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Introdução ao Direito Constitucional | Introdução www.cenes.com.br | 1 DISCIPLINA INTRODUÇÃO AO DIREITO CONSTITUCIONAL CONTEÚDO Concepções e Classificações das Constituições Introdução ao Direito Constitucional | Introdução www.cenes.com.br | 2 A Faculdade Focus se responsabiliza pelos vícios do produto no que concerne à sua edição (apresentação a fim de possibilitar ao consumidor bem manuseá-lo e lê-lo). A instituição, nem os autores, assumem qualquer responsabilidade por eventuais danos ou perdas a pessoa ou bens, decorrentes do uso da presente obra. É proibida a reprodução total ou parcial de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive através de processos xerográficos, fotocópia e gravação, sem permissão por escrito do autor e do editor. 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Por esse prisma, a Constituição é, para nós, a lei maior, a norma de ordem superior que dispõe sobre a organização do Estado, garantias, direitos e deveres individuais do cidadão e outros temas considerados de maior relevância no contexto da sociedade em que é elaborada. Nathalia Masson explica, no entanto, que as Constituições também são “organismos vivos, documentos receptivos aos influxos da passagem do tempo, em constante diálogo com a dinâmica social”, e tendo em vista seu caráter aberto e comunicativo com outros sistemas, sempre haverá certa dificuldade na conceituação, pois existe uma “pluralidade de concepções que fornecem noções acerca do assunto” (MASSON, 2020). Assim, neste material, falaremos a respeito das quatro concepções de constituição mais estudadas pela doutrina – a sociológica, a política, a jurídica e a moderna –, além dos critérios utilizados para classificação. 2 Concepções de Constituição Nathalia Masson (2020) define Constituição como “o conjunto de normas fundamentais e supremas, que podem ser escritas ou não, responsáveis pela criação, estruturação e organização político-jurídica de um Estado”. Assim, a Constituição não só descreve a organização do Estado, como também se consolida como um alicerce para todas as demais normais. Ao longo do tempo, contudo, a doutrina pensou sobre a natureza, o sentido e o papel da Constituição, produzindo diversas concepções acerca da forma como elas devem ser entendidas. Dentre estas, as que tiveram maior repercussão foram a concepção sociológica, a jurídica e a positivista. Introdução ao Direito Constitucional | Concepções de Constituição www.cenes.com.br | 5 2.1 A Concepção Sociológica A concepção sociológica foi desenvolvida pelo alemão Ferdinand Lassalle na obra “A essência da Constituição”, na qual pensou a constituição sob o aspecto da relação entre os fatos sociais dentro do Estado. Para ele, “a constituição de uma país é, em essência, a soma dos fatores reais do poder que regem nesse país. Esta seria a constituição real e efetiva, ao passo que a constituição escrita não passaria de uma “folha de papel”. Na explicação de Luis Roberto Barroso (2020), a Constituição real e efetiva do Estado é um conjunto de forças políticas, econômicas e sociais, que atuam dialeticamente, estabelecendo uma realidade e um sistema de poder. Neste sentido, “a Constituição jurídica, mera ‘folha de papel’, limita-se a converter esses fatores reais do poder em instituições jurídicas, em Direito”. Essa soma de fatores reais do poder que regem o país pode, ou não, coincidir com a constituição escrita, que, no entanto, sucumbiria caso fosse contrária à constituição real, devendo, por esse motivo, coadunar-se com ela. Segundo Nathalia Masson (2020), “como num eventual embate entre o texto escrito e os fatores reaisde poder estes últimos sempre prevalecerão, deverá a Constituição escrita sempre se manter em consonância com a realidade, pois, do contrário, será esmagada (como uma simples "folha de papel") pela sua incompatibilidade com o que vige na sociedade”. É importante compreender que Lassalle pensou a constituição a partir do prisma sociológico em uma época em que havia muitas Constituições oriundas de poderes monárquicos, imperiais e autocratas, e que, muitas vezes, não correspondiam aos anseios da sociedade. Para ele, só seria eficaz a constituição que correspondesse aos valores presentes na sociedade, e nesta concepção a situação ideal é aquela em que a constituição real e a escrita são inequivocamente correspondente (MASSON, 2020). Introdução ao Direito Constitucional | Concepções de Constituição www.cenes.com.br | 6 Figura 1 - Concepção sociológica da Constituição Fonte: Núcleo Editorial Focus 2.2 Concepção Política A concepção política da constituição foi pensada por Carl Schmitt na obra “Teoria da Constituição”, segundo a qual a Constituição é vista como “decisão política fundamental, decisão concreta de conjunto sobre o modo e forma de existência da unidade política” (SILVA, 2014). Neste sentido, Nathalia Masson aponta que A Constituição corresponde à decisão política fundamental que o Poder Constituinte reconhece e pronúncia ao impor uma nova existência política. [...] Sob o prisma político, portanto, pouco interessa se a Constituição corresponde ou não a fatores reais de poder, o importante é que ela se apresente enquanto o produto de uma decisão de vontade que se impõe, que ela resulte de uma decisão política fundamental oriunda de um Poder Constituinte capaz de criar uma existência política concreta, tendo por base uma normatividade escolhida (MASSON, 2020). Dessa forma, Carl Schmitt faz uma distinção entre constituição e leis constitucionais, defendendo que a constituição “só se refere à decisão política fundamental (estrutura e órgãos do Estado, direitos individuais, vida democrática etc.); e as leis constitucionais são os demais dispositivos inscritos no texto do documento constitucional, que não contenham matéria de decisão política fundamental” (SILVA, 2014). Em suma: ▪ Constituição: é aquilo que traz as normas materiais, ou seja, as normas que Introdução ao Direito Constitucional | Concepções de Constituição www.cenes.com.br | 7 decorrem da decisão política fundamental, as normas estruturantes do Estado, tais como: forma de estado; forma de governo; regime político; composição e competência dos entes; divisão dos poderes; direitos e garantias fundamentais. As normas estruturantes do Estado são aquelas que que regem e devem obrigatoriamente estar presentes em qualquer constituição. ▪ Lei Constitucional: é tudo o que está no texto escrito, mas não é decisão fundamental do Estado, e mesmo assim possui hierarquia constitucional. É tudo aquilo que não é norma estruturante do Estado, tudo aquilo que, embora esteja no texto constitucional, não precisaria estar, pois poderia simplesmente ser regulamentado em forma de Lei Complementar. Figura 2 - Concepção política da Constituição Fonte: Núcleo Editorial Focus 2.3 Concepção Jurídica A concepção jurídica da constituição foi preconizada por Hans Kelsen na obra “Teoria Pura do Direito”, segundo a qual a Constituição é puro dever-ser, é fruto da vontade racional do homem, e não das leis naturais. Conforme explica Barroso, Em busca de um tratamento científico que conferisse “objetividade e exatidão” ao Direito, Kelsen desenvolveu sua teoria pura, na qual procurava depurar seu objeto de elementos de outras ciências (como a sociologia, a filosofia), bem como da política e, em certa medida, até Introdução ao Direito Constitucional | Concepções de Constituição www.cenes.com.br | 8 da própria realidade. Direito é norma; o mundo normativo é o do dever-ser, e não o do ser. Nessa dissociação das outras ciências, da política e do mundo dos fatos, Kelsen concebeu a Constituição (e o próprio Direito) como uma estrutura formal, cuja nota era o caráter normativo, a prescrição de um dever-ser, independentemente da legitimidade ou justiça de seu conteúdo e da realidade política subjacente. A ordem jurídica é um sistema escalonado de normas, em cujo topo está a Constituição, fundamento de validade de todas as demais normas que o integram (BARROSO, 2020). Por esse viés, a palavra constituição pode ser entendida em dois sentidos, no sentido lógico-jurídico e no sentido jurídico-positivo. “De acordo com o primeiro, a constituição significa norma fundamental hipotética, cuja função é servir de fundamento lógico transcendental da validade da constituição jurídico-positiva que equivale à norma positiva suprema, conjunto de normas que regula a criação de outras normas, lei nacional no seu mais alto grau” (SILVA, 2014). Em outras palavras, para Kelsen, não é necessário que constituição se limite àquilo que corresponde aos anseios reais do povo, tampouco às normas estruturantes do Estado, mas sim, que seja tudo aquilo que nela está escrito. Desse modo, o autor dá à constituição um sentido jurídico, desconsiderando o clamor do povo e do poder constituinte, e considerando somente aquilo que está escrito no texto. Figura 3 - Concepção jurídica da Constituição Fonte: Núcleo Editorial Focus Introdução ao Direito Constitucional | Concepção Moderna da Constituição www.cenes.com.br | 9 Em resumo, estas são as teorias clássicas que fundamentam a constituição: Figura 4 - Concepções da Constituição Fonte: Núcleo Editorial Focus 3 Concepção Moderna da Constituição José Afonso da Silva descreve, em seu Curso de Direito Constitucional Positivo (2014), como as três concepções abordadas anteriormente pecam pela unilateralidade dos conceitos apresentados, o que justificaria a busca de vários autores em formular um conceito unitário de constituição, que a conceba em “sentido que revele conexão de suas normas com a totalidade da vida coletiva, na unidade de uma ordenação fundamental e suprema”. Assim, neste capítulo veremos duas das concepções que derivaram dessas três teorias clássicas. 3.1 O Constitucionalismo de Konrad Hesse Ao analisar a essência da Constituição no pensamento de Lassalle e de Konrad Hesse, a Professora Iacyr de Aguilar Vieira discorre sobre como o pensamento de Konrad Introdução ao Direito Constitucional | Concepção Moderna da Constituição www.cenes.com.br | 10 Hesse se contrapõe às reflexões desenvolvidas por Ferdinand Lassalle de modo a completá-las e trazê-las a uma nova realidade, realçando o caráter normativo da Constituição. De forma bem sintetizada, para ele, a Constituição possuiria uma força normativa capaz de modificar a realidade e obrigar as pessoas, de tal forma que nem sempre ela poderia vir a ceder em face dos fatores reais de poder. Ou seja, tanto pode a Constituição escrita sucumbir, quanto prevalecer, modificando a sociedade. Na concepção de Hesse, a realização da Constituição importa na capacidade de operar na vida política, nas circunstâncias da situação histórica e, especialmente, na vontade de Constituição, que procede de três fatores: da consciência da necessidade e do valor específico de uma ordem objetiva e normativa que afaste o arbítrio; da convicção de que esta ordem constituída é mais do que uma ordem legitimada pelos fatos e que necessita estar em constante processo de legitimação, e da consciência de que se trata de uma ordem que não logra ser eficaz sem o concurso da vontade humana, principalmente das pessoas envolvidas no processo constitucional, isto é, de todos os partícipes da vida constitucional (VIEIRA, 1998). Para Konrad Hesse, não é o povo que decide se a Constituição se tornará somente “uma folha de papel”, mas é a constituiçãoque decidirá sobre o povo, o qual deverá se adequar ao que diz o texto constitucional. 3.2 Constituição em Sentido Cultural Na concepção culturalista, a constituição é entendida como um produto da cultura, um fato cultural. Conforme aponta Bernardo Gonçalves Fernandes (2020), essa concepção desenvolve a lógica de que “a Constituição possui fundamentos diversos arraigados em fatores de poder, decisões políticas do povo e normas jurídicas de dever ser vinculantes. Surge daí a ideia de uma constituição total, com a junção dos aspectos econômicos, sociológicos, políticos, jurídicos-normativos, filosóficos e morais a fim de construir uma unidade para a Constituição. Nesse sentido, a Constituição se coloca como um conjunto de normas fundamentais condicionadas pela cultura total e, ao mesmo tempo, condicionante, numa perspectiva eminentemente dialética”. Segundo essa teoria, a constituição deve ser percebida como realidade social, decisão política fundamental e norma suprema positivada, dessa forma, ela abarca todas as teorias anteriores. Seus propulsores, no Brasil, foram Konrad Hesse, Peter Häberle e Introdução ao Direito Constitucional | Tipologia das Constituições www.cenes.com.br | 11 Paulo Bonavides. 4 Tipologia das Constituições Além das diversas formas de conceber as constituições, existem formas de classificá- las de acordo com os mais variados critérios e perspectivas. De acordo com Nathalia Masson, em seu Manual de Direito Constitucional (2020), as constituições podem ser classificadas em: Figura 5 - Classificação das Constituições Fonte: Adaptado de MASSON (2020) Na sequência, sem dispensar a necessidade de estudo das demais perspectivas existentes, enfatizaremos as classificações tradicionais apresentadas pela maioria dos manuais de Direito Constitucional. 4.1 Quanto ao Conteúdo Quanto ao conteúdo, as constituições podem ser classificadas em materiais e formais. Introdução ao Direito Constitucional | Tipologia das Constituições www.cenes.com.br | 12 ▪ Constituição Material: É aquela que, escrita ou não em documento constitucional, traz as normas fundamentais e estruturantes do Estado, como a divisão dos poderes e das competências dos entes, bem como dos princípios e dos direitos fundamentais. “Ou seja, são as normas fundantes (basilares) que fazem parte do “núcleo ideológico” constitutivo do Estado e da sociedade” (FERNANDES, 2020). Nessa classificação, somente matéria essencialmente constitucional possui status constitucional, as demais, mesmo que integrem o corpo da constituição, não são tidas como constitucionais (ex.: Constituição Imperial de 1824). ▪ Constituição Formal: É aquela que elege como principal critério de existência de suas normas o processo de sua formação, e não seu conteúdo. Nesta classificação, todo o texto constitucional é de fato constitucional, pois o que importa na Constituição Formal não é o texto ou a norma, mas sim o processo. Ou seja, os textos que passaram pelo mesmo processo são considerados constitucionais, mesmo que não sejam normas estruturantes do Estado (ex.: Constituição Federal de 1988). Em relação à Constituição Formal, Bernardo Gonçalves Fernandes (2020) aponta que é “dotada de supralegalidade (supremacia), estando sempre acima de todas as outras normas do ordenamento jurídico de um determinado país. Nesse sentido, “só pode ser modificada por procedimentos especiais que ela no seu corpo prevê, na medida em que as normas ordinárias não a modificam [...], a Constituição formal, sem dúvida, quanto a estabilidade, será rígida. 4.2 Quanto à Forma Quanto à forma, as constituições podem ser instrumental (escritas) ou costumeiras (não escritas). ▪ Constituição Instrumental ou Escrita: é aquela codificada e sistematizada em um texto único, isto é, escrita em documento solene e uniforme, o qual possui as normas fundamentais do Estado. Como explica André Ramos Tavares (2020), “Constituições escritas são fruto do processo de codificação do Direito Público, Introdução ao Direito Constitucional | Tipologia das Constituições www.cenes.com.br | 13 ocorrendo onde o Direito Constitucional se encontra sistematizado em um único corpo textual” (ex.: Constituição Federal de 1988). ▪ Constituição Costumeira ou não escrita: é aquela cujas normas constitucionais não constam em um documento único e solene, baseando-se nos costumes, na jurisprudência e convenções. A mutação dessa constituição se dá de acordo com a evolução da sociedade e do seu ordenamento jurídico, “as normas costumeiras têm como característica fundamental o surgimento informal, desligado de solenidades”, elas originam da sociedade, “e não de uma entidade especificamente designada para isso” (TAVARES, 2020). Atualmente inexistem constituições totalmente costumeiras, que foram predominantes até o fim do século XVIII. Até mesmo a constituição inglesa, que é o maior símbolo de constituição costumeira, possui princípios constitucionais em textos escritos. Conforme cita Tavares, “o ordenamento jurídico inglês compõe-se do denominado Direito estatutário e das convenções constitucionais, ao lado da jurisprudência e dos costumes (especialmente parlamentares)”. ▪ Constituição Legal (também denominada Constituição não formal): As constituições escritas podem tanto estar sistematizadas em um único corpo de lei (constituições codificadas) ou dispersas em diversos documentos, sendo estas denominadas Constituições Legais. Estas estão “integradas por documentos diversos, vale dizer, fisicamente distintos, que se reagrupam sob o epíteto de perfazerem a Constituição de determinado país” (TAVARES, 2020). Atualmente, nossa Constituição é classificada como formal (quanto ao conteúdo) e escrita (quanto à forma), uma vez que está codificada e sintetizada em um documento único. Porém, com a redação dada pela Emenda Constitucional n. 45/04, passou-se a reconhecer também como norma constitucional outras que não estão escritas na nossa Constituição (art. 5º, § 3º: Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais). Com isso, a doutrina concluiu que a nossa Constituição, quando à forma, não pode ser classificada como instrumental ou meramente escrita, uma vez que a partir do Introdução ao Direito Constitucional | Tipologia das Constituições www.cenes.com.br | 14 implemento do art. 5º, § 3º, nós adotamos uma outra deia de constituição, a de constituição legal, uma que admite normas escritas em outros documentos. 4.3 Quanto à Elaboração Quanto à elaboração, a constituição pode ser sistemática (dogmática) ou histórica (costumeira). ▪ Constituição Sistemática ou Dogmática: sempre escrita, é aquela elaborada por um órgão constituinte que sistematiza os dogmas ou ideias fundamentais da teoria política do direito dominante naquele momento. Parte de teorias preconcebidas, sistemas prévios e institutos já consagrados na teoria, na doutrina e em dogmas políticos, e é feita em prazos certos e determinados. Este modelo permite quebrar dogmas, pois faz olhar para trás, analisar o que está certo ou errado e, com base nessas reflexões, escrever aquilo que se tomará por certo ou errado a partir daquele momento (ex.: Constituição Federa de 1988). ▪ Constituição Histórica ou Costumeira: não escrita, é aquela resultante de lenta formação histórica, do lento evoluir das tradições, dos fatos sócio-políticos que se cristalizam como normas fundamentais da organização de determinado Estado ou, como explica Tavares (2020), “da gradativa sedimentação jurídica de um povo, por meio de suas tradições” (ex.: Constituição Inglesa). 4.4 Quanto à Origem Quanto à origem, as constituiçõespodem ser classificadas em quatro tipos. ▪ Constituição Votada, Popular, Democrática ou Promulgada: são aquelas que derivam do trabalho de um órgão constituinte composto de representantes eleitos pelo povo para esse fim, a chamada Assembleia Nacional Constituinte (ex.: Constituições Brasileiras de 1891, 1934, 1946 e 1988). ▪ Constituição Imposta ou Outorgada: são aquelas impostas pelos Introdução ao Direito Constitucional | Tipologia das Constituições www.cenes.com.br | 15 governantes, sem a participação do povo e independentes do sistema ou forma de governo. Alguns doutrinadores não reconhecem essa forma de constituição, dando a esse tipo de constituição imposta ou outorgada o nome de cartas constitucionais (ex.: Constituições Brasileiras de 1824 e 1937). ▪ Constituição Bonapartista ou Cesarista: são aquelas elaboradas por um Imperador ou Ditador e submetida a plebiscito ou a referendo popular para mera ratificação da vontade do detentor do poder (ex.: plebiscitos Napoleônicos e o plebiscito de Pinochet, no Chile). ▪ Constituição Dualista ou Pactuada: origina-se de um compromisso entre duas classes políticas antagônicas; o poder constituinte originário se encontra nas mãos de mais de um titular. O equilíbrio é precário ou camuflado (ex.: Magna Carta de 1215 e a Constituição Francesa de 1791). 4.5 Quanto à Estabilidade Quanto à classificação das constituições em relação à estabilidade, ou alterabilidade, é importante lembrar, em primeiro lugar, que não existe no mundo uma classificação para constituição imutável, porque todas as constituições são mutáveis. Por isso, as constituições são classificadas somente em relação ao nível de complexidade para realização de alterações. ▪ Constituição Rígida: é aquela que para ser alterada exige um procedimento especial solene e mais rigoroso que os de formação das leis ordinárias ou complementares (ex. Constituição Federal de 1988). “Na Constituição rígida, para todas as normas constitucionais se exige, na eventualidade de sua alteração, um processo legislativo mais trabalhoso, mais dificultoso do que comumente é exigível. Geralmente, e principalmente no caso brasileiro, esse processo mais trabalhoso se resume a uma iniciativa mais reduzida, a um quorum de aprovação maior e, por fim, à não participação do Poder Executivo (por meio da exclusão do veto ou da sanção)” (TAVARES, 2020). Introdução ao Direito Constitucional | Tipologia das Constituições www.cenes.com.br | 16 ▪ Constituição Flexível: é aquela que pode ser modificada pelo legislador segundo o mesmo procedimento utilizado para as leis ordinárias ou complementares (ex.: Itália/1848). Segundo Tavares (2020), “as constituições flexíveis são as primeiras formas de estruturação que aparecem nas sociedades políticas organizadas”. ▪ Constituição Semirrígida ou Semiflexível: é aquela que contém uma parte rígida e outra flexível, exigindo, normalmente, um quórum de alterações distinto e um poder limitado, mas para algumas normas o processo é o mesmo que o de lei ordinária (ex.: Constituição do Império de 1824). ▪ Constituição Super-rígida: é aquela que se caracteriza pela impossibilidade de alteração, ou “pretensão de eternidade”, conforme expõe Tavares (2020). É aquela que, além de rígida, possui cláusulas que não podem ser alteradas – as denominadas cláusulas pétreas. No entendimento de Alexandre de Moraes, a Constituição de 1988 seria super-rígida, haja vista possuir normas imutáveis (cláusulas pétreas constantes no art. 60, § 4º, CF/88). Conforme aponta Nathalia Masson, contudo, este não é “o entendimento da doutrina majoritária, que compreende a Constituição de 1988 enquanto rígida, sob a justificativa de que o que caracteriza a rigidez é exatamente o procedimento diferenciado de alteração — marcado por quorum de votação qualificado, rejeição ao turno único, ampliação das discussões — e não a existência de um núcleo insuperável, insuscetível à ação restritiva ou abolitiva do poder reformador, que pode existir ou não nos documentos rígidos”. 4.6 Quanto à Finalidade Existem três classificações quanto à finalidade de uma constituição. ▪ Constituição Garantia, Abstencionista ou Negativa: é aquela que busca garantir a liberdade e os direitos pessoais, delimitando o Poder Estatal (ex.: Constituição Norte-Americana). De acordo com Fernandes (2020), “ela tem um Introdução ao Direito Constitucional | Tipologia das Constituições www.cenes.com.br | 17 viés no passado, visando garantir direitos assegurados contra possíveis ataques do Poder público. Trata-se de Constituição típica de Estado liberal que se caracteriza pelo seu abstencionismo e sua atuação negativa (de não interferência ou ingerência na sociedade)”. ▪ Constituição Balanço: é aquela que se limita a demonstrar a ordem existente, que visa o presente. É típica dos regimes socialistas, “essa constituição propõe- se a explicitar as características da atual sociedade, trazendo parâmetros que devem ser observados à luz da realidade econômica, política e social já existente” (FERNANDES, 2020) (ex.: Constituição soviética de 1924, 1936 e 1977). ▪ Constituição Dirigente: é aquela que não se limita a organizar o poder, mas determinar a atuação do governo, impondo verdadeiras diretrizes políticas permanentes. É a constituição do “dever ser” (ex. Constituição Federal de 1988). Segundo Fernandes (2020), é uma constituição típica de Estado social e de seu pano de fundo pragmático (democracias-sociais, sobretudo do pós- Segunda Guerra Mundial). Constituições dirigentes são planificadoras e visam predefinir uma pauta de vida para a sociedade e estabelecer uma ordem concreta de valores para o Estado e para a sociedade, ou seja, programas e fins para serem cumpridos pelo Estado e também pela sociedade”. 4.7 Quanto à Extensão Quanto à extensão, uma constituição pode ser classificada como concisa ou prolixa. ▪ Constituição Concisa ou Sintética: é aquela que possui texto enxuto, curto, tratando apenas de regras básicas de organização do sistema político-jurídico do Estado, deixando para a legislação infraconstitucionais as demais matérias (ex.: Constituição Norte-Americana, com apenas 10 emendas originais e outras 17 acrescentadas posteriormente, desde 1791). ▪ Constituição Prolixa ou Analítica: é aquela com conteúdo extenso (formato amplo), minucioso e que contempla regras programáticas e normas Introdução ao Direito Constitucional | Tipologia das Constituições www.cenes.com.br | 18 formalmente constitucionais. Este modelo de constituição, explica Fernandes (2020) “acaba por regulamentar outros assuntos que entenda relevantes num dado contexto, estabelecendo princípios e regras, e não apenas princípios” (ex.: Constituição Federal de 1988, com 250 artigos originais mais 106 emendas até o momento). 4.8 Quanto ao Critério ontológico Quanto à ontologia, isto é, ao nível de correspondência com a realidade, as constituições são classificadas em normativa, nominalista e semântica. ▪ Normativa: é aquela que está integrada na sociedade, refletindo os anseios da sociedade, e todos a cumprem lealmente, inclusive os agentes de poder. Há uma correspondência com a realidade. Na explicação de Nathalia Masson (2020), neste tipo de Constituição, “há perfeita sintonia entre o texto constitucional e a conjuntura política e social do Estado, de forma que a limitação ao poder dos governantes e a previsão de direitos à população sejam estritamente observadas e cumpridas. O texto constitucional é de tal forma eficaz e seguido à risca que, na prática, vê-se claramente a harmonia entre o que se estabeleceu no plano normativo e o que se efetiva no mundo fático” (ex.: Constituição Americana de 1787). ▪ Nominativa: é meramente educativa e insuficiente em concretização constitucional, não se alcançaa verdadeira normatização do processo real do poder. Para Masson (2020), “esta já não é capaz de reproduzir com exata congruência a realidade política e social do Estado, mas anseia chegar a este estágio. Seus dispositivos não são, ainda, dotados de força normativa capaz de reger os processos de poder na plenitude, mas almeja-se um dia alcançar a perfeita sintonia entre o texto (Constituição) e o contexto (realidade)” (ex.: Constituições brasileiras de 1934 e 1946). ▪ Semântica: é aquela que, apesar de aplicada, revela somente o interesse exclusivo dos detentores do poder, buscando legitimá-los. Em outras palavras, é aquela que é imposta. “É a Constituição que nunca pretendeu conquistar uma Introdução ao Direito Constitucional | Conclusão www.cenes.com.br | 19 coerência apurada entre o texto e a realidade, mas apenas garantir a situação de dominação estável por parte do poder autoritário. Típica de estados ditatoriais, sua função única é legitimar o poder usurpado do povo, estabilizando a intervenção dos ilegítimos dominadores de fato do poder político (MASSON, 2020).” (ex.: Constituições Federais de 1937 e 1967). 5 Conclusão Nesta aula abordamos as principais concepções de constituição tradicionalmente trabalhadas pela doutrina – a concepção sociológica, política e jurídica –, além da concepção culturalista, entendendo que, fundamentalmente, a Constituição concebe o conjunto de normas supremas, responsáveis pela constituição e organização político-jurídica de um Estado. Falamos, por fim, sobre o constitucionalismo difundido por Konrad Hesse e as principais tipologias das constituições classificadas quanto ao conteúdo, forma, elaboração, origem, estabilidade, finalidade, extensão e correspondência com a realidade. 6 Referências Bibliográficas BARROSO, Luís Roberto. Curso de direito constitucional contemporâneo: os conceitos fundamentais e a construção do novo modelo. – 9. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2020. FERNANDES, Bernardo Gonçalves. Curso de Direito Constitucional. – 12 ed. Salvador: Ed. JusPodivm, 2020. MASSON, Nathalia. Manual de direito constitucional. -8. ed. Salvador: Ed. JusPodvm, 2020. SILVA, José Afonsa da. Curso de Direito Constitucional Positivo. -37. ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2014. TAVARES, André Ramos. Curso de Direito Constitucional. – 18 ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2020. VIEIRA, Iacyr de Aguilar. A essência da Constituição no pensamento de Lassalle e de Konrad Hesse. In: Revista de informação legislativa, v. 35, n. 139, 1998. Disponível em: . Acesso em: set. 2021. Introdução ao Direito Constitucional | Referências Bibliográficas www.cenes.com.br | 20 Sumário 1 Introdução 2 Concepções de Constituição 2.1 A Concepção Sociológica 2.2 Concepção Política 2.3 Concepção Jurídica 3 Concepção Moderna da Constituição 3.1 O Constitucionalismo de Konrad Hesse 3.2 Constituição em Sentido Cultural 4 Tipologia das Constituições 4.1 Quanto ao Conteúdo 4.2 Quanto à Forma 4.3 Quanto à Elaboração 4.4 Quanto à Origem 4.5 Quanto à Estabilidade 4.6 Quanto à Finalidade 4.7 Quanto à Extensão 4.8 Quanto ao Critério ontológico 5 Conclusão 6 Referências Bibliográficas