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Cultura e contemporaneidade
1. Unidade 2 - Identidade cultural, memória e coexistência plural
Introdução
Nesta segunda unidade, veremos que a construção da identidade é fundamental para o posicionamento de qualquer agente social no mundo contemporâneo. O que lhe permite construir memórias e narrativas individuais e coletivas, percebendo o seu pertencimento ou não a um universo cultural, dando luz à diversidade cultural. Ao mesmo tempo, ao se estabelecer essas barreiras culturais, muitos conflitos podem ocorrer por conta da intolerância causada pelo etnocentrismo. Como saída para esse problema, temos que buscar uma coexistência plural, respeitando a diversidade cultural.
1. O que é Identidade Cultural e como se constrói o conceito na contemporaneidade?
2. Por que na contemporaneidade, em especial com a aceleração do processo de Globalização, houve um aumento dos conflitos de identidade?
3. Com o incremento dos conflitos etnocêntricos cada vez mais patentes na contemporaneidade, qual seria o caminho para o respeito à diversidade cultural?
Objetivos
Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de:
· Reconhecer as instituições sociopolíticas enquanto territórios de intercâmbio, cruzamentos, conflitos e coexistência da diversidade cultural, atendendo ao desafio contemporâneo da coexistência das diferenças.
Conteúdo Programático
Esta unidade está dividida em:
· Aula 1 - Identidade: categoria conceitual que se afirma para a compreensão da diversidade. Narrativas culturais e memória: o reconhecimento de si e do outro
· Aula 2 - Conflitos de identidade: processo etnocêntrico e intolerância
· Aula 3 - Diversidade: o desafio contemporâneo da coexistência plural
Bob Marley, um dos maiores artistas populares da contemporaneidade, ficou marcado por suas letras de protesto contra a ordem vigente. Em suas músicas, denunciava os problemas do mundo contemporâneo, entre eles a guerra, título de uma de suas músicas (War), que fez parte do álbum Rastaman Vibration, de 1976. Na primeira e terceira estrofes podemos ver os seguintes versos:
“Até que a filosofia que torna uma raça superior
E outra inferior, seja enfim permanentemente
Desacreditada e abandonada haverá guerra,
Eu digo guerra.
[...]
Até que todos os direitos básicos
Sejam igualmente garantidos para todos,
Sem privilégios de raça, terá guerra.”
Aula 1 - Identidade: categoria conceitual que se afirma para a compreensão da diversidade. Narrativas culturais e memória: o reconhecimento de si e do outro
O título de nossa primeira aula começa com a palavra “identidade”, que na verdade se apresenta como um conceito. Todos temos uma identidade. Se lhe perguntarem qual ou quais são as características que temos e que nos são fundamentais para a construção de nossa(s) identidade(s), saberemos responder. Mas, será que sabemos exatamente o que é identidade? Como ela é construída?
Por outro lado, o referido título, evoca a palavra “memória”. Do mesmo modo, todos temos uma memória. Mas será que sabemos como ela opera? Como e quando ela é ativada?
O tema é fundamental, posto que, como vimos na primeira unidade deste Roteiro de Estudos, o processo de globalização aproximou inúmeras sociedades e culturas, portanto identidades culturais diversas.
O conceito de identidade começou a adentrar com mais ênfase nas ciências sociais na contemporaneidade quando se procurava analisar alguns problemas oriundos da globalização. Com ele vieram alguns adjetivos, como identidade cultural, identidade nacional, identidade étnica, identidade social etc.
No que nos interessa aqui, iremos enfatizar a identidade cultural. Já estudamos o que é cultura, nos resta entender o que é identidade e como ela se constrói.
Para uma primeira aproximação, podemos pensar em nossa Carteira de Identidade, documento oficial que identifica o cidadão no Brasil. Nela temos uma série de dados como nome, filiação, data de nascimento, naturalidade etc. Todas essas informações irão acompanhar o indivíduo por toda a sua vida, sendo, portanto, fixos. Mas, será que a identidade é realmente fixa? Valeria por toda uma vida?
Podemos começar a tentar responder essa resposta nos apropriando da ideia do senso comum, que define a identidade a partir da percepção de um indivíduo de que ao longo do tempo mantém algumas características. De modo a se tornar único e por oposição diferente dos demais. Tal como o exemplo acima.
Mas, em se tratando de identidade cultural na contemporaneidade (o tema de nosso curso), temos que levar em consideração outros elementos que são capitais como a maneira pela qual o indivíduo/grupo representa o seu passado, as condutas, os atos que praticou e como planeja seu futuro. Quando esse processo ocorre de modo compartilhado, ou seja, quando um determinado grupo de pessoas mantém essas mesmas características ao longo de um tempo, passamos a ter não mais uma identidade individual, mas uma identidade cultural.
 
Um dos teóricos mais importantes a respeito da identidade é Stuart Hall. Ele queria conceituar o termo “hibridização”. Como os demais, estava preocupado com as questões oriundas da globalização, mais precisamente com a chamada descolonização ou movimentos pós-coloniais, quando as antigas colônias europeias, localizadas sobretudo nos continentes africanos e asiáticos, constituíram-se como nações independentes no pós-guerra.
O autor sublinhou que as ciências sociais e humanas têm revisto o conceito de identidade colocando em xeque a ideia de que ela seria “integral, originária e unificada”.
Tal questionamento levaria ao abandono de uma visão a respeito da identidade (incluindo as identidades étnica e cultural) calcada numa racionalidade do sujeito que opera e constrói a sua identidade. Todavia, essa crítica esbarra em dois problemas em relação ao conceito:
1. Surgiu em um contexto que fora superado, mas, no entanto, não se criou nenhum outro conceito que pudesse ser usado em sua substituição.
2. Diz respeito à impossibilidade de “enquadrar” a ação do indivíduo dentro dos limites da identidade, não havendo um ajuste de suas ações a uma totalidade a qual pertence. Mas, entender que as ações por vezes são realizadas fora de uma expectativa relacionada à identidade a que pertence, sendo paradoxal.
Deste segundo ponto emerge uma série de questões apontadas pelo autor, uma das quais a substituição do conceito de “identidade” por “identificação”. A identificação possui uma série de elementos herdados da psicologia freudiana, como a idealização e a ambivalência.
Além do mais, ao contrário do que afirmou Kalina Silva e Maciel Silva, a identidade não decorre da manutenção das características ao longo do tempo e de forma única. O que contraria também a ideia presente no senso comum e apresentada acima. As características, na verdade, são mutáveis e fragmentadas.
No mundo globalizado, a formação das identidades culturais, sobretudo as ligadas a grupos que foram forçados a migrarem de suas regiões de origem, utilizam a história como uma ferramenta que lhes confere uma unidade. Todavia, o que temos que ter em mente é que o analista social não pode ver essa instrumentalização do passado de modo que torne este grupo engessado naquela temporalidade. Ou seja, os membros do grupo não estão preocupados em perceber como o grupo é, mas o que se tornou, como está sendo representado e como essa representação afeta o grupo. 
 
Tal mecanismo leva a rever um conceito importante para a identidade e que também está ligado a temporalidades pretéritas, a noção de tradição. Ela deixa de ser vista como algo que perdura no tempo para ser encarada como algo que se (re)itera, que se (trans)forma. De tal modo que preservar essa tradição não significa voltar às raízes, mas entender como essa tradição inventada (fantasiada, ficcional) foi construída.
Em outras linhas, não se busca viajar ao passado para pegar essa tradição materializada e trazê-la para o presente, tal como se fosse um objeto concreto. Mas ir além.Procurar entender como essa tradição pretérita foi manipulada, lapidada, lasqueada, envernizada etc. até chegar ao presente. Para Stuart Hall as identidades culturais seriam pontos de encontros entre um discurso que nos obriga a nos situarmos em um lugar social, que possui um significado próprio, e a própria subjetividade do ator social. Quando um ator atribui-se ou a ele é atribuído uma identidade cultural assume uma determinada posição social, que não deixa de ser uma representação construída não pelo que ela é, mas por aquilo que não é. Deste modo as identidades culturais não podem nunca ser iguais já que eivada de subjetividade e do lugar que o sujeito ocupa. Além mais como os sujeitos ocupam vários lugares sociais possuem várias identidades, que podem ser ambíguas e contraditórias. Como também depende das subjetividades, que sempre se apresentam mutáveis, dos autores, elas são temporárias.
 Nesse processo de construção da identidade cultural a memória é fundamental. Mas, assim como a identidade, seu conceito apresenta uma série de características que precisam ser mais bem detalhadas.
A memória é um termo polissêmico, portanto, com vários significados, que opera termos ambíguos, como nos lembra Margarida de Souza Neves. A autora destacou que o conceito trabalha com “o tempo lembrado e o tempo da lembrança; o individual e o coletivo; o registro e a invenção; o material e o simbólico; a rememoração e o esquecimento; as paixões e os interesses; a informação e o ocultamento; a razão e a emoção [...]” (2009, p. 22).
Nossos pais, por exemplo, nos trazem vivências que estão em nossa memória, mas de certo modo “adormecidas”. Grupos sociais também podem ter papel similar. Eles evocam experiências, que poderíamos chamar de história ou de narrativa cultural, para fazermos mais uma vez menção ao título de nossa aula, que não foram vividas por nós, mas nos reconhecemos naquelas pessoas que as vivenciaram e as construíram.
 Desse modo, grupos sociais como escolas, amigos, colegas de trabalho, pessoas que compartilham de nossa crença religiosa, a mesma orientação sexual, a mesma faixa etária, a mesma etnia etc. também estariam no grupo dos próximos. Por isso são chamados de próximos, porque realmente estão muito próximos, tanto do indivíduo como do coletivo. Sua importância também resulta no fato de que são eles que nos permitem descobrir a diversidade e a alteridade do mundo que nos cerca.
Todavia, temos que fazer algumas considerações importantes a respeito desse conceito. Alguns críticos sublinham o fato de que a sociedade contemporânea dá muito espaço para a memória, cultuando por demasia o passado, de modo que paralisaria as suas ações no presente, acondicionando a sociedade ao passado de forma melancólica. Esse problema em parte é fruto do próprio processo de globalização, que legou à sociedade contemporânea a total descrença, a desesperança e a morte das utopias. Outro ponto em relação à memória diz respeito às obsessões comemorativas, que enfatiza marcos históricos, como se fosse possível revivê-los e relembrá-los tal qual foram. Busca-se com esse movimento resgatar sociedades “perfeitas”, nas quais as angústias do mundo contemporâneo não se apresentariam.
Uma saída possível desse labirinto é utilizar a memória, apresentada sob forma de narrativa, para adotar uma posição, tanto individual como coletiva, empreendedora frente às questões da contemporaneidade. Assim, deve-se compreender e esclarecer o passado, mas o foco principal não reside naquela temporalidade e sim no presente. Afinal, vivemos no presente.
É preciso encarar que as identidades culturais e a memória coletiva são dinâmicas, não homogêneas, complexas, possuem relações de poder (externamente e internamente), estão preocupadas muito mais com o presente, não pretendem ressuscitar o passado e nos permitirão entender como a diversidade cultural se apresenta no mundo contemporâneo de modo dialógico, fomentando a “hibridização” cultural ou causando conflitos etnocêntricos calcados na intolerância cultural.
Aula 2 - Conflitos de identidade: processo etnocêntrico e intolerância
Como vimos, com a intensificação do processo de globalização, as diversas culturas existentes no mundo passaram a ter mais contato. Em resposta a esse movimento tivemos dois processos. Um primeiro, o processo de “hibridismo cultural”. E, o segundo, em que os conflitos e as tensões se tornam mais claros, calcado no etnocentrismo e na intolerância para com o “outro”, ou seja, aquele que não compartilha de sua cultura e em sua grande maioria acabam gerando conflitos, muitos dos quais violentos.
Esta aula vai discutir alguns pontos que dizem respeito aos conceitos de etnocentrismo e intolerância, de modo que possam ser úteis quando, nas aulas e unidades, estudarmos alguns dos conflitos de identidade culturais existentes na contemporaneidade e como poderemos superá-los.
O conceito de etnocentrismo talvez seja o mais fácil de trabalhar dentre os que foram apresentados e os que ainda veremos ao longo deste curso. Poderíamos rapidamente começar a defini-lo buscando o significado etimológico da palavra Etnocentrismo.
O passo inicial seria desmembrá-lo em dois termos (CUNHA, 2012, p. 274 e 142):
Assim facilmente veríamos que Etnocentrismo foi um conceito criado pelas ciências sociais e humanas para dizer que a cultura de um determinado povo seria central, o ponto de partida. Todavia, não basta dizer que a cultura é uma chave de entendimento de um povo, de uma sociedade.
Mas de que cultura estamos falando? De quem analisa ou de quem é analisado?
Rapidamente, não hesitaríamos em responder que dos dois, tanto do analista quanto do analisado. O analista pode ter uma visão etnocêntrica da cultura que observa. Por sua vez, o analisado também pode ter um olhar etnocêntrico ao se deparar com outras culturas, como denunciaria o analista não etnocêntrico.
Tal fato enseja alguns problemas que serão discutidos nesta aula, mas o fundamental é pontuar que ambos partem da questão central do conceito, ou seja, da visão de determinado povo de que sua cultura é a mais importante, correta, perfeita, excelente e normal. De modo que quem não lê o mundo por essa cultura estaria em um grau de humanidade menor ou não estaria nem mesmo nesta categoria. Mas a questão não é tão simplória assim.
A visão etnocêntrica acarreta, portanto, em um posicionamento em relação às demais culturas em que os seus referenciais culturais são centrais. Ao pensar e refletir sobre as demais culturas, levamos nossa maneira de entender o mundo para outras sociedades. O que mostra a imensa dificuldade de lidar com a diferença e o diferente e pensar a seu respeito. Mas, o problema não se restringe à esfera do pensamento da abstração, ele também se materializa quando se precisa estabelecer relações sociais com indivíduos de outras culturas. Nessa relação acabamos por estranhar, apresentar hostilidades e até ter medo do outro pelo simples fato de ser diferente.
Portanto, longe de ser apenas uma questão abstrata, entendida como não sendo algo prático e palpável, o etnocentrismo se apresenta de forma objetiva, mesmo que no campo dos sentimentos, que não deixam de ser abstrações, mas que se expressam em ações concretas. Cabe sublinhar que ao estudar a história da humanidade a questão do etnocentrismo aparece de forma constante, assim como em nosso cotidiano mais elementar.
Dessa maneira, o que temos que salientar, se realmente quisermos construir um mundo “solidário” e “democrático em sua plenitude”, mais justo e menos excludente, é que há a necessidade de se entender como se expressam esses etnocentrismos, qual a sua razão, como atuam nas emoções, nos sentimentos das pessoas etc.
Uma saída possível é romper com o silêncio do “outro” quando o tratamos de modo etnocêntrico. Dito de outra forma, geralmente, quando abordamos o “outro” o fazemos por meio de uma representação criada por nós mesmos, e não a empreendida pelo“outro”. Negamos assim o caráter humano de fala do “outro”, já que o consideramos incapazes de se expressarem e formularem uma visão de mundo. Nessa representação que fazemos, não há nenhuma barreira, nenhum limite, tudo é possível de acordo com a intenção que se tem ao criar aquela representação.
Cabe ainda dizer que esta representação fica à mercê de uma lógica ideológica e de contextos que não estão ligados à cultura representada. Passam a ser instrumentos que podem ser manipulados de modo ambíguo, podendo ser positivada ou negativada, como é feita na maior parte das vezes.
Cabe lembrar que o etnocentrismo não ocorre apenas nas relações de culturas externas, também pode se expressar em relações dentro de uma mesma cultura com grupos/classes sociais diferentes. Desta feita se faz uma representação estereotipada a respeito de determinados grupos/classes sociais que em nosso cotidiano mais comezinho apresentam diferenças que resultam em conflitos, tais como mulheres, velhos, homossexuais, negros, pessoas que praticam determinadas religiões etc. 
lguns autores pontuam que o primeiro passo para o início da globalização teria acontecido ainda na Idade Moderna (1453-1789), na chamada Era dos Descobrimentos, cujos movimentos mais importantes foram a descoberta da América por Cristóvão Colombo (1492), a chegada de Vasco da Gama às Índias (1498) e a descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral (1500). Esses acontecimentos levaram os europeus a travarem contatos com uma imensa gama de culturas diferentes. Assim, muitos pensadores da Modernidade, que ficaram conhecidos como Renascentistas, naturalmente com os olhos da Modernidade, logo começaram a tentar entender aquelas inúmeras culturas.
Nesse movimento, com intensidade bem menor que o da Globalização, houve alteração das fronteiras, contato com outros povos e culturas, desenvolvimento de tecnologias que diminuíram as distâncias espaciais e de comunicação. Mas, para o que nos interessa aqui, o europeu se relacionou com os “outros” vendo-se obrigado a pensar a diferença. O momento foi crucial porque nascia de modo bem embrionário a necessidade de se formular um pensamento a respeito das diferenças, embora ainda de um jeito muito informal e sem rigores conceituais.
Essa época, que também ficou conhecida como a era da “Descoberta do Homem e do Mundo”, deve-se destacar igualmente que não foi importante apenas porque o homem europeu conheceu e se deparou com outras culturas. Mas, porque ao olhar os “outros” obrigava-se a olhar para dentro, o que o levou a descobrir a si mesmo e a questionar alguns de seus valores e atitudes.
O discurso sobre o “outro”, na verdade, começará a ganhar corpo em outro momento importante para os europeus, quando houve uma reestruturação das suas áreas coloniais. Dessa forma, se a época dos descobrimentos, na Modernidade, inaugurou o colonialismo, o século XIX, na contemporaneidade, com a supremacia dos países capitalistas industriais, daria início a outro tipo de contato que ficou conhecido como Neocolonialismo ou Imperialismo. Foi o momento em que determinadas áreas do globo ainda não tocadas ou tocadas de forma muito superficial por aquele primeiro processo de dominação, o colonialismo, passaram a ser controladas pelos países europeus, sobretudo na África e na Ásia.
Mais um passo de expansão e domínio da cultura europeia ocidental frente às demais expressões culturais fora dado, o que para diversos autores também se insere no processo de globalização.
O choque cultural propiciado pelo “outro” novamente veio à tona. No entanto, já não era mais calcado em uma visão de mundo religiosa, mas científica, na qual o cientificismo deveria explicar o mundo. Surgia a Antropologia, com a preocupação de compreender e elucidar o funcionamento das diferentes culturas.
Questão esta que tinha a preocupação de hierarquizar as culturas. No bojo desse processo, surgiu o conceito de Evolucionismo Social. O termo “Evolucionismo” havia sido cunhado naquele mesmo século pelo cientista natural Charles Darwin e tentava explicar por meio de uma metodologia científica a origem e a evolução das espécies, que, em suma, poderia ser resumida ao fato de que somente as espécies mais bem adaptadas ao meio ambiente evoluem e por conta disso se perpetuam no tempo conseguindo se reproduzir e transmitir as suas características para as futuras gerações.
A ideia do evolucionismo foi levada para a Antropologia que acabou por formular a ideia de que a cultura europeia ocidental era mais desenvolvida, mais civilizada que as demais. A noção de progresso passou a guiar as análises antropológicas e as sociedades foram classificadas de acordo com o seu grau de evolução.
Alguns antropólogos evolucionistas observavam o caminho que levou as sociedades do primitivismo à civilização. Para isso identificavam em seu seio a existência de estruturas políticas formais. A humanidade teria percorrido um caminho de sociedades sem Estado, portanto sem política, até o aparecimento de sociedades possuidoras de Estados complexos, centralizados, hierarquizados e ordenados, tal qual os europeus do século XIX. Mas, as sociedades primitivas, na infância da humanidade, não teriam desaparecido nos oitocentos, elas estariam naquelas áreas coloniais (África e Ásia), onde uma série de características negativas, aos olhos dos europeus, lhes eram atribuídas como a barbárie, o paganismo, o atraso, a ignorância (falta de ciência) etc. Como dever civilizacional, cabia aos países europeus civilizados, na fase madura da humanidade, o ônus de “salvá-las” do atraso, levando à civilização. Tal visão caracteriza um olhar etnocêntrico, uma vez que estabelece como fator mais importante da cultura o elemento político, que seria universal e não particular.
Apesar dos problemas etnocêntricos apontados, Everardo Rocha (1984) observa um ponto positivo a respeito dessa visão evolucionista. Essa antropologia do século XIX, no que pese ter tachado o “outro” de primitivo, reconheceu que o mesmo fazia parte da natureza humana, tal qual o europeu.
Uma das formas de expressão do etnocentrismo é a intolerância. Essa, por sua vez, nada mais é do que a não aceitação de qualquer elemento ou contato com o “outro”.
Movimentos de intolerância podem ocorrer nas mais variadas escalas, seja por exemplo pelo genocídio de um povo (localizado dentro ou fora das fronteiras do Estado-nação a que pertenço) ou na perseguição ao meu vizinho que professa uma religião diferente da minha.
A resposta dada pelos que sofrem a intolerância também se apresenta diversa. Pode resultar ainda em mais violência, desde a simbólica até a física, ou no silêncio total da vítima.
Aula 3 - Diversidade: o desafio contemporâneo da coexistência plural
Como o próprio título da aula enfatiza, nós que vivemos em uma sociedade contemporânea temos um desafio, qual seja: a construção de uma sociedade na qual possa existir e se manifestar de modo pacífico as diferentes expressões culturais. Para isso, algumas barreiras devem ser vencidas, como o etnocentrismo que se manifesta na intolerância, como visto na aula passada. Desse modo cabe à sociedade desenvolver políticas públicas que atuem na questão apontada.
Porém, para pensar essas questões alguns pontos têm que ser revistos e derrubados. Um dos quais é a herança que ainda temos hoje da importância do tempo, ou melhor, da história, como uma linha evolutiva teleológica. Como vimos na aula passada, era por meio do tempo que se poderia visualizar o desenvolvimento dos povos/culturas na escala civilizacional.
 
Ao abandonarmos essa noção, podemos entender que cada uma das sociedades e de suas culturas são uma expressão do particular. O fato abre espaço para a relativização das sociedades/culturas, na medida em que cada uma caminharia por trilhas que lhes seriam próprias e únicas. Desse modo, por exemplo, pode-se entender que ao contrário da noção de tempo linear, baseado em causas e consequências que possuímos, diversas sociedades produziram, produzem e produzirãooutras relações com o tempo.
ou seja, um tempo “perfeito” anterior a esse vivido, que deve servir de espelho (modelo) e, portanto, sempre sendo reproduzido.
O processo é muito difícil e por vezes impossíveis de ser compreendido. Afinal, estamos acostumados com esse tempo linear e que não tem volta, o que torna bastante difícil visualizar um tempo circular em que as coisas se repetirão.
A questão abre uma discussão: como lidar com essas diferenças? As análises e as ferramentas analíticas precisam dar conta dessa complexidade de sociedades/culturas. Novos conceitos precisam ser formulados, velhos conceitos precisam ser esquecidos ou (re)formados. É esse processo que permitirá um novo olhar para o “outro”, para que se possa entendê-lo por ele mesmo, e não explicá-lo por nós. De tal modo que não se buscam mais leis gerais, mas sim interpretar a maneira pela qual as inúmeras sociedades procuraram viver suas vidas, ou seja, produziram suas próprias culturas.
Conhecer essas culturas é fundamental porque são experiências sociais e culturais do vivido que podem servir de modelos alternativos à nossa própria sociedade e cultura. O “outro” então ganha um novo patamar. Deixa de ser o que precisa ser “educado”, “civilizado” para ser o que pode nos ensinar a construir uma sociedade melhor. Deve-se destacar aqui que também está por se (re)fundar o conceito de cultura. Ou seja, a abertura para que o “outro” também seja produtor de cultura, a criação de sentidos e significados criados pelos homens para os seus atos, desde os mais simples e banais aos mais complexos.
 Esses significados aprisionam seus produtores de modo que orientam as suas ações. É por meio da análise desses significados que se pode extrair dados sobre determinada sociedade, que evidenciaram quem ela é, o que pensa, o que faz.
Esses ensinamentos são importantíssimos para que se possa na contemporaneidade construir sociedades que respeitem a diversidade cultural com a implementação de uma coexistência plural. Para isso, devemos levar essa visão para diversos níveis de escala. Sejam as internacionais, as interétnicas, na relação com o colega de trabalho, com o vizinho etc. O que comumente não é feito! Tal mecanismo permitirá que os indivíduos pertencentes à “minha” sociedade ou às “outras” sociedades reconheçam que as diferenças entre ambos são escolhas, dentre infinitas possibilidades, e que respeitá-las é um ato de generosidade e de humanidade. Só assim se poderá romper a visão hierarquizante das culturas pertinentes, a visão etnocêntrica.
Todavia, como dito na introdução desta aula, para que se construa um mundo mais plural, há a necessidade de se desenvolver políticas públicas que tenham esse objetivo. Elas não pairam no ar, no etéreo, são formuladas por indivíduos, que estão inseridos nessas mesmas sociedades nas quais as políticas irão atuar. Desta feita, é desnecessário sublinhar que todas as características da sociedade contemporânea, mesmo aquelas que se queira combater, estarão presentes nas referidas políticas. Muitas dessas características já foram apresentadas ao longo de nossa disciplina, mas aqui iremos tratar de duas delas.
		Cotidiano das escolas
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	Relações aluno-aluno
	
	
 
Em ambas as visões há um consenso, de que a diversidade cultural é um patrimônio da humanidade e por isso deve ser preservada. Ao contrário do que o senso comum postula, organizações globais, como o próprio Banco Mundial, se preocupam, defendem, adotam e incentivam políticas que têm como norte esse posicionamento.
Dentro do processo de globalização, que conta com a participação de instituições com atuação global, como o referido Banco Mundial, há a necessidade de se trabalhar com a diferença, na medida em que tem que atuar em variados contextos culturais. Precisam conciliar os interesses globais com os interesses particulares, muitas das vezes, em vez de reproduzir uma homogeneidade, organizam a diversidade. Em suma, essas instituições globais, no seu cotidiano, lidam de forma intensa com as diferenças culturais.
 Nesse sentido, a diversidade cultural entra na ordem do dia no mundo contemporâneo. Walter Mignolo (2000) destacou que esse fenômeno pode ser chamado de “diversalidade”, ou seja, um projeto universal de respeito às diversidades que se apresenta como uma alternativa contrária ao movimento de homogeneidade cultural que expressaria os interesses das classes globais hegemônicas. A “diversalidade” seria a compreensão de que a diversidade cultural é a chave para a criatividade, a busca de uma sociedade cosmopolita crítica que procura dialogar com o particular e o global, e não a adoção de um modelo que se pretende único para toda a humanidade.
Mas levar em consideração que a diversidade cultural deve ser um bem universal, ou seja, algo buscado por todos enseja a manutenção do mesmo problema presente na globalização, qual seja: como lidar com a relação entre o global e o fragmentado?
No seio dessa discussão uma questão a ser observada é que algumas conotações que nos parecem universais, tais como muitas das combatidas pelos que lutam a favor da diversidade cultural, surgiram dentro de expressões culturais ocidentais, portanto de culturas fragmentadas que se tornaram globais, porém calcadas no etnocentrismo. Desse modo, até que ponto “direitos humanos”, “democracia”, “desenvolvimento material”, “desenvolvimento tecnológico”, “cientificismo”, “competição”, “racionalidade”, “empreendedorismo”, “mercado” etc. devem ser valores globais?
Tais valores não evidenciariam relações de poder de quem os define? Não seriam uma expressão da capacidade das sociedades ocidentais em definir o que é desejável para as demais culturas, impondo um etnocentrismo disfarçado e solapando as diferenças culturais? Essa imposição de valores globais não caracterizaria um monopólio cultural? Não seria um meio de (re)produção das elites globais? Tais questionamentos foram feitos de forma brilhante pelo antropólogo Gustavo Lins Ribeiro (2009).
Resgatando a questão proposta, em relação ao modo de lidar com o global e o fragmentado, Ribeiro (2009) aponta que a melhor saída seria o que chamou de “particularismo cosmopolita”. Um discurso que traz em si as questões globais e que tem a pretensão de ser incorporado pelas outras culturas. A ideia “cosmopolita” se insere no que foi dito acima, um conceito europeu que se pretende universal, enfatiza um conjunto ou uma determinada característica que extrapola as fronteiras nacionais e se impõe ao globo. Encara a diferença cultural de forma positiva e luta para que essas diferentes sociedades consigam estabelecer diálogos e trocas de modo igualitário, criando solidariedade entre os povos.
Todavia, dentro desse quadro há uma tensão fruto de sua ambiguidade, visto ser muito difícil (re)conciliar valores globais com os particulares, devido aos diferentes processos históricos e culturais existentes. O discurso de solidariedade faz com que esse particularismo seja o mais facilmente aplicável, tanto para quem defende o processo de globalização como para quem luta contra ele. São adotados por instituições de alcance global, que podem ser divididas em duas esferas.
1. Uma de natureza homogeneizadora, empreendida por instituições ligadas ao capitalismo transnacional que adotam políticas neoliberais. Defendendo o fortalecimento de agências e instituições globais como: o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, a Organização Mundial do Comércio etc. Encaram a diferença cultural como ferramenta para uma estratégia de mercado e como uma maneira de melhorar a sua governança nos locais em que vão atuar.
2. Intelectuais e pensadores que lutam por uma outra globalização de forma mais crítica, defendendo a heterogeneidade e o fortalecimento dos agentes locais. Estes postulam que deveria haver uma sociedade civil global que regulasse e controlasse o poder das elites globais.
No entanto, as duas esferas adotam o discurso da globalização e seus corolários, como visto acima. Apropriam-se de ferramentasglobais para o fortalecimento e a divulgação de suas ideias, como o avanço tecnológico, sobretudo o da área de comunicação (mídias sociais).
O importante a destacar é que ambas as visões creditam a esse processo a sua faceta política e a urgência de que os atores sociais devam se articular em níveis transnacionais por meio de redes. Como são cientes de que não é possível lidar com toda a complexidade das culturas e de suas manifestações, acaba-se por privilegiar determinados campos/assuntos/abordagens em relação a outros. O que é fruto de escolhas calcadas em relações de poder. Tal característica fica mais clara naquela primeira esfera descrita acima, de modo a se ter uma visão teleológica de que a globalização é inevitável e não tem como haver um processo diferente.
Os discursos globais precisam ser criados e legitimados por instituições, cuja preocupação não poderia ser a de que são positivos para a humanidade. O que levou Ribeiro (2009) a defini-los como “Discursos Fraternos Globais”. São formulados por instituições de diversas naturezas, seja política stricto sensu, religiosa, ONGs, acadêmicas etc. Todavia, será que sempre foram benéficos? Não, responde o autor, lembrando que a história da humanidade está cheia de conflitos e guerras motivadas por questões religiosas e políticas. Então a questão passa a ser a seguinte: no que pese a competição entre os discursos formulados por essas instituições, todos evidenciam a importância da diversidade cultural como sendo um dos caminhos para a fraternidade, para a coexistência plural, para o respeito às diferenças.
Encerramento
O que é Identidade Cultural e como se constrói o conceito na contemporaneidade?
A identidade cultural é um conceito que contempla as relações sociais estabelecidas no seio de uma dada sociedade e que, naturalmente, está ligada ao seu processo e momento histórico, sendo, portanto, dinâmica, ao mesmo tempo que é partilhada por membros de um determinado grupo.
Por que na contemporaneidade, em especial com a aceleração do processo de Globalização, houve um aumento dos conflitos de identidade?
Com o processo de Globalização se intensificando cada vez mais na contemporaneidade, diversos grupos culturais, independentemente do recorte que se faça, acabaram por (re)afirmar suas identidades culturais, o que acarretou um processo de luta contra o etnocentrismo, aumentando os conflitos que têm por base a intolerância.
Com o incremento dos conflitos etnocêntricos cada vez mais patentes na contemporaneidade, qual seria o caminho para o respeito à diversidade cultural?
Para que a humanidade consiga alcançar a fraternidade, valor que muitos consideram universais, faz-se necessário vencer o grande desafio contemporâneo que é o respeito à diversidade cultural. Desta feita, poder-se-ia combater o etnocentrismo, contribuindo para a diminuição dos conflitos gerados pela intolerância.
Resumo da Unidade
Nesta unidade estudamos que a construção do conceito de identidade cultural é fundamental para que o indivíduo se posicione frente aos problemas do mundo contemporâneo. Para isso, utiliza várias ferramentas, como a memória e as narrativas individuais e coletivas, é ambivalente, fragmentada, expressa relações de poder, além disso não é racional. Embora seja um conceito formulado antes da contemporaneidade, continua sendo utilizado pela ausência de outro melhor. Essa nova maneira de encarar a Identidade Cultural também leva ao questionamento do conceito de “tradição” e de sua suposta “pureza”. Uma das questões mais importantes quando se discute a identidade cultural na contemporaneidade é a presença ainda marcante do etnocentrismo, que é responsável pela eclosão de inúmeros conflitos simbólicos e físicos calcados na intolerância. Deste modo, para construirmos de fato uma sociedade mais fraterna e na qual se possa instalar o respeito às diferenças e a coexistência plural delas, temos que romper com esse olhar etnocêntrico.
PÚBLICA
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