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HISTÓRIA ANTIGA
1 CAMPO HISTORIOGRÁFICO ANTIGO
Para definir o que chamamos de História Antiga ou Antiguidade – que inclui as
vertentes Clássica e Oriental –, é preciso primeiro entender como a história é dividida
em fases. Essa divisão, conhecida como periodização, cria intervalos de tempo
marcados por transformações significativas nos âmbitos cultural, econômico, político
e social, que representam uma ruptura com a ordem estabelecida anteriormente.
A divisão da história em períodos como Antiga, Medieval, Moderna e
Contemporânea é uma construção intelectual, não um reflexo natural do passado.
Essa estrutura, que toma eventos como a Revolução Francesa (1789) como um marco
inicial da Idade Contemporânea, pode ofuscar a diversidade de experiências históricas
e percepções de tempo. No entanto, tal periodização é verdadeiramente universal? O
ano de 1789 teve a mesma importância ressonante para os processos históricos em
andamento no Brasil ou na África? Ou será que seu significado como divisor de águas
permanece confinado à experiência europeia, ou mesmo especificamente francesa?
Bauer, Alves e Oliveira (2019) ressaltam que a conciliação entre os diversos
sistemas de contagem de tempo das sociedades antigas e a datação ocidental
moderna representa um dos grandes desafios da historiografia. Civilizações como a
grega organizavam sua cronologia a partir de eventos fundadores, como a primeira
Olimpíada; os romanos, a partir da data de fundação de sua cidade; e inúmeros povos
do Oriente Próximo contavam o tempo pelos anos de reinado de seus soberanos.
Diante dessa pluralidade de calendários, que frequentemente se baseavam em
marcos locais, culturais ou naturais, surge a complexa questão de como harmonizá-
los com a estrutura do calendário cristão, hoje hegemônico. Esta não é uma mera
conversão numérica, mas um processo interpretativo que exige cuidado para não
sobrepor uma visão de tempo eurocêntrica e, assim, distorcer a percepção temporal
única de cada cultura.
A concepção de uma "História Antiga" como a entendemos hoje é uma herança
intelectual do Renascimento. Foi neste período que os estudiosos, ao revisitarem e
reavaliarem as obras e ideias do mundo greco-romano, começaram a forjar a noção
de um "mundo clássico" distinto:
O que hoje denominamos de História Antiga foi, no princípio, um movimento
cultural e literário de produção de memória a partir de textos e objetos. Após
a dissolução do Império Romano ocidental, a lembrança de um passado pré-
-cristão foi aos poucos se dissolvendo. [...] A partir do século XII, esses textos
passaram a ser cada vez mais procurados e difundiu-se, a partir da Itália, a
ideia de que eles representavam algo diferente da cultura contemporânea:
eram a herança escrita dos antigos. Muitos pensadores, poetas, artistas e
curiosos da natureza começaram a debruçar-se sobre esses textos, extraindo
os livros originais das grandes compilações manuscritas. A ideia de que tinha
havido um mundo “antigo”, anterior ao cristianismo, com uma cultura rica e
singular, difundiu-se, aos poucos, pelas cortes europeias e pelos literatos.
Essa cultura laica, livre do domínio da Igreja, parecia muito adequada aos
novos tempos (Guarinello, 2014, p. 173).
A consolidação da "História Antiga" como um período histórico distinto ocorreu
paralelamente ao processo de cientifização da disciplina. Ao longo do século XIX,
essa categorização tornou-se hegemônica, alinhando-se a conceitos como civilização,
nação e progresso para impor uma visão linear da história universal. Nessa lógica,
cada fase era entendida como o desenvolvimento necessário de forças já em
gestação na etapa anterior, tal como exemplificado pela noção de que o
Renascimento sucedeu a Idade Média para, supostamente, inaugurar os Tempos
Modernos (Gruzinski, 2001).
É fundamental notar que a concepção de um tempo linear está intrinsicamente
ligada à crença em uma ordem natural e previsível das coisas, uma ideia da qual
custamos a nos desvencilhar: a noção de que todo sistema social possuiria uma
estabilidade original à qual inevitavelmente tenderia retornar. Essa perspectiva teve
um impacto profundo na narrativa histórica, pois, sob sua égide, a civilização grega foi
progressivamente redefinida para parecer menos oriental e africana e mais
exclusivamente europeia. Dessa forma, esse legado foi apropriado como herança
cultural exclusiva da Europa Ocidental. Nesse mesmo sentido, confirma-se a
observação de Silva (2018):
A tradicional seleção quadripartite da história, somada a uma temporalidade
linear, nos leva a crer que a origem de quase todos os processos históricos
está no ocidente branco e cristão. [...] Porém, outras articulações entre
passado, presente e futuro são possíveis. Diferentes contatos culturais na
história provocaram misturas, mas também alterações nas formas de
conceber o tempo e os processos históricos que nos orientam. [...] Também
é muito destacada a cultura greco-romana como matriz da cultura ocidental e
de uma cultura erudita, embora se possa estudar também a história antiga
através dos contatos entre diferentes culturas constituintes do oriente e do
ocidente (Silva, 2018, p. 76).
Como era de se esperar, a História Antiga enquanto disciplina não está imune
a críticas. Uma das principais acusações que lhe é dirigida é a de caráter imperialista,
por ter difundido uma narrativa que centraliza os processos europeus como motores
de fenômenos de escala global. No entanto, é importante salientar que uma parcela
significativa dessas objeções surge de um desconhecimento acerca das
reformulações recentes do campo, que tem se empenhado em adotar perspectivas
cada vez menos eurocêntricas (Bauer; Alves; Oliveira, 2019).
É importante considerar que a chamada História Antiga tradicional tem passado
por significativas reorientações, a ponto de ser frequentemente redesignada como
"História do Mediterrâneo Antigo". Essa mudança terminológica reflete um abandono
progressivo de suas pretensões generalistas e universalizantes, assim como de seu
foco exclusivamente clássico. Como consequência, regiões do mundo que não
integraram diretamente aquele contexto específico deixam de ser categorizadas como
meras periferias e passam a ser compreendidas como observadoras de uma
experiência histórica distinta. Esse reposicionamento, conforme argumenta Francisco
(2017), constitui, em si mesmo, um valioso exercício de alteridade:
Essa situação parece ter especial importância por dois motivos. O primeiro é
a base da crítica à História Antiga. Em termos panfletários, pode-se dizer que
ela não nos serve, que ela é necessariamente imperialista, que ela contribuiu
para a organização de uma identidade periférica na maior parte do planeta,
inclusive no Brasil. Muitos desses argumentos são bastante válidos, mas sua
validade é parcial. A História Antiga vem mudando e essas mudanças
apresentam um forte componente autocrítico. Por exemplo, a perspectiva
racista dos Estudos Clássicos ao longo do século XIX e XX, apresentada por
Martin Bernal (1990), ainda é tema de debate e promoveu uma ampla reflexão
sobre alguns critérios narrativos da História Antiga. O que quero dizer é que
a crítica estabelecida à História Antiga (se ela é importante ou não para nós)
deveria partir de um conhecimento mais profundo do campo. Sem isso,
restam apenas impressões um tanto desatualizadas sobre ela, o que afeta
sensivelmente a qualidade do argumento crítico (Francisco, 2017, p. 55).
Desenvolve-se, na contemporaneidade, uma consciência crítica em relação à
História Antiga, na qual se reconhece a impossibilidade de construir narrativas
baseadas na exclusividade de uma herança cultural. Compreende-se, assim, que não
há uma linha direta de continuidade entre o mundo antigo e o contemporâneo. A
presença de elementos "antigos" em nossa realidade não faz da modernidade
herdeira diretado Peloponeso e a
derrota de Atenas para Esparta, as cidades-estado gregas saíram
enfraquecidas e divididas pelas consequências do conflito. Aproveitando-se
dessa fragilidade, Alexandre, o Grande, rei da Macedônia, invadiu e conquistou
o território grego, incorporando-o ao seu vasto império. Admirador da cultura
grega, Alexandre promoveu a difusão de seus valores, práticas e pensamento,
que, ao se misturarem com elementos das culturas orientais, deram origem ao
fenômeno conhecido como helenismo. Esse período também antecedeu a
ascensão e o subsequente domínio romano sobre a região.
Embora essa periodização sirva como um guia didático útil para o estudo da
Grécia Antiga, é fundamental adotá-la com senso crítico, pois, como aponta
Florenzano (2004), ela está essencialmente fundamentada na experiência ateniense,
uma cidade-estado da qual dispomos de mais registros históricos. Além disso, como
ocorre em qualquer tentativa de periodização, foram feitas escolhas seletivas sobre
quais povos e dinâmicas da Hélade seriam destacados ou relegados a um segundo
plano, o que naturalmente simplifica uma realidade histórica muito mais diversa e
complexa.
4.2 Atenas e a democracia grega
Como resultado de sua liderança decisiva nas Guerras Médicas, do prestígio
militar que conquistou – superando até mesmo o de Esparta – e do controle que
exercia sobre a Liga de Delos, Atenas se tornou a cidade-estado mais influente da
Grécia, inaugurando um período conhecido como a hegemonia ateniense ou a idade
de ouro de Atenas, que se estendeu ao longo do século V a.C.
Sob o governo de Péricles, Atenas realizou uma profunda reforma política que
consolidou um sistema democrático único, impulsionou obras monumentais como a
do Partenon (Figura 9) e assistiu ao apogeu do teatro com as tragédias de
Ésquilo, Sófocles e Eurípides. Nessa mesma época, também emergiram as obras
essenciais de historiadores como Heródoto e Tucídides, além do filósofo Sócrates.
Nos campos artístico, cultural, filosófico e historiográfico, Atenas estabeleceu-se,
portanto, como o principal polo gerador e difusor de conhecimento da Antiguidade
clássica.
Figura 9 – Partenon, templo dedicado à deusa Atena
Fonte: https://x.gd/BEs6X.
A hegemonia ateniense também se refletia na economia. Após as Guerras
Médicas, Atenas estabeleceu uma frota mercante robusta, encarregada do transporte
de diversas mercadorias. Aproveitando sua localização estratégica no Egeu, a cidade
passou a impor tarifas alfandegárias, consolidando ainda mais sua situação financeira.
Na agricultura, Atenas se dedicava ao cultivo de oliveiras e à produção e comércio de
azeite e seus derivados. Simultaneamente, desenvolvia uma manufatura significativa,
trabalhando metais para a confecção de armas e joias, além de produzir peças de
cerâmica que circulavam amplamente no comércio.
Em Atenas, argumentam Bauer, Alves e Oliveira (2019), o comércio interno na
península apoiava-se principalmente nas trocas diretas e nas pequenas transações
locais, por meio das quais eram adquiridos produtos de uso cotidiano como: cestos,
vasos e alimentos básicos. Junto a esses pequenos comerciantes, atuavam também
os cambistas, que realizavam a troca de moedas e concediam empréstimos de
pequeno valor.
Além disso, desenvolvia-se um comércio exterior, dominado pelos metecos
(estrangeiros residentes). Nesse circuito, o trigo era o único produto cujo comércio
ficava sob controle direto da cidade-estado. Esse dinamismo comercial, tanto interno
quanto externo, contribuiu para que a moeda ateniense se tornasse amplamente
aceita como forma de pagamento em diversas regiões, consolidando ainda mais a
influência econômica de Atenas.
Democracia ateniense
Etimologicamente, a palavra "democracia" deriva dos termos gregos demos
(povo) e kratos (poder). No entanto, é importante observar que tanto "povo" quanto
"poder" possuíam sentidos bastante distintos dos que carregam hoje. A democracia
ateniense organizava-se por meio de mandatos eletivos, todos temporários e
exercidos em assembleias e conselhos. Nesses espaços de deliberação coletiva,
destacavam-se sobretudo os cidadãos que dominavam a oratória e a retórica,
habilidades fundamentais para influenciar as votações e a tomada de decisões na vida
política da pólis:
A palavra não é mais o termo ritual, a fórmula justa, mas o debate
contraditório, a discussão, a argumentação. Supõe um público ao qual ela se
dirige como a um juiz que decide em última instância, de mãos erguidas, entre
dois partidos que lhe são apresentados; é essa escolha puramente humana
que mede a força de persuasão respectiva dos dois discursos, assegurando
a vitória de um dos oradores sobre seu adversário. Todas as questões de
interesse geral que o Soberano tinha por função regularizar e que definem o
campo da arché são agora submetidas à arte retórica e deverão resolver-se
na conclusão de um debate [...] Entre a política e o logos [conhecimento], há
assim uma relação estreita, vínculo recíproco. A arte política é
essencialmente exercício de linguagem; e o logos, na origem, toma
consciência de si mesmo, de suas regras, de sua eficácia, através de sua
função política (Vernant, 2002, p. 30).
Isso não significa, porém, que todas as pessoas tivessem acesso à vida
política. A participação estava restrita aos cidadãos, um grupo minoritário composto
por homens adultos, livres e nascidos em Atenas. Outros segmentos sociais, como os
escravizados e os metecos (estrangeiros residentes), estavam sistematicamente
excluídos dos direitos políticos. Essa exclusão era perpetuada por critérios de origem
e por uma condição transmitida geracionalmente. Conforme destaca Funari (2002):
Na democracia ateniense [...], apenas tinham direitos integrais os cidadãos.
Calcula-se que, em 431 a.C., havia 310 mil habitantes na Ática, região que
compreendia tanto a parte urbana como rural da cidade de Atenas, 172 mil
cidadãos com suas famílias, 28.500 estrangeiros com suas famílias e 110 mil
escravos. Os escravos, os estrangeiros e mesmo as mulheres e crianças
atenienses não tinham qualquer direito político e para eles a democracia
vigente não trazia qualquer vantagem (Funari, 2002, p. 38).
Instaurada em Atenas após a queda dos tiranos, entre 510 e 500 a.C., a
democracia foi alvo de críticas de importantes filósofos gregos, como Platão e
Aristóteles. Antes de sua implantação, Atenas passou por outras formas de governo:
a monarquia, em que o rei reunia poderes jurídicos, militares e religiosos; a oligarquia,
período em que o poder foi transferido para o grupo aristocrático dos eupátridas,
restando ao monarca apenas funções religiosas; e a tirania, quando Pisístrato e seus
filhos assumiram o governo com apoio de mercenários. Foi somente após as Guerras
Médicas e a união dos atenienses contra o inimigo comum que se criaram as
condições para a consolidação definitiva da democracia.
Os fundamentos da democracia ateniense apoiavam-se em três pilares
centrais: a isonomia (igualdade perante a lei), a liberdade (para votar, ser votado e se
expressar publicamente) e a noção de responsabilidade política, pela qual cada
cidadão era tido como responsável por seu voto e por suas ações no espaço público.
Assim, a cidadania ateniense era restrita a homens livres nascidos de pais
atenienses. Mulheres, estrangeiros (metecos) e escravizados eram excluídos desse
direito. O exercício pleno da democracia se dava na Assembleia (Eclésia), espaço que
pressupunha uma dinâmica de debate público, circulação de opiniões e exposição
política, combinando elementos como elegibilidade, rotatividade nos cargos, anuência
coletiva e busca de coesão social (Lessa, 2008).
5 FILOSOFIA GREGA
Para compreender o pensamento filosófico da Grécia Antiga, é importante
lembrar que não havia uma unidade política chamada “Grécia”, mas sim diversas
cidades-estado, cada uma com suas particularidades.A expressão “filosofia grega”
refere-se, portanto, ao conjunto de reflexões produzidas por pensadores que viveram
nessa região e partilharam um contexto cultural comum. No entanto, não se deve
atribuir a esses filósofos uma identidade “grega” uniforme, nem pressupor que suas
reflexões formem um sistema unificado.
Os registros históricos atribuem a Pitágoras de Samos a primeira utilização do
termo “filósofo”, que significa literalmente “amigo do saber”. Dessa palavra derivou
“filosofia”, como destaca Ghiraldelli Jr. (2018):
Os historiadores da filosofia afirmam que a filosofia surgiu como uma forma
de explicar o mundo em contraposição às formas narrativas mitológicas. Os
antropólogos e sociólogos, por sua vez, preferem enfatizar a função
socializadora do mito. O mito proporcionaria a um povo a comunhão em um
assunto, de modo a dar a cada indivíduo de sua comunidade uma boa parte
do que ele precisaria saber para se sentir um membro dessa sociedade. Isso
daria coesão à comunidade. Mas não é esse aspecto socializador e unificador
do mito que importa quando queremos relacioná-lo à função original da
filosofia. Não é errado dizer que o mito teria antes de tudo uma função
explicativa, tanto quanto a filosofia, e que por isso os filósofos deram combate
às narrativas mitológicas, pois seriam narrativas competidoras com as suas
próprias narrativas. Todavia, seriam narrativas incapazes — como os
filósofos enfatizaram — de fazer a distinção entre o real e o ilusório ou
meramente aparente (ou ficcional). A filosofia, por sua vez, teria nascido para
fazer tal distinção e, mais que isso, deveria ser capaz de explicar por que
tomamos o ilusório pelo real, se é que de fato fazemos essa inversão. Assim,
a filosofia teria vindo de uma articulação e ao mesmo tempo de um
rompimento com o mito (Ghiraldelli Jr., 2018, p. 5).
De outra forma, pode-se expor a periodização proposta por Marilena Chauí
(2000) para a filosofia grega antiga. Segundo a autora, ela pode ser organizada em
quatro períodos principais (Quadro 1):
Quadro 1 – Períodos da filosofia grega
Período Marco temporal
Foco central da
investigação
Características principais
Pré-socrático
ou cosmológico
Final do século
VII ao final do
século V a.C.
Origem do mundo
(cosmos) e causas
das transformações
na natureza
Busca por explicações racionais
para a natureza e o princípio do
universo, substituindo relatos
míticos por investigação filosófica
sobre a physis.
Socrático ou
antropológico
Final do século V
e todo o século
IV a.C.
Questões
humanas: ética,
política e técnicas
Desloca o foco da natureza para o
homem, sua vida em sociedade e a
formação moral e política do
indivíduo, com destaque para
Sócrates, sofistas e Platão.
Sistemático
Final do século
IV ao final do
século III a.C.
Integração da
cosmologia e da
antropologia
Procura sistematizar o saber
filosófico, consolidando ciências,
critérios de verdade e regras de
demonstração; mostra que
qualquer realidade pode ser objeto
de investigação se obedecer às leis
do pensamento.
Helenístico ou
greco-romano
Final do século III
a.C. até o século
VI d.C.
Ética, teoria do
conhecimento e
relação homem-
natureza-divino
Filosofia volta-se à vida prática, à
busca da felicidade e à paz de
espírito em um mundo
politicamente instável, incluindo
escolas como estoicismo,
epicurismo e ceticismo, já sob
domínio romano e com influência
dos primeiros pensadores cristãos.
Fonte: adaptado de Chauí, 2000.
Bauer, Alves e Oliveira (2019) salientam que os primeiros filósofos gregos,
tradicionalmente chamados de pré-socráticos – denominação que se refere mais ao
caráter cosmológico de suas especulações do que a uma cronologia anterior a
Sócrates –, têm como expoentes iniciais Tales (624–556 a.C.), Anaximandro (610-
546 a.C.) e Anaxímenes (585–528 a.C.), todos naturais de Mileto, nas colônias jônias
da Ásia Menor (atual Turquia). Em comum, buscaram identificar um princípio originário
(arché) que desse ordem e explicação ao mundo. De forma sintética:
• para Tales, a substância primordial era a água;
• para Anaximandro, seu discípulo, tratava-se de algo ilimitado e indeterminado,
o apeíron;
• para Anaxímenes, o elemento fundamental e ordenador era o ar.
Além dos filósofos de Mileto, outros pensadores pré-socráticos propuseram
diferentes archés para explicar o cosmos: Heráclito de Éfeso (Jônia) identificou o fogo
como princípio dinâmico da realidade; Anaxágoras de Clazômenas (também da Jônia)
postulou a existência de “sementes” (homeomerias) ordenadas por uma Inteligência
(Nous); Demócrito e Leucipo de Abdera (Trácia) defenderam que tudo era composto
por átomos indivisíveis; Pitágoras de Samos (que atuou em Cróton, Magna Grécia)
via nos números a essência das coisas; Parmênides e Zenão de Eleia (sul da Itália)
afirmavam a imutabilidade do Ser; e Empédocles de Agrigento (Sicília) sustentou que
o cosmos era formado pela interação de quatro raízes eternas: ar, água, terra e fogo.
Conforme Ghiraldelli Jr. (2018):
Sócrates (469–399 a.C.) não era rico, mas era grego, isto é, filho de gregos.
Esta última condição lhe garantiu o direito a uma boa educação, aquela
fornecida a todos os cidadãos gregos autênticos. Platão (427–347 a.C.),
diferentemente, era rico e nobre — teve mais do que uma simples boa
educação. Ganhou uma formação esmerada em um ambiente de pessoas
influentes. Ambos eram atenienses. Aristóteles (384–322 a.C.), por sua vez,
veio de Estagira, na Macedônia, para Atenas. Seu pai havia sido médico do
pai de Alexandre (356–326 a.C.), de quem ele próprio, depois, foi preceptor
(Ghiraldelli Jr., 2018, p. 58).
Sócrates nasceu em Atenas por volta de 470 a.C. e foi executado em 399 a.C.,
condenado sob as acusações de não reconhecer os deuses da cidade e corromper a
juventude. No entanto, conforme registrado na Apologia de Sócrates, escrita por seu
discípulo Platão, essas acusações foram injustas e refletiam mais conflitos políticos e
desavenças pessoais do que qualquer crime real ou imoralidade. Ao contrário de
outros filósofos contemporâneos, Sócrates não fundou uma escola formal, preferindo
conduzir seus diálogos e ensinamentos em espaços públicos, onde engajava
cidadãos em reflexões sobre virtude, justiça e a boa vida.
Não há registros de textos escritos por Sócrates, e seu pensamento chegou até
nós apenas por meio de testemunhos indiretos, especialmente dos escritos de seus
discípulos, como Platão e Xenofonte. Essa ausência de obra direta pode estar ligada
à própria concepção socrática de filosofia, que entendia o filosofar como uma atividade
essencialmente dialógica, viva e realizada na interlocução direta, e não na fixação
escrita de doutrinas.
Platão (424/423 – 348/347 a.C.), natural de Atenas, fundou em 387 a.C. a
Academia, uma instituição de ensino integral e sem restrições temáticas que
se tornaria um modelo precursor das futuras universidades (Figura 10). Entre
seus diálogos mais célebres destacam-se “A República”, “O Banquete”,
“Fédon” e a “Apologia de Sócrates”, nos quais desenvolveu e perpetuou,
por escrito, o pensamento de seu mestre Sócrates e suas próprias teorias
filosóficas.
Figura 10 – Representação da Academia de Platão, por Rafael Sanzio
Fonte: https://x.gd/uNEuE.
Aristóteles (384–322 a.C.), natural de Estagira, na Macedônia, foi aluno e
discípulo de Platão, tendo estudado por anos na Academia. No entanto, desenvolveu
uma filosofia distinta e fundou sua própria escola, o Liceu, em 336 a.C. Enquanto
Platão privilegiava o “Mundo das Ideias”, Aristóteles, ainda que reconhecesse uma
dimensão metafísica, voltava-se de maneira sistemática para a realidade material e
sensível. Sua investigação abarcou praticamente todos os campos do saber
conhecidos em sua época, resultando em obras fundamentais como “Metafísica”,
“Ética a Nicômaco”, entre outras (Chauí, 2000).Um último grupo relevante é o dos filósofos helenistas. O helenismo, que se
inicia com a morte de Alexandre Magno em 323 a.C., marcou uma significativa
transição na história da filosofia. Com o falecimento de Alexandre, Aristóteles deixou
Atenas e morreu no ano seguinte. No período que se seguiu, entre o fim do século IV
a.C. e os primeiros séculos da Era Cristã, Atenas continuou a ser um polo intelectual
que atraía jovens de diversas regiões. Foi nesse contexto que se consolidaram novas
correntes de pensamento, destacando-se principalmente as escolas epicurista,
estoica e cética.
5.1 Organização política e instituições
A combinação das condições geográficas da Hélade com as experiências
culturais, econômicas e políticas das diversas comunidades da região levou ao
surgimento do conceito de pólis. Embora frequentemente traduzida como “cidade”, a
pólis representava muito mais: era a vida e o governo da comunidade em seu sentido
pleno. A reflexão sobre a política ocupou lugar central no pensamento grego, e muitos
dos valores que então se consideravam essenciais para um bom governo
permanecem relevantes hoje: ética, a responsabilidade pelo bem comum e o princípio
da isonomia (igualdade perante a lei).
Bauer, Alves e Oliveira (2019) afirmam que a política e as instituições eram tão
fundamentais que levaram Aristóteles a definir o ser humano como um “animal
político” (zoon politikon). Essa organização também estabelecia uma divisão social
marcante: entre aqueles que detinham o direito de participar da vida política – os
cidadãos – e os que estavam excluídos dela, os não cidadãos.
Como já destacado, a Grécia Antiga nunca constituiu um Estado unificado sob
um único governo. Ela era, na verdade, um conjunto de cidades-estado (pólis)
independentes, cada uma com características, organizações e instituições políticas
próprias. Essas pólis podiam compartilhar certas semelhanças culturais ou religiosas,
mas suas estruturas de governo variavam significativamente. Enquanto algumas
regiões, como Atenas e Esparta, desenvolveram sistemas políticos complexos e
experimentaram diferentes formas de governo (como a democracia ou a oligarquia),
outras mantiveram organizações sociais mais arcaicas, baseadas em estruturas de
clã e modelos herdados do período homérico. Essa diversidade política foi uma marca
fundamental da experiência grega antiga.
De acordo com Cardoso (1990), embora cada cidade-estado tivesse suas
particularidades, é possível identificar pelo menos três características comuns a todas
elas:
• Divisão formal do governo em uma ou mais assembleias, em um ou mais
conselhos e em determinado número de magistrados selecionados –
geralmente todos os anos – entre os cidadãos considerados aptos.
• Participação direta dos cidadãos na vida política; a ideia de cidade-estado
pressupõe a tomada de decisões coletivas, aprovadas por votação após
debates realizados nos conselhos e/ou assembleias, cujas resoluções eram
obrigatórias para toda a comunidade; em outras palavras, os cidadãos com
plenos direitos exerciam a soberania.
• Ausência de uma separação rigorosa entre as instâncias de governo e de
justiça, bem como a integração da religião e dos sacerdotes à estrutura do
Estado.
A seguir, serão apresentadas as formas de organização política e as principais
instituições de duas das mais influentes cidades-estado da Grécia Antiga: Atenas e
Esparta.
5.2 Atenas
Até o século V a.C., Atenas não detinha grande influência na Hélade. Seu
protagonismo emergiu a partir de vitórias militares, do fortalecimento de suas relações
econômicas e, sobretudo, do desenvolvimento do regime democrático, que a
transformou em uma referência política e cultural – a ponto de sua história ser
frequentemente tomada como sinônimo da "história da Grécia", uma generalização
historiograficamente equivocada. A trajetória política ateniense evoluiu da monarquia
para governos aristocráticos e depois para tiranias, até consolidar-se, no período
clássico, na democracia. Conforme destaca Funari (2002):
O regime aristocrático não acabou de uma hora para outra em Atenas. A
trajetória política dos atenienses até o regime de maior participação popular
da Antiguidade foi marcada por várias e longas etapas. Para que se chegasse
à democracia foi preciso muita luta popular, pois os aristocratas não cederam
facilmente. Isso foi possível, entre outros motivos, graças à ampliação do
comércio marítimo ateniense, ocorrida a partir do século VI a.C., que tornou
o poder dos comerciantes grande o suficiente para contrastar com o domínio
dos grandes proprietários rurais. Os próprios camponeses conseguiram
ampliar sua participação social devido, também, ao seu crescente papel
econômico em uma Atenas cada vez mais voltada para o mundo exterior
(Funari, 2002, p. 34).
Para compreender o sistema político-democrático ateniense e suas
instituições, é fundamental ter em mente que a sociedade se dividia entre cidadãos e
não cidadãos. A cidadania era restrita a homens livres, filhos de pai e mãe atenienses.
Os não cidadãos incluíam mulheres, metecos (estrangeiros residentes) e
escravizados. Apenas os cidadãos detinham direitos políticos, podendo votar e ser
votados, administrando a pólis de forma direta, principalmente por meio da
assembleia. Bauer, Alves e Oliveira (2019) destacam que essa é uma diferença
essencial em relação à democracia contemporânea, que é predominantemente
representativa, enquanto a ateniense era fundamentalmente direta. Dessa forma, as
principais instituições do governo democrático ateniense eram:
• Assembleia (Ekklesia): era o principal órgão da democracia direta ateniense,
composto por todos os cidadãos maiores de 20 anos. Reunia-se a cada dez
dias na colina de Pnix para deliberar sobre os assuntos públicos. Entre suas
competências estavam: votar leis, declarar guerra ou paz, aprovar o orçamento,
eleger magistrados e decidir sobre o ostracismo – o exílio temporário de
cidadãos considerados ameaças à democracia.
• Conselho (Bulé): era formado por 500 cidadãos com mais de 30 anos,
escolhidos por sorteio para mandatos anuais. Sua principal função era preparar
a pauta de discussões e os projetos de lei que seriam submetidos à Assembleia
(Ekklesia), funcionando como uma espécie de comissão diretiva e
administrativa da cidade.
• Areópago: originariamente um tribunal composto por aristocratas anciãos,
responsável por julgar crimes de sangue (como homicídio). Ao longo do
desenvolvimento democrático ateniense, sua composição foi reformada e seus
membros passaram a ser eleitos democraticamente, mantendo, no entanto,
funções judiciais e de supervisão religiosa e moral.
• Helieia: era a mais alta instância do poder judiciário ateniense. Dividida em 10
câmaras, contava com cerca de 6 mil jurados, todos cidadãos sorteados
anualmente. O processo era direto: não havia advogados; tanto o acusador
quanto o acusado apresentavam suas próprias alegações perante o júri.
• Magistraturas: os magistrados eram sorteados entre os cidadãos para
mandatos de um ano, não renováveis. Ao término do mandato, tinham de
prestar contas públicas, comprovando que não haviam enriquecido ilicitamente
durante o exercício da função.
Segundo Finley (1988), a concentração de poder na assembleia, a
fragmentação e a rotatividade dos cargos administrativos, a escolha por sorteio, a
inexistência de uma burocracia assalariada e os tribunais com júri popular tinham
como objetivo impedir a partidarização da política e bloquear o retorno de aristocratas
ou tiranos ao poder.
5.3 Esparta
Formada por circunstâncias históricas específicas, Esparta estruturou-se como
uma comunidade política centrada no ideal guerreiro, organizando sua população em
uma rígida hierarquia de três estratos sociais:
• Homoioi (ou “os iguais”): formavam o grupo de cidadãos completos em
Esparta, com direito total à participação política, como votar na Apela,a
assembleia onde todos os cidadãos decidiam leis e assuntos importantes. Para
chegar a esse status, os jovens precisavam completar a agogê, o treinamento
militar obrigatório que começava aos 7 anos e durava até os 30, ensinando
obediência, resistência e habilidades de combate por meio de provas duras
como marchas longas, lutas e caçadas.
• Periecos (“os que vivem ao redor”): eram os habitantes livres das regiões
ao redor de Esparta. Eles não tinham direitos políticos, ou seja, não podiam
participar das decisões da cidade, mas tinham a responsabilidade de trabalhar
a terra e cuidar da agricultura para sustentar a comunidade espartana;
• Hilotas: eram os habitantes que trabalhavam na agricultura, cultivando as
terras dos homoioi. Isso permitia que os cidadãos espartanos se
concentrassem exclusivamente na vida militar, já que os hilotas cuidavam da
produção de alimentos e do sustento da cidade.
Esparta era governada por um sistema único chamado diarquia, com dois reis
hereditários de famílias diferentes (Ágidas e Euripôntidas), que atuavam como líderes
militares, religiosos e judiciais. Além dos reis, existiam outras instituições principais
que dividiam o poder entre assembleias, conselhos e supervisores (Quadro 2):
Quadro 2 – Sistema de governo espartano
Instituição Composição Função principal
Características
adicionais
Reis
(Diarquia)
Dois reis hereditários
(famílias Ágidas e
Euripôntidas)
Liderança militar,
religiosa e judicial
Coadjuvados pelas demais
instituições; atuação
limitada pela fiscalização
dos éforos.
Apela
Todos os homoioi com
mais de 30 anos
Assembleia popular
para aprovar leis e
decisões
Votava propostas da
Gerúsia; não discutia as
propostas.
Gerúsia
28 anciãos esparciatas
com + 60 anos + 2 reis
Conselho que
preparava leis,
julgava crimes
graves
Membros eleitos
vitaliciamente; órgão
legislativo e judicial.
Éforos
5 cidadãos eleitos
anualmente pela Apela
Fiscalização dos reis
e supervisão da
administração
Poderosos na prática;
podiam punir reis e
controlar educação e
guerra.
Fonte: adaptado de Bauer, Alves e Oliveira, 2019.
5.4 Helenismo e cultura grega
Para compreender o conceito de Helenismo, é útil recorrer à definição
apresentada por Silva e Silva (2009):
Ao falarmos de helenismo, estamos normalmente nos referindo à civilização
desenvolvida na Antiguidade a partir da Grécia Clássica e de sua cultura. Tal
período, iniciado, para alguns autores, com o Império de Alexandre Magno
[também conhecido como Alexandre, o Grande] no século IV a.C., marcou a
transição da civilização grega para a romana. Nesse sentido, o helenismo foi
a expansão da cultura grega a partir do intercâmbio que o Império de
Alexandre Magno promoveu entre essa cultura e diversas civilizações
orientais, como os egípcios e os persas (Silva; Silva, 2009, p. 178).
Portanto, o período helenístico representou a difusão da civilização grega,
acompanhando a formação do império de Alexandre, o Grande. Seu fim é comumente
associado à dominação romana sobre o Oriente. Conforme propõe Momigliano
(1991), o helenismo pode ser compreendido como uma sociedade renovada, dada a
sua capacidade de assimilação, transformação e fusão de distintas tradições culturais.
A conquista de um vasto território por Alexandre, o Grande, ultrapassou em
muito os limites do mundo das poleis gregas, estendendo-se desde o Egito e a
Palestina até a Mesopotâmia, a Pérsia e as fronteiras da Índia (Funari, 2002). Esse
movimento expansionista promoveu, ainda durante a vida do soberano, a difusão da
cultura grega, um fator decisivo para a helenização de seu império. Mesmo após sua
morte e a consequente fragmentação do domínio em três reinos principais – centrados
na Macedônia, no Egito e na Mesopotâmia –, o processo de fusão cultural entre as
matrizes helênica, egípcia, persa e mesopotâmica perdurou e floresceu nos grandes
centros urbanos da época.
Desse modo, compreende-se o helenismo como uma síntese cultural cujos
fundamentos são de origem grega, mas profundamente transformados por diversas
influências asiáticas. Conforme destacam Silva e Silva (2009), o helenismo representa
um momento de intensa fusão cultural entre o clássico grego, a cultura egípcia, a
mesopotâmica, a persa e mesmo a hindu.
A língua grega constitui outro pilar fundamental para o entendimento do
helenismo. Em suas campanhas, Alexandre promoveu a adoção do grego koiné (o
dialeto comum) como língua franca, suplantando outros dialetos e assimilando
elementos linguísticos de outras culturas. Essa unificação linguística facilitou a
comunicação em um império marcado por uma grande diversidade étnica e permitiu
que práticas culturais gregas, como a educação, se disseminassem. A própria
expansão militar despertou a curiosidade dos gregos sobre os povos conquistados,
levando-os a examinar e contrastar seus traços culturais com os dos nativos, num
processo contínuo de assimilação, rejeição e adaptação das singularidades com as
quais se defrontavam.
6 POVOAMENTO E ASPECTOS GEOGRÁFICOS
É fundamental esclarecer, para evitar interpretações anacrônicas, que a
expressão "Roma Antiga" não se restringe à urbe fundada às margens do Tibre. Neste
contexto, os termos "Roma" e "romanos" designam o próprio Império Romano em sua
totalidade geopolítica e o conjunto social que ocupava seus vastos domínios. Essa
observação serve também para destacar que, na Antiguidade, não existia uma
entidade nacional correspondente à Itália contemporânea, nem fronteiras definidas
conforme os padrões estatais modernos. Compreendido esse esclarecimento,
vejamos as características fundamentais da região onde a história romana se originou.
A Península Itálica apresenta cadeias montanhosas em seu centro e ao norte.
Nas áreas litorâneas e nos vales fluviais, porém, predominam solos de grande
fertilidade, os quais propiciaram o desenvolvimento da agricultura e da pecuária. Essa
vocação agropecuária, aliás, está na própria raiz do nome do território, conhecido
como "Terra dos Vitelos" ou Itália. Os povos latinos habitavam a região da planície, e
foi na margem esquerda do rio Tibre – próximo à sua foz – que a cidade de Roma
surgiu por volta do século VIII a.C.
De acordo com Funari (2002), é possível detalhar a composição dos povos que
habitavam a região e suas principais práticas comerciais e econômicas:
As possibilidades econômicas eram grandes, tanto na produção agrícola
(trigo e outros cereais) e na criação de animais, como no comércio. Desde o
início do primeiro milênio a.C., os povos que ocupavam a Península eram
indo-europeus, como os latinos, sabinos e gregos, ao sul, e os etruscos, uma
civilização original que combinava elementos gregos e orientais (Funari,
2002, p. 81).
A fundação da cidade de Roma é envolta em narrativas diversas. Entre
as versões míticas, destaca-se a célebre lenda de “Rômulo, Remo e a loba” (Figura
11). Para além do campo das tradições lendárias, contudo, as pesquisas
arqueológicas e históricas propõem explicações sobre as origens da urbe. Uma
das hipóteses mais consolidadas sugere que Roma teria surgido na região do
Lácio por iniciativa dos etruscos, os quais teriam unificado em uma única
comunidade, diferentes povoados de sabinos e latinos (Barbosa, 2009).
Figura 11 – A loba amamentando Rômulo e Remo
Fonte: https://x.gd/Gbo9F.
Bauer, Alves e Oliveira (2019) revelam que no período compreendido entre 753
a.C. e 509 a.C., Roma consolidou-se enquanto núcleo urbano, e o latim firmou-se
como idioma principal. A tradição relata que, em 509 a.C., os patrícios lideraram uma
rebelião contra o domínio etrusco, destituindo a dinastia dos Tarquínios e instaurando
o regime republicano. A figura de Brutus é apontada como líder dessa revolta, tendo
se tornado o primeiro magistrado da nova república. Como resultado da crescente
centralização de poder por Roma,a Península Itálica transformou-se em um polo de
influência no Mediterrâneo, passando a disputar a hegemonia regional com gregos e
persas.
6.1 Temporalidade da Roma Antiga
A periodização é uma ferramenta interpretativa, não uma verdade absoluta.
Recordando, toda divisão em períodos históricos decorre de pressupostos
conceituais, metodológicos e teóricos, refletindo as escolhas e perspectivas do
historiador. A história da Roma Antiga, seguindo essa lógica, é tradicionalmente
organizada em três fases principais:
• Monarquia: iniciou com a fundação de Roma em 753 a.C. e durou até 509 a.C.,
quando o último rei foi deposto.
• República: começou em 509 a.C., após a expulsão dos reis, e se estendeu até
27 a.C., marcada pelo governo dos cônsules e Senado.
• Império: surgiu em 27 a.C., quando Otaviano recebeu o título de Augusto do
Senado, e terminou em 476 d.C. com a queda do Império Romano do Ocidente.
Essa periodização deixa claro que foram eventos políticos os selecionados
como marcos divisórios da história romana antiga. Caso outros parâmetros fossem
adotados – como os culturais, sociais ou religiosos –, a delimitação dos períodos
poderia ser significativamente diferente.
Monarquia
Este período abrange desde a fundação lendária de Roma (753 a.C.) até o fim
da monarquia (509 a.C.). As fontes históricas disponíveis para seu estudo são
limitadas, baseando-se principalmente em relatos de autores romanos como Tito Lívio
e Virgílio, que mencionam reis de caráter quase lendário.
Sabe-se que os reis concentravam as funções executiva, judicial e religiosa,
embora seus poderes fossem restringidos por órgãos legislativos, como o Senado (ou
Conselho de Anciãos), que tinha a prerrogativa de aprovar ou rejeitar as propostas do
monarca. A validação das leis ocorria na Assembleia (ou Cúria), composta por todos
os cidadãos em idade militar. O crescimento econômico, inclusive a expansão
comercial, intensificou-se durante o período de domínio etrusco, iniciado no século VII
a.C.
Durante essa fase, ressalta Guarinello (2023), a sociedade romana estava
estruturada em três estratos sociais principais:
• Os patrícios: que detinham a cidadania romana, eram proprietários de terras
e rebanhos e formavam a aristocracia governante.
• Os plebeus: compostos majoritariamente por membros de povos
conquistados. Eram livres, mas não possuíam direitos políticos plenos.
• Os clientes: indivíduos vinculados a uma família patrícia (seus patronos), a
quem deviam obrigações de natureza econômica, moral e religiosa em troca
de proteção e sustento.
De fato, há discordâncias historiográficas sobre o fim da Monarquia Romana.
Alguns estudiosos sustentam que ela terminou de maneira abrupta, com uma revolta
patrícia que depôs o rei Tarquínio, o Soberbo, em 509 a.C. Outros argumentam que o
processo foi gradual, estendendo-se de 509 a.C. até cerca de 376 a.C., com
mudanças políticas mais lentas que efetivamente consolidaram o novo regime.
República
O período conhecido como República Romana – cujo nome deriva da
expressão latina res publica, que significa literalmente "coisa pública" ou "assunto
comum" – abrange o intervalo histórico entre o fim da Monarquia, em 509 a.C., e a
instauração do Império Romano, em 27 a.C.
Sob o regime republicano, que vigorava em Roma e em suas províncias, o
poder executivo era exercido por um sistema político no qual dois magistrados,
denominados cônsules, eram eleitos anualmente. Em períodos de paz, esses
magistrados eram conhecidos como iudices (juízes), e, em tempos de guerra, como
praetores (literalmente, "os que vão à frente"). Nessa fase, as funções religiosas, antes
concentradas no rei, foram transferidas para duas figuras específicas: o rex sacrorum
(rei dos sacrifícios) e o pontifex maximus (sumo pontífice).
Algumas instituições herdadas do período monárquico foram preservadas,
porém com suas funções redefinidas para se adequarem ao novo regime republicano.
Conforme aponta Funari (2002), foi durante a República que se verificou uma
progressiva ampliação dos direitos políticos da plebe:
Nos primeiros tempos da República romana, os patrícios detinham todos os
direitos políticos e só eles podiam ter cargos políticos, como os de cônsul e
senador. Os patrícios constituíam uma aristocracia de sangue, com
antepassados comuns, daí seu nome "aqueles com pais". Os clientes e a
plebe (composta de homens livres, pequenos agricultores, comerciantes e
artesãos) não possuíam direitos plenos. O poder dos patrícios vinha da posse
e exploração da terra, trabalhada por camponeses, às vezes escravizados
por dívidas. Os patrícios romanos governavam a cidade principalmente em
benefício próprio, aplicavam as leis conforme seus interesses pessoais e
procuravam reduzir à servidão plebeus camponeses que não conseguiam
pagar suas dívidas. Somente depois de mais de dois séculos de luta entre
plebeus insatisfeitos e patrícios poderosos, é que os plebeus conseguiram
progressivamente obter direitos políticos iguais aos [dos] nobres. Por volta de
450 a.C., os plebeus conseguiram que as leis segundo as quais as pessoas
seriam julgadas fossem registradas por escrito, numa tentativa de evitar as
injustiças do tempo em que as leis não eram escritas e os cônsules, sempre
da nobreza de sangue, administravam a justiça como bem entendiam,
conforme suas conveniências. O conjunto de normas finalmente redigidas foi
chamado “A Lei das Doze Tábuas”, que se tornou um dos textos
fundamentais do Direito romano, uma das principais heranças romanas que
chegaram até nós (Funari, 2002, p. 83).
Bauer, Alves e Oliveira (2019) analisam que a mobilização dos plebeus resultou
em uma série de conquistas, incluindo a abolição da escravidão por dívidas, a criação
do cargo de tribuno da plebe – um magistrado com poder de veto para proteger seus
interesses –, o reconhecimento da autoridade da Assembleia da Plebe e a permissão
para casamentos entre patrícios e plebeus, anteriormente vedados.
Foi no contexto republicano que Roma deu início a sua expansão territorial,
conquistando primeiro a Península Itálica e depois estendendo seu domínio pelas
margens do Mediterrâneo. Esse processo expansionista, conduzido tanto pela força
militar quanto por estratégias diplomáticas, provocou transformações profundas na
vida cultural, econômica, política e social romana.
Assim, um dos marcos decisivos dessa expansão foram as Guerras Púnicas,
conflitos travados entre Roma e Cartago – os cartagineses, conhecidos como puni
(fenícios). Cartago, uma cidade-estado de origem fenícia situada no norte da África,
controlava desde o século III a.C. o comércio no Mediterrâneo. Seus prósperos
mercadores mantinham diversas colônias em territórios que hoje correspondem à
Sicília, Sardenha, Córsega, Espanha e ao litoral norte-africano.
O regime republicano ingressou em uma crise grave no início do século I a.C.,
precipitada por uma série de ações inconstitucionais de Sila. Em 82 a.C., este tomou
a cidade de Roma com seu exército e autoproclamou-se ditador perpétuo. Embora
posteriormente tenha renunciado e devolvido formalmente o poder ao Senado, sua
intervenção minou a confiança no sistema político vigente. Esse colapso institucional
abriu caminho para a formação dos triunviratos. O primeiro foi composto por Júlio
César, Pompeu e Crasso; o segundo, por Otávio, Marco Antônio e Lépido.
Império
A expressão "Império Romano" é amplamente utilizada por historiadores e pelo
público em geral. No entanto, o que ela realmente designa? Costuma-se referir ao
Império tanto como um período histórico – que se estende de 27 a.C. a 476 d.C. —
quanto como uma realidade geopolítica. Esse foi um vasto território, da Britânia ao
Egito, da Lusitânia à Síria. Além disto, englobou uma população de cerca de 60
milhões de pessoas que se articulavam mediante as mais diversas formas de
organização política de caráter local e regional. Poressa razão, a historiografia
contemporânea tem relativizado o uso desse termo:
A arbitrariedade implícita na unidade e amplitude desta definição é clara, e a
aceitamos por mera convenção. Contudo, nos estudos concretos sobre o
Império Romano, a suposta unidade desaparece, de maneira que não se trata
mais de pensar em Império Romano, mas sim em “Impérios Romanos”. Trata-
se então de problematizar que a noção de Império Romano como a utilizamos
não nos é legada pelas fontes coetâneas; da mesma maneira que as fontes
do período republicano não tratam de “toda” a República Romana, assim
como as do período imperial não tratam do Império Romano como um todo
(Faversani; Joly, 2014, p. 11).
Assim, adota-se aqui, por convenção, a designação "Império Romano" para se
referir ao Estado romano após a reorganização política realizada pelo primeiro
imperador. A partir desse momento, diferentemente do que ocorria na República, o
cargo máximo do governante tornou-se vitalício. O período imperial costuma ser
dividido em duas fases principais: o Principado, que vai do governo de Augusto até a
crise do século III, e o Dominato, que se estende de Diocleciano até o fim do Império
Romano do Ocidente.
O governo de César Augusto é reconhecido como uma era de prosperidade e
expansão. Ele iniciou um longo intervalo de estabilidade interna, com
aproximadamente 250 anos de duração (de 31 a.C. a 235 d.C.), que ficou conhecido
como Pax Romana ("paz romana"). Conforme destaca Funari (2002):
Castigada após tantas guerras civis, Roma adotou o regime imperial de
governo. Os imperadores tinham grandes poderes, mas não eram reis, nem
a sucessão era, necessariamente, hereditária. No período imperial, a
administração dos domínios romanos foi reorganizada, visando à maior
centralização do poder; o imperador passou a acumular todos os poderes
apesar de continuarem a existir os órgãos administrativos da República. O
imperador era reverenciado e adorado como um dos deuses romanos, daí
sua enorme autoridade, derivada também do temor que inspirava. No
"período de paz", novas conquistas foram efetivadas e as atividades
econômicas e culturais ganharam grande impulso, surgindo novos e
portentosos edifícios, monumentos, aquedutos, pontes, circos e anfiteatros
(Funari, 2002, p. 90).
Após a morte de Teodósio, o Império Romano foi dividido em duas partes: o
Império Romano do Ocidente, com capital em Roma, e o Império Romano do Oriente,
sediado em Constantinopla. Constantemente invadido pelos chamados povos
"bárbaros" e enfraquecido por questões internas relacionadas à dinâmica entre as
províncias e o poder central, o Império Romano do Ocidente chegou ao fim em 476
d.C.
6.2 Expansão romana
Apesar de não ser uma cidade litorânea, a dominação da Península Itálica fez
com que o mar Mediterrâneo ganhasse grande importância para os romanos,
transformando-se em uma via de integração entre as diversas regiões do Império.
Para compreender plenamente essa relevância, é essencial analisar como ocorreu a
expansão romana e a conquista de outros povos. Nesse contexto, entender as
Guerras Púnicas é fundamental.
As Guerras Púnicas, iniciadas durante a República, foram decisivas para o
aperfeiçoamento das táticas militares romanas e para a definição de estratégias de
ocupação dos territórios conquistados. Conforme destaca Magnoli (2006):
[...] para que se tenha uma ideia da importância dessas guerras, basta
pensarmos que antes da Primeira Guerra Púnica os romanos não haviam
saído, ainda, da Península Itálica, e ao final da Terceira Guerra já haviam
submetido o norte da África e a Península Ibérica e estavam dirigindo seus
olhares para terras mais distantes, como a Britannia (atual Inglaterra) e
regiões mais orientais [...] (Magnoli, 2006, p. 87).
As Guerras Púnicas foram uma série de conflitos travados entre Roma e
Cartago pela hegemonia econômica e política no Mediterrâneo. Elas se desenrolaram
em três fases distintas entre os séculos III e II a.C.: a Primeira Guerra Púnica (264–
241 a.C.), a Segunda Guerra Púnica (218–201 a.C.) e a Terceira Guerra Púnica (149–
146 a.C.). Como já foi mencionado, Cartago era uma cidade-estado de origem fenícia
com vasta experiência comercial e naval, que dominava grande parte do comércio
mediterrâneo. Seu território se estendia desde o norte da África, abrangendo o oeste
da Sicília, a Sardenha, a Córsega e parte da Península Ibérica.
A Primeira Guerra Púnica teve início com a invasão e conquista romana da
colônia cartaginesa de Messina, na Sicília. Ao final do conflito, os romanos saíram
vitoriosos e anexaram a Sicília, a Córsega e a Sardenha. O segundo conflito foi
desencadeado pelos ataques do general cartaginês Aníbal. Partindo da Península
Ibérica – região conquistada por seu pai, Amílcar –, ele infligiu uma série de derrotas
aos romanos. Em resposta, Roma lançou um ataque direto contra Cartago, forçando
Aníbal a deslocar o teatro de operações (Figura 12).
Figura 12 – Trajeto de Aníbal na segunda guerra Púnica
Fonte: https://x.gd/VDntp.
A derrota cartaginesa impôs a submissão a Roma, incluindo o pagamento de
tributos e a proibição de travar guerras. Também permitiu que Roma reconquistasse
a Península Ibérica. Por fim, a Terceira Guerra Púnica resultou na invasão e
destruição total da cidade de Cartago pelos romanos. A cidade foi incendiada e seus
sobreviventes, reduzidos à escravidão. No entanto, nem todas as conquistas romanas
foram alcançadas pela força militar. Muitas resultaram de alianças estratégicas com
povos vizinhos, o que inicialmente permitiu a Roma estender seu controle sobre toda
a Península Itálica:
Roma foi uma cidade que expandiu seu poder ao ponto de se tornar um
grande Império, com sua territorialidade presente por séculos em boa parte
da Europa Ocidental, além do norte da África e parte da Ásia. Suas táticas de
territorialização iam desde o inicial domínio militar até a utilização das
políticas de romanização, onde incluímos a introdução dos costumes
romanos como a religião, as tradições, numa clara tentativa de transformação
dos povos sob o domínio de Roma em romanos. Entre essas táticas
existentes destacamos em nossos estudos a padronização da arquitetura e o
planejamento urbanístico das cidades construídas ou reconstruídas por
Roma (Freitas, 2009, p. 61).
De acordo com Bauer, Alves e Oliveira (2019), o tratamento dispensado aos
povos conquistados variava significativamente, dependendo de sua postura em
relação ao poder romano. Os que aceitavam aliar-se a Roma podiam obter direitos de
cidadania, totais ou parciais. Por outro lado, aqueles que resistiam eram subjugados:
muitos eram vendidos como escravos, enquanto outros passavam a pagar impostos
e tributos significativos ao Estado romano. Veja o que afirma Funari (2002):
Na prática, a aliança com Roma significava o fornecimento de forças militares,
chamadas auxiliares, a aceitação da hegemonia política romana, mas
também permitia um grau, bastante variável, de integração com o Estado
romano. Os subjugados eram massacrados ou escravizados e suas terras
eram tomadas e divididas entre os romanos e seus aliados. O método de
tratar de maneiras diferentes os povos vencidos era eficaz e favorecia o
domínio romano, pois dificultava as uniões entre os derrotados e suas
revoltas contra Roma. Alguns povos aliados recebiam todos os direitos dos
cidadãos romanos incluindo o de voto, ainda que este fosse pouco
importante, já que as assembleias eram dominadas pela nobreza e porque o
voto exigia a presença física em Roma. Outros povos recebiam somente
alguns direitos que não o de votar. Com outros ainda, mais numerosos, Roma
selava sua aliança permitindo-lhes manter seus próprios magistrados e leis
tradicionais, mas submetendo-os à tutela romana e exigindo que
fornecessem a Roma todas as tropas que esta requisitasse (Funari, 2002, p.
86).
Esse impulso expansionista, juntamente com a complexarede de acordos e
alianças estabelecida com os povos conquistados, consolidou o exército romano
como uma instituição fundamental. Conforme Mendes (2007), ainda no final do
período republicano, os generais passaram a usar suas legiões como instrumentos de
poder pessoal. Essa prática foi posteriormente apropriada pelos imperadores, que se
tornaram comandantes supremos das forças armadas, dedicando-se a garantir a
disciplina, o abastecimento e as recompensas dos soldados. Paralelamente, surgiu a
necessidade de patrulhar os mares e combater a pirataria, o que levou à
institucionalização da marinha, organizada em duas frotas principais. Seus tripulantes
eram recrutados principalmente entre libertos e peregrinos, que recebiam uma
remuneração inferior à dos legionários.
A expansão e as conquistas romanas promoveram transformações sociais
significativas. Após consolidar o domínio sobre toda a Península Itálica, a partir do
século III a.C., o Império direcionou sua expansão para além da Itália. Isso acelerou a
transformação da sociedade, originalmente camponesa. Simultaneamente, as guerras
passaram a gerar lucros expressivos, especialmente por meio da captura e venda de
inimigos, que eram escravizados e incorporados como força de trabalho.
7 FORMAÇÃO DA CULTURA ROMANA
Segundo Funari (2002), a cultura grega exerceu uma influência decisiva na
formação da cultura romana. A interação entre esses povos, já a partir do período da
Magna Grécia, possibilitou que os romanos assimilassem divindades gregas e
incorporassem a mitologia helênica às narrativas fundadoras de Roma. Esse
processo, como destaca o autor, revela a heterogeneidade e a fluidez cultural na
Antiguidade:
[...] a presença de elementos gregos no mundo romano adquire sentido em
sua específica reelaboração pelos romanos, eles mesmos uma grande
cultura de síntese, sempre capaz de absorver e transformar as outras
culturas. Os romanos da elite aprendiam o grego, falavam e escreviam-no
com perfeição, colecionavam obras de arte gregas, mas nunca se
confundiram com os gregos (Funari, 2002, p. 124).
Conforme Funari e Silva (2009), elementos das culturas grega e judaica foram
apropriados e valorizados pelas elites do Império Romano como uma estratégia para
consolidar e manter seu domínio. Essa assimilação se fez necessária devido à grande
diversidade cultural e linguística resultante da expansão territorial romana. A busca
por uma certa uniformidade cultural era vista como um mecanismo de controle,
embora esse processo só tenha se efetivado de maneira mais ampla por volta do
século IV d.C. O autor destaca cinco aspectos fundamentais para compreender essa
dinâmica:
• instituição de um culto religioso ao imperador em todas as províncias, servindo
como elemento unificador da lealdade entre os habitantes do Império e seu
governante;
• ampliação gradual da cidadania romana – e, consequentemente, da aplicação
do direito romano –, inicialmente concedida às elites provinciais, depois a
cidades e províncias inteiras até alcançar todos os habitantes do Império;
• política de tolerância quanto à diversidade étnica e aos costumes locais;
• incentivo ao sincretismo religioso, por meio da reinterpretação e integração das
crenças locais em um panteão pluriétnico, constantemente aberto à
assimilação de novas divindades;
• consolidação de duas amplas zonas linguístico-culturais dotadas de prestígio
social e função político-administrativa: a de predominância do latim,
correspondente à metade ocidental do Império, e a de predominância do grego,
que abrangia todo o Mediterrâneo oriental.
Para compreender o processo de "helenização" do Império Romano, é
fundamental considerar o contexto do Mediterrâneo oriental:
No Mediterrâneo oriental, com efeito, o Império se estendera sobre uma
região onde a vida urbana já era muito antiga e onde a cultura literária grega
ocupava, já desde séculos, o lugar e a função de cultura legítima, de cultura
de prestígio, de cultura de elite. Isso não significa, no entanto, que o Oriente
romano fosse plenamente helenizado. [...] Pelo contrário, a cultura grega
atuava como uma espécie de sistema cultural de intercâmbio, como uma
cultura franca que permitia o contato entre povos e pessoas com substratos
culturais próprios e distintos, aos quais se sobrepunha sem anulá-los (Funari;
Silva, 2009, p. 154).
A "identidade grega" tão apreciada pelos romanos estava intrinsecamente
ligada ao universo urbano e ao estilo de vida citadino. Essa identidade manifestava-
se em instituições características, como conselhos e assembleias populares, ginásios
para a prática física, templos, oráculos, ritos e divindades do panteão clássico grego.
Em grande medida, essa identidade foi construída e perpetuada por um saber escolar,
difundido por meio de escolas presentes em todas as cidades e cujas figuras de proa
eram os oradores e filósofos.
Embora, argumentam Bauer, Alves e Oliveira (2019), a ascendência
continuasse a ser um critério valorizado para definir a condição helênica, a identidade
grega foi, progressivamente, se desvinculando de uma noção estritamente étnica.
Desse modo, ela se consolidou como uma identidade cultural em sentido específico,
fundamentada no domínio correto da língua e no conhecimento da tradição clássica.
Em outras palavras, era possível tornar-se grego independentemente da origem
geográfica ou do nascimento.
A identidade grega foi forjada, no período da Segunda Sofística, a partir de
elementos construídos: uma língua erudita e artificial – bastante distante do vernáculo
corrente –, que buscava reproduzir fielmente o grego falado em Atenas no século V
a.C.; uma memória comum partilhada por todos os gregos; e um passado clássico
idealizado, que elegeu as narrativas sobre Atenas, Esparta e a Guerra do Peloponeso
como a história emblemática de toda a Hélade.
7.1 Cristãos e judeus na Roma Antiga
Para compreender esse contexto, é fundamental conhecer as práticas
religiosas romanas. Conforme Funari (2002), a religião na Roma Antiga era politeísta
e antropomórfica, recebendo influências etruscas e gregas, além de incorporar
elementos de outros cultos durante a expansão imperial. Essa característica
assimiladora foi, segundo o autor, um elemento central para a consolidação do poder
romano. A flexibilidade religiosa dos romanos, o respeito a outras religiões e a
facilidade de incorporá-las foi um fator importante em sua capacidade de dominar
povos tão variados e uma área geográfica tão grande.
Os romanos manifestavam sua devoção aos deuses por meio de oferendas em
templos e santuários domésticos. Realizavam também procissões, orações e
sacrifícios públicos, conforme descrito por Veyne (2009):
O calendário religioso, diferente de uma cidade para outra, periodicamente
restaurava festas religiosas; essas festas eram feriados. A religião
determinava assim a distribuição irregular dos dias de descanso ao longo do
ano (a semana, de origem mais astrológica que judaico-cristã, só entrou em
uso no final da Antiguidade). Nesses dias um romano convidava os amigos a
assistirem ao sacrifício que oferecia em sua casa, o que os honrava ainda
mais que simplesmente convidá-los para jantar. Conta Tertuliano que a casa
desprende vapores de incenso nessas grandes ocasiões: as festas nacionais
dos imperadores e de alguns deuses, o primeiro do ano e o primeiro dia de
cada mês; pois um costume caro aos romanos que tinham meios para tanto
era sacrificar no começo do mês um leitão aos gênios protetores da casa
(Lares, Penates). Uma grande festa anual, celebrada com real fervor, era o
aniversário do pai de família, que, nesse dia, se banqueteava em homenagem
a seu gênio protetor (uma espécie de dublê divino de cada indivíduo; na
verdade, sua existência resumia-se a permitir a cada um dizer: "Que meu
gênio me proteja!", ou "Juro por teu gênio que obedeci a tuas ordens")
(Veyne, 2009, p. 177-178).Os cultos e as práticas religiosas sofreram transformações ao longo do tempo.
Durante o período Imperial, a religião oficial incorporou o culto aos imperadores como
sendo uma espécie de religião cívica, que venerava os imperadores romanos
divinizados após a morte. Este culto, conhecido como culto imperial, serviu, por várias
gerações ao longo dos três primeiros séculos d.C., como um elemento aglutinador das
elites nas diversas províncias do Império.
Judaísmo
Ao contrário do termo "cristão", que se refere primordialmente a adeptos de
uma fé, a palavra "judeu" pode designar tanto os seguidores da religião judaica quanto
um povo com origem histórica no Oriente Médio. Como observam Silva e Silva (2009),
O Judaísmo como religião, vai além de um conjunto de textos sagrados e sua
interpretação. Trata-se, sobretudo, de um sistema de valores que orienta diretamente
o cotidiano de seus fiéis. Entre suas práticas mais significativas estão a circuncisão
dos meninos ao oitavo dia de vida; o Bar Mitzvá, ritual que marca a iniciação dos
rapazes na leitura da Torá; e, em comunidades mais contemporâneas, o Bat Mitzvá,
cerimônia equivalente para as meninas. Há também o Zéved habat ("presente da
filha"), rito de nomeação feminina.
No dia a dia, símbolos como a Kippá expressam a reverência à presença divina.
Além disso, observa-se um conjunto rigoroso de regras alimentares (kashrut),
fundamentadas principalmente no livro bíblico do Levítico. Por fim, a tradição judaica
preserva sua memória histórica por meio de festas cíclicas, que envolvem orações,
restrições alimentares, rituais de purificação e outras práticas que reforçam a
identidade e a continuidade cultural.
Ao longo de sua história, a diáspora – seja voluntária ou forçada – constituiu
uma marca constante para os judeus, acompanhada pela crença na futura reunião de
todos no seu território ancestral, Israel. A conquista romana de Jerusalém, em 70 d.C.,
representou um marco decisivo nessa trajetória. O Templo foi incendiado e destruído,
e sua população, massacrada ou escravizada. Com isso, o território foi transformado
na província romana da Judeia.
O judaísmo é uma religião de tradição escrita, que privilegia o estudo das
escrituras sagradas. A antiga Bíblia judaica incluía diversos livros que não foram
incorporados ao cânone posterior, e nessas narrativas os judeus são apresentados
como "o povo escolhido por Deus", diferenciando-se assim dos demais povos:
Já a diáspora hebraica se deu em 70 d.C., após a destruição do Templo de
Jerusalém pelos romanos. Tal acontecimento esteve relacionado à
resistência cultural dos judeus, que dificultava o domínio romano e promovia
rebeliões. Em 135 d.C. explodiu mais uma revolta em Jerusalém, sufocada
pelo imperador Adriano. Para reprimir essa revolta, os romanos desterraram
os judeus, espalhando-os pelo Império. Daí em diante, os judeus se
disseminaram por todo o mundo mediterrânico, para as terras da antiga
Mesopotâmia, para a Pérsia e para a Península Árabe, criando importantes
comunidades judaicas por todo o mundo antigo (Silva; Silva, 2009, p. 248).
Durante o Alto Império, a religião judaica era considerada religio licita (culto
permitido). Posteriormente, porém, passou a sofrer perseguição, e sua comunidade
foi marginalizada, sendo submetida a uma série de restrições e à perda de direitos
civis. Esse contexto de repressão e tensão desencadeou uma série de conflitos entre
Roma e os judeus, os quais, após serem derrotados, viram-se dispersos por diversas
comunidades do mundo antigo.
Cristianismo
O cristianismo, conforme explica Silva (2015), surgiu como uma vertente
espiritual proveniente do judaísmo, mantendo com este uma relação próxima e
complexa até pelo menos o século I d.C. Observe:
Após a destruição do Templo de Jerusalém por Tito, em 70, a proximidade
entre o cristianismo e o judaísmo se torna, no entanto, insustentável,
ocorrendo a dissociação progressiva entre os seguidores de ambas as
religiões, até o ponto em que uma passa a ser vista em confronto direto com
a outra. Ao adentrar o século II, o diálogo entre judeus e cristãos é
praticamente interrompido (Silva, 2015, p. 75).
A tolerância religiosa que Roma geralmente estendia aos povos conquistados
não se aplicou, inicialmente, ao cristianismo. A intensa perseguição sofrida pelos
cristãos no período imperial teve motivações que iam além da esfera religiosa, sendo
sobretudo de natureza política. Os cristãos reuniam-se em cultos secretos,
organizavam-se em pequenas comunidades e, nos primeiros tempos, foram
frequentemente vistos como praticantes de magia, uma vez que se recusavam a
prestar culto aos deuses romanos. Além disso, por serem monoteístas, os cristãos
não reconheciam a divindade do imperador e rejeitavam o culto oficial ao Estado, o
que os tornava, aos olhos de Roma, uma ameaça à ordem pública e à segurança do
Império. Ao longo de mais de dois séculos, essa postura de recusa justificou ondas
de perseguição.
As execuções públicas de cristãos, martirizados em espetáculos que incluíam
crucificação ou o lançamento às feras no anfiteatro, eram assistidas e até apreciadas
por grande parte da população. Para a maioria dos romanos não convertidos, os
cristãos representavam uma ameaça nociva, pois sua recusa em honrar os deuses e
os imperadores era vista como um perigo à estabilidade religiosa e política do mundo
romano.
O Império Romano passou a tolerar oficialmente o cristianismo a partir de 313
d.C., com a promulgação do Édito de Milão, firmado pelos imperadores Constantino I
(no Ocidente) e Licínio (no Oriente). O édito foi publicado na mesma data do
casamento de Licínio com Constantia, irmã do imperador ocidental. Por meio dele, o
cristianismo não apenas deixou de ser perseguido, como também foi reconhecido
como uma das religiões oficiais do Império. O cristianismo foi estabelecido como
religião oficial exclusiva do Império sob Teodósio I (379–395 d.C.), que subordinou a
Igreja ao controle imperial. Essa decisão, contudo, não foi pacífica, uma vez que o
paganismo ainda contava com um grande número de fiéis.
Como destaca Funari (2002), a Palestina sob o domínio romano era um
mosaico de povos, incluindo judeus, samaritanos, gregos e romanos. Os próprios
judeus estavam divididos em diferentes grupos, com visões diversas sobre a religião
e a relação com os conquistadores. Foi nesse cenário complexo que nasceu Jesus,
figura sobre a qual pouco se sabe além do registrado nos evangelhos, escritos por
volta de 70 d.C., provavelmente por seus seguidores:
Nos primeiros anos, os seguidores de Jesus eram somente judeus pobres e
humildes, como o pescador Simão, chamado de Pedro ("Rocha"). No tempo
de suas pregações, por volta do ano 30 d.C., Jesus conquistou alguns
seguidores entre os judeus, mas grande parte dos judeus não se converteu
acreditando que não seria ele o Messias que seu povo tanto esperava. Jesus
foi condenado à morte na cruz pelos romanos, acusado de dizer-se o rei dos
judeus, em 30 d.C. Logo em seguida à sua morte, seus seguidores formaram
uma comunidade, de gente humilde, chamados de "pobres", que se reunia
em memória de Jesus, que passou então a ser conhecido entre os que nele
acreditavam como "Cristo", "ungido" do Senhor, o salvador que os judeus
esperavam e que teria morrido na cruz para salvar a todos os justos. Os
cristãos acreditavam na existência de um único Deus universal e que Jesus
era o Messias que trazia aos homens não riqueza e independência e sim o
perdão de seus pecados e a promessa da felicidade eterna após a morte para
aqueles que o merecessem (Funari, 2002, p. 128).
Após a morte de Jesus, seus apóstolos iniciaram a pregação dos evangelhos,
convertendo principalmente judeus das camadas mais pobres. Com o tempo, o
cristianismo começou a expandir-se para diferentes estratos sociais e regiões do
Império Romano. Além dos judeus convertidos, somaram-seaos adeptos da nova fé
não judeus, escravizados, povos subjugados por Roma e pessoas humildes, mas
também gregos e romanos das elites. Nesse sentido, a pregação do cristianismo, com
seu destaque para a salvação e a ressurreição da alma, explica seu êxito.
A crise que assolou o Império Romano coincidiu com o período de consolidação
do cristianismo como uma religião de expressivo número de fiéis. Muitos romanos,
alarmados com o colapso em curso, buscaram refúgio espiritual na religião. Uma vez
que a religião oficial já não lhes oferecia conforto, voltaram-se para outros cultos,
rompendo com as tradições romanas. Nesse vácuo, o cristianismo atraiu inúmeros
adeptos, apresentando-se como uma fonte de esperança.
7.2 Cotidiano da vida romana
Quando falamos em “cotidiano”, a que exatamente nos referimos? O conceito
pode ser compreendido de diferentes perspectivas: como uma dimensão social, um
espaço concreto ou uma temporalidade específica. Também é comum defini-lo
simplesmente como a vida do dia a dia (Veyne, 2009). No entanto, será que todas as
pessoas vivenciam o mesmo cotidiano? Para uma análise mais precisa, não seria
necessário considerar recortes como classe, etnia, raça e gênero, que moldam
experiências profundamente distintas?
Assim, o cotidiano é entendido como uma dimensão na qual as relações de
poder – manifestas tanto na dominação quanto na resistência – tornam-se visíveis
através de atividades, atitudes, hábitos e rotinas. É claro que esta definição preliminar
não esgota a complexidade e a multiplicidade das experiências cotidianas, motivo pelo
qual deve-se evitar generalizações amplas.
Existem registros que nos permitem reconstituir aspectos da rotina cotidiana
dos romanos. Conforme Funari (2002), costumavam acordar ao amanhecer. O
comércio iniciava suas atividades cedo, e as repartições públicas, localizadas no
fórum (praça central), abriam por volta das 8 horas. O trabalho seguia até o meio-dia,
quando tudo fechava para o almoço, uma refeição leve composta geralmente por pão,
azeitonas, queijo, nozes, figos secos e algo para beber. Havia quem levasse uma
marmita e comesse seu almoço na rua, ou assistindo a uma luta de gladiadores no
anfiteatro.
Os romanos organizavam o dia em 12 horas diurnas e 12 noturnas, contadas a
partir do nascer do sol, o que fazia sua duração variar conforme a estação. No verão,
o "dia" (período de luz) iniciava por volta das 4h30 e se estendia até as 19h30; já no
inverno, ia aproximadamente das 7h30 às 16h30. Eles frequentavam as termas,
complexos onde podiam desfrutar de banhos relaxantes. No período noturno,
realizavam a principal refeição do dia, a ceia. Aqui fica evidente a distinção entre os
estratos sociais: enquanto os mais pobres se alimentavam basicamente de pão,
vegetais e vinho de baixa qualidade, os mais abastados participavam de longas ceias
que podiam durar horas, compostas por entrada, prato principal com carne e
sobremesa à base de doces ou frutas. Veyne (2009) descreve um desses banquetes:
O banquete era muito mais que um banquete, e esperavam-se considerações
gerais, temas elevados, recapitulações de atos pessoais; se o dono da casa
tem um filósofo doméstico ou um preceptor dos filhos, ordena-lhe que tome a
palavra; os interlúdios musicais (com danças e cantos), executados por
profissionais contratados para a ocasião, podem dar mais vida à festa. O
banquete constitui uma manifestação social equivalente ao prazer de beber
— ou até maior — e por isso inspirou um gênero literário, o do "banquete",
em que os homens de cultura, filósofos ou eruditos (grammatici), abordam
temas elevados. Quando a sala de festim oferece desse modo um espetáculo
mais de salão que de refeitório, o ideal do banquete se realiza e a confusão
com um festejo popular já não é possível. “Beber” designava então os
prazeres da mundanalidade, da cultura, e às vezes os encantos da amizade;
pensadores e poetas também podiam filosofar sobre o vinho (Veyne, 2009,
p. 172).
De acordo com Funari (2002), os romanos das cidades habitavam em domus
(casas unifamiliares) ou insulae (prédios de apartamentos), sendo estes últimos
destinados principalmente à população de menor poder aquisitivo. Além disso, a
cidade planejada estruturava-se a partir de duas avenidas centrais que se cruzavam
perpendicularmente – o cardo (norte-sul) e o decumanus (leste-oeste) –, das quais
partiam ruas paralelas formando uma malha ortogonal semelhante a um tabuleiro de
xadrez. No núcleo urbano, situavam-se os principais edifícios públicos, como o fórum
(mercado), a basílica (administração), templos, termas, latrinas e teatros, sendo
comum que aulas fossem ministradas em dependências do próprio fórum. Comércios
como padarias e bares distribuíam-se pelas ruas, enquanto na periferia localizavam-
se o anfiteatro, áreas de exercício físico, hortas e, eventualmente, depósitos de lixo.
Toda a cidade era circundada por uma muralha com acessos controlados por grandes
portões, muitos ainda em uso, e suas paredes eram frequentemente cobertas por
cartazes eleitorais que divulgavam candidatos aos cargos municipais.
Em caso de morte, realizavam-se rituais funerários domésticos, as lemuria. No
entanto, sua observância tinha um significado e um alcance coletivo. Cada membro
da família tinha a obrigação de sepultar os seus próprios mortos, seguindo um ritual
fúnebre amplamente compartilhado pela comunidade. O cortejo conduzia os falecidos
para além dos muros da cidade, onde os cemitérios se estendiam ao longo das
estradas, concentrando-se especialmente diante das principais portas de entrada.
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CAPA NOVA A4 - SEGUNDA GRADUAÇÃO (1).pdf
HISTÓRIA ANTIGAde gregos e romanos, mas sim de um projeto europeu moderno que
forjou uma trajetória civilizatória tendo a Antiguidade como pedra angular. Desse
modo, o distanciamento crítico dessa construção linear permite uma reavaliação
profunda de conceitos estabelecidos, como a própria noção de periferia.
Um dos grandes desafios para a historiografia do século XXI consiste em
superar a visão da História Antiga como um capítulo fundador de uma história
universal e como alicerce exclusivo da civilização ocidental. Para isso, torna-se
imperativo analisar, sob uma ótica verdadeiramente global, as complexas redes de
integração que conectaram o Oriente Médio e o Mediterrâneo entre os séculos X a.C.
e V d.C., tecendo as histórias da África, Ásia e Europa em uma narrativa entrelaçada.
Esse empreendimento exige o abandono definitivo de uma perspectiva eurocêntrica e
linear, bem como a desconstrução de leituras pautadas por conceitos anacrônicos
como civilização, nação e progresso.
1.1 Documentos e fontes
Uma fonte histórica consiste em qualquer vestígio do passado – seja um
documento escrito, um artefato material, um registro oral ou uma imagem – que sirva
de base para a investigação historiográfica, fornecendo ao pesquisador as evidências
e os indícios necessários para a construção de narrativas sobre épocas anteriores. A
disponibilidade e a natureza desses registros, no entanto, variam entre diferentes
sociedades (Barros, 2020).
Algumas civilizações produziram uma farta quantidade de materiais que se
convertem em fontes de estudo, enquanto em outras, esses testemunhos podem ter
sido degradados pelo tempo ou destruídos intencionalmente pela ação humana. Há,
ainda, culturas cuja transmissão do conhecimento se dá predominantemente pela
oralidade, o que, em muitos casos, resulta na perda de informações ao longo das
gerações.
Em síntese, a maior ou menor acessibilidade às culturas de uma sociedade
deve-se a uma multiplicidade de fatores. Ademais, cada tipologia de fonte exige um
tratamento metodológico específico, mobilizando conceitos e disciplinas
especializadas como a arqueologia, a etnografia e a paleografia. Tendo em vista
sociedades como a egípcia, a grega, a mesopotâmica e a romana, que espécies de
fontes podem ser mobilizadas para a escrita de sua história? A seguir, serão
apresentados alguns exemplos ilustrativos.
Arqueologia
A Arqueologia é uma disciplina científica dedicada ao estudo sistemático da
cultura material das sociedades, abrangendo todos os vestígios relacionados à
existência humana, tanto no passado quanto no presente. Em virtude da amplitude de
seu objeto, o campo desdobra-se em uma variedade de subáreas, fruto da
especialização em períodos históricos específicos, no desenvolvimento de métodos
analíticos particulares ou no foco em determinadas regiões de investigação. O
conceito de cultura material é fundamental para disciplinas como a Arqueologia e a
Antropologia. Para uma definição precisa, observe a explicação de Meneses (1983):
Por cultura material poderíamos entender aquele segmento do meio físico
que é socialmente apropriado pelo homem. Por apropriação social convém
pressupor que o homem intervém, modela, dá forma a elementos do meio
físico, segundo propósitos e normas culturais. Essa ação, portanto, não é
aleatória, casual, individual, mas se alinha conforme padrões, entre os quais
se incluem os objetivos e projetos. Assim, o conceito pode tanto abranger
artefatos, estruturas, modificações da paisagem, como coisas animadas
(uma sebe, um animal doméstico), e também o próprio corpo, na medida em
que ele é passível desse tipo de manipulação (deformações, mutilações,
sinalizações), ou ainda os seus arranjos espaciais (um desfile militar, uma
cerimônia litúrgica) (Meneses, 1983, p. 112).
Portanto, enquadram-se na definição de cultura material uma vasta gama de
elementos, como objetos de uso pessoal, vestimentas, artefatos, cerâmicas,
ferramentas de madeira, pedra e metal, moedas, joias, construções arquitetônicas,
monumentos, maquinários e habitações. Diante da escassez relativa de fontes
escritas para o estudo da História Antiga, torna-se imperioso seguir a orientação de
Febvre (1985):
A história faz-se com documentos escritos, sem dúvida. Quando eles existem.
Mas ela pode fazer-se, ela deve fazer-se sem documentos escritos, se os não
houver. [...] Numa palavra, com tudo aquilo que pertence ao homem, depende
do homem, serve o homem, exprime o homem, significa a presença, a
atividade, os gostos e as maneiras de ser do homem (Febvre, 1985, p. 249).
Para além de sua função utilitária, o estudo de um artefato pelo arqueólogo ou
historiador permite investigar as complexas redes de sua produção, comércio e
circulação, bem como os múltiplos significados que lhe eram atribuídos pelas
sociedades que o utilizaram. Dessa forma, um único objeto pode revelar formas de
convivência, práticas comerciais e dinâmicas de relações sociais, funcionando como
uma janela para a compreensão de aspectos mais amplos da vida no passado.
Paleografia e escritos
A Paleografia constitui uma disciplina dedicada ao estudo sistemático da escrita
antiga, envolvendo a análise e transcrição de caligrafias e sistemas de símbolos em
desuso. Esta prática, cujas origens remontam aos primeiros decifradores de escritas
como os hieróglifos egípcios e a cuneiforme mesopotâmica, passou por contínuo
processo de refinamento metodológico e especialização ao longo de sua trajetória.
A Pedra de Roseta (Figura 1) é um marco fundamental para os estudos do
Antigo Egito. Este artefato, descoberto em 1799 por uma expedição francesa na
cidade de Roseta, foi crucial para a decifração dos hieróglifos por Jean-François
Champollion. Além de abrir as portas para a compreensão da escrita egípcia, o
documento oferece insights valiosos sobre a estrutura cultural, econômica e política
do Egito durante o período ptolomaico (séculos III-II a.C.). Sua importância reside não
apenas no conteúdo do texto, mas no papel que desempenhou no desenvolvimento
de métodos de tradução de escritas antigas (Pinsky, 2022).
Figura 1 – Pedra de Roseta
Fonte: https://x.gd/v6Vca.
As produções culturais e intelectuais constituem fontes inestimáveis para a
compreensão das sociedades antigas. Para os gregos, por exemplo, o teatro
representava muito mais que uma expressão artística; era um espaço fundamental de
reflexão e interação social. As diversas formas pelas quais essas civilizações se
relacionavam com a natureza e entre si deram origem a ricos sistemas de mitos e
cosmogonias, que organizavam sua visão de mundo. Paralelamente, o legado do
pensamento filosófico que emergiu nesse contexto permanece como uma das
heranças mais duradouras para a trajetória intelectual da humanidade.
De acordo com Guarinello (2023), dois exemplos fundamentais para o estudo
da história grega são a Ilíada e a Odisseia, poemas épicos atribuídos a Homero. Essas
obras oferecem um rico panorama sobre costumes, valores e tradições da Grécia
Antiga. Enquanto a Ilíada concentra-se em episódios decisivos do nono e décimo ano
da Guerra de Troia, a Odisseia relata a prolongada e aventurosa jornada de retorno
de Ulisses à sua terra natal, Ítaca, após o conflito. Juntas, essas narrativas não apenas
moldaram a literatura ocidental, mas permanecem como fontes primordiais para a
compreensão do imaginário e da sociedade do período.
1.2 Temáticas de pesquisa
Desde sua constituição como disciplina acadêmica no século XIX, o estudo da
Antiguidade sempre ocupou um lugar de destaque na historiografia. Contudo, o
desenvolvimento dessas investigações seguiu trajetórias distintas, conformadas pelo
contexto histórico e geográfico de sua produção. Naquele período formativo, a história
do mundo antigo frequentemente servia a projetos nacionalistas, sendo
instrumentalizada para forjar narrativas de origeme consolidar identidades nacionais.
Tratava-se, em essência, de um esforço para encontrar raízes em um passado
glorificado, com o objetivo de legitimar realidades e aspirações do presente.
Com a evolução da historiografia e a constante reflexão sobre seus métodos,
teorias e a relação das sociedades com o passado, a abordagem do estudo da
Antiguidade também se transformou:
Ainda no domínio dos avanços epistemológicos, a História da Antiguidade
Clássica, e do mundo antigo de maneira geral, tem sido acompanhada, ao
longo dos últimos anos, principalmente a partir do início da década de 1990,
de grandes mudanças ocorridas nos domínios da História. A consciência de
que o historiador produz, com seu ofício, espaços, tempos, indivíduos e
práticas, ao passo em que ele próprio se encontra inserido em contextos e
conjunturas específicas, aportou, desde algumas décadas, significativas
mudanças para a epistemologia da História Antiga. A convicção por parte de
muitos historiadores da cultura, mas não só, de que os objetos são criados,
constituídos e de que o historiador é também uma espécie de narrador tem
conferido um deslocamento da acentuação de grandes paradigmas
explicativos do mundo antigo (que estabeleciam conhecimentos definitivos e
sínteses totalizadoras a respeito da cidadania, da escravidão, das relações
sociais, das instituições) para uma História Antiga que se quer mais plural,
mais diversa (Silva, 2010, p. 99).
Portanto, é possível perceber que o campo de estudos da História Antiga é
notavelmente diverso, variando conforme a disponibilidade de fontes e os problemas
de pesquisa formulados pelos historiadores. Algumas investigações dedicam-se à
análise de sociedades específicas como: egípcios, sumérios, babilônios, hebreus,
gregos, romanos, berberes, dálmatas, trácios e núbios, explorando suas estruturas
políticas, relações sociais e produções culturais. Outras adotam recortes temáticos
mais delimitados, focalizando, por exemplo, a condição dos escravizados ou o papel
das mulheres nessas civilizações.
Além das abordagens já mencionadas, avaliam Bauer, Alves e Oliveira (2019),
a História Antiga também se expande por outras vertentes significativas. Alguns
estudos privilegiam uma perspectiva regional, enfatizando a influência das
particularidades geográficas e da relação entre sociedades e seu ambiente natural.
Outras linhas de investigação questionam e desconstroem as próprias categorias de
"Ocidente" e "Oriente" como entidades fixas. Há, ainda, pesquisas dedicadas às
produções culturais em suas múltiplas expressões, bem como à análise da
historiografia sobre a Antiguidade, traçando sua evolução desde o Renascimento,
passando pela sua institucionalização no século XIX, até os debates contemporâneos.
Embora a História Antiga tenha expandido significativamente seus temas de
pesquisa desde a década de 1990, a dificuldade em reconstruir uma imagem plausível
da sociedade para além das elites detentoras de riqueza, poder e status permaneceu
uma característica distintiva da disciplina, especialmente quando contrastada com os
avanços ocorridos nas ciências sociais e em outros campos históricos. Recentemente,
contudo, uma reflexão mais profunda sobre o lugar da História Antiga no mundo
contemporâneo tem levado classicistas e historiadores a formularem questões de
maneira mais diversificada e dinâmica.
Esse movimento ganha força à medida que a tradição clássica europeia perde
sua hegemonia intelectual e emergem novos centros de pesquisa em países
periféricos, como o Brasil, que trazem para o debate suas próprias experiências
históricas de exclusão, violência e desigualdade. Nesse contexto, temas como gênero,
sexualidade, relações escravistas e o cotidiano passaram a ocupar um lugar central
na agenda de investigação sobre a Antiguidade.
História antiga no Brasil
Nos últimos anos, o campo de pesquisas sobre História Antiga no Brasil passou
por uma notável expansão. Esse crescimento foi impulsionado tanto pelo surgimento
de novas problemáticas, fruto de reflexões conceituais, teóricas e metodológicas,
quanto pelo acesso facilitado a fontes primárias por meio de recursos digitais. Tais
transformações foram decisivas para repensar o próprio conceito de Antiguidade e
promover mudanças significativas nos métodos, objetos e abordagens de
investigação.
O impacto dessas transformações na produção acadêmica brasileira é evidente
tanto em termos qualitativos quanto quantitativos. Esse crescimento se reflete no
expressivo aumento de trabalhos apresentados em simpósios temáticos da
Associação Nacional de História (ANPUH), na multiplicação de eventos
especializados e na consolidação de grupos e laboratórios de pesquisa dedicados ao
tema:
Houve uma ampliação de objetos de pesquisa, de paradigmas interpretativos,
mas, o que não é menos importante, houve uma significativa ampliação do
universo social dos historiadores do mundo antigo. O caráter aristocrático da
História, e da História Antiga, em particular, foi superado pela inclusão de
estudiosos não oriundos das elites, cuja formação intelectual e acadêmica
não era de berço, mas aprendida, tanto no Brasil como, de maneira
crescente, também no estrangeiro. Os paradigmas interpretativos
tradicionais, que enfatizam a homogeneidade social e o respeito às normas
foram, de forma crescente, contrapostos às visões multifacetadas e atentas
ao conflito (Silva, 2010, p, 104).
Dessa forma, a historiografia brasileira tem testemunhado um progressivo
distanciamento de abordagens aristocráticas e elitistas, tradicionalmente alicerçadas
em narrativas nacionais. Em seu lugar, consolida-se uma História Antiga mais
problematizada, caracterizada pela crítica aos discursos estabelecidos, pela
superação de uma visão linear do tempo histórico e pelo combate a interpretações
presentistas.
Um marco fundamental para o desenvolvimento dos estudos sobre a
Antiguidade no Brasil foi a emergência de grupos e sociedades científicas que,
reunindo não apenas historiadores, mas também especialistas de áreas como
arqueologia, filosofia e letras, criaram um ambiente interdisciplinar propício ao avanço
da pesquisa. Essa mobilização coletiva resultou na fundação da Sociedade Brasileira
de Estudos Clássicos (SBEC) em 1985. Como exemplos concretos dessa dinâmica
colaborativa, destacam-se o Laboratório de Estudos do Império Romano (LEIR–USP),
o Laboratório de História Antiga (LHIA–UFRJ) e o Núcleo de Estudos da Antiguidade
(NEA–UERJ), entre outros.
2 ORIGEM DOS POVOS MESOPOTÂMICOS
A formação das sociedades mesopotâmicas esteve profundamente marcada
pela interação com seu meio natural. Em vez de um determinismo geográfico, em que
o ambiente define rigidamente o destino de um povo, a relação era dialética: o espaço
físico impunha obstáculos concretos, mas coube aos grupos humanos a capacidade
de criar soluções, adaptar-se e ressignificar a paisagem, transformando-a ativamente
para construir sua organização social, econômica e política.
Bauer, Alves e Oliveira (2019) descrevem que a ocupação do território entre os
rios Tigre e Eufrates – que hoje compreende partes do Iraque, Síria e Turquia – teve
início aproximadamente em 4000 a.C. (Figura 2). Com a transição para um modo de
vida sedentário, surgiram os primeiros aglomerados humanos, cuja economia estava
baseada na agricultura e na criação de animais. O crescimento e a consolidação
desses núcleos populacionais deram origem a 12 cidades-estados, que gradualmente
estabeleceram seu domínio sobre as aldeias vizinhas. Essa área, batizada de
Crescente Fértil em razão da riqueza de suas terras – fertilizadas pelas cheias
regulares dos rios –, foi o palco do primeiro processo de urbanização da
humanidade.
Figura 2 – Região Mesopotâmia
Fonte: https://x.gd/4PnWP.
O próprio termo “Mesopotâmia”, de origem grega, significa “terra entre rios”,
uma definição que descreve comprecisão o território banhado pelas bacias do Tigre
e do Eufrates. Geograficamente, é possível dividir a região em duas áreas principais,
dotadas de características climáticas e ambientais distintas. Ao norte, localizava-se a
Alta Mesopotâmia, uma área de relevo mais acidentado, onde a irrigação era mais
complexa, mas que compensava essa dificuldade com sua riqueza em recursos
florestais. Já ao sul, estabelecia-se a Baixa Mesopotâmia, uma planície marcada pela
escassez de chuvas, porém, extremamente favorável à implantação de sistemas de
irrigação. Como sintetiza Cardoso (1986):
Enquanto o povoamento da Alta Mesopotâmia deu-se desde tempos pré-
históricos muito antigos, a Baixa Mesopotâmia — potencialmente fértil, mas
pouco adequada à agricultura primitiva de chuva — não parece ter sido
ocupada em caráter permanente antes do V milênio a.C., durante a fase de
Ubaid, talvez entre aproximadamente 5000 e 3500 a.C. — basicamente
neolítica, ou, mais exatamente, calcolítica, pois objetos de cobre já aparecem
em pequeno número a partir de 4500 a.C. A fase arqueológica seguinte, a de
Uruk (aproximadamente 3500–3100 a.C.), viu os primórdios da urbanização
e da escrita, inovações que se consolidaram no Período Inicial do Bronze
(3100–2100 a.C.), iniciado com a fase de Jemdet–Nasr (aproximadamente
3100–2900 a.C.), considerada como a época da verdadeira revolução urbana
(Cardoso, 1986, p. 29).
O ciclo de cheias do Tigre e do Eufrates era uma força ambígua: ao mesmo
tempo que fertilizava o solo e possibilitava a agricultura, manifestava-se com violência,
demandando intervenção humana para seu controle. Foi como resposta a esse
desafio que as sociedades locais desenvolveram uma engenharia hidráulica
sofisticada, construindo diques e uma extensa rede de canais. Essas obras não
apenas dominavam a fúria das águas e protegiam as lavouras, como também
garantiam o abastecimento hídrico durante os longos períodos de estiagem. Mas
quais foram os povos que habitaram e moldaram essa região? Sobre a composição
étnico-linguística da Baixa Mesopotâmia, Cardoso (1986) detalha:
Do ponto de vista etnolinguístico, o povoamento da Baixa Mesopotâmia, no
período histórico, esteve marcado por dois grupos iniciais: os sumérios, que
se julgava terem migrado por mar para a região, mas arqueologicamente se
vinculavam ao sudoeste do Irã (o Elam, ou Susiana), e falavam uma língua
aglutinante; e os acádios, que falavam uma língua de flexão do grupo semita,
e provavelmente vieram do oeste. O elemento sumério predominava ao sul
(país de Sumer, ou Suméria) da Baixa Mesopotâmia, e o acádio ao norte
(país de Akkad, ou Acádia). A verdade, porém, é que, quando começamos a
ter mais informações, em meados do III milênio a.C., esses grupos estavam
já bastante mesclados. No milênio seguinte, a fusão se completou;
predominaram, desde então, as línguas semitas: o acadiano, o babilônio dele
derivado e, por fim, o aramaico (Cardoso, 1986, p. 31)
Para dominar o desafio imposto pelo ambiente, essas sociedades construíram
complexos sistemas de irrigação, cuja manutenção e operação demandavam uma
organização agrícola estritamente coletiva.
2.1 As sociedades mesopotâmicas
A consolidação das sociedades mesopotâmicas, originalmente baseadas em
pequenos aldeamentos agrícolas, está diretamente ligada ao domínio da hidráulica. A
dependência de uma complexa rede de diques e canais de irrigação para a agricultura
foi um fator impulsor para a formação das cidades-estados. Para administrar esses
empreendimentos coletivos e sustentar seu aparato burocrático e militar, essas
civilizações recorreram ao desenvolvimento da escrita e da matemática.
No ápice dessa estrutura social, os reis concentravam em suas pessoas as
esferas econômica, política e religiosa. Essa fusão de poderes refletia uma visão de
mundo na qual o sagrado permeava todas as dimensões da vida, não havendo,
portanto, uma distinção clara entre o governo e a religião. Dessa forma, o governo das
cidades-estados mesopotâmicas se consolidou em uma monarquia de caráter divino,
na qual o soberano era visto como um intermediário direto com as divindades. Seu
poder era exercido com o suporte de um aparato estatal composto por
administradores e militares:
O sul mesopotâmico foi palco de inúmeras disputas militares entre os vários
centros urbanos pela hegemonia política de territórios vizinhos por volta de
2800 a.C. O resultado dessas guerras transformou o desenvolvimento dessas
cidades: as revoltas no interior do país levaram a uma migração significativa
do campo para a cidade, fazendo com que a maioria da população se
tornasse urbana; maciças fortificações foram construídas para garantir a
segurança destas cidades, definindo assim a diferença entre o espaço urbano
e o rural e restringindo o acesso às cidades através dos portões das
muralhas. As necessidades de guerra exigiram um maior desenvolvimento da
autoridade política e militar, induzindo a criação da segunda principal
instituição urbana: o palácio. As cidades mesopotâmicas passaram, então, a
contar com dois centros de poder: um político e militar — o palácio —, e outro
econômico e religioso — o templo —, um espaço profano, outro sagrado
(Cornelli, 2010, p. 14).
A Mesopotâmia foi palco de sucessivas dominações por diferentes povos. Entre
os principais grupos que governaram a região, destacam-se os babilônicos, os
assírios e os caldeus, que serão detalhados a seguir.
Os babilônicos
Por volta de 2000 a.C., os amoritas, um povo de origem nômade, fixaram-se na
cidade de Babila (ou Babel), às margens do Eufrates. Sob o comando de seu líder
Sumuabum, iniciaram uma campanha de expansão territorial, disputando a
hegemonia com as cidades-estados vizinhas. Seu sucessor, Sumula’el, consolidou o
poder amorita na região e fundou uma dinastia que se manteria por aproximadamente
três séculos. O governante mais emblemático desse período, no entanto, foi
Hamurábi, que ascendeu ao trono em 1792 a.C.
Hamurábi promoveu a unificação de cidades-estados através de uma
combinação de diplomacia, forjando alianças estratégicas, e de poderio militar, com
seu exército conquistando novos territórios. Sua liderança também se destacou na
esfera interna, com a realização de obras hidráulicas que otimizaram a agricultura e o
transporte fluvial. No entanto, ressalta Pinsky (2022), seu legado mais duradouro foi a
criação de um conjunto de leis escritas, que passaria à história como o "Código de
Hamurábi".
A administração babilônica era caracterizada por uma forte centralização. A
economia era gerida por meio do controle estatal sobre a propriedade de terras, da
cobrança de impostos e taxas, e da regulação de preços de certos produtos. Quanto
ao declínio do Império, as evidências são escassas. Indica-se que, por volta de 1700
a.C., uma série de movimentos migratórios na região pode ter alterado o equilíbrio de
poder local, contribuindo para uma progressiva desestabilização do Primeiro Império
Babilônico.
Os assírios
Os assírios estabeleceram-se inicialmente no leste da Alta Mesopotâmia, onde
posteriormente construíram um vasto império, que atingiu seu apogeu durante o
reinado de Sargão II (722–705 a.C.). Devido à sua localização geográfica estratégica
e cobiçada, a sociedade assíria desenvolveu uma cultura militarista, mantendo um
exército permanente e altamente organizado. Essa potência bélica foi a base para
uma série de conquistas expansionistas lideradas pelos reis Sargão II, Senaquerib e
Assurbanípal.
Os registros históricos atestam que as campanhas militares assírias eram
marcadas por extrema violência, caracterizada pela destruição sistemática,
escravização em massa e práticas de tortura. Em um contraste notável, foi sob o
reinado de Assurbanípal que se erigiu a Biblioteca de Nínive. Este repositório reuniu
uma vasta coleção de tabletes de argila, cujo conteúdo se tornaria fundamental para
acompreensão moderna da história e das culturas da Mesopotâmia (João, 2013).
Por volta de 612 a.C., uma aliança entre caldeus e persas resultou na
destruição das principais cidades assírias, incluindo a capital Nínive. Esse evento
marcou o colapso definitivo do Império Assírio, um desfecho amplamente celebrado
pelos povos que haviam sofrido sob seu jugo opressor.
Os caldeus
Com a queda do Império Assírio, a cidade da Babilônia, então sob o domínio
caldeu, ressurge como centro de poder, dando origem ao Império Neobabilônico
(também conhecido como Caldeu) sob a liderança de Nabopolassar. Conforme
sintetiza Cornelli (2010):
Sob a dinastia neobabilônica (625-539 a.C.), a cidade tornou-se a capital do
mundo oriental e recebeu enormes riquezas arrecadadas com os tributos
pagos pelos reinos conquistados, possibilitando a construção de obras
monumentais como a muralha, os palácios e os templos, que tanto
encantaram os viajantes antigos. Sob Nabucodonosor II (604–562 a.C.),
Babilônia tinha cerca de mil hectares de extensão e sua muralha, com oito
portas, possuía 18 km de comprimento e 30 m de largura (Cornelli, 2010, p.
16).
Os caldeus travaram conflitos contínuos contra os egípcios, seu principal
adversário, pela hegemonia territorial na região. A vitória decisiva sobre o Egito foi
alcançada sob o reinado de Nabucodonosor, marco que inaugurou o auge do Império
Caldeu. Foi nesse período de expansão que as forças de Nabucodonosor dirigiram-
se a Jerusalém, resultando em sua conquista e subsequente destruição.
Paralelamente, além das campanhas militares, o soberano promoveu um ambicioso
programa de obras públicas, erguendo majestosos templos, palácios e os
legendários Jardins Suspensos da Babilônia (Figura 3).
Figura 3 – Reconstituição dos Jardins Suspensos
Fonte: https://x.gd/5yTyJ.
Em 539 a.C., o Império Neobabilônico chegou ao fim com a conquista da cidade
da Babilônia pelos persas. A vitória foi facilitada por uma dissensão interna:
sacerdotes e comerciantes locais, em busca da preservação de seus privilégios,
aliaram-se voluntariamente aos invasores.
2.2 Cultura e religiosidade na Mesopotâmia
A cultura e a religião na Mesopotâmia refletiam diretamente as estruturas de
poder vigentes. Ao analisar as expressões culturais como um produto dessas
relações, é possível compreender o papel transformador de inovações como a escrita.
Mais do que uma simples técnica, a escrita surgiu como uma ferramenta de
administração e controle, essencial para organizar a produção agropecuária, gerir o
Estado por meio da tributação, fundamentar o ordenamento jurídico e, não menos
importante, codificar a visão de mundo da elite dominante.
Cardoso (1986) ressalta que, para os povos mesopotâmicos, cultura e religião
eram dimensões indissociáveis da vida. De acordo com o autor, uma das
características que unificava essas sociedades era:
[...] o caráter fortemente monárquico da cultura mais intelectualizada da
época. Tal cultura erudita dos grupos dominantes é a única que, devido à
documentação disponível — em sociedades nas quais aprender a ler e
escrever era privilégio reservado a poucos —, podemos conhecer melhor,
embora sejam perceptíveis certos impactos da cultura popular sobre a oficial,
em especial em matéria de religião. [...] Os templos eram partes integrantes
do Estado. O rei, por suas atribuições e por concentrar os recursos
necessários, era construtor por excelência de santuários e outros edifícios
importantes, o patrono maior do artesanato e das artes — domínios, aliás,
indistinguíveis, não havendo, então, a noção de que um artista fosse algo
distinto de um artesão. [...] As épocas de forte centralização monárquica
foram, também, as de florescimento artístico, e a cultura em suas diversas
manifestações fala-nos mais dos deuses e dos reis do que de qualquer outra
coisa (Cardoso, 1986, p. 57).
O estudo da cultura mesopotâmica tem avançado significativamente por meio
da análise de vestígios arqueológicos e da cultura material – incluindo desde tabletes
de argila até palácios, templos, esculturas e estruturas urbanas. Dentre essas
expressões materiais, a arquitetura, a escultura e a pintura mural ocupavam um lugar
de especial relevância, uma vez que estavam intrinsecamente associadas a rituais
religiosos e à celebração de eventos de grande significado sociopolítico.
Como visto, era impossível dissociar a religião de outras esferas sociais, como
a política, na Antiga Mesopotâmia. As crenças religiosas permeavam todos os
aspectos da vida, fornecendo a estrutura conceitual para explicar tanto a origem
quanto o funcionamento do mundo natural e dos fenômenos cotidianos:
Assim como a astronomia, a medicina e demais formas de conhecimento, a
cultura jurídica mesopotâmica jamais foi completamente autônoma em
relação ao universo do sobrenatural. Suas representações e práticas sempre
estiveram marcadas por uma íntima conexão com as concepções sobre o
sagrado e as práticas rituais e mágicas: uma vez que as leis eram
consideradas o instrumento dos deuses para assegurar a convivência
ordenada no plano social, a esfera jurídica consistia dos mesmos preceitos e
procedimentos que caracterizavam todas as demais formas de contato com
o universo do divino e que propiciavam a correta manifestação da vontade
dos deuses acerca dos conflitos entre os homens (Rede, 2006, p. 167).
Em linhas gerais, as sociedades mesopotâmicas professavam o politeísmo,
crendo na existência de uma pluralidade de divindades. Estas mantinham uma relação
direta com a humanidade, premiando ou castigando os indivíduos conforme suas
ações. Embora personificassem forças e elementos da natureza, esses deuses eram
representados de forma antropomórfica, assumindo características humanas
femininas ou masculinas, quase sempre em uma escala gigantesca que simbolizava
sua incontestável superioridade sobre os mortais.
Embora cada cidade-Estado mesopotâmica pudesse venerar seu próprio
panteão, três divindades eram amplamente reconhecidas como as principais: Anu (ou
An), o deus do céu e pai dos deuses; Enlil, deus do ar e da autoridade, responsável
pelas leis e pela guerra; e Enki, senhor das águas, da sabedoria e da criação. Nesse
contexto de crenças compartilhadas:
Os mitos sublinham a origem divina das cidades e, ao mesmo tempo, relatam
que suas realizações foram obras dos reis e seus súditos, onde cada
divindade do panteão possuía sua residência principal, sua cidade predileta.
[...] O universo mesopotâmico é um mundo onde tudo é sagrado (Cornelli,
2010, p. 16).
Os zigurates (Figura 4) – imponentes templos em forma de
pirâmides escalonadas – ocupavam um lugar central na religiosidade mesopotâmica.
Erguidos por sumérios, babilônios e assírios para servirem como morada
terrestre das divindades, essas construções foram muito mais que lugares de
culto. Conforme destaca Cornelli (2010), os templos foram responsáveis pelo
desenvolvimento de vários aspectos da sociedade, como a escrita, o Estado, o
sistema jurídico, a arte e a arquitetura, entre outros.
Figura 4 – Representação de um Zigurate
Fonte: https://x.gd/t0kmI.
Bauer, Alves e Oliveira (2019) salientam que para além de sua função religiosa
como morada dos deuses, os zigurates funcionavam como centros econômicos,
abrigando atividades ligadas à agricultura e a pequenas manufaturas. Eram também
espaços de conhecimento, onde se realizava a observação dos céus. Foi através
desse estudo que os mesopotâmicos calcularam os movimentos celestes, formularam
teorias astronômicas e astrológicas e, de forma prática, criaram o calendário anual de
doze meses e a semana de sete dias.
3 FORMAÇÃO DA SOCIEDADE EGÍPCIA
O Egito Antigo floresceu nas margens do rio Nilo, no nordeste da África, durante
o período conhecido como Antiguidade. Sua estrutura cultural, econômica e política
estava profundamente ligada ao rio, cujas cheias regulares permitiam umaagricultura
próspera. No entanto, para compreender plenamente as características dessa
civilização, é importante primeiro acompanhar o processo de ocupação do território e
sua posterior unificação sob o poder dos faraós. Vejamos como esse processo
ocorreu:
Observando o mapa do Egito, podemos notar suas duas grandes regiões: o
delta e o vale. Este, acompanhando o rio por mais de mil quilômetros (algo
equivalente a duas vezes a distância entre Rio e São Paulo), constitui-se em
estreita faixa de não mais de dez quilômetros de terras adequadas ao cultivo.
O delta, uma espécie de triângulo com duzentos quilômetros de lado, possui
rica vegetação e abundância de água. O Egito tem no delta uma região rica
e densamente povoada, próxima ao mar, sendo o vale uma região mais
isolada, que depende essencialmente do rio como única forma de
comunicação entre as aldeias distantes (Pinsky, 1994, p. 67).
As primeiras comunidades a fixar-se no vale do Nilo provavelmente chegaram
ainda no Neolítico. Esses grupos, organizados em laços de parentesco, praticavam
uma agricultura e pecuária básicas. A partir do período pré-dinástico, contudo,
mudanças climáticas impulsionaram o desenvolvimento de sistemas de irrigação.
Essa inovação não apenas sustentou a agricultura em novas condições, mas também
permitiu maior complexidade social, abrindo caminho para o processo de unificação
política:
Os primeiros grupos humanos que povoaram o vale do Nilo, entre a catarata
de Semna e o Mediterrâneo, segundo Champollion-Figeac [...] teriam vindo
da Abissínia ou do Senaar, abaixo de Cartum. O cientista francês ratificava
essa afirmação dizendo que os antigos egípcios pertenciam a um tipo
humano em tudo semelhante aos kennous e aos barabras, habitantes da
Núbia; e que, ao seu tempo, encontravam-se entre os coptas egípcios traços
característicos da população do Egito antigo. Já segundo Murdock, citado em
Merlo e Vidaud, uma civilização neolítica negra, formada no vale do Médio
Níger, tendo se fundido com elementos vindos do Oriente Próximo, é que teria
dado origem à civilização do Egito pré-dinástico. Outro ramo dessa civilização
teria se embrenhado na floresta, para, séculos mais tarde, emigrar e dar
origem ao povoamento banto da África Equatorial e Meridional. Segundo
Laffont, a civilização neolítica egípcia é essencialmente africana e nilótica
(Lopes, 2012, p. 122).
Segundo os pesquisadores, a necessidade de organizar sistemas de irrigação
para a agricultura foi um fator crucial para a unificação das antigas comunidades tribais
em agrupamentos maiores chamados nomos, cada um governado por um nomarca.
Essas províncias mantiveram-se mesmo após a centralização do poder sob o faraó.
Em períodos de forte autoridade real, os nomarcas atuavam como funcionários
administrativos, responsáveis pela gestão econômica, organização do trabalho e
justiça local. Contudo, quando o poder central enfraquecia, eles reassumiam grande
autonomia, demonstrando a relevância duradoura dessa estrutura regional na história
do Egito Antigo.
Segundo Pinsky (1994), cada comunidade selecionava seu próprio nomarca e
um conselho composto por membros de diferentes grupos sociais. Contudo, a
autoridade dessas lideranças locais não era estável, variando conforme o período e
sendo comumente limitada pela atuação de representantes designados pela
administração central. Tais enviados eram responsáveis por supervisionar as
atividades agrícolas, a pecuária, as obras públicas e a aplicação das leis, assegurando
assim um vínculo direto de controle entre o faraó e as populações das diversas
regiões.
É impossível determinar com exatidão a população do Egito Antigo devido à
ausência de registros censitários, mas os historiadores trabalham com estimativas
baseadas em evidências indiretas. Durante o auge da era faraônica, como no Novo
Império, calcula-se que viviam entre 3 e 5 milhões de pessoas no vale do Nilo. Já no
período posterior, sob o domínio greco-romano, as projeções indicam que esse
número pode ter atingido aproximadamente 7 milhões de habitantes, um marco
populacional que só seria ultrapassado muitos séculos mais tarde. Cardoso (1982)
explicita:
Isto nos daria uma densidade de população (levando em conta somente as
terras cultiváveis) de mais de 200 habitantes por km, muito elevada para a
Antiguidade. O Egito era um dos ‘formigueiros humanos’ do mundo antigo,
em virtude da sua extraordinária fertilidade renovada anualmente pelas
aluviões do Nilo (Cardoso, 1982, p. 13).
Entretanto, essa mesma dependência do rio significava que, quando as
inundações eram insuficientes e as colheitas escassas, a fome se instalava e períodos
calamitosos eram enfrentados. Quanto à estrutura social, o topo da pirâmide era
ocupado pelo faraó, considerado uma divindade e o principal intermediário entre os
homens e os deuses. Abaixo dele, sua família, os altos sacerdotes e os funcionários
de elite formavam uma aristocracia hereditária. Embora existissem casos
excepcionais de pessoas de origem humilde que ascenderam a essa elite, geralmente
por meio da carreira de escriba ou militar, essa mobilidade era rara e não alterava a
estrutura social rigidamente estratificada.
Entre a elite e a base da sociedade, havia uma camada intermediária composta
por escribas, funcionários públicos e sacerdotes de hierarquia inferior, assim como
artesãos e artistas a serviço do faraó, da corte e dos templos. Na base da estrutura
social, formando a imensa maioria da população, estavam os trabalhadores, os
camponeses e, em proporção menor, os escravizados. Esse grupo estava submetido,
como observa Cardoso (1982), ao pagamento de impostos e à prestação de trabalhos
compulsórios, à arbitrariedade e à corrupção dos funcionários, e até mesmo a
punições físicas. Tais condições severas de vida e trabalho fizeram com que revoltas
sociais fossem ocorrências relativamente comuns ao longo da história do Antigo Egito.
A cultura do Egito Antigo era, até onde se sabe, um patrimônio restrito a uma
pequena elite letrada, composta por cortesãos, sacerdotes, funcionários e escribas. A
religião, por sua vez, permeava todos os aspectos da vida, tanto pública quanto
privada. Cerimônias anuais eram conduzidas pelos sacerdotes para assegurar a
chegada da inundação do Nilo, e o próprio faraó agradecia solenemente às divindades
pelas colheitas. Os oráculos divinos tinham um papel central, sendo consultados para
a resolução de questões políticas e burocráticas, e também pelo povo comum antes
de tomar decisões importantes.
3.1 Temporalidade do Egito Antigo
Levando em consideração os critérios políticos e as cronologias registradas em
documentos como o Papiro de Turim, a Pedra de Palermo e em diversos monumentos
datados, a história política do Egito Antigo pode ser dividida nos seguintes períodos
principais:
• Período Pré-Dinástico (c. 5500–3100 a.C.): formação das culturas e
comunidades ao longo do Nilo, que evoluíram para os primeiros reinos do Alto
e do Baixo Egito.
• Período Dinástico Antigo (c. 3100–2686 a.C.): unificação do Egito sob o
primeiro faraó, Narmer (ou Menés), e consolidação do Estado faraônico com
as primeiras dinastias.
• Império Antigo (c. 2686–2181 a.C.): período das grandes pirâmides de Gizé,
marcado por um governo centralizado forte. Corresponde principalmente às
Dinastias III a VI.
• Primeiro Período Intermediário (c. 2181–2055 a.C.): fase de fragmentação
política, declínio do poder central e surgimento de governantes regionais
(nomarcas) independentes.
• Império Médio (c. 2055–1650 a.C.): reunificação e renascimento cultural, com
a capital em Tebas e depois em Itjtawy. Corresponde principalmente às
Dinastias XI e XII.
• Segundo Período Intermediário (c. 1650–1550 a.C.): nova fase de
descentralização e dominação parcial por povos estrangeiros, os hicsos, no
norte do Egito.
• Império Novo (c. 1550–1069 a.C.): período de máximopoderio militar,
expansão territorial e grandeza monumental (ex.: templos de Karnak e Vale dos
Reis). Corresponde às Dinastias XVIII a XX (Figura 5).
Figura 5 – Ruínas do templo de Karnak
Fonte: https://x.gd/GRgiM.
De acordo com Bauer, Alves e Oliveira (2019), a tomada do Egito por
Alexandre, o Grande, em 332 a.C., encerra a longa trajetória de independência do
Egito faraônico, dando início ao período helenístico sob o governo da dinastia
ptolemaica. Para facilitar o estudo dos mais de dois mil anos que precederam esse
marco, os historiadores organizam as diversas dinastias faraônicas em três grandes
períodos de centralização política e apogeu cultural, entremeados por intervalos de
descentralização e fragmentação. Didaticamente, esses períodos são denominados:
Antigo Império, Médio Império e Novo Império. A seguir, são apresentadas as
características essenciais de cada uma dessas fases fundamentais.
Antigo Império
Durante o Antigo Império, consolidou-se a estruturação do poder político
unificado no Egito. A unificação ocorreu por meio de um processo gradativo e
complexo, no qual comunidades inicialmente autônomas (os nomos) foram sendo
integradas a uma autoridade central. Essa centralização foi possibilitada, em grande
parte, pela necessidade de coordenar a irrigação e o cultivo às margens do Nilo, o que
exigia administração coletiva e hierárquica. Assim, formou-se um Estado governado
pelo faraó, visto como divino e responsável por manter a ordem cósmica e social,
dando início à primeira grande fase de centralização política egípcia:
A tradição faraônica egípcia inclui entre os primeiros governantes do país
soberanos que carregavam como título o nome “Hórus”, sendo assim tidos
como divindades representantes de vários aspectos desse importante deus.
Após esses é que surgiria o primeiro faraó efetivamente humano, Narmer.
Certo é que, antes do advento desse primeiro faraó, o Egito viveu períodos
de grande instabilidade e turbulência, por conta de divergências religiosas
entre os diversos clãs e tribos, cada qual com suas divindades. Por volta de
3400 a.C., os clãs do sul, do chamado Alto Egito, uniram-se em torno de um
mesmo rei, na cidade chamada pelos gregos de Hieracômpolis, enquanto os
povos do delta do Nilo, no Baixo Egito, uniam-se em torno de outro soberano.
Os dois reinos, cujos soberanos se distinguiam pelo uso de uma alta coroa
branca, no sul, e vermelha, no delta, foram unificados por iniciativa de Menés
ou Narmer — indiscutivelmente negro, segundo Anta Diop —, o qual unificou
o Alto e o Baixo Egito, estabeleceu a capital do reino em Tinis e iniciou a I
dinastia (Lopes, 2012, p. 128).
Os governantes do Egito são tradicionalmente agrupados em dinastias, e o
Antigo Império abrangeu várias delas. A primeira capital deste império unificado foi
Tinis, sede das duas primeiras dinastias. A partir da Terceira Dinastia, a capital foi
transferida para Mênfis, que se tornou o centro administrativo e religioso. Foi
precisamente nessa fase, que se estende da Quarta à Oitava Dinastias, que se
verificou o auge do poder faraônico e das grandes obras monumentais. A Quarta
Dinastia representa o apogeu do poder absoluto do faraó, período durante o qual
foram construídas as majestosas Pirâmides de Gizé (Figura 6), enquanto grandes
projetos de irrigação eram desenvolvidos para sustentar a população e a economia
do reino.
Figura 6 – Pirâmides de Gizé
Fonte: https://x.gd/9vaAB.
A agricultura, sustentada pelas águas do Nilo, era a base econômica da
sociedade egípcia. Segundo Cardoso (1982), a economia era rigidamente controlada
pelo Estado, que arrecadava impostos e taxações sobre a produção. A terra era
tecnicamente propriedade do faraó, que a concedia a funcionários e templos em
usufruto, podendo essas concessões tornar-se hereditárias ao longo de gerações. No
entanto, por volta da VIII Dinastia, o poder central começou a se enfraquecer. Este
declínio resultou na descentralização política, com os governadores regionais (os
nomarcas) recuperando autonomia. Este período de instabilidade foi agravado por
revoltas camponesas e por invasões de povos asiáticos no delta do Nilo, fatores que,
combinados, precipitaram a queda do Antigo Império e deram início ao Primeiro
Período Intermediário.
Médio Império
Após um longo período de fragmentação e conflitos, durante o qual os
nomarcas mais poderosos lutaram pelo controle, foi a nobreza da cidade de Tebas,
no Sul, que conseguiu impor sua hegemonia. Essa vitória resultou na fundação da XI
dinastia tebana e na reunificação do poder político. O período seguinte, no entanto,
foi marcado por um prolongado confronto entre o faraó e os nomarcas, enquanto a
autoridade central buscava restabelecer seu controle sobre as províncias e reduzir o
poder desses governadores regionais.
Esse foi também um período de expansão militar, com a conquista da Núbia,
uma região estratégica riquíssima em recursos como ouro, marfim e granito. No
entanto, após um novo declínio do poder faraônico, o Egito foi dominado pelos hicsos,
um povo de origem semita-asiática que se estabeleceu no delta do Nilo. Essa
dominação, embora representasse uma fragmentação do poder nativo, trouxe
inovações tecnológicas significativas, como o domínio da metalurgia do bronze,
avanços militares (incluindo o uso do cavalo e do carro de guerra) e a introdução de
novas culturas, como frutas e legumes até então desconhecidos no Egito.
Novo Império
Bauer, Alves e Oliveira (2019) observam que o Novo Império tem início com a
XVII dinastia tebana, que liderou a luta e finalmente expulsou os hicsos do território
egípcio. Este período foi marcado por um expansionismo militar significativo, com
campanhas que estenderam a influência egípcia para a Núbia, ao sul, e para o
Levante, ao norte. Como consequência direta dessas conquistas, surgiu e se
consolidou uma nova elite poderosa ao lado dos funcionários e sacerdotes: a casta
militar. Este grupo passou a deter grande prestígio, riqueza e influência política,
tornando-se um pilar fundamental do Estado imperial.
A política expansionista não apenas estendeu os domínios territoriais, como
também dinamizou o comércio e a economia, ampliou o número de pessoas
escravizadas capturadas nos conflitos e resultou na concessão de extensas
propriedades a comandantes militares pelo faraó como forma de recompensa. No
entanto, tensões políticas e sociais internas gradualmente fragilizaram o poder central,
o que resultou na invasão e dominação do Egito pelos persas em 517 a.C. Após o fim
das últimas dinastias de origem local, instaurou-se um novo período de controle persa,
até que o território egípcio passou a ser administrado por governantes macedônicos
– a dinastia ptolomaica.
Esses reis helenísticos eram formalmente considerados faraós, embora
mantivessem uma administração grega em paralelo com as instituições egípcias
tradicionais. A última governante dessa linhagem foi Cleópatra VII Philopator,
frequentemente vista como a última governante apresentada como faraó do Egito,
ainda que, após a conquista romana em 30 a.C., os imperadores romanos (até cerca
de 311 d.C.) também tenham adotado simbolicamente essa representação.
3.2 Estudo do Antigo Egito através de fontes
Para o estudo e a escrita da história de uma sociedade, é fundamental o
trabalho com fontes históricas, que são todos os registros, vestígios ou evidências
produzidas no passado e que nos permitem investigar, interpretar e reconstruir as
experiências humanas ao longo do tempo. Essas fontes são a base do método
histórico, e seu tratamento crítico é essencial para a compreensão dos contextos e
processos sociais:
Fonte histórica, documento, registro, vestígio são todos termos correlatos
para definir tudo aquilo produzido pela humanidade no tempo e no espaço; a
herança material e imaterial deixada pelos antepassados que serve de basepara a construção do conhecimento histórico. O termo mais clássico para
conceituar a fonte histórica é documento. Palavra, no entanto, que, devido às
concepções da escola metódica, ou positivista, está atrelada a uma gama de
ideias preconcebidas, significando não apenas o registro escrito, mas
principalmente o registro oficial. Vestígio é a palavra atualmente preferida
pelos historiadores que defendem que a fonte histórica é mais do que o
documento oficial: que os mitos, a fala, o cinema, a literatura, tudo isso, como
produtos humanos, torna-se fonte para o conhecimento da história (Silva;
Silva, 2009, p. 158).
Embora milênios separem a sociedade contemporânea da civilização do Antigo
Egito, diversos vestígios históricos possibilitam estudar, reconstituir e compreender
como seus habitantes viviam. Entre esses registros encontram-se edificações
arqueológicas, inscrições em templos e tumbas, papiros e outros documentos
escritos. A esse conjunto somam-se ainda os relatos de historiadores que estiveram
no Egito na Antiguidade, como Heródoto.
O conhecimento atual sobre esses aspectos resulta, em grande parte, de
deduções feitas a partir de vestígios indiretos – ou seja, documentos que tratavam de
outros assuntos, mas que revelam, de forma implícita, a organização burocrática,
econômica e social. É o caso, por exemplo, de registros comerciais e contábeis, listas
de tributos, inventários de templos e cartas trocadas entre familiares ou funcionários,
que oferecem pistas valiosas sobre a dinâmica do poder, a hierarquia social e o
cotidiano administrativo do Egito Antigo.
Outro fator essencial é o impacto do clima árido do Egito, determinante para a
conservação extraordinária de materiais como múmias, papiros, tecidos e objetos de
origem orgânica que, em ambientes mais úmidos, teriam se deteriorado rapidamente.
No entanto, o estudo da Antiguidade ainda enfrenta uma documentação fragmentada
e lacunar, repleta de interrupções e incompletudes. No caso específico do Egito
Antigo, esses registros, mesmo parciais, evidenciam uma riqueza imensa, tanto no
plano artístico e arquitetônico quanto na complexa estruturação social, política e
econômica. Assim, investigar essa civilização demanda uma abordagem ampla, que
considere não apenas sua dinâmica interna, mas também suas interações e
influências recíprocas com outras culturas contemporâneas, como a mesopotâmica,
a hebraica, a fenícia e, mais tarde, a grega.
Outro fator crucial para a preservação desses vestígios são os saques
sistemáticos a templos e túmulos ao longo dos séculos. Quando essas estruturas
eram descobertas, frequentemente não estavam sob nenhum tipo de controle ou
proteção arqueológica. Como apontam Bauer, Alves e Oliveira (2019), muitos objetos
foram retirados de seu contexto original e pararam em coleções particulares ou foram
vendidos a museus sem qualquer registro adequado. Essa prática não apenas causou
a perda irreparável de informações, mas também descaracterizou o conjunto do
achado arqueológico, dificultando a compreensão histórica, cultural e funcional dos
itens dentro de seu ambiente e sociedade de origem.
Para sistematizar a análise das fontes históricas do Egito Antigo, costuma-se
dividi-las em duas grandes categorias: a cultura material, proveniente de
investigações arqueológicas, e as fontes literárias, compostas por registros escritos
deixados por historiadores e viajantes da época ou próximos a ela. De acordo com
Mokhtar (2010), as evidências arqueológicas só começaram a ser exploradas e
catalogadas de forma sistemática em período relativamente recente, o que explica seu
caráter ainda fragmentado e desigual em termos de distribuição geográfica e temporal.
Além disso, muitas dessas descobertas foram, em diferentes momentos, pouco ou
equivocadamente interpretadas. Por outro lado, as fontes literárias – como os relatos
de Heródoto, Diodoro Sículo ou Manetão – contam com uma tradição mais longa de
utilização e análise, tendo servido como base para sucessivas gerações de
estudiosos, ainda que também exijam uma abordagem crítica e contextualizada.
O estudo e a reconstrução histórica do Egito Antigo só se viabilizaram
integralmente após a decifração dos hieróglifos. O fechamento dos templos egípcios
no século VI d.C., sob o governo do imperador Justiniano I, resultou no total
desaparecimento das formas escritas da língua (hieroglífica, hierática e demótica),
restando apenas a variante oral, que mais tarde se desenvolveu no copta. O sistema
hieroglífico permaneceu incompreensível por cerca de catorze séculos, até que, em
1822, o pesquisador francês Jean-François Champollion (1790–1832) conseguiu
decifrá-lo, utilizando como chave a Pedra de Roseta – um artefato que trazia o
mesmo texto gravado em egípcio hieroglífico, demótico e grego antigo (Figura 7).
Figura 7 – Pedra de Roseta
Fonte: https://x.gd/uEUk5.
Alguns achados arqueológicos são particularmente notáveis por sua
contribuição para a compreensão da sociedade do Egito Antigo. A seguir, destacam-
se alguns desses vestígios essenciais:
• Pedra de Palermo: é um dos documentos históricos mais valiosos para o
estudo do Egito Antigo. Chamada assim porque seu maior fragmento está
preservado no museu da cidade italiana de Palermo, na Sicília, trata-se de uma
placa de diorito com inscrições em ambas as faces. Ela registra os nomes dos
faraós desde o início da V dinastia (por volta de 2450 a.C.)
• Papiro de Turim: conservado no museu da cidade italiana homônima, também
possui grande relevância, apesar de consistir basicamente em uma lista
cronológica de governantes. Nele, são registrados os protocolos completos dos
faraós, bem como a duração precisa de seus reinados – em anos, meses e dias
– desde os primeiros períodos até por volta de 1200 a.C.
Em relação às fontes literárias, Mokhtar (2010) destaca elementos
fundamentais para a análise crítica do registro histórico egípcio:
Na verdade, muito antes de Champollion, o misterioso Egito já despertava
curiosidade. No período arcaico, no século VI antes da Era Cristã, os
sucessores dos pré-helenos já haviam chamado a atenção para a diferença
entre os seus costumes e crenças e os do vale do Nilo. Graças a Heródoto,
essas observações chegaram até nós. Com o objetivo de compreender
melhor seus novos súditos, os reis ptolomaicos, surpreendidos pela
originalidade da civilização egípcia, patrocinaram a compilação de uma
história do Egito faraônico, no século III antes da Era Cristã, abordando
aspectos políticos, religiosos e sociais. Mâneton, egípcio de nascimento, foi
encarregado de escrever essa história geral do Egito. Tinha acesso aos
arquivos antigos e sabia lê-los. Se seu trabalho tivesse chegado até nós na
íntegra, teria evitado muitas incertezas. Infelizmente desapareceu quando a
biblioteca de Alexandria foi queimada. Os excertos preservados em várias
compilações, frequentemente reunidos para fins apologéticos, fornecem-nos,
não obstante, um sólido esquema da história egípcia. Na verdade, as 31
dinastias “manetonianas” continuam sendo, até hoje, a base da cronologia
relativa do Egito (Mokhtar, 2010, p. 38).
O relato de viagens do grego Heródoto (séc. V a.C.), conhecido como
"Histórias", documentou suas impressões sobre povos como os persas, babilônios e
assírios. Por séculos, sua obra foi um pilar nos estudos da Antiguidade. Na
contemporaneidade, porém, suas narrativas são reavaliadas e complementadas pelo
diálogo com evidências arqueológicas e outras fontes materiais.
4 CONFIGURAÇÃO GEOGRÁFICA
Antes de explorar a geografia e o povoamento da Grécia, é fundamental
entender que o termo "grego" não era utilizado pelos próprios habitantes da região.
Essa designação foi criada pelos romanos para se referir aos falantes da língua grega,
não correspondendo, portanto, a um conceito de nacionalidade. Os povos daquela
região chamavam seu território de Hélade, a si mesmosde helenos, e consideravam
bárbaros todos aqueles que não compartilhavam sua língua e seus costumes. A
localização da Grécia pode ser visualizada na Figura 8:
Figura 8 – Grécia Antiga
Fonte: https://x.gd/ufYVqN.
A região originalmente habitada pelos helenos corresponde à atual Península
Balcânica (também conhecida como Grécia Continental). Em um processo de
expansão, ocuparam também diversas ilhas dos mares Egeu, Mediterrâneo e Jônico,
constituindo a Grécia Insular. Além disso, estabeleceram-se no litoral da Ásia Menor
(na antiga Jônia, atual Turquia), formando a Grécia Asiática, e no sul da Itália, área
denominada Magna Grécia (Funari, 2002).
A configuração geográfica da Grécia Continental, marcada por um relevo
montanhoso e por planícies férteis, porém descontínuas, limitou a expansão da
agricultura e atuou como um estímulo à expansão marítima e territorial dos helenos.
Ao mesmo tempo, o litoral recortado favoreceu a navegação e o desenvolvimento de
uma frota comercial e militar. Embora esse relevo acidentado seja frequentemente
citado como fator determinante para o fracionamento político em cidades-estados
autônomas e para as rivalidades entre elas, torna-se importante considerar que tal
explicação simplifica um processo histórico complexo, no qual fatores culturais, sociais
e políticos tiveram papel igualmente decisivo na formação das pólis gregas:
A cidade — pólis, em grego — é um pequeno Estado soberano que
compreende uma cidade e o campo ao redor e, eventualmente, alguns
povoados urbanos secundários. A cidade se define, de fato, pelo povo —
demos — que a compõe: uma coletividade de indivíduos submetidos aos
mesmos costumes fundamentais e unidos por um culto comum às mesmas
divindades protetoras. Em geral, uma cidade, ao formar-se, compreende
várias tribos; a tribo está dividida em diversas frátrias e estas em clãs; estes,
por sua vez, compostos de muitas famílias no sentido estrito do termo (pai,
mãe e filhos). A cada nível, os membros desses agrupamentos acreditam
descender de um ancestral comum e se encontram ligados por estreitos laços
de solidariedade. As pessoas que não fazem parte destes grupos são
estrangeiros na cidade e não lhes cabe nem direitos, nem proteção (Funari,
2002, p. 25).
Considerando essas características das cidades-estado, é essencial
compreender que a Hélade – ou Grécia Antiga – não constituía um Estado unificado,
governado por uma única autoridade ou representante de uma nação homogênea. Em
vez disso, tratava-se de um conjunto de pólis independentes, cada uma com seu
próprio governo, suas leis e traços culturais, políticos e sociais distintos. Mas quais
povos ocuparam a Hélade? Bauer, Alves e Oliveira (2019) revelam que o povoamento
do território grego tenha começado há cerca de 4 mil anos. Evidências arqueológicas
indicam que quatro grandes grupos de origem indo-europeia se estabeleceram
sucessivamente na região:
• Aqueus: povos fundadores de Micenas, os aqueus se instalaram na ilha de
Creta há cerca de 3.500 anos, dando origem à civilização creto-micênica.
Expandiram-se pelo mar Egeu e mantiveram o domínio da região até o século
XIII a.C.
• Jônios: estabeleceram-se na Península Balcânica por volta do século XVIII
a.C. e fundaram a cidade de Atenas. Posteriormente, migraram para a Ásia
Menor, onde fundaram a região conhecida como Jônia.
• Eólios: ocupando o norte da Grécia há aproximadamente 3.800 anos, os eólios
foram responsáveis pela fundação da cidade de Tebas.
• Dórios: último povo a conquistar a Hélade, os dórios fundaram a cidade de
Esparta e ficaram conhecidos por sua organização militar e disciplina rígida.
Estudos recentes apontam que, ainda em sua "pré-história", o território da atual
Grécia era habitado por populações ágrafas, como os leleges e os pelasgos. Dessa
forma, os grupos indo-europeus que posteriormente chegaram à região podem ser
vistos como "invasores" que, ao se misturar com esses povos originários, participaram
da formação da civilização helênica. Como destaca Funari (2002), a sociedade grega
se consolidou nos séculos seguintes às invasões dórias, não como um "milagre", mas
como herdeira de um conjunto de avanços e saberes que foram aprendidos,
adaptados e reelaborados a partir do contato com outras culturas.
4.1 Periodização histórica grega
A Grécia Antiga abrange o intervalo histórico que vai desde a ocupação inicial
do território por povos nômades e ágrafos até sua incorporação ao domínio romano.
No entanto, a datação e as subdivisões que estruturam essa periodização apoiam-se,
em grande parte, na experiência ateniense. Foi Atenas que legou o maior volume de
registros e evidências, o que a torna a principal referência para o estudo histórico da
região.
Diante disso, ressalta Guarinello (2023), é fundamental ter em mente que cada
cidade-estado (pólis) tinha suas próprias particularidades políticas, sociais e culturais.
A periodização tradicional, portanto, não está livre de imprecisões e generalizações,
pois reflete sobretudo a trajetória de Atenas. De modo didático, costuma-se dividir a
história da Grécia Antiga nos seguintes períodos:
• Sociedade Cretense ou Minoica (c. 2000–1500 a.C.): esta civilização
floresceu na ilha de Creta e recebeu seu nome em referência ao lendário rei
Minos, presente na mitologia grega. Sua organização política e social girava
em torno de grandes complexos palacianos, que se espalhavam pela ilha e
funcionavam como centros de reinos autônomos.
• Micênico ou Pré-Homérico (c. 1500–1200 a.C.): deriva seu nome do rei
aqueu Micenas, figura central na ocupação do continente grego e da ilha de
Creta. Sua organização social baseava-se em aldeias e palácios fortificados,
evidenciando um caráter militarista e conflituoso, marcado por disputas
frequentes por terras, rotas comerciais e recursos. Essa estrutura foi
fundamental para a consolidação da presença grega na região. Por volta de
1200 a.C., com a invasão dos dórios, muitos desses núcleos urbanos foram
destruídos ou abandonados.
• Período Homérico ou Idade das Trevas (c. 1200–800 a.C.): esta fase marca
a consolidação das estruturas sociais básicas chamadas genos. Embora
frequentemente traduzido como "família", o termo designa uma unidade social
mais ampla, incluindo não apenas laços de sangue, mas também relações
hereditárias e agregados ligados por obrigações afetivas e de proteção. A
organização comunitária em torno dos genos constituiu o embrião das futuras
cidades-estado gregas. A desintegração gradual dos genos foi motivada por
fatores diversos, tais como: o crescimento populacional, que superou a
capacidade de produção de alimentos, gerando disputas por recursos e terras
cultiváveis; conflitos internos, incluindo rivalidades entre herdeiros, o
desinteresse das novas gerações pelo trabalho agrícola monótono, e a
expulsão de criminosos do grupo.
• O Período Arcaico (c. 800–500 a.C.): marcado pelo desenvolvimento
definitivo das cidades-estado gregas (pólis), que se consolidaram como
unidades políticas e econômicas autônomas (Austin; Vidal-naquet, 1972). Nele
surgiram manifestações artísticas, culturais e filosóficas que deixaram um
legado duradouro, acompanhadas por uma crescente separação entre o
pensamento social e o domínio mítico-religioso. Foi também nessa época que
Atenas iniciou um processo de reformas políticas, passando por fases
aristocráticas e tirânicas.
• O Período Clássico (500–400 a.C.): corresponde ao auge das pólis gregas,
marcado por significativos avanços culturais, econômicos e políticos. O intenso
comércio marítimo e a competição por influência na região acirraram as
rivalidades entre as cidades-estado, resultando em confrontos como a Guerra
do Peloponeso, na qual Atenas e sua Liga de Delos enfrentaram Esparta e a
Liga do Peloponeso — alianças fundamentadas em acordos de natureza
econômica e militar (Finley, 2013).
• Período Helenístico (c. 400–100 a.C.): após a Guerra