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HISTÓRIA ANTIGA
 
 
 
1 CAMPO HISTORIOGRÁFICO ANTIGO 
Para definir o que chamamos de História Antiga ou Antiguidade – que inclui as 
vertentes Clássica e Oriental –, é preciso primeiro entender como a história é dividida 
em fases. Essa divisão, conhecida como periodização, cria intervalos de tempo 
marcados por transformações significativas nos âmbitos cultural, econômico, político 
e social, que representam uma ruptura com a ordem estabelecida anteriormente. 
A divisão da história em períodos como Antiga, Medieval, Moderna e 
Contemporânea é uma construção intelectual, não um reflexo natural do passado. 
Essa estrutura, que toma eventos como a Revolução Francesa (1789) como um marco 
inicial da Idade Contemporânea, pode ofuscar a diversidade de experiências históricas 
e percepções de tempo. No entanto, tal periodização é verdadeiramente universal? O 
ano de 1789 teve a mesma importância ressonante para os processos históricos em 
andamento no Brasil ou na África? Ou será que seu significado como divisor de águas 
permanece confinado à experiência europeia, ou mesmo especificamente francesa? 
Bauer, Alves e Oliveira (2019) ressaltam que a conciliação entre os diversos 
sistemas de contagem de tempo das sociedades antigas e a datação ocidental 
moderna representa um dos grandes desafios da historiografia. Civilizações como a 
grega organizavam sua cronologia a partir de eventos fundadores, como a primeira 
Olimpíada; os romanos, a partir da data de fundação de sua cidade; e inúmeros povos 
do Oriente Próximo contavam o tempo pelos anos de reinado de seus soberanos. 
Diante dessa pluralidade de calendários, que frequentemente se baseavam em 
marcos locais, culturais ou naturais, surge a complexa questão de como harmonizá-
los com a estrutura do calendário cristão, hoje hegemônico. Esta não é uma mera 
conversão numérica, mas um processo interpretativo que exige cuidado para não 
sobrepor uma visão de tempo eurocêntrica e, assim, distorcer a percepção temporal 
única de cada cultura. 
A concepção de uma "História Antiga" como a entendemos hoje é uma herança 
intelectual do Renascimento. Foi neste período que os estudiosos, ao revisitarem e 
reavaliarem as obras e ideias do mundo greco-romano, começaram a forjar a noção 
de um "mundo clássico" distinto: 
O que hoje denominamos de História Antiga foi, no princípio, um movimento 
cultural e literário de produção de memória a partir de textos e objetos. Após 
a dissolução do Império Romano ocidental, a lembrança de um passado pré-
 
 
 
-cristão foi aos poucos se dissolvendo. [...] A partir do século XII, esses textos 
passaram a ser cada vez mais procurados e difundiu-se, a partir da Itália, a 
ideia de que eles representavam algo diferente da cultura contemporânea: 
eram a herança escrita dos antigos. Muitos pensadores, poetas, artistas e 
curiosos da natureza começaram a debruçar-se sobre esses textos, extraindo 
os livros originais das grandes compilações manuscritas. A ideia de que tinha 
havido um mundo “antigo”, anterior ao cristianismo, com uma cultura rica e 
singular, difundiu-se, aos poucos, pelas cortes europeias e pelos literatos. 
Essa cultura laica, livre do domínio da Igreja, parecia muito adequada aos 
novos tempos (Guarinello, 2014, p. 173). 
A consolidação da "História Antiga" como um período histórico distinto ocorreu 
paralelamente ao processo de cientifização da disciplina. Ao longo do século XIX, 
essa categorização tornou-se hegemônica, alinhando-se a conceitos como civilização, 
nação e progresso para impor uma visão linear da história universal. Nessa lógica, 
cada fase era entendida como o desenvolvimento necessário de forças já em 
gestação na etapa anterior, tal como exemplificado pela noção de que o 
Renascimento sucedeu a Idade Média para, supostamente, inaugurar os Tempos 
Modernos (Gruzinski, 2001). 
É fundamental notar que a concepção de um tempo linear está intrinsicamente 
ligada à crença em uma ordem natural e previsível das coisas, uma ideia da qual 
custamos a nos desvencilhar: a noção de que todo sistema social possuiria uma 
estabilidade original à qual inevitavelmente tenderia retornar. Essa perspectiva teve 
um impacto profundo na narrativa histórica, pois, sob sua égide, a civilização grega foi 
progressivamente redefinida para parecer menos oriental e africana e mais 
exclusivamente europeia. Dessa forma, esse legado foi apropriado como herança 
cultural exclusiva da Europa Ocidental. Nesse mesmo sentido, confirma-se a 
observação de Silva (2018): 
A tradicional seleção quadripartite da história, somada a uma temporalidade 
linear, nos leva a crer que a origem de quase todos os processos históricos 
está no ocidente branco e cristão. [...] Porém, outras articulações entre 
passado, presente e futuro são possíveis. Diferentes contatos culturais na 
história provocaram misturas, mas também alterações nas formas de 
conceber o tempo e os processos históricos que nos orientam. [...] Também 
é muito destacada a cultura greco-romana como matriz da cultura ocidental e 
de uma cultura erudita, embora se possa estudar também a história antiga 
através dos contatos entre diferentes culturas constituintes do oriente e do 
ocidente (Silva, 2018, p. 76). 
Como era de se esperar, a História Antiga enquanto disciplina não está imune 
a críticas. Uma das principais acusações que lhe é dirigida é a de caráter imperialista, 
por ter difundido uma narrativa que centraliza os processos europeus como motores 
 
 
 
de fenômenos de escala global. No entanto, é importante salientar que uma parcela 
significativa dessas objeções surge de um desconhecimento acerca das 
reformulações recentes do campo, que tem se empenhado em adotar perspectivas 
cada vez menos eurocêntricas (Bauer; Alves; Oliveira, 2019). 
É importante considerar que a chamada História Antiga tradicional tem passado 
por significativas reorientações, a ponto de ser frequentemente redesignada como 
"História do Mediterrâneo Antigo". Essa mudança terminológica reflete um abandono 
progressivo de suas pretensões generalistas e universalizantes, assim como de seu 
foco exclusivamente clássico. Como consequência, regiões do mundo que não 
integraram diretamente aquele contexto específico deixam de ser categorizadas como 
meras periferias e passam a ser compreendidas como observadoras de uma 
experiência histórica distinta. Esse reposicionamento, conforme argumenta Francisco 
(2017), constitui, em si mesmo, um valioso exercício de alteridade: 
Essa situação parece ter especial importância por dois motivos. O primeiro é 
a base da crítica à História Antiga. Em termos panfletários, pode-se dizer que 
ela não nos serve, que ela é necessariamente imperialista, que ela contribuiu 
para a organização de uma identidade periférica na maior parte do planeta, 
inclusive no Brasil. Muitos desses argumentos são bastante válidos, mas sua 
validade é parcial. A História Antiga vem mudando e essas mudanças 
apresentam um forte componente autocrítico. Por exemplo, a perspectiva 
racista dos Estudos Clássicos ao longo do século XIX e XX, apresentada por 
Martin Bernal (1990), ainda é tema de debate e promoveu uma ampla reflexão 
sobre alguns critérios narrativos da História Antiga. O que quero dizer é que 
a crítica estabelecida à História Antiga (se ela é importante ou não para nós) 
deveria partir de um conhecimento mais profundo do campo. Sem isso, 
restam apenas impressões um tanto desatualizadas sobre ela, o que afeta 
sensivelmente a qualidade do argumento crítico (Francisco, 2017, p. 55). 
Desenvolve-se, na contemporaneidade, uma consciência crítica em relação à 
História Antiga, na qual se reconhece a impossibilidade de construir narrativas 
baseadas na exclusividade de uma herança cultural. Compreende-se, assim, que não 
há uma linha direta de continuidade entre o mundo antigo e o contemporâneo. A 
presença de elementos "antigos" em nossa realidade não faz da modernidade 
herdeira diretado Peloponeso e a
derrota de Atenas para Esparta, as cidades-estado gregas saíram
enfraquecidas e divididas pelas consequências do conflito. Aproveitando-se 
dessa fragilidade, Alexandre, o Grande, rei da Macedônia, invadiu e conquistou 
o território grego, incorporando-o ao seu vasto império. Admirador da cultura
grega, Alexandre promoveu a difusão de seus valores, práticas e pensamento, 
que, ao se misturarem com elementos das culturas orientais, deram origem ao 
fenômeno conhecido como helenismo. Esse período também antecedeu a 
ascensão e o subsequente domínio romano sobre a região. 
Embora essa periodização sirva como um guia didático útil para o estudo da 
Grécia Antiga, é fundamental adotá-la com senso crítico, pois, como aponta 
Florenzano (2004), ela está essencialmente fundamentada na experiência ateniense, 
uma cidade-estado da qual dispomos de mais registros históricos. Além disso, como 
ocorre em qualquer tentativa de periodização, foram feitas escolhas seletivas sobre 
quais povos e dinâmicas da Hélade seriam destacados ou relegados a um segundo 
plano, o que naturalmente simplifica uma realidade histórica muito mais diversa e 
complexa. 
4.2 Atenas e a democracia grega 
Como resultado de sua liderança decisiva nas Guerras Médicas, do prestígio 
militar que conquistou – superando até mesmo o de Esparta – e do controle que 
exercia sobre a Liga de Delos, Atenas se tornou a cidade-estado mais influente da 
Grécia, inaugurando um período conhecido como a hegemonia ateniense ou a idade 
de ouro de Atenas, que se estendeu ao longo do século V a.C. 
Sob o governo de Péricles, Atenas realizou uma profunda reforma política que 
consolidou um sistema democrático único, impulsionou obras monumentais como a 
do Partenon (Figura 9) e assistiu ao apogeu do teatro com as tragédias de 
Ésquilo, Sófocles e Eurípides. Nessa mesma época, também emergiram as obras 
essenciais de historiadores como Heródoto e Tucídides, além do filósofo Sócrates. 
Nos campos artístico, cultural, filosófico e historiográfico, Atenas estabeleceu-se, 
portanto, como o principal polo gerador e difusor de conhecimento da Antiguidade 
clássica. 
Figura 9 – Partenon, templo dedicado à deusa Atena 
Fonte: https://x.gd/BEs6X. 
A hegemonia ateniense também se refletia na economia. Após as Guerras 
Médicas, Atenas estabeleceu uma frota mercante robusta, encarregada do transporte 
de diversas mercadorias. Aproveitando sua localização estratégica no Egeu, a cidade 
passou a impor tarifas alfandegárias, consolidando ainda mais sua situação financeira. 
Na agricultura, Atenas se dedicava ao cultivo de oliveiras e à produção e comércio de 
azeite e seus derivados. Simultaneamente, desenvolvia uma manufatura significativa, 
trabalhando metais para a confecção de armas e joias, além de produzir peças de 
cerâmica que circulavam amplamente no comércio. 
Em Atenas, argumentam Bauer, Alves e Oliveira (2019), o comércio interno na 
península apoiava-se principalmente nas trocas diretas e nas pequenas transações 
locais, por meio das quais eram adquiridos produtos de uso cotidiano como: cestos, 
vasos e alimentos básicos. Junto a esses pequenos comerciantes, atuavam também 
os cambistas, que realizavam a troca de moedas e concediam empréstimos de 
pequeno valor. 
Além disso, desenvolvia-se um comércio exterior, dominado pelos metecos 
(estrangeiros residentes). Nesse circuito, o trigo era o único produto cujo comércio 
ficava sob controle direto da cidade-estado. Esse dinamismo comercial, tanto interno 
quanto externo, contribuiu para que a moeda ateniense se tornasse amplamente 
aceita como forma de pagamento em diversas regiões, consolidando ainda mais a 
influência econômica de Atenas. 
Democracia ateniense 
Etimologicamente, a palavra "democracia" deriva dos termos gregos demos 
(povo) e kratos (poder). No entanto, é importante observar que tanto "povo" quanto 
"poder" possuíam sentidos bastante distintos dos que carregam hoje. A democracia 
ateniense organizava-se por meio de mandatos eletivos, todos temporários e 
exercidos em assembleias e conselhos. Nesses espaços de deliberação coletiva, 
destacavam-se sobretudo os cidadãos que dominavam a oratória e a retórica, 
habilidades fundamentais para influenciar as votações e a tomada de decisões na vida 
política da pólis: 
A palavra não é mais o termo ritual, a fórmula justa, mas o debate 
contraditório, a discussão, a argumentação. Supõe um público ao qual ela se 
dirige como a um juiz que decide em última instância, de mãos erguidas, entre 
dois partidos que lhe são apresentados; é essa escolha puramente humana 
que mede a força de persuasão respectiva dos dois discursos, assegurando 
a vitória de um dos oradores sobre seu adversário. Todas as questões de 
interesse geral que o Soberano tinha por função regularizar e que definem o 
campo da arché são agora submetidas à arte retórica e deverão resolver-se 
na conclusão de um debate [...] Entre a política e o logos [conhecimento], há 
assim uma relação estreita, vínculo recíproco. A arte política é 
essencialmente exercício de linguagem; e o logos, na origem, toma 
consciência de si mesmo, de suas regras, de sua eficácia, através de sua 
função política (Vernant, 2002, p. 30). 
Isso não significa, porém, que todas as pessoas tivessem acesso à vida 
política. A participação estava restrita aos cidadãos, um grupo minoritário composto 
por homens adultos, livres e nascidos em Atenas. Outros segmentos sociais, como os 
escravizados e os metecos (estrangeiros residentes), estavam sistematicamente 
excluídos dos direitos políticos. Essa exclusão era perpetuada por critérios de origem 
e por uma condição transmitida geracionalmente. Conforme destaca Funari (2002): 
Na democracia ateniense [...], apenas tinham direitos integrais os cidadãos. 
Calcula-se que, em 431 a.C., havia 310 mil habitantes na Ática, região que 
compreendia tanto a parte urbana como rural da cidade de Atenas, 172 mil 
cidadãos com suas famílias, 28.500 estrangeiros com suas famílias e 110 mil 
escravos. Os escravos, os estrangeiros e mesmo as mulheres e crianças 
atenienses não tinham qualquer direito político e para eles a democracia 
vigente não trazia qualquer vantagem (Funari, 2002, p. 38). 
Instaurada em Atenas após a queda dos tiranos, entre 510 e 500 a.C., a 
democracia foi alvo de críticas de importantes filósofos gregos, como Platão e 
Aristóteles. Antes de sua implantação, Atenas passou por outras formas de governo: 
a monarquia, em que o rei reunia poderes jurídicos, militares e religiosos; a oligarquia, 
período em que o poder foi transferido para o grupo aristocrático dos eupátridas, 
restando ao monarca apenas funções religiosas; e a tirania, quando Pisístrato e seus 
filhos assumiram o governo com apoio de mercenários. Foi somente após as Guerras 
Médicas e a união dos atenienses contra o inimigo comum que se criaram as 
condições para a consolidação definitiva da democracia. 
Os fundamentos da democracia ateniense apoiavam-se em três pilares 
centrais: a isonomia (igualdade perante a lei), a liberdade (para votar, ser votado e se 
expressar publicamente) e a noção de responsabilidade política, pela qual cada 
cidadão era tido como responsável por seu voto e por suas ações no espaço público. 
Assim, a cidadania ateniense era restrita a homens livres nascidos de pais 
atenienses. Mulheres, estrangeiros (metecos) e escravizados eram excluídos desse 
direito. O exercício pleno da democracia se dava na Assembleia (Eclésia), espaço que 
pressupunha uma dinâmica de debate público, circulação de opiniões e exposição 
política, combinando elementos como elegibilidade, rotatividade nos cargos, anuência 
coletiva e busca de coesão social (Lessa, 2008). 
5 FILOSOFIA GREGA 
Para compreender o pensamento filosófico da Grécia Antiga, é importante 
lembrar que não havia uma unidade política chamada “Grécia”, mas sim diversas 
cidades-estado, cada uma com suas particularidades.A expressão “filosofia grega” 
refere-se, portanto, ao conjunto de reflexões produzidas por pensadores que viveram 
nessa região e partilharam um contexto cultural comum. No entanto, não se deve 
atribuir a esses filósofos uma identidade “grega” uniforme, nem pressupor que suas 
reflexões formem um sistema unificado. 
Os registros históricos atribuem a Pitágoras de Samos a primeira utilização do 
termo “filósofo”, que significa literalmente “amigo do saber”. Dessa palavra derivou 
“filosofia”, como destaca Ghiraldelli Jr. (2018): 
Os historiadores da filosofia afirmam que a filosofia surgiu como uma forma 
de explicar o mundo em contraposição às formas narrativas mitológicas. Os 
antropólogos e sociólogos, por sua vez, preferem enfatizar a função 
socializadora do mito. O mito proporcionaria a um povo a comunhão em um 
assunto, de modo a dar a cada indivíduo de sua comunidade uma boa parte 
do que ele precisaria saber para se sentir um membro dessa sociedade. Isso 
daria coesão à comunidade. Mas não é esse aspecto socializador e unificador 
do mito que importa quando queremos relacioná-lo à função original da 
filosofia. Não é errado dizer que o mito teria antes de tudo uma função 
explicativa, tanto quanto a filosofia, e que por isso os filósofos deram combate 
às narrativas mitológicas, pois seriam narrativas competidoras com as suas 
próprias narrativas. Todavia, seriam narrativas incapazes — como os 
filósofos enfatizaram — de fazer a distinção entre o real e o ilusório ou 
meramente aparente (ou ficcional). A filosofia, por sua vez, teria nascido para 
fazer tal distinção e, mais que isso, deveria ser capaz de explicar por que 
tomamos o ilusório pelo real, se é que de fato fazemos essa inversão. Assim, 
a filosofia teria vindo de uma articulação e ao mesmo tempo de um 
rompimento com o mito (Ghiraldelli Jr., 2018, p. 5). 
De outra forma, pode-se expor a periodização proposta por Marilena Chauí 
(2000) para a filosofia grega antiga. Segundo a autora, ela pode ser organizada em 
quatro períodos principais (Quadro 1): 
Quadro 1 – Períodos da filosofia grega 
Período Marco temporal 
Foco central da 
investigação 
Características principais 
Pré-socrático 
ou cosmológico 
Final do século 
VII ao final do 
século V a.C. 
Origem do mundo 
(cosmos) e causas 
das transformações 
na natureza 
Busca por explicações racionais 
para a natureza e o princípio do 
universo, substituindo relatos 
míticos por investigação filosófica 
sobre a physis. 
Socrático ou 
antropológico 
Final do século V 
e todo o século 
IV a.C. 
Questões 
humanas: ética, 
política e técnicas 
Desloca o foco da natureza para o 
homem, sua vida em sociedade e a 
formação moral e política do 
indivíduo, com destaque para 
Sócrates, sofistas e Platão. 
Sistemático 
Final do século 
IV ao final do 
século III a.C. 
Integração da 
cosmologia e da 
antropologia 
Procura sistematizar o saber 
filosófico, consolidando ciências, 
critérios de verdade e regras de 
demonstração; mostra que 
qualquer realidade pode ser objeto 
de investigação se obedecer às leis 
do pensamento. 
Helenístico ou 
greco-romano 
Final do século III 
a.C. até o século
VI d.C. 
Ética, teoria do 
conhecimento e 
relação homem-
natureza-divino 
Filosofia volta-se à vida prática, à 
busca da felicidade e à paz de 
espírito em um mundo 
politicamente instável, incluindo 
escolas como estoicismo, 
epicurismo e ceticismo, já sob 
domínio romano e com influência 
dos primeiros pensadores cristãos. 
Fonte: adaptado de Chauí, 2000. 
Bauer, Alves e Oliveira (2019) salientam que os primeiros filósofos gregos, 
tradicionalmente chamados de pré-socráticos – denominação que se refere mais ao 
caráter cosmológico de suas especulações do que a uma cronologia anterior a 
Sócrates –, têm como expoentes iniciais Tales (624–556 a.C.), Anaximandro (610- 
546 a.C.) e Anaxímenes (585–528 a.C.), todos naturais de Mileto, nas colônias jônias 
da Ásia Menor (atual Turquia). Em comum, buscaram identificar um princípio originário 
(arché) que desse ordem e explicação ao mundo. De forma sintética: 
• para Tales, a substância primordial era a água;
• para Anaximandro, seu discípulo, tratava-se de algo ilimitado e indeterminado,
o apeíron;
• para Anaxímenes, o elemento fundamental e ordenador era o ar.
Além dos filósofos de Mileto, outros pensadores pré-socráticos propuseram
diferentes archés para explicar o cosmos: Heráclito de Éfeso (Jônia) identificou o fogo 
como princípio dinâmico da realidade; Anaxágoras de Clazômenas (também da Jônia) 
postulou a existência de “sementes” (homeomerias) ordenadas por uma Inteligência 
(Nous); Demócrito e Leucipo de Abdera (Trácia) defenderam que tudo era composto 
por átomos indivisíveis; Pitágoras de Samos (que atuou em Cróton, Magna Grécia) 
via nos números a essência das coisas; Parmênides e Zenão de Eleia (sul da Itália) 
afirmavam a imutabilidade do Ser; e Empédocles de Agrigento (Sicília) sustentou que 
o cosmos era formado pela interação de quatro raízes eternas: ar, água, terra e fogo.
Conforme Ghiraldelli Jr. (2018): 
Sócrates (469–399 a.C.) não era rico, mas era grego, isto é, filho de gregos. 
Esta última condição lhe garantiu o direito a uma boa educação, aquela 
fornecida a todos os cidadãos gregos autênticos. Platão (427–347 a.C.), 
diferentemente, era rico e nobre — teve mais do que uma simples boa 
educação. Ganhou uma formação esmerada em um ambiente de pessoas 
influentes. Ambos eram atenienses. Aristóteles (384–322 a.C.), por sua vez, 
veio de Estagira, na Macedônia, para Atenas. Seu pai havia sido médico do 
pai de Alexandre (356–326 a.C.), de quem ele próprio, depois, foi preceptor 
(Ghiraldelli Jr., 2018, p. 58). 
Sócrates nasceu em Atenas por volta de 470 a.C. e foi executado em 399 a.C., 
condenado sob as acusações de não reconhecer os deuses da cidade e corromper a 
juventude. No entanto, conforme registrado na Apologia de Sócrates, escrita por seu 
discípulo Platão, essas acusações foram injustas e refletiam mais conflitos políticos e 
desavenças pessoais do que qualquer crime real ou imoralidade. Ao contrário de 
outros filósofos contemporâneos, Sócrates não fundou uma escola formal, preferindo 
conduzir seus diálogos e ensinamentos em espaços públicos, onde engajava 
cidadãos em reflexões sobre virtude, justiça e a boa vida. 
Não há registros de textos escritos por Sócrates, e seu pensamento chegou até 
nós apenas por meio de testemunhos indiretos, especialmente dos escritos de seus 
discípulos, como Platão e Xenofonte. Essa ausência de obra direta pode estar ligada 
à própria concepção socrática de filosofia, que entendia o filosofar como uma atividade 
essencialmente dialógica, viva e realizada na interlocução direta, e não na fixação 
escrita de doutrinas. 
Platão (424/423 – 348/347 a.C.), natural de Atenas, fundou em 387 a.C. a 
Academia, uma instituição de ensino integral e sem restrições temáticas que 
se tornaria um modelo precursor das futuras universidades (Figura 10). Entre 
seus diálogos mais célebres destacam-se “A República”, “O Banquete”, 
“Fédon” e a “Apologia de Sócrates”, nos quais desenvolveu e perpetuou, 
por escrito, o pensamento de seu mestre Sócrates e suas próprias teorias 
filosóficas. 
Figura 10 – Representação da Academia de Platão, por Rafael Sanzio 
Fonte: https://x.gd/uNEuE. 
Aristóteles (384–322 a.C.), natural de Estagira, na Macedônia, foi aluno e 
discípulo de Platão, tendo estudado por anos na Academia. No entanto, desenvolveu 
uma filosofia distinta e fundou sua própria escola, o Liceu, em 336 a.C. Enquanto 
Platão privilegiava o “Mundo das Ideias”, Aristóteles, ainda que reconhecesse uma 
dimensão metafísica, voltava-se de maneira sistemática para a realidade material e 
sensível. Sua investigação abarcou praticamente todos os campos do saber 
conhecidos em sua época, resultando em obras fundamentais como “Metafísica”, 
“Ética a Nicômaco”, entre outras (Chauí, 2000).Um último grupo relevante é o dos filósofos helenistas. O helenismo, que se 
inicia com a morte de Alexandre Magno em 323 a.C., marcou uma significativa 
transição na história da filosofia. Com o falecimento de Alexandre, Aristóteles deixou 
Atenas e morreu no ano seguinte. No período que se seguiu, entre o fim do século IV 
a.C. e os primeiros séculos da Era Cristã, Atenas continuou a ser um polo intelectual
que atraía jovens de diversas regiões. Foi nesse contexto que se consolidaram novas 
correntes de pensamento, destacando-se principalmente as escolas epicurista, 
estoica e cética. 
5.1 Organização política e instituições 
A combinação das condições geográficas da Hélade com as experiências 
culturais, econômicas e políticas das diversas comunidades da região levou ao 
surgimento do conceito de pólis. Embora frequentemente traduzida como “cidade”, a 
pólis representava muito mais: era a vida e o governo da comunidade em seu sentido 
pleno. A reflexão sobre a política ocupou lugar central no pensamento grego, e muitos 
dos valores que então se consideravam essenciais para um bom governo 
permanecem relevantes hoje: ética, a responsabilidade pelo bem comum e o princípio 
da isonomia (igualdade perante a lei). 
Bauer, Alves e Oliveira (2019) afirmam que a política e as instituições eram tão 
fundamentais que levaram Aristóteles a definir o ser humano como um “animal 
político” (zoon politikon). Essa organização também estabelecia uma divisão social 
marcante: entre aqueles que detinham o direito de participar da vida política – os 
cidadãos – e os que estavam excluídos dela, os não cidadãos. 
Como já destacado, a Grécia Antiga nunca constituiu um Estado unificado sob 
um único governo. Ela era, na verdade, um conjunto de cidades-estado (pólis) 
independentes, cada uma com características, organizações e instituições políticas 
próprias. Essas pólis podiam compartilhar certas semelhanças culturais ou religiosas, 
mas suas estruturas de governo variavam significativamente. Enquanto algumas 
regiões, como Atenas e Esparta, desenvolveram sistemas políticos complexos e 
experimentaram diferentes formas de governo (como a democracia ou a oligarquia), 
outras mantiveram organizações sociais mais arcaicas, baseadas em estruturas de 
clã e modelos herdados do período homérico. Essa diversidade política foi uma marca 
fundamental da experiência grega antiga. 
De acordo com Cardoso (1990), embora cada cidade-estado tivesse suas 
particularidades, é possível identificar pelo menos três características comuns a todas 
elas: 
• Divisão formal do governo em uma ou mais assembleias, em um ou mais
conselhos e em determinado número de magistrados selecionados –
geralmente todos os anos – entre os cidadãos considerados aptos.
• Participação direta dos cidadãos na vida política; a ideia de cidade-estado
pressupõe a tomada de decisões coletivas, aprovadas por votação após
debates realizados nos conselhos e/ou assembleias, cujas resoluções eram
obrigatórias para toda a comunidade; em outras palavras, os cidadãos com
plenos direitos exerciam a soberania.
• Ausência de uma separação rigorosa entre as instâncias de governo e de
justiça, bem como a integração da religião e dos sacerdotes à estrutura do
Estado.
A seguir, serão apresentadas as formas de organização política e as principais
instituições de duas das mais influentes cidades-estado da Grécia Antiga: Atenas e 
Esparta. 
5.2 Atenas 
Até o século V a.C., Atenas não detinha grande influência na Hélade. Seu 
protagonismo emergiu a partir de vitórias militares, do fortalecimento de suas relações 
econômicas e, sobretudo, do desenvolvimento do regime democrático, que a 
transformou em uma referência política e cultural – a ponto de sua história ser 
frequentemente tomada como sinônimo da "história da Grécia", uma generalização 
historiograficamente equivocada. A trajetória política ateniense evoluiu da monarquia 
para governos aristocráticos e depois para tiranias, até consolidar-se, no período 
clássico, na democracia. Conforme destaca Funari (2002): 
O regime aristocrático não acabou de uma hora para outra em Atenas. A 
trajetória política dos atenienses até o regime de maior participação popular 
da Antiguidade foi marcada por várias e longas etapas. Para que se chegasse 
à democracia foi preciso muita luta popular, pois os aristocratas não cederam 
facilmente. Isso foi possível, entre outros motivos, graças à ampliação do 
comércio marítimo ateniense, ocorrida a partir do século VI a.C., que tornou 
o poder dos comerciantes grande o suficiente para contrastar com o domínio
dos grandes proprietários rurais. Os próprios camponeses conseguiram 
ampliar sua participação social devido, também, ao seu crescente papel 
econômico em uma Atenas cada vez mais voltada para o mundo exterior 
(Funari, 2002, p. 34). 
Para compreender o sistema político-democrático ateniense e suas 
instituições, é fundamental ter em mente que a sociedade se dividia entre cidadãos e 
não cidadãos. A cidadania era restrita a homens livres, filhos de pai e mãe atenienses. 
Os não cidadãos incluíam mulheres, metecos (estrangeiros residentes) e 
escravizados. Apenas os cidadãos detinham direitos políticos, podendo votar e ser 
votados, administrando a pólis de forma direta, principalmente por meio da 
assembleia. Bauer, Alves e Oliveira (2019) destacam que essa é uma diferença 
essencial em relação à democracia contemporânea, que é predominantemente 
representativa, enquanto a ateniense era fundamentalmente direta. Dessa forma, as 
principais instituições do governo democrático ateniense eram: 
• Assembleia (Ekklesia): era o principal órgão da democracia direta ateniense,
composto por todos os cidadãos maiores de 20 anos. Reunia-se a cada dez
dias na colina de Pnix para deliberar sobre os assuntos públicos. Entre suas
competências estavam: votar leis, declarar guerra ou paz, aprovar o orçamento,
eleger magistrados e decidir sobre o ostracismo – o exílio temporário de
cidadãos considerados ameaças à democracia.
• Conselho (Bulé): era formado por 500 cidadãos com mais de 30 anos,
escolhidos por sorteio para mandatos anuais. Sua principal função era preparar
a pauta de discussões e os projetos de lei que seriam submetidos à Assembleia
(Ekklesia), funcionando como uma espécie de comissão diretiva e
administrativa da cidade.
• Areópago: originariamente um tribunal composto por aristocratas anciãos,
responsável por julgar crimes de sangue (como homicídio). Ao longo do
desenvolvimento democrático ateniense, sua composição foi reformada e seus
membros passaram a ser eleitos democraticamente, mantendo, no entanto,
funções judiciais e de supervisão religiosa e moral.
• Helieia: era a mais alta instância do poder judiciário ateniense. Dividida em 10
câmaras, contava com cerca de 6 mil jurados, todos cidadãos sorteados
anualmente. O processo era direto: não havia advogados; tanto o acusador
quanto o acusado apresentavam suas próprias alegações perante o júri.
• Magistraturas: os magistrados eram sorteados entre os cidadãos para
mandatos de um ano, não renováveis. Ao término do mandato, tinham de
prestar contas públicas, comprovando que não haviam enriquecido ilicitamente
durante o exercício da função.
Segundo Finley (1988), a concentração de poder na assembleia, a
fragmentação e a rotatividade dos cargos administrativos, a escolha por sorteio, a 
inexistência de uma burocracia assalariada e os tribunais com júri popular tinham 
como objetivo impedir a partidarização da política e bloquear o retorno de aristocratas 
ou tiranos ao poder. 
5.3 Esparta 
Formada por circunstâncias históricas específicas, Esparta estruturou-se como 
uma comunidade política centrada no ideal guerreiro, organizando sua população em 
uma rígida hierarquia de três estratos sociais: 
• Homoioi (ou “os iguais”): formavam o grupo de cidadãos completos em
Esparta, com direito total à participação política, como votar na Apela,a
assembleia onde todos os cidadãos decidiam leis e assuntos importantes. Para
chegar a esse status, os jovens precisavam completar a agogê, o treinamento
militar obrigatório que começava aos 7 anos e durava até os 30, ensinando
obediência, resistência e habilidades de combate por meio de provas duras
como marchas longas, lutas e caçadas.
• Periecos (“os que vivem ao redor”): eram os habitantes livres das regiões
ao redor de Esparta. Eles não tinham direitos políticos, ou seja, não podiam
participar das decisões da cidade, mas tinham a responsabilidade de trabalhar
a terra e cuidar da agricultura para sustentar a comunidade espartana;
• Hilotas: eram os habitantes que trabalhavam na agricultura, cultivando as
terras dos homoioi. Isso permitia que os cidadãos espartanos se
concentrassem exclusivamente na vida militar, já que os hilotas cuidavam da
produção de alimentos e do sustento da cidade.
Esparta era governada por um sistema único chamado diarquia, com dois reis
hereditários de famílias diferentes (Ágidas e Euripôntidas), que atuavam como líderes 
militares, religiosos e judiciais. Além dos reis, existiam outras instituições principais 
que dividiam o poder entre assembleias, conselhos e supervisores (Quadro 2): 
Quadro 2 – Sistema de governo espartano 
Instituição Composição Função principal 
Características 
adicionais 
Reis 
(Diarquia) 
Dois reis hereditários 
(famílias Ágidas e 
Euripôntidas) 
Liderança militar, 
religiosa e judicial 
Coadjuvados pelas demais 
instituições; atuação 
limitada pela fiscalização 
dos éforos. 
Apela 
Todos os homoioi com 
mais de 30 anos 
Assembleia popular 
para aprovar leis e 
decisões 
Votava propostas da 
Gerúsia; não discutia as 
propostas. 
Gerúsia 
28 anciãos esparciatas 
com + 60 anos + 2 reis 
Conselho que 
preparava leis, 
julgava crimes 
graves 
Membros eleitos 
vitaliciamente; órgão 
legislativo e judicial. 
Éforos 
5 cidadãos eleitos 
anualmente pela Apela 
Fiscalização dos reis 
e supervisão da 
administração 
Poderosos na prática; 
podiam punir reis e 
controlar educação e 
guerra. 
 Fonte: adaptado de Bauer, Alves e Oliveira, 2019. 
5.4 Helenismo e cultura grega 
Para compreender o conceito de Helenismo, é útil recorrer à definição 
apresentada por Silva e Silva (2009): 
Ao falarmos de helenismo, estamos normalmente nos referindo à civilização 
desenvolvida na Antiguidade a partir da Grécia Clássica e de sua cultura. Tal 
período, iniciado, para alguns autores, com o Império de Alexandre Magno 
[também conhecido como Alexandre, o Grande] no século IV a.C., marcou a 
transição da civilização grega para a romana. Nesse sentido, o helenismo foi 
a expansão da cultura grega a partir do intercâmbio que o Império de 
Alexandre Magno promoveu entre essa cultura e diversas civilizações 
orientais, como os egípcios e os persas (Silva; Silva, 2009, p. 178). 
Portanto, o período helenístico representou a difusão da civilização grega, 
acompanhando a formação do império de Alexandre, o Grande. Seu fim é comumente 
associado à dominação romana sobre o Oriente. Conforme propõe Momigliano 
(1991), o helenismo pode ser compreendido como uma sociedade renovada, dada a 
sua capacidade de assimilação, transformação e fusão de distintas tradições culturais. 
A conquista de um vasto território por Alexandre, o Grande, ultrapassou em 
muito os limites do mundo das poleis gregas, estendendo-se desde o Egito e a 
Palestina até a Mesopotâmia, a Pérsia e as fronteiras da Índia (Funari, 2002). Esse 
movimento expansionista promoveu, ainda durante a vida do soberano, a difusão da 
cultura grega, um fator decisivo para a helenização de seu império. Mesmo após sua 
morte e a consequente fragmentação do domínio em três reinos principais – centrados 
na Macedônia, no Egito e na Mesopotâmia –, o processo de fusão cultural entre as 
matrizes helênica, egípcia, persa e mesopotâmica perdurou e floresceu nos grandes 
centros urbanos da época. 
Desse modo, compreende-se o helenismo como uma síntese cultural cujos 
fundamentos são de origem grega, mas profundamente transformados por diversas 
influências asiáticas. Conforme destacam Silva e Silva (2009), o helenismo representa 
um momento de intensa fusão cultural entre o clássico grego, a cultura egípcia, a 
mesopotâmica, a persa e mesmo a hindu. 
A língua grega constitui outro pilar fundamental para o entendimento do 
helenismo. Em suas campanhas, Alexandre promoveu a adoção do grego koiné (o 
dialeto comum) como língua franca, suplantando outros dialetos e assimilando 
elementos linguísticos de outras culturas. Essa unificação linguística facilitou a 
comunicação em um império marcado por uma grande diversidade étnica e permitiu 
que práticas culturais gregas, como a educação, se disseminassem. A própria 
expansão militar despertou a curiosidade dos gregos sobre os povos conquistados, 
levando-os a examinar e contrastar seus traços culturais com os dos nativos, num 
processo contínuo de assimilação, rejeição e adaptação das singularidades com as 
quais se defrontavam. 
6 POVOAMENTO E ASPECTOS GEOGRÁFICOS 
É fundamental esclarecer, para evitar interpretações anacrônicas, que a 
expressão "Roma Antiga" não se restringe à urbe fundada às margens do Tibre. Neste 
contexto, os termos "Roma" e "romanos" designam o próprio Império Romano em sua 
totalidade geopolítica e o conjunto social que ocupava seus vastos domínios. Essa 
observação serve também para destacar que, na Antiguidade, não existia uma 
entidade nacional correspondente à Itália contemporânea, nem fronteiras definidas 
conforme os padrões estatais modernos. Compreendido esse esclarecimento, 
vejamos as características fundamentais da região onde a história romana se originou. 
A Península Itálica apresenta cadeias montanhosas em seu centro e ao norte. 
Nas áreas litorâneas e nos vales fluviais, porém, predominam solos de grande 
fertilidade, os quais propiciaram o desenvolvimento da agricultura e da pecuária. Essa 
vocação agropecuária, aliás, está na própria raiz do nome do território, conhecido 
como "Terra dos Vitelos" ou Itália. Os povos latinos habitavam a região da planície, e 
foi na margem esquerda do rio Tibre – próximo à sua foz – que a cidade de Roma 
surgiu por volta do século VIII a.C. 
De acordo com Funari (2002), é possível detalhar a composição dos povos que 
habitavam a região e suas principais práticas comerciais e econômicas: 
As possibilidades econômicas eram grandes, tanto na produção agrícola 
(trigo e outros cereais) e na criação de animais, como no comércio. Desde o 
início do primeiro milênio a.C., os povos que ocupavam a Península eram 
indo-europeus, como os latinos, sabinos e gregos, ao sul, e os etruscos, uma 
civilização original que combinava elementos gregos e orientais (Funari, 
2002, p. 81). 
A fundação da cidade de Roma é envolta em narrativas diversas. Entre 
as versões míticas, destaca-se a célebre lenda de “Rômulo, Remo e a loba” (Figura 
11). Para além do campo das tradições lendárias, contudo, as pesquisas 
arqueológicas e históricas propõem explicações sobre as origens da urbe. Uma 
das hipóteses mais consolidadas sugere que Roma teria surgido na região do 
Lácio por iniciativa dos etruscos, os quais teriam unificado em uma única 
comunidade, diferentes povoados de sabinos e latinos (Barbosa, 2009). 
Figura 11 – A loba amamentando Rômulo e Remo 
Fonte: https://x.gd/Gbo9F. 
Bauer, Alves e Oliveira (2019) revelam que no período compreendido entre 753 
a.C. e 509 a.C., Roma consolidou-se enquanto núcleo urbano, e o latim firmou-se
como idioma principal. A tradição relata que, em 509 a.C., os patrícios lideraram uma 
rebelião contra o domínio etrusco, destituindo a dinastia dos Tarquínios e instaurando 
o regime republicano. A figura de Brutus é apontada como líder dessa revolta, tendo
se tornado o primeiro magistrado da nova república. Como resultado da crescente 
centralização de poder por Roma,a Península Itálica transformou-se em um polo de 
influência no Mediterrâneo, passando a disputar a hegemonia regional com gregos e 
persas. 
6.1 Temporalidade da Roma Antiga 
A periodização é uma ferramenta interpretativa, não uma verdade absoluta. 
Recordando, toda divisão em períodos históricos decorre de pressupostos 
conceituais, metodológicos e teóricos, refletindo as escolhas e perspectivas do 
historiador. A história da Roma Antiga, seguindo essa lógica, é tradicionalmente 
organizada em três fases principais: 
• Monarquia: iniciou com a fundação de Roma em 753 a.C. e durou até 509 a.C.,
quando o último rei foi deposto.
• República: começou em 509 a.C., após a expulsão dos reis, e se estendeu até
27 a.C., marcada pelo governo dos cônsules e Senado.
• Império: surgiu em 27 a.C., quando Otaviano recebeu o título de Augusto do
Senado, e terminou em 476 d.C. com a queda do Império Romano do Ocidente.
Essa periodização deixa claro que foram eventos políticos os selecionados
como marcos divisórios da história romana antiga. Caso outros parâmetros fossem 
adotados – como os culturais, sociais ou religiosos –, a delimitação dos períodos 
poderia ser significativamente diferente. 
Monarquia 
Este período abrange desde a fundação lendária de Roma (753 a.C.) até o fim 
da monarquia (509 a.C.). As fontes históricas disponíveis para seu estudo são 
limitadas, baseando-se principalmente em relatos de autores romanos como Tito Lívio 
e Virgílio, que mencionam reis de caráter quase lendário. 
Sabe-se que os reis concentravam as funções executiva, judicial e religiosa, 
embora seus poderes fossem restringidos por órgãos legislativos, como o Senado (ou 
Conselho de Anciãos), que tinha a prerrogativa de aprovar ou rejeitar as propostas do 
monarca. A validação das leis ocorria na Assembleia (ou Cúria), composta por todos 
os cidadãos em idade militar. O crescimento econômico, inclusive a expansão 
comercial, intensificou-se durante o período de domínio etrusco, iniciado no século VII 
a.C.
Durante essa fase, ressalta Guarinello (2023), a sociedade romana estava 
estruturada em três estratos sociais principais: 
• Os patrícios: que detinham a cidadania romana, eram proprietários de terras
e rebanhos e formavam a aristocracia governante.
• Os plebeus: compostos majoritariamente por membros de povos
conquistados. Eram livres, mas não possuíam direitos políticos plenos.
• Os clientes: indivíduos vinculados a uma família patrícia (seus patronos), a
quem deviam obrigações de natureza econômica, moral e religiosa em troca
de proteção e sustento.
De fato, há discordâncias historiográficas sobre o fim da Monarquia Romana.
Alguns estudiosos sustentam que ela terminou de maneira abrupta, com uma revolta 
patrícia que depôs o rei Tarquínio, o Soberbo, em 509 a.C. Outros argumentam que o 
processo foi gradual, estendendo-se de 509 a.C. até cerca de 376 a.C., com 
mudanças políticas mais lentas que efetivamente consolidaram o novo regime. 
República 
O período conhecido como República Romana – cujo nome deriva da 
expressão latina res publica, que significa literalmente "coisa pública" ou "assunto 
comum" – abrange o intervalo histórico entre o fim da Monarquia, em 509 a.C., e a 
instauração do Império Romano, em 27 a.C. 
Sob o regime republicano, que vigorava em Roma e em suas províncias, o 
poder executivo era exercido por um sistema político no qual dois magistrados, 
denominados cônsules, eram eleitos anualmente. Em períodos de paz, esses 
magistrados eram conhecidos como iudices (juízes), e, em tempos de guerra, como 
praetores (literalmente, "os que vão à frente"). Nessa fase, as funções religiosas, antes 
concentradas no rei, foram transferidas para duas figuras específicas: o rex sacrorum 
(rei dos sacrifícios) e o pontifex maximus (sumo pontífice). 
Algumas instituições herdadas do período monárquico foram preservadas, 
porém com suas funções redefinidas para se adequarem ao novo regime republicano. 
Conforme aponta Funari (2002), foi durante a República que se verificou uma 
progressiva ampliação dos direitos políticos da plebe: 
Nos primeiros tempos da República romana, os patrícios detinham todos os 
direitos políticos e só eles podiam ter cargos políticos, como os de cônsul e 
senador. Os patrícios constituíam uma aristocracia de sangue, com 
antepassados comuns, daí seu nome "aqueles com pais". Os clientes e a 
plebe (composta de homens livres, pequenos agricultores, comerciantes e 
artesãos) não possuíam direitos plenos. O poder dos patrícios vinha da posse 
e exploração da terra, trabalhada por camponeses, às vezes escravizados 
por dívidas. Os patrícios romanos governavam a cidade principalmente em 
benefício próprio, aplicavam as leis conforme seus interesses pessoais e 
procuravam reduzir à servidão plebeus camponeses que não conseguiam 
pagar suas dívidas. Somente depois de mais de dois séculos de luta entre 
plebeus insatisfeitos e patrícios poderosos, é que os plebeus conseguiram 
progressivamente obter direitos políticos iguais aos [dos] nobres. Por volta de 
450 a.C., os plebeus conseguiram que as leis segundo as quais as pessoas 
seriam julgadas fossem registradas por escrito, numa tentativa de evitar as 
injustiças do tempo em que as leis não eram escritas e os cônsules, sempre 
da nobreza de sangue, administravam a justiça como bem entendiam, 
conforme suas conveniências. O conjunto de normas finalmente redigidas foi 
chamado “A Lei das Doze Tábuas”, que se tornou um dos textos 
fundamentais do Direito romano, uma das principais heranças romanas que 
chegaram até nós (Funari, 2002, p. 83). 
Bauer, Alves e Oliveira (2019) analisam que a mobilização dos plebeus resultou 
em uma série de conquistas, incluindo a abolição da escravidão por dívidas, a criação 
do cargo de tribuno da plebe – um magistrado com poder de veto para proteger seus 
interesses –, o reconhecimento da autoridade da Assembleia da Plebe e a permissão 
para casamentos entre patrícios e plebeus, anteriormente vedados. 
Foi no contexto republicano que Roma deu início a sua expansão territorial, 
conquistando primeiro a Península Itálica e depois estendendo seu domínio pelas 
margens do Mediterrâneo. Esse processo expansionista, conduzido tanto pela força 
militar quanto por estratégias diplomáticas, provocou transformações profundas na 
vida cultural, econômica, política e social romana. 
Assim, um dos marcos decisivos dessa expansão foram as Guerras Púnicas, 
conflitos travados entre Roma e Cartago – os cartagineses, conhecidos como puni 
(fenícios). Cartago, uma cidade-estado de origem fenícia situada no norte da África, 
controlava desde o século III a.C. o comércio no Mediterrâneo. Seus prósperos 
mercadores mantinham diversas colônias em territórios que hoje correspondem à 
Sicília, Sardenha, Córsega, Espanha e ao litoral norte-africano. 
O regime republicano ingressou em uma crise grave no início do século I a.C., 
precipitada por uma série de ações inconstitucionais de Sila. Em 82 a.C., este tomou 
a cidade de Roma com seu exército e autoproclamou-se ditador perpétuo. Embora 
posteriormente tenha renunciado e devolvido formalmente o poder ao Senado, sua 
intervenção minou a confiança no sistema político vigente. Esse colapso institucional 
abriu caminho para a formação dos triunviratos. O primeiro foi composto por Júlio 
César, Pompeu e Crasso; o segundo, por Otávio, Marco Antônio e Lépido. 
Império 
A expressão "Império Romano" é amplamente utilizada por historiadores e pelo 
público em geral. No entanto, o que ela realmente designa? Costuma-se referir ao 
Império tanto como um período histórico – que se estende de 27 a.C. a 476 d.C. — 
quanto como uma realidade geopolítica. Esse foi um vasto território, da Britânia ao 
Egito, da Lusitânia à Síria. Além disto, englobou uma população de cerca de 60 
milhões de pessoas que se articulavam mediante as mais diversas formas de 
organização política de caráter local e regional. Poressa razão, a historiografia 
contemporânea tem relativizado o uso desse termo: 
A arbitrariedade implícita na unidade e amplitude desta definição é clara, e a 
aceitamos por mera convenção. Contudo, nos estudos concretos sobre o 
Império Romano, a suposta unidade desaparece, de maneira que não se trata 
mais de pensar em Império Romano, mas sim em “Impérios Romanos”. Trata-
se então de problematizar que a noção de Império Romano como a utilizamos 
não nos é legada pelas fontes coetâneas; da mesma maneira que as fontes 
do período republicano não tratam de “toda” a República Romana, assim 
como as do período imperial não tratam do Império Romano como um todo 
(Faversani; Joly, 2014, p. 11). 
Assim, adota-se aqui, por convenção, a designação "Império Romano" para se 
referir ao Estado romano após a reorganização política realizada pelo primeiro 
imperador. A partir desse momento, diferentemente do que ocorria na República, o 
cargo máximo do governante tornou-se vitalício. O período imperial costuma ser 
dividido em duas fases principais: o Principado, que vai do governo de Augusto até a 
crise do século III, e o Dominato, que se estende de Diocleciano até o fim do Império 
Romano do Ocidente. 
O governo de César Augusto é reconhecido como uma era de prosperidade e 
expansão. Ele iniciou um longo intervalo de estabilidade interna, com 
aproximadamente 250 anos de duração (de 31 a.C. a 235 d.C.), que ficou conhecido 
como Pax Romana ("paz romana"). Conforme destaca Funari (2002): 
Castigada após tantas guerras civis, Roma adotou o regime imperial de 
governo. Os imperadores tinham grandes poderes, mas não eram reis, nem 
a sucessão era, necessariamente, hereditária. No período imperial, a 
administração dos domínios romanos foi reorganizada, visando à maior 
centralização do poder; o imperador passou a acumular todos os poderes 
apesar de continuarem a existir os órgãos administrativos da República. O 
imperador era reverenciado e adorado como um dos deuses romanos, daí 
sua enorme autoridade, derivada também do temor que inspirava. No 
"período de paz", novas conquistas foram efetivadas e as atividades 
econômicas e culturais ganharam grande impulso, surgindo novos e 
portentosos edifícios, monumentos, aquedutos, pontes, circos e anfiteatros 
(Funari, 2002, p. 90). 
Após a morte de Teodósio, o Império Romano foi dividido em duas partes: o 
Império Romano do Ocidente, com capital em Roma, e o Império Romano do Oriente, 
sediado em Constantinopla. Constantemente invadido pelos chamados povos 
"bárbaros" e enfraquecido por questões internas relacionadas à dinâmica entre as 
províncias e o poder central, o Império Romano do Ocidente chegou ao fim em 476 
d.C.
6.2 Expansão romana 
Apesar de não ser uma cidade litorânea, a dominação da Península Itálica fez 
com que o mar Mediterrâneo ganhasse grande importância para os romanos, 
transformando-se em uma via de integração entre as diversas regiões do Império. 
Para compreender plenamente essa relevância, é essencial analisar como ocorreu a 
expansão romana e a conquista de outros povos. Nesse contexto, entender as 
Guerras Púnicas é fundamental. 
As Guerras Púnicas, iniciadas durante a República, foram decisivas para o 
aperfeiçoamento das táticas militares romanas e para a definição de estratégias de 
ocupação dos territórios conquistados. Conforme destaca Magnoli (2006): 
[...] para que se tenha uma ideia da importância dessas guerras, basta 
pensarmos que antes da Primeira Guerra Púnica os romanos não haviam 
saído, ainda, da Península Itálica, e ao final da Terceira Guerra já haviam 
submetido o norte da África e a Península Ibérica e estavam dirigindo seus 
olhares para terras mais distantes, como a Britannia (atual Inglaterra) e 
regiões mais orientais [...] (Magnoli, 2006, p. 87). 
As Guerras Púnicas foram uma série de conflitos travados entre Roma e 
Cartago pela hegemonia econômica e política no Mediterrâneo. Elas se desenrolaram 
em três fases distintas entre os séculos III e II a.C.: a Primeira Guerra Púnica (264–
241 a.C.), a Segunda Guerra Púnica (218–201 a.C.) e a Terceira Guerra Púnica (149–
146 a.C.). Como já foi mencionado, Cartago era uma cidade-estado de origem fenícia 
com vasta experiência comercial e naval, que dominava grande parte do comércio 
mediterrâneo. Seu território se estendia desde o norte da África, abrangendo o oeste 
da Sicília, a Sardenha, a Córsega e parte da Península Ibérica. 
A Primeira Guerra Púnica teve início com a invasão e conquista romana da 
colônia cartaginesa de Messina, na Sicília. Ao final do conflito, os romanos saíram 
vitoriosos e anexaram a Sicília, a Córsega e a Sardenha. O segundo conflito foi 
desencadeado pelos ataques do general cartaginês Aníbal. Partindo da Península 
Ibérica – região conquistada por seu pai, Amílcar –, ele infligiu uma série de derrotas 
aos romanos. Em resposta, Roma lançou um ataque direto contra Cartago, forçando 
Aníbal a deslocar o teatro de operações (Figura 12). 
Figura 12 – Trajeto de Aníbal na segunda guerra Púnica 
Fonte: https://x.gd/VDntp. 
A derrota cartaginesa impôs a submissão a Roma, incluindo o pagamento de 
tributos e a proibição de travar guerras. Também permitiu que Roma reconquistasse 
a Península Ibérica. Por fim, a Terceira Guerra Púnica resultou na invasão e 
destruição total da cidade de Cartago pelos romanos. A cidade foi incendiada e seus 
sobreviventes, reduzidos à escravidão. No entanto, nem todas as conquistas romanas 
foram alcançadas pela força militar. Muitas resultaram de alianças estratégicas com 
povos vizinhos, o que inicialmente permitiu a Roma estender seu controle sobre toda 
a Península Itálica: 
Roma foi uma cidade que expandiu seu poder ao ponto de se tornar um 
grande Império, com sua territorialidade presente por séculos em boa parte 
da Europa Ocidental, além do norte da África e parte da Ásia. Suas táticas de 
territorialização iam desde o inicial domínio militar até a utilização das 
políticas de romanização, onde incluímos a introdução dos costumes 
romanos como a religião, as tradições, numa clara tentativa de transformação 
dos povos sob o domínio de Roma em romanos. Entre essas táticas 
existentes destacamos em nossos estudos a padronização da arquitetura e o 
planejamento urbanístico das cidades construídas ou reconstruídas por 
Roma (Freitas, 2009, p. 61). 
De acordo com Bauer, Alves e Oliveira (2019), o tratamento dispensado aos 
povos conquistados variava significativamente, dependendo de sua postura em 
relação ao poder romano. Os que aceitavam aliar-se a Roma podiam obter direitos de 
cidadania, totais ou parciais. Por outro lado, aqueles que resistiam eram subjugados: 
muitos eram vendidos como escravos, enquanto outros passavam a pagar impostos 
e tributos significativos ao Estado romano. Veja o que afirma Funari (2002): 
Na prática, a aliança com Roma significava o fornecimento de forças militares, 
chamadas auxiliares, a aceitação da hegemonia política romana, mas 
também permitia um grau, bastante variável, de integração com o Estado 
romano. Os subjugados eram massacrados ou escravizados e suas terras 
eram tomadas e divididas entre os romanos e seus aliados. O método de 
tratar de maneiras diferentes os povos vencidos era eficaz e favorecia o 
domínio romano, pois dificultava as uniões entre os derrotados e suas 
revoltas contra Roma. Alguns povos aliados recebiam todos os direitos dos 
cidadãos romanos incluindo o de voto, ainda que este fosse pouco 
importante, já que as assembleias eram dominadas pela nobreza e porque o 
voto exigia a presença física em Roma. Outros povos recebiam somente 
alguns direitos que não o de votar. Com outros ainda, mais numerosos, Roma 
selava sua aliança permitindo-lhes manter seus próprios magistrados e leis 
tradicionais, mas submetendo-os à tutela romana e exigindo que 
fornecessem a Roma todas as tropas que esta requisitasse (Funari, 2002, p. 
86). 
Esse impulso expansionista, juntamente com a complexarede de acordos e 
alianças estabelecida com os povos conquistados, consolidou o exército romano 
como uma instituição fundamental. Conforme Mendes (2007), ainda no final do 
período republicano, os generais passaram a usar suas legiões como instrumentos de 
poder pessoal. Essa prática foi posteriormente apropriada pelos imperadores, que se 
tornaram comandantes supremos das forças armadas, dedicando-se a garantir a 
disciplina, o abastecimento e as recompensas dos soldados. Paralelamente, surgiu a 
necessidade de patrulhar os mares e combater a pirataria, o que levou à 
institucionalização da marinha, organizada em duas frotas principais. Seus tripulantes 
eram recrutados principalmente entre libertos e peregrinos, que recebiam uma 
remuneração inferior à dos legionários. 
A expansão e as conquistas romanas promoveram transformações sociais 
significativas. Após consolidar o domínio sobre toda a Península Itálica, a partir do 
século III a.C., o Império direcionou sua expansão para além da Itália. Isso acelerou a 
transformação da sociedade, originalmente camponesa. Simultaneamente, as guerras 
passaram a gerar lucros expressivos, especialmente por meio da captura e venda de 
inimigos, que eram escravizados e incorporados como força de trabalho. 
7 FORMAÇÃO DA CULTURA ROMANA 
Segundo Funari (2002), a cultura grega exerceu uma influência decisiva na 
formação da cultura romana. A interação entre esses povos, já a partir do período da 
Magna Grécia, possibilitou que os romanos assimilassem divindades gregas e 
incorporassem a mitologia helênica às narrativas fundadoras de Roma. Esse 
processo, como destaca o autor, revela a heterogeneidade e a fluidez cultural na 
Antiguidade: 
[...] a presença de elementos gregos no mundo romano adquire sentido em 
sua específica reelaboração pelos romanos, eles mesmos uma grande 
cultura de síntese, sempre capaz de absorver e transformar as outras 
culturas. Os romanos da elite aprendiam o grego, falavam e escreviam-no 
com perfeição, colecionavam obras de arte gregas, mas nunca se 
confundiram com os gregos (Funari, 2002, p. 124). 
Conforme Funari e Silva (2009), elementos das culturas grega e judaica foram 
apropriados e valorizados pelas elites do Império Romano como uma estratégia para 
consolidar e manter seu domínio. Essa assimilação se fez necessária devido à grande 
diversidade cultural e linguística resultante da expansão territorial romana. A busca 
por uma certa uniformidade cultural era vista como um mecanismo de controle, 
embora esse processo só tenha se efetivado de maneira mais ampla por volta do 
século IV d.C. O autor destaca cinco aspectos fundamentais para compreender essa 
dinâmica: 
• instituição de um culto religioso ao imperador em todas as províncias, servindo
como elemento unificador da lealdade entre os habitantes do Império e seu
governante;
• ampliação gradual da cidadania romana – e, consequentemente, da aplicação
do direito romano –, inicialmente concedida às elites provinciais, depois a
cidades e províncias inteiras até alcançar todos os habitantes do Império;
• política de tolerância quanto à diversidade étnica e aos costumes locais;
• incentivo ao sincretismo religioso, por meio da reinterpretação e integração das
crenças locais em um panteão pluriétnico, constantemente aberto à
assimilação de novas divindades;
• consolidação de duas amplas zonas linguístico-culturais dotadas de prestígio
social e função político-administrativa: a de predominância do latim,
correspondente à metade ocidental do Império, e a de predominância do grego, 
que abrangia todo o Mediterrâneo oriental. 
Para compreender o processo de "helenização" do Império Romano, é 
fundamental considerar o contexto do Mediterrâneo oriental: 
No Mediterrâneo oriental, com efeito, o Império se estendera sobre uma 
região onde a vida urbana já era muito antiga e onde a cultura literária grega 
ocupava, já desde séculos, o lugar e a função de cultura legítima, de cultura 
de prestígio, de cultura de elite. Isso não significa, no entanto, que o Oriente 
romano fosse plenamente helenizado. [...] Pelo contrário, a cultura grega 
atuava como uma espécie de sistema cultural de intercâmbio, como uma 
cultura franca que permitia o contato entre povos e pessoas com substratos 
culturais próprios e distintos, aos quais se sobrepunha sem anulá-los (Funari; 
Silva, 2009, p. 154). 
A "identidade grega" tão apreciada pelos romanos estava intrinsecamente 
ligada ao universo urbano e ao estilo de vida citadino. Essa identidade manifestava-
se em instituições características, como conselhos e assembleias populares, ginásios 
para a prática física, templos, oráculos, ritos e divindades do panteão clássico grego. 
Em grande medida, essa identidade foi construída e perpetuada por um saber escolar, 
difundido por meio de escolas presentes em todas as cidades e cujas figuras de proa 
eram os oradores e filósofos. 
Embora, argumentam Bauer, Alves e Oliveira (2019), a ascendência 
continuasse a ser um critério valorizado para definir a condição helênica, a identidade 
grega foi, progressivamente, se desvinculando de uma noção estritamente étnica. 
Desse modo, ela se consolidou como uma identidade cultural em sentido específico, 
fundamentada no domínio correto da língua e no conhecimento da tradição clássica. 
Em outras palavras, era possível tornar-se grego independentemente da origem 
geográfica ou do nascimento. 
A identidade grega foi forjada, no período da Segunda Sofística, a partir de 
elementos construídos: uma língua erudita e artificial – bastante distante do vernáculo 
corrente –, que buscava reproduzir fielmente o grego falado em Atenas no século V 
a.C.; uma memória comum partilhada por todos os gregos; e um passado clássico
idealizado, que elegeu as narrativas sobre Atenas, Esparta e a Guerra do Peloponeso 
como a história emblemática de toda a Hélade. 
7.1 Cristãos e judeus na Roma Antiga 
Para compreender esse contexto, é fundamental conhecer as práticas 
religiosas romanas. Conforme Funari (2002), a religião na Roma Antiga era politeísta 
e antropomórfica, recebendo influências etruscas e gregas, além de incorporar 
elementos de outros cultos durante a expansão imperial. Essa característica 
assimiladora foi, segundo o autor, um elemento central para a consolidação do poder 
romano. A flexibilidade religiosa dos romanos, o respeito a outras religiões e a 
facilidade de incorporá-las foi um fator importante em sua capacidade de dominar 
povos tão variados e uma área geográfica tão grande. 
Os romanos manifestavam sua devoção aos deuses por meio de oferendas em 
templos e santuários domésticos. Realizavam também procissões, orações e 
sacrifícios públicos, conforme descrito por Veyne (2009): 
O calendário religioso, diferente de uma cidade para outra, periodicamente 
restaurava festas religiosas; essas festas eram feriados. A religião 
determinava assim a distribuição irregular dos dias de descanso ao longo do 
ano (a semana, de origem mais astrológica que judaico-cristã, só entrou em 
uso no final da Antiguidade). Nesses dias um romano convidava os amigos a 
assistirem ao sacrifício que oferecia em sua casa, o que os honrava ainda 
mais que simplesmente convidá-los para jantar. Conta Tertuliano que a casa 
desprende vapores de incenso nessas grandes ocasiões: as festas nacionais 
dos imperadores e de alguns deuses, o primeiro do ano e o primeiro dia de 
cada mês; pois um costume caro aos romanos que tinham meios para tanto 
era sacrificar no começo do mês um leitão aos gênios protetores da casa 
(Lares, Penates). Uma grande festa anual, celebrada com real fervor, era o 
aniversário do pai de família, que, nesse dia, se banqueteava em homenagem 
a seu gênio protetor (uma espécie de dublê divino de cada indivíduo; na 
verdade, sua existência resumia-se a permitir a cada um dizer: "Que meu 
gênio me proteja!", ou "Juro por teu gênio que obedeci a tuas ordens") 
(Veyne, 2009, p. 177-178).Os cultos e as práticas religiosas sofreram transformações ao longo do tempo. 
Durante o período Imperial, a religião oficial incorporou o culto aos imperadores como 
sendo uma espécie de religião cívica, que venerava os imperadores romanos 
divinizados após a morte. Este culto, conhecido como culto imperial, serviu, por várias 
gerações ao longo dos três primeiros séculos d.C., como um elemento aglutinador das 
elites nas diversas províncias do Império. 
Judaísmo 
Ao contrário do termo "cristão", que se refere primordialmente a adeptos de 
uma fé, a palavra "judeu" pode designar tanto os seguidores da religião judaica quanto 
um povo com origem histórica no Oriente Médio. Como observam Silva e Silva (2009), 
O Judaísmo como religião, vai além de um conjunto de textos sagrados e sua 
interpretação. Trata-se, sobretudo, de um sistema de valores que orienta diretamente 
o cotidiano de seus fiéis. Entre suas práticas mais significativas estão a circuncisão
dos meninos ao oitavo dia de vida; o Bar Mitzvá, ritual que marca a iniciação dos 
rapazes na leitura da Torá; e, em comunidades mais contemporâneas, o Bat Mitzvá, 
cerimônia equivalente para as meninas. Há também o Zéved habat ("presente da 
filha"), rito de nomeação feminina. 
No dia a dia, símbolos como a Kippá expressam a reverência à presença divina. 
Além disso, observa-se um conjunto rigoroso de regras alimentares (kashrut), 
fundamentadas principalmente no livro bíblico do Levítico. Por fim, a tradição judaica 
preserva sua memória histórica por meio de festas cíclicas, que envolvem orações, 
restrições alimentares, rituais de purificação e outras práticas que reforçam a 
identidade e a continuidade cultural. 
Ao longo de sua história, a diáspora – seja voluntária ou forçada – constituiu 
uma marca constante para os judeus, acompanhada pela crença na futura reunião de 
todos no seu território ancestral, Israel. A conquista romana de Jerusalém, em 70 d.C., 
representou um marco decisivo nessa trajetória. O Templo foi incendiado e destruído, 
e sua população, massacrada ou escravizada. Com isso, o território foi transformado 
na província romana da Judeia. 
O judaísmo é uma religião de tradição escrita, que privilegia o estudo das 
escrituras sagradas. A antiga Bíblia judaica incluía diversos livros que não foram 
incorporados ao cânone posterior, e nessas narrativas os judeus são apresentados 
como "o povo escolhido por Deus", diferenciando-se assim dos demais povos: 
Já a diáspora hebraica se deu em 70 d.C., após a destruição do Templo de 
Jerusalém pelos romanos. Tal acontecimento esteve relacionado à 
resistência cultural dos judeus, que dificultava o domínio romano e promovia 
rebeliões. Em 135 d.C. explodiu mais uma revolta em Jerusalém, sufocada 
pelo imperador Adriano. Para reprimir essa revolta, os romanos desterraram 
os judeus, espalhando-os pelo Império. Daí em diante, os judeus se 
disseminaram por todo o mundo mediterrânico, para as terras da antiga 
Mesopotâmia, para a Pérsia e para a Península Árabe, criando importantes 
comunidades judaicas por todo o mundo antigo (Silva; Silva, 2009, p. 248). 
Durante o Alto Império, a religião judaica era considerada religio licita (culto 
permitido). Posteriormente, porém, passou a sofrer perseguição, e sua comunidade 
foi marginalizada, sendo submetida a uma série de restrições e à perda de direitos 
civis. Esse contexto de repressão e tensão desencadeou uma série de conflitos entre 
Roma e os judeus, os quais, após serem derrotados, viram-se dispersos por diversas 
comunidades do mundo antigo. 
Cristianismo 
O cristianismo, conforme explica Silva (2015), surgiu como uma vertente 
espiritual proveniente do judaísmo, mantendo com este uma relação próxima e 
complexa até pelo menos o século I d.C. Observe: 
Após a destruição do Templo de Jerusalém por Tito, em 70, a proximidade 
entre o cristianismo e o judaísmo se torna, no entanto, insustentável, 
ocorrendo a dissociação progressiva entre os seguidores de ambas as 
religiões, até o ponto em que uma passa a ser vista em confronto direto com 
a outra. Ao adentrar o século II, o diálogo entre judeus e cristãos é 
praticamente interrompido (Silva, 2015, p. 75). 
A tolerância religiosa que Roma geralmente estendia aos povos conquistados 
não se aplicou, inicialmente, ao cristianismo. A intensa perseguição sofrida pelos 
cristãos no período imperial teve motivações que iam além da esfera religiosa, sendo 
sobretudo de natureza política. Os cristãos reuniam-se em cultos secretos, 
organizavam-se em pequenas comunidades e, nos primeiros tempos, foram 
frequentemente vistos como praticantes de magia, uma vez que se recusavam a 
prestar culto aos deuses romanos. Além disso, por serem monoteístas, os cristãos 
não reconheciam a divindade do imperador e rejeitavam o culto oficial ao Estado, o 
que os tornava, aos olhos de Roma, uma ameaça à ordem pública e à segurança do 
Império. Ao longo de mais de dois séculos, essa postura de recusa justificou ondas 
de perseguição. 
As execuções públicas de cristãos, martirizados em espetáculos que incluíam 
crucificação ou o lançamento às feras no anfiteatro, eram assistidas e até apreciadas 
por grande parte da população. Para a maioria dos romanos não convertidos, os 
cristãos representavam uma ameaça nociva, pois sua recusa em honrar os deuses e 
os imperadores era vista como um perigo à estabilidade religiosa e política do mundo 
romano. 
O Império Romano passou a tolerar oficialmente o cristianismo a partir de 313 
d.C., com a promulgação do Édito de Milão, firmado pelos imperadores Constantino I
(no Ocidente) e Licínio (no Oriente). O édito foi publicado na mesma data do 
casamento de Licínio com Constantia, irmã do imperador ocidental. Por meio dele, o 
cristianismo não apenas deixou de ser perseguido, como também foi reconhecido 
como uma das religiões oficiais do Império. O cristianismo foi estabelecido como 
religião oficial exclusiva do Império sob Teodósio I (379–395 d.C.), que subordinou a 
Igreja ao controle imperial. Essa decisão, contudo, não foi pacífica, uma vez que o 
paganismo ainda contava com um grande número de fiéis. 
Como destaca Funari (2002), a Palestina sob o domínio romano era um 
mosaico de povos, incluindo judeus, samaritanos, gregos e romanos. Os próprios 
judeus estavam divididos em diferentes grupos, com visões diversas sobre a religião 
e a relação com os conquistadores. Foi nesse cenário complexo que nasceu Jesus, 
figura sobre a qual pouco se sabe além do registrado nos evangelhos, escritos por 
volta de 70 d.C., provavelmente por seus seguidores: 
Nos primeiros anos, os seguidores de Jesus eram somente judeus pobres e 
humildes, como o pescador Simão, chamado de Pedro ("Rocha"). No tempo 
de suas pregações, por volta do ano 30 d.C., Jesus conquistou alguns 
seguidores entre os judeus, mas grande parte dos judeus não se converteu 
acreditando que não seria ele o Messias que seu povo tanto esperava. Jesus 
foi condenado à morte na cruz pelos romanos, acusado de dizer-se o rei dos 
judeus, em 30 d.C. Logo em seguida à sua morte, seus seguidores formaram 
uma comunidade, de gente humilde, chamados de "pobres", que se reunia 
em memória de Jesus, que passou então a ser conhecido entre os que nele 
acreditavam como "Cristo", "ungido" do Senhor, o salvador que os judeus 
esperavam e que teria morrido na cruz para salvar a todos os justos. Os 
cristãos acreditavam na existência de um único Deus universal e que Jesus 
era o Messias que trazia aos homens não riqueza e independência e sim o 
perdão de seus pecados e a promessa da felicidade eterna após a morte para 
aqueles que o merecessem (Funari, 2002, p. 128). 
Após a morte de Jesus, seus apóstolos iniciaram a pregação dos evangelhos, 
convertendo principalmente judeus das camadas mais pobres. Com o tempo, o 
cristianismo começou a expandir-se para diferentes estratos sociais e regiões do 
Império Romano. Além dos judeus convertidos, somaram-seaos adeptos da nova fé 
não judeus, escravizados, povos subjugados por Roma e pessoas humildes, mas 
também gregos e romanos das elites. Nesse sentido, a pregação do cristianismo, com 
seu destaque para a salvação e a ressurreição da alma, explica seu êxito. 
A crise que assolou o Império Romano coincidiu com o período de consolidação 
do cristianismo como uma religião de expressivo número de fiéis. Muitos romanos, 
alarmados com o colapso em curso, buscaram refúgio espiritual na religião. Uma vez 
que a religião oficial já não lhes oferecia conforto, voltaram-se para outros cultos, 
rompendo com as tradições romanas. Nesse vácuo, o cristianismo atraiu inúmeros 
adeptos, apresentando-se como uma fonte de esperança. 
7.2 Cotidiano da vida romana 
Quando falamos em “cotidiano”, a que exatamente nos referimos? O conceito 
pode ser compreendido de diferentes perspectivas: como uma dimensão social, um 
espaço concreto ou uma temporalidade específica. Também é comum defini-lo 
simplesmente como a vida do dia a dia (Veyne, 2009). No entanto, será que todas as 
pessoas vivenciam o mesmo cotidiano? Para uma análise mais precisa, não seria 
necessário considerar recortes como classe, etnia, raça e gênero, que moldam 
experiências profundamente distintas? 
Assim, o cotidiano é entendido como uma dimensão na qual as relações de 
poder – manifestas tanto na dominação quanto na resistência – tornam-se visíveis 
através de atividades, atitudes, hábitos e rotinas. É claro que esta definição preliminar 
não esgota a complexidade e a multiplicidade das experiências cotidianas, motivo pelo 
qual deve-se evitar generalizações amplas. 
Existem registros que nos permitem reconstituir aspectos da rotina cotidiana 
dos romanos. Conforme Funari (2002), costumavam acordar ao amanhecer. O 
comércio iniciava suas atividades cedo, e as repartições públicas, localizadas no 
fórum (praça central), abriam por volta das 8 horas. O trabalho seguia até o meio-dia, 
quando tudo fechava para o almoço, uma refeição leve composta geralmente por pão, 
azeitonas, queijo, nozes, figos secos e algo para beber. Havia quem levasse uma 
marmita e comesse seu almoço na rua, ou assistindo a uma luta de gladiadores no 
anfiteatro. 
Os romanos organizavam o dia em 12 horas diurnas e 12 noturnas, contadas a 
partir do nascer do sol, o que fazia sua duração variar conforme a estação. No verão, 
o "dia" (período de luz) iniciava por volta das 4h30 e se estendia até as 19h30; já no
inverno, ia aproximadamente das 7h30 às 16h30. Eles frequentavam as termas, 
complexos onde podiam desfrutar de banhos relaxantes. No período noturno, 
realizavam a principal refeição do dia, a ceia. Aqui fica evidente a distinção entre os 
estratos sociais: enquanto os mais pobres se alimentavam basicamente de pão, 
vegetais e vinho de baixa qualidade, os mais abastados participavam de longas ceias 
que podiam durar horas, compostas por entrada, prato principal com carne e 
sobremesa à base de doces ou frutas. Veyne (2009) descreve um desses banquetes: 
O banquete era muito mais que um banquete, e esperavam-se considerações 
gerais, temas elevados, recapitulações de atos pessoais; se o dono da casa 
tem um filósofo doméstico ou um preceptor dos filhos, ordena-lhe que tome a 
palavra; os interlúdios musicais (com danças e cantos), executados por 
profissionais contratados para a ocasião, podem dar mais vida à festa. O 
banquete constitui uma manifestação social equivalente ao prazer de beber 
— ou até maior — e por isso inspirou um gênero literário, o do "banquete", 
em que os homens de cultura, filósofos ou eruditos (grammatici), abordam 
temas elevados. Quando a sala de festim oferece desse modo um espetáculo 
mais de salão que de refeitório, o ideal do banquete se realiza e a confusão 
com um festejo popular já não é possível. “Beber” designava então os 
prazeres da mundanalidade, da cultura, e às vezes os encantos da amizade; 
pensadores e poetas também podiam filosofar sobre o vinho (Veyne, 2009, 
p. 172).
De acordo com Funari (2002), os romanos das cidades habitavam em domus 
(casas unifamiliares) ou insulae (prédios de apartamentos), sendo estes últimos 
destinados principalmente à população de menor poder aquisitivo. Além disso, a 
cidade planejada estruturava-se a partir de duas avenidas centrais que se cruzavam 
perpendicularmente – o cardo (norte-sul) e o decumanus (leste-oeste) –, das quais 
partiam ruas paralelas formando uma malha ortogonal semelhante a um tabuleiro de 
xadrez. No núcleo urbano, situavam-se os principais edifícios públicos, como o fórum 
(mercado), a basílica (administração), templos, termas, latrinas e teatros, sendo 
comum que aulas fossem ministradas em dependências do próprio fórum. Comércios 
como padarias e bares distribuíam-se pelas ruas, enquanto na periferia localizavam-
se o anfiteatro, áreas de exercício físico, hortas e, eventualmente, depósitos de lixo. 
Toda a cidade era circundada por uma muralha com acessos controlados por grandes 
portões, muitos ainda em uso, e suas paredes eram frequentemente cobertas por 
cartazes eleitorais que divulgavam candidatos aos cargos municipais. 
Em caso de morte, realizavam-se rituais funerários domésticos, as lemuria. No 
entanto, sua observância tinha um significado e um alcance coletivo. Cada membro 
da família tinha a obrigação de sepultar os seus próprios mortos, seguindo um ritual 
fúnebre amplamente compartilhado pela comunidade. O cortejo conduzia os falecidos 
para além dos muros da cidade, onde os cemitérios se estendiam ao longo das 
estradas, concentrando-se especialmente diante das principais portas de entrada. 
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Rio de Janeiro: Bertrand, 2002. 
VEYNE, P.; (org.). História da vida privada: do Império Romano ao ano mil. 
Tradução: Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. v. 1. 
	CAPA NOVA A4 - SEGUNDA GRADUAÇÃO (1).pdf
	HISTÓRIA ANTIGAde gregos e romanos, mas sim de um projeto europeu moderno que 
forjou uma trajetória civilizatória tendo a Antiguidade como pedra angular. Desse 
modo, o distanciamento crítico dessa construção linear permite uma reavaliação 
profunda de conceitos estabelecidos, como a própria noção de periferia. 
Um dos grandes desafios para a historiografia do século XXI consiste em 
superar a visão da História Antiga como um capítulo fundador de uma história 
 
 
 
universal e como alicerce exclusivo da civilização ocidental. Para isso, torna-se 
imperativo analisar, sob uma ótica verdadeiramente global, as complexas redes de 
integração que conectaram o Oriente Médio e o Mediterrâneo entre os séculos X a.C. 
e V d.C., tecendo as histórias da África, Ásia e Europa em uma narrativa entrelaçada. 
Esse empreendimento exige o abandono definitivo de uma perspectiva eurocêntrica e 
linear, bem como a desconstrução de leituras pautadas por conceitos anacrônicos 
como civilização, nação e progresso. 
1.1 Documentos e fontes 
Uma fonte histórica consiste em qualquer vestígio do passado – seja um 
documento escrito, um artefato material, um registro oral ou uma imagem – que sirva 
de base para a investigação historiográfica, fornecendo ao pesquisador as evidências 
e os indícios necessários para a construção de narrativas sobre épocas anteriores. A 
disponibilidade e a natureza desses registros, no entanto, variam entre diferentes 
sociedades (Barros, 2020). 
Algumas civilizações produziram uma farta quantidade de materiais que se 
convertem em fontes de estudo, enquanto em outras, esses testemunhos podem ter 
sido degradados pelo tempo ou destruídos intencionalmente pela ação humana. Há, 
ainda, culturas cuja transmissão do conhecimento se dá predominantemente pela 
oralidade, o que, em muitos casos, resulta na perda de informações ao longo das 
gerações. 
Em síntese, a maior ou menor acessibilidade às culturas de uma sociedade 
deve-se a uma multiplicidade de fatores. Ademais, cada tipologia de fonte exige um 
tratamento metodológico específico, mobilizando conceitos e disciplinas 
especializadas como a arqueologia, a etnografia e a paleografia. Tendo em vista 
sociedades como a egípcia, a grega, a mesopotâmica e a romana, que espécies de 
fontes podem ser mobilizadas para a escrita de sua história? A seguir, serão 
apresentados alguns exemplos ilustrativos. 
Arqueologia 
A Arqueologia é uma disciplina científica dedicada ao estudo sistemático da 
cultura material das sociedades, abrangendo todos os vestígios relacionados à 
existência humana, tanto no passado quanto no presente. Em virtude da amplitude de 
 
 
 
seu objeto, o campo desdobra-se em uma variedade de subáreas, fruto da 
especialização em períodos históricos específicos, no desenvolvimento de métodos 
analíticos particulares ou no foco em determinadas regiões de investigação. O 
conceito de cultura material é fundamental para disciplinas como a Arqueologia e a 
Antropologia. Para uma definição precisa, observe a explicação de Meneses (1983): 
Por cultura material poderíamos entender aquele segmento do meio físico 
que é socialmente apropriado pelo homem. Por apropriação social convém 
pressupor que o homem intervém, modela, dá forma a elementos do meio 
físico, segundo propósitos e normas culturais. Essa ação, portanto, não é 
aleatória, casual, individual, mas se alinha conforme padrões, entre os quais 
se incluem os objetivos e projetos. Assim, o conceito pode tanto abranger 
artefatos, estruturas, modificações da paisagem, como coisas animadas 
(uma sebe, um animal doméstico), e também o próprio corpo, na medida em 
que ele é passível desse tipo de manipulação (deformações, mutilações, 
sinalizações), ou ainda os seus arranjos espaciais (um desfile militar, uma 
cerimônia litúrgica) (Meneses, 1983, p. 112). 
Portanto, enquadram-se na definição de cultura material uma vasta gama de 
elementos, como objetos de uso pessoal, vestimentas, artefatos, cerâmicas, 
ferramentas de madeira, pedra e metal, moedas, joias, construções arquitetônicas, 
monumentos, maquinários e habitações. Diante da escassez relativa de fontes 
escritas para o estudo da História Antiga, torna-se imperioso seguir a orientação de 
Febvre (1985): 
A história faz-se com documentos escritos, sem dúvida. Quando eles existem. 
Mas ela pode fazer-se, ela deve fazer-se sem documentos escritos, se os não 
houver. [...] Numa palavra, com tudo aquilo que pertence ao homem, depende 
do homem, serve o homem, exprime o homem, significa a presença, a 
atividade, os gostos e as maneiras de ser do homem (Febvre, 1985, p. 249). 
Para além de sua função utilitária, o estudo de um artefato pelo arqueólogo ou 
historiador permite investigar as complexas redes de sua produção, comércio e 
circulação, bem como os múltiplos significados que lhe eram atribuídos pelas 
sociedades que o utilizaram. Dessa forma, um único objeto pode revelar formas de 
convivência, práticas comerciais e dinâmicas de relações sociais, funcionando como 
uma janela para a compreensão de aspectos mais amplos da vida no passado. 
Paleografia e escritos 
A Paleografia constitui uma disciplina dedicada ao estudo sistemático da escrita 
antiga, envolvendo a análise e transcrição de caligrafias e sistemas de símbolos em 
desuso. Esta prática, cujas origens remontam aos primeiros decifradores de escritas 
como os hieróglifos egípcios e a cuneiforme mesopotâmica, passou por contínuo 
processo de refinamento metodológico e especialização ao longo de sua trajetória. 
A Pedra de Roseta (Figura 1) é um marco fundamental para os estudos do 
Antigo Egito. Este artefato, descoberto em 1799 por uma expedição francesa na 
cidade de Roseta, foi crucial para a decifração dos hieróglifos por Jean-François 
Champollion. Além de abrir as portas para a compreensão da escrita egípcia, o 
documento oferece insights valiosos sobre a estrutura cultural, econômica e política 
do Egito durante o período ptolomaico (séculos III-II a.C.). Sua importância reside não 
apenas no conteúdo do texto, mas no papel que desempenhou no desenvolvimento 
de métodos de tradução de escritas antigas (Pinsky, 2022). 
Figura 1 – Pedra de Roseta 
Fonte: https://x.gd/v6Vca. 
As produções culturais e intelectuais constituem fontes inestimáveis para a 
compreensão das sociedades antigas. Para os gregos, por exemplo, o teatro 
representava muito mais que uma expressão artística; era um espaço fundamental de 
reflexão e interação social. As diversas formas pelas quais essas civilizações se 
relacionavam com a natureza e entre si deram origem a ricos sistemas de mitos e 
cosmogonias, que organizavam sua visão de mundo. Paralelamente, o legado do 
pensamento filosófico que emergiu nesse contexto permanece como uma das 
heranças mais duradouras para a trajetória intelectual da humanidade. 
De acordo com Guarinello (2023), dois exemplos fundamentais para o estudo 
da história grega são a Ilíada e a Odisseia, poemas épicos atribuídos a Homero. Essas 
obras oferecem um rico panorama sobre costumes, valores e tradições da Grécia 
Antiga. Enquanto a Ilíada concentra-se em episódios decisivos do nono e décimo ano 
da Guerra de Troia, a Odisseia relata a prolongada e aventurosa jornada de retorno 
de Ulisses à sua terra natal, Ítaca, após o conflito. Juntas, essas narrativas não apenas 
moldaram a literatura ocidental, mas permanecem como fontes primordiais para a 
compreensão do imaginário e da sociedade do período. 
1.2 Temáticas de pesquisa 
Desde sua constituição como disciplina acadêmica no século XIX, o estudo da 
Antiguidade sempre ocupou um lugar de destaque na historiografia. Contudo, o 
desenvolvimento dessas investigações seguiu trajetórias distintas, conformadas pelo 
contexto histórico e geográfico de sua produção. Naquele período formativo, a história 
do mundo antigo frequentemente servia a projetos nacionalistas, sendo 
instrumentalizada para forjar narrativas de origeme consolidar identidades nacionais. 
Tratava-se, em essência, de um esforço para encontrar raízes em um passado 
glorificado, com o objetivo de legitimar realidades e aspirações do presente. 
Com a evolução da historiografia e a constante reflexão sobre seus métodos, 
teorias e a relação das sociedades com o passado, a abordagem do estudo da 
Antiguidade também se transformou: 
Ainda no domínio dos avanços epistemológicos, a História da Antiguidade 
Clássica, e do mundo antigo de maneira geral, tem sido acompanhada, ao 
longo dos últimos anos, principalmente a partir do início da década de 1990, 
de grandes mudanças ocorridas nos domínios da História. A consciência de 
que o historiador produz, com seu ofício, espaços, tempos, indivíduos e 
práticas, ao passo em que ele próprio se encontra inserido em contextos e 
conjunturas específicas, aportou, desde algumas décadas, significativas 
mudanças para a epistemologia da História Antiga. A convicção por parte de 
muitos historiadores da cultura, mas não só, de que os objetos são criados, 
constituídos e de que o historiador é também uma espécie de narrador tem 
conferido um deslocamento da acentuação de grandes paradigmas 
explicativos do mundo antigo (que estabeleciam conhecimentos definitivos e 
sínteses totalizadoras a respeito da cidadania, da escravidão, das relações 
sociais, das instituições) para uma História Antiga que se quer mais plural, 
mais diversa (Silva, 2010, p. 99). 
Portanto, é possível perceber que o campo de estudos da História Antiga é 
notavelmente diverso, variando conforme a disponibilidade de fontes e os problemas 
de pesquisa formulados pelos historiadores. Algumas investigações dedicam-se à 
análise de sociedades específicas como: egípcios, sumérios, babilônios, hebreus, 
gregos, romanos, berberes, dálmatas, trácios e núbios, explorando suas estruturas 
políticas, relações sociais e produções culturais. Outras adotam recortes temáticos 
mais delimitados, focalizando, por exemplo, a condição dos escravizados ou o papel 
das mulheres nessas civilizações. 
Além das abordagens já mencionadas, avaliam Bauer, Alves e Oliveira (2019), 
a História Antiga também se expande por outras vertentes significativas. Alguns 
estudos privilegiam uma perspectiva regional, enfatizando a influência das 
particularidades geográficas e da relação entre sociedades e seu ambiente natural. 
Outras linhas de investigação questionam e desconstroem as próprias categorias de 
"Ocidente" e "Oriente" como entidades fixas. Há, ainda, pesquisas dedicadas às 
produções culturais em suas múltiplas expressões, bem como à análise da 
historiografia sobre a Antiguidade, traçando sua evolução desde o Renascimento, 
passando pela sua institucionalização no século XIX, até os debates contemporâneos. 
Embora a História Antiga tenha expandido significativamente seus temas de 
pesquisa desde a década de 1990, a dificuldade em reconstruir uma imagem plausível 
da sociedade para além das elites detentoras de riqueza, poder e status permaneceu 
uma característica distintiva da disciplina, especialmente quando contrastada com os 
avanços ocorridos nas ciências sociais e em outros campos históricos. Recentemente, 
contudo, uma reflexão mais profunda sobre o lugar da História Antiga no mundo 
contemporâneo tem levado classicistas e historiadores a formularem questões de 
maneira mais diversificada e dinâmica. 
Esse movimento ganha força à medida que a tradição clássica europeia perde 
sua hegemonia intelectual e emergem novos centros de pesquisa em países 
periféricos, como o Brasil, que trazem para o debate suas próprias experiências 
históricas de exclusão, violência e desigualdade. Nesse contexto, temas como gênero, 
sexualidade, relações escravistas e o cotidiano passaram a ocupar um lugar central 
na agenda de investigação sobre a Antiguidade. 
História antiga no Brasil 
Nos últimos anos, o campo de pesquisas sobre História Antiga no Brasil passou 
por uma notável expansão. Esse crescimento foi impulsionado tanto pelo surgimento 
de novas problemáticas, fruto de reflexões conceituais, teóricas e metodológicas, 
quanto pelo acesso facilitado a fontes primárias por meio de recursos digitais. Tais 
transformações foram decisivas para repensar o próprio conceito de Antiguidade e 
promover mudanças significativas nos métodos, objetos e abordagens de 
investigação. 
O impacto dessas transformações na produção acadêmica brasileira é evidente 
tanto em termos qualitativos quanto quantitativos. Esse crescimento se reflete no 
expressivo aumento de trabalhos apresentados em simpósios temáticos da 
Associação Nacional de História (ANPUH), na multiplicação de eventos 
especializados e na consolidação de grupos e laboratórios de pesquisa dedicados ao 
tema: 
Houve uma ampliação de objetos de pesquisa, de paradigmas interpretativos, 
mas, o que não é menos importante, houve uma significativa ampliação do 
universo social dos historiadores do mundo antigo. O caráter aristocrático da 
História, e da História Antiga, em particular, foi superado pela inclusão de 
estudiosos não oriundos das elites, cuja formação intelectual e acadêmica 
não era de berço, mas aprendida, tanto no Brasil como, de maneira 
crescente, também no estrangeiro. Os paradigmas interpretativos 
tradicionais, que enfatizam a homogeneidade social e o respeito às normas 
foram, de forma crescente, contrapostos às visões multifacetadas e atentas 
ao conflito (Silva, 2010, p, 104). 
Dessa forma, a historiografia brasileira tem testemunhado um progressivo 
distanciamento de abordagens aristocráticas e elitistas, tradicionalmente alicerçadas 
em narrativas nacionais. Em seu lugar, consolida-se uma História Antiga mais 
problematizada, caracterizada pela crítica aos discursos estabelecidos, pela 
superação de uma visão linear do tempo histórico e pelo combate a interpretações 
presentistas. 
Um marco fundamental para o desenvolvimento dos estudos sobre a 
Antiguidade no Brasil foi a emergência de grupos e sociedades científicas que, 
reunindo não apenas historiadores, mas também especialistas de áreas como 
arqueologia, filosofia e letras, criaram um ambiente interdisciplinar propício ao avanço 
da pesquisa. Essa mobilização coletiva resultou na fundação da Sociedade Brasileira 
de Estudos Clássicos (SBEC) em 1985. Como exemplos concretos dessa dinâmica 
colaborativa, destacam-se o Laboratório de Estudos do Império Romano (LEIR–USP), 
o Laboratório de História Antiga (LHIA–UFRJ) e o Núcleo de Estudos da Antiguidade
(NEA–UERJ), entre outros. 
2 ORIGEM DOS POVOS MESOPOTÂMICOS 
A formação das sociedades mesopotâmicas esteve profundamente marcada 
pela interação com seu meio natural. Em vez de um determinismo geográfico, em que 
o ambiente define rigidamente o destino de um povo, a relação era dialética: o espaço
físico impunha obstáculos concretos, mas coube aos grupos humanos a capacidade 
de criar soluções, adaptar-se e ressignificar a paisagem, transformando-a ativamente 
para construir sua organização social, econômica e política. 
Bauer, Alves e Oliveira (2019) descrevem que a ocupação do território entre os 
rios Tigre e Eufrates – que hoje compreende partes do Iraque, Síria e Turquia – teve 
início aproximadamente em 4000 a.C. (Figura 2). Com a transição para um modo de 
vida sedentário, surgiram os primeiros aglomerados humanos, cuja economia estava 
baseada na agricultura e na criação de animais. O crescimento e a consolidação 
desses núcleos populacionais deram origem a 12 cidades-estados, que gradualmente 
estabeleceram seu domínio sobre as aldeias vizinhas. Essa área, batizada de 
Crescente Fértil em razão da riqueza de suas terras – fertilizadas pelas cheias 
regulares dos rios –, foi o palco do primeiro processo de urbanização da 
humanidade. 
Figura 2 – Região Mesopotâmia 
Fonte: https://x.gd/4PnWP. 
O próprio termo “Mesopotâmia”, de origem grega, significa “terra entre rios”, 
uma definição que descreve comprecisão o território banhado pelas bacias do Tigre 
e do Eufrates. Geograficamente, é possível dividir a região em duas áreas principais, 
dotadas de características climáticas e ambientais distintas. Ao norte, localizava-se a 
Alta Mesopotâmia, uma área de relevo mais acidentado, onde a irrigação era mais 
complexa, mas que compensava essa dificuldade com sua riqueza em recursos 
florestais. Já ao sul, estabelecia-se a Baixa Mesopotâmia, uma planície marcada pela 
escassez de chuvas, porém, extremamente favorável à implantação de sistemas de 
irrigação. Como sintetiza Cardoso (1986): 
Enquanto o povoamento da Alta Mesopotâmia deu-se desde tempos pré-
históricos muito antigos, a Baixa Mesopotâmia — potencialmente fértil, mas 
pouco adequada à agricultura primitiva de chuva — não parece ter sido 
ocupada em caráter permanente antes do V milênio a.C., durante a fase de 
Ubaid, talvez entre aproximadamente 5000 e 3500 a.C. — basicamente 
neolítica, ou, mais exatamente, calcolítica, pois objetos de cobre já aparecem 
em pequeno número a partir de 4500 a.C. A fase arqueológica seguinte, a de 
Uruk (aproximadamente 3500–3100 a.C.), viu os primórdios da urbanização 
e da escrita, inovações que se consolidaram no Período Inicial do Bronze 
(3100–2100 a.C.), iniciado com a fase de Jemdet–Nasr (aproximadamente 
3100–2900 a.C.), considerada como a época da verdadeira revolução urbana 
(Cardoso, 1986, p. 29). 
O ciclo de cheias do Tigre e do Eufrates era uma força ambígua: ao mesmo 
tempo que fertilizava o solo e possibilitava a agricultura, manifestava-se com violência, 
demandando intervenção humana para seu controle. Foi como resposta a esse 
desafio que as sociedades locais desenvolveram uma engenharia hidráulica 
sofisticada, construindo diques e uma extensa rede de canais. Essas obras não 
apenas dominavam a fúria das águas e protegiam as lavouras, como também 
garantiam o abastecimento hídrico durante os longos períodos de estiagem. Mas 
quais foram os povos que habitaram e moldaram essa região? Sobre a composição 
étnico-linguística da Baixa Mesopotâmia, Cardoso (1986) detalha: 
Do ponto de vista etnolinguístico, o povoamento da Baixa Mesopotâmia, no 
período histórico, esteve marcado por dois grupos iniciais: os sumérios, que 
se julgava terem migrado por mar para a região, mas arqueologicamente se 
vinculavam ao sudoeste do Irã (o Elam, ou Susiana), e falavam uma língua 
aglutinante; e os acádios, que falavam uma língua de flexão do grupo semita, 
e provavelmente vieram do oeste. O elemento sumério predominava ao sul 
(país de Sumer, ou Suméria) da Baixa Mesopotâmia, e o acádio ao norte 
(país de Akkad, ou Acádia). A verdade, porém, é que, quando começamos a 
ter mais informações, em meados do III milênio a.C., esses grupos estavam 
já bastante mesclados. No milênio seguinte, a fusão se completou; 
predominaram, desde então, as línguas semitas: o acadiano, o babilônio dele 
derivado e, por fim, o aramaico (Cardoso, 1986, p. 31) 
Para dominar o desafio imposto pelo ambiente, essas sociedades construíram 
complexos sistemas de irrigação, cuja manutenção e operação demandavam uma 
organização agrícola estritamente coletiva. 
2.1 As sociedades mesopotâmicas 
A consolidação das sociedades mesopotâmicas, originalmente baseadas em 
pequenos aldeamentos agrícolas, está diretamente ligada ao domínio da hidráulica. A 
dependência de uma complexa rede de diques e canais de irrigação para a agricultura 
foi um fator impulsor para a formação das cidades-estados. Para administrar esses 
empreendimentos coletivos e sustentar seu aparato burocrático e militar, essas 
civilizações recorreram ao desenvolvimento da escrita e da matemática. 
No ápice dessa estrutura social, os reis concentravam em suas pessoas as 
esferas econômica, política e religiosa. Essa fusão de poderes refletia uma visão de 
mundo na qual o sagrado permeava todas as dimensões da vida, não havendo, 
portanto, uma distinção clara entre o governo e a religião. Dessa forma, o governo das 
cidades-estados mesopotâmicas se consolidou em uma monarquia de caráter divino, 
na qual o soberano era visto como um intermediário direto com as divindades. Seu 
poder era exercido com o suporte de um aparato estatal composto por 
administradores e militares: 
O sul mesopotâmico foi palco de inúmeras disputas militares entre os vários 
centros urbanos pela hegemonia política de territórios vizinhos por volta de 
2800 a.C. O resultado dessas guerras transformou o desenvolvimento dessas 
cidades: as revoltas no interior do país levaram a uma migração significativa 
do campo para a cidade, fazendo com que a maioria da população se 
tornasse urbana; maciças fortificações foram construídas para garantir a 
segurança destas cidades, definindo assim a diferença entre o espaço urbano 
e o rural e restringindo o acesso às cidades através dos portões das 
muralhas. As necessidades de guerra exigiram um maior desenvolvimento da 
autoridade política e militar, induzindo a criação da segunda principal 
instituição urbana: o palácio. As cidades mesopotâmicas passaram, então, a 
contar com dois centros de poder: um político e militar — o palácio —, e outro 
econômico e religioso — o templo —, um espaço profano, outro sagrado 
(Cornelli, 2010, p. 14). 
A Mesopotâmia foi palco de sucessivas dominações por diferentes povos. Entre 
os principais grupos que governaram a região, destacam-se os babilônicos, os 
assírios e os caldeus, que serão detalhados a seguir. 
Os babilônicos 
Por volta de 2000 a.C., os amoritas, um povo de origem nômade, fixaram-se na 
cidade de Babila (ou Babel), às margens do Eufrates. Sob o comando de seu líder 
Sumuabum, iniciaram uma campanha de expansão territorial, disputando a 
hegemonia com as cidades-estados vizinhas. Seu sucessor, Sumula’el, consolidou o 
poder amorita na região e fundou uma dinastia que se manteria por aproximadamente 
três séculos. O governante mais emblemático desse período, no entanto, foi 
Hamurábi, que ascendeu ao trono em 1792 a.C. 
Hamurábi promoveu a unificação de cidades-estados através de uma 
combinação de diplomacia, forjando alianças estratégicas, e de poderio militar, com 
seu exército conquistando novos territórios. Sua liderança também se destacou na 
esfera interna, com a realização de obras hidráulicas que otimizaram a agricultura e o 
transporte fluvial. No entanto, ressalta Pinsky (2022), seu legado mais duradouro foi a 
criação de um conjunto de leis escritas, que passaria à história como o "Código de 
Hamurábi". 
A administração babilônica era caracterizada por uma forte centralização. A 
economia era gerida por meio do controle estatal sobre a propriedade de terras, da 
cobrança de impostos e taxas, e da regulação de preços de certos produtos. Quanto 
ao declínio do Império, as evidências são escassas. Indica-se que, por volta de 1700 
a.C., uma série de movimentos migratórios na região pode ter alterado o equilíbrio de
poder local, contribuindo para uma progressiva desestabilização do Primeiro Império 
Babilônico. 
Os assírios 
Os assírios estabeleceram-se inicialmente no leste da Alta Mesopotâmia, onde 
posteriormente construíram um vasto império, que atingiu seu apogeu durante o 
reinado de Sargão II (722–705 a.C.). Devido à sua localização geográfica estratégica 
e cobiçada, a sociedade assíria desenvolveu uma cultura militarista, mantendo um 
exército permanente e altamente organizado. Essa potência bélica foi a base para 
uma série de conquistas expansionistas lideradas pelos reis Sargão II, Senaquerib e 
Assurbanípal. 
Os registros históricos atestam que as campanhas militares assírias eram 
marcadas por extrema violência, caracterizada pela destruição sistemática, 
escravização em massa e práticas de tortura. Em um contraste notável, foi sob o 
reinado de Assurbanípal que se erigiu a Biblioteca de Nínive. Este repositório reuniu 
uma vasta coleção de tabletes de argila, cujo conteúdo se tornaria fundamental para 
acompreensão moderna da história e das culturas da Mesopotâmia (João, 2013). 
Por volta de 612 a.C., uma aliança entre caldeus e persas resultou na 
destruição das principais cidades assírias, incluindo a capital Nínive. Esse evento 
marcou o colapso definitivo do Império Assírio, um desfecho amplamente celebrado 
pelos povos que haviam sofrido sob seu jugo opressor. 
Os caldeus 
Com a queda do Império Assírio, a cidade da Babilônia, então sob o domínio 
caldeu, ressurge como centro de poder, dando origem ao Império Neobabilônico 
(também conhecido como Caldeu) sob a liderança de Nabopolassar. Conforme 
sintetiza Cornelli (2010): 
Sob a dinastia neobabilônica (625-539 a.C.), a cidade tornou-se a capital do 
mundo oriental e recebeu enormes riquezas arrecadadas com os tributos 
pagos pelos reinos conquistados, possibilitando a construção de obras 
monumentais como a muralha, os palácios e os templos, que tanto 
encantaram os viajantes antigos. Sob Nabucodonosor II (604–562 a.C.), 
Babilônia tinha cerca de mil hectares de extensão e sua muralha, com oito 
portas, possuía 18 km de comprimento e 30 m de largura (Cornelli, 2010, p. 
16). 
Os caldeus travaram conflitos contínuos contra os egípcios, seu principal 
adversário, pela hegemonia territorial na região. A vitória decisiva sobre o Egito foi 
alcançada sob o reinado de Nabucodonosor, marco que inaugurou o auge do Império 
Caldeu. Foi nesse período de expansão que as forças de Nabucodonosor dirigiram-
se a Jerusalém, resultando em sua conquista e subsequente destruição. 
Paralelamente, além das campanhas militares, o soberano promoveu um ambicioso 
programa de obras públicas, erguendo majestosos templos, palácios e os 
legendários Jardins Suspensos da Babilônia (Figura 3). 
Figura 3 – Reconstituição dos Jardins Suspensos 
Fonte: https://x.gd/5yTyJ. 
Em 539 a.C., o Império Neobabilônico chegou ao fim com a conquista da cidade 
da Babilônia pelos persas. A vitória foi facilitada por uma dissensão interna: 
sacerdotes e comerciantes locais, em busca da preservação de seus privilégios, 
aliaram-se voluntariamente aos invasores. 
2.2 Cultura e religiosidade na Mesopotâmia 
A cultura e a religião na Mesopotâmia refletiam diretamente as estruturas de 
poder vigentes. Ao analisar as expressões culturais como um produto dessas 
relações, é possível compreender o papel transformador de inovações como a escrita. 
Mais do que uma simples técnica, a escrita surgiu como uma ferramenta de 
administração e controle, essencial para organizar a produção agropecuária, gerir o 
Estado por meio da tributação, fundamentar o ordenamento jurídico e, não menos 
importante, codificar a visão de mundo da elite dominante. 
Cardoso (1986) ressalta que, para os povos mesopotâmicos, cultura e religião 
eram dimensões indissociáveis da vida. De acordo com o autor, uma das 
características que unificava essas sociedades era: 
[...] o caráter fortemente monárquico da cultura mais intelectualizada da 
época. Tal cultura erudita dos grupos dominantes é a única que, devido à 
documentação disponível — em sociedades nas quais aprender a ler e 
escrever era privilégio reservado a poucos —, podemos conhecer melhor, 
embora sejam perceptíveis certos impactos da cultura popular sobre a oficial, 
em especial em matéria de religião. [...] Os templos eram partes integrantes 
do Estado. O rei, por suas atribuições e por concentrar os recursos 
necessários, era construtor por excelência de santuários e outros edifícios 
importantes, o patrono maior do artesanato e das artes — domínios, aliás, 
indistinguíveis, não havendo, então, a noção de que um artista fosse algo 
distinto de um artesão. [...] As épocas de forte centralização monárquica 
foram, também, as de florescimento artístico, e a cultura em suas diversas 
manifestações fala-nos mais dos deuses e dos reis do que de qualquer outra 
coisa (Cardoso, 1986, p. 57). 
O estudo da cultura mesopotâmica tem avançado significativamente por meio 
da análise de vestígios arqueológicos e da cultura material – incluindo desde tabletes 
de argila até palácios, templos, esculturas e estruturas urbanas. Dentre essas 
expressões materiais, a arquitetura, a escultura e a pintura mural ocupavam um lugar 
de especial relevância, uma vez que estavam intrinsecamente associadas a rituais 
religiosos e à celebração de eventos de grande significado sociopolítico. 
Como visto, era impossível dissociar a religião de outras esferas sociais, como 
a política, na Antiga Mesopotâmia. As crenças religiosas permeavam todos os 
aspectos da vida, fornecendo a estrutura conceitual para explicar tanto a origem 
quanto o funcionamento do mundo natural e dos fenômenos cotidianos: 
Assim como a astronomia, a medicina e demais formas de conhecimento, a 
cultura jurídica mesopotâmica jamais foi completamente autônoma em 
relação ao universo do sobrenatural. Suas representações e práticas sempre 
estiveram marcadas por uma íntima conexão com as concepções sobre o 
sagrado e as práticas rituais e mágicas: uma vez que as leis eram 
consideradas o instrumento dos deuses para assegurar a convivência 
ordenada no plano social, a esfera jurídica consistia dos mesmos preceitos e 
procedimentos que caracterizavam todas as demais formas de contato com 
o universo do divino e que propiciavam a correta manifestação da vontade
dos deuses acerca dos conflitos entre os homens (Rede, 2006, p. 167).
Em linhas gerais, as sociedades mesopotâmicas professavam o politeísmo, 
crendo na existência de uma pluralidade de divindades. Estas mantinham uma relação 
direta com a humanidade, premiando ou castigando os indivíduos conforme suas 
ações. Embora personificassem forças e elementos da natureza, esses deuses eram 
representados de forma antropomórfica, assumindo características humanas 
femininas ou masculinas, quase sempre em uma escala gigantesca que simbolizava 
sua incontestável superioridade sobre os mortais. 
Embora cada cidade-Estado mesopotâmica pudesse venerar seu próprio 
panteão, três divindades eram amplamente reconhecidas como as principais: Anu (ou 
An), o deus do céu e pai dos deuses; Enlil, deus do ar e da autoridade, responsável 
pelas leis e pela guerra; e Enki, senhor das águas, da sabedoria e da criação. Nesse 
contexto de crenças compartilhadas: 
Os mitos sublinham a origem divina das cidades e, ao mesmo tempo, relatam 
que suas realizações foram obras dos reis e seus súditos, onde cada 
divindade do panteão possuía sua residência principal, sua cidade predileta. 
[...] O universo mesopotâmico é um mundo onde tudo é sagrado (Cornelli, 
2010, p. 16). 
Os zigurates (Figura 4) – imponentes templos em forma de 
pirâmides escalonadas – ocupavam um lugar central na religiosidade mesopotâmica. 
Erguidos por sumérios, babilônios e assírios para servirem como morada 
terrestre das divindades, essas construções foram muito mais que lugares de 
culto. Conforme destaca Cornelli (2010), os templos foram responsáveis pelo 
desenvolvimento de vários aspectos da sociedade, como a escrita, o Estado, o 
sistema jurídico, a arte e a arquitetura, entre outros. 
Figura 4 – Representação de um Zigurate 
Fonte: https://x.gd/t0kmI. 
Bauer, Alves e Oliveira (2019) salientam que para além de sua função religiosa 
como morada dos deuses, os zigurates funcionavam como centros econômicos, 
abrigando atividades ligadas à agricultura e a pequenas manufaturas. Eram também 
espaços de conhecimento, onde se realizava a observação dos céus. Foi através 
desse estudo que os mesopotâmicos calcularam os movimentos celestes, formularam 
teorias astronômicas e astrológicas e, de forma prática, criaram o calendário anual de 
doze meses e a semana de sete dias. 
3 FORMAÇÃO DA SOCIEDADE EGÍPCIA 
O Egito Antigo floresceu nas margens do rio Nilo, no nordeste da África, durante 
o período conhecido como Antiguidade. Sua estrutura cultural, econômica e política
estava profundamente ligada ao rio, cujas cheias regulares permitiam umaagricultura 
próspera. No entanto, para compreender plenamente as características dessa 
civilização, é importante primeiro acompanhar o processo de ocupação do território e 
sua posterior unificação sob o poder dos faraós. Vejamos como esse processo 
ocorreu: 
Observando o mapa do Egito, podemos notar suas duas grandes regiões: o 
delta e o vale. Este, acompanhando o rio por mais de mil quilômetros (algo 
equivalente a duas vezes a distância entre Rio e São Paulo), constitui-se em 
estreita faixa de não mais de dez quilômetros de terras adequadas ao cultivo. 
O delta, uma espécie de triângulo com duzentos quilômetros de lado, possui 
rica vegetação e abundância de água. O Egito tem no delta uma região rica 
e densamente povoada, próxima ao mar, sendo o vale uma região mais 
isolada, que depende essencialmente do rio como única forma de 
comunicação entre as aldeias distantes (Pinsky, 1994, p. 67). 
As primeiras comunidades a fixar-se no vale do Nilo provavelmente chegaram 
ainda no Neolítico. Esses grupos, organizados em laços de parentesco, praticavam 
uma agricultura e pecuária básicas. A partir do período pré-dinástico, contudo, 
mudanças climáticas impulsionaram o desenvolvimento de sistemas de irrigação. 
Essa inovação não apenas sustentou a agricultura em novas condições, mas também 
permitiu maior complexidade social, abrindo caminho para o processo de unificação 
política: 
Os primeiros grupos humanos que povoaram o vale do Nilo, entre a catarata 
de Semna e o Mediterrâneo, segundo Champollion-Figeac [...] teriam vindo 
da Abissínia ou do Senaar, abaixo de Cartum. O cientista francês ratificava 
essa afirmação dizendo que os antigos egípcios pertenciam a um tipo 
humano em tudo semelhante aos kennous e aos barabras, habitantes da 
Núbia; e que, ao seu tempo, encontravam-se entre os coptas egípcios traços 
característicos da população do Egito antigo. Já segundo Murdock, citado em 
Merlo e Vidaud, uma civilização neolítica negra, formada no vale do Médio 
Níger, tendo se fundido com elementos vindos do Oriente Próximo, é que teria 
dado origem à civilização do Egito pré-dinástico. Outro ramo dessa civilização 
teria se embrenhado na floresta, para, séculos mais tarde, emigrar e dar 
origem ao povoamento banto da África Equatorial e Meridional. Segundo 
Laffont, a civilização neolítica egípcia é essencialmente africana e nilótica 
(Lopes, 2012, p. 122). 
Segundo os pesquisadores, a necessidade de organizar sistemas de irrigação 
para a agricultura foi um fator crucial para a unificação das antigas comunidades tribais 
em agrupamentos maiores chamados nomos, cada um governado por um nomarca. 
Essas províncias mantiveram-se mesmo após a centralização do poder sob o faraó. 
Em períodos de forte autoridade real, os nomarcas atuavam como funcionários 
administrativos, responsáveis pela gestão econômica, organização do trabalho e 
justiça local. Contudo, quando o poder central enfraquecia, eles reassumiam grande 
autonomia, demonstrando a relevância duradoura dessa estrutura regional na história 
do Egito Antigo. 
Segundo Pinsky (1994), cada comunidade selecionava seu próprio nomarca e 
um conselho composto por membros de diferentes grupos sociais. Contudo, a 
autoridade dessas lideranças locais não era estável, variando conforme o período e 
sendo comumente limitada pela atuação de representantes designados pela 
administração central. Tais enviados eram responsáveis por supervisionar as 
atividades agrícolas, a pecuária, as obras públicas e a aplicação das leis, assegurando 
assim um vínculo direto de controle entre o faraó e as populações das diversas 
regiões. 
É impossível determinar com exatidão a população do Egito Antigo devido à 
ausência de registros censitários, mas os historiadores trabalham com estimativas 
baseadas em evidências indiretas. Durante o auge da era faraônica, como no Novo 
Império, calcula-se que viviam entre 3 e 5 milhões de pessoas no vale do Nilo. Já no 
período posterior, sob o domínio greco-romano, as projeções indicam que esse 
número pode ter atingido aproximadamente 7 milhões de habitantes, um marco 
populacional que só seria ultrapassado muitos séculos mais tarde. Cardoso (1982) 
explicita: 
Isto nos daria uma densidade de população (levando em conta somente as 
terras cultiváveis) de mais de 200 habitantes por km, muito elevada para a 
Antiguidade. O Egito era um dos ‘formigueiros humanos’ do mundo antigo, 
em virtude da sua extraordinária fertilidade renovada anualmente pelas 
aluviões do Nilo (Cardoso, 1982, p. 13). 
Entretanto, essa mesma dependência do rio significava que, quando as 
inundações eram insuficientes e as colheitas escassas, a fome se instalava e períodos 
calamitosos eram enfrentados. Quanto à estrutura social, o topo da pirâmide era 
ocupado pelo faraó, considerado uma divindade e o principal intermediário entre os 
homens e os deuses. Abaixo dele, sua família, os altos sacerdotes e os funcionários 
de elite formavam uma aristocracia hereditária. Embora existissem casos 
excepcionais de pessoas de origem humilde que ascenderam a essa elite, geralmente 
por meio da carreira de escriba ou militar, essa mobilidade era rara e não alterava a 
estrutura social rigidamente estratificada. 
Entre a elite e a base da sociedade, havia uma camada intermediária composta 
por escribas, funcionários públicos e sacerdotes de hierarquia inferior, assim como 
artesãos e artistas a serviço do faraó, da corte e dos templos. Na base da estrutura 
social, formando a imensa maioria da população, estavam os trabalhadores, os 
camponeses e, em proporção menor, os escravizados. Esse grupo estava submetido, 
como observa Cardoso (1982), ao pagamento de impostos e à prestação de trabalhos 
compulsórios, à arbitrariedade e à corrupção dos funcionários, e até mesmo a 
punições físicas. Tais condições severas de vida e trabalho fizeram com que revoltas 
sociais fossem ocorrências relativamente comuns ao longo da história do Antigo Egito. 
A cultura do Egito Antigo era, até onde se sabe, um patrimônio restrito a uma 
pequena elite letrada, composta por cortesãos, sacerdotes, funcionários e escribas. A 
religião, por sua vez, permeava todos os aspectos da vida, tanto pública quanto 
privada. Cerimônias anuais eram conduzidas pelos sacerdotes para assegurar a 
chegada da inundação do Nilo, e o próprio faraó agradecia solenemente às divindades 
pelas colheitas. Os oráculos divinos tinham um papel central, sendo consultados para 
a resolução de questões políticas e burocráticas, e também pelo povo comum antes 
de tomar decisões importantes. 
3.1 Temporalidade do Egito Antigo 
Levando em consideração os critérios políticos e as cronologias registradas em 
documentos como o Papiro de Turim, a Pedra de Palermo e em diversos monumentos 
datados, a história política do Egito Antigo pode ser dividida nos seguintes períodos 
principais: 
• Período Pré-Dinástico (c. 5500–3100 a.C.): formação das culturas e
comunidades ao longo do Nilo, que evoluíram para os primeiros reinos do Alto
e do Baixo Egito.
• Período Dinástico Antigo (c. 3100–2686 a.C.): unificação do Egito sob o 
primeiro faraó, Narmer (ou Menés), e consolidação do Estado faraônico com 
as primeiras dinastias.
• Império Antigo (c. 2686–2181 a.C.): período das grandes pirâmides de Gizé, 
marcado por um governo centralizado forte. Corresponde principalmente às 
Dinastias III a VI.
• Primeiro Período Intermediário (c. 2181–2055 a.C.): fase de fragmentação 
política, declínio do poder central e surgimento de governantes regionais 
(nomarcas) independentes.
• Império Médio (c. 2055–1650 a.C.): reunificação e renascimento cultural, com 
a capital em Tebas e depois em Itjtawy. Corresponde principalmente às 
Dinastias XI e XII.
• Segundo Período Intermediário (c. 1650–1550 a.C.): nova fase de 
descentralização e dominação parcial por povos estrangeiros, os hicsos, no 
norte do Egito.
• Império Novo (c. 1550–1069 a.C.): período de máximopoderio militar, 
expansão territorial e grandeza monumental (ex.: templos de Karnak e Vale dos 
Reis). Corresponde às Dinastias XVIII a XX (Figura 5).
Figura 5 – Ruínas do templo de Karnak 
Fonte: https://x.gd/GRgiM. 
De acordo com Bauer, Alves e Oliveira (2019), a tomada do Egito por 
Alexandre, o Grande, em 332 a.C., encerra a longa trajetória de independência do 
Egito faraônico, dando início ao período helenístico sob o governo da dinastia 
ptolemaica. Para facilitar o estudo dos mais de dois mil anos que precederam esse 
marco, os historiadores organizam as diversas dinastias faraônicas em três grandes 
períodos de centralização política e apogeu cultural, entremeados por intervalos de 
descentralização e fragmentação. Didaticamente, esses períodos são denominados: 
Antigo Império, Médio Império e Novo Império. A seguir, são apresentadas as 
características essenciais de cada uma dessas fases fundamentais. 
Antigo Império 
Durante o Antigo Império, consolidou-se a estruturação do poder político 
unificado no Egito. A unificação ocorreu por meio de um processo gradativo e 
complexo, no qual comunidades inicialmente autônomas (os nomos) foram sendo 
integradas a uma autoridade central. Essa centralização foi possibilitada, em grande 
parte, pela necessidade de coordenar a irrigação e o cultivo às margens do Nilo, o que 
exigia administração coletiva e hierárquica. Assim, formou-se um Estado governado 
pelo faraó, visto como divino e responsável por manter a ordem cósmica e social, 
dando início à primeira grande fase de centralização política egípcia: 
A tradição faraônica egípcia inclui entre os primeiros governantes do país 
soberanos que carregavam como título o nome “Hórus”, sendo assim tidos 
como divindades representantes de vários aspectos desse importante deus. 
Após esses é que surgiria o primeiro faraó efetivamente humano, Narmer. 
Certo é que, antes do advento desse primeiro faraó, o Egito viveu períodos 
de grande instabilidade e turbulência, por conta de divergências religiosas 
entre os diversos clãs e tribos, cada qual com suas divindades. Por volta de 
3400 a.C., os clãs do sul, do chamado Alto Egito, uniram-se em torno de um 
mesmo rei, na cidade chamada pelos gregos de Hieracômpolis, enquanto os 
povos do delta do Nilo, no Baixo Egito, uniam-se em torno de outro soberano. 
Os dois reinos, cujos soberanos se distinguiam pelo uso de uma alta coroa 
branca, no sul, e vermelha, no delta, foram unificados por iniciativa de Menés 
ou Narmer — indiscutivelmente negro, segundo Anta Diop —, o qual unificou 
o Alto e o Baixo Egito, estabeleceu a capital do reino em Tinis e iniciou a I
dinastia (Lopes, 2012, p. 128).
Os governantes do Egito são tradicionalmente agrupados em dinastias, e o 
Antigo Império abrangeu várias delas. A primeira capital deste império unificado foi 
Tinis, sede das duas primeiras dinastias. A partir da Terceira Dinastia, a capital foi 
transferida para Mênfis, que se tornou o centro administrativo e religioso. Foi 
precisamente nessa fase, que se estende da Quarta à Oitava Dinastias, que se 
verificou o auge do poder faraônico e das grandes obras monumentais. A Quarta 
Dinastia representa o apogeu do poder absoluto do faraó, período durante o qual 
foram construídas as majestosas Pirâmides de Gizé (Figura 6), enquanto grandes 
projetos de irrigação eram desenvolvidos para sustentar a população e a economia 
do reino. 
Figura 6 – Pirâmides de Gizé 
Fonte: https://x.gd/9vaAB. 
A agricultura, sustentada pelas águas do Nilo, era a base econômica da 
sociedade egípcia. Segundo Cardoso (1982), a economia era rigidamente controlada 
pelo Estado, que arrecadava impostos e taxações sobre a produção. A terra era 
tecnicamente propriedade do faraó, que a concedia a funcionários e templos em 
usufruto, podendo essas concessões tornar-se hereditárias ao longo de gerações. No 
entanto, por volta da VIII Dinastia, o poder central começou a se enfraquecer. Este 
declínio resultou na descentralização política, com os governadores regionais (os 
nomarcas) recuperando autonomia. Este período de instabilidade foi agravado por 
revoltas camponesas e por invasões de povos asiáticos no delta do Nilo, fatores que, 
combinados, precipitaram a queda do Antigo Império e deram início ao Primeiro 
Período Intermediário. 
Médio Império 
Após um longo período de fragmentação e conflitos, durante o qual os 
nomarcas mais poderosos lutaram pelo controle, foi a nobreza da cidade de Tebas, 
no Sul, que conseguiu impor sua hegemonia. Essa vitória resultou na fundação da XI 
dinastia tebana e na reunificação do poder político. O período seguinte, no entanto, 
foi marcado por um prolongado confronto entre o faraó e os nomarcas, enquanto a 
autoridade central buscava restabelecer seu controle sobre as províncias e reduzir o 
poder desses governadores regionais. 
Esse foi também um período de expansão militar, com a conquista da Núbia, 
uma região estratégica riquíssima em recursos como ouro, marfim e granito. No 
entanto, após um novo declínio do poder faraônico, o Egito foi dominado pelos hicsos, 
um povo de origem semita-asiática que se estabeleceu no delta do Nilo. Essa 
dominação, embora representasse uma fragmentação do poder nativo, trouxe 
inovações tecnológicas significativas, como o domínio da metalurgia do bronze, 
avanços militares (incluindo o uso do cavalo e do carro de guerra) e a introdução de 
novas culturas, como frutas e legumes até então desconhecidos no Egito. 
Novo Império 
Bauer, Alves e Oliveira (2019) observam que o Novo Império tem início com a 
XVII dinastia tebana, que liderou a luta e finalmente expulsou os hicsos do território 
egípcio. Este período foi marcado por um expansionismo militar significativo, com 
campanhas que estenderam a influência egípcia para a Núbia, ao sul, e para o 
Levante, ao norte. Como consequência direta dessas conquistas, surgiu e se 
consolidou uma nova elite poderosa ao lado dos funcionários e sacerdotes: a casta 
militar. Este grupo passou a deter grande prestígio, riqueza e influência política, 
tornando-se um pilar fundamental do Estado imperial. 
A política expansionista não apenas estendeu os domínios territoriais, como 
também dinamizou o comércio e a economia, ampliou o número de pessoas 
escravizadas capturadas nos conflitos e resultou na concessão de extensas 
propriedades a comandantes militares pelo faraó como forma de recompensa. No 
entanto, tensões políticas e sociais internas gradualmente fragilizaram o poder central, 
o que resultou na invasão e dominação do Egito pelos persas em 517 a.C. Após o fim
das últimas dinastias de origem local, instaurou-se um novo período de controle persa, 
até que o território egípcio passou a ser administrado por governantes macedônicos 
– a dinastia ptolomaica.
Esses reis helenísticos eram formalmente considerados faraós, embora 
mantivessem uma administração grega em paralelo com as instituições egípcias 
tradicionais. A última governante dessa linhagem foi Cleópatra VII Philopator, 
frequentemente vista como a última governante apresentada como faraó do Egito, 
ainda que, após a conquista romana em 30 a.C., os imperadores romanos (até cerca 
de 311 d.C.) também tenham adotado simbolicamente essa representação. 
3.2 Estudo do Antigo Egito através de fontes 
Para o estudo e a escrita da história de uma sociedade, é fundamental o 
trabalho com fontes históricas, que são todos os registros, vestígios ou evidências 
produzidas no passado e que nos permitem investigar, interpretar e reconstruir as 
experiências humanas ao longo do tempo. Essas fontes são a base do método 
histórico, e seu tratamento crítico é essencial para a compreensão dos contextos e 
processos sociais: 
Fonte histórica, documento, registro, vestígio são todos termos correlatos 
para definir tudo aquilo produzido pela humanidade no tempo e no espaço; a 
herança material e imaterial deixada pelos antepassados que serve de basepara a construção do conhecimento histórico. O termo mais clássico para 
conceituar a fonte histórica é documento. Palavra, no entanto, que, devido às 
concepções da escola metódica, ou positivista, está atrelada a uma gama de 
ideias preconcebidas, significando não apenas o registro escrito, mas 
principalmente o registro oficial. Vestígio é a palavra atualmente preferida 
pelos historiadores que defendem que a fonte histórica é mais do que o 
documento oficial: que os mitos, a fala, o cinema, a literatura, tudo isso, como 
produtos humanos, torna-se fonte para o conhecimento da história (Silva; 
Silva, 2009, p. 158). 
Embora milênios separem a sociedade contemporânea da civilização do Antigo 
Egito, diversos vestígios históricos possibilitam estudar, reconstituir e compreender 
como seus habitantes viviam. Entre esses registros encontram-se edificações 
arqueológicas, inscrições em templos e tumbas, papiros e outros documentos 
escritos. A esse conjunto somam-se ainda os relatos de historiadores que estiveram 
no Egito na Antiguidade, como Heródoto. 
O conhecimento atual sobre esses aspectos resulta, em grande parte, de 
deduções feitas a partir de vestígios indiretos – ou seja, documentos que tratavam de 
outros assuntos, mas que revelam, de forma implícita, a organização burocrática, 
econômica e social. É o caso, por exemplo, de registros comerciais e contábeis, listas 
de tributos, inventários de templos e cartas trocadas entre familiares ou funcionários, 
que oferecem pistas valiosas sobre a dinâmica do poder, a hierarquia social e o 
cotidiano administrativo do Egito Antigo. 
Outro fator essencial é o impacto do clima árido do Egito, determinante para a 
conservação extraordinária de materiais como múmias, papiros, tecidos e objetos de 
origem orgânica que, em ambientes mais úmidos, teriam se deteriorado rapidamente. 
No entanto, o estudo da Antiguidade ainda enfrenta uma documentação fragmentada 
e lacunar, repleta de interrupções e incompletudes. No caso específico do Egito 
Antigo, esses registros, mesmo parciais, evidenciam uma riqueza imensa, tanto no 
plano artístico e arquitetônico quanto na complexa estruturação social, política e 
econômica. Assim, investigar essa civilização demanda uma abordagem ampla, que 
considere não apenas sua dinâmica interna, mas também suas interações e 
influências recíprocas com outras culturas contemporâneas, como a mesopotâmica, 
a hebraica, a fenícia e, mais tarde, a grega. 
Outro fator crucial para a preservação desses vestígios são os saques 
sistemáticos a templos e túmulos ao longo dos séculos. Quando essas estruturas 
eram descobertas, frequentemente não estavam sob nenhum tipo de controle ou 
proteção arqueológica. Como apontam Bauer, Alves e Oliveira (2019), muitos objetos 
foram retirados de seu contexto original e pararam em coleções particulares ou foram 
vendidos a museus sem qualquer registro adequado. Essa prática não apenas causou 
a perda irreparável de informações, mas também descaracterizou o conjunto do 
achado arqueológico, dificultando a compreensão histórica, cultural e funcional dos 
itens dentro de seu ambiente e sociedade de origem. 
Para sistematizar a análise das fontes históricas do Egito Antigo, costuma-se 
dividi-las em duas grandes categorias: a cultura material, proveniente de 
investigações arqueológicas, e as fontes literárias, compostas por registros escritos 
deixados por historiadores e viajantes da época ou próximos a ela. De acordo com 
Mokhtar (2010), as evidências arqueológicas só começaram a ser exploradas e 
catalogadas de forma sistemática em período relativamente recente, o que explica seu 
caráter ainda fragmentado e desigual em termos de distribuição geográfica e temporal. 
Além disso, muitas dessas descobertas foram, em diferentes momentos, pouco ou 
equivocadamente interpretadas. Por outro lado, as fontes literárias – como os relatos 
de Heródoto, Diodoro Sículo ou Manetão – contam com uma tradição mais longa de 
utilização e análise, tendo servido como base para sucessivas gerações de 
estudiosos, ainda que também exijam uma abordagem crítica e contextualizada. 
O estudo e a reconstrução histórica do Egito Antigo só se viabilizaram 
integralmente após a decifração dos hieróglifos. O fechamento dos templos egípcios 
no século VI d.C., sob o governo do imperador Justiniano I, resultou no total 
desaparecimento das formas escritas da língua (hieroglífica, hierática e demótica), 
restando apenas a variante oral, que mais tarde se desenvolveu no copta. O sistema 
hieroglífico permaneceu incompreensível por cerca de catorze séculos, até que, em 
1822, o pesquisador francês Jean-François Champollion (1790–1832) conseguiu 
decifrá-lo, utilizando como chave a Pedra de Roseta – um artefato que trazia o 
mesmo texto gravado em egípcio hieroglífico, demótico e grego antigo (Figura 7). 
Figura 7 – Pedra de Roseta 
Fonte: https://x.gd/uEUk5. 
Alguns achados arqueológicos são particularmente notáveis por sua 
contribuição para a compreensão da sociedade do Egito Antigo. A seguir, destacam-
se alguns desses vestígios essenciais: 
• Pedra de Palermo: é um dos documentos históricos mais valiosos para o
estudo do Egito Antigo. Chamada assim porque seu maior fragmento está
preservado no museu da cidade italiana de Palermo, na Sicília, trata-se de uma
placa de diorito com inscrições em ambas as faces. Ela registra os nomes dos
faraós desde o início da V dinastia (por volta de 2450 a.C.)
• Papiro de Turim: conservado no museu da cidade italiana homônima, também
possui grande relevância, apesar de consistir basicamente em uma lista
cronológica de governantes. Nele, são registrados os protocolos completos dos
faraós, bem como a duração precisa de seus reinados – em anos, meses e dias
– desde os primeiros períodos até por volta de 1200 a.C.
Em relação às fontes literárias, Mokhtar (2010) destaca elementos 
fundamentais para a análise crítica do registro histórico egípcio: 
Na verdade, muito antes de Champollion, o misterioso Egito já despertava 
curiosidade. No período arcaico, no século VI antes da Era Cristã, os 
sucessores dos pré-helenos já haviam chamado a atenção para a diferença 
entre os seus costumes e crenças e os do vale do Nilo. Graças a Heródoto, 
essas observações chegaram até nós. Com o objetivo de compreender 
melhor seus novos súditos, os reis ptolomaicos, surpreendidos pela 
originalidade da civilização egípcia, patrocinaram a compilação de uma 
história do Egito faraônico, no século III antes da Era Cristã, abordando 
aspectos políticos, religiosos e sociais. Mâneton, egípcio de nascimento, foi 
encarregado de escrever essa história geral do Egito. Tinha acesso aos 
arquivos antigos e sabia lê-los. Se seu trabalho tivesse chegado até nós na 
íntegra, teria evitado muitas incertezas. Infelizmente desapareceu quando a 
biblioteca de Alexandria foi queimada. Os excertos preservados em várias 
compilações, frequentemente reunidos para fins apologéticos, fornecem-nos, 
não obstante, um sólido esquema da história egípcia. Na verdade, as 31 
dinastias “manetonianas” continuam sendo, até hoje, a base da cronologia 
relativa do Egito (Mokhtar, 2010, p. 38). 
O relato de viagens do grego Heródoto (séc. V a.C.), conhecido como 
"Histórias", documentou suas impressões sobre povos como os persas, babilônios e 
assírios. Por séculos, sua obra foi um pilar nos estudos da Antiguidade. Na 
contemporaneidade, porém, suas narrativas são reavaliadas e complementadas pelo 
diálogo com evidências arqueológicas e outras fontes materiais. 
4 CONFIGURAÇÃO GEOGRÁFICA 
Antes de explorar a geografia e o povoamento da Grécia, é fundamental 
entender que o termo "grego" não era utilizado pelos próprios habitantes da região. 
Essa designação foi criada pelos romanos para se referir aos falantes da língua grega, 
não correspondendo, portanto, a um conceito de nacionalidade. Os povos daquela 
região chamavam seu território de Hélade, a si mesmosde helenos, e consideravam 
bárbaros todos aqueles que não compartilhavam sua língua e seus costumes. A 
localização da Grécia pode ser visualizada na Figura 8: 
Figura 8 – Grécia Antiga 
Fonte: https://x.gd/ufYVqN. 
A região originalmente habitada pelos helenos corresponde à atual Península 
Balcânica (também conhecida como Grécia Continental). Em um processo de 
expansão, ocuparam também diversas ilhas dos mares Egeu, Mediterrâneo e Jônico, 
constituindo a Grécia Insular. Além disso, estabeleceram-se no litoral da Ásia Menor 
(na antiga Jônia, atual Turquia), formando a Grécia Asiática, e no sul da Itália, área 
denominada Magna Grécia (Funari, 2002). 
A configuração geográfica da Grécia Continental, marcada por um relevo 
montanhoso e por planícies férteis, porém descontínuas, limitou a expansão da 
agricultura e atuou como um estímulo à expansão marítima e territorial dos helenos. 
Ao mesmo tempo, o litoral recortado favoreceu a navegação e o desenvolvimento de 
uma frota comercial e militar. Embora esse relevo acidentado seja frequentemente 
citado como fator determinante para o fracionamento político em cidades-estados 
autônomas e para as rivalidades entre elas, torna-se importante considerar que tal 
explicação simplifica um processo histórico complexo, no qual fatores culturais, sociais 
e políticos tiveram papel igualmente decisivo na formação das pólis gregas: 
A cidade — pólis, em grego — é um pequeno Estado soberano que 
compreende uma cidade e o campo ao redor e, eventualmente, alguns 
povoados urbanos secundários. A cidade se define, de fato, pelo povo — 
demos — que a compõe: uma coletividade de indivíduos submetidos aos 
mesmos costumes fundamentais e unidos por um culto comum às mesmas 
divindades protetoras. Em geral, uma cidade, ao formar-se, compreende 
várias tribos; a tribo está dividida em diversas frátrias e estas em clãs; estes, 
por sua vez, compostos de muitas famílias no sentido estrito do termo (pai, 
mãe e filhos). A cada nível, os membros desses agrupamentos acreditam 
descender de um ancestral comum e se encontram ligados por estreitos laços 
de solidariedade. As pessoas que não fazem parte destes grupos são 
estrangeiros na cidade e não lhes cabe nem direitos, nem proteção (Funari, 
2002, p. 25). 
Considerando essas características das cidades-estado, é essencial 
compreender que a Hélade – ou Grécia Antiga – não constituía um Estado unificado, 
governado por uma única autoridade ou representante de uma nação homogênea. Em 
vez disso, tratava-se de um conjunto de pólis independentes, cada uma com seu 
próprio governo, suas leis e traços culturais, políticos e sociais distintos. Mas quais 
povos ocuparam a Hélade? Bauer, Alves e Oliveira (2019) revelam que o povoamento 
do território grego tenha começado há cerca de 4 mil anos. Evidências arqueológicas 
indicam que quatro grandes grupos de origem indo-europeia se estabeleceram 
sucessivamente na região: 
• Aqueus: povos fundadores de Micenas, os aqueus se instalaram na ilha de
Creta há cerca de 3.500 anos, dando origem à civilização creto-micênica.
Expandiram-se pelo mar Egeu e mantiveram o domínio da região até o século
XIII a.C.
• Jônios: estabeleceram-se na Península Balcânica por volta do século XVIII
a.C. e fundaram a cidade de Atenas. Posteriormente, migraram para a Ásia
Menor, onde fundaram a região conhecida como Jônia. 
• Eólios: ocupando o norte da Grécia há aproximadamente 3.800 anos, os eólios
foram responsáveis pela fundação da cidade de Tebas.
• Dórios: último povo a conquistar a Hélade, os dórios fundaram a cidade de
Esparta e ficaram conhecidos por sua organização militar e disciplina rígida.
Estudos recentes apontam que, ainda em sua "pré-história", o território da atual
Grécia era habitado por populações ágrafas, como os leleges e os pelasgos. Dessa 
forma, os grupos indo-europeus que posteriormente chegaram à região podem ser 
vistos como "invasores" que, ao se misturar com esses povos originários, participaram 
da formação da civilização helênica. Como destaca Funari (2002), a sociedade grega 
se consolidou nos séculos seguintes às invasões dórias, não como um "milagre", mas 
como herdeira de um conjunto de avanços e saberes que foram aprendidos, 
adaptados e reelaborados a partir do contato com outras culturas. 
4.1 Periodização histórica grega 
A Grécia Antiga abrange o intervalo histórico que vai desde a ocupação inicial 
do território por povos nômades e ágrafos até sua incorporação ao domínio romano. 
No entanto, a datação e as subdivisões que estruturam essa periodização apoiam-se, 
em grande parte, na experiência ateniense. Foi Atenas que legou o maior volume de 
registros e evidências, o que a torna a principal referência para o estudo histórico da 
região. 
Diante disso, ressalta Guarinello (2023), é fundamental ter em mente que cada 
cidade-estado (pólis) tinha suas próprias particularidades políticas, sociais e culturais. 
A periodização tradicional, portanto, não está livre de imprecisões e generalizações, 
pois reflete sobretudo a trajetória de Atenas. De modo didático, costuma-se dividir a 
história da Grécia Antiga nos seguintes períodos: 
• Sociedade Cretense ou Minoica (c. 2000–1500 a.C.): esta civilização
floresceu na ilha de Creta e recebeu seu nome em referência ao lendário rei
Minos, presente na mitologia grega. Sua organização política e social girava
em torno de grandes complexos palacianos, que se espalhavam pela ilha e
funcionavam como centros de reinos autônomos.
• Micênico ou Pré-Homérico (c. 1500–1200 a.C.): deriva seu nome do rei
aqueu Micenas, figura central na ocupação do continente grego e da ilha de
Creta. Sua organização social baseava-se em aldeias e palácios fortificados,
evidenciando um caráter militarista e conflituoso, marcado por disputas
frequentes por terras, rotas comerciais e recursos. Essa estrutura foi 
fundamental para a consolidação da presença grega na região. Por volta de 
1200 a.C., com a invasão dos dórios, muitos desses núcleos urbanos foram 
destruídos ou abandonados. 
• Período Homérico ou Idade das Trevas (c. 1200–800 a.C.): esta fase marca
a consolidação das estruturas sociais básicas chamadas genos. Embora
frequentemente traduzido como "família", o termo designa uma unidade social
mais ampla, incluindo não apenas laços de sangue, mas também relações
hereditárias e agregados ligados por obrigações afetivas e de proteção. A
organização comunitária em torno dos genos constituiu o embrião das futuras
cidades-estado gregas. A desintegração gradual dos genos foi motivada por
fatores diversos, tais como: o crescimento populacional, que superou a
capacidade de produção de alimentos, gerando disputas por recursos e terras
cultiváveis; conflitos internos, incluindo rivalidades entre herdeiros, o
desinteresse das novas gerações pelo trabalho agrícola monótono, e a
expulsão de criminosos do grupo.
• O Período Arcaico (c. 800–500 a.C.): marcado pelo desenvolvimento
definitivo das cidades-estado gregas (pólis), que se consolidaram como
unidades políticas e econômicas autônomas (Austin; Vidal-naquet, 1972). Nele
surgiram manifestações artísticas, culturais e filosóficas que deixaram um
legado duradouro, acompanhadas por uma crescente separação entre o
pensamento social e o domínio mítico-religioso. Foi também nessa época que
Atenas iniciou um processo de reformas políticas, passando por fases
aristocráticas e tirânicas.
• O Período Clássico (500–400 a.C.): corresponde ao auge das pólis gregas,
marcado por significativos avanços culturais, econômicos e políticos. O intenso
comércio marítimo e a competição por influência na região acirraram as
rivalidades entre as cidades-estado, resultando em confrontos como a Guerra
do Peloponeso, na qual Atenas e sua Liga de Delos enfrentaram Esparta e a
Liga do Peloponeso — alianças fundamentadas em acordos de natureza
econômica e militar (Finley, 2013).
• Período Helenístico (c. 400–100 a.C.): após a Guerra