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87 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR Unidade II 5 MOTIVAÇÃO 5.1 Definição com a finalidade diagnóstica A motivação é um termo utilizado em vários contextos e pode ser empregado nos meios acadêmico, profissional e pessoal, entre outros, porque o associamos a uma “energia” que nos impulsiona para fazer algo (Feldman, 2015). Como citado anteriormente, a motivação favorece o processo de memorização: se estivermos motivados, a aprendizagem se torna mais fácil, e o trabalho fica mais prazeroso. No nosso dia a dia, somos tomados por situações em que precisamos nos motivar para realizar nossas ações da melhor forma possível, às vezes de forma consciente, e, outras vezes, não. Psicólogos definem a motivação como: Um motivo é uma necessidade ou um desejo específico que estimula o organismo e direciona seu comportamento para um objetivo. Todos os motivos são iniciados por algum tipo de estímulo: uma condição física, como baixos níveis de açúcar no sangue ou desidratação; um detalhe do ambiente, como uma propaganda de liquidação; um sentimento como a solidão, culpa ou raiva. Um estímulo induz um comportamento direcionado a um objetivo, e dizemos que ele motivou a pessoa (Morris; Maisto, 2004, p. 262). Partindo desse conceito, podemos entender que a motivação é uma condição muito pessoal e particular e que os motivos podem ser variados, como as necessidades básicas do indivíduo, as carências, os interesses e os desejos que impulsionam as pessoas em certas direções e incentivam dado comportamento. Nolen‑Hoeksema et al. (2012) explicam que as causas da motivação variam desde eventos psicológicos que ocorrem no cérebro até nossa cultura e nossas interações sociais com os outros indivíduos que nos cercam. As principais características dos vários tipos de motivações estão na origem do processo motivacional, nas suas causas, na sua intensidade e em como ele atua no nosso comportamento. Há teorias que tentam explicar como a motivação se manifesta e como ela interfere em nosso desempenho. Existem dois grupos de motivos que influenciam no desempenho dos indivíduos: os motivos internos e os externos. 88 Unidade II Os motivos internos são de natureza fisiológica, como a fome e a sede, e podem ser reflexo de necessidades psicológicas. Os motivos externos são aqueles criados pela situação ou pelo ambiente em que a pessoa está, sempre em busca de conseguir satisfazer as suas necessidades básicas, a fim de despertar um sentimento de objetivo atingido. A interação entre hormônios e neurotransmissores cria um equilíbrio que regula tanto os níveis de motivação quanto as respostas emocionais. Quando o equilíbrio hormonal está saudável, a pessoa tende a se sentir mais motivada e focada (Siqueira, 2018). Os desequilíbrios hormonais, como os causados por estresse crônico, distúrbios do sono ou condições médicas, podem levar à redução significativa na motivação, impactando o humor, a produtividade e o bem‑estar geral. Portanto, os hormônios atuam como “mensageiros químicos” no cérebro e exercem papel vital na manutenção da motivação e na resposta a desafios, recompensas e emoções. O sistema de recompensa do cérebro é central na regulação da motivação. Ele envolve estruturas cerebrais que processam o prazer e a recompensa, incentivando comportamentos que trazem satisfação. Conforme Hall (2011), a dopamina – um neurotransmissor – é a substância química associada à motivação. Quando uma pessoa realiza uma ação que gera uma recompensa, como comer ou alcançar uma meta, mais a dopamina é liberada em regiões como o núcleo accumbens e o córtex pré‑frontal, promovendo uma sensação de prazer. Esse processo reforça a repetição do comportamento. Esse sistema também regula a motivação antecipatória, ou seja, a capacidade de sentir prazer em imaginar ou esperar uma recompensa, o que motiva a ação. Portanto, a motivação é impulsionada por circuitos cerebrais que integram recompensas, emoções, cognição e hábitos. O sistema de recompensa, com a dopamina, desempenha papel crucial, proporcionando prazer e incentivando comportamentos. O córtex pré‑frontal é fundamental para a motivação orientada a metas, enquanto o sistema límbico influencia a motivação emocional. Juntos, esses sistemas determinam o quanto estamos dispostos a agir em busca de objetivos e de recompensas (Hall, 2011). Balieiro Junior (2005) diz que o psicodiagnóstico e a motivação estão interligados, especialmente quando o(a) psicólogo(a) busca entender os fatores que impulsionam ou limitam o comportamento e as emoções de uma pessoa. No processo de psicodiagnóstico, identificar o nível e a natureza da motivação do indivíduo ajuda a compor um quadro mais completo de suas condições emocionais, cognitivas e de traços de personalidade. A motivação pode ser essencial para entender o envolvimento da pessoa em atividades, suas metas, expectativas e até sua adesão a possíveis tratamentos. 5.1.1 Teoria do instinto O instinto é um comportamento inato e automático, presente em muitos animais (incluindo os seres humanos), que ocorre sem a necessidade de aprendizado ou experiência prévia. É uma resposta imediata a estímulos específicos do ambiente (Morris; Maisto, 2004). 89 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR Exemplos de instintos em humanos e animais incluem o reflexo de sugar em bebês, a busca por alimento quando com fome, ou a reação de fuga diante de um perigo. Esses comportamentos são regidos por mecanismos biológicos e são essenciais para a sobrevivência da espécie. Os instintos são universais e comuns para dada espécie, tendendo a ser fixos e previsíveis. Eles são gerados por estímulos internos (fome, sede etc.) ou externos (perigo, sons, cheiros etc.) e não requerem esforço consciente. Podem ser considerados comportamentos complexos, não aprendidos e com um padrão fixo. Eles visam à preservação de cada espécie e se concentram em comportamentos predispostos geneticamente. Enfim, os instintos são padrões de comportamento específicos e inatos, característicos de toda uma espécie, que explicam grande parte do comportamento humano. William James, em 1890, compilou uma série de instintos humanos, como a caça, a competição, o medo, a curiosidade, a timidez, o amor, a vergonha e o ressentimento (Morris; Maisto, 2004). O comportamento humano é orientado por necessidades fisiológicas e por desejos psicológicos. Como pressuposto básico, podemos considerar que há genes que predispõem o comportamento típico de cada espécie. A motivação é o processo psicológico que impulsiona o indivíduo a agir de determinada maneira para alcançar um objetivo ou satisfazer uma necessidade. É uma força interna que pode ser influenciada por fatores biológicos, emocionais, sociais ou cognitivos. Diferentemente dos instintos, que são automáticos, a motivação envolve um processo mais complexo, incluindo a tomada de decisões, o planejamento e a ação, e não se limita à sobrevivência. Ela pode ser dirigida tanto por desejos internos (motivação intrínseca, como o prazer de aprender) quanto por recompensas externas (motivação extrínseca, como dinheiro ou reconhecimento), além de abranger diversas áreas da vida, como a busca por realização pessoal, profissional ou acadêmica. Lembrete A motivação refere‑se ao desejo de realizar uma atividade por conta do prazer ou da satisfação que ela proporciona, favorecendo o impulso para qualquer atividade psíquica ou social. Diferenças fundamentais • Inato versus aprendido — Instinto: inato, presente desde o nascimento e universal dentro da espécie. — Motivação: pode ser influenciada por fatores ambientais, sociais e pessoais, além de ser moldada pela experiência e aprendizado. 90 Unidade II • Automático versus consciente — Instinto: ocorre de maneira automática e sem consciência deliberada. — Motivação: envolve um grau de decisão consciente. As pessoas podem escolher agir ou não de acordo com sua motivação, e essa decisão pode ser moldada por emoções e raciocínio. • Específico versus diversificado(Dalgalarrondo, 2000). 6.4 Alterações psicopatológicas No campo da psicopatologia, existem várias patologias que alteram o processo emocional. Na prática clínica diária, frequentemente encontramos pacientes com depressão que são subdiagnosticados e substratos. Em geral, a proporção de mulheres é maior em relação aos homens. Do ponto de vista psicopatológico, os quadros depressivos têm como elemento central o humor triste. Entretanto, elas se caracterizam por uma multiplicidade de sintomas afetivos, instintivos e neurovegetativos, ideativos e cognitivos, relativos à autovalorização, à volição e à psicomotricidade. Também podem estar presentes sintomas psicóticos e fenômenos biológicos (marcadores biológicos) associados (Dalgalarrondo, 2000). O Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5ª edição (APA, 2014), é a principal classificação de transtornos mentais adotada pelos profissionais de saúde mental. Ele não só descreve os critérios diagnósticos para transtornos emocionais, mas também identifica como as emoções podem ser alteradas em diferentes psicopatologias. As principais psicopatologias que envolvem alterações emocionais, com foco na modulação e intensidade das emoções, conforme descrito no DSM‑5, estão descritas a seguir. 118 Unidade II Transtornos de ansiedade Envolvem uma reação emocional excessiva de medo ou apreensão, frequentemente sem uma ameaça real ou proporcional. As emoções de medo e ansiedade estão centralmente implicadas nesses transtornos. • TAG: preocupação excessiva e incontrolável sobre uma série de situações, o que leva a um estado constante de tensão emocional. • Transtorno de pânico: ataques de pânico súbitos e recorrentes que envolvem medo intenso e desconforto, com sintomas físicos como taquicardia, falta de ar e sensação de desmaio. • Fobias específicas: medo intenso e irracional de objetos ou situações específicas (exemplo: medo de aranhas, de voar). • Transtorno de ansiedade social (fobia social): medo intenso de ser julgado negativamente em situações sociais, o que gera grande sofrimento emocional. • TEPT: respostas emocionais intensas de medo e angústia após a exposição a um evento traumático, incluindo flashbacks e hipervigilância. Transtornos depressivos Estão associados a uma perda de interesse ou prazer em atividades, sentimentos de tristeza profunda e uma modificação nas emoções de forma crônica. • Transtorno depressivo maior (TDM): caracterizado por sentimentos intensos e persistentes de tristeza, desesperança e perda de prazer em atividades que anteriormente eram agradáveis. Os sintomas emocionais incluem apatia, irritabilidade e desesperança. • Distimia (transtorno depressivo persistente): uma forma crônica e de longo prazo de depressão, com sintomas emocionais mais leves, mas que duram anos, causando sofrimento contínuo. • Transtorno depressivo induzido por substâncias/medicamentos: alterações emocionais relacionadas ao uso ou abstinência de substâncias psicoativas. Transtornos bipolares São caracterizados por alterações extremas de humor entre episódios de mania ou hipomania (emoções intensamente elevadas) e depressão (emoções extremamente baixas). • Transtorno bipolar I: episódios de mania (elevação extrema do humor, irritabilidade e hiperatividade) alternados com episódios depressivos. 119 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR • Transtorno bipolar II: caracterizado por episódios de hipomania (menos intensa que a mania) e episódios depressivos, com mudanças emocionais mais sutis que o bipolar I. • Cicladores rápidos: indivíduos com pelo menos quatro episódios de alterações emocionais (mania/hipomania e depressão) em um período de 12 meses. Transtornos de personalidade Vários desses transtornos envolvem alterações emocionais profundas e intensas, com dificuldade em regular as emoções de maneira adequada. • Transtorno de personalidade borderline: caracterizado por uma instabilidade emocional extrema, com sentimento de vazio, raiva intensa, medo de abandono e dificuldade em regular as emoções. • Transtorno de personalidade narcísica: emoções de grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia, o que pode resultar em reações emocionais intensas quando a autoestima é ameaçada. • Transtorno de personalidade antissocial: indivíduos com pouco respeito pelas normas sociais, com falta de empatia e emoções frequentemente insensíveis ou desprovidas de remorso. Transtornos de humor Envolvem alterações nos afetos e sentimentos, podendo resultar em emoções de extrema tristeza ou euforia. • Transtorno disfórico pré‑menstrual: caracterizado por sintomas emocionais intensos, como irritabilidade extrema, tristeza profunda e alterações de humor acentuadas no período que antecede a menstruação. • Ciclotimia: flutuações emocionais constantes, com períodos de hipomania e sintomas depressivos leves que não atendem aos critérios para o transtorno bipolar. Transtornos psicóticos Envolvem a perda de contato com a realidade, mas também estão associados a alterações emocionais significativas, especialmente no que diz respeito à emoção excessiva ou à apatia emocional. • Esquizofrenia: pode apresentar alteração emocional significativa, como apatia ou emotividade inadequada (como rir em situações tristes), além de episódios emocionais de medo ou paranoia. • Transtorno esquizofreniforme e transtorno delirante: também podem envolver intensas flutuações emocionais, com irracionalidade ou emoções desproporcionais em relação à realidade. 120 Unidade II Transtornos de estresse e ajustamento Envolvem uma resposta emocional desproporcional ao estresse, com sintomas de angústia e dificuldades em lidar com mudanças ou perdas. • Transtorno de estresse agudo: reações emocionais intensas, como medo e horror, após a vivência de um evento traumático, com sintomas semelhantes ao transtorno de estresse pós‑traumático, mas de curta duração. • Transtorno de ajustamento: dificuldade significativa em ajustar‑se a estressores ambientais, resultando em reações emocionais, como tristeza excessiva, ansiedade ou irritabilidade. Transtornos relacionados a trauma e estressores Envolvem alterações emocionais extremas em resposta a eventos traumáticos. • TEPT: após a exposição a um evento traumático, a pessoa pode experimentar emoções intensas de medo e pavor recorrentes, com alterações emocionais persistentes, como flashbacks, evitação de estímulos relacionados ao trauma e hipervigilância. Transtornos de alimentação Alterações emocionais podem estar profundamente ligadas aos transtornos alimentares, com a modulação do humor associada à autoestima e à percepção corporal. • Anorexia nervosa: emoções intensas de medo de ganhar peso, ansiedade sobre a imagem corporal e controle emocional obsessivo. • Bulimia nervosa: alterações emocionais relacionadas à vergonha, à culpa e à ansiedade associadas aos episódios de compulsão alimentar seguidos de purgação. Vale lembrar que todas as doenças mentais são tratáveis. A maioria dos quadros depressivos muitas vezes dependem de tratamento farmacológico, porém em inúmeros casos clínicos a psicoterapia traz bons resultados, porque além de contribuir com a remissão dos sintomas previne as recaídas. No DSM‑5, o que leva ao diagnóstico dos transtornos depressivos “é a presença de humor triste, vazio ou irritável, acompanhado de alterações somáticas e cognitivas que afetam significativamente a capacidade de funcionamento do indivíduo”, semelhante ao episódio depressivo que compõe o transtorno bipolar. Contudo, o que irá diferi‑los serão “os aspectos de duração, momento ou etiologia presumida” (APA, 2014, p. 155). O transtorno depressivo maior representa a condição clássica desse grupo de transtornos. Ele é caracterizado por episódios distintos de pelo menos duas semanas de duração (embora a maioria dos episódios dure um 121 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR tempo consideravelmente maior) envolvendo alterações nítidas no afeto, na cognição e em funções neurovegetativase remissões interepisódicas (APA, 2014, p. 155). Em relação à causa dos quadros depressivos, além dos fatores biológicos, genéticos e neuroquímicos, temos que destacar os fatores psicológicos que geralmente são decorrentes de situações de perdas ou de traumas. As síndromes e reações depressivas surgem com muita frequência após perdas significativas: de uma pessoa muito querida, de um emprego, de um local de moradia, do status socioeconômico, ou de algo puramente simbólico (Dalgalarrondo, 2000). O transtorno bipolar tipo I foi comumente igualado à clássica doença maníaco‑depressiva, mas o transtorno bipolar tipo II baixou drasticamente o limiar, exigindo meramente um episódio depressivo e um período de produtividade aumentada, inflação da autoestima e redução da necessidade de sono [...] Hoje em dia, existe até o “bipolar leve”, o que significa que o paciente “reage intensamente às perdas” (Leader, 2015, p. 12). 7 PENSAMENTO 7.1 Definição com a finalidade diagnóstica O pensamento é um dos processos psicológicos exclusivos do ser humano que, de uma forma geral, ainda deixa algumas dúvidas sobre o seu real aparecimento. Como e por que aparece e em que circunstâncias são sempre iguais para todas as pessoas (Dalgalarrondo, 2019). Sabe‑se que as doenças mentais alteram o processo do pensamento, porém por que acontecem é a grande questão. Existem pacientes que descrevem o aparecimento de pensamentos intrusivos que interferem diretamente na qualidade de vida, nos comportamentos e até nas tomadas de decisões (Dalgalarrondo, 2019). Na prática clínica neuropsicológica, temos algumas técnicas e escalas para avaliação, mas a grande maioria avalia apenas a participação do processo de pensamento nos indivíduos, porém não temos um instrumento específico para a investigação do pensamento. O pensamento se constitui a partir de elementos sensoriais que podem fornecer substrato para o processo do pensar, baseados em imagens perceptivas, e as representações de qualquer outra modalidade sensorial. O pensamento refere‑se a todas as atividades associadas a processamento, conhecimento, recordação e comunicação. Os psicólogos cognitivos estudam essas atividades, incluindo os meios lógicos e, às vezes, ilógicos pelos quais criamos conceitos, resolvemos problemas, fazemos julgamentos e tomamos decisões (Myers, 2015). 122 Unidade II Pensar é, com efeito, um processo, uma função biológica exercida pelo cérebro. O processamento do pensamento é o ato de receber, perceber, compreender, armazenar, manipular, monitorar, controlar e responder ao fluxo constante de dados. A capacidade para ligar de forma competente as informações oriundas das áreas de associação motora, sensorial e mnemônica é decisiva para o processamento do pensamento e para a consideração e o planejamento de futuras ações (Ratey, 2001). Mais uma vez fica claro que os processos mentais não trabalham isoladamente, mas de maneira orquestrada, em que uma estrutura depende da outra, para que o funcionamento cerebral seja eficiente e que sempre tenha uma finalização. O pensamento surge apenas quando o indivíduo tem um motivo apropriado que torna a tarefa urgente e a sua solução essencial e quando a pessoa é confrontada com uma situação para a qual ela não possui uma solução já pronta (inata ou habitual) (Luria, 1981). Tomando como base esse conceito, podemos acreditar que o pensamento sempre está relacionado a alguma tarefa que o indivíduo precisa resolver, com base em condições que devem ser investigadas, para descobrir o caminho que irá conduzir a uma solução. Os psicólogos definem o pensamento como a manipulação das representações mentais da informação. Uma representação pode assumir a forma de uma palavra, de uma imagem visual, de um som ou de qualquer outra modalidade sensorial que estejam armazenados na memória. O pensar transforma determinada representação da informação em formas novas e diferentes, permitindo‑nos responder perguntas, resolver problemas ou alcançar objetivos (Feldman, 2015). Como descrito anteriormente, o pensamento envolve muitos processos e a participação de elementos sensoriais necessários para o processo de pensar. O principal formador do pensamento é através da linguagem, o que nos leva a considerar que falamos dentro da nossa cabeça. A partir do momento em que vamos desenvolvendo a nossa linguagem, o pensamento também vai sendo melhor elaborado e permite ao indivíduo modular e lidar com o meio ambiente e o mundo. Devemos considerar o uso de imagens e conceitos mentais como elementos básicos que formam o pensamento. Em muitas situações, o pensamento surge de forma automática e muito rápida, e quando percebemos já estamos pensando em algo, principalmente quando estamos diante de imagens visuais que fazem parte do nosso cotidiano, parte fundamental para o pensamento. As imagens mentais podem ser descritas como representações de um objeto ou evento na mente. Elas não são apenas representações mentais; nossa capacidade de “ouvir” uma melodia em nossa cabeça também depende de uma imagem mental. Toda modalidade sensorial pode produzir imagens mentais correspondentes (Feldman, 2015). 123 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR Inicialmente, devemos distinguir os elementos intelectuais que constituem o pensamento: os conceitos, o juízo e o raciocínio. O pensamento também passa pelo processo de pensar, que se refere a continuidade, forma e conteúdo do pensamento. Para pensar sobre os incontáveis eventos, objetos e pessoas em nosso mundo, nós simplificamos as coisas. Os conceitos sempre são formados e podem ser considerados como agrupamentos mentais de objetos, eventos e pessoas semelhantes (Myers, 2015). Através dos conceitos, podemos dar significado aos objetos, com base nas experiências anteriores que podem influenciar o comportamento. São claramente definidos por um conjunto exclusivo de propriedades ou características. Os conceitos se formam a partir das representações e não têm elementos sensoriais, não sendo possível contemplá‑los nem imaginá‑los. São puramente cognitivos e intelectivos, mas não é possível visualizá‑los, ouvi‑los ou senti‑los. Eles exprimem apenas os caracteres mais gerais dos objetos e fenômenos (Dalgalarrondo, 2000). Formamos nossos conceitos desenvolvendo protótipos que são considerados como uma imagem mental ou melhor exemplo de uma categoria. Corresponder novos itens a um protótipo é um método rápido e fácil para ordenar as coisas em categorias, o que permite pensar e compreender com mais celeridade o mundo no qual estamos inseridos. Os médicos fazem diagnósticos baseando‑se em conceitos e protótipos de sintomas que aprenderam na faculdade e que facilitam nossos esforços para tirar conclusões adequadas por meio do processo cognitivo ao qual nós voltamos a seguir: o raciocínio (Feldman, 2015). Como mencionado anteriormente, o pensamento muitas vezes está ligado a uma tarefa ou a um motivo que requer uma solução ou a tomada de alguma decisão necessária, e para isso recorremos a outros atalhos cognitivos: os algoritmos e a heurística. O algoritmo pode ser considerado como uma regra ou procedimento metódico e lógico que assegura a resolução de um problema específico. Contrasta com o uso da heurística, geralmente mais rápido, porém mais propenso a erros (Myers, 2015). Às vezes, o algoritmo pode ser usado sem mesmo saber por que ele funciona ou não naquela situação específica. Porém, para muitas situações problemáticas e de tomada de decisão, não há algoritmo disponível, e para isso se faz o uso da heurística para ajudar. Heurística é uma estratégia de pensamento que pode levar‑nos a uma solução para um problema ou decisão, mas que pode às vezes resultar em erros. Aumenta a probabilidade de sucesso para chegar a uma solução, mas, diferentemente dos algoritmos, não podem garanti‑la (Feldman, 2015). Dentre os elementos intelectuais que constituem o pensamento estão os juízos. Formar juízos é o processo que conduz ao estabelecimento de relaçõessignificativas entre os conceitos básicos. Consiste, a princípio, na afirmação de uma relação entre dois conceitos. Por exemplo, ao tomar‑se os conceitos “cadeira” e “utilidade” (ou seja, qualidade de ser útil), pode‑se formular o seguinte juízo: a cadeira é útil (Dalgalarrondo, 2000). De um modo geral os juízos têm como fundamento fazer a relação entre dois conceitos. 124 Unidade II O outro elemento intelectivo do pensamento refere‑se ao raciocínio, que representa um modo especial de ligação entre conceitos, de sequência de juízos e de encadeamento de conhecimentos, derivando sempre uns dos outros. A ligação entre conceitos permite a formação de juízos, a ligação entre juízos conduz à formação de novos juízos, e, dessa forma, o raciocínio e o próprio pensamento se desenvolvem (Dalgalarrondo, 2000). Uma outra forma de compreender o pensamento está no seu processo, que inclui o curso, a forma ou estrutura e o conteúdo ou temática do pensamento. O curso do pensamento é o modo como o pensamento flui, a sua velocidade e seu ritmo ao longo do tempo. A forma do pensamento é a estrutura básica, preenchida pelos mais diversos conteúdos e interesses do indivíduo. É a maneira pela qual são articuladas as ideias (associações). Quanto à produção, podem haver abundância ou pobreza de ideias e pensamento rápido (fuga de ideias) ou lentificado, espontâneo ou que precisa de estímulo. O conteúdo do pensamento se refere aos temas, o assunto em si, o que a pessoa pensa (ideias, crenças, preocupações, obsessões [ideias/pensamentos intrusivos], compulsões [práticas repetitivas], fobias, planos e intenções ou ideias recorrentes de suicídio/homicídio, ideias hipocondríacas etc.). Dentre as outras características relativas ao pensamento, está a capacidade de resolução de problemas. Alguns problemas são resolvidos pelo método de tentativa e erro, ou pelo uso dos algoritmos e heurística. Contudo, se esses padrões de respostas forem usados de forma inadequada, pode ser um obstáculo para a resolução dos problemas. Porém, para uma solução de problemas de forma eficiente, muitas vezes depende‑se da capacidade de criatividade de cada um para a sua finalização. A criatividade é a capacidade de gerar ideias originais ou resolver problemas de novas maneiras. Também não está claro se o tipo de criatividade apresentado por pessoas altamente criativas nas artes é o mesmo tipo de criatividade usado por pessoas altamente criativas nas ciências (Feldman, 2015). Tomando como base tal informação, podemos dizer que pessoas criativas podem apresentar dois tipos de pensamento: o divergente e o convergente. O pensamento divergente gera respostas incomuns, mas apropriadas, para problemas ou questões. Já o pensamento convergente é aquele em que um problema é visto como possuidor de uma única resposta e que produz respostas que se baseiam fundamentalmente no conhecimento e na lógica (Feldman, 2015). O pensamento é um dos elementos centrais no processo de psicodiagnóstico, que é uma avaliação psicológica utilizada para compreender as características emocionais, cognitivas e comportamentais de uma pessoa. O papel do pensamento no psicodiagnóstico se dá de várias maneiras, sendo essencial para interpretação e compreensão do indivíduo. Destacam‑se a seguir algumas das principais formas pelas quais o pensamento é importante nesse contexto. • Avaliação das funções cognitivas: o psicodiagnóstico busca examinar as funções cognitivas do indivíduo, como memória, atenção, raciocínio e julgamento. O pensamento é um reflexo 125 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR direto dessas funções, e sua avaliação permite entender como o paciente organiza suas ideias, toma decisões e processa informações. Isso é fundamental para identificar possíveis dificuldades cognitivas ou transtornos, como transtornos de aprendizado, transtornos do espectro autista ou condições relacionadas à demência e ao déficit cognitivo. • Análise dos processos de pensamento: o psicodiagnóstico também investiga os processos subjacentes ao pensamento, como o fluxo de ideias, o ritmo de raciocínio, a coerência e a lógica nas associações mentais. Isso pode ajudar a identificar padrões de pensamentos disfuncionais, como os presentes em transtornos de ansiedade, depressão ou esquizofrenia, em que o pensamento pode ser irracional, obsessivo ou fragmentado. Portanto, o pensamento desempenha um papel central no psicodiagnóstico, sendo crucial para compreender o funcionamento cognitivo, emocional e comportamental de um indivíduo. Sua avaliação permite não apenas o diagnóstico de transtornos psicológicos, mas também a identificação de processos disfuncionais que possam ser trabalhados na intervenção terapêutica. O entendimento do pensamento do paciente é um ponto de partida para promover melhorias no bem‑estar mental e emocional, sendo uma ferramenta essencial para o psicólogo no processo de auxílio ao indivíduo. 7.2 Função psíquica e suas alterações A relação entre pensamento e cognição é fundamental para a compreensão dos processos mentais humanos. O pensamento é uma das funções cognitivas mais complexas e essenciais, envolvendo a manipulação de informações para criar, entender e agir sobre o mundo ao nosso redor. A cognição refere‑se a um conjunto mais amplo de processos mentais que inclui percepção, atenção, memória, aprendizado, raciocínio, resolução de problemas e, claro, o pensamento. 7.2.1 Definição de pensamento e cognição Pensamento É o processo mental de manipular informações, seja para compreender algo, tomar decisões, solucionar problemas ou gerar novas ideias. Pode ser descrito como um conjunto de operações mentais que envolve o uso de conceitos, ideias, imagens mentais e razões lógicas para chegar a conclusões ou alcançar objetivos. O pensamento pode ser tanto consciente quanto inconsciente, dependendo do nível de reflexão e controle que a pessoa exerce sobre ele. Cognição É o termo mais amplo que se refere a todos os processos mentais envolvidos na aquisição e manipulação de conhecimento. Isso inclui não apenas o pensamento, mas também funções como atenção, percepção, memória e linguagem. Em outras palavras, a cognição abrange todos os aspectos da mente envolvidos no processamento de informações. 126 Unidade II 7.2.2 Pensamento como parte dos processos cognitivos O pensamento é uma função central dentro da cognição, pois ele é um meio pelo qual processamos e organizamos as informações que recebemos do mundo, porém muitas outras funções cognitivas contribuem para o processo de pensamento. Atenção Para pensar de forma eficaz, é necessário focar a atenção em informações específicas. A atenção permite que o cérebro selecione as informações relevantes para o pensamento, ignorando estímulos irrelevantes. Sem uma boa capacidade de atenção, o pensamento seria fragmentado e desorganizado. Memória O pensamento depende da memória, pois precisamos recuperar informações passadas (memórias de longo prazo) e usá‑las no presente. A memória de trabalho, em particular, é crucial para manter informações temporárias e manipulá‑las enquanto pensamos, resolvemos problemas ou tomamos decisões. Percepção Antes de pensarmos sobre algo, precisamos perceber o mundo ao nosso redor. A percepção envolve a interpretação dos estímulos sensoriais e a construção de representações mentais. O pensamento, então, organiza e dá sentido àquilo que foi percebido. Raciocínio e resolução de problemas O raciocínio é uma forma de pensamento que envolve a análise lógica e a tirada de conclusões a partir de premissas. O pensamento também é crucial para a resolução de problemas, em que o indivíduo precisa identificar soluções alternativas e avaliá‑las de acordo com os objetivos ou regras. Linguagem É uma ferramenta central no processo de pensamento. Muitas vezes, pensamos em palavras, frases e conceitos, o que permite organizar o pensamento, comunicar ideias e refletir sobre situações de maneira estruturada. 7.2.3 Pensamento como processamentoativo de informação Dentro da cognição, o pensamento pode ser visto como uma atividade ativa de processamento. Não é simplesmente a recepção passiva de informações, mas sim a manipulação ativa dessas informações para gerar algo novo ou chegar a uma solução. 127 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR Pensamento concreto versus abstrato O pensamento pode ser concreto, lidando com objetos ou situações tangíveis, ou abstrato, lidando com ideias, conceitos e hipóteses. O pensamento abstrato é mais complexo, pois envolve conceitos que não são diretamente observáveis, como justiça, liberdade ou beleza. Pensamento crítico e criativo O pensamento crítico é uma forma de raciocínio que envolve a análise lógica e profunda das informações, identificando falácias ou inconsistências, questionando suposições e avaliando as evidências. Já o pensamento criativo envolve gerar novas possibilidades e soluções inovadoras. Ambos são essenciais dentro da cognição, especialmente em contextos complexos, como a resolução de problemas ou a tomada de decisões. 7.2.4 Processos cognitivos e o pensamento crítico O pensamento crítico está diretamente relacionado ao uso de várias funções cognitivas. Memória O pensamento crítico muitas vezes exige que a pessoa recupere informações passadas para compará‑las com novas evidências. Atenção A atenção seletiva permite que o indivíduo foque nas partes mais relevantes das informações, ignorando distrações. Raciocínio lógico O pensamento crítico exige a aplicação de regras lógicas e a análise de alternativas para chegar a conclusões válidas. Percepção e linguagem A percepção crítica do ambiente e a capacidade de organizar o pensamento em uma estrutura linguística clara e lógica são cruciais para a formação de argumentos convincentes. 7.2.5 Modelos cognitivos do pensamento Existem modelos que explicam como o pensamento interage com outros processos cognitivos para gerar respostas adaptativas ao ambiente. Os modelos cognitivos geralmente sugerem que o pensamento é parte de um sistema dinâmico que envolve: 128 Unidade II • Entrada sensorial (percepção): o pensamento começa com a percepção de estímulos. • Processamento (memória e atenção): as informações são processadas de acordo com o que já sabemos e o que estamos atentos no momento. • Saída (resolução de problemas, ação): o pensamento gera uma ação ou decisão com base nas informações processadas. Esses processos são circuitos interligados, em que a atenção seleciona as informações que entram no sistema cognitivo, a memória armazena o conhecimento para futura referência, e o raciocínio analisa essas informações para formar novas ideias ou tomar decisões. 7.2.6 Distúrbios cognitivos e pensamento Alguns transtornos cognitivos afetam diretamente a capacidade de pensar de forma lógica, clara e estruturada. Isso pode ser observado em várias condições, como as descritas a seguir. Demência e Alzheimer Em doenças neurodegenerativas, o pensamento lógico e a capacidade de resolver problemas podem ser severamente prejudicados devido à deterioração das funções cognitivas. Esquizofrenia Transtornos psicóticos, como a esquizofrenia, podem levar a distorções do pensamento, como delírios e alucinações, e pensamento desorganizado, em que o processo de pensamento não segue uma linha coerente. TDAH Indivíduos com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade podem ter dificuldades com a organização do pensamento, frequentemente se distraindo ou começando múltiplas tarefas sem concluí‑las. 7.2.7 Relação entre pensamento e memória O pensamento e a memória estão profundamente interligados. A memória de trabalho (ou memória de curto prazo) é especialmente importante para o pensamento, pois ela nos permite manter e manipular informações temporárias enquanto realizamos tarefas cognitivas, como resolver problemas ou tomar decisões. 129 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR Memória e raciocínio O raciocínio lógico muitas vezes depende da recuperação de informações da memória para formar hipóteses e tirar conclusões. O processamento de novas informações também depende de uma memória sólida de fatos e experiências passadas. O que caracteriza o pensamento normal é ser regido pela lógica formal e orientar‑se segundo a realidade e os princípios de racionalidade da cultura na qual o indivíduo se insere. Em indivíduos que não são patológicos, o pensamento fica apenas com menos características lógicas; por isso, muitas vezes é difícil descrever quando um pensamento está em condições normais ou patológicas. A literatura descreve tipos de pensamentos que podem ser associados a estados mentais alterados e a transtornos psiquiátricos. Dentre as alterações do pensamento podemos citar as alterações dos conceitos, dos juízos, tipos alterados de pensamento, alterações do processo de pensar que envolve o curso, a forma e o conteúdo do pensamento. Importante ressaltar que as alterações podem se apresentar de diversas formas e com diferentes graus de gravidade. Sobre o pensamento alterado podemos citar: • Pensamento mágico: caracteriza‑se por ferir frontalmente os princípios da lógica formal, bem como os indicativos e imperativos da realidade. Eles seguem os desígnios dos desejos, das fantasias e dos temores, conscientes ou inconscientes, do sujeito, adequando a realidade ao pensamento, e não o contrário (Dalgalarrondo, 2000). • Circunstancialidade: refere‑se ao raciocínio (exemplo: quando o paciente fala de coisas irrelevantes, mas volta ao ponto). • Pensamentos prolixos: em que o paciente não consegue chegar a qualquer conclusão sobre o tema de que está tratando, a não ser após muito tempo e esforço (Dalgalarrondo, 2000). • Tangencialidade: nesse caso, o paciente tangencia o objetivo da questão sem voltar ao ponto, ou seja, responde algo de forma irrelevante, não sabendo discriminar o essencial. Nas alterações do processo de pensar, no caso de curso do pensamento, podemos citar: • Aceleração ou lentificação do pensamento. • Bloqueio do pensamento: quando o paciente interrompe o fluxo do pensamento/ideia em questão e pode esquecer do que estava falando. • Roubo do pensamento: quando o paciente tem a sensação de que seu pensamento foi roubado por algo ou alguém. • Nas alterações na forma do pensamento, podemos pontuar a fuga de ideias, a dissociação do pensamento, o descarrilhamento do pensamento e a desagregação do pensamento. 130 Unidade II • Referente ao conteúdo do pensamento, as alterações mais comuns são as relacionadas aos sintomas psicopatológicos: persecutórios; depreciativos; religiosos; sexuais; de poder, riqueza, prestígio ou grandeza; de ruína ou culpa; e conteúdos hipocondríacos. O pensamento se destaca entre as funções elementares do cérebro, como percepção, atenção, memória e emoção, por sua capacidade de integrar, organizar e dar sentido às informações recebidas, além de planejar, analisar e resolver problemas. A seguir note a importância do pensamento em relação às demais funções cognitivas e neuropsicológicas. Integração das funções cognitivas Enquanto funções como percepção e memória lidam com o processamento e armazenamento de informações de maneira mais direta, o pensamento é fundamental para integrar essas informações. O pensamento permite que a pessoa organize e dê sentido do que percebeu ou lembra, gerando compreensão e coerência. Sem o pensamento, a memória seria apenas um conjunto de informações desconectadas, e a percepção não teria uma interpretação ou contexto. Exemplo: ao perceber um objeto (como uma maçã), a percepção envolve identificar o que é o objeto, e a memória ajuda a recordar que “maçãs são comestíveis”. O pensamento vai além disso, permitindo que você raciocine sobre o que fazer com a maçã, se deve comê‑la agora, ou guardá‑la para depois. O pensamento organiza essa informação em uma decisão ou ação. Planejamento e tomada de decisão O pensamento se destaca por ser a função que permite o planejamento de ações e a tomada de decisões. A capacidadede antecipar consequências, raciocinar sobre alternativas e pesar diferentes opções está profundamente ligada ao pensamento. Enquanto a percepção apenas capta dados sensoriais e a memória apenas recorda experiências passadas, o pensamento é a função que direciona a ação com base nessas informações. Exemplo: para atravessar a rua, a percepção nos avisa sobre a presença de carros, a memória nos lembra de possíveis riscos de acidentes, mas é o pensamento que nos permite avaliar se é seguro ou não atravessar, dependendo da velocidade do trânsito e de outras variáveis. Resolução de problemas É uma das habilidades mais exclusivas do pensamento, pois envolve a capacidade de analisar situações, identificar obstáculos e gerar estratégias para alcançar um objetivo. O pensamento é crucial para encontrar soluções inovadoras, avaliar alternativas e escolher o melhor caminho para resolver situações complexas. Exemplo: se você perde suas chaves, o pensamento entra em ação para ajudar a lembrar onde as deixou (memória), analisar os lugares onde já procurou (atenção) e criar novas estratégias para encontrar as chaves (raciocínio e resolução de problemas). 131 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR Criatividade e pensamento abstrato Uma das características mais notáveis do pensamento é sua capacidade de abstração e criatividade. O pensamento humano não se limita ao concreto; ele permite que as pessoas imaginem cenários futuros, criem soluções novas e inovadoras e desenvolvam ideias complexas que vão além das experiências imediatas. Exemplo: na arte, na ciência ou em qualquer campo criativo, o pensamento permite que o indivíduo crie algo novo a partir da combinação de ideias e informações. A abstração permite pensar sobre conceitos e ideias não tangíveis, como o amor, a justiça ou a beleza. Reflexão e autoconsciência Outra característica distintiva do pensamento é sua capacidade de reflexão. O pensamento não se limita a processar informações externas, mas também permite que o indivíduo se autoconheça, reflita sobre suas próprias experiências, crenças e emoções. Esse processo de introspecção leva à autoconsciência, o que é fundamental para o crescimento pessoal e para a adaptação ao ambiente. Exemplo: uma pessoa que passa por uma situação difícil pode refletir sobre suas reações e sentimentos, identificar padrões de comportamento e tomar decisões conscientes para melhorar sua maneira de lidar com situações semelhantes no futuro. Modulação das emoções O pensamento também é crucial na regulação das emoções. Enquanto as emoções são respostas rápidas e automáticas a estímulos, o pensamento pode influenciar a maneira como interpretamos esses estímulos e, assim, modificar a intensidade e a duração da resposta emocional. Esse processo de regulação emocional é muitas vezes mediado por pensamentos conscientes, como aquelas estratégias usadas por psicólogos. Exemplo: alguém que está se sentindo ansioso pode usar o pensamento para reinterpretar a situação de maneira mais racional e menos ameaçadora, diminuindo o impacto emocional. Distinção entre pensamento e funções elementares Embora as funções elementares, como percepção, atenção e memória, sejam essenciais para coleta e processamento das informações, o pensamento é a função que dá sentido a essas informações, proporcionando integração, decisão, criatividade e reflexão. Em outras palavras, o pensamento utiliza as funções elementares como ferramentas para alcançar um objetivo ou gerar uma nova compreensão. Exemplo: ao assistir a um filme, a percepção captura a imagem e o som, a memória pode trazer lembranças de filmes anteriores ou de temas abordados, a atenção foca nos detalhes mais importantes da trama. Mas é o pensamento que avalia o conteúdo do filme, analisa sua mensagem, decide se gostou ou não, e até mesmo reflete sobre como o filme se relaciona com a própria vida. 132 Unidade II Flexibilidade cognitiva O pensamento permite uma flexibilidade cognitiva, ou seja, a capacidade de adaptar o raciocínio a novas informações e contextos. Isso o torna uma função essencial para a aprendizagem e para a adaptação a novas situações, algo que não é tão fácil para as funções elementares mais automáticas, como a percepção ou a memória, que muitas vezes funcionam de maneira mais rígida (inflexível). Exemplo: o indivíduo com capacidade de ajustar‑se diante das demandas do ambiente externo. O pensamento se destaca entre as funções elementares do cérebro porque é a função integradora e reguladora que não só organiza as informações provenientes da percepção, memória e atenção, mas também permite planejar, avaliar, resolver problemas, tomar decisões e refletir sobre si mesmo e o mundo. Ele vai além do processamento automático, conferindo à mente humana uma capacidade única de imaginar, criar e, acima de tudo, compreender de maneira profunda e estruturada a realidade que nos cerca. 7.3 Localização cerebral Pelo fato de o pensamento englobar vários processos e elementos sensoriais, podemos contar com a participação de todo o córtex cerebral como responsável pelo processo do pensamento. Importante mencionar também a participação da substância cinzenta, que é composta por corpos celulares de neurônios, axônios e células da glia. A substância cinzenta compreende 50% da massa cerebral, correspondente às funções cognitivas gerais, dentre elas o pensamento. A questão da localização do pensamento no cérebro tem sido um tema central na neurociência e na psicologia, embora a compreensão completa de onde o pensamento ocorre ainda seja um desafio, em razão da complexidade e da rede interconectada de áreas cerebrais envolvidas. No entanto, a ciência já identificou algumas regiões principais que desempenham papéis fundamentais na geração e organização dos processos de pensamento. Córtex pré‑frontal É a área do cérebro mais comumente associada ao pensamento, raciocínio, planejamento e tomada de decisões. Ele está localizado na parte frontal do cérebro, atrás da testa, e é essencial para as funções cognitivas superiores, que incluem: • Planejamento e organização: planejamento de ações futuras e organização de tarefas. • Tomada de decisões: avaliação das consequências de diferentes escolhas e decisões. • Controle executivo: habilidade de controlar impulsos e tomar decisões conscientes. 133 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR • Resolução de problemas: capacidade de lidar com situações novas ou complexas, criando soluções para problemas. • Pensamento abstrato: habilidade de lidar com conceitos que não são diretamente observáveis ou concretos. Córtex parietal O córtex parietal, localizado no topo do cérebro, também desempenha um papel importante no processamento de informações sensoriais e no raciocínio espacial. Ele está envolvido em processos que ajudam na organização do pensamento, especialmente em relação a manipulação mental de objetos, resolução de problemas matemáticos e coordenadas espaciais. Córtex temporal As regiões temporais, situadas nas laterais do cérebro, também estão associadas ao pensamento, especialmente em relação à memória e ao processamento semântico (relacionado ao significado de palavras, conceitos e símbolos). O hipocampo, localizado no córtex temporal, é essencial para a formação e recuperação de memórias, que são componentes‑chave dos processos de pensamento. Por exemplo: • Memória de trabalho: utilizada para manter informações temporárias enquanto se pensa ou se resolve um problema. • Reconhecimento de padrões: ajuda a identificar padrões passados para resolver problemas atuais ou tomar decisões. Córtex occipital Embora seja principalmente conhecido por sua associação com a visão, ele também desempenha um papel nas imagens mentais. O processamento visual contribui para o pensamento visual, ou seja, a capacidade de formar imagens mentais de objetos, cenas ou ideias sem a necessidade de uma representação física. Sistema límbico Embora seja mais comumente associado às emoções, ele também influenciao pensamento de maneira significativa, uma vez que as emoções e os processos cognitivos estão interligados. Estruturas como a amígdala e o hipocampo desempenham papéis cruciais na maneira como nossas emoções podem influenciar nossas decisões e pensamentos, assim como as memórias emocionais moldam nossa percepção e interpretação de situações. 134 Unidade II Rede de modo padrão Recentemente, estudos de neuroimagem identificaram a DMN, uma rede de regiões cerebrais que se ativa quando a pessoa não está focada em uma tarefa externa específica, como durante o pensamento autorreferente, a ruminação ou a reflexão interna. As áreas envolvidas incluem o córtex medial pré‑frontal, o córtex posterior cingulado e o precúneo. Esse sistema está relacionado com processos de introspecção, autoconsciência e imaginação. Conexões e integração cerebral O pensamento é um processo altamente distribuído e dinâmico que não se limita a uma única área do cérebro. Em vez disso, envolve a interação e a integração de várias regiões cerebrais. As conexões neuronais e a comunicação entre diferentes áreas do cérebro são cruciais para a elaboração do pensamento. A atividade cerebral relacionada ao pensamento envolve redes complexas de áreas que permitem desde a percepção e o processamento de informações até a construção de conceitos e decisões. Localização funcional versus distribuição do pensamento Embora possamos associar funções cognitivas específicas a áreas do cérebro (como o córtex pré‑frontal para o controle executivo e o planejamento), o pensamento em si não está confinado a uma única área. As funções cognitivas complexas, como reflexão, análise, memória e resolução de problemas, dependem da interação de várias regiões cerebrais. Além disso, a ideia de que o pensamento é localizado exclusivamente em determinadas áreas está sendo cada vez mais desafiada pela compreensão da neuroplasticidade – a capacidade do cérebro de se reorganizar e formar novas conexões ao longo da vida, em resposta à experiência ou a lesões cerebrais. Em resumo, o pensamento não tem uma localização única no cérebro, mas é mediado por várias áreas interconectadas que trabalham de forma integrada. A principal área envolvida é o córtex pré‑frontal, mas outras regiões, como o córtex temporal (para memória), o córtex parietal (para raciocínio espacial), o sistema límbico (para emoções) e a rede de modo padrão (para introspecção), também têm papéis importantes. O pensamento é, portanto, uma rede complexa e dinâmica de processos que dependem da comunicação entre diferentes áreas do cérebro. 7.4 Alterações psicopatológicas Os transtornos relacionados ao pensamento são diversos e podem afetar o indivíduo de maneiras complexas. Eles envolvem distorções cognitivas, dificuldades na organização e lógica do pensamento, ou até mesmo a perda da capacidade de distinguir entre o real e o imaginário (como em delírios e alucinações). O impacto desses transtornos pode ser profundo, afetando a vida social, profissional e pessoal do indivíduo. A compreensão do funcionamento do pensamento e o diagnóstico precoce são fundamentais para a escolha de intervenções terapêuticas eficazes, que podem incluir psicoterapia, medicação e outras abordagens para restaurar um funcionamento cognitivo mais adaptativo. 135 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR Dentre as alterações psicopatológicas do pensamento, podemos descrever os delírios, que são crenças (não modificadas por evidências em contrário) irreais (não compartilhadas culturalmente). As ideias delirantes, ou delírio, são juízos patologicamente falsos. Dessa forma, o delírio é um erro do ajuizar que tem origem no adoecimento mental. Sua base é mórbida, pois ele é motivado por fatores patológicos (Jaspers, 1979). Os delírios são considerados como um assalto à realidade e podem ser classificados em: • Humor congruente ou incongruente. • Convicção do paciente. • Grau de organização/abrangência do delírio (estruturado/difuso ou encapsulado). • O quanto afeta a vida do paciente. • Caráter plausível ou bizarro. • Conteúdo (persecutório/paranoide, somático, grandioso, celotípico, niilista, de culpa, ideias de referência, ideias de influência etc.). As alterações do pensamento podem ser observadas em maior ou menor gravidade em diversos quadros psicopatológicos, em esquizofrenia, quadros maníacos, transtornos de personalidade, quadros demenciais, quadros de epilepsia, deficiência mental e em quadros depressivos. Esquizofrenia O termo esquizofrenia vem de esquiz(o), cisão, e frenia, mente, e foi introduzido pelo psiquiatra suíço Eugen Bleuler em 1911, substituindo o termo “demência precoce”, sendo caracterizado pela cisão do pensamento, do afeto, da vontade e do sentimento subjetivo da personalidade (Silva, 2006). Um dado importante é sobre o diagnóstico da esquizofrenia, que deve ser de exclusão – tem que descartar todas as possibilidades para depois chegar ao diagnóstico. A esquizofrenia geralmente é diagnosticada no final da adolescência e início da vida adulta, entre a segunda e terceira década de vida. Os homens costumam apresentar os sintomas antes do que as mulheres, sendo geralmente a forma mais grave do transtorno. 136 Unidade II Saiba mais Para saber mais sobre a esquizofrenia, sugerimos a leitura da indicação bibliográfica a seguir. SHIRAKAWA, I. O ajustamento social na esquizofrenia. São Paulo: Lemos, 1999. Os sintomas são subdivididos em positivos e negativos. Dentre os principais sintomas positivos temos: delírios, alucinações e alterações do pensamento. Já os principais sintomas negativos são: alterações da afetividade, diminuição da motivação e empobrecimento do conteúdo do pensamento. Essas formas de sintomas têm sido correlacionadas com alterações funcionais em diferentes regiões cerebrais. A forma negativa foi associada a uma alteração de perfusão no córtex pré‑frontal (Razzouk; Shirakawa, 2015). Os sintomas positivos estão mais associados a alterações no lobo temporal médio. Alucinações e delírios são frequentemente observados em algum momento durante o curso da esquizofrenia. As alucinações visuais ocorrem em 15%, as auditivas em 50% e as táteis em 5% de todos os sujeitos; e os delírios em mais de 90% deles (Pull, 2005). O termo transtorno do pensamento na esquizofrenia refere‑se a uma doença no conteúdo, assim como na forma dos pensamentos do indivíduo. Os transtornos do conteúdo do pensamento são os delírios. Os transtornos na forma de pensamento podem ser subdivididos em duas categorias: perturbação intrínseca do pensamento e transtorno na forma em que os pensamentos são expressos na linguagem e na fala. São exemplos a linguagem e o discurso desordenados, descarrilhamento, tangencialidade, neologismos, pobreza no conteúdo do discurso, incoerência, pressão da fala, fuga de ideias e fala retardada ou mutismo (Silva, 2006). Pacientes com esquizofrenia apresentam déficit cognitivo em uma variedade de testes cognitivos. Eles denotam alterações neuropsicológicos em testes atencionais, de raciocínio lógico, velocidade psicomotora, memória, aprendizagem, habilidades motoras, sensoriais, perceptuais e resolução de problemas. Esquizofrenia em gêmeos Pesquisas realizadas com gêmeos monozigóticos e dizigóticos têm se mostrado úteis quando o objetivo é verificar o peso de variáveis genéticas e ambientais na constituição de uma habilidade ou de um comportamento desviante. 137 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR Como a esquizofrenia é considerada resultante de herança multifatorial, ou seja, determinada simultaneamente por fatores genéticos e ambientais, as pesquisas que possibilitam comparar taxas de concordância e de correlação entre gêmeos monozigóticos e dizigóticos ajudam a determinar a extensão da influência genética sobre esse quadro psicopatológico. Destacaremos a seguir alguns dos principais transtornos relacionados ao pensamento, seus sintomas e suas características. Transtornos de pensamento desorganizado Esses transtornosenvolvem uma dificuldade em organizar o pensamento de maneira coerente, o que pode resultar em uma comunicação confusa e incoerente, e em dificuldade para realizar tarefas cotidianas que exigem raciocínio lógico. • Esquizofrenia — Sintomas relacionados ao pensamento: um dos principais sintomas da esquizofrenia é o pensamento desorganizado, que pode se manifestar de várias formas, como: – Discurso incoerente ou sem sentido: o paciente pode falar de forma que não faz sentido para quem está ouvindo, pulando de um tópico para outro sem conexão lógica. – Dificuldade em manter um fluxo de pensamento: o pensamento se torna fragmentado, e o indivíduo pode ter dificuldades em sustentar uma linha de raciocínio. – Delírios: crenças firmemente mantidas, mas falsas, que afetam o pensamento, como acreditar que está sendo perseguido ou que possui habilidades especiais. • Transtorno esquizoafetivo: semelhante à esquizofrenia, mas com um componente de transtorno afetivo (como depressão ou mania), o pensamento desorganizado também pode estar presente, com episódios de delírios e alucinações, além de um raciocínio desorganizado. • Transtornos de ansiedade: em alguns transtornos de ansiedade, como o TAG ou o transtorno obsessivo‑compulsivo (TOC), os padrões de pensamento podem se tornar disfuncionais e prejudiciais, influenciando diretamente o estado emocional da pessoa. — Transtorno de ansiedade generalizada (TAG) – Preocupação excessiva: a pessoa tende a pensar de forma excessiva e negativa sobre várias situações do cotidiano. Essas preocupações são irracionais e fora de proporção em relação à realidade, o que impede a pessoa de focar em outras tarefas. – Pensamentos catastróficos: pensar constantemente no pior cenário possível, o que gera um ciclo de ansiedade e estresse. 138 Unidade II — Transtorno obsessivo‑compulsivo (TOC) – Pensamentos obsessivos: pensamentos repetitivos e indesejados (obsessões), como medo de contaminação, preocupação com simetria ou a necessidade de fazer algo de uma maneira específica. – Comportamentos compulsivos: a pessoa sente a necessidade de realizar rituais ou comportamentos repetitivos (compulsões) para aliviar a ansiedade gerada pelos pensamentos obsessivos. • Transtornos depressivos: na depressão, os padrões de pensamento muitas vezes se tornam negativos e autocríticos, com a pessoa tendo uma visão distorcida e pessimista sobre si mesma, o futuro e o mundo em geral. — Transtorno depressivo maior – Pensamentos negativos e automáticos: a pessoa pode ter pensamentos automáticos recorrentes, como “Eu sou inútil”, “Nada vai melhorar” ou “O futuro é sombrio”. Esses pensamentos distorcem a percepção da realidade e aumentam o sofrimento emocional. – Ruminação: pensamento repetitivo e passivo sobre eventos negativos ou sobre questões sem solução, que perpetuam a tristeza e a desesperança. Transtornos do espectro da esquizofrenia (esquizofrenia e outros) Esses transtornos, que incluem a esquizofrenia e outros transtornos psicóticos, estão profundamente relacionados com alterações no processo de pensamento, como delírios e alucinações. • Esquizofrenia — Delírios: crenças irracionais e fixas, como acreditar que está sendo perseguido ou que se tem poderes especiais. — Alucinações: experiências sensoriais sem base real, como ouvir vozes ou ver coisas que não existem. — Pensamento desorganizado: como mencionado, o pensamento pode ser tão desorganizado que a pessoa tem dificuldades para se comunicar de maneira eficaz, resultando em discursos desconexos e ininteligíveis. 139 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR Transtorno bipolar O transtorno bipolar envolve episódios alternados de mania e depressão, e o pensamento pode ser alterado de acordo com o estado de humor. • Episódios maníacos — Pensamento acelerado: durante os episódios maníacos, a pessoa pode ter uma sensação de pensamento “acelerado”, no qual ideias surgem muito rapidamente e podem ser difíceis de acompanhar. Isso pode levar a decisões impulsivas e comportamentos de risco. — Grandiosidade: pensamentos de superioridade ou de ter habilidades especiais que não correspondem à realidade. • Episódios depressivos — Pensamento negativo: durante os episódios depressivos, o pensamento é marcado por uma visão distorcida e pessimista da realidade, com a pessoa se concentrando em falhas e em uma visão negativa de si mesma. Transtornos neurocognitivos Os transtornos neurocognitivos, como a demência e a doença de Alzheimer, envolvem prejuízos no processo de pensamento, memória e habilidades cognitivas. • Demência e doença de Alzheimer — Perda de memória: a memória de curto e longo prazo é prejudicada, dificultando a recordação de informações e o planejamento de atividades cotidianas. — Dificuldade de pensamento lógico: a capacidade de raciocinar de forma lógica e organizada se perde, resultando em confusão e dificuldades para realizar tarefas cotidianas. — Desorientação: a pessoa pode se perder em lugares familiares e ter dificuldades para compreender o tempo e o espaço. Transtornos de personalidade Alguns transtornos de personalidade também envolvem padrões disfuncionais de pensamento, especialmente em relação à maneira como a pessoa interpreta as intenções dos outros e as situações ao seu redor. • Transtorno de personalidade paranoide — Pensamento distorcido: a pessoa tem uma tendência a interpretar as ações e palavras dos outros de forma paranoica, acreditando que está sendo manipulada ou perseguida, mesmo sem evidências claras para isso. 140 Unidade II • Transtorno de personalidade borderline — Pensamento dicotômico: tendência a pensar de maneira extremista, sem nuances intermediárias. A pessoa pode ver situações, pessoas e eventos como completamente bons ou completamente ruins, sem uma visão equilibrada. Transtornos do espectro autista (TEA) Pessoas com transtorno do espectro autista frequentemente apresentam diferenças no processamento de informações e no pensamento, especialmente no que diz respeito à flexibilidade cognitiva e à capacidade de generalizar informações. • Dificuldades cognitivas no TEA — Rigidez no pensamento: pessoas com TEA podem apresentar dificuldade em adaptar o pensamento a novas informações ou contextos, mostrando preferências por rotinas fixas e dificuldades para lidar com mudanças. — Pensamento literal: pode haver uma tendência a interpretar as coisas de maneira muito literal, sem captar nuances de significado ou metáforas. O modo como uma pessoa pensa pode fornecer pistas cruciais sobre os transtornos psicológicos que ela pode estar enfrentando. Por exemplo: • Transtornos de ansiedade: pensamentos catastróficos ou distorções cognitivas, como “tudo vai dar errado”, podem ser um indicador de transtornos de ansiedade. • Transtornos depressivos: padrões de pensamento negativos ou uma visão excessivamente negativa de si mesmo, dos outros ou do futuro são características comuns. • TOC: a presença de pensamentos intrusivos, repetitivos e irracionais pode ser um sinal importante. Além disso, a ruminação, que é um processo de pensar repetidamente sobre algo negativo, também é um indicador importante de transtornos emocionais e deve ser investigada no psicodiagnóstico. Identificação de padrões cognitivos e emocionais O pensamento está intimamente relacionado ao funcionamento emocional de uma pessoa. Muitas vezes, a forma como alguém pensa pode influenciar suas emoções e vice‑versa. Ao investigar o pensamento, o psicodiagnóstico pode ajudar a identificar distúrbios emocionais ou padrões cognitivo‑emocionais disfuncionais, como: 141 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR • Crenças limitantes: padrões de pensamento negativos que limitam a ação ou a capacidade de lidar com desafios. • Crenças irracionais: pensamentos automáticos negativos que distorcem a realidade, comuns em diversas psicopatologias. Construção do relacionamento terapêutico O entendimento do pensamento do paciente também é fundamental para o estabelecimentode uma relação terapêutica eficaz. O psicólogo precisa compreender a forma como o paciente organiza suas ideias, expressa seus sentimentos e constrói narrativas, ajudando a ajustar a intervenção conforme as necessidades cognitivas e emocionais da pessoa. Prevenção e intervenção Compreender o pensamento de uma pessoa no psicodiagnóstico é essencial não apenas para diagnosticar, mas também para planejar uma intervenção eficaz. Identificar distorções cognitivas e falhas no raciocínio permite que o psicólogo use técnicas terapêuticas para ajudar o paciente a modificar esses padrões e melhorar sua saúde mental. A genética e o pensamento estão intrinsecamente relacionados, mas essa relação é complexa e multifacetada. A genética influencia o desenvolvimento do cérebro, as capacidades cognitivas e os estilos de pensamento, e pode predispor indivíduos a transtornos relacionados ao pensamento, como esquizofrenia, transtornos de ansiedade e TDAH. No entanto, a interação entre genes e ambiente é crucial. O ambiente em que a pessoa cresce, suas experiências de vida e os estímulos ao longo da vida podem modificar a maneira como a genética se expressa, afetando diretamente o desenvolvimento e a modulação do pensamento. A relação entre pensamento e genética envolve a interação complexa entre os fatores genéticos e o ambiente na formação e no funcionamento das funções cognitivas, incluindo o pensamento. A genética pode influenciar de várias maneiras como uma pessoa pensa, processa informações, resolve problemas e regula suas emoções. Ao mesmo tempo, o ambiente também desempenha um papel crucial na modulação dessas funções ao longo da vida. Genética e desenvolvimento cognitivo O pensamento é uma função cognitiva complexa que depende do desenvolvimento e da organização das redes neuronais no cérebro. Os genes desempenham um papel fundamental no desenvolvimento inicial do cérebro e na formação das conexões sinápticas, influenciando aspectos como a memória, a atenção, a capacidade de raciocínio e a velocidade de processamento cognitivo. O desenvolvimento dessas funções é, em parte, determinado pela herança genética. 142 Unidade II Exemplos de influência genética no desenvolvimento cognitivo: • Inteligência: embora a inteligência seja influenciada por muitos fatores, há um componente genético significativo. Estudos com gêmeos indicam que a hereditariedade pode contribuir em cerca de 50 a 80% da variação na inteligência. Genes que afetam o desenvolvimento cerebral, como aqueles relacionados à formação de sinapses e à plasticidade neuronal, têm impacto na cognição e no pensamento. • Desenvolvimento do córtex pré‑frontal: o córtex pré‑frontal é uma área do cérebro crucial para funções como planejamento, tomada de decisão e resolução de problemas. A herança genética pode influenciar a estrutura e a funcionalidade dessa região, afetando o raciocínio lógico e a capacidade de pensar de forma abstrata. Genética e processos de pensamento A genética não apenas influencia o desenvolvimento do cérebro, mas também pode afetar diretamente a velocidade, a eficiência e a organização do pensamento. Os processos de atenção, memória de trabalho e raciocínio lógico podem ser influenciados por variantes genéticas que afetam a função dos neurotransmissores, a conectividade cerebral e a plasticidade neuronal. Os neurotransmissores são um exemplo de influência genética sobre o pensamento. Eles são genes que afetam a produção e a regulação de neurotransmissores como dopamina, serotonina e glutamato e têm um impacto direto nas funções cognitivas. Por exemplo, variações no gene da dopamina (DRD4) estão associadas a diferenças na atenção, impulsividade e capacidade de resolução de problemas. Pessoas com certas variantes desses genes podem ter maior ou menor capacidade de focar a atenção e realizar tarefas que exigem raciocínio lógico. Transtornos psicológicos e genética Vários transtornos do pensamento, como esquizofrenia, transtorno bipolar e transtornos de ansiedade, têm uma base genética, o que significa que certos padrões de pensamento disfuncionais podem ser mais comuns em pessoas com uma predisposição genética específica. A interação entre fatores genéticos e ambientais pode levar ao aparecimento de transtornos relacionados ao pensamento. Alguns exemplos são a esquizofrenia e o TDAH. A esquizofrenia é um transtorno psicológico que envolve graves alterações no pensamento, como delírios, alucinações e pensamento desorganizado. Estudos mostram que a hereditariedade desempenha um papel significativo no risco de desenvolver esquizofrenia. Indivíduos com parente de primeiro grau com esquizofrenia têm um risco significativamente maior de desenvolver o transtorno. Genes específicos, como os envolvidos na função da dopamina (que afeta a comunicação entre os neurônios), estão implicados na esquizofrenia e em outras condições psicóticas que acometem o pensamento. 143 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR O TDAH é um transtorno frequentemente associado a dificuldades de concentração, organização do pensamento e controle dos impulsos. Existe uma forte base genética nesse transtorno, com estudos de gêmeos e familiares mostrando uma alta taxa de hereditariedade. A genética pode influenciar como o cérebro processa a informação, a velocidade de processamento e a regulação da atenção, afetando a capacidade de pensar de maneira organizada e focada. Genes e estilos cognitivos A herança genética também pode afetar estilos cognitivos, que são padrões preferenciais de pensamento e processamento de informações. Algumas pessoas podem ter uma tendência genética para ser mais analíticas, enquanto outras podem ser mais criativas ou intuitivas. Esses estilos influenciam a maneira como cada indivíduo lida com problemas, toma decisões e encara novas informações. Exemplo de estilo cognitivo: a criatividade, que está intimamente ligada à capacidade de pensar de maneira inovadora e gerar novas ideias, também tem uma base genética. Algumas variantes genéticas podem favorecer a flexibilidade cognitiva, que é a capacidade de adaptar‑se rapidamente a novas situações ou gerar soluções novas para problemas complexos. Genética, epigenética e plasticidade cerebral A genética não determina de maneira fixa o funcionamento do pensamento. O conceito de epigenética nos mostra que fatores ambientais podem interagir com a expressão dos genes ao longo da vida. Fatores como a educação, o estresse, a nutrição e o ambiente social podem modificar a maneira como os genes se expressam, influenciando as funções cognitivas e os padrões de pensamento. O ambiente pode alterar a forma como os genes responsáveis pela produção de neurotransmissores ou pela formação de conexões sinápticas são ativados. Por exemplo, uma criança que cresce em um ambiente altamente estimulante e saudável pode ter um desenvolvimento cognitivo mais forte, com um pensamento mais flexível e rápido, devido a mudanças na expressão genética causadas por esse ambiente. Interação genética e ambiental A interação entre a genética e o ambiente é fundamental para entender como o pensamento se desenvolve e se mantém ao longo da vida. Uma pessoa pode ter uma predisposição genética para um estilo de pensamento específico ou para um transtorno cognitivo, mas essa predisposição pode ser modulada ou amplificada por experiências de vida, educação e outros fatores ambientais. Exemplo de interação gene‑ambiente: uma pessoa com uma predisposição genética para ansiedade (exemplo: variantes genéticas que afetam o sistema serotonérgico) pode ter um risco maior de desenvolver pensamentos catastróficos e preocupações excessivas. No entanto, se essa pessoa cresce em um ambiente em que há suporte emocional adequado e técnicas de enfrentamento saudáveis, a expressão dessa predisposição pode ser atenuada, e o risco de desenvolver um transtorno de ansiedade pode ser reduzido. 144 Unidade II 8 LINGUAGEM 8.1 Definição com a finalidade diagnóstica Dentre todasas funções cognitivas, sem dúvidas a linguagem é uma atividade específica do ser humano, o principal instrumento para comunicação. Muitos seres vivos, incluindo os animais, têm formas específicas de se comunicar, muitas vezes de maneira rudimentar; porém, a linguagem falada é de exclusividade do ser humano. A definição de linguagem pode ser abordada de diferentes perspectivas, dependendo do campo de estudo (linguística, filosofia, psicologia etc.). No entanto, de maneira geral, a linguagem é entendida como um sistema de comunicação composto por símbolos, como palavras, gestos ou sinais, que são utilizados para expressar significados, pensamentos, ideias e sentimentos entre os seres humanos. A seguir, veja algumas definições de linguagem de diferentes perspectivas. • Linguística: segundo Bally (2006 apud Saussure, 2006), a linguagem é vista como um sistema de significados e símbolos que são organizados de acordo com regras gramaticais. A linguística estuda como os seres humanos produzem, entendem e interpretam essas mensagens. Uma definição clássica de linguagem na linguística vem de Ferdinand de Saussure, que a definiu como um sistema de signos compostos por duas partes: o significado (o conceito) e o significante (o som ou o símbolo). • Filosofia: a linguagem é frequentemente entendida como uma ferramenta através da qual construímos a realidade e compartilhamos conhecimento. Alguns filósofos, como Ludwig Wittgenstein, argumentaram que o significado das palavras está enraizado em contextos sociais e práticos de uso, e não apenas em definições fixas (Pereira; Belisário, 2021). • Psicologia: a linguagem é estudada como uma função cognitiva que permite aos seres humanos expressar emoções, pensamentos e realizar comunicação social. A linguagem é vista também como um meio de organizar e processar informações mentalmente (Chomsky, 1997). • Antropologia: a linguagem é vista como parte central da cultura humana e é utilizada para transmitir valores, costumes e tradições de geração para geração. A linguagem é, portanto, uma ferramenta de socialização e identidade (Godoy; Santos, 2014). • Definição comum: de forma mais acessível e geral, a linguagem pode ser definida como um sistema de símbolos, como palavras, gestos ou sinais, utilizados para expressar pensamentos, sentimentos e informações de maneira estruturada, visando à comunicação entre os indivíduos (Chomsky, 1997). 145 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR Destacam‑se a seguir as características principais da linguagem: • Comunicativa: seu principal propósito é transmitir e compartilhar significados. • Estruturada: segue regras gramaticais e sintáticas para formar sentenças e mensagens. • Simbólica: utiliza símbolos (palavras, sons e gestos) para representar ideias e conceitos. • Cognitiva e social: está ligada ao processamento mental, mas também à interação social e cultural. Portanto, dependendo da área de estudo, a definição e a função da linguagem podem variar, mas, em todos os casos, ela é considerada fundamental para a interação humana, o pensamento e a construção de significados. A linguagem é um exemplo de função cortical sustentada por uma estrutura anatomofuncional geneticamente determinada por um estímulo verbal que depende do ambiente (Castaño, 2003). No processo de linguagem, existem três elementos essenciais: o semântico, que se refere ao significado das palavras; o fonético, referente à produção e à percepção dos sons; e o sintático, que envolve o conjunto de regras que determinam a articulação lógica das diversas palavras (Dalgalarrondo, 2000). Partindo desse pressuposto, nos leva a pensar que novamente áreas cerebrais são responsáveis por essa atividade tão importante nas nossas vidas. Acentuaremos a seguir como ocorre o processo de aquisição da linguagem. Fase pré‑linguística É uma etapa fundamental no processo de aquisição da linguagem, pois prepara a criança para as fases seguintes, em que ela utilizará palavras e construirá frases com significado. Durante esse estágio, o bebê desenvolve uma base fisiológica (controle motor oral) e perceptiva (reconhecimento de filhos e padrões linguísticos) que permite o aprendizado de uma língua mais estruturada. Essa fase está marcada para uma exploração ativa da língua. No primeiro mês, há apenas gritos, e, a partir do segundo mês de vida, começam os sons culturais. Há alguns anos, pesquisadores queriam entender como os bebês se comunicavam, porque na época houve um vídeo que viralizou na internet, em que dois bebês estavam conversando, sendo que um falava algo, e o outro respondia, o que gerou a dúvida: “os bebês se entendem?”. A seguir, estão descritas as fases de aquisição da linguagem. • Três meses: expressões sonoras sem fala, os chamados balbucios. Os bebês balbuciam, produzem sons semelhantes à fala, mas sem significado (Gil, 2002). 146 Unidade II • Oito meses: começam as primeiras articulações, que são as palavras simples, seguindo para a produção de palavras reais. • Um ano: início da compreensão da linguagem. Aprendem formas mais complexas de linguagem, produzem combinações de duas palavras (as unidades de construção de sentenças) e aumentam acentuadamente o número de palavras diferentes que são capazes de usar. • Dois anos: começa a fase linguística, que se refere às palavras‑frases. Nessa idade, uma criança já tem um vocabulário médio de 50 palavras (após seis meses, aumenta para uma centena de palavras). • Três anos: as crianças começam a formar plurais, acrescentando o s a nomes, e a formar o tempo pretérito acrescentando “ou” aos verbos (Feldman, 2015). • Entre 5 e 6 anos: ocorre a organização básica da linguagem. É importante ressaltar que essa é uma estimativa do desenvolvimento da aquisição da linguagem, e pode haver diferenças entre os indivíduos nesse processo, o que não significa que a pessoa possa estar com problemas se não seguir esse modelo básico. Na prática clínica, durante a entrevista de anamnese para um processo de avaliação neuropsicológica, é comum questionarmos as mães sobre o desenvolvimento neuropsicomotor de seus filhos, sobretudo a linguagem, e algumas mães têm o hábito de responder: “Normal” – cabe questionar o que é normal para elas. O ambiente representa muito para o processo de aquisição da linguagem, mas não podemos esquecer de falar sobre a questão cerebral presente nesse desenvolvimento. O processo da linguagem é bastante complexo e envolve uma rede de neurônios distribuída entre diferentes regiões cerebrais. Em contato com os sons do ambiente, a fala engloba múltiplos sons que ocorrem simultaneamente, em várias frequências e com rápidas transições entre estas. O ouvido tem de sintonizar este sinal auditivo complexo, decodificá‑lo e transformá‑lo em impulsos elétricos, os quais são conduzidos por células nervosas à área auditiva do córtex cerebral, no lobo temporal. O lobo, então, reprocessa os impulsos, transmite‑os às áreas da linguagem e provavelmente armazena a versão do sinal acústico por um certo período de tempo (Castaño, 2003). De modo geral, a linguagem se desenvolve acompanhando a maturação cerebral, o meio ambiente e as relações interpessoais, inicialmente no meio familiar. Porém, não podemos deixar de mencionar também a participação da audição, que deve estar intacta para que as palavras sejam entendidas. Um exame muito comum que deve ser realizado para investigar se a criança está compreendendo bem as informações verbais é o processamento auditivo central (PAC), que, em algumas situações, é um dos problemas encontrados na dislexia. 147 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR O PAC diz respeito a como os indivíduos analisam as informações acústicas que são recebidas via audição. Essa função atua no desenvolvimento da linguagem e das habilidades acadêmicas e também faz parte do processo de comunicação. O processamento auditivo depende de atividades sofisticadas do sistema nervoso auditivo central e do cérebro, bem como se desenvolve por meio de experiênciasvividas no mundo sonoro nos primeiros anos de vida (Bevilacqua et al., 2011). Esse transtorno pode gerar inúmeros problemas no processo ensino‑aprendizagem, pois se refere a déficits para o processamento de palavras ouvidas que não estão atribuídos à perda auditiva nem ao déficit intelectual. Ocorre quando há dificuldades em uma ou mais habilidades auditivas necessárias para o correto processamento das informações sonoras. Esse distúrbio faz com que aconteça uma dificuldade na interpretação dos padrões sonoros, prejudicando o indivíduo ao atender, discriminar, reconhecer, recordar e/ou compreender informações apresentadas aos canais auditivos, ocasionando prejuízos na compreensão das informações, alterações no comportamento e dificuldades acadêmicas (Martins; Pinheiro; Blasi, 2008). Existem algumas divergências para explicar como ocorre o processo de aquisição da linguagem, principalmente em crianças. Alguns estudiosos descrevem que a linguagem se forma através da teoria da aprendizagem, outros defendem a ideia de que se trata de um processo inato, e outros pontuam uma certa combinação entre as duas. A abordagem da teoria da aprendizagem (baseada na aprendizagem operante de Skinner) propõe que a aquisição da linguagem segue os princípios do reforço e condicionamento descobertos por psicólogos que estudam a aprendizagem (Feldman, 2015). O linguista Noam Chomsky defende a teoria da capacidade inata. O desenvolvimento da linguagem não é ser apenas “preenchido” com os tipos certos de experiências. As crianças adquirem palavras e gramáticas não ensinadas em uma velocidade extraordinária demais para ser explicada apenas por princípios de aprendizagem. Elas criam diversos tipos de frases que nunca ouviram e às vezes com novos erros. Nenhum pai ou mãe ensina a frase: “Eu odeio você, papai”. Além disso, muitos dos erros que as crianças pequenas cometem resultam da supergeneralização das regras gramaticais lógicas, tais como adicionar eu a todas as formas verbais do passado (Myers, 2015). A abordagem interacionista (combinação entre as duas) pressupõe que o desenvolvimento da linguagem é produzido por uma combinação de predisposições genéticas determinadas e interações ambientais que ajudam no processo do ensino da linguagem. A ênfase de Skinner no aprendizado ajuda a explicar como as crianças adquirem a linguagem pela interação com outras pessoas. A ênfase de Chomsky na predisposição inata para aprender as regras gramaticais explica por que as crianças em idade pré‑escolar adquirem a linguagem tão prontamente e usam tão bem a gramática. Uma vez mais vemos a biologia e a experiência trabalhando juntas (Myers, 2015). 148 Unidade II Outro ponto importante se refere à lateralização hemisférica da linguagem, ou seja, em qual lado do cérebro está a linguagem do indivíduo – no lado direito ou esquerdo. Essa informação é de extrema relevância num processo de avaliação neuropsicológica, pois serve como base para interpretações das alterações que podem ser observadas no resultado dos testes que são aplicados. A lateralização das funções linguísticas num hemisfério se organiza entre 14 meses e 2 anos e se consolida progressivamente até o período pubertário, sobretudo entre 3 e 10 anos (Gil, 2002). Lembrando que no cérebro as informações são sempre cruzadas, ou seja, tudo que ocorre em um lado cerebral se manifesta corporalmente no outro. No caso, se ocorre um acidente vascular encefálico no lado esquerdo, o lado direito será afetado no processo da linguagem. O mesmo caso ocorre em problemas de linguagem e em algumas disfunções físicas. O hemisfério dominante é sempre considerado o verbal, e o não dominante é o visual. Cerca de 97% dos indivíduos destros têm a dominância em hemisfério esquerdo, nos 3% restantes pode ser bilateral (ou seja, a linguagem está nos dois lados) ou à direita. Com relação aos canhotos, 70% têm a dominância à esquerda, enquanto os 30% restantes têm dominância bilateral ou em hemisfério direito. Como dito anteriormente, essa informação se torna relevante num processo de avaliação, porque pode auxiliar num processo de neurocirurgia. Em muitas avaliações de pacientes com quadro de epilepsia, consta no pedido médico que um dos objetivos da avaliação solicitada pelo neurocirurgião é determinar a área da linguagem (lado direito ou esquerdo), pois, numa crise parcial simples, o paciente tem consciência de tudo que está acontecendo a sua volta, apenas não consegue se comunicar, já que numa crise parcial complexa não há consciência, ou seja, uma perda total da responsividade. Nesse caso, a atuação do profissional de psicologia é auxiliar o neurocirurgião ao realizar uma lobectomia, para não expandir demais a retirada da lesão, porque, caso o paciente tenha uma epilepsia de lobo temporal e a lesão esteja próximo da área da linguagem, pode gerar problemas, inclusive a perda da fala. A organização da linguagem para distribuição de informação envolve duas estruturas: uma expressiva, que é responsável pela articulação verbal, e uma receptiva, que comporta a audição e a compreensão da linguagem. Em primeiro lugar, existe a fala expressiva, que começa com o motivo ou a ideia geral da expressão; depois, é codificada em um esquema de fala e posta em operação com o auxílio da fala interna; finalmente, esses esquemas são convertidos em fala narrativa, baseada em uma gramática “generativa”. Em segundo lugar, há a fala receptiva, que segue o curso oposto, começando pela percepção de um fluxo de fala recebido de outra fonte, processo esse seguido por tentativas de decodificar o referido fluxo; isso é feito por análise da expressão falada percebida, identificação de seus elementos significativos e redução desses elementos a um determinado esquema de fala; este, por meio da mesma fala interna, é convertido na ideia geral do esquema que permeia a expressão; finalmente, o motivo por trás da expressão é decodificado (Luria, 1981). 149 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR A literatura neuropsicológica produzida nas últimas décadas sobre a organização cerebral e o processamento da linguagem dedica‑se a formular hipóteses sobre os mecanismos responsáveis por sua aquisição e seu desenvolvimento, pela busca e seleção de palavras ou da morfologia (flexional e funcional), pelas regras gramaticais mobilizadas para a produção e compreensão da língua(gem), entre outros (Pinto; Santana, 2009). 8.1.1 Área de Broca Descrita em 1861 por Paul Pierre Broca, a área de Broca é responsável pela expressão da linguagem falada, dirigindo os movimentos musculares envolvidos na fala, localizados no giro frontal inferior do cérebro (geralmente no hemisfério esquerdo). Broca (1861 apud Georgeto et al., 2016) chegou a essa conclusão quando atendeu um paciente chamado M. Leborgne, que sofria de um quadro de epilepsia, em que tinha uma compreensão da linguagem falada, porém respondia tudo com a palavra “Tan”. Com a morte desse paciente, a família autorizou que Broca realizasse a necrópsia do seu cérebro, e ele identificou uma lesão no lobo temporal esquerdo, próximo à terceira circunvolução frontal. Com o surgimento de outros pacientes, com a mesma alteração e com outras pesquisas realizadas, a partir desse momento a área da linguagem falada ficou atribuída a essa área. A principal função da área de Broca está relacionada à produção da fala. Isso inclui: • Planejamento e coordenação muscular para a fala: a área de Broca está envolvida no controle dos músculos que são necessários para a articulação das palavras, como os músculos da laringe, boca e língua. • Sintaxe e gramática: a área de Broca também é crucial para o processamento sintático, ou seja, para a construção de frases e a organização gramatical da linguagem. • Expressão verbal: ela é essencial para a capacidade de expressar pensamentos de forma verbal. A função da área de Broca é predominantemente aplicada ao hemisfério esquerdo, mas, em algumas pessoas, especialmente aquelas que são canhotas ou possuem— Instinto: geralmente direcionado a comportamentos básicos e de sobrevivência, como alimentação, reprodução, defesa e proteção. — Motivação: vai além dos comportamentos básicos e pode envolver metas complexas, como realização pessoal, educação, desenvolvimento profissional ou artístico. • Reação versus iniciativa — Instinto: é uma resposta direta a um estímulo externo ou uma necessidade interna, como fome ou sede. — Motivação: implica iniciativa e direcionamento de esforços para alcançar um objetivo, podendo envolver planejamento e ações em longo prazo. Interseção entre instinto e motivação Embora sejam distintos, instinto e motivação podem se sobrepor em certas situações, especialmente quando as motivações estão relacionadas a necessidades biológicas ou de sobrevivência. Na fome, por exemplo, o instinto seria o fato de que, ao sentir fome, uma pessoa terá o instinto básico de buscar comida; enquanto a motivação se daria pela forma como a pessoa decide saciar sua fome, onde buscar comida e escolher alimentos saudáveis ou não, o que vai além do simples instinto. 5.1.2 Teoria da redução do impulso A teoria da redução do impulso, desenvolvida pelo psicólogo behaviorista Clark Hull em 1943, é uma teoria motivacional que sugere que o comportamento humano é impulsionado por necessidades biológicas que criam estados de tensão. Segundo Hull (1943 apud Abreu et al., 2020) essas necessidades geram um impulso, que é uma sensação de desconforto ou tensão interna, levando o indivíduo a agir para reduzir esse estado de tensão e restaurar o equilíbrio interno (homeostase). A seguir reunimos os pontos principais dessa teoria. • Necessidades biológicas: quando o corpo tem uma necessidade, como fome, sede ou sono, isso cria um impulso. 91 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR • Impulso: é uma forma de energia psicológica que motiva o comportamento para satisfazer a necessidade. Ele é considerado uma força interna que “impulsiona” a ação. • Redução do impulso: o objetivo de qualquer comportamento motivado pelo impulso é reduzir essa tensão interna. Por exemplo, se uma pessoa está com fome, ela busca comida para reduzir o impulso da fome. • Homeostase: a ideia central é que o organismo busca manter um estado de equilíbrio interno, e o impulso surge quando esse equilíbrio é perturbado. • Reforço: comportamentos que reduzem o impulso são reforçados. Conforme Hull (1943 apud Abreu et al., 2020), o aprendizado ocorre quando uma resposta é seguida pela redução do impulso, o que fortalece a probabilidade de que esse comportamento seja repetido no futuro. Quando uma necessidade fisiológica aumenta, o impulso psicológico também tende a ser mais intenso, o que gera um estado de excitação motivado. Tomando como base tal conceito, todas as reações ou necessidades do nosso organismo, seja por alimento ou água, geram um estado de tensão ou estímulo, chamado de impulso. De acordo com a teoria de redução de impulso, o comportamento motivado é uma tentativa de reduzir esse desagradável estado de tensão do corpo e fazer com que ele retorne ao estado de homeostase ou equilíbrio (Morris; Maisto, 2004). Isso significa que, diante da necessidade fisiológica, iremos buscar o que vai reduzir a tensão do corpo. Por exemplo, se estamos com fome, iremos procurar o alimento; se estivermos com sede, a água será a nossa busca; se estivermos cansados, um lugar para repousar etc. Os impulsos podem ser separados em duas categorias distintas: os primários e os secundários. Os primários são inatos, encontrados em todos os animais (inclusive seres humanos) e motivam comportamentos vitais para a sobrevivência de um indivíduo ou de uma espécie. Nessa categoria, estão a fome, a sede e o sexo. Já os secundários são adquiridos por meio da aprendizagem, e, nessa categoria, podemos citar o desejo de obter boas notas na escola ou ter sucesso na carreira (Morris; Maisto, 2004). A homeostase, que deriva da junção dos termos gregos homeo (que significa igual) e stasis (que pode ser definido como estático ou constante), é um estado interno (Nolen‑Hoeksema et al., 2012). Pode ser associada a uma manutenção de um estado interno estável; estado de equilíbrio ou estabilidade fisiológica. Os processos de controle homeostático podem ser por fatores psicológicos, por processos fisiológicos ou até mesmo de ordem mecânica. Podemos citar a temperatura corporal, que precisa da homeostase, porque, se estivermos diante de um sol muito forte em um ambiente muito abafado, sentiremos desconforto, da mesma forma que, se estivermos expostos ao tempo frio, poderemos sofrer uma hipotermia. 92 Unidade II O nosso cérebro também precisa de uma temperatura normal. Se tivermos uma queda de 10 °C, perderemos a consciência; da mesma forma que, se a temperatura subir também em cerca de 10 °C, o indivíduo vem a óbito. Todas as respostas psicológicas ou fisiológicas partem da nossa atividade cerebral porque é dentro do cérebro que a temperatura será detectada e as reações serão evocadas, como suor, tremor, frio, calor etc. 5.1.3 Teoria do incentivo Segundo Britto (1999), a teoria do incentivo é uma teoria motivacional que sugere que os comportamentos são motivados pela busca de recompensas externas ou incentivos, ao invés de apenas por necessidades fisiológicas internas (como na teoria da redução do impulso). Essa teoria enfatiza o papel dos estímulos externos na motivação do comportamento. Os principais pontos da teoria do incentivo incluem: • Incentivos externos: diferentemente da teoria da redução do impulso, que se concentra nas necessidades internas e biológicas, a teoria do incentivo sugere que os comportamentos são dirigidos por recompensas externas. Um incentivo pode ser qualquer coisa que atrai ou repele o indivíduo – por exemplo: dinheiro, elogios, comida ou reconhecimento social. • Recompensa e motivação: quanto mais atraente ou valioso for o incentivo, maior será a motivação para realizar o comportamento. Um incentivo pode aumentar a probabilidade de um comportamento ocorrer, mesmo que não haja uma necessidade fisiológica imediata a ser satisfeita. • Expectativa: um elemento importante da teoria é que a motivação para perseguir um incentivo depende da expectativa que a pessoa tem de que seu comportamento levará à recompensa desejada. Ou seja, o comportamento é motivado pela crença de que ela será bem‑sucedida em alcançar o incentivo. • Reforço positivo: assim como na teoria do condicionamento operante de B. F. Skinner, a recompensa funciona como um reforçador positivo, fortalecendo a associação entre o comportamento e o resultado. Quando uma pessoa recebe uma recompensa por determinado comportamento, a tendência é que esse comportamento seja repetido no futuro. • Motivação intrínseca versus extrínseca: a teoria do incentivo geralmente se refere à motivação extrínseca (motivado por recompensas externas). No entanto, há uma distinção importante entre motivação extrínseca (agir para obter uma recompensa externa) e motivação intrínseca (agir por prazer ou interesse pessoal, sem a expectativa de recompensa externa). Nas nossas atividades diárias, somos determinados a atuar pelas nossas necessidades, mas também somos pressionados pelos incentivos, que podem trazer um prazer ou minimizar um estado desagradável. Os incentivos são considerados estímulos ambientais positivos ou negativos que motivam o comportamento. 93 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR Não apenas somos empurrados por nossas “necessidades” a reduzir os impulsos, somos também puxados pelos incentivos – estímulos positivos ou negativos que nos atraem ou repelem. Esse é um modo pelo qual nossas histórias de aprendizagem individual influenciam nossos motivos. Dependendo de nossa aprendizagem, o aroma de uma boa comida, seja amendoim recém‑torrado ou formigas tostadas, pode motivar nosso comportamento. Da mesma forma, isso acontece em relação a pessoas que achamos atraentes ou ameaçadoras (Myers, 2015). Alguns comportamentos motivadoslateralização atípica, pode ocorrer no hemisfério direito. Além disso, embora a área de Broca esteja principalmente envolvida com a linguagem falada, há algumas evidências de que ela também tem uma função em outras formas de expressão e comunicação, como a linguagem gestual. 150 Unidade II 8.1.2 Área de Wernicke Descrita em 1874 por Carl Wernicke, é conhecida como o centro da linguagem receptiva, responsável pela compreensão da linguagem falada e escrita, localizada no terço posterior do giro temporal superior do cérebro (normalmente no lobo temporal esquerdo). A função principal da área de Wernicke é relacionada à compreensão da linguagem, ou seja, ao processo de decodificar o significado das palavras e frases. Ela está envolvida na interpretação de palavras faladas e escritas, no reconhecimento dos filhos da fala e na atribuição de significado a essas palavras, tornando possível entender o que está sendo dito. Além disso, a área de Wernicke contribui para a produção de linguagem fluente – ou seja, uma fala coerente e com estrutura, embora nem sempre tenha sentido se houver lesão nessa área. As áreas de Broca e Wernicke estão conectadas por um feixe de fibras nervosas chamado fascículo arqueado. Esse feixe é responsável por permitir que as informações linguísticas sejam transmitidas entre as duas áreas, facilitando a produção e a compreensão da linguagem de forma integrada. • Área de Broca: envolvida principalmente na produção de fala e na organização gramatical. • Área de Wernicke: envolvida na compreensão da linguagem e na formação de significados. Em conjunto, essas áreas permitem que uma pessoa compreenda e produza linguagem de maneira fluente e consistente. Quando uma dessas áreas sofre danos, pode haver prejuízos na capacidade de comunicação. Embora a área de Wernicke seja primariamente associada à compreensão da fala, ela também pode desempenhar um papel importante na produção escrita e na compreensão de textos escritos. Em algumas pessoas, as lesões que afetam essa área podem resultar em dificuldades não apenas na fala, mas também na leitura e na escrita. 8.2 Função psíquica e suas alterações As alterações da linguagem são geralmente secundárias à lesão neuronal que pode ser identificada. Em 1836, Dax percebe a relação de distúrbios da linguagem e lesões no hemisfério esquerdo. E, em 1862, Trousseau mencionou pela primeira vez o termo afasia. Como descrito em outros temas, para considerar que um problema é de ordem cerebral, é necessário descartar qualquer alteração física/médica. No caso das afasias, deve‑se verificar toda a parte da otorrinolaringologia do paciente, e, se nada for identificado, pode‑se levantar a hipótese desse quadro. 151 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR Observação Importante mencionar que a afasia pode ser de base neurológica. Em crianças, o prognóstico é melhor por conta da neuroplasticidade cerebral em um processo de reabilitação. 8.2.1 Afasia É considerada como uma alteração adquirida da linguagem de causa neurológica, caracterizada pelo comprometimento linguístico da produção e compreensão de material verbal, da leitura e da escrita (Colaço, 2008). A afasia caracteriza‑se pelo comprometimento da linguagem falada e escrita, decorrente de uma lesão no SNC, incapacitando o indivíduo de compreender e utilizar símbolos verbais. Sempre é associada à perda da capacidade linguística previamente adquirida. Esse distúrbio é causado por lesões cerebrais ocasionadas por: • AVC; • lesões encefálicas; • tumores cerebrais; • demências. A afasia exclui toda perturbação associada a déficits motores e/ou sensoriais, deficiência mental e perturbações psiquiátricas (Colaço, 2008). Importante ressaltar que alguns pacientes não percebem o quadro, pois conversam “normalmente”, respondem às perguntas, porém quem está ouvindo não compreende a resposta fornecida, porque às vezes é incompreensível e em outros casos não tem relação alguma com o que foi perguntado. As classificações das afasias estão diretamente relacionadas às concepções que existem sobre cérebro e linguagem; e compreender tais concepções é fundamental para avaliar criticamente as classificações que emergem ao longo da história dos estudos afasiológicos, que são fortemente baseados em dicotomias estruturalistas, nas quais a língua é vista como sistema autônomo, separada de seu uso efetivo (Pinto; Santana, 2009). 152 Unidade II Lembrete As mudanças na linguagem podem ser um sintoma ou característica de alguns transtornos mentais, como a esquizofrenia e certos tipos de demências. Os principais tipos de afasias serão descritos a seguir. Afasia de Broca É uma afasia não fluente, porque, mesmo o órgão fonador estando preservado, a fala do indivíduo apresenta dificuldades, é trabalhosa e lenta, e a articulação está prejudicada. É decorrente de lesões dos giros frontais posteroinferiores esquerdo e geralmente acompanhada de uma hemiparesia à direita, mais acentuada no braço (Dalgalarrondo, 2000). Afasia de Wernicke Representa uma afasia fluente, na qual o indivíduo pode continuar falando, mas a fala é muito defeituosa, às vezes incompreensível, devido a erros na escolha das palavras e dos fonemas. Não há hemiparesias associadas e ocorre por lesões das áreas temporais esquerdas posterosuperiores (Dalgalarrondo, 2000). Afasia global A afasia global, forma mais grave das afasias, apresenta‑se habitualmente acompanhada por hemiparesia, geralmente à direita, denotando a extensão da lesão responsável pela ruptura da rede neural envolvida no processamento linguístico. Clinicamente combina características da afasia de Broca com a de Wernicke, geralmente de prognóstico funcional reservado (Silva; Cavalcanti; Moreira, 2000). Existem outros tipos de afasias, as parafasias, agrafia, alexia, disartria, disfonia, disfemia, gagueira e dislalia (Dalgalarrondo, 2000), porém nos limitamos a descrever as formas mais comuns, observadas na clínica. 8.3 Localização cerebral As áreas cerebrais responsáveis pelos processos de linguagem estão localizadas particularmente nos lobos temporais em zonas demarcadas, que são unidas por numerosas fibras associativas chamadas de feixe arqueado. Também conta com a participação dos núcleos cinzentos centrais, que são um conjunto de estruturas nucleares dentro da substância branca cerebral, compreendendo o tálamo, o núcleo caudado e o claustrum. 153 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR Área da Broca Área de Wernicke Figura 6 – Localização das áreas cerebrais responsáveis pela linguagem Disponível em: https://shre.ink/bhg7. Acesso em: 13 jan. 2025. 8.4 Alterações psicopatológicas Existem alterações da linguagem associadas a transtornos psiquiátricos primários, e as formas mais comuns observadas estão descritas a seguir. Logorreia É um termo utilizado para descrever uma condição caracterizada por um fluxo contínuo e excessivo de palavras, muitas vezes sem um propósito claro ou relevante. A pessoa com logorreia tende a falar de forma prolixa, falando demais e, por vezes, sem conseguir parar. Esse comportamento pode ocorrer em diversos contextos, como em conversas informais, apresentações ou até em situações clínicas. Em um contexto clínico, a logorreia pode estar associada a distúrbios psiquiátricos, como transtornos de ansiedade, transtornos do humor (como o transtorno bipolar, especialmente na fase maníaca) ou distúrbios do espectro da esquizofrenia. Em alguns casos, ela pode também ser uma característica de pessoas com dificuldades cognitivas ou de autocontrole. Bradifasia É um termo médico que se refere à lentidão na fala, ou seja, à diminuição da velocidade da fala, que pode ser causada por uma variedade de fatores, incluindo condições neurológicas, psiquiátricas e cognitivas. 154 Unidade II Em geral, a bradifasia pode ocorrer por diferentes motivos, como: • Doenças neurológicas: como a doença de Parkinson, em que há uma lentificação dos movimentos e das funções motoras em geral, incluindo os músculosresponsáveis pela fala. A bradifasia pode ser um sintoma característico dessa condição. • AVC: dependendo da área do cérebro afetada, um AVC pode prejudicar a capacidade de articular palavras de forma fluente, resultando em uma fala lenta e difícil. • Distúrbios psiquiátricos: como a depressão grave, na qual a fala também pode se tornar mais lenta, com pouca fluência, o que pode refletir uma diminuição da atividade mental e do raciocínio. • Demência: algumas formas de demência, como a doença de Alzheimer, também podem resultar em bradifasia, devido ao declínio cognitivo. A bradifasia não envolve necessariamente uma dificuldade em encontrar palavras, mas sim uma redução no ritmo da fala, com o indivíduo pronunciando as palavras de forma mais arrastada e lenta. Esse sintoma pode ser tratado ou aliviado, dependendo da causa subjacente. A avaliação médica é fundamental para determinar o diagnóstico e o tratamento adequados. Mutismo De modo muito genérico, pode ser definido como ausência de uma resposta verbal oral por parte do doente. O paciente fica no leito sem qualquer resposta verbal ao entrevistador. Os fatores podem ser de natureza neurobiológica, psicótica ou psicogênica (Dalgalarrondo, 2000). O mutismo é uma condição caracterizada pela ausência total ou parcial de fala, em que a pessoa não consegue ou não deseja falar, apesar de não apresentar problemas físicos que dificultem a produção da fala. O mutismo pode se manifestar de diferentes maneiras e ter diversas causas, tanto psicológicas quanto neurológicas. Existem diferentes tipos de mutismo, sendo os mais comuns: • Mutismo seletivo: é um transtorno de ansiedade geralmente observado em crianças. A criança pode ser capaz de falar normalmente em certos ambientes (por exemplo, em casa com a família), mas não consegue ou não deseja falar em outros contextos (por exemplo, na escola ou em público). Esse tipo de mutismo está frequentemente associado à ansiedade social. • Mutismo psicogênico (ou mutismo funcional): é causado por fatores psicológicos, como trauma, estresse intenso ou eventos emocionais que levam a pessoa a se tornar incapaz de falar, mesmo sem problemas orgânicos no sistema nervoso ou nos órgãos da fala. Pode ser uma forma de “defesa psicológica”, em que o indivíduo se cala como resposta a um trauma ou situação emocionalmente perturbadora. 155 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR • Mutismo neurogênico: está relacionado a danos ou disfunções no SNC, como lesões cerebrais, AVC ou doenças neurológicas (como a afasia). Nesse caso, a pessoa pode ter dificuldade de produzir ou compreender a fala devido a alterações nas áreas do cérebro responsáveis pela linguagem e comunicação. • Mutismo catatônico: é uma condição associada ao transtorno esquizoafetivo ou à esquizofrenia, particularmente na forma catatônica, em que a pessoa pode permanecer em um estado de imobilidade e silêncio, sem interação verbal, mesmo estando consciente e sem sinais evidentes de distúrbios motores ou de linguagem. Em alguns casos, o paciente pode ficar em um estado de “imitação” ou resistência a comandos, mas sem falar. • TEA: algumas crianças com autismo podem experimentar mutismo, seja por dificuldades de comunicação, seja por uma falta de desejo de interagir verbalmente com outras pessoas. O mutismo pode ser total ou parcial, dependendo da criança. • Mutismo devido a condições médicas: existem também algumas condições médicas que podem levar a mutismo, como distrofias musculares, paralisia ou outras doenças que afetam a capacidade física de falar. No entanto, o mutismo devido a uma causa orgânica costuma estar associado a distúrbios em outras funções motoras e não é exclusivamente uma dificuldade na fala. O tratamento do mutismo depende da causa subjacente. Quando o mutismo é causado por fatores psicológicos ou emocionais, como no mutismo seletivo ou psicogênico, a psicoterapia, especialmente a terapia cognitivo‑comportamental, pode ser eficaz. Em casos de mutismo neurogênico ou catatônico, a abordagem envolve tratar a condição neurológica ou psiquiátrica de base, o que pode incluir medicação e reabilitação fonoaudiológica. Se o mutismo for observado em uma pessoa, especialmente em crianças ou adolescentes, é importante procurar uma avaliação médica ou psicológica para entender a origem e buscar as intervenções adequadas. Ecolalia Quando o paciente repete geralmente a última palavra do entrevistador em forma de eco. É involuntária e comum em pacientes com esquizofrenia catatônica e em quadros psicorgânicos. A ecolalia pode ter várias causas e é frequentemente observada em condições que afetam o desenvolvimento ou a função da linguagem. Algumas das causas incluem: • TEA: a ecolalia é um comportamento comum entre crianças com autismo. Ela pode ocorrer como uma forma de imitação social, uma maneira de aprender a linguagem ou até uma forma de autorregulação, especialmente quando a pessoa se sente sobrecarregada ou confusa. • Afasia: indivíduos com afasia (um distúrbio de linguagem geralmente causado por lesões cerebrais, como em um AVC) podem apresentar ecolalia, já que têm dificuldade em produzir ou entender a fala, podendo imitar o que ouvem sem compreender o significado. 156 Unidade II • Transtornos de desenvolvimento: além do autismo, a ecolalia pode aparecer em outras condições de desenvolvimento infantil, como o TDAH ou em quadros de atraso no desenvolvimento da linguagem. • Distúrbios cognitivos e neurológicos: a ecolalia pode ser observada em pessoas com danos cerebrais, como aqueles causados por AVC, lesões traumáticas ou doenças neurodegenerativas (como a demência). • Transtornos psicóticos: em alguns casos de psicose, como a esquizofrenia, a ecolalia pode surgir como parte de um padrão de fala desorganizada. A ecolalia pode ter diferentes funções dependendo do contexto e do indivíduo: • Imitação e aprendizado: em crianças pequenas ou em indivíduos com TEA, a ecolalia pode ser uma estratégia de aprendizado de linguagem, em que a repetição de palavras ou frases ajuda a internalizar a linguagem. • Comunicação social: mesmo que a pessoa não entenda completamente o significado das palavras que repete, ela pode estar tentando estabelecer uma conexão social ou expressar uma necessidade. No autismo, por exemplo, a ecolalia pode ser uma tentativa de se envolver com os outros, embora sem uma verdadeira compreensão comunicativa. • Autocontrole ou autorregulação: a ecolalia também pode ter um papel calmante para algumas pessoas. Repetir certas palavras ou frases pode ajudar a pessoa a lidar com a ansiedade ou com a sobrecarga sensorial. Tiques verbais ou fonéticos São produções de palavras muitas vezes impróprias e desagradáveis, nas quais o paciente não consegue controlar, apenas pode adiar um pouco. É comum em pacientes com a síndrome de Tourette (ST). Existem outras formas de alterações da linguagem associadas a quadros psiquiátricos, que são: palilalia, verbigeração, glossolalia e o fenômeno de pararrespostas (Dalgalarrondo, 2000). Os tiques verbais ou tiques fonéticos são formas de tiques que envolvem movimentos involuntários e repetitivos, mas, em vez de afetarem os músculos motores, como em tiques motores (como piscadelas e movimentos de cabeça), englobam sons, palavras ou frases involuntárias. Esses tiques podem ser simples ou complexos e geralmente estão associados a condições neurológicas, psiquiátricas ou comportamentais. • Tiques simples: são sons ou palavras simples que são repetidos involuntariamente. Esses tiques são breves e não têm um significado linguístico ou sintático complexo. Exemplos incluem tosse, gritos, murmúrios, grunhidos ou até sons sem significado. 157 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR • Tiques complexos: envolvem frases ou palavras mais longas e podem até incluir sentenças completas. São mais raros do que os tiques simples, mas podem ocorrer, especialmente, em condições como a ST. Exemplos podem ser palavras como “olá”, “não”, “sim” ou frasesrepetitivas, como “vá embora”, que podem ser ditas de forma involuntária. • Coprolalia: é uma forma específica de tique verbal que envolve a emissão involuntária de palavras ou expressões socialmente inapropriadas, incluindo palavrões ou comentários vulgares. É frequentemente associada à ST, mas é relativamente rara entre as pessoas com essa condição (apenas cerca de 10‑15% das pessoas com Tourette apresentam coprolalia). As principais causas dos tiques verbais ou fonéticos são: • ST: uma das causas mais comuns de tiques motores e verbais. É um transtorno neurológico caracterizado por tiques motores e verbais involuntários que podem variar em intensidade ao longo do tempo. Na ST, os tiques verbais incluem gritos, palavrões (coprolalia), sons incompreensíveis e até mesmo o uso repetitivo de frases ou palavras sem sentido. • Tiques transitórios: crianças podem apresentar tiques verbais temporários ou transitórios, que geralmente surgem entre os 5 e 10 anos. Eles podem se manifestar como palavras ou sons repetitivos, mas tendem a desaparecer com o tempo, geralmente sem necessidade de tratamento médico. • TOC: algumas pessoas com TOC podem desenvolver tiques verbais como parte de uma tentativa de aliviar a ansiedade associada a pensamentos obsessivos. Esses tiques podem envolver repetição de palavras ou frases específicas de forma ritualística. • Distúrbios neurológicos e psiquiátricos: tiques verbais podem ocorrer em outros distúrbios neurológicos ou psiquiátricos, como lesões cerebrais, distúrbios de movimento ou TEA. • Fatores genéticos e ambientais: tiques verbais podem ser influenciados por fatores genéticos. A hereditariedade tem sido associada ao risco de desenvolver tiques, com um risco aumentado em pessoas que têm familiares com distúrbios semelhantes. Estresse, ansiedade ou mudanças no ambiente também podem agravar os tiques verbais. E os sinais e sintomas são os seguintes: • Involuntariedade: os tiques verbais ocorrem sem controle consciente da pessoa, que pode ter dificuldade em interrompê‑los, mesmo que seja inconveniente ou embaraçoso. • Prevalência em crianças: tiques verbais são mais comuns em crianças, particularmente aquelas com ST. Os tiques podem se intensificar em situações de estresse ou excitação, e geralmente diminuem à medida que a pessoa envelhece. • Mudança ao longo do tempo: em alguns casos, os tiques verbais podem mudar ao longo do tempo, tornando‑se mais intensos ou mais frequentes em certos períodos, mas também podem diminuir ou desaparecer em outros momentos. 158 Unidade II Resumo A relação entre emoção, motivação, pensamento e linguagem é complexa e interdependente. Esses processos psicológicos e cognitivos interagem de maneira constante, influenciando como percebemos, interpretamos e respondemos ao nosso ambiente. As emoções frequentemente geram motivação. Por exemplo, o medo pode motivar uma pessoa a fugir de um perigo, enquanto a felicidade pode motivá‑la a buscar mais situações agradáveis. Por outro lado, a motivação também pode gerar emoções. Quando uma pessoa alcança um objetivo importante, ela pode sentir alegria ou satisfação. A motivação influencia o pensamento ao direcionar nossa atenção e nossos esforços para certos objetivos. Se estamos motivados para alcançar algo, nossa cognição (pensamentos) será voltada para maneiras de alcançar essa meta. O pensamento, por sua vez, ajuda a planejar como alcançar um objetivo, avalia as opções e as soluções e pode ajustar a motivação, dependendo dos resultados percebidos. O pensamento pode modular as emoções, e a maneira como interpretamos uma situação afeta nossa resposta emocional. Por exemplo, se pensamos que algo é injusto, isso pode aumentar nossa raiva. Se pensamos que uma situação tem potencial para trazer alegria, isso pode gerar antecipação positiva. Em contrapartida, as emoções podem influenciar o pensamento. Quando estamos emocionalmente carregados, tendemos a pensar de forma mais impulsiva, talvez distorcendo ou exagerando a realidade (com pensamentos de “tudo ou nada”, por exemplo). A linguagem serve como uma ponte para a expressão das emoções. Quando alguém fala sobre suas emoções, a linguagem pode ajudá‑lo a processar e a entender melhor o que está sentindo, ou até mesmo a ajustar as próprias emoções por meio do discurso. A motivação e a linguagem estão conectadas na nossa vida cotidiana. Quando estamos motivados, nossas palavras e nossas ações podem refletir essa motivação. Um exemplo pode ser visto no caso de alguém que, com forte motivação para atingir certo objetivo, usa uma linguagem focada, determinante e afirmativa. 159 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR Exercícios Questão 1. Vimos, no livro‑texto, que a motivação é um termo utilizado em vários contextos. Esse termo pode ser empregado nos meios acadêmico, profissional e pessoal, entre outros, porque o associamos a uma “energia” que nos impulsiona para fazer algo (Feldman, 2015). Em relação à motivação, avalie as afirmativas. I – Podemos dizer que a motivação é uma condição muito pessoal e particular, e que os motivos podem ser variados, como as necessidades básicas do indivíduo, as carências, os interesses e os desejos que impulsionam as pessoas em certas direções e incentivam dado comportamento. II – Existem dois grupos de motivos que influenciam no desempenho dos indivíduos: os motivos internos e os externos. Os motivos internos são aqueles criados pela situação ou pelo ambiente em que a pessoa está, já os externos são de natureza fisiológica. III – Desequilíbrios hormonais, como os causados por estresse crônico, distúrbios do sono ou condições médicas, podem levar à redução significativa na motivação, impactando o humor, a produtividade e o bem‑estar geral. É correto o que se afirma em: A) I, apenas. B) II, apenas. C) III, apenas. D) I e III, apenas. E) I, II e III. Resposta correta: alternativa D. Análise das afirmativas I – Afirmativa correta. Justificativa: a motivação está relacionada a um motivo, a uma necessidade ou a um desejo específico que estimula o organismo e direciona seu comportamento para determinado fim. Todos os motivos são iniciados por algum tipo de estímulo: uma condição física, um detalhe do ambiente ou algum tipo de sentimento. Um estímulo induz um comportamento direcionado a certa meta, e dizemos que isso motivou a pessoa (Morris; Maisto, 2004). 160 Unidade II II – Afirmativa incorreta. Justificativa: vimos, no livro‑texto, que há teorias que tentam explicar como a motivação se manifesta e como ela interfere em nosso desempenho. Existem dois grupos de motivos que influenciam no desempenho dos indivíduos: os motivos internos e os externos. Os motivos internos são de natureza fisiológica, como a fome e a sede, e podem ser reflexos de necessidades psicológicas, e os motivos externos são aqueles criados pela situação ou pelo ambiente em que a pessoa está, sempre em busca de conseguir satisfazer as suas necessidades básicas, a fim de despertar um sentimento de objetivo atingido. III – Afirmativa correta. Justificativa: vimos, neste livro‑texto, que a interação entre hormônios e neurotransmissores cria um equilíbrio que regula tanto os níveis de motivação quanto as respostas emocionais. Quando o equilíbrio hormonal está saudável, a pessoa tende a se sentir mais motivada e focada. Os desequilíbrios hormonais, como os causados por estresse crônico, distúrbios do sono ou condições médicas, podem levar à redução significativa na motivação, impactando o humor, a produtividade e o bem‑estar geral. Portanto, os hormônios atuam como “mensageiros químicos” no cérebro e desempenham papel vital na manutenção da motivação e na resposta a desafios, recompensas e emoções. Questão 2. Vimos que o instinto é um comportamento inato e automático, presente em muitos animais (incluindo os seres humanos), que ocorre sem a necessidade de aprendizado ou de experiência prévia. É uma resposta imediata a estímulos específicos do ambiente (Morris;Maisto, 2004). Em relação ao instinto, avalie as afirmativas. I – Os instintos são universais e comuns para dada espécie, tendendo a ser fixos e previsíveis. Eles são gerados por estímulos internos ou externos e não requerem esforço consciente. II – Os instintos podem ser considerados comportamentos complexos, não aprendidos e com um padrão fixo. Eles visam à preservação de cada espécie e se concentram em comportamentos predispostos geneticamente. III – Diferentemente dos instintos, que são automáticos, a motivação envolve um processo mais complexo, incluindo a tomada de decisões, o planejamento e a ação. Ela pode ser dirigida tanto por desejos internos quanto por recompensas externas. 161 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR É correto o que se afirma em: A) I, apenas. B) II, apenas. C) III, apenas. D) I e III, apenas. E) I, II e III. Resposta correta: alternativa E. Análise das afirmativas I – Afirmativa correta. Justificativa: como dito na afirmativa, os instintos são universais e comuns para dada espécie e podem ser causados por estímulos internos (fome, sede etc.) ou externos (perigo, sons, cheiros etc.). Exemplos de instintos em humanos e animais incluem o reflexo de sugar em bebês, a busca por alimento quando com fome ou a reação de fuga diante de um perigo. Esses comportamentos são regidos por mecanismos biológicos e são essenciais para a sobrevivência da espécie. Os instintos são universais e comuns para dada espécie, tendendo a ser fixos e previsíveis e não requerem esforço consciente. II – Afirmativa correta. Justificativa: os instintos são padrões de comportamento específicos e inatos, característicos de toda uma espécie, que explicam grande parte do comportamento humano. William James, em 1890, compilou uma série de instintos humanos, como a caça, a competição, o medo, a curiosidade, a timidez, o amor, a vergonha e o ressentimento (Morris; Maisto, 2004). III – Afirmativa correta. Justificativa: a motivação é o processo psicológico que impulsiona o indivíduo a agir de determinada maneira para alcançar um objetivo ou satisfazer uma necessidade. É uma força interna que pode ser influenciada por fatores biológicos, emocionais, sociais ou cognitivos. Diferentemente dos instintos, que são automáticos, a motivação envolve um processo mais complexo, incluindo a tomada de decisões, o planejamento e a ação. Ela pode ser dirigida tanto por desejos internos (motivação intrínseca, como o prazer de aprender) quanto por recompensas externas (motivação extrínseca, como dinheiro ou reconhecimento). A motivação não se limita à sobrevivência, como é o caso dos instintos. Ela pode abranger diversas áreas da vida, como a busca por realização pessoal, profissional ou acadêmica. 162 REFERÊNCIAS ABREU, T. L. et al. Práticas educativas contextualizadas e motivadoras: uma análise a partir das teorias de Hull, Hebb e Lewin. Revista Principia. Divulgação científica e tecnológica do IFPB, João Pessoa, n. 52, 2020. ALVES, M. A. Cognição, emoções e ação. Marília: Oficina Universitária; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2019. Disponível em: https://shre.ink/glul. Acesso em: 13 dez. 2024. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais – DSM‑5. Porto Alegre: Artmed, 2014. ANDRADE, A. F. et al. Coma e outros estados de consciência. 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De maneira semelhante, podemos entrar em uma padaria sem estar conscientes de que o aroma nos atraiu (Morris; Maisto, 2004, p. 264). A motivação também pode ser dividida em intrínseca ou extrínseca. Motivação intrínseca parte das condições internas do indivíduo e depende das recompensas à própria realização da atividade. Motivação extrínseca depende mais das influências externas e se refere às consequências das atividades realizadas pelo indivíduo. 5.1.4 Pirâmide de Maslow É amplamente utilizada em várias áreas, incluindo psicologia, educação, administração e marketing, para entender o comportamento humano e as motivações. Abraham Maslow (1954 apud Cavalcanti et al., 2019), um psicólogo humanista, descreveu os motivos em uma hierarquia de necessidades em forma de pirâmide. Ele propõe um ponto de equilíbrio entre necessidades biológicas e sociais e integra muitos conceitos motivacionais, estabelecendo uma hierarquia, na qual há uma organização sistemática de necessidades segundo suas prioridades. A hierarquia de Maslow é útil, porque podemos observar que as pessoas atribuem diferentes prioridades para suas necessidades. Na base dessa pirâmide estão nossas necessidades fisiológicas, como as por água e alimento. Somente se essas forem satisfeitas estaremos prontos para satisfazer a necessidade por segurança e, depois, as necessidades exclusivamente humanas de dar e receber amor e de desfrutar de nossa autoestima (Myers, 2015). As necessidades básicas ou primárias (fisiologia e segurança) têm de ser primeiramente satisfeitas para que as menos básicas ou secundárias (amor/relacionamento, estima e realização pessoal) sejam despertadas. 94 Unidade II Maslow propõe que, à medida que subimos na hierarquia das necessidades, os motivos passam a ter origens mais sutis, como o desejo de viver de maneira mais confortável, de lidar com outros seres humanos da melhor maneira que pudermos e de causar uma melhor impressão. O motivo mais alto da hierarquia seria o da autorrealização, que seria o desejo que a pessoa tem para desenvolver todo o seu potencial (Morris; Maisto, 2004). A hierarquia de Maslow é um tanto arbitrária; a ordem de tais necessidades não é universalmente fixa – pessoas já passaram fome como uma forma de protesto. No entanto, a simples ideia de que alguns motivos são mais impulsionadores do que outros fornece uma estrutura para se pensar sobre a motivação (Myers, 2015). A pirâmide é frequentemente dividida em cinco níveis e pode ser melhor visualizada na figura 3. 1) Necessidades fisiológicas: são as necessidades básicas para a sobrevivência humana, como alimentação, água, sono, abrigo e reprodução. Elas devem ser atendidas antes que outras necessidades possam ser consideradas. 2) Necessidades de segurança: depois de satisfazer as necessidades fisiológicas, as pessoas buscam segurança e proteção. Isso inclui segurança física, estabilidade financeira, saúde e proteção contra perigos. 3) Necessidades sociais (ou de amor e pertencimento): após atender às necessidades de segurança, as pessoas buscam conexões sociais. Isso inclui relacionamentos afetivos, amizade, pertencimento a grupos e aceitação social. 4) Necessidades de estima: esse nível envolve a necessidade de respeito próprio e reconhecimento dos outros. Existem duas categorias aqui: a autoestima, que é o respeito que uma pessoa tem por si mesma, e a estima, que é o respeito e reconhecimento que uma pessoa recebe dos outros. 5) Necessidades de autorrealização: no topo da pirâmide, estão as necessidades de autorrealização, que se referem ao desejo de alcançar o potencial máximo, realizar‑se pessoalmente e se desenvolver como indivíduo. Isso pode incluir a busca de criatividade, crescimento pessoal, autoconhecimento e a realização de objetivos e aspirações. 95 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR Respiração, comida, água, sexo, sono, homeostase, excreção Segurança do corpo, do emprego, de recursos, da moralidade, da família, da saúde, da propriedade Autoestima, confiança, conquista, respeito dos outros, respeito aos outros Moralidade, criatividade, espontaneidade, solução de problemas, ausência de preconceito, aceitação dos fatos Amizade, família, intimidade sexual Realização pessoal Estima Amor/relacionamento Segurança Fisiologia Figura 3 – Esquema da pirâmide de Maslow Disponível em: https://shre.ink/gpjC. Acesso em: 16 dez. 2024. Características da pirâmide de Maslow • Hierarquia: a ideia é que, enquanto as necessidades mais baixas não forem atendidas, a pessoa não será motivada a atender as necessidades mais altas. Por exemplo, uma pessoa com fome (necessidade fisiológica) não se preocupará com sua autoestima (necessidade de estima) até que suas necessidades básicas sejam satisfeitas. • Flexibilidade: embora a pirâmide seja frequentemente representada como uma hierarquia rígida, Maslow reconheceu que as necessidades podem se sobrepor e que a ordem pode variar entre diferentes pessoas e culturas. • Teoria dinâmica: a autorrealização não é um estado final, mas um processo contínuo de crescimento e desenvolvimento. Uma vez que uma pessoa atinge um nível mais alto, novas metas e desafios podem surgir. 5.2 Função psíquica e suas alterações A função psíquica relacionada à motivação refere‑se aos processos mentais e emocionais que influenciam o comportamento humano, determinando as razões que impulsionam as ações. A motivação, do ponto de vista psicológico, é uma força interna que orienta os indivíduos a agir em direção a certos objetivos ou a satisfazer determinadas necessidades. 96 Unidade II Como a função psíquica afeta a motivação • Processos cognitivos: pensamentos, expectativas e percepções desempenham um papel crucial na motivação. Por exemplo, a forma como uma pessoa percebe suas habilidades ou desafios em uma tarefa pode determinar se ela se sentirá motivada ou desmotivada a tentar. • Emoções: estados emocionais influenciam diretamente a motivação. Emoções positivas, como alegria e satisfação, podem aumentar a motivação, enquanto emoções negativas, como medo e frustração, podem reduzi‑la ou gerar evitamento. As emoções positivas são estados afetivos agradáveis que contribuem para o bem‑estar e para uma visão otimista da vida. Elas desempenham um papel crucial na motivação, nas relações sociais e na saúde mental. Além disso, podem ampliar os recursos cognitivos e sociais de uma pessoa, permitindo‑lhe lidar melhor com desafios e se engajar em atividades que promovam o crescimento pessoal. • Memória e aprendizado: experiências passadas e a forma como são lembradas influenciam as decisões futuras. Se uma pessoa experimenta sucesso ao realizar uma tarefa, é provável que se sinta mais motivada a repeti‑la. As experiências passadas e a forma como são lembradas desempenham um papel fundamental na motivação e na tomada de decisões futuras. Isso está relacionado ao conceito de aprendizado associativo, no qual experiências anteriores, especialmente aquelas marcadas por sucesso ou fracasso, influenciam diretamente o comportamento de uma pessoa. • Personalidade: traços de personalidade, como extroversão, abertura a novas experiências e neuroticismo, também afetam os níveis de motivação. Por exemplo, indivíduos mais abertos tendem a buscar novas experiências e podem se sentir mais motivados em situações desafiadoras. Como mencionado anteriormente, a motivação decorre de fatores psicológicos, fisiológicos e até mecânicos. Considerando tal afirmação, as alterações mais observadas e frequentes que afetam a motivação podem ser decorrentes da alimentação e do comportamento sexual. A fome surge em função de variações na químicacorporal, incluindo hormônios que aumentam ou reduzem a fome. O comportamento alimentar é mediado pela fome (química corporal) e pelos fatores ambientais, que determinam do que temos fome. O controle da fome envolve muitos dos mesmos conceitos homeostáticos, como a sede, mas o comer é muito mais complexo do que o beber. Quando estamos com sede, precisamos apenas de água para saciar a sede. Para comer há outros fatores envolvidos, porque precisamos comer uma quantidade de diferentes tipos de alimentos, como proteínas, carboidratos, gorduras e minerais, para nos mantermos saudáveis (Nolen‑Hoeksema et al., 2012). Podemos dizer que o estado psicológico da fome não está relacionado apenas com a necessidade biológica do alimento, mas a necessidade pode estimular um estado psicológico. E novamente associamos o cérebro a todas as situações relacionadas ao ato de comer. 97 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR A sensação de fome está relacionada às emoções de maneira complexa. Algumas pessoas correm para a geladeira sempre que estão deprimidas, chateadas, ansiosas ou com raiva. Outras perdem todo o interesse por comida nessas situações e reclamam que estão ansiosas demais para comer (Morris; Maisto, 2004). É comum ouvirmos dos nutricionistas que é necessário mastigar várias vezes o alimento e comer devagar, tudo isso para que o cérebro receba a informação de que você está se alimentando. Se você mastigar mais, vai comer menos; se mastigar menos, vai comer mais. O cérebro monitora a quantidade e o tipo de alimento que você ingeriu. Os receptores localizados no estômago identificam não apenas a quantidade de comida presente no órgão, mas também a quantidade de calorias de um alimento. Os sinais provenientes desses receptores são transmitidos ao cérebro. Quando o alimento entra no intestino delgado, um hormônio é liberado no sangue, e novamente a informação vai para o cérebro, como fonte adicional das necessidades nutricionais (Morris; Maisto, 2004). Cada organismo reage de uma forma, mas o cérebro recebe a informação cerca de 20 a 30 minutos depois que você inicia a alimentação, sendo que todo o processo de mastigação já envia estímulos para a área específica do córtex, e, aos poucos, a pessoa vai ficando saciada. Por isso, o ideal para emagrecer é sempre sair da mesa com fome ou com vontade de comer mais, porque logo você ficará saciado e não conseguirá ingerir mais alimentos. O comportamento sexual também é uma motivação de grande poder e que sofre alterações. A motivação sexual origina‑se da ação recíproca entre nossa fisiologia e nosso ambiente, mas os estímulos psicológicos (fantasia e imaginação) também exercem papel fundamental. O sexo é um motivo social – geralmente envolve outra pessoa –, enquanto os motivos de sobrevivência preocupam apenas o indivíduo. O sexo não envolve uma deficiência interna que precisa ser regulada e remediada para o organismo sobreviver. Os motivos sociais não se prestam a uma análise homeostática (Nolen‑Hoeksema et al., 2012). A resposta sexual depende da interação recíproca de estímulos internos e externos e de fatores fisiológicos. Na década de 1960, o ginecologista e obstetra William Masters e sua colaboradora Virginia Johnson (1966), com base em pesquisas, descreveram que o ciclo da resposta sexual passa por quatro estágios: excitação, platô, orgasmo e resolução. Na fase de excitação, as áreas genitais se intumescem de sangue, a vagina se expande e secreta um lubrificante, e os seios e mamilos podem aumentar. Na fase de platô, a excitação atinge o ponto máximo enquanto os ritmos de respiração, pulsação e pressão sanguínea continuam a aumentar. O pênis fica totalmente intumescido e um líquido quase sempre contendo espermatozoides vivos suficientes para possibilitar a concepção pode aparecer em sua ponta. A secreção vaginal continua aumentando, o clitóris se retrai, e o orgasmo é iminente. As contrações musculares em todo o corpo durante o orgasmo são acompanhadas de aumentos adicionais na respiração, pulsação e pressão sanguínea. Durante a fase de resolução, o homem entra em um período refratário, que pode durar de alguns minutos a um dia ou mais, durante o qual ele é incapaz de ter outro orgasmo. O período refratário nas mulheres não é muito longo, o que torna possível para elas terem outro orgasmo se reestimuladas durante ou logo após a resolução (Myers, 2015). 98 Unidade II 5.2.1 Alterações alimentares Podem ter um impacto significativo na motivação, uma vez que a nutrição está diretamente ligada ao funcionamento cerebral e ao estado geral de energia e bem‑estar (Feldman, 2015). O que comemos influencia não apenas nossa saúde física, mas também nossa saúde mental e emocional, afetando‑a. Os transtornos alimentares são condições psicológicas graves caracterizadas por comportamentos alimentares desordenados, que afetam negativamente a saúde física, emocional e mental de uma pessoa. Esses transtornos são frequentemente associados a preocupações excessivas com peso, forma corporal e alimentação, o que pode levar a práticas alimentares extremas e prejudiciais. Vejamos a seguir os principais tipos de transtornos alimentares segundo Appolinário e Claudino (2000). Anorexia nervosa Caracteriza‑se por uma restrição extrema na ingestão de alimentos, medo intenso de ganhar peso e uma imagem corporal distorcida. Pessoas com anorexia tendem a ter um peso corporal muito abaixo do saudável e ainda assim se veem acima do peso. Pode levar a complicações graves, como desnutrição, falência de órgãos e até morte. Bulimia nervosa Envolve episódios de compulsão alimentar, seguidos de comportamentos compensatórios inadequados, como vômitos induzidos, uso excessivo de laxantes ou exercícios intensos para evitar o ganho de peso. Ao contrário da anorexia, pessoas com bulimia podem manter um peso corporal normal ou acima do normal, tornando o transtorno menos visível. Transtorno de compulsão alimentar Caracteriza‑se por episódios recorrentes de compulsão alimentar, em que a pessoa ingere grandes quantidades de alimentos em um curto período de tempo, sem comportamentos compensatórios, como acontece na bulimia. Pessoas com esse transtorno podem desenvolver problemas de saúde, como obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardíacas. Transtorno alimentar restritivo/evitativo Está relacionado à restrição alimentar ou à evitação de certos alimentos, sem as preocupações típicas com peso ou forma corporal. Pode estar ligado a fatores como a sensibilidade à textura, ao cheiro ou à cor dos alimentos, ou até traumas associados à alimentação. Esse transtorno pode causar deficiências nutricionais e prejuízos no desenvolvimento físico e emocional. 99 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR Obesidade É uma condição de saúde caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal, que pode ter impactos negativos na saúde geral, aumentando o risco de diversas doenças crônicas, como diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, entre outras. A obesidade é geralmente medida pelo índice de massa corporal (IMC), que é calculado dividindo o peso de uma pessoa (em quilogramas) pela sua altura (em metros) ao quadrado. Transtorno de ruminação É um distúrbio alimentar em que a pessoa regurgita alimentos repetidamente, não por náusea ou problemas digestivos, mas como um comportamento voluntário ou semi‑inconsciente. Esse comportamento envolve trazer de volta os alimentos ingeridos ao nível da boca, em que a pessoa pode mastigá‑los novamente, engoli‑los outra vez ou cuspi‑los. Drunkorexia É um comportamento desordenado que combina características de transtornos alimentares com o abuso de álcool. Observação O termo não é oficialmente reconhecido como um diagnóstico médico, mas descreve um padrão de comportamento que envolve a restrição alimentar ou práticas compensatórias, como o jejum ou o excesso de exercício físico, para “compensar” o consumo de calorias provenientes do álcool. 5.2.1.1 Causas dos transtornos alimentares Os transtornosalimentares podem ser influenciados por uma combinação de fatores, como: • Genéticos: histórico familiar de transtornos alimentares ou outras condições de saúde mental. • Psicológicos: baixa autoestima, depressão, ansiedade ou traumas, como abuso emocional ou físico, estresse e outros transtornos emocionais podem levar a episódios de compulsão alimentar ou a padrões alimentares desordenados. • Fatores hormonais: alterações hormonais, a síndrome dos ovários policísticos (SOP) ou o hipotireoidismo podem contribuir para o ganho de peso. • Sociais e culturais: pressão para se conformar a padrões estéticos de beleza, influência das redes sociais e mídia ou críticas sobre o corpo. 100 Unidade II Tratamento Costuma envolver uma equipe multidisciplinar, incluindo médicos, nutricionistas e psicólogos. Algumas abordagens comuns incluem: • Psicoterapia: pode ajudar a abordar as causas emocionais, cognitivas e comportamentais subjacentes a esses transtornos, promovendo mudanças duradouras. • Aconselhamento nutricional: ajuda a restabelecer hábitos alimentares saudáveis e a entender melhor a relação entre alimentação e saúde. • Medicamentos: em alguns casos, antidepressivos ou outros medicamentos podem ser prescritos para ajudar a tratar sintomas associados, como ansiedade ou depressão. 5.2.2 Alterações da sexualidade As alterações na sexualidade podem ter um impacto significativo na motivação, afetando o bem‑estar emocional, a autoestima, os relacionamentos e a energia para se engajar em outras atividades. A psicoterapia, juntamente com intervenções médicas e hormonais, pode ser uma ferramenta eficaz para ajudar as pessoas a restaurar a saúde sexual e a motivação em suas vidas. Mudanças na sexualidade podem ser causadas por uma variedade de fatores, como hormonais, emocionais, psicológicos e relacionais, e essas alterações podem influenciar a motivação em várias áreas da vida. 5.2.2.1 Impactos na motivação Desequilíbrios hormonais Hormônios como a testosterona, o estrogênio e a progesterona desempenham um papel importante na regulação do desejo sexual (libido) e, de forma mais ampla, influenciam a motivação em outras áreas da vida. Níveis baixos de testosterona, em homens e mulheres, podem resultar em baixa libido, fadiga e redução da motivação para atividades cotidianas. Esses desequilíbrios podem surgir devido a fatores como envelhecimento, estresse, doenças ou uso de medicamentos. Em mulheres, alterações hormonais relacionadas ao ciclo menstrual, gravidez, menopausa ou uso de anticoncepcionais também podem afetar a libido e, por consequência, a motivação geral. Por exemplo, a menopausa pode levar a uma redução dos níveis de estrogênio, resultando em menor desejo sexual e, potencialmente, em menos motivação e energia. 101 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR Saúde mental e bem‑estar emocional Transtornos mentais, como depressão e ansiedade, frequentemente afetam a sexualidade, resultando em diminuição do desejo sexual e uma visão negativa de si mesmo e do próprio corpo. Isso pode reduzir a motivação para se engajar em outras áreas da vida, como o trabalho, os estudos ou as atividades sociais. O estresse crônico pode levar a uma diminuição do interesse sexual, e o impacto emocional disso, combinado com fadiga, pode afetar a motivação em outras esferas, como desempenho profissional e cuidado pessoal. Imagem corporal e autoestima Estão fortemente ligadas à sexualidade. Quando uma pessoa se sente desconectada ou insatisfeita com o próprio corpo, isso pode levar a uma diminuição do desejo sexual e afetar a motivação geral. Indivíduos que sofrem de problemas de autoestima ou distorção da imagem corporal, como em casos de transtornos alimentares ou transtorno dismórfico corporal, podem evitar a intimidade sexual, o que pode levar a um ciclo de baixa autoestima e diminuição da motivação para interagir socialmente e buscar realizações pessoais. Alterações relacionais Problemas no relacionamento podem levar a mudanças na sexualidade, como a diminuição do desejo sexual ou a evitação da intimidade. Esses problemas podem estar relacionados à falta de comunicação, conflitos não resolvidos ou perda de conexão emocional entre os parceiros. A diminuição da intimidade emocional e sexual em um relacionamento pode impactar a motivação para investir na relação e em outras áreas da vida, já que a satisfação nas relações íntimas é um importante motivador para o bem‑estar emocional. Traumas e experiências sexuais passadas Pessoas que sofreram traumas sexuais, como abuso ou violência, podem apresentar alterações significativas na sexualidade, como diminuição do desejo sexual, aversão à intimidade ou comportamentos hipersexuais. Esses traumas também podem gerar dificuldades emocionais e psicológicas que afetam a motivação geral, devido ao impacto duradouro no bem‑estar emocional. A terapia pode ser fundamental para ajudar esses indivíduos a reconstruir uma relação saudável com sua sexualidade e recuperar a motivação e o interesse em outras áreas da vida. 102 Unidade II Transtornos sexuais Transtornos como disfunção erétil nos homens e disfunção sexual nas mulheres (como falta de lubrificação ou dor durante o ato sexual) podem levar à frustração e à insatisfação com a vida sexual. Isso, por sua vez, pode gerar ansiedade de desempenho, evitar a intimidade e afetar a motivação para outras atividades. Fatores culturais e sociais A pressão social e as expectativas culturais em relação à sexualidade podem afetar a forma como as pessoas percebem sua própria sexualidade. Expectativas irrealistas podem levar à insatisfação com a vida sexual, o que pode impactar a autoestima e a motivação em outras áreas. Questões relacionadas à orientação sexual e à identidade de gênero também podem afetar a motivação. Pessoas que se sentem reprimidas ou discriminadas por sua orientação sexual ou identidade de gênero podem experimentar baixa autoestima, ansiedade e depressão, o que afeta negativamente a motivação. 5.2.2.2 Impactos específicos das alterações na sexualidade na motivação Redução do desejo sexual e motivação geral A diminuição da libido pode estar associada a uma sensação de apatia ou desinteresse em outras áreas da vida, especialmente se for causada por fatores hormonais ou emocionais. O indivíduo pode sentir menos energia para atividades diárias e menor interesse por metas e realizações. Aumento de estresse e conflitos Quando há insatisfação sexual, isso pode levar a um aumento no estresse e nos conflitos dentro de um relacionamento. Esses conflitos podem diminuir a motivação para investir no relacionamento e em outras áreas da vida, como a carreira ou projetos pessoais. Perda de interesse por relacionamentos íntimos Alterações na sexualidade podem levar à evitação de relacionamentos íntimos e, em alguns casos, ao isolamento social. A falta de conexão íntima pode reduzir o senso de propósito e a motivação para manter ou buscar novas conexões. Dificuldade de concentração e desempenho Alterações na sexualidade, especialmente quando ligadas a problemas emocionais, como ansiedade e depressão, podem prejudicar a concentração e o desempenho em áreas como trabalho e estudo, afetando a motivação e a produtividade. 103 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR 5.2.2.3 Como a psicoterapia pode ajudar A psicoterapia é uma intervenção eficaz para ajudar pessoas que enfrentam alterações na sexualidade a recuperar sua motivação e bem‑estar emocional. Algumas abordagens incluem o que segue. Psicoterapias Podem ser muito úteis para fortalecer a motivação, ajudando a pessoa a entender as raízes dos obstáculos que impedem o seu desenvolvimento e a encontrar novas formas de enfrentar essas barreiras. São focadas em identificar, compreender e modificar pensamentos negativos, comportamentos repetitivos, questões na autoimagem e auxiliar o sujeito a desenvolver uma visão compreensível de si mesmo e todo o contexto ao redor. Terapia de casal Útil para tratar problemasde relacionamento que afetam a intimidade e a sexualidade, promovendo melhor comunicação e compreensão entre os parceiros. Psicoterapia para disfunções sexuais Auxilia indivíduos a entenderem e lidarem com disfunções sexuais, abordando tanto aspectos físicos quanto psicológicos que possam estar contribuindo para o problema. 5.3 Localização cerebral O córtex pré‑frontal é a região do cérebro responsável por funções executivas, como planejamento, tomada de decisões e controle de impulsos. Ele tem um papel crucial na motivação direcionada a metas, além de avaliar recompensas futuras, ponderar os custos e benefícios das ações e regular o comportamento de forma consciente, ajudando a manter a motivação em tarefas mais complexas ou de longo prazo. Quando funciona de forma adequada, ele consegue focar em recompensas futuras, regulando o desejo de recompensas imediatas que podem prejudicar o alcance de objetivos mais amplos. Os neurônios estão em diversos locais do cérebro, especialmente dentro da região pré‑óptica (frontal) do hipotálamo. O hipotálamo é uma estrutura cerebral localizada na base do cérebro que desempenha um papel fundamental em várias funções corporais, incluindo a regulação do sistema endócrino, a temperatura corporal, a sede, o apetite e o comportamento sexual. Sua importância na motivação é significativa, pois ele atua como um centro de integração entre sinais fisiológicos e comportamentais que influenciam a motivação e as respostas emocionais. 104 Unidade II Neuro‑hipófise Glândula pineal Hipotálamo Tálamo Corpo caloso Adeno‑hipófise Figura 4 – Localização do hipotálamo Adaptada de: Silverthorn (2017). 5.4 Alterações psicopatológicas Várias psicopatologias podem interferir significativamente na motivação, afetando a capacidade do indivíduo de se engajar em atividades cotidianas, buscar objetivos e manter relacionamentos saudáveis. A seguir estão algumas das principais condições que podem impactar a motivação. Apraxias São perturbações da atividade gestual, em que o indivíduo perde a capacidade de realizar atos motores. Não são explicadas nem por um dano motor, sensitivo ou por alteração intelectual e são classificadas como: • Apraxia reflexiva: ações dirigidas ao próprio corpo. Exemplo: beber água. • Apraxia não reflexiva: ações dirigidas ao externo. Exemplo: pintar uma parede. • Causas: resultam de disfunções nos hemisférios cerebrais, sobretudo o lobo parietal. 105 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR Lobo frontal Lobo temporal Tronco cerebral Lobo parietal Lobo occipital Figura 5 Disponível em: https://shre.ink/bhgj. Acesso em: 13 jan. 2025. Depressão É uma das psicopatologias mais comuns que afetam a motivação. Os sintomas incluem desânimo, falta de interesse ou prazer em atividades que antes eram agradáveis e baixa energia. Isso pode levar a uma diminuição da motivação para realizar tarefas diárias, trabalho e relacionamentos. Transtorno de ansiedade Pode criar um estado constante de preocupação e medo, como o transtorno de ansiedade generalizada, o transtorno de pânico e as fobias. Isso pode resultar em evitação de situações que provocam ansiedade, levando a uma diminuição da motivação para realizar atividades normais ou perseguir metas. Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) Pode afetar a capacidade de concentração e a organização, resultando em dificuldades em iniciar e concluir tarefas. Isso pode gerar frustração e desmotivação, especialmente se a pessoa se sente sobrecarregada por suas responsabilidades. 106 Unidade II Transtornos alimentares As condições como anorexia nervosa, bulimia nervosa e transtorno da compulsão alimentar estão frequentemente associadas a uma percepção distorcida do corpo e preocupações excessivas com a alimentação. Esses transtornos podem consumir o tempo e a energia do indivíduo, levando a uma diminuição da motivação para atividades sociais, profissionais e recreativas. Transtornos de humor Além da depressão, outros transtornos de humor, como o transtorno bipolar, podem causar flutuações extremas na motivação. Durante episódios maníacos, a motivação pode ser elevada, mas, durante episódios depressivos, a motivação pode diminuir drasticamente. TEPT Pode resultar de experiências traumáticas e é caracterizado por sintomas como flashbacks, evitação e hipervigilância. Esses sintomas podem levar a uma diminuição da motivação para se envolver em atividades sociais ou buscar novos objetivos devido ao medo ou ao desconforto. Esquizofrenia É uma condição grave que pode afetar a percepção da realidade, o pensamento e o comportamento. Os sintomas, como alucinações e delírios, podem levar à desmotivação e ao isolamento social, dificultando a realização de tarefas diárias. Transtornos de personalidade Alguns transtornos de personalidade, como o transtorno de personalidade esquiva e o transtorno de personalidade borderline, podem interferir na motivação devido a dificuldades em lidar com relacionamentos, emoções intensas e autoimagem. Isso pode resultar em evitação de situações sociais e perda de interesse em atividades. Transtornos do humor e da personalidade relacionados ao uso de substâncias O uso e a dependência de substâncias, como álcool e drogas, podem levar a alterações no humor e na motivação. O abuso de substâncias pode resultar em desinteresse por atividades que antes eram prazerosas e pode criar um ciclo de baixa motivação e uso contínuo de substâncias como forma de escapar. Transtornos neurológicos Podem impactar a função cognitiva e emocional, levando à apatia e à falta de motivação para atividades diárias, como doença de Parkinson, esclerose múltipla ou AVC. 107 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR 6 EMOÇÃO 6.1 Definição com a finalidade diagnóstica Daros (2018) diz que a emoção é uma resposta psicofisiológica complexa a estímulos internos ou externos que envolvem três componentes principais: • Experiência subjetiva: é a forma como a emoção é sentida internamente, como alegria, tristeza, medo ou raiva. Esse aspecto é subjetivo porque depende da percepção e interpretação individual do evento. • Reação fisiológica: emoções causam reações físicas no corpo, como aumento da frequência cardíaca, liberação de hormônios (como a adrenalina) e mudanças na respiração. Essas reações são reguladas pelo sistema nervoso autônomo e podem preparar o organismo para agir, como em situações de perigo. • Expressão comportamental: as emoções geralmente se manifestam em expressões faciais, linguagem corporal e comportamentos específicos, que servem para comunicar os estados emocionais aos outros. Por exemplo, o sorriso é uma expressão comum da alegria. Todas as ações e os comportamentos do ser humano resultam na participação das diversas funções cognitivas encerradas na caixa craniana e muitas vezes dependem de fatores emocionais, que precisam ser melhor interpretados. As emoções desempenham papéis importantes na adaptação e na sobrevivência dos seres humanos. Elas nos ajudam a responder a desafios, tomar decisões e construir vínculos sociais (Daros, 2018). Muitas vezes na prática clínica, em um processo de avaliação neuropsicológica, por exemplo, durante a anamnese, já vamos montando uma hipótese clínica sobre o paciente e criando um protocolo de testagem para ser aplicado. De modo geral, as causas das doenças mentais têm duas possibilidades: ou são decorrentes de fatores cognitivos, que podem ser resultado de lesões, traumatismos e de questões genéticas ou hereditárias, ou decorrem de fatores emocionais. A correta identificação da causa será fundamental para a melhor estratégia de tratamento. Se for clínica, a intervenção medicamentosa poderá ser indicada; porém, se for emocional, a psicoterapia é a melhor opção, porque não existe medicação para problemas psicodinâmicos. As emoções podem ser definidas como reações afetivas agudas, momentâneas e desencadeadas por estímulos significativos. Assim, a emoção é um estado afetivo intenso, de curtaduração, originado geralmente como uma reação do indivíduo a certas excitações internas ou externas, conscientes ou inconscientes (Dalgalarrondo, 2000). 108 Unidade II Dessa forma, podemos destacar que as emoções são respostas do nosso corpo, que podem ser de ordem fisiológica (por exemplo: taquicardia, queda ou aumento da pressão), de ordem comportamental ou mesmo cognitiva, decorrentes de experiências que podem gerar sentimentos. Os sentimentos podem ser resultado de uma emoção, que é filtrada através das áreas cerebrais específicas, que produz alguma reação psicofisiológica. Etimologicamente, a emoção é um movimento; quando a efervescência emocional percorre o indivíduo, ele desperta sua atenção, colore positiva ou negativamente os sentimentos, induz modificações autonômicas (aceleração do pulso, rubor ou palidez do rosto...), endócrinas, musculares (crispação do rosto, sorriso...), e comportamentais (agitação, evitação e aproximação...) (Gil, 2002, p. 251). Como descrito, as emoções podem gerar várias reações corporais de um modo geral, mas tudo depende de como essa informação é interpretada e qual é a intensidade na vida do indivíduo. Um ponto importante de ser levantado é que, se você pergunta para uma pessoa se ela sabe o que é uma emoção, provavelmente ela responderá que sabe o que é; porém, se for solicitado para a pessoa definir o significado, talvez as respostas não serão as mais assertivas. É comum as pessoas responderem que a emoção é o que sentimos, mas, se levarmos uma pancada, ou um tombo na rua, isso pode ser considerado uma emoção? Isso serve de reflexão para um melhor entendimento. A resposta para a questão é não, porque, como descrito anteriormente, a emoção é muito mais do que uma simples sensação corporal, o processo emocional envolve sentimentos que têm ativação de funções fisiológicas e cognitivas que gerenciam o comportamento. Vamos imaginar que estamos andando em algum lugar e nos deparamos com um animal feroz na nossa frente, automaticamente o cérebro vai registrar a informação do animal, e uma série de mudanças corporais vai acontecer, como aumento dos batimentos cardíacos, boca seca, sudorese, se o intestino ou a bexiga estiverem cheios soltarão; ou seja, envolve uma relação com todo o corpo, de forma muito rápida, cerca de menos de um segundo, e nos move para uma ação. As emoções estão envolvidas na adaptação em um conjunto de situações fundamentais ligadas à sobrevivência do organismo. As emoções estão também ligadas às estruturas evolutivamente mais primitivas e não precisam da intervenção da consciência para ocorrer. A emoção pode ser considerada como uma função adaptativa do organismo associada a comportamentos do cérebro que auxiliam o organismo a se adaptar ao meio (Primi, 2003). 109 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR Pelo fato de a emoção ser um processo complexo, passa por pelo menos seis componentes, divididos na seguinte ordem: • Avaliação cognitiva: avaliação da pessoa sobre o significado pessoal de uma circunstância atual, que gera reações que representam outros componentes conectados de forma independente de uma emoção. • Experiência subjetiva: estado afetivo ou tom do sentimento que a emoção traz. • Tendências de pensamento e de ação: provocam a pensar e agir de determinadas maneiras, de modo particular. • Sistema nervoso autônomo: divisão do sistema periférico que controla o coração e outros músculos lisos. • Expressões faciais: contrações musculares que movimentam as características faciais, de acordo com o estímulo recebido. • Respostas à emoção: forma como as pessoas regulam, reagem ou lidam com as suas próprias emoções ou com a situação que as acionou (Nolen‑Hoeksema et al., 2012). Atualmente, as emoções são consideradas essenciais para a sobrevivência e importantes para a aprendizagem. Podem ser decorrentes de experiências vividas e influenciar o fato de sermos bem‑sucedidos, característica de uma inteligência emocional. A inteligência emocional tem sido tema de vários estudos. Muitos pensam que o conceito básico é a capacidade de simplesmente controlar as emoções, mas envolve muito mais, porque isso nem sempre é possível de forma direta – uma solução seria controlar comportamentos, o que pode alterar a questão comportamental. A noção de inteligência emocional depende da definição da inteligência, da emoção e de sua interação. Uma descrição bastante ampla diz que a inteligência é a capacidade de se adaptar ao meio. Os fatores cognitivos indicam áreas mais especializadas do funcionamento cognitivo que favorecem a adaptação. A inteligência cristalizada elevada está associada ao maior conhecimento de informações sobre a cultura, o que por sua vez facilita muito a adaptação. A inteligência fluida elevada está associada à capacidade de resolver problemas por meio da descoberta de relações entre várias informações disponíveis. Isso faz com que a pessoa tenha uma maior compreensão dos eventos complexos que a rodeiam, trazendo uma vantagem adaptativa (Primi, 2003). 110 Unidade II A relação entre inteligência e emoção é complexa e interdependente, influenciando a maneira como pensamos, tomamos decisões e interagimos com o mundo. Tradicionalmente, a inteligência era vista como uma medida do raciocínio lógico e da capacidade de resolver problemas (inteligência cognitiva ou quociente de inteligência – QI), enquanto as emoções eram vistas como reações sentimentais que, por vezes, até atrapalhariam o raciocínio. No entanto, estudos psicológicos e neurológicos demonstraram que as emoções desempenham um papel crucial na inteligência prática e adaptativa (Sousa; Salgado, 2015). Roberts, Flores‑Mendoza e Nascimento (2002) afirmam que a inteligência emocional se refere à capacidade de perceber, avaliar e gerenciar as emoções próprias e as dos outros. Este conceito, popularizado por Daniel Goleman na década de 1990, sugere que, além do QI, o quociente emocional (QE) desempenha um papel crucial na forma como as pessoas lidam com desafios, relações e decisões. A inteligência emocional pode ser vista em cinco pilares: • Autoconsciência: consiste em refletir sobre as próprias emoções e compreender como elas influenciam os pensamentos e comportamentos. Uma pessoa autoconsciente consegue identificar sentimentos em tempo real e perceber como eles afetam seu estado de espírito e suas ações. • Autogestão: refere‑se à capacidade de gestão de reações emocionais, especialmente em situações difíceis. Inclui competências como autocontrole, adaptabilidade, iniciativa e automotivação, que permitem reagir de forma ponderada e não impulsiva. • Motivação interna: a inteligência emocional implica ter um sentido de propósito que vai além de recompensas externas. Pessoas com alta inteligência emocional tendem a ser mais resilientes e persistentes, pois são impulsionadas pelo próprio desejo de crescimento e realização. • Empatia: é a capacidade de compreender e sentir as emoções dos outros. Uma pessoa empática transmite sinais emocionais sutis, o que ajuda a comunicar‑se melhor e a desenvolver relações mais saudáveis e harmoniosas. • Competências sociais: a inteligência emocional inclui habilidades de comunicação e de relacionamento interpessoal, como a gestão de conflitos e o trabalho em equipe. Pessoas emocionalmente inteligentes conseguem inspirar, liderar e colaborar eficazmente com os outros. Ter uma boa inteligência emocional é importante em todas as áreas da vida, desde o ambiente profissional até as relações pessoais. Para desenvolver essa competência, algumas práticas úteis incluem a meditação, o diálogo interno positivo, a prática da escuta ativa e a autorreflexão regular. Conforme comentado anteriormente, existem vários componentes dos processos emocionais, e nem sempre é possível descrever a quantidade de emoções existentes. A fim de tentar levantar algumas possibilidades, Carroll Izard (1977) isolou dez emoções básicas: felicidade, interesse/excitação, surpresa, tristeza, raiva,nojo, desprezo, medo, vergonha e culpa, sendo que a maioria está presente desde a infância (Myers, 2015). 111 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR 6.1.1 Teorias da emoção de James‑Lange James‑Lange propõe que a experiência da emoção deriva de nossa percepção das reações fisiológicas aos estímulos que despertam a emoção. As emoções são resultado das mudanças fisiológicas, produzindo sensações diferentes que o cérebro irá interpretar. William James e Carl Lange supunham que a resposta instintiva de chorar por uma perda nos leva a sentir tristeza; que atacar alguém que nos frustra resulta em nosso sentimento de raiva; e que tremer diante de uma ameaça faz com que sintamos medo. Para eles, cada emoção acompanha uma reação fisiológica ou visceral dos órgãos internos, chamada de experiência visceral. É esse padrão específico de resposta visceral que nos leva a nomear a experiência emocional (Feldman, 2015). Nessa teoria, primeiramente temos acesso ao estímulo, que nos provoca uma reação fisiológica no organismo, e depois vem a emoção. A emoção é concebida como a tomada de consciência das modificações fisiológicas que são provocadas por determinados eventos (Dalgalarrondo, 2000). Como exemplo podemos citar o fato de vermos um leão a nossa frente. Primeiro temos as sensações corporais de suor, taquicardia etc. (mudanças corporais), e depois sentimos o medo. Nessa teoria, a crença é de que a experiência emocional é uma reação a eventos corporais que ocorrem como resultado de uma situação externa (“sinto‑me triste, por isso estou chorando”) (Feldman, 2015). 6.1.2 Teorias da emoção Cannon‑Bard O fisiologista Walter Cannon considerou implausível a teoria de James‑Lange. Cannon e o fisiologista chamado Philip Bard concluíram que a resposta fisiológica e nossas experiências emocionais ocorrem ao mesmo tempo: o estímulo que deflagra a emoção é encaminhado simultaneamente para o córtex cerebral, causando a consciência subjetiva da emoção, e para o sistema nervoso simpático, provocando a excitação corporal (Myers, 2015). As respostas corporais não são distintas o suficiente para evocar emoções diferentes (taquicardia pode ser decorrência do medo, da raiva ou do amor, por exemplo). De acordo com essa teoria, depois que percebemos um estímulo que produz emoção, o tálamo é o ponto inicial da resposta emocional. A seguir, ele envia um sinal para o sistema nervoso autônomo, produzindo, assim, uma resposta visceral. Ao mesmo tempo, o tálamo também transmite uma mensagem para o córtex cerebral referente à natureza da emoção que está sendo experimentada. É importante que a mensagem enviada para o córtex cerebral difira de acordo com a emoção específica (Feldman, 2015). O tálamo é composto por duas massas neuronais de substância cinzenta situadas nas regiões mesiais dos hemisférios cerebrais. As funções mais conhecidas do tálamo relacionam‑se com sensibilidade, motricidade, comportamento emocional e ativação do córtex cerebral (Cosenza, 2012). 112 Unidade II 6.1.3 Teorias da emoção Schachter Stanley Schachter e Jerome Singer propuseram a teoria dos dois fatores da emoção. A experiência da emoção cresce a partir da consciência da resposta corporal. Nessa teoria, as emoções são determinadas conjuntamente por um tipo não específico de excitação fisiológica e sua interpretação com base nos sinais ambientais (Feldman, 2015). Para eles, a fisiologia e a cognição (percepções, memórias e interpretações) criam a emoção. Na teoria dos dois fatores, as emoções têm dois componentes: a excitação física e o rótulo cognitivo (Myers, 2015). Para exemplificar essa teoria, imagine que você está sendo seguido pelo carro da polícia e recebe o sinal para encostar, sem nenhum motivo aparente. A primeira reação seria um aumento dos batimentos cardíacos (fisiológico), e a parte cognitiva seria: “estou com medo” – ambas geram a emoção do medo. Observação É importante mencionar que a emoção é uma função de extrema relevância e, quando afetada, altera secundariamente as outras funções cognitivas. 6.2 Função psíquica e suas alterações As emoções se estruturam em três dimensões: valência (positivo/agradável; negativo/desagradável), alerta (calmo/tenso) e controle (possível ou impossível, como numa situação de pavor). Antecipações (conscientes) e avaliações emocionais (conscientes e inconscientes) influem nas decisões a serem tomadas e nos fatos que se impõem ao ser humano (Gil, 2002). Segundo Damásio (2000), o substrato para a representação de emoções está em um grupo razoavelmente restrito de regiões subcorticais, começando no nível do tronco cerebral, do hipotálamo, do prosencéfalo basal e da amígdala. Uma vez ativados nessas áreas, os padrões potenciais de atividade representarão, no cérebro, a emoção como um objeto neural, modificando o estado corporal, com a liberação de mensagens químicas, neurais e a ativação de áreas cerebrais, criando um estado emocional. Tomando como base essas informações, somos levados a pensar que as alterações emocionais dependem, acima de tudo, de como o indivíduo interpreta as informações que chegam do meio externo. Existem algumas teorias que descrevem que todos nós temos receptores para doenças mentais, mas nem todos os desenvolvem, porque existe a questão de o indivíduo ser mais suscetível a fatores muitas vezes estressantes e/ou tristes que abalam o estado emocional, gerando os transtornos mentais. 113 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR O estresse é uma reação do organismo que ocorre frente a situações que exigem alguma adaptação. Os estudos sobre estresses abrangem não apenas as consequências no corpo e na mente humana, mas também suas implicações para a qualidade de vida da sociedade. O estresse pode afetar a saúde, a qualidade de vida e a sensação de bem‑estar como um todo (Lipp, 2001). O estresse é uma reação fisiológica e psicológica do organismo a situações percebidas como desafiadoras ou ameaçadoras e que exigem alguma forma de adaptação. Essa resposta é natural e tem a função de preparar o corpo e a mente para enfrentar ou lidar com essas situações – sejam elas de natureza física ou emocional. De forma mais detalhada, o estresse envolve uma série de mudanças fisiológicas e comportamentais que permitem ao indivíduo se adaptar ou responder de maneira eficiente às demandas do ambiente. Essa resposta é mediada por sistemas complexos do corpo, especialmente pelo sistema nervoso e pelo sistema endócrino, e pode ser desencadeada por diversos fatores. • Desafios emocionais: problemas no trabalho, nas relações pessoais, preocupações financeiras, entre outros. • Demandas físicas: exercícios extenuantes, falta de sono, fome etc. • Fatores externos: situações de perigo iminente ou mudanças ambientais inesperadas, por exemplo. O processo de estresse • Fase de alerta (ou fase de alarme): quando o organismo percebe a ameaça, ou o desafio, ele ativa a resposta de “luta ou fuga”, que é mediada por hormônios do estresse, como adrenalina e cortisol. Isso resulta em mudanças fisiológicas imediatas, como aumento da frequência cardíaca, pressão arterial elevada, respiração acelerada e maior vigilância mental. Essas mudanças ajudam o corpo a se preparar para a ação rápida. • Fase de resistência: se o estressor continuar, o corpo entra na fase de resistência, na qual tenta se adaptar ao estresse prolongado. Durante essa fase, o sistema imunológico pode ser comprometido, e a pessoa pode começar a experimentar exaustão emocional e física, mas ainda tenta lidar com a situação. • Fase de exaustão: quando o estresse persiste por muito tempo, o organismo pode alcançar a fase de exaustão. Nesse estágio, os recursos do corpo para lidar com o estresse se esgotam, o que pode resultar em problemas de saúde graves, como doenças cardíacas, depressão, ansiedade e enfraquecimento do sistema imunológico. 114 Unidade II Tipos de estresse • Estresse agudo: resposta imediata e temporária a um estressor específico. É a forma mais comum e geralmentenão causa problemas em longo prazo se o estressor for resolvido rapidamente. • Estresse crônico: quando o estresse é contínuo ou recorrente e o corpo não tem tempo suficiente para se recuperar. Pode levar a uma série de problemas de saúde física e mental, como hipertensão, depressão, ansiedade e transtornos do sono. • Eustresse (estresse considerado como positivo): é o estresse que pode ser benéfico em determinadas circunstâncias, como antes de uma apresentação importante ou um evento desafiador, em que ele pode melhorar o desempenho e a motivação. • Distresse (estresse considerado como negativo): refere‑se ao estresse que sobrecarrega o indivíduo, criando sensações de angústia, insegurança e incapacidade de lidar com a situação, o que pode prejudicar a saúde física e mental. Aspectos psicológicos do estresse O estresse não afeta apenas o corpo, mas também o estado emocional e cognitivo da pessoa. Algumas reações psicológicas comuns ao estresse incluem: • ansiedade e preocupação excessiva; • irritabilidade ou raiva; • dificuldade de concentração e memória prejudicada; • sentimento de impotência ou desesperança; • alterações no humor, incluindo tristeza ou euforia. Impacto em longo prazo Se o estresse não for gerido adequadamente, pode desencadear uma série de problemas psicológicos e somáticos. Entre eles, incluem‑se: • Transtornos de ansiedade, como o transtorno de ansiedade generalizada (TAG) e transtorno do pânico. • Transtornos do humor, como a depressão entre transtornos associados ao estresse. • Doenças cardiovasculares, devido ao aumento da pressão arterial e à inflamação crônica. • Distúrbios do sono, como insônia e apneia do sono. 115 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR • Problemas digestivos, como síndrome do intestino irritável. • Enfraquecimento do sistema imunológico, tornando o corpo mais suscetível a infecções. Manejo do estresse Embora o estresse seja uma resposta natural e adaptativa, aprender a gerenciá‑lo de maneira saudável é essencial para a manutenção do bem‑estar. Algumas estratégias incluem: • Técnicas de relaxamento: meditação e respiração profunda. • Exercícios físicos: a prática regular de atividades físicas ajuda a reduzir os níveis de cortisol e melhora o humor. • Gestão do tempo e organização: melhorar a capacidade de gerenciar tarefas e prioridades reduz a sensação de sobrecarga. • Apoio social: conversar com amigos, familiares ou um profissional de saúde mental pode proporcionar alívio emocional. • Sono adequado: dormir o suficiente é crucial para o bem‑estar geral e a capacidade de lidar com o estresse. O estresse é um processo pelo qual percebemos e respondemos a certos eventos que julgamos ameaçadores ou desafiadores, ou seja, não é algo que acontece na hora, mas de algo que já vem acontecendo e simplesmente se manifesta, o que abre a possibilidade para vários problemas de saúde, dentre eles os transtornos do humor. 6.2.1 Transtornos de humor Transtornos nos quais a perturbação fundamental é uma alteração do humor ou do afeto, no sentido de uma depressão (com ou sem ansiedade associada) ou de uma elação (estado de alegria patológica e sensação de grandeza). Em geral, são acompanhados de uma modificação do nível global de atividade. O diferencial para se saber que se trata de um transtorno do humor patológico é quando existe uma síndrome (ou seja, um conjunto de sintomas) com duração e gravidade que levam a uma perda substancial da capacidade funcional do indivíduo. A maioria desses transtornos tende a ser recorrente, e a ocorrência dos episódios individuais pode frequentemente estar relacionada com situações ou fatos estressantes. 116 Unidade II Este grupo é composto pelas seguintes categorias no CID‑10: episódio maníaco, transtorno afetivo bipolar (TAB), episódios depressivos, transtorno depressivo recorrente, transtornos de humor (afetivos) persistentes, outros transtornos do humor (afetivos), transtorno do humor (afetivo) não especificado. Apresentam causas multifatoriais: fatores endógenos (neurobiológicos e genéticos) e fatores exógenos (psicossociais). Existe um modelo neuroanatômico de estruturas cerebrais envolvidas na fisiopatologia dos transtornos do humor, baseado nas suas funções de regulação, expressão e reconhecimento de emoções específicas, que corresponde ao: córtex pré‑frontal, amígdala, hipocampo, tálamo e gânglios da base. Os gânglios basais também estão relacionados ao desgosto, sensação comum nos enfermos com esquizofrenia e depressão. Em razão de suas funções motoras, os gânglios basais parecem também estar envolvidos na coordenação de respostas apropriadas ao estímulo original, tentando fazer com que o organismo alcance o seu objetivo (adoção de comportamento de aproximação ou de retraimento) (Esperidião‑Antonio et al., 2008). Saiba mais Para saber mais sobre o transtorno do humor e a neuropsicologia, sugerimos a leitura da indicação bibliográfica a seguir. FUENTES, D. et al. Neuropsicologia: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed, 2008. 6.3 Localização cerebral Existem vários circuitos relacionados às emoções que estão localizados em várias regiões no encéfalo, com inúmeras conexões com o córtex, os núcleos, as estruturas mesiais, o tronco encefálico e o cerebelo. As áreas cerebrais envolvidas nos processos emocionais estão localizadas nas estruturas mesiais dos lobos temporais e frontais, que seriam o hipocampo, o fórnix, os corpos mamilares, o hipotálamo, os núcleos talâmicos anteriores e o giro do cíngulo. Não podemos deixar de mencionar o sistema límbico, considerado como o sistema central na integração das emoções. O sistema límbico (circuito de Papez e, em particular, a amígdala e o giro do cíngulo) é o suporte das reações emocionais básicas (ou primárias), ligado à substância reticulada (que modula o alerta) e às estruturas corticais, que permitem as representações (visuais, auditivas...) e as avaliações (lobo frontal), adaptando o comportamento emocional em função da história e do meio ambiente próprio a cada indivíduo (Gil, 2002, p. 251). 117 PSICOLOGIA INTERDISCIPLINAR O hipocampo tem papel importante na expressão emocional, e o giro do cíngulo (no lobo frontal) seria uma região receptora da experiência emocional. Algumas estruturas cerebrais têm sido estudadas, para verificar a sua importância para as respostas emocionais, são elas: a amígdala, a porção medial do lobo frontal e o lobo parietal direito (Laks; Rozenthal; Engelgardt, 1996). Ele exerce importantes funções relacionadas ao comportamento e à memória. Pessoas submetidas à remoção bilateral dos hipocampos conseguem acessar a memória aprendida, mas não conseguem aprender qualquer informação nova. Essa área também está integrada à tomada de decisões, pois, quando o hipocampo interpreta um sinal neuronal como importante, provavelmente essa informação será armazenada na memória. A amígdala, situada na região temporal medial, é ativada em situações com marcante significado emocional, como encontros agressivos ou de natureza sexual; está também relacionada aos aprendizados emocionais e ao armazenamento de memórias afetivas. Ademais, a amígdala é responsável pela formação da associação entre estímulos e recompensas e durante muito tempo foi marcada pela função de identificação de medo. A área pré‑frontal vem sendo considerada a “sede” da personalidade. Essa estrutura participa na tomada de decisões e na adoção de estratégias comportamentais mais adequadas à situação física e social; ademais, parece estar relacionada à capacidade de seguir sequências ordenadas de pensamentos e a modalidades de controle do comportamento emocional (Esperidião‑Antonio et al., 2008). O giro do cíngulo, localizado na porção medial dos lobos frontais, é uma região envolvida de modo estratégico no controle das emoções. O lobo parietal direito recebe projeções da amígdala, permitindo que os estímulos emocionais sejam integrados a aspectos objetivos da consciência e da memória declaratória (consciente)