ou conhece. Em sua biografia linguística, ele representa não apenas as línguas do seu ambiente e das interações diárias, mas também aquelas que gostariam de aprender ou com as quais tiveram contato, mesmo que apenas por alguns dias durante uma viagem. Assim ele incorpora a definição de plurilinguismo proposta pelo Conselho da Europa em 2001: para eles, as línguas são ferramentas essenciais para a comunicação cotidiana. 69 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão referências AKTAŞ, Z. et al. Desenvolver a competência intercultural. In: Série Materiais para o ensino da língua de herança: propostas didáticas. Zürich: Bundesamt für Kultur, 2016. p.16-17. BIALYSTOK, E. Bilingualism in development: Language, literacy, and cogni- tion. New York: Cambridge University Press, 2009. http://dx.doi.org/10.1017/ CBO9780511605963. Acesso em: 17 out. 2024. CONSELHO DA EUROPA. Gemeinsamer europäischer Referenzrahmen für Sprachen: lernen, lehren, beurteilen (GER). Berlim: Langenscheidt, 2001. Disponível em: http://student.unifr.ch/pluriling/assets/files/Referenzrahmen2001.pdf. Acesso em: 8 jan. 2024. _______. Gemeinsame Erklärung des Europarates und der Europäischen Kommission zum 10. europäischen Tag der Sprachen am 26. September 2011. Disponível em: https://edl.ecml.at/Portals/33/joint_declaration_european_day_of_languages_ de.pdf. Acesso em: 8 jan. 2024. FISHMAN, J. 300-plus years of heritage language education in the United States. In: PEYTON, J.; RANARD, D.; MCGINNIS. S. (Org.) Heritage languages in America: Preserving a national resource. Washington, DC & McHenry, IL: Center for Applied Linguistics & Delta Systems, 2001. p.81-9. FÖLDES, C. Kontaktdeutsch: zur Theorie eines Varietätentyps unter transkulturellen Bedingungen von Mehrsprachigkeit. Tübingen: Narr, 2005. FRANCESCHINI, R. Sprachbiographien randständiger Sprecher. In: ___. (Org.) Biographie und Interkulturalität. Tübingen: Stauffenburg, 2011. p.111-25. GARCÍA, O. Bilingual Education in the 21st Century: a global perspective. West Sussex: Wiley-Blackwell, 2009. HAMERS, J.; BLANC, M. H. A. Bilinguality and Bilingualism. Cambridge: Cambridge University Press, 2000. JUNGBLUTH, K. Aus zwei mach eins: switching, mixing, getting different. In: JAŃCZAK, B.; JUNGBLUTH, K.; WEYDT, H. (Org.) Mehrsprachigkeit aus deuts- cher Perspektive. Tübingen: Narr, 2012. p.45-72. KRUMM, H.-J. Mehrsprachigkeit in Sprachenporträts und Sprachenbiographien von Migrantinnen und Migranten. AkDaF Rundbrief, v.61, p.16-24, 2010. Disponível em: http://www.akdaf.ch/html/rundbrief/rbpdfs/61_Mehrsprachigkeit_ Sprachenportraits.pdf. Acesso em: 3 jan. 2025. LIN-HUBER, M. Sprachbiografische Reflexionen in sprachheilpädagogischen Praxisfeldern. In: SALLAT, S.; SPREER, M.; Glück, C. (Org.) Sprache pro- fessionell fördern. kompetent- vernetzt-innovativ. Idstein: Schulz-Kirchner, 2014. p.163-9. Disponível em: https://www.pedocs.de/volltexte/2016/11881/pdf/Lin_ Huber_2014_Sprachbiografische_Refle xionen.pdf. Acesso em: 7 fev. 2025. http://dx.doi.org/10.1017/CBO9780511605963 http://dx.doi.org/10.1017/CBO9780511605963 http://dx.doi.org/10.1017/CBO9780511605963 http://student.unifr.ch/pluriling/assets/files/Referenzrahmen2001.pdf http://student.unifr.ch/pluriling/assets/files/Referenzrahmen2001.pdf%3e. https://edl.ecml.at/Portals/33/joint_declaration_european_day_of_languages_de.pdf https://edl.ecml.at/Portals/33/joint_declaration_european_day_of_languages_de.pdf http://www.akdaf.ch/html/rundbrief/rbpdfs/61_Mehrsprachigkeit_Sprachenportraits.pdf%3e. http://www.akdaf.ch/html/rundbrief/rbpdfs/61_Mehrsprachigkeit_Sprachenportraits.pdf%3e. http://www.pedocs.de/volltexte/2016/11881/pdf/Lin_Huber_2014_Sprachbiografische_Refle http://www.pedocs.de/volltexte/2016/11881/pdf/Lin_Huber_2014_Sprachbiografische_Refle 70 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão LIRA, C. Linguarte e.V.: Contribuindo para o POLH na Alemanha. In: SOUZA, A.; LIRA, C. (Org.) O POLH na Europa. London: JN Paquet, 2017. p.275-97. LIRA SANTOS, C. Schriftspracherwerb des Portugiesischen als Herkunftssprache: Sprachkontaktphänomene bilingualer deutsch-brasilianischer Kinder. Frankfurt, 2022. Tese (Doutorado) – Universidade Europa Viadrina, Frankfurt Oder. RIEHL, C. M. Sprachkontaktforschung: eine Einführung. Tübingen: Narr, 2014. THOMASON, S. G. Social and Linguistic factors as predictors of contact-induced change.Journal of Language Contact, v.2, p.42-56, 2008. Disponível em: https://brill. com/view/journals/ jlc/2/1/article-p42_4.xml. Acesso em: 10 jan. 2025. VALDÉS, G. The teaching of Minority Languages as academic subjects: pedagogical and theoretical challenges. The Modern Language Journal, v.79, n.3, p.299-328, 1995. https://doi.org/10.1111/j.1540-4781.1995.tb01106.x. Acesso em: 1 dez. 2024. _______. Heritage Language Students: Profiles and Possibilities. In PEYTON, J.; RANARD, J.; MCGINNIS, S. (Org.) Heritage Languages in America: Preserving a national resource. McHenry, IL: The Center for Applied Linguistics and Delta Systems, 2001. p.37-80. VAN DEUSEN-SCHOLL, N. Toward a Definition of Heritage Language: Sociopolitical and Pedagogical Considerations. Journal of Language Identity & Education Identity, v.3, p.211-30, 2003. https://brill.com/view/journals/ jlc/2/1/article-p42_4.xm https://brill.com/view/journals/ jlc/2/1/article-p42_4.xm https://doi.org/10.1111/j.1540-4781.1995.tb01106.x 71 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão Complexidade e percepção em leitura secundada por audiodescrição: um estudo com ressonância magnética funcional Mariana Nucci Penteado Hernán Joel Cervantes Rodríguez Cristina Lopomo Defendi o projeto O Projeto Universal “Recursos inferenciais na metáfora situada e audiodescrição – estudo contrastivo” (Chamada CNPq/MCTI/FNDCT n.18/2021 – Faixa B – Grupos Consolidados Processo 423337/2021-1) trata-se de uma pesquisa interdisciplinar (Psicologia, Linguística, Física, Oftalmologia, Medicina Radiológica, Educação Física e Neurociências) e focaliza um problema comumente associado ao uso de metáforas situadas em contexto secundado, a interpretação das construções envolvidas em audio- descrições para pessoas cegas congênitas e os processos inferenciais envolvidos, tanto do ponto de vista do recrutamento neuronal, quanto da complexidade construcional. Neste recorte, apresentamos o uso do aparelho de ressonância magnética funcio- nal (do inglês, functional Magnetic Resonance Image (fMRI)), suas funcionalidades nos estudos da linguagem, o protocolo criado e alguns projetos em andamento. Para tanto, exploraremos as aplicações da fMRI no estudo da linguagem, incluindo seu uso no mapeamento de redes neurais e na avaliação de fenômenos mais complexos, como a interpretação de metáforas. Por fim, abordaremos como essa técnica pode ser utilizada para investigar o processamento linguístico em indivíduos com cegueira congênita, desafiando a visão tradicional do papel da experiência visual na organização neural da linguagem. como funciona um aparelho de ressonância magnética funcional O Imageamento por Ressonância Magnética (IRM) é uma técnica de imageamento não invasiva sem a utilização de radiação ionizante que pode produzir imagens tridi- mensionais detalhadas e está fundamentado na interação da matéria, especificamente do momento magnético intrínseco (spin) nuclear, quando exposta a campos magné- ticos externos, sejam eles estáticos (sem variação temporal) e dinâmicos (variante no tempo) (Smith; Ranallo, 1989). Quando uma pessoa é introduzida numa região onde há um campo magnético estático, os spins nucleares alinham-se predominantemente a esse campo. Esse alinhamento pode ser detectado pela aplicação de um campo mag- nético oscilante, denominado campo de radiofrequência (rf), numa bobina disposta especificamente em posição anatômica. A frequência e intensidade desse sinal depende da intensidade do campo externo, quantidade de matéria (densidade de spins) e interações intrínsecas da matéria. No IRM, intencionalmente, são aplicados campos magnéticos estáticos que variam 72 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão espacialmente, em adição ao campo magnético estático. Esses campos são chamados de “gradiente de campo” e são aplicados em tempos específicos durante a realização das medidas, possibilitando a posterior discriminação do sinal em função da posição (codificação espacial). Essa codificação tem resolução submilimétrica, para imagens estruturais e milimétricas, para imagens funcionais. A mínima dimensão espacial que pode ser discriminada na imagem é chamada de voxel. Como mencionado ante- riormente, o sinal depende da densidade de spin dentro do voxel, por consequência, a imagem pode mostrar a variação da densidade espacial dentro do espaço que com- preende a imagem, chamada de imagem de densidade de prótons. No caso de imagens médicas, a maior contribuição vem dos átomos de Hidrogênio dentro de moléculas de água. Moléculas de Hidrogênio em tecidos rígidos, por exemplo ossos, não contribuem para esse sinal, portanto, tecidos moles com água são muito bem observados em imagens médicas por IRM. Outro fator, dentre outros, que influencia o sinal da IRM é a presença de substâncias paramagnéticas que têm um alcance local. Substâncias paramagnéticas exógenas podem ser injetadas no corpo, como o ácido gadotérico, para melhorar a visualização e delimitação de certas partes do corpo, como tecidos cartilaginosos. Dentro do corpo há a presença de substâncias paramagnéticas endógenas, especificamente, os glóbulos vermelhos transportando o dióxido de carbono gerados pelas células como resultado de sua atividade funcional inerente. Esses mesmos glóbulos vermelhos, quando estão levando o oxigênio dos pulmões, deixam de ser paramagnéticas e são diamagnéticos. Substâncias diamag- néticas não alteram o sinal da IRM. Esse comportamento pode ser utilizado para auferir o consumo energético de um conjunto de células, responsável pela geração de dióxido de carbono. Uma aplicação deste fenômeno é o mapeamento da atividade dos neurônios. Como é sabido, em resposta a estímulos externos e internos, setores de células neurais processam e geram uma resposta. Esse tipo de aplicação das IRM é chamado de imagens por ressonância magnética funcionais. Esse tipo de experimento consegue mapear a razão entre as concentrações de deoxi-hemoglobina (hemoglobina sem oxigênio) e oxi-hemoglobina (hemoglobina com oxigênio), contraste denominado “BOLD” (blood oxygen level dependent). Como o cérebro está sempre respondendo a estímulos internos (por exemplo o batimento do coração) e externos (por exemplo os estímulos apresentados pelos pes- quisadores) esquemas de aplicação dos estímulos podem ser aplicados durante a aqui- sição de imagens funcionais para poder extrair a resposta desejada. Esses esquemas experimentais são chamados de paradigmas que devem ser cuidadosamente elabora- dos para isolar efeitos do processamento de outros estímulos que não os sob análise. o exame de ressonância magnética funcional e o estudo da linguagem A fMRI revolucionou a neurociência ao permitir a investigação não invasiva da ati- vidade cerebral. Além disso, trata-se de uma técnica de baixo risco ao paciente, pois não envolve exposição à radiação nem o uso de contrastes exógenos, como o gadolínio. No estudo da linguagem, essa técnica viabiliza a identificação de redes neurais envol- vidas no processamento fonológico, semântico e sintático, além de sua aplicação no mapeamento cerebral para planejamento cirúrgico. A fMRI possibilita a análise de 73 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão tarefas linguísticas estruturadas, como produção verbal, compreensão de sentenças e tomada de decisão semântica, fornecendo informações sobre quais áreas do cérebro são encarregadas desses processos. Para compreender o mapeamento cerebral da linguagem, é essencial considerar as principais regiões envolvidas. A área de Broca, localizada no giro frontal inferior, é crucial para a produção da fala e formação gramatical, enquanto a área de Wernicke, situada no giro temporal superior, é essencial para a compreensão da linguagem. A comunicação entre essas regiões ocorre por meio do fascículo arqueado, um feixe de fibras que conecta essasestruturas e permite a integração entre produção e compre- ensão. Além dessas áreas, destacam-se duas vias principais: a rede ventral, associada à compreensão auditiva (mapeamento auditivo-conceitual), e a rede dorsal, responsável pela repetição verbal (integração auditivo-motora). Outras regiões, como o córtex pré-frontal, envolvido no planejamento e organização do discurso, e o córtex auditivo, que processa os sons, também desempenham papéis fundamentais na comunicação eficaz. (López-Barroso; de Diego-Balaguer, 2017) A fMRI é uma ferramenta essencial para avaliar a ativação e a conectividade funcional dessas áreas durante tarefas linguísticas. Além das abordagens tradicionais, a técnica resting-state fMRI, a qual não requer a elaboração de uma tarefa, permite examinar a conectividade cerebral em estado de repouso, possibilitando a investi- gação de redes neurais sem a necessidade de estímulos específicos. Com os avanços tecnológicos, a análise dos padrões de conexão cerebral tem sido aplicada à predição de condições clínicas e à avaliação da gravidade de doenças, muitas vezes utilizando machine learning para interpretação dos dados (Khosla et al., 2019) os procedimentos metodológicos No estudo de fMRI em linguagem, a seleção criteriosa dos voluntários é fundamental para evitar vieses na interpretação dos resultados. Um dos aspectos mais relevantes é a variação etária, pois evidências científicas indicam que a dominância hemisférica esquerda para a linguagem se torna mais evidente ao longo do desenvolvimento. Em crianças, a ativação neuronal ocorre de forma mais distribuída entre ambos os hemis- férios cerebrais, enquanto, com o avanço da idade, há uma especialização progressiva do hemisfério esquerdo, especialmente nas áreas clássicas da linguagem, como as áreas de Broca e Wernicke (Olulade et al., 2020). Esse fator torna a faixa etária um crité- rio essencial na avaliação do processamento linguístico, particularmente em estudos sobre compreensão da linguagem, pois a maturação das redes neurais pode influenciar significativamente os padrões de ativação observados. Além da idade, a escolaridade é outro fator crucial, pois a aquisição da leitura e da escrita modifica a organização cerebral da linguagem. Estudos demonstram que indivíduos alfabetizados apresen- tam uma dominância hemisférica esquerda ainda mais marcada, com maior ativação de regiões como o giro fusiforme, o córtex pré-frontal e o córtex temporal superior (López-Barroso et al., 2020). Dessa forma, a inclusão de participantes com níveis distintos de escolaridade, especialmente misturando alfabetizados e não alfabetizados, pode introduzir viés interpretativo, dificultando a identificação de padrões consistentes na ativação cerebral associada à linguagem. Portanto, para garantir resultados confiáveis e representativos, 74 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão é fundamental estabelecer critérios rigorosos de recrutamento, considerando tanto a idade quanto o grau de escolaridade dos voluntários. Outro aspecto essencial no recrutamento de voluntários para estudos de fMRI em linguagem é a ausência de achados incidentais de isquemia, lacunas ou massas cerebrais, especialmente nas regiões eloquentes da linguagem. A presença de uma lesão estrutural pode desencadear processos de neuroplasticidade e reorganização funcional, nos quais áreas cerebrais adjacentes ou contralaterais passam a assumir, parcial ou totalmente, as funções das regiões afetadas (Lawrence; Carvajal; Ormsby, 2023). Esse fenômeno, conhecido como neuroadaptação, pode resultar em padrões atípicos de ativação cerebral durante tarefas linguísticas, comprometendo a interpretação dos dados. Dependendo do tamanho, localização e cronicidade da lesão, essa reorganização pode não ser total- mente detectável por avaliações funcionais convencionais, mascarando déficits sutis na conectividade neuronal. Além disso, indivíduos com alterações estruturais podem apresentar um perfil de ativação heterogêneo, dificultando a comparação com parti- cipantes neurotípicos e introduzindo viés na análise dos resultados. Assim, a triagem rigorosa por meio de exames estruturais, como ressonância magnética anatômica (MRI), é fundamental para garantir que a amostra do estudo seja homogênea e representativa do funcionamento típico das redes neurais da linguagem. A perda da visão representa um fator crítico nos estudos de fMRI, pois a neuro- adaptação do córtex visual ocorre de forma distinta nos estágios iniciais e crônicos da privação sensorial. Com a ausência prolongada de estímulos visuais, há uma reorga- nização funcional do córtex visual, levando a sua participação em outras modalida- des sensoriais, como o tato e a audição, um fenômeno conhecido como plasticidade intermodal. Estudos demonstram que a extensão espacial e a magnitude dos sinais de Ressonância Magnética (RM) no córtex visual são maiores em indivíduos que ficaram cegos precocemente. Além disso, adultos que perderam a visão e aprenderam Braille ainda exibiam atividade em regiões do córtex visual, especialmente em V1, sugerindo que essas áreas se adaptam ao processamento de informações táteis (Burton et al., 2002). Essa reorganização neural pode ter implicações significativas na interpretação dos dados de fMRI, exigindo um controle rigoroso na seleção dos participantes para diferenciar efeitos da privação visual dos mecanismos neurais subjacentes à linguagem. Diante do exposto sobre os cuidados metodológicos na avaliação populacional para estudos com fMRI, o estudo “Recursos inferenciais na metáfora situada e audio- descrição – estudo contrastivo” (CNPq 423337/2021-1) adotou critérios rigorosos de inclusão e exclusão para garantir a homogeneidade da amostra e evitar vieses na interpretação dos dados. Apenas adultos ( 18 anos) com pelo menos oito anos de escolaridade foram incluídos, independentemente de a alfabetização ter ocorrido em Braille ou escrita comum, visto que a escolaridade influencia significativamente a organização das redes neurais da linguagem. Além disso, foram selecionados exclusivamente indivíduos com cegueira congênita, ou seja, que perderam a visão antes dos cinco anos de idade, um critério fundamental para evitar a variabilidade decorrente de diferentes estágios de neuroadaptação do córtex visual. Para evitar a influência de achados incidentais ou reorganizações neurais secun- dárias a lesões estruturais, foram excluídos participantes com qualquer evidência de isquemia, lacunas ou massas cerebrais, pois essas alterações podem impactar a atividade funcional das áreas eloquentes da linguagem. Por fim, indivíduos com contraindicações 75 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão para a realização de exames de ressonância magnética, como implantes metálicos ou claustrofobia severa, também foram excluídos, garantindo a segurança dos participantes e a qualidade dos dados obtidos. Outro aspecto fundamental foi considerar o repertório de vivência dos partici- pantes com cegueira congênita, uma vez que a construção e compreensão de metáforas podem variar significativamente entre indivíduos. Expressões baseadas em experi- ências visuais diretas poderiam ter um significado abstrato ou até mesmo diferente para essas pessoas, tornando necessário um refinamento adicional na seleção dos estímulos. Esse desafio reforçou a importância de um planejamento metodológico detalhado, garantindo que as tarefas fossem compreensíveis e adequadas ao contexto cognitivo e sensorial dos participantes, permitindo uma investigação mais precisa da organização neural do processamento metafórico na cegueira congênita. Dada a dificuldade de seleção de cegos congênitos com todas as características elencadas e dispostos a participar da pesquisa, a amostra restringiu-se a dez participantes de cada grupo (dez cegos congênitos e dez videntes). alguns estudos sobre metáfora ecegueira Dentre os poucos estudos que avaliaram a compreensão de metáforas em indivíduos com cegueira congênita, o estudo de Minervino et al. (2018) investigou a capacidade desses indivíduos de interpretar metáforas visuais, desafiando a hipótese de que a experiência visual é essencial para esse tipo de processamento cognitivo. Enquanto algumas teorias sugerem que a ausência de input visual pode limitar a interpretação de expressões metafóricas baseadas na visão, abordagens mais amodais defendem que a compreensão metafórica depende de representações simbólicas abstratas, independen- tes da experiência sensorial direta. Para testar essa questão, os autores realizaram dois experimentos. No Experimento 1, 20 participantes cegos congênitos e 20 videntes foram avaliados quanto à compreensão de três tipos de metáforas: visuais, baseadas no conceito de “agarrar” (grasping) e metáforas controle. Os resultados indicaram que não houve diferença significativa entre os grupos, sugerindo que a experiência visual não é determinante para a compreensão metafórica. No Experimento 2, os participantes foram expostos a metáforas visuais inéditas, com baixa ocorrência em corpora linguísticos, para avaliar se a familiaridade influenciava na interpretação. Novamente, os cegos congênitos apresentaram desempenho seme- lhante aos videntes, indicando que a compreensão metafórica pode ser sustentada por mecanismos cognitivos alternativos, como a tradução intermodal de conceitos visuais em experiências táteis e espaciais. Os achados reforçam que a ausência de visão não impede o entendimento de metáforas visuais, apoiando modelos que consideram representações amodais e estratégias compensatórias como suficientes para esse pro- cessamento. Os autores sugerem que pesquisas futuras com neuroimagem podem ajudar a identificar os mecanismos neurais envolvidos nesse fenômeno, contribuindo para a compreensão da plasticidade cortical e das adaptações cognitivas na cegueira congênita (Minervino et al., 2018). 76 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão alguns projetos em andamento A elaboração das tarefas apresentadas por estímulos auditivos à população com cegueira congênita foi um dos desafios mais complexos dos projetos individuais em andamento, principalmente para o de “Recursos inferenciais na metáfora situada e audiodescrição”. A maioria dos estudos em fMRI sobre interpretação de metáforas utiliza estí- mulos visuais (Bambini et al., 2011; Benedek et al., 2014; Prat et al., 2012; Rapp et al., 2004), enquanto, em nosso projeto, foi necessário desenvolver uma abordagem exclusivamente auditiva. Além disso, a elaboração das metáforas exigiu um delinea- mento criterioso para garantir que as condições de controle fossem efetivas, permi- tindo destacar as particularidades do processamento metafórico no contraste entre frases metafóricas e não metafóricas. Para que essa comparação fosse válida, as frases precisavam ser semanticamente distintas, mas estruturalmente similares em termos de número de palavras, entonação e complexidade sintática. Esse processo demandou longos períodos de estudo, múltiplas reelaborações e avaliações rigorosas para assegu- rar que o experimento isolasse de forma precisa o efeito da interpretação metafórica. Para o projeto, delimitamos quatro tipos de metáfora, sendo três delas as do tipo metáfora situada (Vereza, 2013). A autora explana sobre a primeira virada cognitiva, que foi o deslocamento teórico do lócus da metáfora da linguagem para o pensamento e a segunda virada cognitiva, com uso de corpora autênticos e estudo das “metáforas situ- adas”. As metáforas situadas consistem no entendimento da “metaforicidade textual- mente tecida” (Vereza, 2013, p.5), ou seja, tal construção passa a ser entendida como metáfora em dado contexto discursivo específico. Nesse caso, há uma relação entre a dimensão discursiva (linguagem em uso) e a interface entre cognição e pragmática. Como exemplo, Vereza (2013) apresenta um texto jornalístico de Clarice Niskier em que a mulher mais velha é comparada a um queijo gorgonzola, em aspectos como “melhorar com o tempo” e pontos convergentes como sofisticação. Mesmo constru- ída discursivamente, baseia-se em uma metáfora conceptual (sociocognitivamente): mulher é comida. No nosso protocolo, as metáforas foram construídas discursivamente a partir de narrativas disponíveis com audiodescrição e representam as metáforas equativas (ou seja, um termo é igualado a outro de forma a constituir uma equação a=b), com símile (ou seja, com uso de um elemento de comparação: “como”, “igual”) e cotidianas (com verbo suporte, ou seja, uma construção em que verbo e seu complemento são interpre- tados figurativamente juntos, como no exemplo “dar um fora”). Além das metáforas situadas, foi incluída também a metáfora frontal, de alta complexidade (construções oracionais que equivalem a uma lição de moral por uma linguagem encoberta e histo- ricamente ecoada, tal como um ditado popular, como no exemplo “Quem com ferro fere com ferro será ferido”). Além dos quatro tipos metafóricos, foram construídas frases não metafóricas, também com base nas narrativas escolhidas. Antes do experimento no equipamento de IRM, é feito um treinamento indivi- dual com cada participante, com a explicação ou a recordação do que é uma metá- fora e os vários tipos que serão apresentados em uma gravação durante o exame. O intuito é que consigam distinguir frases metafóricas de não metafóricas e garantir que as identifiquem corretamente no momento do exame. Ainda fora da máquina, há a audição de uma narrativa audiodescrita, aquela que serviu de base para a criação das 77 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão metáforas e não metáforas. O participante é convidado a recontar a narrativa ouvida e esse texto oral produzido, posteriormente transcrito e analisado, será objeto do projeto “Narratividade e recontação de audiodescrições: cognição e o papel do reper- tório” que procura investigar qual o papel do repertório no entendimento dos inputs utilizados para os exames de fMRI e como se dão a reelaboração da informação e a reorganização textual por mentes que processam de modo diferente a audiodescrição. Para tanto, há também participantes videntes, sem comorbidades, pareados em faixa etária e escolaridade com os cegos congênitos para efeitos comparativos. Para a análise das recontações de narrativas, são usados critérios linguístico-textu- ais baseados nos conceitos de marcação, iconicidade, transitividade e plano discursivo (fundo-figura) (Givón, 2009; Furtado da Cunha; Tavares, 2016; Lima-Hernandes, 2024) para medir a plasticidade textual em cotejo com a compreensão de construções cotidianas plasmadas metaforicamente. resultados esperados Num projeto interdisciplinar, todas as áreas envolvidas têm igual importância e con- tribuições valorosas para os possíveis resultados. Com os vários subprojetos desen- volvidos, espera-se aprofundar a investigação sobre a compreensão de metáforas por pessoas com cegueira congênita, levando em consideração não apenas a familiaridade com as metáforas, mas também diferentes inferências baseadas em audiodescrições. Os diferentes níveis de informação contextual influenciam o processamento meta- fórico e a ativação das redes neurais associadas, e os resultados contribuirão para uma melhor compreensão dos mecanismos cognitivos envolvidos na interpretação de figuras de linguagem em indivíduos cegos congênitos. referências BAMBINI, V. et al. Decomposing metaphor processing at the cognitive and neural level through functional magnetic resonance imaging. Brain Research Bulletin, v.86, n.3, p.203-16, 2011. https://doi.org/10.1016/j.brainresbull.2011.07.015 BENEDECK, M. et al. Creating metaphors: the neural basis of figurative language production. NeuroImage, v.90, n.100, p.99-106, 2014. https://doi.org/10.1016/j. neuroimage.2013.12.046BURTON, H. et al. Adaptive changes in early and late blind: a fMRI study of Braille reading. J Neurophysiol, v.87, n.1, p.589-607, 2002. https://doi.org/10.1152/ jn.00285.2001 FURTADO DA CUNHA, M. A.; TAVARES, M. A. (Org.) Funcionalismo e ensino de gramática. Natal: EDUFRN, 2016. GIVÓN, T. The genesis of syntactic complexity. Diachrony, ontogeny, neuro-cognition, evolution. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins Publishing Company, 2009. KHOSLA, M. et al. Machine learning in resting-state fMRI analysis. Magn Reson Imaging, v.64, p.101-21, 2019. https://doi.org/10.1016/j.mri.2019.05.031 https://doi.org/10.1016/j.brainresbull.2011.07.015 Https://doi.org/10.1016/j.neuroimage.2013.12.046 Https://doi.org/10.1016/j.neuroimage.2013.12.046 Https://doi.org/10.1152/jn.00285.2001 Https://doi.org/10.1152/jn.00285.2001 Https://doi.org/10.1016/j.mri.2019.05.031 78 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão LAWRENCE, A.; CARVAJAL, M.; ORMSBY, J. Beyond Broca’s and Wernicke’s: Functional Mapping of Ancillary Language Centers Prior to Brain Tumor Surgery. Tomography, v.9, n.4, p.1254-75, 2023. LIMA-HERNANDES, M. C. (Coord.) Cognição, complexidade e contexto como outras mentes: um tributo a Talmy Givón. São Paulo: Estige Editorial, 2024. LÓPEZ-BARROSO, D.; de DIEGO-BALAGUER, R. Language Learning Variability within the Dorsal and Ventral Streams as a Cue for Compensatory Mechanisms in Aphasia Recovery. Frontiers in Human Neuroscience, v.11, 2017. https://doi.org/10.3389/fnhum.2017.00476 LÓPEZ-BARROSO, D. et al. Impact of literacy on the functional connectivity of vision and language related networks. NeuroImage, v.213, 116722, 2020. https://doi. org/10.1016/j.neuroimage.2020.116722. 2020. MINERVINO, R. A. et al. The Understanding of Visual Metaphors by the Congenitally Blind. Front Psychol, v.9, 1242, 2018. https://doi.org/10.3389/ fpsyg.2018.01242 OLULADE, O. A. et al. The neural basis of language development: Changes in late- ralization over age. Proc Natl Acad Sci U S A, v.117, n.38, p.23477-83, 2020. https:// doi.org/10.1073/pnas.1905590117 PRAT, C. S. et al. An fMRI investigation of analogical mapping in metaphor com- prehension: the influence of context and individual cognitive capacities on processing demands. J Exp Psychol Learn Mem Cogn, v.38, n.2, p.282-94, 2012. https://doi. org/10.1037/a0026037 RAPP, A. M. Et al. Neural correlates of metaphor processing. Cognitive Brain Research, v.20, n.3, p.395-402, 2004. https://doi.org/10.1016/j.cogbrainres.2004.03.017 SMITH, H.-J.; RANALLO, F. N. A non-mathematical approach to basic MRI. Madison/Wis.: Medical Physics Pub. Corp., 1989. VEREZA, S. “Metáfora é que nem...”: cognição e discurso na metáfora situada. Signo, v.38, n.65, p.2-21, 4 jul. 2013. Https://doi.org/10.3389/fnhum.2017.00476 https://doi.org/10.1016/j.neuroimage.2020.116722 https://doi.org/10.1016/j.neuroimage.2020.116722 Https://doi.org/10.3389/fpsyg.2018.01242 Https://doi.org/10.3389/fpsyg.2018.01242 Https://doi.org/10.1073/pnas.1905590117 Https://doi.org/10.1073/pnas.1905590117 Https://doi.org/10.1037/a0026037 Https://doi.org/10.1037/a0026037 https://doi.org/10.1016/j.cogbrainres.2004.03.017 79 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão Metáforas situadas e gatilhos mentais: um olhar sobre cegos congênitos e videntes Renata Barbosa Vicente Maria Célia Lima-Hernandes introdução Entendemos a metáfora como uma ferramenta cognitiva essencial que nos permite pensar, agir e comunicar de forma eficaz. Logo, a metáfora não é apenas uma figura de linguagem, é um mecanismo fundamental do pensamento humano, que molda nossa compreensão do mundo e influencia nossas ações. Trata-se de estruturas conceituais que organizam nosso pensamento, permitindo-nos entender conceitos abstratos e complexos em termos de conceitos mais concretos e familiares. Lakoff e Johnson (2002) demonstraram que as metáforas permeiam nossa lingua- gem e nosso pensamento cotidiano, muitas vezes de forma inconsciente. Tomemos como exemplos “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, “em casa de ferreiro, o espeto é de pau” e “uma andorinha só não faz verão”. As três são metáforas concep- tuais que moldam nossa forma de perceber e interagir com o mundo. Como a essência da metáfora é compreender e experienciar uma coisa em ter- mos de outra, isso significa que, ao usarmos metáforas, estamos transferindo nosso entendimento de um domínio de experiência para outro, o que nos permite atribuir sentido a conceitos que, de outra forma, seriam difíceis de compreender. Se a compre- ensão conceitual de uma metáfora está relacionada à experienciação do sujeito, essa compreensão e experienciação passam pela percepção individual deste mesmo sujeito. Assim, surge a pergunta desta pesquisa: como pessoas cegas poderiam interpretar metáforas de altíssima complexidade que implicam tomadas de decisões culturais? Conjecturamos que os cegos congênitos, exatamente pela ausência total de visão, estão menos suscetíveis a alguns gatilhos mentais, uma vez que a visão favorece mais rapidamente a ativação desses gatilhos que, uma vez ativados no cérebro, influenciam na tomada de decisão. Para responder esta pergunta, iniciamos nossa pesquisa, intitulada “Estudo com- parativo sobre a ativação dos gatilhos mentais no processo de identificação de metá- foras por cegos congênitos e videntes típicos”, desenvolvida no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), junto ao projeto Recursos infe- renciais na metáfora situada e audiodescrição – estudo contrastivo (Universal CNPq- 423337/2021-1) com o grupo de pesquisa LinC-USP, liderado pela pesquisadora Maria Célia Lima-Hernandes. Faz parte do objetivo desta pesquisa analisar a influência dos gatilhos mentais sobre cegos congênitos e sobre pessoas videntes típicas por meio de inputs metafóricos ancorados na leitura secundada por audiodescrição. O embasamento teórico constrói-se a partir das ideias de Cialdini (2021), de onde construímos um estado da arte sobre gatilhos mentais, que será apresentado na próxima seção, e retomamos as discussões linguísticas de Vereza (2013) sobre metáforas situadas. 80 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão decisões e comportamentos: influências dos gatilhos mentais? O estudo dos gatilhos mentais é importante para compreender como funcionam diver- sas áreas da vida. Eles são estímulos que influenciam diretamente nossas decisões e comportamentos, muitas vezes de forma inconsciente. No marketing, por exemplo, agem como ferramentas poderosas para persuadir e influenciar o comportamento do consumidor. Ao entender quais gatilhos acio- nam o desejo de compra, as empresas usam estratégias eficazes para influenciar o comportamento humano, a fim de alcançar maiores resultados em suas vendas. Na comunicação, é possível tornar a mensagem mais persuasiva e cativante, o que é muito útil em apresentações, negociações, em apelos religiosos e até mesmo em conversas cotidianas. No caso de contextos didático-pedagógicos, os professores podem sele- cionar, a partir dos gatilhos mentais, ditados que possibilitem um aprendizado mais interessante, envolvente e que desperte a curiosidade e o interesse dos alunos. Desse modo, os professores podem criar um ambiente de aprendizado mais eficaz e ligado ao cotidiano superdiverso, ou seja, ditados populares sobrevivem na história cotidiana e podem se constituir um aprendizado necessário para leitura de obras de época, como, por exemplo, os contos clássicos de Machado de Assis. Ao se conscientizar de que os gatilhos mentais têm influência sobre o compor- tamento do indivíduo, isso pode ajudar a identificar e controlar padrões de compor- tamento indesejados, pois ao reconhecer os gatilhos que levam a hábitos negativos, é possível desenvolver estratégias para evitá-los. Compreender os gatilhos mentais que influenciam o comportamentodas pessoas pode, até mesmo, melhorar a qualidade dos relacionamentos ou a saúde mental, uma vez que o indivíduo passa a ser capaz de reconhecer quais gatilhos causam conflitos e pode evitar situações desagradáveis. Também é possível desenvolver estratégias que evitem, por exemplo, gatilhos que causam ansiedade e depressão. Portanto, o estudo dos gatilhos mentais nos permite compreender melhor o comportamento humano e utilizar esse conhecimento para tomar decisões mais conscientes e eficazes em diversas áreas da vida. Cialdini (2021) trouxe muita evi- dência aos estudos de gatilhos mentais a partir de sua obra As armas da persuasão, a qual explora seis princípios da persuasão: reciprocidade, compromisso e coerência, aprovação social, afeição, autoridade e escassez. Embora o pesquisador seja uma refe- rência nesse campo, outros estudiosos, como os mencionados a seguir, trataram do assunto a partir de outros suas perspectivas científicas, como Tomasello, na Psicologia; Malinowski, na Antropologia; e Damásio, nas Neurociências. Michael Tomasello (2003) explora o papel fundamental das interações sociais no desenvolvimento cognitivo humano, destacando a relevância da aprovação social nesse processo. Para o autor, a aprendizagem é amplamente moldada pelo desejo dos indivíduos de se alinharem aos padrões de seus grupos sociais, o que leva a buscar validação para suas ações e comportamentos. Além disso, essa necessidade de aprovação está diretamente ligada ao processo de transmissão cultural, pois, ao perceberem que determinado comportamento é socialmente aceito, as pessoas tendem a reproduzi-lo, contribuindo para a continuidade e disseminação do conhe- cimento cultural ao longo das gerações. 81 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão Malinowski (1978), em suas pesquisas, empregou o conceito de reciprocidade para demonstrar como as interações sociais estão intimamente ligadas a aspectos como status, honra, alianças e poder. Nesse sentido, a reciprocidade funciona como um elemento central para a manutenção da coesão social, o fortalecimento dos vín- culos interpessoais e a continuidade das estruturas sociais. Além disso, ela gera uma obrigação moral, na qual aquele que recebe algo sente a necessidade de retribuir. Já, Damásio (2011) explora a relação entre emoções, razão e decisões humanas. Embora o conceito de gatilho da simpatia não seja abordado explicitamente no sentido psicológico de técnicas de persuasão, o autor discute como as emoções, especialmente a simpatia, desempenham um papel relevante na tomada de decisões e no comporta- mento humano. Ele argumenta que o cérebro humano não opera de forma puramente racional, mas sim de maneira integrada, com influência profunda das emoções nas escolhas e na razão. um diálogo entre metáforas situadas e gatilhos mentais Assim como as metáforas permeiam nossa linguagem e nosso pensamento, muitas vezes de forma inconsciente, os gatilhos mentais nos permitem compreender melhor o comportamento humano e a influência que eles têm sobre o indivíduo a ponto de tomar decisões menos conscientes e mais movidas por emoções. Esse foi o mote que nos permitiu unir metáforas a gatilhos mentais em nossa pesquisa. Segundo Vereza (2013), as metáforas situadas representam uma abordagem que busca compreender a metáfora além de sua dimensão cognitiva, integrando-a ao con- texto discursivo, à experiência corporificada e aos fatores socioculturais. Tomemos como exemplo a construção “Farinha pouca, meu pirão primeiro”, que nos dias de hoje é interpretada como uma mostra clara do egoísmo do ser humano, de pensar somente em si, de querer as coisas primeiro para si e somente se sobrar é que se poderá partilhar com os outros. Ela, no entanto, vai muito além disso, por se tratar de uma represen- tação da sabedoria popular brasileira (Benedito, 2020), especialmente dos tempos de cativeiro. É um ditado antigo que remonta ao período da escravidão no Brasil, refletindo a necessidade de priorizar a própria sobrevivência em tempos de escassez, uma realidade dura enfrentada pelos escravizados. Também é possível observar que o fato de haver pouca “farinha” um estranhamento com um padrão sináptico atípico, consequentemente deslocando a atenção do indivíduo para um estado de vigília como preparação necessária para uma tomada de decisão ágil. Portanto, é disparado o gati- lho da escassez, em que o indivíduo, nesse contexto, precisa ser célere para não ficar sem o seu alimento. Muitos ditados populares são considerados metáforas, uma vez que consistem em usar uma palavra ou expressão com um significado diferente do habitual, ou seja, des- locam-se de seu sentido literal. Os ditados populares são ferramentas que transmitem valores culturais e sociais que, nesta pesquisa, foram selecionados e são compreendidos como metáforas de altíssima complexidade que influenciam o indivíduo em suas deci- sões culturais. É o que se observa em construções como “Quem com ferro fere, com ferro será ferido”, refletindo o gatilho da reciprocidade a partir do qual as ações de uma pessoa terão uma consequência semelhante, ou seja, é uma maneira de dizer que a pessoa que comete algum dano, ou faz mal à outra, receberá o mesmo tratamento. 82 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão De modo análogo, em “Faça o bem sem olhar a quem”, é possível compreender que a metáfora também está relacionada à reciprocidade, pois, em muitos casos, as boas ações, tais como ajudar ou mesmo ser generoso com as pessoas, independentemente de quem elas sejam ou de sua situação social, econômica ou cultural, são um ato de moralidade que se espera de todo ser humano e que em algum momento se volta ao próprio indivíduo, uma vez que “fazer o bem” é uma obrigação moral de todos. Portanto, os ditados populares se valem da metáfora como ferramenta para comunicar ideias complexas de maneira simples e eficaz, tornando-se uma forma de expressão rica em significado e sabedoria, o que dialoga com a visão de metáfora apresentada por Vereza (2013). Em uma compreensão mais ampla e dinâmica da metáfora, em especial no que tange à sua mobilização para interações entre o contexto e a experiência humana, a pesquisadora propõe que não se restrinja o seu valor a apenas um mecanismo mental abstrato e, sim, a um fenômeno que se manifesta em situações específicas, influenciado por valores, crenças e práticas de uma comunidade. Explica-se, assim, o uso somente sob influência cultural de comunidades ou grupos sociais, considerando-se o contexto e a experiência corporificada que se dá por vivên- cias sensoriais e motoras. Retomamos a partir daqui a pergunta do estudo: pessoas cegas poderiam inter- pretar metáforas de altíssima complexidade como implicativas de tomadas de decisões culturais? Na próxima seção, explanaremos uma possível resposta levando em conta evidências de dados coletadas durante 2024. encaminhamentos metodológicos e resultados parciais A amostra coletada foi composta por dois grupos de voluntários: dez cegos congê- nitos e dez videntes típicos (Aprovações do Projeto Universal na Plataforma Brasil: 62549922.9.0000.0138 e 62549922.9.3002.5412). Foi necessário concertar entre os grupos a faixa etária e o gênero biológico. Cumprida essa etapa, procedemos ao treina- mento dos conceitos de metáfora e aos esclarecimentos relativos ao uso da ressonância magnética funcional. O processo de treinamento dos participantes revelou-se muito importante para conhecermos suas perspectivas e formas de identificar referentes tipicamente visuais, embora audiodescritos. Nessa etapa, que os entrevistadores desenvolvem um diálogo mais à vontade com o entrevistado, explicando sobre a importância do projeto e sobre como funcionam todas as etapas de testes sequenciadas no protocolo de pesquisa. Nessa primeira etapa do treinamento, abordamos conceitos básicos e mais comple- xos de metáfora, apresentamosa categorização decidida pelo grupo de estudiosos e ilustramos com alguns exemplos de metáforas e não metáforas, a fim de que perce- bamos observar o nível de compreensão dos participantes. Para tanto, consideramos a recontagem da narrativa, o tempo de exercício de identificação e a convicção que demonstra ao resolver os problemas propostos. Alguns resultados parciais vão sendo sinalizados para a equipe de pesquisadores, que se reúne posteriormente para revisar o protocolo de testes. Da amostragem pre- vista na pesquisa, selecionamos dois videntes e dois cegos congênitos. Os videntes não tiveram nenhuma dificuldade de compreensão e mesmo de identificação das metáforas, sendo relativamente fácil o reconhecimento delas. Já nos casos dos cegos congênitos, 83 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão um deles trabalhava, estudava, tinha uma vida muito integrada e ativa socialmente. Esse participante não apresentou nenhuma dificuldade em reconhecer, interpretar e distinguir as metáforas de altíssima complexidade que implicam tomadas de decisões culturais. Já o segundo participante tinha uma vida menos ativa, menos engajada socialmente e, provavelmente em razão disso, apresentou maiores dificuldades em compreender as metáforas de altíssima complexidade. Embora o projeto ainda esteja na fase de aplicação de testes, temos alguns indícios sobre as barreiras para a acurácia dos cegos congênitos. Tais barreiras situam-se no acesso a rotinas mais integrativas com a sociedade em geral, de modo que construa repertório compatível com o de videntes. Logo, não é a ausência total da visão que faz que os cegos congênitos estejam menos suscetíveis a alguns gatilhos mentais, mas o seu engajamento social e cultural mais ativo ou integrado que propicia seu engajamento nos movimentos da linguagem. referências BENEDITO, M. Farinha pouca, vamos dividir o pirão. Brasil de fato: uma visão popular do Brasil e do mundo. Porto Alegre, 1 de fev. 2020. Disponível em: https:// www.brasildefato.com.br/colunista/mouzar-benedito/2017/05/27/farinha-pouca-va- mos-dividir-o-pirao/. Acesso em: 7 mar. 2025. CIALDINI, R. B. As armas da persuasão 2.0. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2021. DAMÁSIO, A. R. E o cérebro criou o homem. Trad. Laura Teixeira Motta. São Paulo: Cia. das Letras, 2011. LAKOFF, G.; JOHNSON, M. Metáforas da vida cotidiana. Trad. Grupo de Estudos da Indeterminação e da Metáfora. São Paulo: Educ; Mercado das Letras, 2002. MALINOWSKI, B. K. Argonautas do Pacífico Ocidental: um relato do empreendi- mento e da aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné melanésia. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Coleção Os Pensadores). TOMASELLO, M. Origens culturais da aquisição do conhecimento humano Trad. C. Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 2003. VEREZA, S. “Metáfora é que nem...”: cognição e discurso na metáfora situada. Signo, v.38, n.65, p.2-21, 4 jul. 2013. https://www.brasildefato.com.br/colunista/mouzar-benedito/2017/05/27/farinha-pouca-vamos-dividir-o-pirao/ https://www.brasildefato.com.br/colunista/mouzar-benedito/2017/05/27/farinha-pouca-vamos-dividir-o-pirao/ https://www.brasildefato.com.br/colunista/mouzar-benedito/2017/05/27/farinha-pouca-vamos-dividir-o-pirao/ https://www.brasildefato.com.br/colunista/mouzar-benedito/2017/05/27/farinha-pouca-vamos-dividir-o-pirao/ 84 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão Aprendizado do Braille por mulheres com cegueira adquirida: desafios educacionais e sociais Mônica Maria Soares Santos contexto da pesquisa O aprendizado do Braille é essencial para a autonomia e inclusão social de pessoas cegas, especialmente para aquelas que perderam a visão na idade adulta. No entanto, com o avanço das tecnologias assistivas, observa-se uma crescente dependência dessas ferramen- tas, o que tem reduzido a valorização do Braille e seu ensino formal. Essa realidade afeta particularmente mulheres adultas com cegueira adquirida, que frequentemente encontram barreiras no acesso à alfabetização tátil, seja por falta de incentivo educacional, por estig- mas sociais que associam o Braille à incapacidade ou pela ausência de políticas públicas voltadas para esse público (Diniz; Barbosa; Santos, 2009; Chaves, 2012). Diante desse cenário, este estudo integra o subprojeto “Entre Pontos e Toques: o Desafio do Aprendizado do Braille por Mulheres Adultas com Cegueira Adquirida”, vinculado ao Projeto Universal CNPq 423337/2021-1 – Recursos inferenciais na metá- fora situada e audiodescrição – estudo contrastivo. O subprojeto busca investigar as barreiras enfrentadas por mulheres adultas com cegueira adquirida no aprendizado do Braille, considerando as implicações cognitivas, educacionais e sociais dessa alfabetiza- ção em um contexto cada vez mais mediado por tecnologias assistivas. Além de analisar a interação entre o Braille e a tecnologia assistiva na promo- ção do letramento e da inclusão social, a pesquisa também se dedica a compreender como as interseções entre gênero e deficiência impactam o acesso dessas mulheres à educação e à independência. O estudo é de natureza interdisciplinar, dialogando com áreas como Psicologia, Linguística, Educação e Acessibilidade, com o objetivo de desenvolver estratégias pedagógicas mais eficazes e contribuir para a formulação de políticas públicas inclusivas. metodologia O estudo adota uma abordagem qualitativa, centrada na coleta e análise de narrativas de mulheres adultas com cegueira adquirida sobre sua experiência no aprendizado do Braille. Foram estabelecidos critérios para a seleção das participantes, incluindo: (i) terem adquirido a cegueira após a infância; (ii) terem ou não alfabetização em Braille; e (iii) terem diferentes graus de familiaridade com tecnologias assistivas. A coleta de dados está sendo realizada por meio de entrevistas semiestruturadas, abordando questões como desafios no aprendizado do Braille, impactos da tecnologia assistiva na alfabetização tátil e percepções sobre barreiras educacionais e sociais. As entrevistas estão sendo transcritas e analisadas com base na metodologia de análise de conteúdo, a fim de identificar padrões recorrentes nas narrativas das participantes. 85 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão O estudo integra o subprojeto “Entre pontos e toques: o desafio do aprendizado do Braille por mulheres adultas com cegueira adquirida”, vinculado ao Projeto Universal “Recursos inferenciais na metáfora situada e audiodescrição – estudo contrastivo”. Essa vinculação permite que a investigação dialogue com perspectivas interdiscipli- nares, contribuindo para uma compreensão mais ampla dos processos inferenciais envolvidos no letramento tátil e na acessibilidade. braille e identidade: impactos da cegueira adquirida O aprendizado do Braille por mulheres adultas com cegueira adquirida envolve desa- fios que vão além da esfera educacional, abrangendo também aspectos identitários, tecnológicos e institucionais. Além do desafio técnico do aprendizado do Braille, essa experiência exige uma reconfiguração da identidade e da autonomia dessas mulheres. Como destacam Marçalo et al. (2020, p.36), “a autonomia na condução da vida e a identidade constituem-se fatores primordiais para a discussão sobre a correlação entre linguagem e consciência”. Perder a visão na vida adulta exige uma ressignificação da identidade e da autos- suficiência, pois impõe novas formas de interação com o ambiente e de acesso à infor- mação. Como demonstram Santos e Vicente (2022, p.155), “a emoção desperta a consciência linguística”, o que evidencia que experiências sensoriais e afetivas podem atuar como catalisadoras de reorganizações cognitivas e linguísticas – aspecto essen- cial para compreender os desafios e as potencialidades do aprendizado do Braille por mulheres com cegueira adquirida. Esse processo pode desencadear sentimentosde insegurança e isolamento, uma vez que a transição da visão para o tato como principal canal de leitura e escrita representa uma mudança significativa na autopercepção anterior. Santos (2015) observa que, em uma sociedade estruturada pelo visual, as mulheres cegas enfrentam desafios adicionais para construir sua autoimagem, muitas vezes internalizando representações sociais que reforçam sua marginalização. Esse fator pode influenciar também a forma como encaram o aprendizado do Braille, já que ele pode ser visto como um marcador de sua deficiência perante a sociedade. Nessa mesma linha, Pieczkowski e Gavenda (2021) analisam narrativas de mulhe- res cegas e destacam que a deficiência não é apenas uma condição individual, mas também uma construção social que impõe barreiras à capacidade de agir com liber- dade. Os relatos evidenciam que muitas mulheres enfrentam dificuldades para serem vistas como independentes, especialmente em contextos nos quais a sociedade tende a infantilizá-las ou a associá-las à dependência. A deficiência não deve ser compreendida apenas como uma questão biomédica, mas como uma restrição social resultante de barreiras que limitam a participação plena das pessoas com impedimentos sensoriais. Nesse sentido, a perda da visão na vida adulta pode ser um desafio que exige novas formas de interação com o ambiente e um processo de ressignificação da identidade (Diniz; Barbosa; Santos, 2009). Para muitas mulheres, essa transição é marcada pelo receio de uma dependência ampliada e pela dificuldade de aceitação da nova condição. Contudo, essa resistência ao Braille não pode ser analisada apenas sob a óptica individual, uma vez que está enraizada em estigmas sociais mais amplos. Conforme argumenta Chaves (2021), o Braille pode ser percebido de formas ambíguas: por um lado, como uma ferramenta de reconstrução da independência; por outro, como um 86 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão símbolo da deficiência que reforça a ruptura com a identidade visual anterior. Essa ambivalência pode levar algumas mulheres a evitarem o aprendizado do Braille, inter- nalizando preconceitos e priorizando o uso de tecnologias assistivas. Como observa Santos (2015), em uma sociedade visualmente orientada, a cegueira não é apenas uma condição sensorial, mas também um marcador social que pode reforçar a exclusão e a dependência. Nesse sentido, a percepção negativa da cegueira pode se estender ao Braille, fazendo que algumas mulheres o evitem por receio da estigmatização. Esse cenário se insere no contexto mais amplo das barreiras enfrentadas por mulheres com deficiência, que, como destaca Farias (2020), lidam com múltiplas vulnerabilidades e a exclusão de espaços de tomada de decisão e independência. Sousa (2004) reforça essa questão ao relatar episódios em que o uso do Braille gerou perplexidade e desconfiança em interlocutores videntes, evidenciando a falta de conhecimento da sociedade sobre a importância da alfabetização tátil para a autonomia das pessoas cegas. braille, tecnologia e políticas públicas: caminhos para a inclusão O avanço das tecnologias assistivas trouxe importantes transformações para a aces- sibilidade de pessoas com deficiência visual, permitindo a leitura e a escrita por meio de leitores de tela, softwares de reconhecimento óptico de caracteres e dispositivos móveis adaptados. Embora essas ferramentas tenham ampliado o acesso à informa- ção, sua crescente adoção tem gerado um efeito colateral preocupante: o declínio no aprendizado do Braille. Esse fenômeno ocorre tanto pela priorização das tecnologias assistivas em políticas públicas quanto pela falta de incentivo ao ensino do Braille em programas educacionais para adultos. De acordo com Borges (2009), o número de leitores de Braille tem caído drastica- mente, em parte pela crescente dependência das tecnologias assistivas. Essa questão torna-se ainda mais relevante ao considerarmos que a oralidade, amplamente mediada pela tecnologia, não substitui integralmente as habilidades cognitivas promovidas pelo Braille. Mendes (2014) reforça esse argumento ao demonstrar que o domínio do Braille favorece não apenas a leitura independente, mas também a estruturação do raciocínio escrito, contribuindo para a formação da identidade leitora e escritora des- sas mulheres, habilidades que nem sempre são plenamente desenvolvidas por meio das tecnologias baseadas na oralidade. Com efeito, a oralidade, ainda que amplie o acesso à informação, não favorece da mesma forma a organização do pensamento escrito, essencial para a autonomia acadêmica e profissional. Além disso, a exclusividade do uso da tecnologia assistiva pode gerar vulnerabilidades em contextos em que os dispo- sitivos eletrônicos não estão acessíveis, como falhas de energia ou incompatibilidades de software ou restrições econômicas. Considerando esses desafios, torna-se fundamental considerar o Braille e as tec- nologias assistivas como ferramentas complementares, e não excludentes. Um modelo educacional que equilibre ambos os recursos, promovendo o ensino integrado de Braille e tecnologias assistivas, pode proporcionar uma aprendizagem mais eficaz e garantir que as mulheres cegas adultas desenvolvam múltiplas competências de letramento. Além das questões identitárias e tecnológicas, as barreiras institucionais também desempenham um papel crucial no aprendizado do Braille por mulheres cegas adultas. 87 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão Um exemplo histórico que ilustra tanto os avanços na ampliação da oferta educacional e na capacitação profissional quanto os desafios da manutenção dessas iniciativas e da adaptação curricular para o público cego é o Lar das Moças Cegas de Santos. Desde 1943, essa instituição tem promovido a educação formal e o treinamento profissional para mulheres com deficiência visual, oferecendo-lhes maior autonomia e possibili- dades de inserção no mercado de trabalho (Almeida; Bonanato; Oliveira, 2023). No entanto, a ausência de políticas públicas voltadas para o ensino do Braille a adultos ainda se constitui num dos principais entraves para a alfabetização tátil, já que a maior parte das iniciativas educacionais prioriza o público infantil, resultando na escassez de programas acessíveis para mulheres cegas adultas. Como consequência, muitas delas tornam-se mais dependentes da tecnologia assistiva e encontram dificuldades para ingressar no mercado de trabalho e exercer maior protagonismo. As políticas educacionais voltadas para a inclusão frequentemente não levam em conta as especificidades das mulheres com deficiência. Como apontam Mello e Nuernberg (2012), essa lacuna reflete a ausência da deficiência nos debates sobre equidade de gênero, perpetuando desigualdades estruturais, especialmente no acesso à educação e à formação profissional. Esse cenário agrava-se quando observamos que a maior parte dos investimentos em acessibilidade tem priorizado tecnologias assistivas em detrimento da educação em Braille. Essa tendência reforça a exclusão educacional de mulheres cegas, um fenômeno que, segundo Farias (2020), está atrelado à falta de políticas inclusivas e ao duplo estigma enfrentado por esse grupo – a discriminação combinada por gênero e deficiência, que restringe ainda mais suas oportunidades educacionais e profissionais. Para superar esse desafio, é essencial que políticas educacionais promovam uma abordagem integrada, em que tanto o ensino do Braille quanto às tecnologias assistivas sejam valorizados de maneira equilibrada. Além disso, a formação de instrutores qua- lificados, a criação de cursos acessíveis para a alfabetização em Braille de adultos e para a capacitação profissional, e a disponibilização de materiais didáticos adaptados são medidas fundamentais para ampliar o acesso ao Braille e fortalecer a independência das mulheres adultas cegas. As barreirasnos espaços de vida e convivência, trabalho, ao livre deslocamento e expressão, primordialmente pensado e adaptado às pessoas que dispõem dos recursos sensoriais da visão – e secundariamente, da audição. Do mesmo modo, fomos percebendo o quanto o léxico e a parafernália teó- rico-metodológico do fazer nas ciências – para observar, categorizar, nomear, refletir e refinar modelos explicativos a respeito de fenômenos passíveis de investigação científica – também se apoiam predominantemente na experiência direta e metafórica da visão. 13 apresentação geral Tal experiência singular tornou necessária a idealização de um LinCog em que todas as pessoas com e sem deficiências ou habilidades especiais se sentissem confortáveis, percebidas e atendidas no que fosse necessário para que possam tanto aprender quanto instruir em relação a conhecimentos e recursos. O caráter inovador do evento se traduz também no formato deste registro, um livro para ser lido e/ou ouvido com parte das atividades desenvolvidas. Há os áudios de diversas apresentações, dentre eles o da mesa das autoridades e a conferência de abertura, ao mesmo tempo que disponibiliza textos breves, privilegiando a divulgação e a difusão de conhecimentos específicos, tanto por escrito quanto por áudio. Sobre a mesa de abertura, estão disponibilizados áudios das falas das seguintes autoridades, com trabalho alinhado à temática do evento: Marcos da Costa (Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência); Silvia Grecco (Secretaria Municipal de São Paulo da Pessoa com Deficiência); Marli Quadros Leite (Pró-Reitora de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo); Carlos Eduardo Procópio (Pró-Reitor de Ensino do Instituto Federal de São Paulo); Bernardete Angelina Gatti (Conselho Estadual de Educação de São Paulo e coordenadora da Cátedra Alfredo Bosi de Educação Básica no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo); e Paulo Alberto Nussenzveig (Pró-Reitor de Pesquisa e Inovação da USP), representado por Susana Inês Cordoba de Torresi, pró-reitora adjunta de pesquisa. Também está disponível em áudio o discurso da presidência do V LinCog: Fraulein Vidigal de Paula, do Instituto de Psicologia, e Cristina Lopomo Defendi, do Instituto Federal de São Paulo. A conferência de abertura, mediada pelo Prof. Dr. Cleyton Fernandes Ferrarini, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), fugiu ao tradicional protocolo em eventos acadêmicos e deu a palavra a exemplos de pessoas cegas ou de baixa visão que superaram muitos obstáculos e chegaram a lugares inimagináveis para muitos de nós: José Vitor Hansen, diplomata em Brasília; Gelson Inácio dos Santos, pesquisador da UFSCar; e Fabiana Fator Gouvêa Bonilha, pesquisadora do Centro Nacional de Referência em Tecnologia Assistiva (CNRTA), vinculado ao Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI). Cada um deles compartilhou histórias de superação e de êxitos nos caminhos escolhidos. Materializamos, assim, a mensagem do lema “Nada sobre nós sem nós”. Este livro (texto e áudio) apresenta parte do que foi desenvolvido no evento que contou com mesas-redondas sobre o projeto desenvolvido com cegos congênitos, pessoas com baixa visão e videntes; minicursos, oficinas, exposições e talks (com temáticas que perpassaram a linguagem, inclusive o sistema Braille, a tecnologia assistiva, a adaptação de materiais, dentre outras propostas); relatos de experiências no atendimento a pessoas com deficiência visual por instituições de Ensino Superior e relatos de práticas de instituições especializadas no acolhimento e readaptação de pessoas com deficiência visual; atividades culturais, como a banda do Lar das Moças Cegas de Santos, e atividades esportivas típicas das paralimpíadas envolvendo cegos e videntes, todas desenvolvidas num sábado de sol no Centro de Práticas Esportivas da Universidade de São Paulo (Cepeusp), com participação do comitê paralímpico. Foram oferecidos também 16 simpósios temáticos com apresentações em comunica- ções e em formato de pôster e de videopôster. 14 apresentação geral Cabe ressaltar também a mostra COMtornos, com peças criadas pela artista plástica Karen Montija (ex-aluna da ECA-USP) especialmente para esse evento. Essas esculturas foram impressas como capa deste livro-audiolivro. São quatro esculturas que representam a deficiência visual/cegueira, a deficiência motora, a deficiência auditiva/surdez e as deficiências ocultas como o autismo. Essa mostra será itinerante e foi inaugurada no espaço da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin durante a abertura do evento, passando ao longo de 2025 pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, pela prefeitura da cidade de São Paulo, pelo Centro de Treinamento Paralímpico, pela Secretaria de Estado da Pessoas com Deficiência, pelas reitorias do Instituto Federal de São Paulo e por um tanto de outras Faculdades e Institutos da Universidade de São Paulo, dentre as quais as co-organizadoras do V LinCog, o Instituto de Psicologia, a Faculdade de Odontologia, a Faculdade de Educação Física, o Instituto de Estudos Avançados e a Reitoria. O papel dessa exposição rotativa é dar visibilidade à deficiência e provocar discussões sobre os processos e barreiras de inclusão. Por fim, temos muito a agradecer a todos que tornaram possível que o V LinCog obtivesse sucesso também nesta edição. No final desta obra, há uma ficha técnica com todos aqueles que contribuíram no evento. Mas gostaríamos de destacar aqui alguns. Agradecemos às instituições universitá- rias parceiras, USP, UFRPE, IFSP, UFF, IEA-USP, as quais fazem parte da organiza- ção e da secretaria do evento. Agradecemos às associações e instituições especializadas que abraçaram o projeto e proporcionaram grande aprendizagem a todos os presentes. Agradecemos ao Jornal da USP, em especial ao Quinto e à fotógrafa Cecilia Bastos Ribeiro pelos registros realizados durante o evento e pela foto que ilustra a capa deste livro. Agradecemos à USP, especialmente à Profa. Marli Quadros Leite e ao Prof. Rui González, que mantiveram suas portas sempre abertas para acolher nossas demandas. Agradecemos ao CNPq pelo fomento ao projeto “Recursos inferenciais na metáfora situada e audiodescrição – estudo contrastivo”, sem o qual não teríamos resultados de pesquisa tão significativos. Agradecemos de modo especial a todos os participantes que trocaram experiências e acreditaram num evento que pretendia – e conseguiu ser – uma ideia “fora da caixinha”. ENTRE VOZES E OLHARES: NARR ATIVAS DE ABERTUR A1 16 seção 1 Entre vozes e olhares: narrativas de abertura Áudio 1: Mesa de abertura do evento LinCog Marli Quadros Leite, Fraulein Vidigal de Paula e Cristina Lopomo Defendi, Marcos da Costa, Silvia Grecco, Carlos Eduardo Procópio, Bernadete Angelina Gatti e Susana Inês Cordoba de Torresi (representante de Paulo Alberto Nussenzveig). Áudio da mesa oficial de abertura do V LINCOG, ocorrida em 06/11/2024, com as falas das seguintes autoridades: Marli Quadros Leite (Pró-Reitora de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo); Paulo Alberto Nussenzveig (Pró-Reitor de Pesquisa e Inovação da USP), representado por Susana Inês Cordoba de Torresi, pró-reitora adjunta de pesquisa; Marcos da Costa (Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência); Silvia Grecco (Secretaria Municipal de São Paulo da Pessoa com Deficiência); Carlos Eduardo Procópio (Pró-Reitor de Ensino do Instituto Federal de São Paulo); Bernardete Angelina Gatti (Conselho Estadual de Educação de São Paulo e coordenadora da Cátedra Alfredo Bosi de Educação Básica no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo). Também está disponível em áudio o discurso da presidência do V LINCOG: Fraulein Vidigal de Paula, do Instituto de Psicologia, e Cristina Lopomo Defendi, do Instituto Federal de São Paulo. Para acessar o conteúdo, clique aqui. Áudio 2: Conferênciaenfrentadas por essas mulheres não podem ser dissociadas das desi- gualdades estruturais de gênero. A divisão desigual do trabalho doméstico e do cui- dado impacta diretamente as oportunidades educacionais e profissionais das mulheres com deficiência, reforçando sua exclusão social. Segundo Pieczkowski e Gavenda (2021), as mulheres cegas entrevistadas relataram que frequentemente são percebidas como incapazes de assumir responsabilidades profissionais e educacionais. Santos (2015) reforça essa análise ao demonstrar que as representações sociais da cegueira feminina frequentemente associam essas mulheres à dependência, tornando ainda mais difícil sua inclusão plena na sociedade. Esse cenário pode impactar também a forma como o aprendizado do Braille é percebido: se a sociedade já tende a infantilizar essas mulheres, o ensino de uma nova habilidade tátil pode ser interpretado como mais um reforço de sua vulnerabilidade, ao invés de um meio de emancipação. Essa visão social limitante contribui para sua marginalização, dificultando seu acesso à educação formal, sua permanência no sistema de ensino e suas oportunidades de inserção no mercado de trabalho. Kittay (2003, 2005) afirma que a sociedade impõe às mulheres o papel de cuidadoras, o que pode limitar suas possibilidades de educa- 88 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão ção e independência, especialmente quando elas próprias possuem uma deficiência. Guimarães (2008) complementa essa análise ao demonstrar que a ausência de suporte social adequado perpetua um ciclo de marginalização, dificultando o acesso dessas mulheres à educação formal, restringindo sua participação no mercado de trabalho e reforçando sua dependência econômica. Essa dinâmica evidencia a interseccionalidade entre deficiência e gênero, criando um ciclo de marginalização que limita o acesso das mulheres cegas adultas ao ensino do Braille, ao mercado de trabalho e à participação plena na sociedade (Farias, 2020). Para que o ensino do Braille seja efetivo para esse público, é essencial que programas educacionais considerem suas especificidades, como a necessidade de alfabetização tardia e as barreiras sociais enfrentadas, oferecendo suporte pedagógico, social e econômico. Somente com estratégias inclusivas que promovam o acesso equitativo ao letramento tátil será possível fortalecer a capacidade de participação ativa dessas mulheres e garantir sua plena inclusão social. resultados preliminares Os dados coletados até o momento apontam que a alfabetização em Braille por mulheres adultas com cegueira adquirida está diretamente relacionada à disponi- bilidade de programas específicos de ensino e ao suporte oferecido pelas redes de apoio. Entrevistas iniciais sugerem que participantes que tiveram contato com cursos formais ou instrutores capacitados desenvolveram maior autonomia na leitura tátil, enquanto aquelas que dependem exclusivamente de tecnologias assistivas expressam dificuldades em contextos em que essas ferramentas não estão disponíveis. Além disso, padrões emergentes indicam que o estigma social associado ao Braille pode influenciar negativamente a motivação para seu aprendizado, reforçando a neces- sidade de políticas públicas que promovam tanto a formação de professores quanto a valorização do letramento tátil na vida cotidiana dessas mulheres. Esses achados iniciais serão aprofundados à medida que a pesquisa avança, permitindo uma análise mais deta- lhada das barreiras e possibilidades do aprendizado do Braille nesse contexto. considerações finais Este estudo teórico analisou os desafios enfrentados por mulheres adultas com cegueira adquirida no aprendizado do Braille, considerando os fatores educacionais, sociais e tecnológicos que influenciam esse processo. A revisão da literatura demons- trou que a interação entre letramento tátil e tecnologias assistivas desempenha um papel central na autonomia e inclusão social dessas mulheres. Além disso, evidenciou- -se a necessidade de políticas educacionais mais inclusivas, que integrem o ensino do Braille e o uso de tecnologias assistivas de forma complementar. Os achados desta análise teórica fornecem subsídios essenciais para a compreen- são das barreiras enfrentadas por esse público e para o desenvolvimento de estratégias que possam mitigar tais desafios. Ao mapear as dificuldades educacionais e sociais que impactam o aprendizado do Braille, este estudo contribui para a formulação de diretri- zes mais eficazes voltadas à inclusão. O subprojeto “Entre pontos e toques: o desafio do aprendizado do Braille por mulheres adultas com cegueira adquirida”, inserido no Projeto Universal “Recursos 89 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão inferenciais na metáfora situada e audiodescrição – estudo contrastivo”, busca ampliar a compreensão dos desafios enfrentados por mulheres cegas adultas no aprendizado do Braille. Como parte de um esforço interdisciplinar que investiga os processos infe- renciais envolvidos na comunicação acessível, esta pesquisa qualitativa contribuirá para mapear as barreiras educacionais e sociais enfrentadas por esse público. A coleta de dados empíricos, por meio de entrevistas, permitirá um aprofundamento na análise das interações entre tecnologia assistiva e letramento tátil, fornecendo insumos para políticas públicas mais inclusivas e estratégias pedagógicas voltadas à alfabetização tátil de adultos. Embora esta pesquisa ainda esteja em andamento, alguns achados preliminares já indicam padrões importantes. Os dados coletados até o momento sugerem que a alfabetização em Braille continua sendo um desafio significativo para mulheres cegas adultas, não apenas devido à falta de acesso a cursos especializados, mas também pela percepção social que associa o Braille à incapacidade. Além disso, os relatos obtidos nas entrevistas apontam que a dependência de tecnologias assistivas pode restringir a autonomia em determinadas situações do cotidiano, reforçando a necessidade de um modelo educacional que valorize tanto o Braille quanto os recursos tecnológicos como ferramentas complementares. O aprofundamento dessas análises será realizado na próxima fase da pesquisa, permitindo uma compreensão mais detalhada das barreiras e estratégias para a inclusão dessas mulheres. Espera-se que os achados dessa próxima etapa ampliem as reflexões apresentadas e contribuam para o aprimoramento de estratégias pedagógicas e políticas públicas voltadas ao ensino do Braille para adultos. Além disso, os resultados poderão orientar a criação de materiais didáticos acessíveis e programas de formação docente, garan- tindo um ensino do Braille que contemple as especificidades desse público e promova sua participação ativa na sociedade. referências ALMEIDA, A. M.; BONANATO, B. P.; OLIVEIRA, S. C. V. Lar das Moças Cegas de Santos: a trajetória histórica de educação e profissionalização de mulheres na Baixada Santista (1943 – 2019). S.l.: s.n., 2023. Disponível em: https://delphos-gp. com/primus_vitam/primus_16/aline_beatriz_sarah.pdf. Acesso em: 30 mar. 2024. BORGES, J. A. dos S. Do Braille ao DOSVOX – diferenças nas vidas dos cegos brasilei- ros. Rio de Janeiro, 2009. Tese (Doutorado) – Programa de Engenharia de Sistemas e Computação, COPPE, Universidade Federal do Rio de Janeiro. CHAVES, S. A. Os sentidos subjetivos atribuídos ao preconceito por uma aluna cega do ensino superior. Teresina, 2012. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal do Piauí. Disponível em: https://ufpi.br/arquivos_download/arquivos/ppged/arquivos/ files/Disserta%20Susana%20Araujo%20Chaves2012(1).PDF. Acesso em: 30 mar. 2024. DINIZ, D.; BARBOSA, L.; SANTOS, W. R. Deficiência, direitos humanos e justiça. Sur, Revista Internacional de Direitos Humanos, v.6, n.11, 2009. https://doi. org/10.1590/S1806-64452009000200004. https://delphos-gp.com/primus_vitam/primus_16/aline_beatriz_sarah.pdfhttps://delphos-gp.com/primus_vitam/primus_16/aline_beatriz_sarah.pdf https://delphos-gp.com/primus_vitam/primus_16/aline_beatriz_sarah.pdf https://ufpi.br/arquivos_download/arquivos/ppged/arquivos/files/Disserta%20Susana%20Araujo%20Chaves2012(1).PDF https://ufpi.br/arquivos_download/arquivos/ppged/arquivos/files/Disserta%20Susana%20Araujo%20Chaves2012(1).PDF https://ufpi.br/arquivos_download/arquivos/ppged/arquivos/files/Disserta%20Susana%20Araujo%20Chaves2012(1).PDF https://doi.org/10.1590/S1806-64452009000200004 https://doi.org/10.1590/S1806-64452009000200004 90 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão FARIAS, A. Q. Para quem quer ver além: deficiência visual e empoderamento femi- nino. Research, Society and Development, v.9, n.1, e193911832, 2020. http://dx.doi. org/10.33448/rsd-v9i1.1832. GUIMARÃES, R. Deficiência e cuidado: por quê abordar gênero nessa relação? SER Social, v.10, n.22, p.213-38, jan./jun. 2008. Disponível em: file:///Users/monicasoa- res/Downloads/admin,+8.pdf. Acesso em: 30 mar. 2024. KITTAY, E. F. Love’s Labor Revisited. Hypatia, v.17, n.3, p.237-50, Summer 2002. Disponível em: https://evafederkittay.com/wp-content/uploads/2015/01/loves-la- bor-revisited.pdf. Acesso em: 30 mar. 2024. _______. Disability, equal dignity, and care. In: Perspectives on Equality: Equality, Dignity and Disability, Seamus Heaney Lecture Series on Equality. S.l.: s.n., 2003. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/304820882_Disability_ equal_dignity_and_care. Acesso em: 30 mar. 2024. LANG, E. W. et al. Brain connectivity analysis: a short survey. Computational Intelligence and Neuroscience, v.2012, 412512, 2012. https://doi.org/10.1155/2012/412512 MARÇALO, M. J. et al. Consciência e autonomia no contexto da cognição: discutindo o papel da linguagem. In: DEFENDI, C. L.; VICENTE, R. B.; MARÇALO, M. J. (Org.) Linguagem, cognição e interações. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2020. p.36–53. https://doi.org/10.11606/9788575063941. MELLO, A. G. de; NUERNBERG, A. H. Gênero e deficiência: interseções e perspec- tivas. Revista Estudos Feministas, v.20, n.3, p.635-55, 2012. http://dx.doi.org/10.1590/ S0104-026X2012000300003. MENDES, F. A. G. A constituição de sujeitos com cegueira adquirida e a apren- dizagem da leitura e escrita Braille. Piracicaba, 2014. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Metodista de Piracicaba. Disponível em: https://iepapp.unimep.br/biblioteca_digital/pdfs/ docs/04022021_113627_fatima.pdf. Acesso em: 30 mar. 2024]. PIECZKOWSKI, K.; GAVENDA, S. Narrativas de mulheres com deficiência visual: barreiras e possibilidades de inclusão. Revista Brasileira de Educação Especial, v.27, 2021. https://doi.org/10.1590/1980-54702021v27e0171. SANTOS, M. A autoimagem de quem não vê: recepção, produção e mediação de sentidos por mulheres cegas numa sociedade visual. In: SANTOS, M.; SERGL, M. J.; SILVA, L. (Org.) Comunicação, mídia e sociedade. São Paulo: Intermeios, 2015. v.1, p.169-202. SANTOS, M. M. S.; VICENTE, R. B. Interface entre linguagem humana, consci- ência e emoção. Filologia e Linguística Portuguesa, v.24, n.2, p.147-59, ago./dez. 2022. https://doi.org/10.11606/issn.2176-9419.v24i2p147-159 SOUSA, J. B. de. A cegueira, o Braille e o jornalismo: furos de uma reportagem. Revista Benjamin Constant, v.27, 2004. Disponível em: http://antigo.ibc.gov.br/ima- ges/conteudo/revistas/benjamin_constant/2004/edicao-27-abril/Nossos_Meios_ RBC_RevAbr2004_Relato.pdf. Acesso em: 30 mar. 2024. http://dx.doi.org/10.33448/rsd-v9i1.1832 http://dx.doi.org/10.33448/rsd-v9i1.1832 https://www.google.com/search?q=file:///Users/monicasoares/Downloads/admin,%2B8.pdf https://www.google.com/search?q=file:///Users/monicasoares/Downloads/admin,%2B8.pdf https://evafederkittay.com/wp-content/uploads/2015/01/loves-labor-revisited.pdf https://evafederkittay.com/wp-content/uploads/2015/01/loves-labor-revisited.pdf https://evafederkittay.com/wp-content/uploads/2015/01/loves-labor-revisited.pdf https://www.researchgate.net/publication/304820882_Disability_equal_dignity_and_care https://www.researchgate.net/publication/304820882_Disability_equal_dignity_and_care https://www.researchgate.net/publication/304820882_Disability_equal_dignity_and_care https://doi.org/10.1155/2012/412512 Https://doi.org/10.11606/9788575063941 http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2012000300003 http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2012000300003 https://iepapp.unimep.br/biblioteca_digital/pdfs/docs/04022021_113627_fatima.pdf https://iepapp.unimep.br/biblioteca_digital/pdfs/docs/04022021_113627_fatima.pdf https://iepapp.unimep.br/biblioteca_digital/pdfs/docs/04022021_113627_fatima.pdf https://doi.org/10.1590/1980-54702021v27e0171 Https://doi.org/10.11606/issn.2176-9419.v24i2p147-159 http://antigo.ibc.gov.br/images/conteudo/revistas/benjamin_constant/2004/edicao-27-abril/Nossos_Meios_RBC_RevAbr2004_Relato.pdf http://antigo.ibc.gov.br/images/conteudo/revistas/benjamin_constant/2004/edicao-27-abril/Nossos_Meios_RBC_RevAbr2004_Relato.pdf http://antigo.ibc.gov.br/images/conteudo/revistas/benjamin_constant/2004/edicao-27-abril/Nossos_Meios_RBC_RevAbr2004_Relato.pdf http://antigo.ibc.gov.br/images/conteudo/revistas/benjamin_constant/2004/edicao-27-abril/Nossos_Meios_RBC_RevAbr2004_Relato.pdf 91 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão Contexto de pessoas cegas congênitas em comparação a pessoas com baixa visão Keli Roberta Mariano Matheus apresentação Este estudo foi desenvolvido para apresentação na mesa 3 do LinCog, numa aborda- gem científica sobre a deficiência visual, baseada no levantamento bibliográfico nas bibliotecas eletrônicas (Pubmed, Scielo), e também da experiência profissional da autora na Associação de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual – Laramara, como colaboradora do Departamento de Visão Subnormal do Hospital de Clínicas de São Paulo, e no Serviço de Reabilitação Visual da Rede Lucy Montoro Humaitá (atualmente extinto). O objetivo do texto é abordar aspectos clínicos da definição de deficiência visual, bem como a neuroplasticidade e a aprendizagem. definição A deficiência visual é caracterizada pela perda total (cegueira) ou parcial (baixa visão) da capacidade visual de um ou de ambos os olhos. Segundo a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID), que é elaborada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), por definição, considera-se: • Cegueira: quando os valores de acuidade visual se encontram abaixo de 0,05 ou campo visual menor do que 10º. – categorias 3, 4 e 5 do CID 10, e • Baixa visão (também chamada de visão subnormal): quando o valor da acuidade visual corrigida no melhor olho é menor do que 0,3 e maior ou igual a 0,05 ou seu campo visual é menor do 20º. no melhor olho com a melhor correção óptica – categorias 1 e 2 de graus de comprometimento visual do CID 10. deficiência visual e neuroplasticidade Neuroplasticidade, também conhecida como plasticidade neuronal ou plasticidade cerebral, refere-se à capacidade do sistema nervoso central de se adaptar e se moldar a novas situações. Há algumas evidências de que a perda da modalidade sensorial pode desencadear uma reorganização do SNC (Silva et al., 2018). Na deficiência visual, o cérebro produz um efeito sensorial compensatório, no qual áreas não visuais estão relacionadas à neuroplasticidade cruzada (na deficiência visual congênita) e neuroplasticidade multimodal (na cegueira tardia). Há um padrão de ativação cortical diferente entre pessoas com cegueira precoce e nas que perderam a visão tardiamente. As teorias de plasticidade cruzada e multimodal corroboram estudos que mostra- ram que áreas corticais visuais são recrutadas após perda visual para o processamento de informações não visuais, por exemplo, como o processamento sonoro e auditivo. Embora tanto a cegueira congênita quanto a adquirida resultemem perda da visão, elas levam 92 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão a diferenças significativas no desenvolvimento e organização do córtex visual. Essas diferenças são marcadas especialmente pela plasticidade cerebral e pela forma como o cérebro adapta outras regiões corticais para compensar a falta de estímulos visuais. Na cegueira congênita, o córtex visual primário, que normalmente processaria informações visuais, é reorganizado para responder a outros estímulos sensoriais como os táteis e auditivos (Merabet; Pascual-Leone, 2010). Há uma maior ativação durante atividades não visuais, como leitura em Braille e reconhecimento de sons, por um fenômeno chamado recrutamento cross-modal. Esse processo permite que o cérebro use essa região para outras modalidades sensoriais e desempenhe novas funções. Estudos de neuroimagem mostram que áreas associadas ao reconhecimento de objetos, movimento e profundidade no córtex visual podem ser adaptadas para funções de linguagem e processamento auditivo. Na cegueira congênita, o cérebro reorganiza de forma mais ampla as áreas visuais para processar outros sentidos, devido à ausência completa de estímulos visuais desde o nascimento. Na cegueira adquirida, o córtex visual ainda mantém uma estrutura relacionada à visão, mas, com o tempo, ele pode ser parcialmente reorganizado para responder a outros estímulos sensoriais (Saionz; Busza; Huxlin, 2022). No entanto, essa reorgani- zação tende a ser menos intensa do que nos casos de cegueira congênita. A plasticidade do córtex visual é geralmente limitada e depende da idade em que a cegueira ocorreu. Quanto mais jovem a pessoa, maior é a capacidade de se reorganizar para processar informações táteis ou auditivas (Silva et al., 2018). Em adultos que se tornam cegos, é comum que o córtex visual retome funções de maneira menos completa, e essas áreas podem ser menos responsivas a estímu- los não visuais do que em pessoas com cegueira congênita (Rangel et al., 2010). Na cegueira adquirida, especialmente quando ocorre em adultos, essa reorganização é menos extensiva, e a área visual conserva algumas das funções estruturais e funcio- nais relacionadas à visão por mais tempo. Essas diferenças refletem a capacidade do cérebro humano de se adaptar às condições sensoriais, reorganizando a maneira como processa informações e mantendo a funcionalidade mesmo com limitações sensoriais. A baixa visão e a cegueira envolvem diferentes níveis de perda visual, o que afeta o córtex visual e outras áreas do cérebro de maneira distinta. Na baixa visão: Ainda há um grau de entrada visual chegando ao córtex visual primário (V1), embora seja reduzido. Isso mantém alguma ativação nessa área, permitindo que o cérebro processe informações visuais, mesmo que de forma limitada ou distorcida. Existe alguma plasticidade, mas em menor grau, pois ainda há estímulo visual. Outras áreas, como o córtex somatossenso- rial, podem ser recrutadas para complementar a visão (Rangel et al., 2010). Na cegueira, o córtex visual primário pode se tornar menos ativo ou ser “reapro- veitado” para outras funções, como o processamento de sons ou toques, especialmente em pessoas cegas congênitas ou com cegueira precoce (também conhecido como neu- roplasticidade cross-modal). Especialmente nas pessoas com perda precoce, áreas visuais podem ser ativadas por estímulos não visuais, como sons e leitura em Braille. Essa adaptação fortalece a audição, o tato e o desenvolvimento de habilidades espaciais (Rangel et al., 2010). A conectividade cerebral refere-se à forma como diferentes regiões do cérebro se comunicam e interagem entre si para processar informações e executar funções. Essa conectividade pode ser estrutural, envolvendo as conexões físicas entre neurônios e 93 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão regiões cerebrais, ou funcional, relacionada à sincronização e coordenação da atividade neural durante tarefas específicas. Ela é essencial para a integração de informações sensoriais, motoras e cognitivas, permitindo que o cérebro funcione como um sistema coeso e eficiente (Lang et al., 2012). Na baixa visão, a conectividade entre o córtex visual e outras áreas do cérebro ainda está ativa e associada a funções visuais, embora de maneira reduzida. Na cegueira, ocorre uma reorganização das redes neurais. A conectividade entre o córtex visual e áreas auditivas, táteis e motoras é fortalecida, aumentando a eficiência dessas redes em tarefas que envolvem percepção auditiva e tátil. Na baixa visão a percepção espacial é limitada, mas presente, o que permite alguma orientação espacial e reconhecimento visual básico. Enquanto na cegueira, a percepção espacial se baseia em pistas auditivas e táteis. O córtex visual pode ser usado para processar essas pistas, permitindo a orientação no espaço e o desenvolvimento de um “mapa mental”. aprendizagem em pessoas com cegueira e baixa visão A aprendizagem se dá por meio de abordagens sensoriais alternativas, especialmente com a utilização dos sentidos do tato e da audição, em combinação com adaptações de materiais e tecnologia assistiva. Na exploração tátil, o tato se torna essencial para a aprendizagem de conceitos abstratos e concretos. Materiais em Braille, relevo, e texturas ajudam a compreen- são de conceitos espaciais, figuras geométricas e leituras de textos. Mapas, gráficos e desenhos em relevo permitem explorar formas e estruturas que seriam visuais. Na utilização de leitores de tela, há softwares que convertem texto em voz, permitindo que pessoas com cegueira naveguem e leiam conteúdos em dispositivos digitais. O ensino multissensorial inclui o uso do som, do olfato e até do paladar, que em alguns contextos pode ser aproveitado para reforçar a aprendizagem de conteúdos diversos. As experiências táteis e auditivas são usadas para construir a percepção e o entendimento do mundo ao redor, por meio de atividades práticas e manipulação direta de objetos. Metodologias ativas podem estruturar o aprendizado para que seja exploratório e interativo, ajudando a pessoa com deficiência visual a desenvolver sua própria compreensão. A descrição detalhada de fenômenos visuais ou demonstrações é essencial, e a participação ativa do professor como guia ajuda a mediar a interpretação de materiais que envolvem cores, formas ou proporções. conclusão A aprendizagem em pessoas com cegueira e baixa visão tem destaque para a importân- cia da neuroplasticidade e da tecnologia assistiva para a adaptação escolar e inserção social para maximizar o desenvolvimento cognitivo, a autonomia e a qualidade de vida dessa população. referências LANG, E. W. et al. Brain connectivity analysis: a short survey. Computational intelli- gence and neuroscience, 2012, 412512. https://doi.org/10.1155/2012/412512 Https://doi.org/10.1155/2012/412512 94 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão LOURENÇO, E. A. G. et al. Acessibilidade para estudantes com deficiência visual: orien- tações para o ensino superior. S.l.: Portal Acessibilidade Unifesp, 2020. v.1. Disponível em: https://acessibilidade.unifesp.br/images/PDF/Ebook-Colecao-DV01-2020.pdf. Acesso em: 5 fev. 2025. MERABET, L. B.; PASCUAL-LEONE, A. Neural reorganization following sen- sory loss: the opportunity of change. Nat Rev Neurosci., v.11, n.1, p.44-52, jan. 2010. https://doi.org/10.1038/nrn2758 RANGEL, M. L. et al. Deficiência visual e plasticidade no cérebro humano. Psicologia: Teoria e Prática, v.12, n.1, p.197-207, 2010. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/ scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-36872010000100016&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 5 fev. 2025. SAIONZ, E. L.; BUSZA, A.; HUXLIN, K. R. Rehabilitation of visual perception in cortical blindness. In: Handbook of clinical neurology. S. l.: Elsevier, 2022. v.184, p.357-73. https://doi.org/10.1016/B978-0-12-819410-2.00030-8SILVA, P. R. et al. Neuroplasticity in visual impairments. Neurology International, v.10, n.4, p.7326, 2018. https://doi.org/10.4081/ni.2018.7326 https://acessibilidade.unifesp.br/images/PDF/Ebook-Colecao-DV01-2020.pdf https://acessibilidade.unifesp.br/images/PDF/Ebook-Colecao-DV01-2020.pdf Https://doi.org/10.1038/nrn2758 http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-36872010000100016&lng=pt&nrm=iso http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-36872010000100016&lng=pt&nrm=iso http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-36872010000100016&lng=pt&nrm=iso Https://doi.org/10.1016/B978-0-12-819410-2.00030-8 Https://doi.org/10.4081/ni.2018.7326 95 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão O olhar sobre a própria deficiência como estratégia de desconstrução do capacitismo interiorizado Sueli Yngaunis introdução Este texto foi escrito a partir da experiência empírica da autora, que decidiu registrar e compartilhar reflexões que surgiram após um ano e meio de encontros quinzenais, on-line, com um grupo de 11 pessoas com deficiência, que eram alunos matriculados no Ensino Superior. O objetivo foi constituir um grupo de pesquisa, que se dedicou a ler e discutir textos acadêmicos sobre deficiência e acessibilidade. Os encontros resultaram em apresentações em um evento de Iniciação Científica na instituição de Ensino Superior onde seis desses alunos estavam matriculados, e quatro artigos fina- lizados, ainda não publicados até a presente data. No último encontro, foi solicitado que cada integrante enviasse um texto breve com o relato deles sobre a experiência de terem feito parte do grupo, esses depoimentos nos motivaram a escrever esse artigo. Esses encontros foram descontinuados, em junho de 2023, com a saída da autora da instituição de ensino à qual esse trabalho estava vinculado. Qualquer comportamento que coloca uma pessoa em situação de vulnerabilidade social, devido a uma condição ou característica considerada depreciativa, passa pelo filtro do preconceito. Tomaremos aqui a definição de preconceito como qualquer opinião ou sentimento que é concebido sem exame crítico, e que está inserido nos padrões de comportamentos socialmente aprendidos, e que predispõe o indivíduo agir sem que ele pondere sobre as razões que o levaram a atitudes preconceituosas, o que com relação a pessoas com deficiência, leva a adoção de parâmetros capacitistas, sem que ele perceba esse mecanismo. Sugiro ao leitor que faça uma pergunta simples a alguém do seu círculo social, ou a si mesmo: Qual é a sua opinião sobre a discriminação que pessoas com deficiência sofrem? Provavelmente, a resposta será de desaprovação. Porém, se você mudar a pergunta sobre o que ela acha de trabalhar com uma pessoa com deficiência, ou o que você pensa se surgir a oportunidade de trabalhar ou estudar com uma pessoa com deficiência? Observe a reação, ou eventual hesitação no seu interlocutor, ou observe os sentimentos que essa pergunta suscita em si mesmo. Esses sentimentos de dúvidas e hesitação são decorrentes do receio diante do desconhecido, que tira o indivíduo da zona de conforto, principalmente se ele não teve a experiência de conviver e aprender a interagir com alguém que tenha uma deficiência. A ausência de experiências compartilhadas pode fomentar julgamentos depreciativos a respeito da capacidade das pessoas com deficiência essa forma de pensar e agir é socialmente aprendida e “é um comportamento que se repete por questões culturais” (Ignarra; Saga, 2023, p.60). A história das pessoas com deficiência foi marcada pela sua invisibilidade, a come- çar pela sua ausência física que se deu com a exclusão das pessoas com deficiência na Idade Antiga, a sua segregação em instituições religiosas a partir da Idade Média, e 96 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão a sua reabilitação em meados do século XX, especialmente após a Segunda Guerra Mundial. Importante frisar que reabilitação não significa inclusão, pois o foco era o de aproximar a pessoa com deficiência o mais próximo do que era considerado “normal” e, portanto, aceitável. E nesse estudo vamos abordar sobre a influência que esse tipo de expectativa, presente nos valores que regem as práticas sociais, podem exercer sobre a autoimagem que a pessoa com deficiência constrói sobre si mesma. o que é ser normal? Entendemos que a busca pela “normalização” da pessoa com deficiência é um movi- mento social unilateral, pois o que se busca é a sua adequação às condições ambientais predominantes, sem que a sociedade tenha que modificar suas práticas sociais ou a forma como os ambientes foram estruturados, o que contribui para que o precon- ceito e a discriminação sejam sistêmicos. As interações sociais foram estruturadas de maneira a ver a deficiência como uma característica da pessoa, ou mesmo pensar que podem existir maneiras diferentes de executar algumas tarefas, com o uso de recursos alternativos que eliminem as barreiras que obstruem a sua participação nas diferentes esferas da sociedade. Com essa forma de pensar, o foco não está no resultado da tarefa, mas sim no processo, em como ela executa uma tarefa, quanto tempo leva; se for diferente da forma como a maioria faz, é diferente, é estranho. Esse comportamento, socialmente construído, considera a deficiência como algo incapacitante, o foco está no dano, na limitação, no prejuízo, não cabendo possibilidades alternativas. Nesse ponto, consideramos relevante falar sobre três conceitos, que em 1995 foram abordados por Lígia Assumpção do Amaral (1995, p.63): deficiência, incapaci- dade e desvantagem. Segundo ela, “deficiências são relativas a toda alteração do corpo ou aparência física, de um órgão ou de uma função, qualquer que seja a sua causa, em princípio significam perturbações a nível de órgão” (ibidem). Já “incapacidades refletem as consequências das deficiências em termos de desempenho e atividade funcional do indivíduo; as incapacidades representam perturbações ao nível da própria pessoa” (ibidem). E como desvantagem, a autora se refere aos “prejuízos que o indivíduo experi- menta devido à sua deficiência” (ibidem, p.64), em razão da impossibilidade da pessoa com deficiência atender às expectativas ou normas do ambiente em que vive. Porém, é possível que alguém tenha uma deficiência, sem que isso a incapacite, desde que ela receba o atendimento necessário, com a disponibilização dos recursos de acessibilidade que eliminem eventuais barreiras que impedem que ela realize alguma atividade. Amaral (1995) associa esses três termos a outros conceitos-chave, vejamos a seguir: Ela pontua a deficiência como “dano”, com esse termo ela aponta um fato inquestionável e concreto, como a atrofia de algum membro. Para o termo incapacidade, ela aponta para “restrição na execução”, cuja concretude está no “não ver”, “não andar”, “não ouvir”. Para o termo desvantagem, a autora aponta para a sua relativização, pois a desvantagem está ligada ao “desempenho de uma função”, cuja impossibilidade pode estar relacionada aos valores, normas e padrões do grupo ao qual a pessoa pertence, portanto extrínseco à pessoa com deficiência. Enquanto a deficiência como dano de uma estrutura, é uma deficiência primária, a deficiência secundária está relacionada à forma como a sociedade vê as pessoas com deficiência, com toda a carga de significados afetivos, emocionais, intelectuais e sociais que são atribuídos às pessoas com deficiência. Já em 1995, quando 97 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão o termo inclusão era pouco abordado, Amaral (1995, p.67) afirma que “a conceituação objetiva e universal só é possível para a deficiência primária, sendo a deficiência secun- dária passível de leituras específicas, em função do binômio espaço-tempo”. Antes de entrar no tema capacitismo interiorizado,iremos abordar brevemente sobre o conceito de capacitismo, de modo a alinharmos nossa linha de raciocínio com a do leitor. capacitismo O termo “capacitismo”, do inglês “ableism”, surgiu nos Estados Unidos na década de 1990, e começou a ser usado no Brasil a partir de 2015 (Ignarra; Saga, 2023). A prá- tica de hierarquização das pessoas, que leva em consideração a adequação ou não dos seus corpos aos padrões de beleza ou capacidade funcional (Mello, 2014), classifica as pessoas com deficiência como desvio dos padrões considerados como normais. A ideia do “desvio”, segundo Gilberto Velho (1989), implica a existência de um com- portamento ideal para que a engrenagem do sistema social funcione em harmonia. O comportamento humano adquire a conotação de “desvio” ou “desviante” num contexto relacional, alguém é “mais” ou “menos” em relação ao outro. O autor adverte que uma visão fragmentada do comportamento humano transforma a realidade individual em algo, em princípio, independente da sociedade e da cultura. Sob esse ponto de vista, o processo de exclusão da pessoa com deficiência significa a recusa do sistema social em aceitar que alguém considerado “inferior” possa ser parte desse sistema (Yngaunis, 2000). A forma como o homem interpreta algo, penetra no universo do sentido, é o pro- cesso de significação (ECO, 1997). Existe uma diferença entre o que se vê no concreto (o dano) e o significado que lhe é atribuído: Uma palavra para alguns pode significar um conceito e para outros uma imagem mental. Como conceito o uso do termo deficiente ganhou a cono- tação de ineficiência, incapacidade, um indivíduo menor. Como imagem mental este termo indica um indivíduo com limitações físi- cas ou deformidades, porém o universo do sentido construído pela socie- dade estende a significação para a totalidade do indivíduo, ocorrendo, neste momento, a sua “morte” simbólica, enquanto ser social, ficando presente apenas a figura das “pernas paralíticas”, “o rosto disforme”, “os olhos sem luz” ou “os ouvidos sem som”, favorecendo o surgimento do ruído na relação, quando então inicia-se o processo de exclusão. (Yngaunis, 2000, p.34) Para Amaral (1992), essa percepção é histórica e datada, no estudo do estigma, a informação acerca de uma pessoa é elaborada em oposição a estados de espírito, sentimentos ou intenções, cujo significado pode variar de um grupo para outro. As expectativas que são construídas com base no que é considerado normal e comum estão alicerçadas no fenômeno de categorização dos atributos apresentados pela pes- soa, seguida de atribuição de valores, valores esses que nos auxiliam a compor a iden- tidade social do indivíduo à nossa frente. Segundo Goffman (1988), o termo estigma se refere a um atributo profundamente depreciativo que pode destruir a possibilidade de atenção para outros atributos do indivíduo, inferindo uma série de imperfeições a partir da imperfeição original (Yngaunis, 2000). Atitudes capacitistas são aquelas que duvidam da capacidade das pessoas com deficiência, refletem um movimento de opressão social sobre essas pessoas, que vivem 98 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão experiências que sempre questionam a sua capacidade, sem, no entanto, aludir ao ambiente incapacitante, marcado pela ausência de condições de acessibilidade, que contribuíram para a impossibilidade de uma pessoa com deficiência executar alguma tarefa, ou simplesmente viver com autonomia. A questão central deste texto é refletir sobre a influência dessas práticas sociais sobre a autopercepção das pessoas com deficiência, como elas construíram a sua autoi- magem. Como oportunidade de compreender, os significados socialmente constru- ídos podem convidar essas pessoas a reverem a forma como eles se percebem e se “qualificam”. Terminaremos este texto com o registro de trechos dos depoimentos que eles escreveram após participarem do grupo supramencionado. Reconhecemos a necessidade de maior aprofundamento, sob a luz da psicologia, em relação à formação de identidade, que pode ser abordado em outra oportunidade. A escolha pelo compartilhamento desses registros se deu a partir da compreensão da concepção do ser humano como um produto histórico e social, constituído de sua interação com seus pares e em um determinado contexto social e político, suas experiências só podem ser captadas e compreendidas por meio de seu próprio relato (Yngaunis, 2019, p.22). As histórias de vida são sempre relatos de práticas sociais que revelam como o indivíduo se insere e atua no mundo e no grupo do qual ele faz parte. A metodologia da história de vida foi desenvolvida por Znaniescki, na Polônia, e intro- duzida no meio acadêmico, em 1920, pela Escola de Chicago (Spíndola; Santos, 2003). Não faremos comentários sobre os trechos que serão transcritos a seguir, de modo a evitar interferências, por parte da autoria, sobre a interpretação do leitor após a leitura dos relatos depoimentos Para contextualizar os depoimentos transcritos, eles serão finalizados com a indicação do gênero, idade (na época em que eles foram escritos), curso de graduação em que eles estavam matriculados e tipo de deficiência. Ao longo das reuniões, [...] foi possível notar como a prática da acessibilidade dentre as graduações muitas vezes não é abordada. [...] Outrossim, é de suma importância dizer que a sensação de pertencimento e superação é presente no grupo, e dizendo como integrante do grupo, posso afirmar que essa experiência é não somente acrescentar em estudos, mas em conhecimento de mundo, a quebra de estereótipos da sociedade e introspecções. (Feminino, 20 anos, Psicologia, Deficiência Visual, baixa visão) [...] pelo grupo ser composto por pessoas com diferentes deficiências, também aprendemos com as experiências de vida de cada um, como, por exemplo, eu não sabia como a Língua Portuguesa é difícil para as pessoas com deficiência auditiva, porque a sua língua mãe é a Libras, e como os tipos de cadeiras de rodas interferem na mobilidade, e a importância da descrição de imagens para os cegos, e como se deve fazer a descrição de imagens. Conhecer os modelos que descrevem a deficiência, o biomédico e o social, e suas diferenças foi bem importante, pois notei que se eles se complementarem, iria contribuir muito para a acessibilidade. A conversa com o professor Sassaki foi maravilhosa, aprendi que há mais barreiras que as que constam na constituição, e conhecer seu trabalho. (Feminino, 19 anos, Fisioterapia, Síndrome do Tremor Essencial) 99 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão (As reuniões) mostraram que a gente pode conseguir tudo o que quiser, só ter força de vontade e coragem. Que somos capazes de estudar, trabalhar, mesmo com as nossas limitações. As pessoas olham, muitas vezes, um cadeirante, e acham que ele não é capaz de fazer nada. Hoje sou formado em Ciências Biológicas, e agora faço pós-graduação. Tenho muito orgulho de estar nesse grupo que levantou minha autoestima [...] Aumentou meu senso crítico. (Masculino, 28 anos, Ciências Biológicas, Paralisia cerebral, cadeirante) Como uma pessoa que apresenta deficiência auditiva, convivi com muitos comen- tários negativos durante a infância, e principalmente nas escolas. Mas, o pior pre- conceito que vivi não era das pessoas ao meu redor, mas, sim, era o preconceito que tinha comigo mesma. [...] fazer parte do G.E.A. [G.E.A. é a abreviatura do nome do grupo: Grupo de Estudos sobre Acessibilidade] me traz um senti- mento de pertencimento, pois ouvindo o relato de cada integrante, dos preconceitos que passaram, vejo que se mantiveram firmes, e buscam fazer com que a sociedade tenha uma visão diferente sobre nós [...] Quando falamos sobre a pessoa com deficiência, a sociedade enxerga como um problema, falta de inteligência, e acreditam que não são capazes de fazer coisas “normais”. E através de cada artigo e estudos que percebemoso porquê de pen- sarem assim desse jeito, e entendemos que as pessoas aos poucos vão evoluindo, e que o processo para mudar pensamentos, como esses, demorarão anos, pois a visão que eles têm sobre a deficiência foi construída há séculos, e pensamentos preconceituosos são difíceis de mudar em pouco tempo. (Feminino, 18 anos, Fonoaudiologia, Deficiência Auditiva) Participar do grupo de pesquisa tem sido muito gratificante e enriquecedor no campo do conhecimento. Tenho desenvolvido diversas habilidades, em destaque a paciência e a escuta minuciosa. [...] A princípio, achei a proposta desafiadora e complexa. Entretanto, tem sido prazeroso. [...] Hoje, o conceito de deficiência se faz diferente em minha visão, e muda ainda mais a cada reunião ou leitura de artigos [...] (Feminino, 48 anos, Psicologia, cadeirante) Fazer parte do grupo, me fez pensar no quão longe posso chegar quando falamos sobre acessibilidade, barreiras, pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. Conhecer o conceito de algumas palavras que nem tinha passado pela minha mente, uma delas é sobre capacitismo, e entender melhor sobre barreiras, exclu- são e inclusão. Me fez pensar e melhorar o meu ponto de vista quando falamos de pessoas com deficiência. (Masculino, 28 anos, Psicologia, Paralisia cerebral) No início, eu não sabia o que esperar de um grupo de estudos, porém, me senti extremamente empolgada com as possibilidades de aprendizado que o grupo me traria, [...] aprendi tanto em tão pouco tempo, não só na questão de aprendizado em pesquisa científica, mas também na visão de mundo, pois antes eu me sentia sozinha, isolada, sem ninguém que pudesse me entender, e o grupo me mostrou que existem pessoas no mundo capazes de me entender. (Feminino, 45 anos, Direito, Deficiência visual, cega) referências AMARAL, L. A. Espelho convexo: o corpo desviante no imaginário coletivo, pela voz da literatura infanto-juvenil. São Paulo, 1992, 399p. Tese (Doutorado em Psicologia) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo. 100 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão _______. Conhecendo a Deficiência (em companhia de Hércules). São Paulo: Robe, 1995. ECO, U. A estrutura ausente. 7.ed. São Paulo: Perspectiva, 1997. GOFFMAN, E. Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada. Trad. Márcia Bandeira de Mello Leite Nunes. 4.ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988. IGNARRA, C.; SAGA, B. Manual anticapacitista: o que você precisa saber para se tornar uma pessoa aliada contra o capacitismo. São Paulo: Jandaíra, 2023. MELLO, A. G. de. Gênero, Deficiência, Cuidado e Capacitismo: uma análise antro- pológica de experiências, narrativas e observações sobre violências contra mulheres com deficiência. Florianópolis, 2014. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Universidade Federal de Santa Catarina. SPÍNDOLA, T.; SANTOS, R. S. Trabalhando com a história de vida: percalços de uma pesquisa(dora)? Revista da Escola de Enfermagem da USP, v.37, n.2, 2003. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/reeusp/article/view/41347/44918. Acesso em: 12 out. 2024. VELHO, G. Desvio e Divergência: uma crítica da patologia social. 6.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1989. YNGAUNIS, S. A relação do adolescente portador de deficiência e/ou deformidade e os meios de comunicação. São Paulo, 2000. Dissertação (Mestrado) – Faculdade Cásper Líbero. _______. A singularidade da pessoa surda se evidencia por meio da comunicação. São Paulo, 2019. Tese (Doutorado em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades) – Programa de Pós-Graduação Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades, Universidade de São Paulo. http://www.revistas.usp.br/reeusp/article/view/41347/44918 http://www.revistas.usp.br/reeusp/article/view/41347/44918 101 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão Adaptação de jogos para pessoas com deficiência visual Rachel Maria Campos Menezes de Moraes Lindiane Faria do Nascimento apresentação A palavra “ jogo” apresenta, dentre os diversos significados, “qualquer atividade recrea- tiva que tem por finalidade entreter, divertir ou distrair; brincadeira, entretenimento, folguedo”. Nesse contexto, entendemos, assim como Almeida et al. (2021), que o uso de jogos como recursos para o ensino proporciona inúmeros benefícios para o processo de aprendizagem dos alunos. Esses benefícios incluem a estimulação das relações interpessoais (entre os alunos e entre esses e o professor), o incentivo à criatividade, o trabalho colaborativo, o desenvolvimento do raciocínio crítico, o respeito e o desen- volvimento intelectual, entre outros. Ainda a respeito dos benefícios proporcionados pelos jogos no processo de ensino dos alunos, Moran (2015) afirma que os jogos cada vez estão mais presentes no coti- diano escolar. O autor destaca a importância da linguagem de competição e desafios presentes nos jogos colaborativos como um grande incentivo a alunos desde o Ensino Fundamental e enfatiza que para gerações acostumadas a jogar, a linguagem de desa- fios, recompensas, de competição e cooperação é atraente e fácil de perceber. Os jogos colaborativos e individuais; de competição e colaboração; de estratégia, com etapas e habilidades bem definidas, se tornam cada vez mais presentes nas diversas áreas de conhecimento e níveis de ensino. A respeito da aprendizagem colaborativa, tão presente nas aulas nas quais são utilizados jogos, ressalta o autor: É na síntese dinâmica da aprendizagem personalizada e colaborativa que desenvolvemos todo o nosso potencial como pessoas e como grupos sociais, ao enriquecer-nos mutuamente com as múltiplas interfaces do diálogo dentro de cada um, alimentando e alimentados pelos diálogos com os diversos gru- pos nos quais participamos, com a intensa troca de ideias, sentimentos e com- petências em múltiplos desafios que a vida nos oferece. (Moran, 2015, p.5) Para que os estudantes com deficiência visual possam utilizar os jogos, é essencial que o material seja adaptado. Entre as possíveis adaptações, destacam-se o uso de texturas e a escrita em braille. Exemplos de jogos adaptados incluem “Eu sou?”, Uno, jogo da memória tátil texturizado, jogo Perfil e jogo de dominó. Neste trabalho abordamos o tema da adaptação de jogos para estudantes cegos. Nosso objetivo é relatar a nossa experiência na adaptação do jogo “Eu sou?”, realizada juntamente com estudantes cegos do Ensino Fundamental em uma escola especia- lizada em deficiência visual no segundo trimestre do ano 2024. Esse jogo foi sele- cionado dentre os demais por ter sido uma escolha em conjunto com os estudantes considerando a ludicidade e materiais a serem utilizados, após a adaptação o jogo foi validado pelos estudantes. 102 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão Assim, propomos realizar um relato de experiência neste presente trabalho, demonstrar o passo a passo da adaptação do jogo “Eu sou?” para pessoas cegas, demonstrando o material utilizado e a participação dos estudantes. Enfatizamos a possibilidade de serem adaptados outros jogos e quanto essas adaptações podem auxiliar estudantes cegos nas diversas escolas, sejam elas especializadas ou regulares, na medida em que possibilitam inclusão de estudantes cegos em atividades com jogos e momentos de recreação e descontração que desenvolvem aspectos como empatia, socialização, tomada de decisão, entre outros, além de possibilitar a criação de memó- rias afetivas entre todos os estudantes e professores envolvidos. Durante a produção do jogo, outras habilidades, inerentes ao ensino do Sistema Braille, foram desenvolvidas como percepção tátil, coordenação motora e noção espacial. metodologia Este trabalho, sob perspectiva de uma pesquisa qualitativa, está baseado em relato de experiência das autoras na adaptação do jogo “Eu sou?” que foi produzido junta- mentecom estudantes com deficiência visual. Por meio dessa abordagem, buscamos descrever o passo a passo e analisar o processo de adaptação do jogo, destacando os desafios enfrentados, as estratégias adotadas e os resultados alcançados. A pesquisa foi conduzida em uma escola especializada em deficiência visual na cidade do Rio de Janeiro, no segundo trimestre do ano 2024, quando colaboramos diretamente com os estudantes para garantir que o jogo fosse acessível e lúdico. Segundo Antunes et al. (2024), os relatos de experiência são estudos que partem da relação entre quem pesquisa e o empírico na pesquisa de campo. Dessa forma a metodologia desta pesquisa visa a interação direta entre as pesquisadoras e os estudan- tes com deficiência visual na adaptação do jogo, permitindo a coleta de dados direta- mente da realidade observada. Esses estudos constroem conhecimento ao observar e analisar como as pessoas interagem entre si e com o ambiente, proporcionando deta- lhadas percepções que podem não ser capturadas por métodos puramente teóricos. Dessa forma, os relatos de experiência oferecem uma compreensão mais profunda e contextualizada dos fenômenos estudados. A ideia de construir um jogo acessível para crianças e adolescentes cegos se deu pela necessidade de inserir a ludicidade nas aulas do atendimento de Leitura e Escrita do Sistema Braille, para compreendermos a importância da ludicidade apoiamo-nos em Amaral e Ohy (2018). As aulas do atendimento ocorrem no contraturno das aulas regulares, com objetivo de suprir a defasagem no aprendizado da escrita e leitura em braille, ocorrida por diferentes motivos. O jogo original propõe estimular a cognição, o raciocínio lógico e a associação de ideias. “Eu sou?” é um jogo da marca Estrela que pode ser jogado por dois ou mais jogadores, com idade recomendada a partir de 6 anos. O jogo contém 30 cartas divididas em quatro categorias: comida, profissão, objetos e animais. Os jogadores selecionam uma carta que é fixada em uma faixa presa à testa do jogador da vez. Esse jogador deverá adivinhar o que está representado na carta, realizando perguntas com respostas de “sim” ou “não” aos demais jogadores. Assim que descobrir, deve afirmar em voz alta quem ele é. 103 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão O jogo original contém cartas com desenhos coloridos e nomeadas em tinta. Ao construirmos a adaptação do jogo, substituímos a escrita em tinta pelo braille e des- cartamos as ilustrações, pois a proposta era enfatizar a escrita e a leitura desse sistema. Entretanto, há possibilidades de adaptação para alunos com baixa visão, inserindo, além do braille, uma fonte adequada a esse público, bem como outras adaptações relacionadas às imagens. Outra opção de adaptação para incluir pessoas com deficiência visual e pessoas que enxergam, mas não conhecem o sistema braille, é adaptar o jogo utilizando tanto a escrita braille quanto a escrita convencional (em tinta). Dessa forma, a possibilidade de brincar se torna ampliada, estendendo-se além do ambiente escolar. perfil dos estudantes Os participantes deste estudo totalizaram 24 estudantes, com idades entre 11 e 18 anos, cursando do 6º ao 9º anos do Ensino Fundamental, todos potenciais usuários de braille. Esses estudantes estavam distribuídos em 14 turmas, com carga horária semanal de uma hora cada. Dentre esses estudantes, oito são cegos congênitos; seis com baixa visão; e dez adquiriram a cegueira na primeira infância ou início da adolescência. Para esclarecer a deficiência visual, é essencial definir cegueira e baixa visão. Segundo Conde (s.d.), a cegueira não é absoluta, pois abrange diferentes graus de visão residual. Ele explica que, longe de significar incapacidade total de ver, representa uma limitação que impede a realização de tarefas rotineiras. Além disso, define a “cegueira parcial”, também chamada de legal ou profissional, como a condição de indivíduos que conseguem contar dedos a curta distância ou per- cebem vultos. Mais próximos da cegueira total estão aqueles que têm apenas percepção luminosa, distinguindo claro e escuro, ou projeções luminosas, identificando a direção da luz. Já a cegueira total (amaurose), conforme Conde (s.d.), implica a perda completa da visão, sem qualquer percepção luminosa. Sobre a baixa visão (ou visão subnormal), o autor esclarece que essa condição caracteriza-se por uma acuidade visual entre 6/60 e 18/60 na escala métrica, ou um campo visual entre 20° e 50°. a adaptação do jogo Para a adaptação, utilizamos materiais de baixo custo, como: folha braille (220 g/m²), reglete e punção ou máquina de datilografia braille, cartolina, cola em bastão, pedaço de velcro (pode ser retirado de roupas inutilizadas), EVA, manta magnética (utili- zamos os imãs de calendários e de cartões de visita de empresas e serviços). Reglete é uma prancha cujos modelos mais modernos são produzidos em metal ou plástico. Consiste de duas placas unidas por dobradiças, em um dos lados, de modo a permitir a colocação de um papel entre elas. Uma das placas contém pequenos retângulos vazados, que correspondem às celas braille; a outra é marcada de modo a acomodar a ponta do punção. 104 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão fases da adaptação FASE 1- ESCOLHA DAS PALAVR AS Em cada turma, iniciamos conversando sobre as palavras do jogo original, explo- rando as categorias de comida, profissão, objetos e animais e discutindo a função de cada uma. Observamos que alguns alunos demonstraram maior interesse por deter- minadas categorias e, assim, dividimos as palavras a serem escritas por cada estudante de acordo com suas preferências. Diante do entusiasmo dos alunos ao escreverem, sugerimos que cada um escolhesse uma nova palavra para a categoria de sua prefe- rência, enriquecendo ainda mais o jogo. FASE 2- ESCRITA DAS PALAVR AS A escrita em braille das palavras foi realizada em folhas de braille de 220 g/m². Priorizamos o uso do reglete, pois consideramos esse material mais acessível para o dia a dia dos estudantes e eficaz para desenvolver habilidades como noção espacial e lateralidade. No entanto, para os alunos com dificuldades motoras significativas, utilizamos a máquina de datilografia em braille. Durante esse processo, pudemos observar e orientar não apenas o uso da reglete ou máquina, mas também a ortografia das palavras e suas categorizações. Para os alunos que estavam no início da aprendizagem do sistema braille e ainda desenvolvendo habilidades para a escrita e leitura, optamos por usar material ampliado, como celas braille ampliadas, para facilitar o aprendizado. FASE 3- PREPAR AÇÃO DAS CARTAS As palavras escritas foram recortadas no estilo de etiquetas. Nesse momento, os alunos com baixa visão recortaram as palavras utilizando como guia as bordas feitas com hidrocor, desenhadas por uma das autoras. As palavras recortadas foram coladas com cola bastão pelos estudantes em uma carta de cartolina medindo 10x7 cm, previamente cortada pelas autoras, e no verso dessa carta uma manta magnética foi fixada com cola. FASE 4- PREPAR AÇÃO DA FAIX A A faixa foi confeccionada com material de EVA, medindo 50x4 cm. Durante o recorte, um quadrado foi recortado na parte frontal para a fixação da carta, onde também foi colada uma manta magnética para fixação da carta. Nas extremidades da faixa, foi colado um pedaço de velcro para permitir ajustes de tamanho quando colocada na testa. considerações gerais Uma única versão do jogo foi adaptada. Durante esse processo, as tarefas foram divididas de acordo com a potencialidade e necessidade de aprendizagem do aluno no momento. Por exemplo: alunos iniciantes, que necessitassem aprender a noção espacial, eram incentivados a colar as etiquetas nomeadas na carta com espaço delimitado; alunos que já tinham conhecimento de escrita eram incentivados a escrever as palavras na reglete. Ao final daadaptação, os alunos validaram o jogo por meio de partidas realizadas em sala. Aqueles que ainda não dominavam a leitura eram auxiliados pelas professoras e 105 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão pelos demais estudantes. Observamos também que, durante o jogo, foi possível aos alunos imaginar o item da carta da vez mediante perguntas relacionadas às suas características. A criação imagética desempenhou um papel importante na formação de conceitos dos estudantes. Ao conhecerem e trabalharem com as palavras compostas no jogo, os alunos tiveram a oportunidade de enriquecer seu vocabulário e expandir seu entendi- mento do mundo. Muitos estudantes têm pouca experiência fora do ambiente escolar, e o jogo se mostrou uma ferramenta valiosa para proporcionar essas experiências. Um exemplo marcante foi a surpresa de uma aluna ao descobrir, durante o jogo, que a girafa tem um pescoço longo. Esse tipo de aprendizado experiencial não só enriquece o conhecimento dos alunos, mas também estimula sua curiosidade e imaginação, promovendo um ambiente de aprendizagem mais dinâmico e envolvente. Outra característica importante foi a capacidade dos alunos de formular per- guntas que conduziriam a respostas de “sim” ou “não”. No início de uma partida, por exemplo, foram comuns perguntas optativas, como “é doce ou salgado?”. Mediante essa dificuldade, as autoras mediaram a fim de que os alunos construíssem cognitiva- mente a pergunta correta: “é doce?”. O jogo final foi sorteado entre os alunos, e os demais foram incentivados a pro- duzirem em casa outras versões do jogo para brincarem com seus amigos e familiares. conclusão Observamos que muitos estudantes não têm o hábito de brincar com jogos de cartas e jogos de tabuleiro, aqueles que apresentavam alguma familiaridade com esse hábito, eram aqueles que anteriormente à cegueira jogavam utilizando o sentido da visão. Concluímos que o jogo proporcionou, além da ludicidade inicialmente proposta, uma variedade de habilidades durante sua produção. Pretendemos, em futuros pro- jetos, desenvolver novas adaptações de jogos. referências ALMEIDA, F. S.; OLIVEIRA, P. B. de; REIS, D. A. dos. The importance of didactic games in the teaching-learning process: an integrative review. Research, Society and Development, v.10, n.4, p.1-9, 2021. Disponível em: https://rsdjournal.org/index.php/ rsd/article/view/14309. Acesso em: 13 out. 2024. AMARAL, A.; OHY, J. (Org.) Jogos cognitivos: um olhar multidisciplinar. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2018. ANTUNES, J. et al. Como escrever um relato de experiência de forma sistemati- zada? Contribuições metodológicas. Práticas Educativas, Memórias e Oralidades, v.6, 2024. Disponível em: https://revistas.uece.br/index.php/revpemo/article/view/12517. Acesso em: 6 fev. 2025. CONDE, A. J. M. Definição de cegueira e baixa visão. Instituto Benjamin Constant. S.d. Disponível em: http://antigo.ibc.gov.br/images/conteudo/AREAS_ESPECIAIS/ CEGUEIRA_E_BAIXA_VISAO/ARTIGOS/Def-de-cegueira-e-baixa-viso.pdf. Acesso em: 6 fev. 2025. https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/14309 https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/14309 https://revistas.uece.br/index.php/revpemo/article/view/12517 http://antigo.ibc.gov.br/images/conteudo/AREAS_ESPECIAIS/CEGUEIRA_E_BAIXA_VISAO/ARTIGOS/Def-de-cegue http://antigo.ibc.gov.br/images/conteudo/AREAS_ESPECIAIS/CEGUEIRA_E_BAIXA_VISAO/ARTIGOS/Def-de-cegue 106 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão FERREIRA, E. de M. B. Sistema Braille: simbologia básica aplicada à língua por- tuguesa. Rio de Janeiro: Instituto Benjamin Constant, 2015. Coleção Caminhos e Saberes. Disponível em https://www.gov.br/ibc/pt-br/centrais-de-conteudos/publi- cacoes/revista-cientifica-2014-benjamin-constant/copy_of_livros/materiais-didati- cos-1/simbologia-braille_2019_public.pdf. Acesso em: 18 maio 2025. LUDOTECA. Manual do Jogo “Eu sou?”. Disponível em: https://ludoteca.spleituras. org.br. Acesso em: 13 out. 2024. MICHAELIS. Moderno Dicionário da Língua Portuguesa. São Paulo: Melhoramentos, 2025. Disponível em: Michaelis. Acesso em: 16 maio 2025. MORAN, J. Metodologias ativas para uma aprendizagem mais profunda. Personalização e tecnologia na educação. Porto Alegre: Penso, 2015. Disponível em https://moran.eca. usp.br/wp-content/uploads/2013/12/metodologias_moran1.pdf. Acesso em: 5 fev. 2025. https://www.gov.br/ibc/pt-br/centrais-de-conteudos/publicacoes/revista-cientifica-2014-benjamin-constant/copy_of_livros/materiais-didaticos-1/simbologia-braille_2019_public.pdf https://www.gov.br/ibc/pt-br/centrais-de-conteudos/publicacoes/revista-cientifica-2014-benjamin-constant/copy_of_livros/materiais-didaticos-1/simbologia-braille_2019_public.pdf https://www.gov.br/ibc/pt-br/centrais-de-conteudos/publicacoes/revista-cientifica-2014-benjamin-constant/copy_of_livros/materiais-didaticos-1/simbologia-braille_2019_public.pdf https://moran.eca.usp.br/wp-content/uploads/2013/12/metodologias_moran1.pdf https://moran.eca.usp.br/wp-content/uploads/2013/12/metodologias_moran1.pdf 107 SEÇÃO 3 Perspectivas e intersecções: diálogos sobre cognição, linguagem e inclusão Áudio 3: Políticas científicas e políticas públicas de acessibilidade e inclusão Ignacio Maria Poveda; Ana Maria Fonseca Almeida; Ghisleine Trigo Silveira Áudio da mesa-redonda, ocorrida em 08/11/2024, com Ana Maria Fonseca Almeida (Faculdade de Educação da UNICAM), Ghisleine Silveira Trigo (Membro executivo da Cátedra Alfredo Bosi de Educação Básica) e Ignácio Maria Poveda Velasco (Assessor Especial do Secretário de Estado da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência). Para acessar o conteúdo, clique aqui. Áudio 4: Tecnologia assistiva a serviço da qualidade de vida da pessoa com deficiência visual Paulo Capel e Marcelo Mikley Áudio do talk, ocorrido em 08/11/2024, em que o Prof. Dr. Paulo Capel discorre sobre aplicativos tecnológicos que auxiliam a vida diária de pessoas cegas e com baixa visão. Em seguida, Marcelo Mickley Venturini demonstra, com a ajuda dos técnicos, a parte dedicada à acessibilidade do Jornal da USP de um projeto que está sendo desenvolvido. Para acessar o conteúdo, clique aqui. Áudio 5: Condições oftalmológicas que podem levar à cegueira infantil Everton Gondim Áudio da fala do oftalmologista, professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí e atu- ante no Instituto Luís Braille, sobre as doenças que podem acometer o bebê ou a criança e causar cegueira, mas que muitas vezes seriam evitáveis ou tratáveis antes dos 7 anos de idade. Para acessar o conteúdo, clique aqui. https://drive.google.com/file/d/15jzEqUlHBdUMw56pODVEaJH3TDXnvjn5/view?usp=sharing https://drive.google.com/file/d/15xM-yeNOmm3HbQAuV07wM9iLbaWsuZHv/view?usp=sharing https://drive.google.com/file/d/1whqsXRYHP-2sg-CZGkZMcQs1mTL-mhD8/view?usp=sharing 4 INTERFACES DO SABER: LINGUAGEM, COGNIÇÃO E CULTUR A EM DEBATE 109 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate Uma análise dos recursos sintáticos presentes na arquitetura de “Missa do Galo” de Machado de Assis Gabriela Cardoso Generato Cristina Lopomo Defendi apresentação Com a intenção de analisar as escolhas sintáticas presentes na construção do conto “Missa do Galo”, do escritor carioca Machado de Assis, o presente estudo parte do que defende Bakhtin (2013, p.24-5) acerca da relevância da investigação do uso estilístico das formas gramaticais, “que podem e devem ser analisadas do ponto de vista das suas potencialidades de representação e expressão”. A escolha de uma estrutura gramatical por um autor, em detrimento de uma outra, representa a escolha de uma construção textual que melhor expressa o sentido pretendido com sua especificidade estilística, e esse processo deve ser analisado, uma vez que “nada no texto é gratuito e, portanto, qualquer diferença entre dois textos tem significação” (Neves, 2006, p.246). Para atingir tais metasde análise do texto literário, fica evidente a relevância da contribuição da Linguística Funcional, já que seus autores explicam a língua como configurada pela cognição humana e seus fins comunicativos a serviço de propósitos específicos dentro de determinados contextos. O texto literário, como uma mani- festação real do uso da língua, serve a uma determinada função possibilitada pela ordenação e pela articulação das formas linguísticas possíveis, dentre outros recursos. Cunha e Tavares (2016), especialmente a partir de Givón, ressaltam uma análise do uso da língua que se utiliza de princípios e categorias como marcação, iconici- dade, transitividade e plano discursivo. O princípio da marcação pode ser aplicado a qualquer categoria linguística, de aspecto sintático, morfológico ou fonológico, e consiste na distinção que se faz entre um par contrastivo, no qual um dos membros é considerado marcado quando contém algum elemento ausente no outro membro, considerado não marcado (Cunha; Tavares, 2016, p.21). Para a análise da marcação, estabelecem-se três critérios: a complexidade estrutural, que diz respeito à estrutura marcada ser maior ou mais complexa que a estrutura não marcada; a distribuição de frequência, em que se considera marcada aquela estrutura que é menos frequente no uso; e, por fim, a complexidade cognitiva, que se refere a uma maior complexidade em seu conteúdo e um maior esforço para compreensão da estrutura marcada em relação ao seu par contrastivo (Givón, 1995 apud Cunha; Tavares, 2016). Já a iconicidade se define como a correlação natural e motivada entre forma e função, isto é, entre o código linguístico (expressão) e seu significado (conteúdo), e se manifesta, em sua versão moderada, em três subprincípios referentes à quantidade de informação, à integração entre constituintes e à ordenação linear/topicalidade. No estudo aqui desenvolvido, será trabalhado mais aprofundadamente o subprincípio da iconicidade referente à quantidade de informação: quanto maior o conteúdo, maior a forma em que se dá, ou seja, a complexidade da estrutura reflete a complexidade do 110 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate pensamento. Reafirma-se, portanto, “que a língua não é um mapeamento arbitrário entre ideias e enunciados” (Cunha; Tavares, 2016, p.25). Sobre a transitividade, Hopper e Thompson (1980 apud Cunha; Tavares, 2016, p.30) descrevem-na como contínua, escalar, que se aplica a toda a oração, e não somente ao verbo. Os autores concebem e classificam a transitividade por meio de parâmetros que envolvem a agentividade do sujeito, a afetação do objeto, a conclusividade da ação, entre outros, que determinariam as orações em graus maiores ou menores de transitividade. Nesse sentido, “o maior ou menor grau de transitividade de uma oração reflete o modo como o falante estrutura o seu discurso para atingir seus propósitos comunicativos” (Hopper e Thompson, 1980 apud Cunha; Tavares, 2016, p.32). Por fim, a categoria plano discursivo ocupa-se da organização estrutural do texto a partir da dicotomia figura/fundo, que se entende pela oposição entre o que seria central e destacado em um texto, a figura, e o que seria menos importante e perceptível, o fundo. Aplicando o conceito ao estudo das narrativas, a linguística funcional, em uma correlação probabilística, entende como figura as partes do texto que têm maior grau de transitividade (levando-se em conta os parâmetros citados anteriormente), aquelas que apresentam a sequência temporal dos fatos e delimitam agentes, enquanto o fundo seria composto pelas descrições de estados e avaliações circunstanciais que “molduram” a figura. A utilização de tais princípios e categorias, somados às explanações gramati- cais de Neves (2018) e Castilho (2010), possibilitou uma análise do corpus, o conto de Machado, que esmiúça as potencialidades de sentido, expressão e representação das escolhas sintático-estilísticas e suas motivações pragmáticas e comunicativas. Pretende-se com tal estudo demonstrar a pertinência de se trabalhar a sintaxe em contexto, para além de frases soltas, além de combater a separação entre a área de pesquisa linguística e a pesquisa literária. metodologia e análise dos dados Do conto, foram selecionados trechos-chave, aqueles que representam a apresenta- ção, o desenvolvimento e o desfecho do enredo, montando-se um corpus para uma análise qualitativa. Foram recolhidos dados referentes à escolha dos tempos verbais, modalização verbal, natureza sintática das orações dentro dos períodos, ordenação dos elementos sintáticos, entre outros, para verificar os traços referentes à marcação e à iconicidade. Também foi feita a análise do grau de transitividade das orações dos trechos selecionados e, com isso, estabeleceu-se o plano discursivo do conto, separando- -se os enunciados entre figura e fundo narrativo. Esses dados coletados e suas análises contribuem para a percepção dos efeitos de sentidos possibilitados pelas escolhas estilísticas do autor. A discussão acerca dos resultados das análises feitas pode ser verificada nos parágrafos a seguir. Como diversas obras de Machado de Assis, o conto “Missa do Galo” é memoria- lista, ou seja, é um dos muitos trabalhos do autor em que se vê uma preocupação de personagens em recuperar o passado por meio de suas memórias. No caso do conto, isso significa que o leitor tem acesso aos acontecimentos narrados por meio da voz do narrador Nogueira, o qual recorda no presente uma conversação passada, entre o seu eu de 17 anos e Conceição, sua anfitriã, de 30, enquanto esperam a chegada do horário 111 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate da Missa do Galo, à meia-noite, durante a noite de Natal. Esse distanciamento entre passado e presente é bastante nítido no texto, o que pode ser observado especialmente pelo emprego de uma imprecisão narrativa e uma descrição de um tempo psicológico que aparenta ser muito maior do que o tempo real da ação. Em trechos como “Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pes- soa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente” (Assis, 2002, p.230) pode-se observar a utilização de verbos que modalizam os enunciados de modo a demonstrar a dúvida/incerteza de Nogueira ao recontar suas memórias daquela noite. Essa busca do narrador por asseverar sua dúvida acerca dos aconteci- mentos do passado ao longo da narrativa retoma a primeira frase do conto: “Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta” (ibidem, p.224). Nessa insistência por parte de Nogueira de enfatizar sua ignorância acerca do que irá ele próprio narrar, pode-se ler, também, além de uma genuína confusão como resultado da passagem de tempo, um esforço para não comprometer-se com os eventos, de certo modo comprometedores, passados entre ele e uma mulher casada e mais velha. Nogueira, então, se utiliza de artifícios linguísticos para defender-se de suas próprias ações passadas, como em “Penso que cheguei a abrir a boca…” (ibidem, p.231), em que a oração principal serve para moda- lizar o conteúdo do que é dito. Outro tópico importante a ser analisado é a predominância no conto do imperfec- tivo, tempo marcado, já que nas narrativas é o perfectivo que se sobressai. Na forma do pretérito imperfeito, aquele que “representa os estados de coisas que duraram no passado” (Castilho, 2010, p.432), o aspecto imperfectivo, que se relaciona com a falta de “completamento” da ação (Neves, 2018, p.191), somado ao durativo do gerúndio utilizado em diversas descrições do conto, é o principal responsável pela percepção de um “tempo psicológico”, em que temos acesso à subjetividade do narrador ao contar suas memórias. Ao fazer isso, Nogueira se transporta, assim como o leitor é trans- portado, aos eventos da noite com Conceição, que, em forma de memória, parecem durar e se arrastar imprecisamente,sem que se tenha noção do momento de início ou término das ações, como em “Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim” (Assis, 2002, p.227), e “Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos” (ibidem, p.228-9). Essa imprecisão, essa vagueza temporal, é também fator auxiliador do tom ambíguo da narrativa, possibilitado por escolhas sintáticas que serão discutidas mais à frente. Por conta desses usos, ao se estabelecer o plano discursivo do conto, notou-se uma grande quantidade de orações que representam o fundo narrativo, o que contrasta com a quantidade de orações que representam a figura, poucas em comparação e mais recor- rentes a partir do início da conversa entre as personagens principais, a ação central do texto. De fato, sendo memorialista e de trama simples, “Missa do Galo” não conta com muita ação por parte de suas personagens. Isso faz que os momentos em que essa ação de fato ocorre, em orações com maior grau de transitividade, se tornem bastante significativos, já que é neles que se nota a presença de eventos concluídos, pontuais, reais e sob a responsabilidade e intencionalidades de agentes, as personagens, e porque 112 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate retratam alguma tomada de decisão por parte de Nogueira e Conceição no caminhar de suas conversações ambíguas. Tais análises serão aprofundadas posteriormente. Contribuindo para o ritmo lento, encontram-se no texto passagens como “A con- versa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa” (ibidem, p.230), em que a iconicidade da quantidade (uso de dois advérbios) ilustra uma conversa que se “arrasta”, mas que, de fato, não pode ter durado muito, levando-se em conta o curto período de tempo existente entre o início da conversação e o horário da Missa do Galo. Essa consideração leva o leitor novamente a um tempo de fenômenos mentais/emocionais de memórias muito maior do que o tempo real da ação. Como há maior complexidade de sentido e intenção, a construção de um “tempo psicológico”, há também maior complexidade sintática. Relacionada à opacidade da contação de uma memória e às insinuações sensuais de algo que não se concretiza, a atmosfera do conto, como dito anteriormente, não pode deixar de ser profundamente ambígua, dualística. A serviço disso, observa-se no texto outra utilização sintática marcada, também exemplo da complexidade cognitiva refletida na complexidade estrutural: o emprego de diversos paralelismos sintáticos, tais como: “Concordei, para dizer alguma cousa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos” (ibidem, p.232). A simetria textual presente na primeira passagem em itálico (construção paralela com conjun- ção “para”, seguida de verbo reduzido no infinitivo e seu respectivo complemento), demonstra a complexidade motivacional da ação de “concordar” do narrador, que o faz com dois objetivos de peso semelhante. De modo parecido, na segunda passagem em itálico, há dois complementos do verbo “tolher”, ambos com artigos definidos que os antecedem – o que marca textualmente que o sono magnético de Nogueira, ou o que quer que fosse (de novo a marca de incerteza enfatizada pelo narrador), não tolhia somente o funcionamento de sua fala, mas igualmente o de seus próprios sentidos. Outra demonstração desse princípio icônico é a estratégia de Machado na própria construção da personagem Conceição, balzaquiana por natureza. Em um parágrafo inteiro dedicado à sua descrição, Nogueira define a anfitriã como sendo nem de gran- des lágrimas, nem de grandes risos, de rosto nem bonito, nem feio. O que se nota é que, em um parágrafo profundamente marcado pela negação, segundo o critério de distribuição de frequência da marcação, Conceição é especialmente descrita pelas coisas que não é, de modo bastante antirromântico. Porém, isso deixa de acontecer no momento que entra na sala onde está Nogueira, como se saída diretamente do livro romântico que lia o narrador: Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da alcova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro, ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. (Assis, 2002, p.226) É a partir desse parágrafo, inclusive, que se encontra de fato a figura narrativa do conto dentro do plano discursivo, uma vez que, como citado anteriormente, a ação central do conto é a conversação entre a anfitriã e seu hóspede. No trecho citado antes, ao contrário da descrição anterior, vê-se uma utilização maior de períodos complexos e orações subordinadas para a caracterização física de Conceição. Estruturadas por 113 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate verbos no pretérito perfeito do indicativo, raros no texto até esse momento, orações como “entrou na sala”, “fechei o livro” e “foi sentar-se” trazem ações sequenciais con- cluídas que movem a narrativa, movimento acentuado também pela escolha do uso da perífrase “foi sentar-se”, mais longa e com carga verbal maior, ao invés da formação “sentou-se”, mais curta e direta. Essa maior complexidade e dinamismo de Conceição, refletidos na materialidade do texto e divergentes das atribuições anteriores de Nogueira ao seu gênio, pode ser mais bem observada no seguinte trecho: “De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranquilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido” (ibidem, p.228). Ao que era costumeiro contrapõe-se a sequência rápida de ações representadas por orações coordenadas aditivas no segundo período, complexo, antecedidas por dois conectores, um temporal “agora” (mudança no tempo) e um adversativo “porém” (mudança de foco). Contribuindo para essa construção subitamente movimentada da personagem, Machado também se utiliza de outro paralelismo sintático, de modo semelhante àqueles atribuídos previamente a Nogueira: “Afinal, cansou, trocou de atitude e de lugar” (ibidem, p.229). Conceição, novamente em movimento, demonstra que suas mudanças de motivação se materializam em andanças pelo cômodo. O uso duplo de complemento relativo do verbo “trocou” salienta uma maior quantidade de significação que se expressa por meio da maior quantidade na forma, ou seja, há no texto uma complexidade estrutural que se reflete em uma complexidade semântica/ cognitiva, o que faz o trecho ser icônico e, por isso, marcado. Vale ressaltar um outro uso gramatical marcado de Machado que também con- tribui para sua tentativa de demonstrar o movimento em seu texto: a utilização do coordenador “e”. Muito mais do que responsável por “ligar” orações de mesmo estatuto sintático, segundo Neves (2018, p.808-10), a conjunção coordenativa representa um efeito de avanço textual, no qual temos a apresentação de um acréscimo de algo exte- rior a algo anterior, como uma oração acrescentada à outra com relação de sequência temporal. De forma semelhante, porém exemplo de um uso menos frequente, há no conto dois momentos em que se nota o coordenador “e” expresso em início de pará- grafo, ambos subsequentes a blocos de discurso direto das personagens. Destaca-se o que inicia o último parágrafo do conto: “E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho [...]” (Assis, 2002, p.232). De acordo com Neves (2006, p.252), o “e” em início de parágrafo é “de transição”, uma vez utilizado para marcar um “avanço diferenciado” no curso da narrativa após a pausa, o que garante, na escolha de Machado de usá-lo, um maior dinamismo e fluidez ao texto,inaugural Cleyton Ferrarini (mediação), José Vitor Hansen, Gelson Inácio dos Santos e Fabiana Bonilha. Áudio da conferência de abertura “Integração de pessoas com deficiência: o que se espera da universidade?”, ocorrida em 06/11/2024. Com mediação do Prof. Dr. Cleyton Fernandes Ferrarini (UFSCar), Fabiana Fator Gouvêa Bonilha, Gelson Inácio dos Santos e José Vitor Hansen, cegos, apresentam suas vivências e respondem a alguns questionamentos. Pedimos desculpas, porém, pois nem todas as questões da plateia foram devidamente captadas pelo áudio, por isso em alguns momentos só estão dispo- níveis as respostas dos conferencistas. Para acessar o conteúdo, clique aqui https://drive.google.com/file/d/1rH8MAZDP1g1S7oeILe-w1sZpby2QYGlL/view?usp=sharing https://drive.google.com/file/d/1eaA3S_4PIMO7nVeivuaX7NyIUX_97Fn5/view?usp=sh 17 seção 1 Entre vozes e olhares: narrativas de abertura Arte de Karen Montija: entre visível e invisível Paulo Eduardo Capel Cardoso (Coordenador do V LinCog) A arte é fundamental para a história da humanidade, pois permite comunicar ideias, sentimentos e visões de mundo, além de ser uma ferramenta importante para a inclusão social. Esse papel também se estende às pessoas com deficiência visual, ainda que exija adaptações para garantir o pleno envolvimento e a apreciação por parte desse público. Existem diversas maneiras de tornar a arte mais acessível para pessoas com defi- ciência visual, como a criação de releituras de peças em alto-relevo, o uso de audio- descrição e outras técnicas. No entanto, o caminho que escolhemos para a criação dessa obra que representa o V LinCog foi diferente: optamos por desenvolver uma experiência artística pensada especialmente para esse público. Para isso, realizamos diversas reuniões com a artista plástica Karen Cristina Celotto Montija (karen.montija@gmail.com), ex-aluna da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e criadora da exposição COMtornos. A proposta foi criar uma experiência multissensorial, e o resultado foi uma série de esculturas que representam silhuetas de pessoas com deficiência. As obras consistem em contornos de figuras que retratam uma pessoa autista, outra com deficiência visual, uma com deficiência auditiva e ainda outra com mobilidade reduzida. A exposição foi concebida para ser tocada, permitindo que pessoas cegas ou com baixa visão explo- rem as formas pelo tato. Já para os videntes, as esculturas oferecem uma experiência visual única: dependendo do ângulo de observação, os contornos podem se tornar mais visíveis ou quase desaparecer, provocando uma reflexão sobre a percepção e a invisibilidade das pessoas com deficiência. Segundo Karen Montija, “como filha de uma pessoa com deficiência visual, uni minha formação e produção em artes plásticas com minha experiência traba- lhando com acessibilidade estética em instituições culturais. Desse encontro nasce COMtornos. Eu queria que as peças fossem feitas de um material forte, resistente, e ao mesmo tempo que pudesse moldar as silhuetas de pessoas com deficiência. De frente, a chapa de metal é tão fina que as esculturas são quase imperceptíveis. Você necessita mudar sua visão, necessita mudar sua forma de ver as coisas para COMtornos se revelar. Dessa ‘invisibilidade’ momentânea do efeito óptico das peças, espero que o público reflita sobre presença, diversidade e diferença”. Os coordenadores do V LinCog tinham a visão de transformar essa exposição em um projeto itinerante, capaz de ser transportada para diversos espaços dentro e fora da USP. O objetivo era ampliar o acesso às obras, permitindo que um número maior de pessoas, com ou sem deficiência visual ou outras formas de deficiência, pudessem interagir com as esculturas. Dessa forma, a mensagem sobre a importância da inclusão e da acessibilidade, em todos os seus aspectos, poderia ser levada cada vez mais longe, alcançando públicos diversos e promovendo reflexões sobre a diversidade humana. A exposição foi inaugurada durante o V LinCog, no espaço da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Além das quatro esculturas que compõem a mostra, há uma 18 seção 1 Entre vozes e olhares: narrativas de abertura placa explicativa que detalha o projeto, seu propósito e a proposta multissensorial por trás das obras. Essa placa serve como um guia para os visitantes, contextualizando a experiência e reforçando o compromisso com a inclusão e a acessibilidade: COMtornos aborda a invisibilidade das pessoas com deficiência, refletida nas barreiras físicas, atitudinais e arquitetônicas na sociedade. Por meio de esculturas em silhuetas de uma pessoa autista, uma surda, uma usuária de cadeira de rodas e uma cega, a artista forja a reflexão sobre a quebra de barreiras sociais, destacando a importância da mudança dessa realidade pelo prisma de mais uma perspectiva agregada ao olhar, o toque. Dirige-nos à percepção de que FAZER PARA é apenas um mote para uma perspectiva integrativa e necessária do FAZER COM. COMtornos não apenas podem ser vistos, mas também tocados, senti- dos, proporcionando uma experiência sensorial inclusiva PARA TODOS, independentemente de suas condições físicas. A exposição, que une as percepções, a priori, visual e tátil, busca sensibilizar o público para a importância de uma sociedade mais acessível e inclusiva, onde as pessoas com deficiência ocupem seu espaço com pleno direito e reconhecimento. Para que esse projeto se tornasse realidade, o V LinCog contou com o apoio essencial de diversas instituições e órgãos: a Universidade de São Paulo (USP); o Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP; o Instituto Federal de Educação; Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP); a Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP; a Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação da USP; a Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento da USP; a Universidade Federal Rural de Pernambuco; a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin; a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência; e a Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo. A colaboração desses parceiros foi fundamental para viabilizar a exposição e promover a mensagem de inclusão e acessibilidade. 2 CAMINHOS DA INCLUSÃO: DIÁLOGOS COM INSTITUIÇÕES PARCEIR AS 20 SEÇÃO 2 Caminhos da inclusão: diálogos com instituições parceiras Apresentação de instituições parceiras Paulo Eduardo Capel Cardoso Coordenador do V LinCog Ser uma pessoa com deficiência não é uma definição, mas uma condição. Como afirma o escritor Marcos Lima, em seu livro Histórias de cegos1: “Nós, pessoas com deficiência, podemos fazer tudo. A diferença está só na acessibilidade”. A acessibilidade, portanto, é uma condição essencial para o desenvolvimento de qualquer pessoa com deficiência. No caso específico da deficiência visual, há um con- junto de instituições que trabalham para fomentar essa inclusão e garantir o desen- volvimento pleno de pessoas cegas ou com baixa visão. Essas organizações atuam em diversas frentes, promovendo autonomia para a realização das atividades do dia a dia, facilitando a inserção no mercado de trabalho e oferecendo suporte psicológico. Tudo isso é essencial para a integração dessas pessoas na sociedade. Quando pensamos na educação infantil e no desenvolvimento de crianças, aprendemos que a “autonomia não cai no colo, ela é uma construção” (Alessandro Marimpietri). Esse princípio se aplica também aos diferentes programas oferecidos pelas instituições que apoiam pessoas com deficiência. Muitas vezes, digo: “A gente não se recupera, se reINVENTA”. No meu caso, minha deficiência visual foi adquirida, e não congênita. As instituições tiveram um papel fundamental nesse processo de reINVENÇÃO, de buscar minha autonomia novamente, mostrando caminhos e soluções que me permitiram reconstruir minha trajetória. Hoje, sigo como agente de contribuição e desenvolvimento social, com um olhar especial para as ferramentas que viabilizam a inclusãosendo um modo de introduzir novas cenas e “apontar para a frente”. algumas considerações Com o apoio das teorias que dizem respeito aos princípios e categorias que regem a construção de enunciados e narrativas, ratifica-se com o presente estudo o pressuposto da Linguística Funcional acerca da existência de uma interdependência entre forma gramatical e a função desempenhada no texto. Mais do que isso, foi possível demons- trar que, por permitirem uma investigação mais detalhada do que constitui a mate- rialidade linguística do conto analisado, assim como do estilo de Machado de Assis, 114 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate profundamente intencional, com estratégias sintáticas essenciais para a determinação da atmosfera narrativa e caracterização de personagens, os conceitos funcionais aqui empregados são de extrema relevância para o estudo das obras literárias. E isso não porque a literatura deva ser vista como um modelo de “bom uso da língua”, como a tem tratado a gramática tradicional no ensino escolar, mas porque essa “se singulariza exatamente no sentido de que, nela, em princípio, não há outras pressões que não a plenitude da expressão pela linguagem” (Neves, 2018, p.23). Portanto, dentro do gênero discursivo literário, muito se tem a observar em relação às variadas formas que a língua pode tomar de acordo com os objetivos de comunicação, expressão e repre- sentação. Tudo em virtude da escolha de um autor em usar determinada construção textual – e não outra. referências ASSIS, M. de. Contos. São Paulo: FTD, 2002. BAKHTIN, M. Questões de estilística no ensino da língua. Trad., posfácio e notas de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2013. CASTILHO, A. T. de. Nova Gramática do Português Brasileiro. São Paulo: Contexto, 2010. CUNHA, M. A. F. da; TAVARES, M. A. (Org.) Linguística funcional e ensino de gra- mática. In: Funcionalismo e ensino de gramática [recurso eletrônico]. Natal: EDUFRN, 2016. Disponível em: https://repositorio.ufrn.br/jspui/handle/123456789/21375. Acesso em: 17 set. 2024. NEVES, M. H. de M. Texto e Gramática. São Paulo: Contexto, 2006. _______. A Gramática do Português revelada em textos. São Paulo: Editora Unesp, 2018. https://repositorio.ufrn.br/jspui/handle/123456789/21375 115 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate Análise funcional dos usos de longe de em língua portuguesa funcional Gláucia dos Santos Nogueira apresentação Esta pesquisa está ancorada nos pressupostos teórico metodológicos da Linguística Funcional Centrada no Uso (LFCU) (Furtado da Cunha; Bispo; Silva, 2013; Rosário; Oliveira, 2013; 2022b; 2023; Rosário; Oliveira, 2016; Furtado da Cunha; Oliveira; Martelotta, 2015). No arcabouço da LFCU, a estrutura de uma língua é modelada nos usos, a partir das necessidades discursivas do falante. Logo, a língua deve ser vista como algo fluido e mutável, e não como um sistema autônomo, já que ela é uma resposta contínua às pressões do discurso (Bybee; Hopper, 2001). Esse trabalho justifica-se pela necessidade de promover os estudos que visem a analisar e descrever a língua em uso, em especial aqueles que procuram ampliar e investigar as microcons- truções conectoras da rede [X de]conect. A Linguística Funcional Centrada no uso (LFCU) sofreu grande influência da Linguística Cognitiva (LC) e da Gramática de Construções (GC), suscitando, assim, a defesa de uma abordagem interessada nos aspectos tanto estruturais quanto nos cognitivos. Com a integração desses estudos, os fenômenos linguísticos passaram a ser investigados e analisados com um olhar mais holístico, global, sempre ressaltando a concepção de que a língua é “funcionalmente ancorada no modo como os falantes a utilizam em sociedade” (Rosário, 2022a, p.97). Um dos princípios gerais incorporado pela LFCU da GC é aquele que concebe a língua como um conjunto de pareamentos de “forma-significado” organizados em rede, em variados níveis de complexidade e abstração, denominados construções (Goldberg, 1995; 2013; Croft 2001). Nessa perspectiva teórica, léxico e sintaxe não se constituem em módulos separados, mas formam um continuum (Rosário, 2022b; 2023; Rosário; Oliveira, 2016). Essa rede de construções compreende, segundo Goldberg (2013), a totalidade do nosso conhecimento da língua e está interconectada a diferentes planos por relações de diversas naturezas, como fatores cognitivos e sociocomunicativos, que motivam e regulam a estrutura da língua (Furtado da Cunha; Bispo, 2016). No arcabouço da LFCU, a estrutura de uma língua é modelada nos usos, a partir das necessidades discursivas do falante. Em vista disso, buscamos descrever e analisar usos do longe de nos planos da forma e do sentido, partindo do entendimento de que [longe de]conect é uma microconstrução conectora configurada como um pareamento de forma e significado. O dinamismo presente na língua em uso pode revelar instabilidades capazes de produzir alterações nos padrões gramaticais já convencionalizados, surgindo, assim, novas formas e novos significados, inclusive no campo da conexão de sintagmas e de orações. O uso de [longe de]conect como conector que relaciona orações com sentido de exclusão é um exemplo concreto dessas instabilidades, pois, tradicionalmente tratada como locução prepositiva ou complexa (Azeredo, 2008), a expressão longe de passa a 116 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate se atualizar nos usos conectando orações. Além desses dois usos (locução prepositiva e conector de orações), há ainda um outro padrão que estabelece uma relação ainda mais integrada entre as subpartes longe e de. Vejamos um dado de cada padrão de uso: (1) Mais à vontade agora, elas afirmam que a relação não atrapalha em nada o trabalho no campo. Pelo contrário, não vivem a habitual saudade que os atletas enfrentam por estarem tantos dias longe de casa. # – É incrível. Estamos nisso há tanto tempo, que, finalmente, podemos falar sobre isso como se fosse uma coisa normal. É realmente reconfortante. É uma espécie de peso tirado de nossos ombros – admitiu a defensora Ali Krieger, de 34, em março passado. (2) Ao referir que o aborto induzido é 10 vezes mais seguro do que um parto, a propaganda de muitas clínicas de aborto (em países onde a prá- tica está legalizada) cria uma falsa sensação de segurança nas mulheres que procuram os seus serviços. No entanto, esta prática está longe de ser segura. As mulheres que se submetem a um aborto induzido colocam a sua saúde em risco. (3) Por duas vezes, cruzamentos do setor buscaram Rafael Sobis, mas a bola sempre ficou com o goleiro Fernando Miguel. # Longe de fazer um bom jogo, o Inter voltou a ter dificuldades jogando fora de casa. E o castigo veio no fim do primeiro tempo, com dois gols sofridos em menos de cinco minutos. No dado (1), longe de encontra-se ligando o verbo “estarem” ao substantivo “casa”. A função de longe de nesse uso está em conformidade com o que é proposto pela tradição gramatical, uma vez que longe de atua como subordinador de termos, tal qual as chamadas locuções prepositivas, preposições complexas. A expressão longe de, em (1), estabelece, no campo do significado, uma relação espacial de distanciamento do sujeito: “os atletas” estarem longe (distante) de sua “casa”, espaço físico. Logo, a locução prepositiva, nesse caso, preserva boa parte do sentido original do advérbio longe. Nos dados (2) e (3), encontramos usos oracionais de longe de não previstos pelas gra- máticas. Apesar de ser flagrado em contexto oracional, em (2), longe de não se comporta propriamente como conector. A análise do dado revela que há dois blocos de informação relativamente marcados, chamados aqui, respectivamente, de segmento 1 e segmento 2: “esta prática está longe” + “de ser segura”. Diante dessa observação, parece haver uma fronteira entre os dois segmentos, de modo que longe e de, de algumaforma, pertencem a duas diferentes porções de informação. Nessa proposta de análise, longe funciona como predicativo do sujeito (“esta prática está longe”), sendo marcado por necessidade de complementação, o que é cumprido justamente pelo segmento “de ser segura”. Por esse motivo, não podemos dizer que, nesse dado, longe de apresenta a função de conector de orações, pois ainda não temos uma verdadeira fusão entre longe e de. Em (3), longe e de apresentam-se em um uso mais integrado, com maior fusão entre as subpartes. Já não temos [longe + de], como no padrão 2, mas [longe de]. Em termos morfossintáticos, longe de funciona como um conector, estabelecendo uma relação de exclusão, de modo análogo ao que ocorre com as clássicas conjunções subordinativas adverbiais da gramática normativa. Não se trata propriamente de uma 117 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate conjunção convencionalizada, pois só conecta orações infinitivas, além de ainda revelar efeitos de persistência (cf. Hopper, 1991), já que esse elemento preserva parte de sua carga semântica original de distanciamento. Nesse dado (3), o fato de não haver verbo copulativo à esquerda de longe de também colabora para afastar seu uso do padrão 2, de valor predicativo. Por fim, a posição inicial absoluta de longe de, associada ao valor semântico de exclusão, indica que, nesse contexto, sua função sintático-semântica é distinta das anteriores. É possível que os usos presentes em (1) e (2), respectivamente [longe de]prep e [longe + de]pred, evidenciem etapas anteriores à formação de [longe de]conect, dado seu maior grau de gramaticalidade e pela maior integração sintático-semântica das suas subpartes (cf. Rosário, 2022a). No entanto, ainda que verossímil, essa hipótese não será aprofundada neste trabalho. desenvolvimento As análises presentes nessa pesquisa buscam identificar e avaliar os diferentes fatores que contribuíram para os distintos usos de longe de; portanto, concentramo-nos nos princípios gerais da Gramática de Construções, segundo a qual a língua é um inven- tário de pareamento de forma-significado, denominado construções, organizados em rede, em variados níveis de complexidade e abstração (Goldberg, 1995; 2013; Croft, 2001). Essa rede de construções, por sua vez, compreende a totalidade do nosso conhecimento da língua e está interconectada a diferentes planos por relações de diversas naturezas, como fatores cognitivos e sociocomunicativos, que motivam e regulam a estrutura da língua (Furtado da Cunha; Bispo; Silva, 2013). A criação de um novo pareamento (forma nova - significado novo) enseja a origem de um novo nó nessa grande rede cognitiva, com nova sintaxe e/ou morfologia, atrelada a um novo significado, cujo conteúdo é armazenado na memória dos falantes. O levantamento de dados para esta pesquisa foi realizado por meio do site O Corpus do português (http://www.corpusdoportugues.org), mais especificamente na interface NOW. Os dados foram extraídos a partir da inserção da expressão longe de no mecanismo eletrônico de busca. Dada a sua frequência, selecionamos, em seguida, apenas os textos na variedade brasileira da língua portuguesa, na modalidade escrita, do período de 2012 a 2019, em que longe de figurava. Não fizemos distinção de gênero textual ou domínio discursivo. No entanto, pela própria natureza do corpus, obtivemos ocorrências de longe de em textos do gênero notícia. A maioria desses textos pertence a sites brasileiros de notícias. A coleta de dados e, consequentemente, a análise empreendida dos padrões de longe de conjugou fatores quantitativos e qualitativos, com foco maior nesse último, dada a importância da descrição e interpretação a partir do enfoque indutivo obser- vado nos dados coletados (Rosário, 2023). Essa coleta consistiu, primeiramente, no levantamento de todas as ocorrências que continham a sequência longe de. Do total de 68.406 ocorrências, selecionamos os cem primeiros dados, em termos composi- cionais1, tanto [+ composicionais] quanto [– composicionais]. Entende-se por uso [+ 1. O conceito de composicionalidade está associado ao grau de transparência entre forma e significado de uma construção. Segundo Traugott e Trousdale (2013), do ponto de vista construcional, a melhor maneira de pensar em composicionalidade é em termos de compatibilidade ou não entre aspectos da forma e do significado. http://www.corpusdoportugues.org 118 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate composicional] aquele em que longe apresenta função de advérbio e de apresenta valor de preposição, ligando termos, ou seja, estamos falando do padrão 1: [longe de]prep. Usos [- composicionais], por sua vez, são aqueles em que longe de integra predicativos (padrão 2: [longe + de]pred) ou atua como conector, ligando orações (padrão 3: [longe de]conect). Os usos composicionais são concretos, ao passo que os usos menos compo- sicionais são mais abstratos. Examinando os dados, observamos que o padrão 1 – [longe de]prep –, com sentido concreto, e que serve para ligar sintagmas no nível suboracional, é o uso mais frequente no corpus, alcançando quase o dobro, 64%, das ocorrências dos demais usos, aqui cha- mados “abstratos”, que representam 36% de ocorrências. Esse ponto reforça a maior prototipicidade de longe de em seu papel de locução prepositiva, o que já era esperado. Esses usos são mais básicos e derivam da experiência direta do indivíduo com o meio. Em um segundo momento do desenvolvimento da pesquisa, passamos a concen- trar nossa atenção nos chamados usos “abstratos”. Dessa forma, coletamos mais 200 (duzentos) dados em que longe de apresentava uso [- composicional], atestado em contextos oracionais, configurando o que temos chamado nesse trabalho de padrão 2 – [longe + de]pred – e de padrão 3 – [longe de]conect . Dos 200 dados coletados de longe de, 76,5% correspondem ao uso predicativo (padrão 2). Outros 23,5% pertencem ao uso conectivo, tratadas nesse trabalho como padrão 3. De fato, a configuração [adv + de] na ligação de orações não finitas é um uso especializado da língua portuguesa, não muito frequente nos dados de uso. Além disso, deve-se destacar que esse conector serve para veicular a noção de exclusão que, por sua própria natureza, já não é muito usual na linguagem do dia a dia. conclusão Baseados nos princípios teóricos-metodológicos da Linguística Funcional Centrada no Uso, buscamos, neste trabalho, investigar, descrever e analisar os usos de longe de na língua portuguesa brasileira. Constatamos, dessa forma, que há três padrões relacionados a cada um desses usos, são eles: (i) padrão 1 – [longe de]prep. Esse padrão serve para ligar sintagmas no nível suboracional; (ii) padrão 2 – [longe + de]pred. Esse padrão integra um sintagma cuja função é análoga à de um predicativo. É empregado em usos ora- cionais, sendo marcado por ambiguidade sintática; e (iii) padrão 3 – [longe de]conect. Esse padrão é uma microconstrução com a função de conectar orações hipotáticas não finitas, veicu- lando a noção semântica de exclusão. Com a perda progressiva de composicionalidade, isto é, com a perda do grau de transparência entre forma e significado, longe de gradualmente expandiu seu escopo de preposição complexa ou locução prepositiva, com sentido de distanciamento no espaço, para o uso como conector hipotático de exclusão. Assim, no uso conector, as subpartes longe e de encontram-se vinculadas, de maneira que os sentidos e as funções, interpretados separadamente, passaram a ser conceptualizados juntos com sentido distinto do convencional. 119 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate No plano do significado, o valor original de afastamento no eixo espacial distal (cf. Castilho, 2010, p.604) sofreu projeções metafóricas, fazendo que esse sentido mais concreto desse também origem a um valor mais abstrato de afastamento, culminando no sentido de exclusão.Isso foi possível porque tanto distância quanto exclusão são formas de afastamento. Diante dos estudos empreendidos, concluímos que a alteração no eixo formal e funcional de longe de constituiu e licenciou um novo nó na rede construcional [X de]conect: a microconstrução [longe de]conect, usada em língua portuguesa espe- cialmente para veicular orações hipotáticas de exclusão. Certamente, o estudo sobre a construção longe de ainda requer maior aprofun- damento. Investigações diacrônicas poderão evidenciar aspectos que, até o momento, permanecem no campo das hipóteses. Todavia, a pesquisa cumpriu seus objetivos iniciais, oferecendo uma análise mais integrada e consistente dos comportamentos formal e funcional de longe de. referências AZEREDO, J. C. Gramática Houaiss da língua portuguesa. 3.ed. São Paulo: Publifolha, 2008. BATORÉO, H. Expressão do espaço no português europeu: contributo psicolinguístico para o estudo da linguagem e cognição. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000. BYBEE, J. Language, usage and cognition. Trad. Maria Angélica Furtado da Cunha; revisão técnica Sebastião Leite Gonçalves. São Paulo: Cortez, 2016. _______. Mudança Linguística. Trad., apres. e notas de Marcos Bagno. Petrópolis: Vozes, 2020. BYBEE, J.; HOPPER, P. (Ed.) Frequency and the Emergence of Linguistic Structure. Amsterdam; Philadelphia: John Benjamins, 2001. CASTILHO, A. T. de. Pequena gramática do português brasileiro. São Paulo: Contexto, 2010. CROFT, W. Radical Construction Grammar: syntactic theory in typological perspec- tive. Oxford: Oxford University Press, 2001. CUNHA. G. da. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Lexikon, 2012. CUNHA LACERDA, P. F. A. da; FURTADO DA CUNHA, M. A. Gramática de construções: princípios básicos e contribuições. In: OLIVEIRA, M. R.; CEZÁRIO, M. M. (Org.) Funcionalismo linguístico: diálogos e vertentes. Niterói: Eduff, 2017. p.17-46. FERRARI, L. Introdução à Linguística Cognitiva. São Paulo: Contexto, 2011. FURTADO DA CUNHA, M. A.; BISPO, E. B.; SILVA, J. R. Linguística funcional centrada no uso: conceitos básicos e categorias analíticas. In: Linguística centrada no uso: uma homenagem a Mário Martelotta. Rio de Janeiro: Mauad X/FAPERJ, p. 13-39, 2013. 120 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate FURTADO DA CUNHA, M. A.; OLIVEIRA, M. R. de; MARTELOTTA, M. E. Pressupostos Teóricos Fundamentais. In: ___. Linguística funcional – teoria e prática. São Paulo: Parábola Editorial, 2015. p.21-47. FURTADO DA CUNHA, M. A. ; BISPO, E. B. Pressupostos teórico-metodo- lógicos e categorias analíticas da linguística funcional centrada no uso. Revista do GELNE, v.15, n.1/2, p.53-78, 2016. GIVÓN, T. Syntax. Amsterdam: John Benjamins, 2001. v.1. GOLDBERG, A. Constructions: a construction approache to argument structure. Chicago: The University of Chicago Press, 1995. GOLDBERG, A. E. Constructionist Approaches. In: HOFFMANN, T.; TROUSDALE, G. (Ed.) The Oxford Handbook of Construction Grammar. Oxford: Oxford University Press, 2013. p.15-31. HEINE, B.; CLAUDl, U.; HÜNNEMEYER, F. Grammaticalization. A conceptu- alframework. Chicago: The University of Chicago Press, 1991. HOPPER, P. On some principles of grammaticalization. In: TRAUGOTT, E. C.; HEINE, B. (Ed.) Approaches to grammaticalization. Amsterdam: John Benjamins, 1991. p.17-35. LANGACKER, R. Foundations of cognitive grammar. Stanford: Stanford University Press, 1987. v.I: Theoretical prerequisites. _______. Cognitive grammar: a basic introduction. New York: Oxford University Press, 2008. LIMA, R. Gramática normativa da língua portuguesa. 49.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011. OLIVEIRA, M. R. Linguística Funcional norte-americana: gramaticalização e lexi- calização, reanálise e analogia. In: ROSÁRIO, I. C. Introdução à Linguística Funcional Centrada no Uso: teoria, método e aplicação. Niterói: EdUFF, 2022. p.54-91. ROSÁRIO, I. C. Esquema [X de]conect em língua portuguesa: uma análise funcional centrada no uso. Matraga, v.29, n.56, p.362-78, 2022a. _______. Introdução à Linguística Funcional Centrada no Uso: teoria, método e apli- cação. Niterói: EdUFF, 2022b. _______. (Org.) Metodologia da pesquisa funcionalista. Porto Velho: Edufro, 2023. ROSÁRIO, I. da C. do; OLIVEIRA, M. R. de. (Org.) Linguística centrada no uso: teoria e método. Niterói: Lamparina, 2015 ROSÁRIO, I. C.; OLIVEIRA, M. R. Funcionalismo e abordagem construcional da gramática. Revista Alfa, v.2, n.60, p.233-59, 2016. TRAUGOTT, E. C.; TROUSDALE, G. Constructionalization and constructional changes. Oxford: Oxford University Press, 2013. 121 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate Música, linguagem e neuroplasticidade no envelhecimento: implicações para a reabilitação cognitiva na Doença de Alzheimer Mônica Maria Soares Santos apresentação O acelerado envelhecimento populacional tem impulsionado o aumento dos casos de demência, especialmente da Doença de Alzheimer (DA), cujas manifestações incluem a deterioração progressiva da memória e das habilidades linguísticas. Apesar desse declí- nio, pesquisas em neurociências revelam que certos aspectos da memória musical perma- necem relativamente preservados, mesmo em estágios avançados da doença. Esse dado tem motivado o desenvolvimento de intervenções terapêuticas que utilizam a música como recurso para estimular funções cognitivas e comunicativas em idosos com DA. Nesse contexto, o presente estudo busca compreender criticamente a interação entre música, linguagem e neuroplasticidade cerebral, focalizando especialmente a reativação de processos linguísticos mediados por estímulos musicais afetivos. A análise parte de mecanismos neurobiológicos associados à plasticidade cerebral e con- sidera evidências que apontam para a eficácia potencial da música na reconfiguração de vias comunicativas em condições de declínio cognitivo. Os objetivos específicos consistem em: (1) avaliar criticamente estudos recentes sobre a preservação parcial da memória musical em idosos com DA; e (2) compreen- der como estímulos musicais personalizados podem fortalecer habilidades linguísticas específicas – como a fonológica e a sintática – ainda preservadas. As implicações desses achados são discutidas à luz das possibilidades terapêuticas interdisciplinares, com ênfase na articulação entre musicoterapia, neurolinguística, gerontologia e psicologia. música, linguagem e neuroplasticidade na doença de alzheimer: reflexões teóricas Estudos recentes em neurociência vêm destacando a relativa preservação das habilida- des musicais em indivíduos com DA, mesmo nos estágios mais avançados. A memória musical implícita, associada à escuta ou execução de músicas familiares, parece resistir ao processo de degeneração, o que tem motivado investigações sobre seu potencial terapêutico. Jacobsen et al. (2015), por exemplo, demonstraram por meio de neuroima- gem funcional que áreas como o córtex cingulado anterior caudal e a área pré-motora suplementar ventral apresentam menor deterioração em comparação a outras regiões cerebrais comprometidas pela DA. Essa integridade relativa pode explicar por que determinados estímulos musicais seguem ativando respostas emocionais e cognitivas em pacientes com grave comprometimento mnêmico. Nesse contexto, Sacks (2007) observa, a partir de uma abordagem fenomeno- lógica baseada em observações clínicas detalhadas e relatos de casos, que músicas afetivamente marcantes são capazes de evocar memórias autobiográficas profundas e 122 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate favorecer uma reconexão com a identidade pessoal, mesmo em pacientes com acentu- ado declínio cognitivo. A partir dessa perspectiva, a pesquisa de Soares Santos (2021) amplia o entendimento do papel da música ao demonstrar que, além da evocação de memórias, a escuta musical afetiva também favorece a emergência da linguagem em idosos com DA. Por meioda aplicação de dois instrumentos metodológicos autorais – o Teste de Consciência Linguística em Idosos (TCLI) e o Roteiro de Perguntas Temáticas – foi possível verificar a reativação de estruturas fonológicas, morfológicas e sintáticas, bem como o estímulo à produção de narrativas autobiográficas. Os resul- tados empíricos obtidos fundamentaram uma proposta teórica inovadora: a ampliação do conceito de consciência linguística para além do campo da alfabetização infantil, compreendendo-o também como um modo residual, afetivo e musical de comunicação no envelhecimento patológico. Como defende a autora: [...] essa consciência é a linguagem do idoso, preservada e que se aflora pela música, pela memória musical, constituindo-se a maneira com que o idoso com Alzheimer se comunica: com e pela música (Soares Santos, 2021, p.174) Esse achado converge com estudos de Morato (2008) e Mansur et al. (2005). Morato (2008) realizou estudo qualitativo-interacional, analisando como indivíduos com Alzheimer inicial interpretam expressões formulaicas em contextos comunica- tivos naturais, apontando para a preservação parcial das habilidades fonológicas e sintáticas e vulnerabilidade semântica e pragmática. Mansur et al. (2005), por meio de revisão sistemática da literatura brasileira, confirmaram a preservação relativa de aspectos fonológicos e sintáticos nas fases iniciais da DA, indicando vulnerabilidade precoce dos componentes semânticos e pragmáticos. Tal constatação sustenta a hipó- tese de uma “ janela linguística” que pode ser aproveitada por intervenções musicais para estimular a comunicação em estágios ainda acessíveis da doença. A discussão sobre a plasticidade cerebral reforça a plausibilidade dessa aborda- gem. Kandel (2006) afirma que o número de sinapses não é fixo, sendo continuamente alterado pelo aprendizado e pela experiência sensorial. Gaser e Schlaug (2003), por sua vez, evidenciaram, por meio de neuroimagem estrutural, que músicos profissionais apresentam maior volume de substância cinzenta em áreas cerebrais relacionadas à motricidade, à audição e à cognição visuoespacial, sugerindo que a prática musical prolongada pode provocar mudanças estruturais duradouras no cérebro – hipótese relevante para contextos de reabilitação cognitiva em idosos. Adicionalmente, Koelsch (2009) detalha como a sobreposição entre redes neurais responsáveis pelo processamento musical e linguístico oferece suporte neurofuncional para intervenções que atuem simultaneamente sobre ambas as esferas. Moore (2013), ao realizar uma revisão sistemática sobre os efeitos da música na regulação emocional, confirma que intervenções musicoterapêuticas são eficazes na redução da ansiedade e na promoção do bem-estar emocional. Complementando esse eixo, Campos e Graveto (2010) associam a escuta musical colaborativa à liberação de oxitocina, hormônio vinculado ao fortalecimento de vínculos sociais, sugerindo que a música também promove benefícios emocionais e relacionais em pacientes com DA. Apesar da robustez dos achados apresentados, permanece uma questão crucial: a eficácia das intervenções musicais é generalizável ou depende de fatores individuais – como repertório afetivo, cultura musical e grau de deterioração cognitiva? A resposta 123 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate a essa pergunta exigirá estudos longitudinais e com delineamentos metodológicos mais padronizados e replicáveis. metodologia Este estudo adota uma abordagem qualitativa crítica com dois objetivos principais: avaliar estudos recentes sobre a preservação da memória musical em idosos com DA e compreender como estímulos musicais personalizados podem fortalecer habilidades linguísticas específicas preservadas. A metodologia articula dois eixos complementa- res: uma revisão de literatura interdisciplinar e a reinterpretação qualitativa de dados empíricos previamente coletados. A revisão teórica utilizou critérios de pertinência temática e relevância científica sobre interfaces entre música, linguagem e neuroplasticidade no envelhecimento, abrangendo neurociência, linguística aplicada, psicologia da música e gerontologia. Cada metodologia revisada foi analisada quanto ao delineamento, instrumentos, perfil dos participantes e escopo dos achados. No campo da neuroimagem, Jacobsen et al. (2015) conduziram uma pesquisa empí- rica com ressonância magnética funcional (fMRI) em adultos jovens saudáveis e análises comparativas posteriores com exames estruturais (MRI) e de metabolismo cerebral (PET-FDG) de idosos com Alzheimer, identificando regiões cerebrais preservadas, como o córtex cingulado anterior caudal e a área pré-motora suplementar ventral, associadas à memória musical preservada. Complementarmente, Gaser e Schlaug (2003) realizaram um estudo comparativo com ressonância magnética estrutural (MRI), analisando dife- renças volumétricas de substância cinzenta em músicos profissionais, amadores e não músicos, destacando a correlação entre prática musical prolongada e mudanças cerebrais morfológicas, indicando plasticidade cerebral associada à música. Sacks (2007) adotou metodologia clínica narrativa, baseada em observação direta e descrição detalhada de casos clínicos, evidenciando a evocação de memórias auto- biográficas e respostas emocionais intensas em pacientes com Alzheimer expostos a músicas afetivamente significativas. Não houve coleta sistematizada por meio de entrevistas estruturadas ou diários clínicos relatados. Morato (2008) realizou um estudo qualitativo-interacional, com aplicação de tarefas linguísticas contextuais para investigar como indivíduos com afasia e Alzheimer inicial interpretam expressões formulaicas, avaliando habilidades linguísticas preservadas ou deterioradas por meio de análise discursiva qualitativa. Mansur et al. (2005), por outro lado, executaram uma revisão sistemática da literatura nacional sobre linguagem em Alzheimer, analisando criticamente estudos brasileiros quanto às abordagens teórico- -metodológicas, mas sem coleta direta de dados linguísticos primários. No âmbito da neuropsicologia emocional, Koelsch (2009) realizou uma revisão teórica focada em estudos de neuroimagem (fMRI, PET, MEG) sobre música e emo- ção, apontando sobreposições funcionais nas redes neurais relacionadas à linguagem e à música, discutindo implicações terapêuticas sem coleta de dados originais. Moore (2013) também conduziu uma revisão sistemática de estudos neurocientíficos sobre os efeitos musicais na regulação emocional em contextos clínicos diversos, sintetizando achados que demonstraram a eficácia da música na redução de ansiedade e promo- ção do bem-estar emocional. Campos e Graveto (2010), por meio de uma revisão 124 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate bibliográfica, discutiram a liberação hormonal (ocitocina) induzida por contextos de interação social positiva, incluindo escuta musical, sem coleta empírica própria. Por fim, esta pesquisa reinterpreta qualitativamente os dados do estudo doutoral de Soares Santos (2021). Esse estudo original adotou metodologia qualitativa com instrumentos próprios, como o Teste de Consciência Linguística em Idosos (TCLI), composto por atividades metalinguísticas direcionadas às dimensões fonológica e sintática (identificação de rimas, sons iniciais, reordenação frasal, julgamento grama- tical), e o Roteiro de Perguntas Temáticas (RPT), protocolo semiestruturado utili- zado para induzir narrativas autobiográficas após audição de músicas afetivamente relevantes escolhidas junto a familiares. Os relatos das participantes foram gravados, transcritos e submetidos a análise qualitativa, investigando em que medida a música facilitava a emergência de estruturas linguísticas preservadas e ativava memórias pes- soais narrativas. Os resultados dessa reinterpretação qualitativa foram integrados criticamente aos achados da revisão teórica, resultando em uma análise queconjuga perspectivas neurocientíficas, linguísticas e emocionais sobre o impacto da música na reabilitação comunicativa em idosos com Alzheimer. resultados e discussão A análise crítica dos estudos selecionados revelou uma convergência significativa entre os pesquisadores sobre o potencial terapêutico da música. Em especial, essas pesquisas apontam para a capacidade dos estímulos musicais em ativar mecanismos neuroplás- ticos específicos, promovendo, dessa forma, uma melhora nas habilidades linguísticas e comunicativas dos idosos diagnosticados com Alzheimer. Em consonância com as pesquisas neurocientíficas revisadas (Jacobsen et al., 2015; Gaser; Schlaug, 2003), há consenso na literatura sobre a preservação diferenciada das regiões neurais responsá- veis pelo processamento musical em comparação às áreas afetadas precocemente pela doença. A partir desses resultados, percebe-se que o uso terapêutico da música consti- tui-se numa estratégia eficaz para ativar regiões preservadas ou parcialmente intactas, abrindo vias alternativas de comunicação e cognição para indivíduos com DA. Especificamente, Soares Santos (2021) verificou empiricamente que a exposi- ção personalizada a músicas com significado autobiográfico e afetivo para os ido- sos produziu uma melhora momentânea e significativa nas habilidades linguísticas avaliadas pelo Teste de Consciência Linguística em Idosos (TCLI), especialmente nas dimensões fonológica e sintática. Esses achados corroboram estudos anteriores, como os de Morato (2008) e Mansur et al. (2005), que apontaram justamente para uma relativa preservação dessas habilidades linguísticas nas fases iniciais da doença, enquanto habilidades semânticas e pragmáticas já se mostravam comprometidas. Tal congruência de resultados fortalece a hipótese de que intervenções musicais possam explorar com eficácia essa “ janela linguística” preservada. Complementarmente, os estudos qualitativos e fenomenológicos realizados por Sacks (2007) sustentam esses achados, demonstrando que músicas familiares e autobiográficas provocam não apenas reações linguísticas significativas, mas tam- bém profundas respostas emocionais e sociais, contribuindo para uma reconfiguração temporária da identidade pessoal e das capacidades comunicativas do paciente. Na 125 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate mesma perspectiva, Moore (2013) e Campos e Graveto (2010) destacam a importância das intervenções musicais no fortalecimento de vínculos afetivos e sociais através de mecanismos neurais e hormonais, em particular a elevação dos níveis de oxitocina, enfatizando o papel integrativo e multidimensional da música. Do ponto de vista neurocientífico, os achados de Koelsch (2009) sustentam a sobreposição significativa das áreas cerebrais responsáveis pelo processamento musical e linguístico, reforçando a eficácia das intervenções musicais como método potencial- mente eficaz na reabilitação simultânea de funções cognitivas e comunicativas afetadas pela DA. Kandel (2006) fornece um embasamento biológico adicional a essa pers- pectiva, indicando que, apesar das limitações, a neuroplasticidade cerebral permanece ativa durante o envelhecimento, o que pode ser explorado terapeuticamente por meio da estimulação musical contínua e estruturada. Os resultados analisados confirmam o potencial das intervenções musicais no contexto da DA não apenas pela ativação neuroplástica, mas também pelos efeitos positivos na comunicação e no bem-estar emocional dos idosos. Todavia, a ausência de protocolos metodológicos mais homogêneos nas pesquisas revisadas sugere a necessi- dade urgente de estudos futuros com delineamentos mais robustos e sistematizados, capazes de garantir maior replicabilidade e eficácia clínica dessas intervenções. Os achados revisados são promissores, porém levantam uma questão crucial: como garantir que as intervenções musicais futuras sejam estruturadas o suficiente para permitir replicabilidade científica e, simultaneamente, flexíveis o bastante para respeitar a singularidade das histórias musicais dos idosos? A resolução dessa questão definirá, sem dúvida, os rumos e o impacto clínico das futuras pesquisas nessa área. considerações finais Este estudo analisou criticamente as interfaces entre música, linguagem e neuro- plasticidade no contexto da DA, com o objetivo de compreender como estímulos musicais personalizados podem contribuir para a reabilitação cognitiva e linguística de idosos acometidos pela doença. A investigação evidenciou que aspectos da memória musical – especialmente em suas formas implícita e autobiográfica – tendem a se manter parcialmente preservados, mesmo em estágios avançados da DA, o que abre possibilidades terapêuticas relevantes. A partir da releitura dos dados empíricos de Soares Santos (2021) e da revisão crítica da literatura interdisciplinar, constatou-se que intervenções musicais afetivas podem reativar estruturas linguísticas fonológicas, morfológicas e sintáticas, além de favorecer a emergência de narrativas autobiográficas. Esses achados alinham-se a evidências da neurociência e da linguística que apontam para a persistência de certas habilidades comunicativas e cognitivas em fases iniciais da doença. A contribuição original deste ensaio reside na articulação entre dados empíricos e perspectivas teóricas diversas, consolidando a música como recurso terapêutico não apenas emocional, mas também linguístico e social. Os instrumentos metodológicos autorais – o TCLI e o Roteiro de Perguntas Temáticas – foram concebidos para ava- liar, respectivamente, a consciência linguística formal e a capacidade narrativa auto- biográfica em idosos com Alzheimer, a partir da escuta de músicas afetivas. Ambos evidenciam a necessidade de abordagens metodológicas que respeitem a singularidade 126 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate da trajetória linguístico-musical dos pacientes e favoreçam a emergência da linguagem em contextos de vulnerabilidade cognitiva. Reconhecendo as limitações metodológicas presentes em estudos da área – como amostras reduzidas e falta de padronização dos protocolos –, propõe-se que futuras pesquisas invistam em delineamentos mais robustos, longitudinais e colaborativos. Permanecem abertas questões sobre os limites e a durabilidade dos efeitos observados. Ainda assim, os dados analisados reforçam o potencial da música como ponte entre memória, linguagem e identidade em contextos de envelhecimento patológico. referências BAIRD, A.; SAMSON, S. Memory for music in Alzheimer’s disease: Unforgettable? Neuropsychology Review, v.19, n.1, p.85-101, 2009. https://doi.org/10.1007/ s11065-009-9085-2. CAMPOS, D. C. F. de; GRAVETO, J. M. G. do N. Oxitocina e comportamento humano. Referência - Revista de Enfermagem, v.III, n.1, p.125-30, jul. 2010. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/3882/388239960011.pdf. Acesso em: 16 mar. 2019. GASER, C.; SCHLAUG, G. Brain structures differ between musicians and non-mu- sicians. The Journal of Neuroscience, v.23, n.27, p.9240-5, 2003. Disponível em: https:// www.jneurosci.org/content/23/27/9240. Acesso em: 1 ago. 2024. JACOBSEN, J.-H. et al. Why musical memory can be preserved in advanced Alzheimer’s disease. Brain, v.138, n.8, p.2438-50, 2015. https://doi.org/10.1093/ brain/awv135. KANDEL, E. R. In Search of Memory: The Emergence of a New Science of Mind. New York: W. W. Norton & Company, 2006. Disponível em: https://vinaire.me/ wp-content/uploads/2022/10/in-search-of-memory-by-kandel.pdf. Acesso em: 17 jul. 2019. KOELSCH, S. A neuroscientific perspective on music therapy. Annals of the New York Academy of Sciences, v.1169, p.374-84, 2009. https://doi.org/10.1111/j. 1749-6632.2009.04592.x. Acesso em: 10 dez. 2020. MANSUR, L. L. et al. Linguagem e cognição na doença de Alzheimer. Psicologia: Reflexão e Crítica, v.18, n.3, p.300-7, 2005. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ prc/a/xkKV98KxZkZTHVNfy457W7B/?lang=pt.Acesso em: 11 fev. 2019. MORATO, E. M. O caráter sociocognitivo da metaforicidade: contribuições do estudo do tratamento de expressões formulaicas por pessoas com afasia e com Doença de Alzheimer. Revista Estudos da Linguagem, v.16, n.1, p.157-77, 2008. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/relin/article/view/9136. Acesso em: 7 mar. 2020. MOORE, K. S. A Systematic Review on the Neural Effects of Music on Emotion Regulation: Implications for Music Therapy Practice. Journal of Music Therapy, v.50, n.3, p.198-242, 2013. Disponível em: https://academic.oup.com/jmt/ article-abstract/50/3/198/1007477?redirectedFrom=fulltext&login=false. https://doi.org/10.1007/s11065-009-9085-2 https://doi.org/10.1007/s11065-009-9085-2 https://www.redalyc.org/pdf/3882/388239960011.pdf https://www.jneurosci.org/content/23/27/9240 https://www.jneurosci.org/content/23/27/9240 https://doi.org/10.1093/brain/awv135 https://doi.org/10.1093/brain/awv135 https://vinaire.me/wp-content/uploads/2022/10/in-search-of-memory-by-kandel.pdf https://vinaire.me/wp-content/uploads/2022/10/in-search-of-memory-by-kandel.pdf https://doi.org/10.1111/j.1749-6632.2009.04592.x https://doi.org/10.1111/j.1749-6632.2009.04592.x https://www.scielo.br/j/prc/a/xkKV98KxZkZTHVNfy457W7B/?lang=pt https://www.scielo.br/j/prc/a/xkKV98KxZkZTHVNfy457W7B/?lang=pt https://periodicos.ufmg.br/index.php/relin/article/view/9136 https://academic.oup.com/jmt/article-abstract/50/3/198/1007477?redirectedFrom=fulltext&login=false https://academic.oup.com/jmt/article-abstract/50/3/198/1007477?redirectedFrom=fulltext&login=false 127 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate SACKS, O. Musicophilia: Tales of Music and the Brain. New York: Alfred A. Knopf, 2007. Disponível em: https://www.oliversacks.com/books-by-oliver-sacks/musico- philia/. Acesso em: 12 jul. 2023. SOARES SANTOS, M. M. Essa música me faz lembrar... A “Consciência Linguística” que emerge da música: idosos com Alzheimer no Brasil e em Portugal. Évora, 2021. Tese (Doutorado em Ciências da Linguagem) – Universidade de Évora. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8142/tde-20072022-151942/pt-br.php. https://www.oliversacks.com/books-by-oliver-sacks/musicophilia/ https://www.oliversacks.com/books-by-oliver-sacks/musicophilia/ https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8142/tde-20072022-151942/pt-br.php 128 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate Metáfora conceptual em charges políticas: o papel das informações visuais na construção do sentido1 Maria Eduarda de Oliveira Alves Jan Edson Rodrigues Leite apresentação A presente pesquisa objetiva descrever a aplicação da Teoria Integrada da Metáfora Conceptual à compreensão das metáforas em um gênero textual com linguagem nota- damente multimodal: as charges políticas. Sendo possível, por meio desse gênero multimodal, inferir sentidos que contenham sátiras, críticas ou analogias do atual cenário sociopolítico, revelando então sua importância para a compreensão linguística e imagética. Nessa direção, pretendemos fazer um recorte de dados pelo qual seja pos- sível descrever cenários políticos cuja compreensão perpassa a organização cognitiva das metáforas na linguagem e no pensamento. Buscamos uma associação entre os conceitos e teorias sobre a compreensão das metáforas e uma (inter)relação imagética com o gênero textual descrito, o qual nos possibilita entender como as metáforas são processadas como imagens mentais e de quais formas são conceptualizadas e codificadas em expressões metafóricas convencio- nadas em contextos de uso. Utilizaremos a Teoria Integrada da Metáfora Conceptual (TIMC) (Lakoff; Johnson, 2002; Fauconnier; Turner, 2002; Searle, 1993 [1979]; Steen, 2011; Leite, 2014) na descrição desses processos, uma vez que as pesquisas desenvolvidas nesse campo de estudo produzem uma base interpretativa relevante para os estudos de metáforas linguísticas e visuais, considerando-as mais do que meras figuras de linguagem. Nosso objeto de estudo surge da investigação sobre como diferentes gêneros da esfera política (contexto) podem facilitar ou inibir a compreensão e a conceptualização das metáforas, considerando-se as informações visuais e linguísticas presentes nos textos, sua estrutura específica e os processos semântico-cognitivos por elas acio- nados. Nessa perspectiva, buscamos também problematizar a compatibilidade (em termos de compreensão, estrutura e mecanismos de processamento) entre metáforas verbais e visuais, além de examinar se as teorias existentes sobre metáforas explicam adequadamente as informações, as estruturas e os processos cognitivos próprios de cada gênero analisado. Os conhecimentos que serão discutidos ao longo deste trabalho nasceram sob a neces- sidade de aprofundar uma pesquisa que tivesse como escopo a relação entre os aspectos verbais e visuais nas metáforas conceptuais. Essa acepção escapa a outros estudos feitos 1. Esta pesquisa está vinculada ao Laboratório de Compreensão Neurocognitiva da Linguagem (Lacon) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), no Programa de Pós-Graduação em Linguística (Proling) como parte do projeto guarda-chuva “Efeitos da CST – Terapia de Estimulação Cognitiva – no processamento e compre- ensão de linguagem”, coordenado pelo Prof. Dr. Jan Edson Rodrigues Leite, na grande área da Linguística e na subárea da Linguística Cognitiva. 129 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate ao longo de quase seis décadas, os quais se dedicam a explicar, comprovar, demonstrar e expandir o funcionamento dessas metáforas, deixando de considerar que elementos visuais também revelam semioses interpretativas que trazem à tona o efeito metafórico para serem compreendidas plenamente. Sobressalente a tal fato, intuímos ainda que há certa resis- tência em considerar que os aspectos visuais podem trazer importantes observações sobre o funcionamento da linguagem, especialmente se ele estiver sendo posto paralelamente aos estudos da língua; essa que, por sua vez, é sempre apontada como mais prestigiada. Portanto, esta pesquisa traz um pareamento linguístico-cognitivo que promove a integra- ção conceptual entre o verbal e o visual na compreensão das metáforas conceptuais à luz das teorias já mencionadas. a trama entre os conceitos e efeitos da metáfora A Teoria da Metáfora Conceptual (TMC), proposta por Lakoff e Johnson (1980), defende que a relação entre linguagem e mundo é mediada pela cognição. Sob essa perspectiva, o significado não é mais visto como um simples reflexo da realidade, mas sim como um construto cognitivo por meio do qual experimentamos e compreende- mos o mundo. Em outros termos, as palavras não contêm sentidos fixos, mas orientam sua construção. Ferrari (2022, p.15) esclarece o conceito de sentido afirmando que [...] a LC concebe o significado como construção mental, em um movi- mento contínuo de categorização e recategorização do mundo, a partir da interação de estruturas cognitivas e modelos compartilhados de crenças socioculturais. Sendo assim, fica nítido que para a presente teoria devemos levar em conta a nossa capacidade intelectual como principal fonte de “abastecimento” dos sentidos evocados pelos contextos de produção discursivas. Essa teoria sugere que as metáforas não são apenas escolhas linguísticas, mas revelam aspectos mais profundos da nossa compreensão do mundo. Elas moldam a maneira como pensamos sobre conceitos abstratos, influenciando nossa percepção e interpretação das experiências cotidianas. Essa abordagem teórica tem implicações em diversos campos, incluindo psicologia cognitiva, estudos linguísticos, ciência da computação (particularmente em inteligência artificial e processamento de linguagem natural) e filosofia. O processo cognitivo/psicológico na metáfora envolve uma forma como elas são compreendidas e processadas pela mente humana. A metáfora é mais do que apenas uma figurade linguagem; ela tem raízes profundas na cognição e no pensamento humanos. Vários aspectos são importantes nesse processo pois envolve o mapeamento conceitual, a percepção de similaridades e analogias, o processamento inconsciente, a estrutura conceitual e a influência cultural. A compreensão e o uso das metáforas refletem a forma como nossa mente organiza e relaciona conceitos, permitindo uma compreensão mais profunda e expressiva do mundo ao nosso redor. A cognição e o pensamento são abordados por estudiosos como Lakoff e Johnson (1980, 1999), que afirmam ser a metáfora uma estrutura cognitiva essencial para a com- preensão do mundo e da experiência cotidiana. Para esses autores, o locus privilegiado da metáfora encontra-se na mente humana, sendo determinante no modo como concebe- mos, estruturamos e processamos o conhecimento por meio das metáforas conceituais. 130 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate Outra perspectiva considera que o locus está na linguagem e na expressão. Nessa abordagem, a metáfora é vista como uma figura de linguagem que enriquece a comu- nicação, permitindo a expressão de ideias de forma mais vívida, criativa e vivida. Esse espaço seria, portanto, a própria linguagem, que é a ferramenta por meio da qual as metáforas são construídas e interpretadas. O QUE É A TEORIA INTEGR ADA DA METÁFOR A CONCEPTUAL (TIMC)? A Teoria Integrada da Metáfora Conceptual (TIMC) é um modelo teórico proposto pelo linguista cognitivo George Lakoff e pelo filósofo Mark Johnson. Essa teoria sugere que a linguagem não é apenas uma ferramenta para comunicação, mas também um reflexo dos processos cognitivos fundamentais que moldam nossa compreensão do mundo. A TIMC – Lakoff (2002); Steen (2023); Steen; Gibbs (1997), Gibbs (2023), Gibbs; Macedo (2010), Feldman; Narayanan (2004); Forceville (2009) –, postula que a metáfora não é apenas uma figura de linguagem, mas uma parte intrínseca do pensamento humano. Segundo essa teoria, conceitos abstratos e complexos são compreendidos e expressos através de metáforas baseadas em experiências sensoriais e corpóreas mais básicas. A citar, expressões como “estou nas nuvens”, para indicar alegria, ou “estou afundando”, para descrever angústia, são exemplos de como usamos metáforas para entender e comunicar nossas emoções. Essa teoria também argumenta que as metáforas conceptuais não são arbitrariamente escolhidas, mas emergem de padrões recorrentes em nossa experiência física e cultural. Por exemplo, a ideia de que “mais é melhor” está enraizada na nossa experiência de acumulação física, em que ter mais objetos geralmente é considerado vantajoso. Essa vertente tem implicações profundas não apenas para a linguística, mas tam- bém para áreas como psicologia cognitiva, antropologia e filosofia. Ela sugere que a linguagem e o pensamento estão intrinsecamente entrelaçados, e que compreender as metáforas conceptuais subjacentes à linguagem pode fornecer insights importantes sobre como os seres humanos entendem o mundo e tomam decisões. Na Teoria Integrada da Metáfora Conceptual, as metáforas conceptuais são criadas e utilizadas para compreender conceitos abstratos em termos de conceitos mais concretos. Essa abordagem propõe que as metáforas são fundamentais na nossa compreensão e expressão de conceitos abstratos. São criadas mediante o mapeamento de estruturas cognitivas de domínios mais concretos, chamados de “domínios fonte”, para os mais abstratos, chamados de “domínios alvo”. O exemplo mais corriqueiro é o da metáfora “o amor é uma jornada”, a qual permite compreender o amor como uma experiência que envolve um percurso com começo, meio e fim. Essas metáforas são utilizadas na linguagem para expressar e comunicar signifi- cados de forma mais acessível e compreensível. Por meio delas, nossa compreensão do mundo é moldada e influenciada, pois elas nos fornecem estruturas cognitivas para interpretar e pensar sobre conceitos abstratos. As metáforas conceptuais podem ser universais, compartilhadas por diferentes culturas e línguas, ou culturais, específicas de uma cultura ou língua. Sendo assim, por meio da linguagem, as metáforas conceptuais refletem experiências e valores cul- turais de um grupo, fornecendo maneiras particulares de compreender o mundo. É 131 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate importante salientar que a TIMC também tem recebido críticas por não levar em con- sideração a diversidade cultural e a variação individual na compreensão das metáforas. multimodalidade: contribuições da semiótica social A Multimodalidade pode ser definida como um fenômeno semiótico em que diferen- tes linguagens, sejam elas línguas naturais, visuais, sejam gestuais, são combinadas e integradas em diferentes contextos comunicativos, como explica Maia (2023, p.219): “[...] pela abordagem da multimodalidade, então, torna-se possível analisar o discurso produzido nessas novas interações por meio de tecnologias digitais e que combinam uma variedade de modos na construção da mensagem”. Usuários da língua transitam entre diversos modos e meios de comunicação con- forme seus interesses pessoais, o que promove o desenvolvimento de sua competência comunicativa e lhes permite compreender escolhas feitas por outros sujeitos, tanto nas mídias tradicionais quanto nas novas mídias. O ponto central reside no fato de que somos nós os produtores de significado, sendo os diferentes modos e meios comuni- cativos recursos que apropriamos para a construção desses significados. De acordo com Santos e Gualberto (2023, p.28), “os processos de produção do signo a cada interação para outros modos semióticos que a cultura disponibiliza, ampliando a visão de multimodalidade na comunicação”. Essa perspectiva está apoiada no argumento de que a linguagem humana é essencialmente multimodal, dando-se que os modos semióticos não funcionam separadamente, mas sim de forma integrada, em que todos realizam significados para fazer parte de um potencial arcabouço semi- ótico que resguarda a copresença de diversos elementos integrativos da linguagem. SEMIÓTICA SOCIAL E A GR AMÁTICA DO DESIGN VISUAL (GDV) A ideia proposta pela teoria da Semiótica Social está embasada essencialmente pelos princípios da multimodalidade, pois se pauta pela perspectiva de como o indi- víduo estabelece comunicação a partir da intermediação dos diversos tipos de conhe- cimento, significados variados que, a partir do meio em que está inserido, articulam relações entre os grupos sociais dos quais participam. De acordo com Silva e Almeida (2018, p.37), “A Semiótica Social é tida como a ciência que se ocupa de reconhecer e analisar os signos linguísticos na sociedade e as mensagens que circulam entre os indivíduos”. Desse modo, a comunicação não está enraizada em um conjunto inarticulado de regras e estruturas, e sim moldáveis aos propósitos pelos quais são designados, como também se adaptam a instanciações sociais distintas. A Gramática do Design Visual é uma categoria composta por sentidos evocados por uma sintaxe imagética a partir de um dado contexto linguístico. Assim como ocorre na linguagem verbal, na composição visual, observamos as suas expressões através das escolhas dos seus usos, das imagens, layout, cores e outras estruturas composicionais. Podemos dizer que a significação atribuída a essas modalidades são resultantes da interpretação de um conjunto de modos semióticos e de como se con- cebem as compreensões dos aspectos visuais e verbais. Os elementos visuais podem ser percebidos e vistos por meio dos vieses ideológicos, pois atuam também como agentes transformadores da sociedade, permitindo haver representações impressas que, indiretamente, expõem ideias, ideologias como meio de 132 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate manifestações sociais, históricas e culturais. Diz-se então que essa prática de escrita multimodal viabiliza certosgêneros textuais a outros, isso porque a compreensão e aceitabilidade ocorrem de fato por meio de dispositivos não verbais do texto escrito. Elencando essa perspectiva, temos o conceito de Gramática do Design Visual, que revela, em recentes estudos, a importância do registro imagético (visual) situ- ado em uma situação comunicativa. Para tanto, Silva e Almeida (2018) traduzem o pensamento de van Leeuwen (2005) dizendo que “essa modalidade está relacio- nada à verdade dentro de um determinado contexto social e pode ser reconhecida com o mesmo valor em outro contexto.” (Silva; Almeida, 2018, p.41). Desse modo, a Semiótica Social não se ocupa pelo valor de verdade, mas como ela é representada e de qual(is) maneira(s) os recursos semióticos são expressos pela verdade. metodologia e design experimental: proposta e análise de corpus Entendemos que, dentro dos limites linguísticos pelos quais adotamos a presente teoria, faz-se necessário um novo estudo que abarque não apenas a apresentação do gênero discursivo em voga, mas que ele seja apresentado para além do usual, daquilo que já conhecemos sobre as metáforas nos textos, agora, sendo evidenciada a compreensão do uso metafórico na interpretação dada pelos usuários da língua, ou seja, como as metáfo- ras conceptuais são na verdade uma forma de ver e entender o mundo, desta vez, através de indícios majoritariamente não verbais ou mesmo com interposições linguísticas. A proposta deste estudo tem por tema central o processo de compreensão da metáfora em um gênero imagético, permitindo discorrer sobre o objeto proposto e como suas características podem facilitar ou inibir a compreensão/conceptualiza- ção das metáforas em decorrência dos estímulos visuais e linguísticos contidos no texto, na estrutura do texto, e nos processos semântico-cognitivos que eles acionam. Possibilita ainda relacionar a ocorrência do processamento de informações visuais e linguísticas de forma diferenciada no cérebro e como elas são processadas na charge e no aforismo; como as metáforas apresentam uma estrutura que impõe transferência de sentido (Retórica) ou um mapeamento de domínios cognitivos (TMC), além de também descrever os processos cognitivos que atuam na compreensão linguística das metáforas (mapeamentos, integração conceitual etc.) e são os mesmos mobilizados para a compreensão das imagens metafóricas. O corpus do estudo é constituído por 68 charges de cunho político retiradas de jornais online disponíveis na internet e estão catalogados a partir das campanhas eleitorais dos anos 2018 (Fernando Haddad e Jair Bolsonaro) e 2022 (Lula e Jair Bolsonaro), em que ocorreram repercussões em âmbito mundial acerca dos embates, da postura e dos discursos de desinformação propagados entre a população e pela mídia. Quanto aos critérios de coleta e seleção dos dados bibliográficos apresentados, delimitamos a catalogação entre os meses de agosto e outubro, sendo o principal cri- tério restringir os elementos linguísticos visíveis, deixando sobressalente os aspectos visuais, foco desta pesquisa. Cabe observar que o corpus selecionado foi dividido em três partes, são elas: a nação como escudo; o voto como arma; e por fim, a urna como projeto democrático ou antidemocrático. 133 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate APRESENTAÇÃO DAS CHARGES Nesta subseção abordaremos as descrições das charges, como também analisare- mos, do ponto de vista da TIMC, como as metáforas são evidenciadas e ou empreen- didas por meio do significado visual/imagético. Para tanto, lançaremos mão do plano descritivo, que irão transpor as imagens em palavras, e a análise propriamente, junto as contribuições teóricas das quais nos ancoramos. A CGE 43 (charge 43) foi publicada na coluna “variedades” do jornal Brasil de Fato sob autoria de Gilmar Machado em 2022. Nessa charge, vemos, em primeiro plano, uma caixa no formato de uma grande urna, em que está revestida de madeira por dentro e tem função de urna por fora, com o número 336947 gravado nas teclas; a tela está preta e os botões, branco, laranja e verde, estão sem os nomes “branco”, “corrige” e “confirma”, respectivamente. Ao lado dessa caixa/urna estão dois homens usando calças pretas, camisa branca de manga longa e Equipamentos de Proteção Individuais (EPI), nos quais vemos: botas pretas e luvas e máscaras de coloração acinzentada, como também um avental da mesma cor. Os dois estão colocando dentro da caixa/ urna um caixão marrom simples que tem uma cruz gravada, um deles pergunta: “Quantas mortes cabem em um voto?”, o segundo responde: “450 mil”. A urna (ou caixa, como representada na imagem) é situada no contexto como um projeto democrático, tendo em vista o caráter do comentário feito pelo segundo homem representado na charge, ou seja, a metáfora está posta no fato de que a morte pode ser contabilizada por meio de votos em uma relação desproporcional de um voto para 450 mil mortos, tal fato referindo-se à pandemia da Covid-19. Temos então que o domínio fonte “mortes/tragédias ou soluções” e o domínio alvo é voto/urna”, a metaforicidade constrói uma relação conceptual de conteúdo/contentor (o voto/urna como recipiente) e uma ligação semântica não apenas metafórica, mas também meto- nímica, pois toma voto por mortes em uma ligação semântica do tipo parte-todo, ou seja, o caixão por morte, e causa-efeito, voto por tragédia. A urna, recipiente de votos, é conceptualizada como recipiente de mortes, indicando que uma escolha eleitoral pode causar ou prevenir um genocídio (450 mil mortes). considerações finais Diante da organização metodológica do presente estudo, pressupomos que a com- preensão de metáforas predominantemente visuais no contexto abordado evidencia a mesma organização mental para a recepção do sentido metafórico linguisticamente expresso, o que nos leva a predizer um entrelaçamento de informações pelas quais a condução do sentido metafórico visual nas charges pode ser compreendida por processos inferenciais de ordem cognitiva e metacognitiva idênticos à compreensão linguística, ratificando a natureza da metáfora como primariamente conceptual. Apesar de os estudos sobre metáfora serem bem discutidos, aplicados em diferentes corpora e mensurados em diferentes modelos metodológicos e experimentais, ainda sim, privilegiam as estruturas linguísticas, as quais nem sempre evidenciam o contexto e as condições pragmáticas que permeiam o pensamento humano. No cerne do nosso trabalho, buscamos ir para além de um método linguisticamente expresso; em outras palavras, sair da zona de conforto do verbal e adentrar as facetas do visual e relacioná-las aos elementos verbais que coocorrem na construção do sentido, evidenciando o que as 134 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate imagens nos ativam sobre a compreensão de metáforas e de que forma mapeamos os domínios ativados na compreensão da charge com as conceptualizações verbais estru- turadas em nossa mente. Apesar da consistência teórica e metodológica da Teoria Integrada da Metáfora Conceitual aplicada à análise de nossos dados, ressaltamos que a referida abordagem, de maneira geral, impõe sérios limites quanto à interpretação de metáforas visuais, notadamente no que diz respeito ao seu aparato insuficiente para lidar com dados mul- timodais e multissemióticos, assim como à ausência de categorias analíticas potentes para explicar a variabilidade cultural dessas expressões metafóricas multimodais em diferentes contextos ideológicos, frequentes em nossos dados. Portanto, este trabalho ensaia uma ressignificação de pesquisas sobre metáforas no campo da Linguística Cognitiva, que destaquem a natureza multissemiótica da linguagem mediante a análise de dados que não sejam puramente verbais, demons- trando tentativamente que os recursos multimodais disponíveis em nossas práticas sociocomunicativas têm efeito no modo como concebemos e agimos diante o mundo, modelandoos usos da língua e, consequentemente, os modos de interpretação da realidade por meio de operações conceptuais com a metáfora e outras instâncias de conceptualização dos sentidos. referências FAUCONNIER, G.; TURNER, M. Conceptual blending and the mind’s hidden com- plexities. New York: Basic Books, 2002. FELDMAN, J.; NARAYANAN, S. Embodied meaning in a neural theory of lan- guage. Brain and language, v.89, n.2, p.385-92, 2004. FERRARI, L. Introdução à Linguística Cognitiva. 1.ed. São Paulo: Contexto, 2022. GIBBS JUNIOR, R. W.; MACEDO, A. C. P. S. Metaphor and embodied cogni- tion. Delta [Documentação de estudos em lingüística teórica e aplicada], v.26, n. spe, p.679-700, 2010. GRADY, J. E. Foundations of meaning: primary metaphors and primary scenes. Berkeley, 1997. PhD Dissertation – University of California. GRADY, J.; OAKLEY, T.; COULSON, S. Blending and metaphor. In: STEEN, G.; GIBBS, R. (Ed.) Metaphor in cognitive linguistics: selected papers from the 5th International Cognitive Linguistics Conference. Amsterdam: John Benjamins, 1997. LAKOFF, G. Moral politics: how liberals and conservatives think. 2.ed. Chicago: University of Chicago Press, 2002. 471p. LAKOFF, G.; JOHNSON, M. Metaphors we live by. London: The University of Chicago Press, 1980. LAKOFF, G.; JOHNSON, M. Metáforas da Vida Cotidiana. Coord. Trad. Mara Sophia Zanotto. Campinas: Mercados de Letras; São Paulo: Educ, 2002. p.360. LAKOFF, G.; JOHNSON, M. Philosophy in the Flesh: The Embodied Mind and its Challenge to Western Thought. New York: Basic Books, 1999. 135 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate LEITE, J. E. R. (Org.) Cognição e(m) práticas de linguagem. João Pessoa: Editora Universitária, 2012. _______. Cognição e semântica: da representação formal à conceptualização. In: PELOSI, A. C.; FELTES, H. P. M.; FARIAS, E. M. P. Cognição e linguística: explo- rando territórios, mapeamentos e percursos. Caxias do Sul: Educs, 2014. p.63-87. MAIA, D. G. Pressupostos da Semiótica Social e da multimodalidade aplica- dos na transcrição e análise da imagem em movimento. In: SANTOS, Z. B. dos; GUALBERTO, C. L. Semiótica social e multimodalidade: um tributo a Gunther Kress (e-book). Paraná: Editora Universitária (Edufes), Universidade Federal do Espírito Santo, 2003. p.123-37. Disponível em: https://edufes.ufes.br/items/show/691de 2024. SANTOS, Z. B.; GUALBERTO, C. Semiótica Social e o legado de Gunther Kress: breve retrato histórico. In: SANTOS, Z. B. dos; GUALBERTO, C. L. Semiótica social e multimodalidade: um tributo a Gunther Kress (e-book). Paraná: Editora Universitária (Edufes), Universidade Federal do Espírito Santo. Disponível em: https://edufes.ufes. br/items/show/691. Acesso em: 22 abr. 2024. SEARLE, J. Metaphor. In: ORTONY, A. Metaphor and thought. 2.ed. New York: Cambridge University Press, 1993 [1979]. p.83-111. SILVA, M. M. P. da; ALMEIDA, D. B. L. de. Linguagem Verbal, Linguagem Visual: Reflexões teóricas sobre a perspectiva Sócio-Semiótica da Linguística Sistêmico- Funcional. Odisseia, v.3, n.1, p.36-56, 2018. STEEN, G. The Contemporary Theory of Metaphor: Now New and Improved. Review of Cognitive Linguistics, v.9, n.1, p.26-64, 2011. Disponível em: https://www. scirp.org/reference/referencespapers?referenceid=3103004. Acesso em: 12 fev. 2023. VAN LEEUWEN, T. Multimodality and Multimodal Research. In: MARGOLIS, E. Introducing social semiotics. New York: Routledge, 2005. https://edufes.ufes.br/items/show/691de 2024 https://edufes.ufes.br/items/show/691 https://edufes.ufes.br/items/show/691 https://www.scirp.org/reference/referencespapers?referenceid=3103004 https://www.scirp.org/reference/referencespapers?referenceid=3103004 136 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate A aquisição da linguagem e a apraxia de fala na infância − perspectivas teóricas Renata Teixeira da Vitória Libotti introdução O estudo da aquisição da linguagem nos leva a refletir sobre questões tais como o conhecimento da linguagem, seu surgimento na primeira infância e como as crianças o adquirem; os marcos desse processo; o tipo de conhecimento linguístico que as crianças exibem em determinados pontos de desenvolvimento; dentre outros. De acordo com a teoria gerativa da Gramática Universal (Chomsky, 1986), os seres huma- nos são inatamente dotados de um sistema de conhecimento linguístico ricamente estruturado, que orienta os bebês na análise dos estímulos linguísticos recebidos. Tager-Flusberg (2014) traz à luz a complexidade existente no processo de aqui- sição de uma língua, que envolve a interação de mecanismos inatos de base biológica no que tange a linguagem, além de mecanismos cognitivos e sociais e informações e estímulos do ambiente. A aquisição da linguagem humana realmente é um processo surpreendente. Em Guasti (2002) lemos que conhecer uma língua significa ter um sistema de conheci- mento denominado gramática. Uma gramática é um sistema finito, pois é de alguma forma representada na mente/cérebro. Como Chomsky revelou na década de 1950, há um procedimento mental gerativo que usa meios finitos para gerar um número infinito de sentenças. Nosso conhecimento linguístico nos permite produzir e compreender frases que nunca ouvimos antes. Também nos dá as ferramentas para estabelecer se uma frase é aceitável ou não em nossa língua. A Gramática Universal é a dotação genética humana responsável para o curso de aquisição da linguagem e inclui princípios e parâmetros que codificam as propriedades invariantes e variantes das línguas. Os parâmetros definem a faixa de variação possível no idioma; e juntos, princípios e parâmetros definem a noção de “linguagem humana possível”. A aquisição da linguagem é um processo seletivo pelo qual a criança define os valores dos parâmetros com base no ambiente linguístico (Guasti, 2002). Falar é um processo aparentemente natural, mas extremamente complexo. Envolve planejamento, programação e execução motora coordenada por diversas áreas cere- brais. Em crianças neurotípicas, esse processo ocorre de uma forma muito natural; no entanto, algumas crianças apresentam falhas na programação desses movimentos, como ocorre na Apraxia de Fala na Infância (AFI), definida pela Asha (2007) como um transtorno neurológico, que compromete o planejamento e a programação de movimentos necessários para a fala. Fish (2016) aponta que, nas últimas décadas, pesquisadores identificaram uma série de características comuns observadas em crianças que apresentavam algum dis- túrbio de fala. Tais características eram muito semelhantes à apraxia de fala que afeta adultos que tiveram um AVC ou qualquer lesão cerebral. As crianças em questão pareciam ter todo o aparato necessário para o mecanismo de fala íntegro, ou seja, 137 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate tecnicamente não havia nada que as impedisse de falar. No entanto, elas demonstra- vam uma dificuldade significativa na produção da fala, incluindo o sequenciamento de fonemas, inconsistência nos erros, dificuldade na imitação de movimentos orais, entre outros. Dadas as semelhanças em relação aos adultos com Apraxia de fala adquirida, pesquisadores começaram a identificar essas crianças como “apráxicas” ou “dispráxicas”. O termo Apraxia de Fala na Infância (AFI) foi então recomendado pela Associação Americana de Fonoaudiologia ou ASHA (do inglês American Speech- Language-Hearing Association): A apraxia da fala na infância (AFI) é um distúrbio neurológico dos sons da fala na infância em que a precisão e a consistência dos movimentos sub- jacentes à fala são prejudicados na ausência de déficits neuromusculares (por exemplo, reflexos anormais, tom anormal). A AFI pode ocorrer como resultado de comprometimento neurológico conhecido, em associação com distúrbios neurocomportamentais complexos de origem conhecida ou des- conhecida ou como distúrbio neurogênico idiopático dos sons da fala. O comprometimentocentral no planejamento e/ou programação de parâ- metros espaço-temporais de sequências de movimento resulta em erros na produção de sons da fala e na prosódia. (Ad Hoc Committee on Apraxia of Speech in Children, Asha, 2007, tradução e grifos nossos)1 É fato que, na perspectiva gerativista, sem treinamento especial, toda criança neurotípica adquire uma língua de forma natural. Este ensaio, estruturado como uma revisão de literatura, explora aspectos teóricos da aquisição da linguagem humana e investiga as características da Apraxia de Fala na Infância (AFI). a apraxia de fala na infância Até o ano 2007, a Associação Americana de Fonoaudiologia (Asha) havia registrado que cerca de 1 a 2 em cada mil crianças apresentavam o diagnóstico de AFI (Asha, 2007). Até o momento nenhum outro levantamento estatístico foi feito com uma atualização desse quantitativo. No Brasil, o acesso ao conhecimento desse transtorno é algo bastante recente, o que ainda impede precisar um número para essa população. O transtorno pode ser detectado durante o estágio pré-linguístico do desen- volvimento da linguagem – crianças com AFI são em geral bebês mais silenciosos e durante o período do balbucio há normalmente prolongamento das vogais, em oposição ao padrão usual (CVCV). Uma vez que a criança é capaz de verbalizar o mínimo possível, existem características comuns que podem ser generalizadas para os pacientes com AFI. Essas incluem: (a) quebras de coarticulação (crianças com AFI, em geral, têm dificuldade de fazer transições de movimento – sair de uma região posterior e ir para uma anterior, sair de um bilabial e ir para um linguodental, por exemplo); (b) erros inconsistentes em produções repetidas da mesma palavra (crianças com AFI podem, por exemplo, conseguir produzir o fonema /p/ em ‘pé’, 1. “Childhood Apraxia of Speech (CAS) is a neurological childhood (pediatric) speech sound disorder in which the precision and consistency of movements underlying speech are impaired in the absence of neuromuscular deficits (e.g., abnormal reflexes, abnormal tone). CAS may occur as a result of known neurological impair- ment, in association with complex neurobehavioral disorders of known or unknown origin, or as an idiopathic neurogenic speech sound disorder. The core impairment in planning and/or programming spatiotemporal parameters of movement sequences results in errors in speech sound production and prosody.” 138 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate mas não o mesmo /p/ em ‘papai’); e (c) prosódia inadequada, particularmente no que diz respeito a padrões de ênfase lexical e frasal (a AFI acomete tanto os aspec- tos segmentais quanto os suprassegmentais; o ritmo de fala é alterado; é uma fala robotizada, por vezes). Caruso e Strand (1999) apresentam um modelo de fala que nos ajuda a refletir quão complexo é o ato de fala. Para falar, nosso cérebro tem que planejar vários parâ- metros para cada fonema: 1º: seleção do músculo (para o fonema /d/, por exemplo, selecionamos o músculo da língua); 2º: direção – é um som produzido na parte anterior ou posterior? 3º: qual a distância que os articuladores precisam para se movimentar? A vogal ‘a’, por exemplo, tem uma abertura maior; 4º: velocidade (timing) e força aplicada. Conforme Fish (2016), nas fases iniciais do aprendizado de uma habilidade motora, a repetição é fundamental no tratamento da criança com AFI, pois promove oportunidades de desenvolver melhor o planejamento e a memória motores. O esta- belecimento da memória motora é essencial para crianças com distúrbios motores da fala, pois permite que a criança passe do controle volitivo (percepção consciente) para o controle automático (movimento concluído sem esforço consciente). Em consonância com essa afirmação, Maas et al. (2008) apontam para a importân- cia da repetição dos alvos no tratamento como um elemento essencial para o sucesso nas fases iniciais da prática. Quando um plano motor para um alvo foi estabelecido, deve haver um cronograma de prática para apoiar tanto a retenção da habilidade motora quanto a transferência dessa habilidade para outros ambientes fonêmicos e outros contextos. “A ‘retenção’ se refere à capacidade de manter uma habilidade ao longo do tempo, enquanto a ‘transferência’ se refere à habilidade de generalizar a habilidade para movimentos relacionados, mas não treinados” (Maas et al., 2008, p.278, tradução e grifos nossos)2. Hayden (Hayden; Square, 1994) ressalta que estudos sobre apraxia de fala indi- cam que as bases primárias para erros de fala são a incoordenação temporal e espa- cial de movimentos na fala conectada. Portanto, a velocidade de fala aumentada ou diminuída na apraxia pode ser em razão dos esforços inconscientes do paciente para sequenciar adequadamente todos os subcomponentes de uma ação. São diversos os aspectos os quais o apráxico precisa atentar-se até chegar à pro- dução dos sons da fala: programação, planejamento motor, sequenciação e execução. Partindo para o nível da frase, as dificuldades podem se agravar. A criança pode parecer distraída ou pode simplesmente “perder-se” em suas ideias, o que pode afetar sua comunicabilidade. Ao tentar construir uma sentença, na tentativa de comunicação, a criança com AFI pode vir a ter sua atenção prejudicada, visto que tem que lidar com uma demanda demasiada no viés fono-articulatório. 2. “Retention refers to the ability to maintain a skill over time, whereas transfer refers to the ability to generalize the skill to related but untrained movements.” 139 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate a memória de trabalho e sua interface com a fala e a linguagem Segundo Baddeley e Hitch (apud Gathercole; Baddeley, 1993), a memória de traba- lho desempenha um papel importante no suporte de uma ampla gama de atividades cognitivas diárias complexas, incluindo raciocínio, compreensão da linguagem, apren- dizagem de longo prazo e aritmética mental. A atenção e o controle inibitório funcionam em paralelo com a memória de trabalho (Baddeley apud Dodwell; Bavin, 2008). Esses são aspectos que merecem atenção, pois tanto a falta de atenção quanto a diminuição do controle inibitório são características presentes no dia a dia da criança com AFI. O foco atencional é de suma importância na comunicação. A atenção e o controle inibitório trabalham juntos, uma vez que a inibição é importante na redução de distrações ou estímulos irrelevantes. No modelo de memória de trabalho de Baddeley (apud Dodwell; Bavin, 2008), foi sugerido que crianças com TDL têm capacidade limitada de memória operacional fonológica. Nem toda criança com AFI terá TDL como comorbidade, entretanto a dificuldade de acesso lexical na produção da fala da criança com AFI pode ser um impeditivo para que a comunicação ocorra. Cabe, portanto, refletir se a capacidade de memória operacional fonológica é limitada na criança com AFI, assim como na criança com TDL. Merecem nossa atenção a complexidade de operações cognitivas que acontecem durante a produção da fala entre a formulação de um conteúdo pelo falante e a exe- cução de gestos articulatórios apropriados que levarão à sua produção. De acordo com a estrutura de Garrett (apud Gathercole; Baddeley, 1993), há cinco níveis de representação envolvidos nesse processo. Uma vez construído o conteúdo conceitual do enunciado, o falante deve produzir uma representação do nível funcional, na qual os principais itens lexicais são selecionados e seus papeis funcionais especificados. Em seguida, um quadro sintático específico é selecionado e as especificações fonoló- gicas de todas as unidades lexicais são inseridas na frase. Em dois estágios adicionais (sound level e articulatory instructions), as regras fonéticas são aplicadas à especificação fonológica e, em seguida, os comandos articulatórios correspondentes recuperados, para produzir um conjunto de instruções articulatórias detalhadas que irãode pessoas com defici- ência visual. Esse apoio é ainda mais crucial para aqueles com maior vulnerabilidade socioeconômica e acesso limitado à informação, pois, para eles, o caminho da inclusão e da reINVENÇÃO é ainda mais desafiador. A contribuição dessas instituições é, portanto, de enorme importância, tanto para aqueles que nascem com deficiência visual quanto para aqueles que a desenvolvem ao longo da vida. A participação das entidades durante o V LinCog contribuiu para alcançarmos os objetivos propostos para o evento, e reforçou a necessidade de iniciativas que promovam a participação ativa de pessoas com deficiência visual em espaços de discussão e aprendizado. “Nada sobre nós sem nós”, lema amplamente utilizado no movimento pelos direi- tos das pessoas com deficiência, expressa a necessidade dessas iniciativas. O lema reflete o desejo de inclusão plena e surgiu durante a construção da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, sendo entoado em diversos idiomas na ONU. É importante ressaltar que essa foi a primeira vez que um evento ou atividade da Universidade de São Paulo contou com a participação e o apoio de instituições dedicadas a essa pauta. Assim deveria ser sempre: incluir e ouvir as pessoas com 1. Marcos Lima, Histórias de cegos, São Paulo: Oficina Raquel, 2020. 21 SEÇÃO 2 Caminhos da inclusão: diálogos com instituições parceiras deficiência e aqueles que trabalham para garantir seu desenvolvimento, autonomia e plena inserção na sociedade. Finalizamos expressando nosso profundo agradecimento e reconhecimento ao trabalho de cada uma das instituições que estiveram presentes e apoiaram o V LinCog: • Centro de Reabilitação Visual – Instituto dos Cegos de São José do Rio Preto-SP • Instituto Jundiaiense Luiz Braille (Prof. Dr. Everton Gondim) • Fundação Dorina Nowill para Cegos • Laramara – Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual • Lar das Moças Cegas, Instituição Mantenedora do Centro de Educação e Reabilitação para Deficientes Visuais (CERDV). O compromisso dessas instituições transforma vidas e constrói um futuro mais acessível e inclusivo para todos. 22 SEÇÃO 2 Caminhos da inclusão: diálogos com instituições parceiras Laramara: do bebê à pessoa idosa, mais de três décadas de ações especializadas e de inclusão social voltadas às pessoas com deficiência visual Eliana Maria Ormelezi A Laramara – Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual –, uma organização da sociedade civil, foi fundada em 1991 e está localizada na Zona Oeste da cidade de São Paulo, tendo sido idealizada por um casal de pais, motivado pela experiência educacional junto à sua filha mais nova, que ficou cega em razão de retinopatia da prematuridade. O nome da organização homenageia filha e mãe, demonstrando a inspiração familiar para as ações institucionais voltadas à causa da pessoa com deficiência visual. Antes da fundação da instituição, Mara, mãe de Lara e de outros dois filhos, que era professora de Geografia, voltou seu foco de estudos à pedagogia especializada na área da deficiência visual. Mergulhou também na prática, tendo sido voluntária por mais de 8 anos na Santa Casa de Misericórdia paulistana, onde tomou contato com a dura realidade das famílias de crianças com deficiência visual (cegas ou com baixa visão) em relação à ausência de serviços públicos especializados nas áreas de educação e saúde. Victor, seu marido, foi fundamental na fundação e no crescimento da organiza- ção. Homem com grande experiência empresarial, teve como visão criar e gerir uma instituição moderna, alinhada às demandas sociais, já mirando na perspectiva da inclusão social. Assim, nasceu a Laramara, inicialmente voltada à garantia do direito da criança com deficiência visual ao diagnóstico especializado e aos recursos especiais, ao brincar e aos brinquedos adaptados, ao conhecimento de mundo e às oportunidades de aprendizagens, elementos promotores do desenvolvimento infantil. Inicialmente, o trabalho focava-se na assistência social, oftalmológica e na intervenção precoce a crianças de 0 a 6 anos. Com o tempo, as instalações foram ampliadas e o aten- dimento foi estendido a todas as faixas etárias e a crianças com deficiência múltipla, e os programas e projetos multiplicaram-se. A Laramara tornou-se pioneira na forma de atendimento integral aos partici- pantes das atividades institucionais, na criação e produção de tecnologias assistivas, como máquina Braille e de bengalas dobráveis brasileiras, mais de 120 brinquedos pedagógicos acessíveis, livros especializados e, também, pela implementação de ações e projetos com vistas à sustentabilidade financeira. São igualmente marcos dessa his- tória a formação de uma equipe multidisciplinar altamente capacitada, o acolhimento oferecido a todos os que procuram a instituição, a incorporação das famílias e de escolas ao trabalho realizado, o assessoramento a respeito de temas relativos às áreas de atuação e a expansão progressiva de seu trabalho junto a instituições diversas de todo o território nacional. Em pouco mais de três décadas, o trabalho da Laramara já impactou a vida de milhares de pessoas com deficiência visual e de suas famílias, de forma gratuita e direta, advindas, na maioria, da Grande São Paulo, mas, também, de todo o território nacional. São aproximadamente 13 mil pessoas, sendo 1.500 por ano, entre casos novos e retornos, 23 SEÇÃO 2 Caminhos da inclusão: diálogos com instituições parceiras contando com 103 profissionais, dentre os quais há 35 especialistas e 7 como apoios administrativos dedicados ao atendimento, assessoramento e ações sociopolíticas de defesa e garantia de direitos. O restante está em atividades-meio e há, ainda, 26 pessoas em ações voluntárias fixas. É importante observar que, dentre os profissionais, existem 7 colaboradores com deficiência visual, índice maior que o estabelecido pela Lei de Cotas para pessoas com deficiência em uma empresa do porte da Laramara. Além de uma crescente atuação na defesa e na garantia dos direitos da pessoa com deficiência visual, a instituição tem hoje um papel importante no impacto social gerado pela inclusão social dessas pessoas e na transformação positiva da sociedade nos campos da acessibilidade e da diversidade humana. A Laramara tem como missão o apoio ao desenvolvimento humano e à inclusão social efetiva da pessoa com deficiência visual, por meio do atendimento especializado. Sua visão é ser um centro de referência e excelência no atendimento à pessoa com deficiência visual, de acordo com as mudanças sócio-históricas e científicas, produzindo e disseminando conhecimento e pesquisa para oferecer serviços com qualidade de trabalho, buscando uma gestão transetorial, compartilhada, coordenada e coerente. A instituição presta serviços de caráter socioassistencial e socioeducativo por meio do serviço de proteção social especial para pessoas com deficiência (incluindo idosos) e suas famílias. Está estruturada em dois programas de atendimento e de acordo com as faixas etárias: o Programa de Atendimento Especializado de Crianças e Adolescentes e o Programa de Atendimento Especializado de Jovens, Adultos e Idosos, com vistas ao fortalecimento de vínculos para enfrentar a condição de vulnerabilidade psicosso- cial que a deficiência muitas vezes provoca. O atendimento segue o fluxo da triagem à integração nos programas, serviços e pro- jetos, cuja frequência do usuário pode ser de uma a quatro vezes por semana ou ocorrer mensalmente, com retorno bimestral, trimestral, semestral ou anual nas avaliações. O atendimento socioeducativo, propriamente dito, conta com uma equipe de profissionais de diversas áreas de formação do serviço social, da educação e da saúde especializados na prestação de serviço destinado ao público atendido. A atuação é inter- disciplinar e transdisciplinar e as atividades baseiam-se nos seguintes eixos norteado-controlar a produção do enunciado. Gathercole e Baddeley (1993), Dodwell e Bavin (2008) e Ortiz e Martins (2010) identificaram limitações na alça fonológica de crianças com dificuldades de linguagem. Estudos mais recentes também apontam que crianças com AFI apresentam déficits na memória de trabalho verbal, o que prejudica a manutenção das sequências fonológicas durante a fala (Shriberg et al., 1997; Murray et al., 2020). Estudos sugerem que as dificuldades de planejamento/programação colocam crianças com AFI em risco de atrasos linguísticos importantes, especialmente na aquisição lexical e sintática (Fish, 2016; Shriberg et al., 2020; Murray et al., 2021). conclusão e encaminhamentos futuros Crianças com AFI frequentemente apresentam alterações linguísticas comórbidas, como dificuldades em formular ideias ou de realizar atividades da vida diária de forma 140 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate eficaz. Essas limitações podem impactar o vocabulário expressivo e a organização discursiva (Catrini e Lier-DeVitto, 2019; Shriberg et al., 2020; Asha, 2023). A linguagem é também uma grande aliada no brincar, sendo fundamental no desenvolvimento da cognição simbólica e da interação social (Vygotsky, 2001; Smith; Goffman, 2020). A ausência de fluência verbal pode comprometer a inserção da criança em brincadeiras e jogos simbólicos, atividades escolares e interações sociais, afetando sua autoestima e desempenho acadêmico. Em suma, a AFI representa um desafio significativo para o desenvolvimento lin- guístico, o que impacta diretamente nas habilidades de interação social e aprendizado das crianças afetadas. A complexidade desse transtorno exige abordagens terapêuticas focadas na prática e repetição para fortalecer a memória motora e desenvolver o pla- nejamento da fala. A intervenção precoce e um suporte multidisciplinar, juntamente com o apoio familiar, são fundamentais para promover avanços e possibilitar que essas crianças alcancem seu melhor potencial. Embora haja importantes avanços teóricos e clínicos, persistem lacunas na com- preensão da AFI, especialmente no contexto brasileiro. São necessários estudos longi- tudinais que associem avaliação neurológica, cognitiva e comportamental em crianças com AFI. Além disso, destaca-se a importância de abordagens multidisciplinares que incluam fonoaudiologia, psicologia e apoio escolar, com intervenções precoces e baseadas em evidências. referências ARCHIBALD, L.; GATHERCOLE, S. Short-term and Working Memory in Children with Specific Language Impairment. International journal of language & communication disorders, Royal College of Speech & Language Therapists, 2006. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/6717785_Short-term_ and_Working_Memory_in_Children_with_Specific_Language_Impairment. Acesso em: 10 oct. 2020. ASHA – Childhood Apraxia of Speech [Technical Report]. 2007. Disponível em: www.asha.org/policy. CARUSO A. J.; STRAND E. A. Clinical Management of Motor Speech Disorders in Children. New York: Thieme, 1999. CATRINI, M.; LIER-DeVITTO, M. F. Apraxia de fala e atraso de linguagem: a com- plexidade do diagnóstico e tratamento em quadros sintomáticos de crianças. CoDAS [online], v.31, n.5, e20180121, 2019. https://doi.org/10.1590/2317-1782/20192018121. CHOMSKY, N. Knowledge of language: Its nature, origin, and use. New York: Praeger, 1986. DODWELL K.; BAVIN E. L. Children with specific language impairment: an investigation of their narratives and memory. Int J Lang Commun Disord, v.43, Issue 2, p.201-18, March‐April 2008. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/ abs/10.1080/13682820701366147. Acesso em: 10 oct. 2020. FISH, M. Here’s how to treat Childhood Apraxia of Speech. San Diego: Plural Publishing, 2016. https://www.researchgate.net/publication/6717785_Short-term_and_Working_Memory_in_Children_with_Specific_Language_Impairment https://www.researchgate.net/publication/6717785_Short-term_and_Working_Memory_in_Children_with_Specific_Language_Impairment http://www.asha.org/policy https://doi.org/10.1590/2317-1782/20192018121 https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1080/13682820701366147 https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1080/13682820701366147 141 SEÇÃO 4 Interfaces do saber: linguagem, cognição e cultura em debate GATHERCOLE, S. E.; BADDELEY, A. D. Working memory and language (Essays in Cognitive Psychology). S. l.: Lawrence Erlbaum Associates Ltd., Publishers, 1993. GROLLA, E.; SILVA, M. C. F. Para conhecer aquisição da linguagem. São Paulo: Contexto, 2022. GUASTI, M. T. Language acquisition: the growth of grammar. Cambridge, MA: MIT Press, 2002. HAYDEN, D. A.; SQUARE P. A. Motor Speech Treatment Hierarchy: a systems approach. Clinics Communication Disorders, v.4, n.3, p.62-74, sept. 1994. PMID: 7994291. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/15205533_Motor_Speech_ Treatment_Hierarchy_a_systems_approach/stats. Acesso em: 16 set. 2020. HAYDEN, D. The PROMPT model: Use and application for children with mixed phonological-motor impairment. International Journal of Speech-Language Pathology, v.8, n.3, p.265-81, jul. 2009. Disponível em: https://www.researchgate.net/publi- cation/232036845_The_PROMPT_model_Use_and_application_for_children_ with_mixed_phonological-motor_impairment. Acesso em: 16 set. 2020. LIÉGEOIS, F. et al. Language fMRI abnormalities associated with FOXP2 gene mutation. Nature Neuroscience, v.6, n.11, p.1230-7, dec. 2003. Disponível em: https:// www.researchgate.net/publication/9053686_Language_fMRI_abnormalities_asso- ciated_with_FOXP2_gene_mutation. Acesso em: 30 nov. 2020. MAAS, E. et al. Principles of motor learning in treatment of motor speech disorders. Am J Speech Lang Pathol, v.17, n.3, p.277-98, 1 aug. 2008. Disponível em: https:// www.semanticscholar.org/paper/Principles-of-motor-learning-in-treatment-of- motor-Maas-Robin/49f5060b40cb4980e58e712e874497a1c33a3762. Acesso em: 16 set. 2020. MURRAY, E. et al. Differential Diagnosis of Childhood Apraxia of Speech Compared to Other Speech Sound Disorders: A Systematic Review. American Journal of Speech-Language Pathology, v.30, n.1, p.279-300, 2021. https://doi. org/10.1044/2020_AJSLP-20-00063. ORTIZ, K. Z.; MARTINS, F. C. The relationship between working mem- ory and apraxia of speech. Arq Neuropsiquiatr. 2009. https://doi.org/10.1590/ S1980-57642010DN40100011. PRATES, L. P. C. S.; MARTINS, V. O. Distúrbios da fala e da linguagem na Infância. Revista Médica de Minas Gerais, v.21, n.4 Supl. 1, S54-S60, 2011. Disponível em: http://rmmg.org/artigo/detalhes/808#:~:text=Os%20dist%C3%BArbios%20 de%20desenvolvimento%20da,cerebral%2C%20defici%C3%AAncias%20auditi- vas%20e%20outras. Acesso em: 1 set. 2021. SHRIBERG L. D.; ARAM D. M.; KWIATKOWSKI J. Developmental apraxia of speech: I. Descriptive and theoretical perspectives. J Speech Lang Hear Res, v.40, n.2, p.273-85, 1997. Disponível em: https://www.semanticscholar.org/paper/ Developmental-apraxia-of-speech%3A-I.-Descriptive-and-Shriberg-Aram/5022def 82d1be318db3b9e5ed786db1fdd506679. Acesso em: 7 set. 2020. https://www.researchgate.net/publication/15205533_Motor_Speech_Treatment_Hierarchy_a_systems_approach/stats https://www.researchgate.net/publication/15205533_Motor_Speech_Treatment_Hierarchy_a_systems_approach/stats https://www.researchgate.net/publication/232036845_The_PROMPT_model_Use_and_application_for_children_with_mixed_phonological-motor_impairment https://www.researchgate.net/publication/232036845_The_PROMPT_model_Use_and_application_for_children_with_mixed_phonological-motor_impairment https://www.researchgate.net/publication/232036845_The_PROMPT_model_Use_and_application_for_children_with_mixed_phonological-motor_impairment https://www.researchgate.net/publication/9053686_Language_fMRI_abnormalities_associated_with_FOXP2_gene_mutation https://www.researchgate.net/publication/9053686_Language_fMRI_abnormalities_associated_with_FOXP2_gene_mutation https://www.researchgate.net/publication/9053686_Language_fMRI_abnormalities_associated_with_FOXP2_gene_mutationres: Convivência familiar e comunitária e fortalecimento de vínculos; Conhecimento de mundo e formação pessoal e social; Autonomia e interdependência; Interação, comunicação e linguagem; Arte, cultura, lazer e mundo do trabalho; Acessibilidade; Diversidade, sociedade plural e intergeracional; Equidade, ética e cidadania. A seguir, são apresentados os quatro Centros que compõem a estrutura da ins- tituição e suas ações. centro de ludicidade brincanto O Centro de Ludicidade é a expressão máxima do trabalho realizado pela Laramara no que diz respeito a crianças e adolescentes em seu direito primordial ao brincar. Como um centro de referência internacional no brinquedo e no brincar, exerce sua função por meio da brincadeira e da produção de brinquedos acessíveis que garantem a formação pessoal, a socialização e as aprendizagens das crianças com deficiência visual. As brincadeiras são desenvolvidas em espaços lúdicos como a Brinquedoteca, o Laraparque, a Piscina, a Sala de Jogos, entre outros. Também contempla jovens, 24 SEÇÃO 2 Caminhos da inclusão: diálogos com instituições parceiras adultos e idosos em suas capacidades de se relacionarem e se desenvolverem a partir de atividades prazerosas que resgatam a brincadeira em cada um. As realizações se estendem também às famílias, como a “Oficina Coisa de Mãe”. As famílias são incentivadas a brincar com seus filhos e compreender a importância do brincar para o desenvolvimento e uma infância saudável e feliz. As ações também vão além dos muros da Laramara em projetos comunitários, com parceiros como Centro Paralímpico, Projeto Vila Sésamo-TV Cultura, Criança Esperança, Ritmos do Coração, Instituto Alana, Movimento Aliança pela Infância e Pacto pela Infância, Sesc, Senac e muitos outros. Contempla, ainda, atividades socioculturais internas e externas e de lazer na convivência intergeracional. centro técnico de atendimento especializado O Centro de Atendimento Especializado é a concretização de um trabalho técnico- -científico adotado e construído na Laramara desde seu nascimento, com o compro- misso de oferecer um atendimento de qualidade para todos que buscam a instituição e dela necessitam. É realizado por uma equipe multidisciplinar que se aprimora a cada dia na prática de avaliações – psicossociais, oftalmológicas, funcionais, do desenvol- vimento e das necessidades específicas que decorrem da deficiência visual – com a prescrição de recursos de acessibilidade próprios para a pessoa com deficiência visual e deficiência múltipla. Para complementar as avaliações, são realizados atendimentos semanais para bebês, crianças e adolescentes, nos modos Global e Específico, com grande foco na família e na escola. Há, ainda, cursos de educação tecnológica e oficinas de artes e outros temas para o público jovem, adulto e idoso; ambos os trabalhos com o objetivo do desenvolvimento humano – na autonomia e independência –, e do protagonismo na participação da vida familiar, escolar, do trabalho e dos espaços culturais, sempre na defesa dos direitos da pessoa com deficiência para uma vida digna e uma inclusão social efetiva. Além do conhecimento técnico-científico, a Laramara desenvolveu um know-how social que envolve acolhimento, fortalecimento de vínculos, minimização das vulnerabilidades e encaminhamento às redes de proteção socioassistencial, edu- cacional e de saúde. centro de estudos e pesquisas prof. dr. marcos mazzotta O Centro de Estudos e Pesquisas se apresenta como um dos segmentos primordiais da Laramara em sua prospecção em ser uma instituição de referência no atendimento e na pesquisa na área da deficiência visual. Para isso, se dedica à disseminação do conhecimento produzido nos atendimentos, por meio de publicações, capacitações, assessorias, consultorias, pesquisas com universidades, conversas com a comunidade técnica de outras instituições afins, bem como com profissionais e estudantes de áreas diversas, e gestores públicos. Nesse último caso, objetiva contribuir com sua especia- lização para as políticas públicas. Contém um acervo de literatura especializada na área da deficiência visual e outras deficiências, na Psicologia e na Educação de modo geral. Participa de congres- sos, seminários, conferências e bate-papos nas formas presencial e on-line, levando sua experiência a profissionais de todo o Brasil e dos Estados ibero-americanos. 25 SEÇÃO 2 Caminhos da inclusão: diálogos com instituições parceiras É parceira e desenvolve ações com organizações nacionais e internacionais, como a Organização Nacional de Cegos do Brasil (ONCB), a Organização Nacional de Cegos da Espanha (Once), a Fundação Once para a América Latina (Foal) e o Conselho Internacional de Educação de Pessoas com deficiência Visual (Icevi). centro de ações complementares e suplementares O Centro de Ações Complementares e Suplementares é representado por setores que zelam por cuidado, manutenção, segurança e desenvolvimento da estrutura física (Serviços Gerais e Segurança do Trabalho), bem como por aspectos jurídico, organiza- cional (como as áreas administrativas, de eventos, Recursos Humanos e de Tecnologia da Informação) e de governança. Outras áreas têm o papel de ampliação da missão e da visão institucional, buscando viabilizar o acesso aos recursos tecnológicos (de baixo, médio e alto custos) para as pessoas com deficiência visual da instituição e de fora dela (como a Fábrica de Máquinas Braille e Bengalas Longas, a produção dos brinquedos especiais pelo Centro de Recursos Pedagógicos, o Centro de Tecnologia Adaptada de Papelão CTA, a loja e importadora de produtos de alta tecnologia Laratec). Outros setores, ainda, criam condições de divulgação, fomentando e consolidando o lugar da Laramara nos meios de comunicação, prestando um serviço de informar a sociedade em alcance global (Comunicação). Para a autossustentação e a perpetuação de todo esse trabalho, é preciso inves- timento nas relações institucionais junto a parceiros de todos os segmentos e a con- selhos de defesa dos direitos da pessoa com deficiência e esferas do poder público (Representação Institucional), assim como na captação de recursos (Projetos e Central de Doações e Relacionamentos) e no voluntariado, com uma gestão e uma equipe de colaboradores totalmente dedicados e cientes do papel da Laramara como organização da sociedade civil. Todo esse trabalho está embasado no Estatuto da Criança e do Adolescente (1990); na Convenção dos Direitos da Pessoa com Deficiência da ONU (2006); na Política da Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008); na Política da Assistência Social (2012) e na Lei Brasileira da Inclusão (2015); e está alinhado com 6 dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) para serem alcançados até 2030. 26 SEÇÃO 2 Caminhos da inclusão: diálogos com instituições parceiras Centro de Reabilitação Visual – Instituto dos Cegos de São José do Rio Preto-SP Milena Perpetua da Silva Bertoni Romera apresentação da instituição O Centro de Reabilitação Visual – Instituto dos Cegos foi fundado em 1º de setembro de 1948. Atende pessoas com deficiência visual, residentes em São José do Rio Preto e outros 103 municípios, desenvolvendo trabalho de habilitação e reabilitação. Visamos garantir a melhoria da qualidade de vida da pessoa com deficiência, buscando assegurar-lhe o pleno exercício da cidadania de maneira inclusiva e mais ampla, com o fortalecimento de vínculos, procurando estimular o seu desenvolvimento e o atendimento de suas necessidades por meio dos atendimentos e acompanhamento de nossa equipe multidisciplinar. Oferecemos apoio social, psicológico, terapêutico e pedagógico aos alunos, usu- ários e às famílias. Em nosso hall de atividades, elaboramos cursos e oficinas para os usuários, tais como: artesanato, informática (tecnologia assistiva), alfabetização em Braille, oficinas esportivas, orientação e mobilidade,oficina de música e oficina de atividades da vida diária e prática, a fim de promover a inclusão mediante a capaci- tação e inserção do usuário na sociedade, promovendo sua autonomia e autoestima. Atualmente, atendemos mais de 250 pessoas, de zero ano à terceira idade. Somos con- siderados referência na área de Habilitação e Reabilitação Visual na região. Contamos com uma das melhores salas de Tecnologia Assistiva do estado de São Paulo, com grande parte dos recursos tecnológicos lançados recentemente, totalmente à disposi- ção e de fácil acesso aos alunos e usuários. ÁREAS DE ATUAÇÃO Nosso foco é promover a qualidade de vida e a inclusão dos deficientes visuais. Oferecemos apoio escolar para inclusão do deficiente visual na escola. Contamos com equipe de pedagogos especializados e monitores no contraturno escolar, a fim de proporcionar ferramentas e adaptações de materiais em Braille ou ampliado, con- siderando suas necessidades e o seu tipo de deficiência visual. EDUCAÇÃO Trabalhamos com atendimentos voltados ao desenvolvimento global e a habili- tação e reabilitação, nos quais, atualmente, somos referência e atuamos com foco na promoção do direito de ir e vir. Realizamos atividades da vida prática e diária, localização e mobilidade, terapia ocupacional, além de oficinas de tecnologia assistiva, Braille, psicologia, musicalização, judô, academia, estimulação precoce, ambulatório e artesanato. SAÚDE Oferecemos serviços de garantia e defesa de direitos e intervenção social. Realizamos triagem, acompanhamento, visitas domiciliares e orientação quanto ao acesso aos benefícios socioassistenciais, seus direitos e deveres. 27 SEÇÃO 2 Caminhos da inclusão: diálogos com instituições parceiras ASSISTÊNCIA SOCIAL Atualmente, contamos com uma equipe multidisciplinar, formada por psicólogo, terapeuta ocupacional, fisioterapeuta, assistente social, arte-educador, equipe peda- gógica, de informática e de tecnologia assistiva. Nossos atendimentos são realizados mediante avaliação e articulação entre os profissionais, com resultados mensurados e acompanhamento constante. ATIVIDADES OFERECIDAS Oficina Braille Fundamental para as pessoas com baixa ou ausência total de visão, a oficina de Braille tem como objetivo reabilitação, reinserção e alfabetização dos Deficientes Visuais adultos no mundo da leitura e escrita, sendo esse um processo global que compõe um dos elementos para essa totalidade. Ensinar o Sistema Braille não é apenas transmitir conhecimentos técnicos e conteúdos pedagógicos. O trabalho do professor consiste em acolher e ouvir o aluno, trabalhando seus medos, angústias e frustrações. A Oficina vai despertar no indivíduo a consciência de que o Braille é um instrumento que irá acrescentar de maneira positiva, resgatando sua independência e autonomia. Oficina de Informática (Tecnologia Assistiva) Essa oficina visa auxiliar os deficientes visuais no uso da tecnologia, a fim de fomen- tar sua autonomia no meio digital. Com o uso de softwares especializados para pessoas com baixa ou ausência total de visão, é possível incluí-las digitalmente dando igualdades de condições. Na sala de aula, o aluno aprende a usar o celular por meio de aplicativos específicos com leitores de tela, além de outros treinamentos com o professor especializado, garantindo seu acesso à internet e às redes sociais. Oficina de artesanato Proporciona um espaço para produção, reconstrução e manejo de objetos, no qual os usuários trabalham o desenvolvimento de habilidades, descoberta de poten- ciais, autonomia, expressões, organização, qualidade de vida e, principalmente, a coordenação motora fina e grossa. Essa atividade, ainda, desperta motivação, experimentação e criatividade. Estimulação Sensorial (Precoce) Voltada ao público infantil, trabalha os estímulos globais da criança, visando seu total desenvolvimento por meio de diferentes vias sensoriais que não somente pela visão, promovendo, assim, uma melhor percepção do mundo. Oficina Reflexiva É desenvolvida por um profissional da área da Psicologia que, mediante o pro- cesso de reflexão, integração e acolhimento, dedica-se a desenvolver o aprendi- zado, incentivar o autoconhecimento, a autoconfiança e, consequentemente, o empoderamento dos usuários, através das diversas vivências e atividades lúdicas desenvolvidas nos grupos. 28 SEÇÃO 2 Caminhos da inclusão: diálogos com instituições parceiras Oficina de AVD / AVP (Atividades da Vida Diária e Atividades da Vida Prática) Com foco no trabalho das habilidades para Atividades da Vida Diária (AVD), os alunos aprendem atividades como dobrar roupas, lavar louças, utilizar talheres e afins. Já na oficina de Atividade da Vida Prática (AVP) o usuário desenvolve habilidades que satisfazem as necessidades pessoais e sociais na execução das atividades de vida prática. Aprendem, por exemplo, a reconhecer dinheiro, se maquiar, fazer a barba, arrumar a mesa, varrer a casa etc. Oficina de Atividade Pedagógica (Sala de recursos) Criada para desenvolver estratégias direcionadas ao aprendizado, regendo ações de inclusão do aluno, oferece atendimentos em contraturno escolar com a adap- tação das atividades da rede, reforço escolar e ensino Braille. Possibilita ao deficiente visual um aprendizado por meio do qual ele possa ser visto além da sua deficiência, e oferece, ainda, autonomia e independência na escrita, leitura, alfabetização e no ir e vir, conscientizando a comunidade escolar sobre o mundo do deficiente visual. Educação física Proporciona ao aluno melhora na propriocepção, nas habilidades motoras e auto- nomia ao usufruir de forma crítica a cultura corporal. A prática da atividade regular permite o fortalecimento e a flexibilidade da musculatura corporal. Oficina de Estimulação Visual Por meio de atividades lúdicas adequadas, objetiva ensinar o cérebro a ver incen- tivando que a criança utilize todo seu potencial de visão residual. A estimulação visual faz toda a diferença no desenvolvimento da visão, ajudando, também, em seu desenvolvimento motor, cognitivo e social. Oficina de musicalização Focada no estímulo da memória, incentiva os participantes a decorarem as melo- dias e as letras das canções, pois, ao cantar, eles estão se confraternizando, se alegrando, se conhecendo. Como resultado, observamos melhorias nas crises de ansiedade e, até mesmo, na depressão, além da melhora da concentração e da coordenação motora. Com as crianças, o trabalho com a música proporciona a conscientização do espírito de equipe, estimula o raciocínio e a aprendizagem. Oficina de Orientação e Mobilidade É realizada em grupos internos e externos, buscando a autonomia no ir e vir com uso da bengala longa. Também são trabalhados aspectos de autoproteção, mapas mentais, técnicas de toque e varredura em logradouros públicos. 29 SEÇÃO 2 Caminhos da inclusão: diálogos com instituições parceiras PARTICIPAÇÃO NO V LINCOG 06.11.2024 (quarta-feira) 8h30-10h30: Minicursos simultâneos – Prédio do IEA M5 – Sistema Braille e o processo de aprendizagem – Milena Perpétua da Silva Bertoni Romera (Centro de Reabilitação Visual – CRV) 14h-15h: Mesa oficial de abertura Representante do CRV – Milena Perpétua da Silva Bertoni Romera 07.11.24 (quinta-feira) 8h-18h: Exposições – Prédio do IEA E3 – Exposição do nosso Centro de Reabilitação Visual (CRV). Divulgar nos- sos serviços e trabalhos realizados – Levar folders, panfletos, materiais adap- tados, bengalas e suas cores, próteses e o que mais for pertinente para mostrar nossos serviços no interior de SP. – Responsáveis: Glória de Abreu Nascimento (Assistente Social) e Júlia Carolina Talarico Monteiro Ramos (Psicóloga). 8h-10h30: R1 – Relato de práticas de instituições especializadas – Auditório IEA – Sala Alfredo Bosi – Milena Perpétua da Silva Bertoni Romera (CRV) 08.11.24 (sexta-feira) 14h-16h: Workshops simultâneos W4 – Orientação e mobilidade – teoria e prática – Regiane Cândido Rodrigues Pires – Fisioterapeutae Especialistas em OM (CRV) 09.11.24 (sábado) Dia dedicado a atividades integrativas de habilidades especiais diversas. 9h-12h: Atividades no Cepeusp 10h00-10h30: Apresentação do Goalball – Cássio Gustavo Santana Gonçalves e Natália Martins (CRV) 10h30-11h: Judô Paralímpico – Cássio Gustavo Santana Gonçalves e Natália Martins (CRV) 11h30-12h: Percurso e trajeto com o uso da bengala longa – Regiane Cândido Rodrigues Pires (CRV) 30 SEÇÃO 2 Caminhos da inclusão: diálogos com instituições parceiras Participantes da Instituição que vieram ao LinCog Cássio Gustavo Santana Gonçalves – profissional Glória de Abreu Nascimento – profissional Janaína Gueett Gomes Guimarães – aluna Jhonatan Henrique Pereira – aluno José Roberto de Souza da Silva – aluno Júlia Carolina Talarico Monteiro Ramos – profissional Juliane Patrícia da Silva Neves – profissional Junio Oliveira dos Santos – aluno Laiza Mileny Guimarães André – aluna Marilene Teresinha da Silva – aluna Milena Perpetua da Silva Bertoni Romera – profissional Natália de Souza Martins – aluna Regiane Candido Rodrigues Pires – profissional 31 SEÇÃO 2 Caminhos da inclusão: diálogos com instituições parceiras Fundação Dorina Nowill para Cegos Danielle Freitas Silva A Fundação Dorina Nowill para Cegos leva o nome de sua idealizadora, Dorina de Gouvêa Nowill, que, mais do que uma Fundação, deixou a oportunidade de viver com dignidade à pessoa cega e com baixa visão, e às pessoas que enxergam, uma lição de vida. Perseverança, caridade, resignação e paciência são as lições deixadas por essa paulista que enxergava o mundo com os olhos da alma e lutou por uma sociedade inclusiva. Desse modo, a Fundação Dorina Nowill para Cegos tem se dedicado a facilitar a inclusão da pessoa cega ou com baixa visão, por meio de serviços gratuitos e especializa- dos na área da habilitação e reabilitação, que possibilitam a esses sujeitos a preservação e valorização de sua história de vida, o resgate de sua independência e autonomia, seu reconhecimento enquanto sujeitos de direitos, a retomada do protagonismo de suas histórias e realiza, também, produção e distribuição gratuita de livros em Braille, falados e digitais acessíveis, diretamente para pessoas com cegueira ou com baixa visão, para escolas, bibliotecas públicas e organizações de todo o Brasil, com objetivo de contribuir com a inclusão social, acesso à cultura e equiparação de oportunidades. São atividades que realizamos na Fundação há 78 anos e que demonstram nossa vocação e nosso empenho em promover a habilitação, reabilitação, acesso à informação e à leitura para pessoas cegas e com baixa visão, pautados pela dedicação e pelo legado deixado por Dorina Nowill, a fundadora. A organização atende pessoas em diferentes fases da vida (crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos), bem como grupo familiar (consanguíneo ou por afinidade) e/ ou responsáveis, visando promover o fortalecimento dos vínculos familiares e sociais e contribuindo com o desenvolvimento do papel protetivo da família. A Fundação Dorina Nowill, observando o princípio da universalidade, tem por objetivo facilitar a inclusão social da pessoa cega ou com baixa visão, respeitando as necessidades individuais e sociais, por meio de produtos e serviços especializados que proporcionem diversas atividades, tais como: habilitação e reabilitação, de modo a promover sua integração à vida comunitária; acesso à cultura e informação por meio de edição, produção e distribuição de livros em Braille e outras modalidades de publicações acessíveis; criação, patrocínio e/ou realização de projetos, programas, ações e serviços socioassistenciais; capacitação e demais atividades que promovam a integração ao mundo do trabalho; assessoria e consultoria especializada a governos, entidades sociais, empresas e quaisquer outras organizações envolvidas no processo de inclusão social; pesquisa e prevenção da cegueira; desenvolvimento de novos produtos e serviços; acesso à plataforma Dorinateca; inclusão e fomento à leitura pelo Brasil por meio da Rede de Leitura Inclusiva; programa Lego Braille Bricks, que promove o aprendizado do Sistema Braille de forma lúdica, criativa e inclusiva durante o processo de pré-alfabetização e alfabetização de crianças com deficiência visual, de 4 a 10 anos, e quaisquer outras atividades que sejam consideradas úteis ao atendimento à pessoa com Deficiência Visual. 32 SEÇÃO 2 Caminhos da inclusão: diálogos com instituições parceiras Em 2024, a Fundação Dorina, buscando fortalecer ainda mais a causa e o acesso das pessoas com deficiência visual, firmou acordos com duas instituições parceiras, uma de Florianópolis, e outra de Campo Grande, fornecendo recursos para que pudessem ampliar seus atendimentos e levando um serviço digno e de qualidade a mais pessoas. Com foco na proteção social, as ações desenvolvidas buscam potencializar os talentos e habilidades, resgatar a autoestima, promover o autocuidado e estimular a participação e convívio social. Todos os atendimentos oferecidos pela instituição são gratuitos e não necessi- tam de encaminhamento. Os serviços de habilitação e reabilitação atendem crian- ças, jovens, adultos e idosos, sem restrição de idade. Entre os serviços oferecidos pela Fundação, estão: Serviço Social; Psicologia; Pedagogia; Terapia Ocupacional; Fisioterapia; Orientação e Mobilidade; Oftalmologia e Ortóptica. Quando a pessoa chega à Fundação, recebe atendimento inicial pelo Serviço Social, para que o profissional possa compreender suas expectativas e necessidades, orientar sobre seus direitos sociais, atendimentos na instituição e demais questões que possam impactar no processo de habilitação e reabilitação. Após esse primeiro contato, a pessoa é encaminhada para a Oftalmologia, que faz a validação da condição visual. Havendo resíduo visual, será encaminhada para atendimento em Ortóptica, que realiza o treino de recursos ópticos e melhor utilização do resíduo visual das pes- soas com baixa visão. Assim, cada pessoa é avaliada nas demais áreas para definir quais são as demandas para garantir o melhor atendimento, seja individual ou em grupo. Faz parte dos serviços da Fundação, em qualquer momento da habilitação e rea- bilitação, as orientações em relação à rede socioassistencial de atendimento nos terri- tórios (unidades de saúde, serviços de assistência e proteção social, esporte, cultura e lazer), para que as pessoas cegas e com baixa visão possam manter as atividades sociais na região em que residem. Mesmo após o término do processo de habilitação ou reabilitação, a Fundação permanece de portas abertas para que aqueles que foram atendidos entrem em con- tato, caso precisem de novos atendimentos ou reciclagem das atividades já realizadas. Os atendimentos especializados oferecidos pela instituição têm um olhar para a totalidade da pessoa cega ou com baixa visão, mesmo não sendo nosso perfil de atendi- mento- quando múltiplas deficiências, chegam, nossos técnicos não somente acolhem, como também acompanham todo o processo de ingresso no serviço referenciado para a demanda apresentada. Hoje, estamos num momento em que a diversidade, a pluralidade e as condições neurodiversas, em específico essa última no conjunto da deficiência visual, por vezes podem ser confundidas ou tardiamente diagnosticadas em consonância com alguns maneirismos comuns a pessoa com deficiência visual congênita. O acolhimento da instituição e o direcionamento adequado podem apoiar e afastar a pessoa com deficiência visual de uma condição muito comum, que é o iso- lamento social, provocado por falta de acessibilidade, barreiras físicas e ausência de oportunidade de interação social. Essas situações podem facilmente gerar o adoeci- mento emocional e serem, assim, um facilitador para o isolamento. É nosso papel, como instituição, sociedade e pessoa, estarmos atentos a todos esses fatores e oferecer oportunidade de interação social e comunitária, promoveracessibilidade, participar ativamente da sociedade para políticas de inclusão e acessibilidade. Juntos podemos criar uma sociedade mais justa e inclusiva para todas as pessoas. 33 SEÇÃO 2 Caminhos da inclusão: diálogos com instituições parceiras Instituto Jundiaiense Luiz Braille Everton Godim O Instituto Jundiaiense Luiz Braille é uma entidade beneficente, sem fins lucrativos, fundada em 20 de dezembro de 1941, em um período em que o acesso à reabilitação para pessoas com deficiência visual era extremamente limitado no Brasil. Seu idealizador, o professor e maestro Mario Chaves, era cego e por essa razão conhecia os desafios enfren- tados por quem tem deficiência visual. O Instituto nasceu com a missão de reabilitar essas pessoas, promovendo sua autonomia, profissionalização e qualidade de vida. Os assistidos, de todas as idades, aprendem o sistema Braille e desenvolvem Atividades de Vida Diária (AVD), como cozinhar, utilizar transporte público e manejar dispositivos tecnológicos adaptados. Essa capacitação permite que eles desenvolvam uma vida mais independente e socialmente integrada, facilitando sua inclusão no mercado de trabalho e em atividades sociais. Para isso, contam com uma equipe multidisciplinar capaz de oferecer atendimento para as pessoas com deficiência visual total ou parcial, baixa visão e deficiências múltiplas. É formada por profissio- nais de diferentes áreas como Serviço Social, Pedagogia, Fonoaudiologia, Psicologia, Terapia Ocupacional, Fisioterapia, Orientação e Mobilidade e Visão Funcional. Considerando-se que o acesso ao diagnóstico e tratamento precoce de algumas doen- ças oftalmológicas, tais como retinopatia diabética, glaucoma, degeneração macular relacionada à idade, doenças oculares da infância entre outras, poderia evitar a perda da visão, em muitos casos, o Instituto passou a oferecer atendimento gratuito de oftalmologia a população carente, desde 2003. Assim, ao promover assistência oftal- mológica adequada aos que precisam, o Instituto passou a atuar também na prevenção da Cegueira, o que poderá resultar em um menor contingente de deficientes visuais. Atualmente, cerca de 6.800 consultas eletivas de oftalmologia são realizadas mensal- mente, além da realização de exames oftalmológicos complementares, tratamentos espe- cializados e procedimentos cirúrgicos oftalmológicos em todos os níveis de complexidade. Além disso, o Instituto dispõe de uma unidade para o atendimento emergencial de casos de urgências oftalmológicas, oferecendo, ainda, uma equipe de médicos plantonis- tas para o atendimento de urgência no período noturno nos finais de semana e feriados. Desde 2018, em parceria com a Faculdade de Medicina de Jundiaí, o Instituto ofe- rece residência médica em oftalmologia, reconhecida pelo Ministério da Educação e pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia para a formação de novos médicos especialistas. Essa colaboração contribui para a melhoria na qualidade dos serviços oferecidos, além de aumentar o número de profissionais capacitados para atender a população. Hoje, o Instituto Jundiaiense Luiz Braille é uma referência regional em oftalmolo- gia; e é mantido especialmente pelo convênio com o Sistema Único de Saúde (SUS), por meio de doações, realização de eventos beneficentes, trabalho voluntário, contribuições de associados e apoio de outras entidades parceiras como o Rotary Club Jundiaí Leste. Sua meta principal é ampliar o atendimento para garantir o acesso à assistência oftalmológica adequada e ao serviço de reabilitação de deficientes visuais, acolhendo com dignidade todos aqueles que necessitam. 34 SEÇÃO 2 Caminhos da inclusão: diálogos com instituições parceiras Lar das Moças Cegas: Instituição Mantenedora do Centro de Educação e Reabilitação para Deficientes Visuais (CERDV) Marta da Cruz Valdívia Camargo apresentação da instituição O Lar das Moças Cegas (LMC) é uma instituição sem fins lucrativos e econômicos, de caráter beneficente de assistência social, há 81 anos atendendo o deficiente visual, em Santos (SP), tendo como público-alvo pessoas cegas ou com baixa visão, integrantes de famílias residentes em bairros distantes, ou periferia do município de Santos, como também moradores de outras localidades da Baixada Santista onde não haja atendimento especializado para deficientes visuais. A sede está situada em um prédio de três andares, que abriga o Centro de Educação e Reabilitação para Deficientes Visuais (CERDV), Centro Especializado em Deficiência Visual (CEDV), além das áreas: Serviço Social, Administração, Comunicação, Eventos, Suprimentos, Projetos e Tecnologia da Informação. Há tam- bém prédio anexo com o Centro Aquático “Carlos Inocêncio Gomes”, para atividades em ambiente líquido. O atendimento da Instituição é pautado pelo “tripé”: Saúde / Serviço Social / Educação, tendo como finalidade prestar serviços e desenvolver ações socioassistenciais, de forma articulada com serviços e ações educacionais, a pessoas portadoras de deficiência visual para habilitá-las e reabilitá-las, visando ao desenvolvimento de suas capacidades físicas, sensoriais e mentais, podendo ainda, desenvolver tais ações nos campos de esporte, lazer, recreação, sociocultural e artístico, musical e teatral. Visa-se assim à promoção de sua integração à vida comunitária, prestando serviços de defesa e garantia dos direitos das pessoas portadoras de deficiência visual e orientação e apoio aos seus familiares. centro de educação e reabilitação para deficientes visuais (cerdv) Mantido pelo Lar das Moças Cegas, foi fundado em 10 de março de 1987 e autorizado para funcionar como Escola de Educação Especial pela Diretoria de Ensino – Região de Santos, por publicação no DOE, 4.2.1999, no contraturno da escola regular. É focado na habilitação e reabilitação do deficiente visual, tendo como objetivo prestar serviços na área da Educação com o compromisso de incluir socialmente o deficiente visual. Atualmente contamos com 312 alunos, de 11 meses até 86 anos, portadores de cegueira total, baixa visão, aliada ou não a outras comorbidades. Não certifica como conclusão de escolaridade porque a educação especial é uma complementariedade do ensino regular e a deficiência perpassa a vida do indivíduo, oferecendo em torno de 50 atividades, com Matriz Curricular específica, por áreas de conhecimento e proposta pedagógica que envolve educação e reabilitação, de acordo com as características individuais dos alunos. Os profissionais são habilitados em cursos superiores ou com escolaridade com- patível com a função exercida: 19 professores, 2 auxiliares de classe, 1 assistente de 35 SEÇÃO 2 Caminhos da inclusão: diálogos com instituições parceiras direção, 1 coordenador pedagógico, 1 diretor administrativo/pedagógico, 9 inspetores de alunos, entre outros cargos de uma unidade escolar. Todas as salas são climatizadas, com computador, mobiliário e material necessário para o bom desenvolvimento das atividades. Periodicamente, há manutenção preventiva. A entrada do aluno é pelo Centro Especializado em Deficiência Visual, onde passa por triagem na área da saúde e, após ser verificado como elegível ao CERDV, passa pela assistência social, matrícula e triagem pedagógica, formalizando sua grade de estudos para iniciar na escola. Para cada aluno é elaborado um projeto com objetivos específicos a serem desen- volvidos durante o ano letivo. O aluno é avaliado constantemente e, ao final do ano, atingindo todos os objetivos propostos, recebe a certificação de cada atividade conclu- ída. Caso não atinja os objetivos, o conteúdo é replanejado para o ano subsequente. No CERDV, há um sistema próprio para avaliação e monitoramento do alunado, preenchido pelo professor responsável de cada atividade sobre ações e desenvolvimento de cada aluno. O diário de classe é on-line. Tais programas foram elaborados pela área da Tecnologia da Informação do LMC, que supre toda a necessidade e suporte necessário.