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CAPA IOLETE RIBEIRO DA SILVA ADRIA DE LIMA SOUSA MAISE CAROLINE ZUCCO (Organização) TÍTULO PROVISÓRIO Manaus Editora 2024 Coordenação editorial (em caso de editora) Capa Projeto gráfico e editoração ISBN Ficha catalográfica SUMÁRIO APRESENTAÇÃO 6 DIREITOS À VIDA: UMA CONCEPÇÃO ECOCÊNTRICA DE DIREITOS HUMANOS 2 LEANDRO APARECIDO FONSECA MISSIATTO 2 GÊNERO, SEXUALIDADE E A PESSOA COM DEFICIÊNCIA NA ESCOLA: DEBATES INTERSECCIONAIS 12 CÂNDIDA BEATRIZ ALVES 12 PRODUCCIÓN DE SIGNIFICADOS EN LAS TRAYECTORIAS EDUCATIVAS DE ESTUDIANTES AMAZÓNICOS DE PREGRADO 20 JOSÉ GIL VICENTE 20 COSTURAS, DESMANCHES E REMENDOS: A SEPARAÇÃO CONJUGAL NA FAMÍLIA AMAZÔNIDA A PARTIR DE NARRATIVAS DE UNIVERSITÁRIOS 43 SANDER FIRMO 43 CLÁUDIA REGINA BRANDÃO SAMPAIO 43 MUNIQUE THERENSE 43 DIREITOS SEXUAIS E REPRODUTIVOS DE MULHERES NO BRASIL: REVISÃO INTEGRATIVA SOBRE AUTONOMIA REPRODUTIVA 60 MONIQUE EVELYN SANTOS CALDAS 60 ADRIA DE LIMA SOUSA 60 BRENO DE OLIVEIRA FERREIRA 60 ESTRATÉGIAS DE PROMOÇÃO DA PARENTALIDADE ENTRE PAIS DE CRIANÇAS DE 0 A 5 ANOS: UMA REVISÃO DE ESCOPO 78 RENAN VINÍCIUS DE FREITAS GUERRA DA COSTA 78 IOLETE RIBEIRO DA SILVA 78 ADRIA LIMA DE SOUSA 78 MAISE CAROLINE ZUCCO 78 REFLEXÕES ACERCA DA ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL EM CONTEXTOS EDUCACIONAIS 96 ELISEU MARQUES DA SILVA 96 ALVACIR SIQUEIRA DA SILVA JÚNIOR 96 GISELE CRISTINA RESENDE 96 EDUCAÇÃO, RESISTÊNCIA E POVOS AMAZÔNICOS 107 IOLETE RIBEIRO DA SILVA 107 LÚCIA HELENA CAVASIN ZABOTTO PULINO 107 SUSTENTABILIDADE E EDUCAÇÃO AMBIENTAL 127 MARIA INÊS GASPARETTO HIGUCHI 127 DANIELE DA COSTA CUNHA BORGES ROSA 127 MARCELO CALEGARE 127 A PSICOLOGIA E OS GRANDES PROJETOS NA AMAZÔNIA: DAS EMERGÊNCIAS E DESASTRES À PRODUÇÃO DE ATINGIDOS 138 ROBERT DAMASCENO MONTEIRO RODRIGUES 138 JUREUDA DUARTE GUERRA 138 SEXISMO E VIOLÊNCIA DE RAÇA E GÊNERO EM PLATAFORMAS VIRTUAIS 149 ALINE DE LIMA SOUSA 149 KAROLAYNE RODRIGUES SILVA 149 ANDRÉ LUIZ MACHADO DA NEVES 149 REFLEXÕES SOBRE A DEPRESSÃO NOS DIAS ATUAIS 161 CAROLINE STEFANY MARQUES DE SOUSA 161 AMANDA CAROLINA DOS SANTOS ZANETTI 161 GISELE CRISTINA RESENDE 161 SOBRE AS AUTORAS/ES 172 APRESENTAÇÃO 2 DIREITOS À VIDA: UMA CONCEPÇÃO ECOCÊNTRICA DE DIREITOS HUMANOS LEANDRO APARECIDO FONSECA MISSIATTO1 Resumo: A visão antropocêntrica de mundo consolidou a ideia de Direitos Humanos, que embora muito importante para o desenvolvimento das sociedades modernas, preservou em si a noção de humanidade apartada da Natureza. Ante a crise socioambiental que o mundo atravessa, não faz mais sentido a conservação dessa ruptura, sendo necessário profundo alinhamento teórico e material dessa categoria político-social ao todo ecológico. Nesse sentido, propõe-se a ideia ecocêntrica de “Direitos à Vida” como uma forma de superação da anacrônica dicotomia humanida-Natureza. Este texto é uma síntese da conferência de abertura proferida em Manaus no I Encontro Nacional de Psicologia, Educação e Direitos Humanos na Amazônia, e está estruturado do seguinte modo: a) Falência de Direitos Humanos na estrutura moderna de Estado; b) Direitos à Vida como resposta ao mundo que necessitamos ser. Palavras-chave: Direitos Humanos; Direitos à Vida; Natureza como sujeito de direitos. FALÊNCIA DE DIREITOS HUMANOS NA ESTRUTURA MODERNA DO ESTADO Em 1992 o Brasil ratificou a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Decreto n. 678/1992), e dez anos depois, reconheceu a competência jurisdicional contenciosa da Corte Internacional de Direitos Humanos (IDH) para fatos posteriores a 1998 (Decreto n. 4.463/2002). Desde então, o país já recebeu 12 sentenças por violações de direitos humanos (CNJ, [s.d]). Nos casos julgados pela Corte IDH, o Estado brasileiro figura como réu por negligência ou ação deliberada de violação de direitos. Desse cenário surge a noção que, mesmo sob a tutela narrativa e jurídica que lastreia a máxima social dos direitos humanitários, o Estado é um contraventor de direitos e age, a partir de instrumentos autorresguardados, na infração de seu próprio corpo jurídico. Tal retrato, mais que expressar a tensão permanente entre direitos e as disputas políticas de mercado, evidencia a atuação do Estado dirigida por valores que, 1 Doutorando em Psicologia Clínica pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Docente da Escola da Magistratura de Rondônia (Emeron). Analista Processual em Psicologia do Tribunal de Justiça de Rondônia. Email: leandro.missiatto@gmail.com. mailto:leandro.missiatto@gmail.com 3 mesmo não estando no cânone legal, prestam a atender interesses que não são a inviolabilidade da vida. Tecnicamente o Estado é regido por princípios da administração que regulam suas práticas internas e externas, cujas ações são postuladas expressamente naquilo que fundamentam as leis, porém, mesmo as puras observações das condutas estatais, especialmente em temas sensíveis como equidade racial, direitos dos povos indígenas, direitos da população LGBTQIAPN+2, revelam que, por ação ou omissão, o Estado reiteradamente atua na violação da vida. De tal modo, as práticas históricas de alienamento dos direitos de populações empobrecidas e subalternizadas indicam que não se trata de uma violação atípica e isolada, mas de uma estrutura paralela e permanente, que organicamente administra infrações aos direitos fundamentais da humanidade e Natureza. Conforme o entendimento Mascaro (2017), a inversão das funções estatais no que concerne a proteção e garantia de direitos reside no fato de que o Estado não age apenas em defesa de seus cidadãos, mas também na proteção do sistema capitalista. Em certo sentido, os Direitos Humanos (DH) são essenciais para o funcionamento capitalista, haja vista que a pura liquidação das vidas nãos prestigiadas pelos sistemas de poder, colapsaria com a manutenção de suas estruturas, pois um dos pilares do capitalismo é perseverante presença de mãos-de-obras para o trabalho. Mesmo que negros, indígenas, empobrecidos e outras identidades periféricas sejam alvos de políticas de precarização da vida, ainda assim estão sujeitos a um conjunto mínimo de DH cujo objetivo será a garantia da vida (Missiatto, 2021). Políticas públicas de cuidado, assistência social, de saúde e educação, são administradas com grupos minorizados, basicamente com a função de mantê-los ativos para a exploração. A morte, nesse sentido, não vem em um único golpe, é dosada lentamente por um conjunto substancioso de ações que precariza a existência, mantendo uma maioria viva, mas em condições execráveis. Contudo, como em qualquer outro contexto da vida humana, vez ou outra, o Estado se defronta com disputas mais acirradas em que a garantia dos direitos humanos colide com os 2 Sigla que reúne várias identidades sexuais que expressa o movimento político e social em busca da garantia de direitos de pessoas não ciscênera e não heterossexuais. Seu significado é: lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais e travestis, queers, intersexo, assexual, pansexual, e o sinal de + é uma forma de reconhecer todas as outras identidades e orientações que não estão explicitamente representadas nas letras anteriores 4 interesses capitalistas. É nesses momentosa las dificultades, con la responsabilidad que asumen de sustentarse, y generando sentimientos de admiración en la comunidad de origen: Tengo unos compañeros míos que […] siempre me hablan de estos temas de yo venir aquí y dejar a mi familia, siempre hablamos y ellos quedan así, admirados y esas cosas. Pero también siempre apoyo que vengan (P1). Al migrar, jóvenes de diferentes etnias interactúan en la ciudad y el campus. Al compartir historias y situaciones similares, crean redes de identificación, basadas en valores colectivos de solidaridad y aceptación, que se vuelven comunes: [...] ellos me entienden y yo los entiendo a ellos, porque vivimos lo mismo, ellos dejaron todo allá para venir aquí también. Entonces hablamos entre nosotros de las dificultades que enfrentamos aquí, extrañar familiares” (P5), y “otros compañeros que vienen de lejos, y hablan de esta realidad que también pasa, de los padres, de la familia, de la cuestión financiera, que también creo que es uno de los miedos, verdad… que la gente también tiene que venir y no llegar al final” (P1). La mayoría de los estudiantes son los primeros en sus familias en tener acceso a la universidad. Los sentimientos de autoafirmación, autoestima, orgullo y satisfacción son frecuentes, llevándolos a la permanencia. Llevar el nombre de la universidad atribuye un valor positivo a la pertenencia como estudiante, en la comunidad y familia de origen. Las transiciones están orientadas al pasado, relacionadas con la salida de la familia y la comunidad, y a los discursos de autoafirmación tejidos desde la memoria del motivo del viaje y las novedades que aprenden, el cuidado de sí que se expande y futuros posibles: Aquí es donde estoy aprendiendo, aquí es donde pude descubrir cosas a las que pensé que nunca llegaría, hoy me puedo ver como una adulta a través de 32 la universidad, porque por dentro también pude tener la capacidad de depender de mí misma”. La experiencia universitaria genera sentimientos de autoestima en la posibilidad de producir nuevas habilidades, y ofrece nuevas perspectivas de futuro: “Quiero poder soñar en grande, tener una maestría, un doctorado, un posgrado. Entonces para mí, esto será todo lo que quiero, y todo está dentro de la universidad, porque me está capacitando para hacer realidad mis sueños (P3). La oportunidad de estudiar influye en los diálogos familiares orientados a la persistencia: Y era ese enfoque del que me habla la gente, siempre dicen, tienes que dar lo mejor de ti, porque eres uno de los primeros de la familia que va a tener educación superior, y eso es una motivación más para mí de estar aquí permanentemente (P5). La autoafirmación se constituye en el reconocimiento de apoyo-dificultades de los profesores, que los hace sentir integrados a la universidad. P5: “en esos momentos de rebeldía, dice [el profe] no es así, esto de aquí. Yo también lo tomo en consideración, sé que es un consejo, a través de él pude adquirir más conocimiento, buscar lo que queremos”. La universidad es promotora de reflexividad “... dispone para nosotros, es como si tuviéramos el poder de explorar la historia, mucho antes, y tentarnos a ver la historia a partir de aquí.” (P2). La permanencia en la universidad se configura por el ambiente de acogida, encuentro y (re)afirmación de identidades. La convivencia con diferentes etnias con intercambios de experiencias en el campus, en el que el 38,3% son estudiantes indígenas, crea un ambiente de pertenencia y fortaleza comunitaria, incidiendo en la positivización de identidades. Poderse identificar y compartir vivencias contribuye al sentimiento de pertenencia, tanto entre colegas como entre estudiante y profesor: [...] hasta con los profesores del exterior, hay un profesor de la capital con el que converso bastante y también uno de Santo Antônio de Iça, que conocen nuestra realidad aquí, que ya la han enfrentado y siempre diciéndonos “ya hemos pasado por esto”. Y nos dan esa motivación para que nos quedemos aquí, nos hablan como, 'sé que no es fácil para ti estar aquí, pero en el futuro disfrutarás de todo por lo que has luchado', entonces esto sirve de motivación para nosotros (P5). Además, la realización de trabajos de iniciación científica sobre la historia del Instituto y la permanencia de estudiantes de naciones diferentes produjo identificaciones: 33 Cuando hice mi primer PIBIC6, fui a contar la historia del Instituto, fue a través de ella que me identifiqué , …, sabiendo que a lo largo de la historia hubo alumnos que lucharon porque hoy estemos disfrutando de algo [...] hoy esos alumnos ya son docentes y están enseñando este proyecto, entonces me sentí en la universidad [...] sobre el acceso y la permanencia de los estudiantes indígenas aquí en el instituto y ellos relatan cada dificultad, y como yo también soy parte de eso, incluso lo siento también (P5). Hay relatos de las dificultades para socializar con compañeros de otras etnias: Principalmente los que no interactúan mucho son los indígenas de la etnia Tikuna. No son mucho de hablar, tratamos de conversar, interactuar con ellos, tratar de que nos inviten, nos invitan a ir a su comunidad, a conocer su realidad (P5). Los Tikunas son la nación más numerosa en el campus y conservan su lengua materna, habitando Brasil, Perú y Colombia. Compañeros de otras etnias señalaron la lingüística como la mayor dificultad para la permanencia, pues la universidad no cuenta con traductores portugués-tikuna. Las diferencias entre etnias conducen a dinámicas de exclusión y prejuicio, por ejemplo, entre estudiantes bilingües y aquellos que solo hablan lenguas nativas. Los relatos indican dificultades con esfuerzos de superación para adaptarse al sistema educativo tradicional, diferente a la educación básica en la que fueron educados, a la ciudad, a la urbanidad específica: “no es así, que puedo tener un lugar para calmarme, refrescar la mente [...] quedarme debajo de un árbol, escuchar el sonido de la naturaleza”. (P5) Las transiciones en la trayectoria educacional muestran la precariedad de la educación media regional, en estructura, prácticas pedagógicas y medios que preparan a los jóvenes para acceder a la educación superior. Los participantes relatan el impacto de la diferencia entre la educación media y superior, las dificultades de adaptación, los cambios positivos en sus vidas, nuevos sentidos desde sus cosmovisiones, de sus perspectivas de futuro en nuevas posibilidades de socialización. Yo estudié en la escuela indígena, en la comunidad de aquí, es que… la diferencia que yo estudié allá, aquí, es muy, muy diferente [. ..] los maestros ahí no están capacitados en el área, o están formados en un área y dan en otras áreas que no están tan formados, a veces terminan la educación media 6 Programa Institucional de Becas de Iniciación Científica – es desarrollado por estudiantes de pregrado que ejercen la investigación académica, orientados por profesores investigadores. 34 y ya están allí, no tan capacitados. Y aquí no, por eso tuve muchas dificultades aquí (P6). P1 relata las dificultades para tener acceso a la prueba de selección universitaria, aplicada en un municipio diferente al suyo, accesible solo por vía fluvial: Ahí hice el examen de ingreso, fue en Santo Antônio, porque ese es el centro para hacerlo, así que la gente [...] por ayuda de unos regidores y tal, la gente consiguió, ahí fueron, conseguimos un barco para ir, porque son varios alumnos ¿no?... hicieron esa cuota, y fuimos. En cuanto a la dificultad de adaptarse a la universidad: En educación primaria y media hay muchas cosas que desear, por la enseñanza, o porque los docentes no tienen una forma más dinámica para que el alumno tenga la enseñanza […] ellos tenían, pero esavisión de estar ahí solo en el contenido, no salen de ahí […] Y aquí en la facultad es totalmente diferente, porque yo lo veo así, al principio cuando llegué aquí tuve esta dificultad, por ejemplo, de tener estas palabras científicas, este diálogo más formal, de tener esta forma de hablar. Entonces era más eso, fue una dificultad inmensa al principio, pero luego fui cogiendo la maña. La búsqueda de la educación tiene, inicialmente, como expectativa la ascensión social. Sin embargo, al conquistar el posicionamiento de estudiante universitario, se le suman otras motivaciones, como seguir una carrera académica, convertirse en investigador o profesor, en el afán de circular y difundir el conocimiento: Yo, sin planear nada, estoy aquí, en un salón de clases, y también cómo en el futuro puedo estar en un salón enseñando a mis alumnos con los conocimientos que ambos (profesores y alumnos) me van a dar, y transmitir esto a todos. Las identificaciones ocurren cuando los estudiantes se cruzan con diferentes organizaciones sociales que amplían el conocimiento más allá de los colectivos de la comunidad de origen y del campus, como cuando representan a la institución universitaria en un congreso, reconociéndose como parte de un grupo discriminado: Aunque muchas personas digan ‘ah, es una universidadcita, es una universidad que nadie quiere estudiar, pero nosotros que estamos aquí hoy, lo valoramos por eso, como siempre dice mi compañero, en un proyecto, la gente quiere aplicar proyectos, porque no es solo llevar nuestro nombre afuera, sino llevar el de una universidad que nos está formando (P3). P4 agrega: Las ganas de ir son grandes, que conozcas otro estado, que lleves el nombre de la universidad, que muestres tu trabajo, de mostrar tu investigación, mostrar nuestra realidad, nuestra cultura aquí y... cuando decía que era del interior de las Amazonas decía “¡guai, eres de tan 35 lejos, mira cómo hablas portugués tan bien! ¿Cómo has llegado hasta aquí?" ahí se sorprendían [...] Entonces fue desde ese momento que me sentí en la universidad ¿cierto?, desde el momento que fui a representar al Instituto, estar representando a la uni fuera de nuestro estado, entonces fue ahora cuando me percibí a mí mismo como estudiante, desde el momento en que salí, llevé ese nombre de la uni, del Instituto, de la región. Las experiencias en la universidad amplían conocimientos, visiones del mundo, perspectivas del futuro, con nuevos sentidos, cambian puntos de vista: posibilitan la emancipación, en cambios de posiciones. Las cosas que la gente ve aquí son más amplias ¿verdad?, de lo que vio, [...] Nuestra visión también cambia, nuestro pensamiento va cambiando, la gente va creando un pensamiento crítico en relación con las cosas que están pasando en el mundo ¿no?, en nuestra vida, entonces esto acaba teniendo un sentido para la gente, para nuestra vida también. En las transiciones, se identifican fuerzas colectivo-individuales en los procesos de comparación entre las prácticas culturales colectivas conocidas y las novedades generadas en las reflexividades, con reconocimiento de la transformación que se da en las nuevas condiciones de socialización, generando desarrollos diferenciados: “entonces la universidad aquí me ayudó mucho en esa cuestión de socializar con otras personas, de hablar con los profesores, incluso con mis familiares de otras etnias también. Es una forma totalmente diferente de escuela primaria” (P1). Los beneficios y auxilios estudiantiles son una parte esencial de la vida diaria de los estudiantes e influyen directamente en la posibilidad de permanecer hasta el final de la carrera. Muchos estudiantes reciben la Beca de Permanencia por vulnerabilidad socioeconómica. Las becas de iniciación científica y extensión también son medios de supervivencia para los estudiantes, convirtiéndolos en proveedores de la familia, con posibilidades de transformación de su condición social, como comenta P1: Ahí conseguí la beca del MEC, indígena, soy indígena Kokama. Esa beca, me está manteniendo, eso me mantendrá hasta que me gradúe [...] me está manteniendo a mí, a mi familia allá, es lo que, por ejemplo, nos está dando inspiración para continuar estudiando, y mi familia me está apoyando. Porque antes mi mamá me mandaba un dinerillo que ella conseguía, trabajando en las casas de las personas, luego lo mandaba, como hoy lo conseguí a través la beca ya los estoy ayudando, mandando dinerito y quedándome aquí también. […] Me siento feliz de poder ayudar a mis padres, y por eso siempre digo que nunca perderé la esperanza de conseguir algo, algo bueno ¿cierto?, de mis estudios. 36 DISCUSIÓN La universidad es territorio indígena (Baniwa & Calegare, 2022), de ribereños y caboclos. En la producción de cruces de identidades, en fronteras interhistóricas, los jóvenes universitarios vivencian la cotidianidad orientada al contacto con nuevos conocimientos de la vida académica, experimentan el mundo de la ciencia, apropiándose en el aprendizaje de herramientas que posibilitan las relaciones reflexivo-críticas con los conocimientos tradicionales, para transformar su propia historia y el mundo. Como amazónicos, se posicionan con el apoyo de políticas de auxilio financiero para la permanencia, de forma inédita en la trayectoria de sus familias, cuyas vulnerabilidades socioeconómicas e invisibilidades en las políticas públicas, históricamente, les privaron del acceso a la educación formal. Al ver a sus hijos ingresar a la universidad, surgen sentimientos de conquista y orgullo y vislumbran futuros en los que se les den más opciones, además de la sobrevivencia del trabajo como agricultor o trabajo manual. La universidad se expande, creando espacios de debate ético y epistemológico que contemplan la presencia agentiva amazónica, que puede subvertir la lógica proselitista del mundo académico (Guimarães & Benedito, 2018). En la materialidad del encuentro, el pasado y las expectativas de futuro, los participantes se orientan desde el presente en el campus, en el juego entre las fuerzas de la innovación y la permanencia (Volosinov, 2017), con las pérdidas y ganancias que se materializan en la migración. En el tejido de los espacios comunes, hay movimientos de reconocerse a partir del otro. Los nuevos posicionamientos se dan en procesos de percepción de semejanzas y diferencias, de verse a sí mismo como parte o no de una realidad. En esas transiciones, los polos de significado pueden ser exagerados o pueden oponerse, mientras se construye la pertenencia a la universidad, la idea de comunidad de origen se percibe como una pérdida. Estas percepciones se van transformando en la convivencia de los estudiantes, y muchas veces, se habla de compartir las trayectorias de lucha con profesores y compañeros que también migraron para estudiar y trabajar y se diferencian frente a la realidad de otro espacio en que se perciben como discriminados y estereotipados. Al socializar con estudiantes de otras etnias, 37 hablantes de diversas lenguas, evidencian la aproximación en la heteroglosia (Bakhtin, 1996) de los pueblos originarios en el campus. Inicialmente, el impacto reverbera en las comparaciones entre lo conocido y la nueva situación, como si el futuro planeado en el pasado estuviera abierto al permanecer en formación profesional o al regresar a las comunidades. La reflexividad sobre las condiciones de socialización que se van reconociendo genera colectivos con interpretaciones sobre las posibilidades de ampliar puntos de vista y posicionamientos con nuevas oportunidades (Bartlett, 1995). Esta interhistoricidad (Segato, 2012) es forjada en la experiencia (Rosa, 2015), en el choque cotidiano entre significados enraizados en prácticas específicas de acción, y actualizada en diferentesdinámicas. Los estudiantes se posicionan en el presente, en la reflexión sobre sus comunidades de origen con la generación de futuros posibles. Estas dinámicas se modifican, restringiendo- ampliando las vivencias multiculturales, materializando interpretaciones de sí mismo, del otro y del mundo, guiadas por procesos de identificaciones colectivo-personales, histórico-políticas. Razones y experiencias similares previas, enunciadas en los espacios plurilingües y multiculturales negociados que se hacen comunes (Bakhtin, 2003) a estos colectivos, producen identificaciones y sentidos de pertenencia, por medio de aproximaciones y distanciamientos, acogimiento mutuo, apertura a nuevos puntos de vista y propuestas de solución, como la contratación de intérpretes de lengua indígena-portugués. El sentimiento de pertenencia a la universidad, como territorio de diferentes minorías, de los pueblos originarios, conlleva a tener posibilidades de permanencia. En la permanencia, las ambivalencias pueden indicar dificultades, especialmente financieras, y también nuevas posibilidades de permanencia, con exigencias propias de la experiencia en este momento de la vida, como la responsabilidad por sí mismo, la necesidad de inserción en el mercado laboral, responsabilidad por el otro. En estas transiciones, el impacto ontológico repercute en toda la vida, orienta los esfuerzos por posicionarse a sí mismo y el otro, produce significados y acciones en las fronteras. Los significados generados en las negociaciones implican pérdidas, ganancias y modificaciones en las interrelaciones entre identificaciones e interpretaciones de sí, el otro y el mundo. Las complejas dinámicas cronotópicas (Gonzalez & Barbato, 2023) de actualización 38 de sentidos de pertenencia y asistencia estudiantil flexibilizan, crean y pueden extinguir posicionamientos, “nuestros hábitos van cambiando diariamente”, con el impacto ideológico y afectivo de las experiencias en los cronotopos que orientan la permanencia y culminación del pregrado: apoyos financieros=> emancipación para el sostenimiento de sí mismo y de la familia, nuevos conocimientos académico-científicos y cómo hacerlo, que se relacionan con saberes previos a los encuentros fronterizos, enraizados en sus prácticas culturales. Permanecer implica necesariamente apoyo financiero, que se construyen en juegos ambivalentes aquíallá, yomi familia, quedarseatrás expandirse, negociando en el espacio común yo mis compañeros y profesores, como dispositivos semióticos de aproximación-distanciamiento, (des)conexión y (des)articulación, que indican cambio- transformación en las dinámicas de transición en diálogo (De Luca Picione & Valsiner, 2017) en espacios interhistóricos y fronterizos. CONCLUSIONES Históricamente, la Amazonía es imaginada por los ciudadanos urbanizados como un lugar aislado, distante y misterioso. Este estigma se dio inicialmente por dos condiciones: la difícil penetración en la región en la época colonial, debido a sus ríos de difícil navegación, extensas áreas de selva tropical cerrada y, por la especificidad de su naturaleza. La economía de la región es de base extractivista, dependiente del bosque en pie, con un índice de pobreza extrema, cuatro veces mayor que en el resto del país, y destinado a la exportación de insumos a Europa principalmente. Modos de subsistencia e identidades convergen entre pescadores, extractores, recolectores de semillas, agricultores, jornaleros, artesanos. Ser estudiante universitario y futuro educador es impactante no solo para el individuo, sino para toda la comunidad, con posicionamientos que llevan a reflexionar sobre la ampliación de posibilidades y el acceso a la gama de derechos, especialmente a la ciudadanía plena, sin mencionar los cambios en la forma de vida amazónica. 39 Condiciones materiales concretas como los auxilios estudiantiles, las políticas de acciones afirmativas para el acceso y la permanencia, con apoyo económico, incluyendo las políticas lingüísticas, y la migración intermunicipal, crean posibilidades de identificación y pertenencia. Estas posibilidades se tejen a través de compartir trayectorias de vida similares, en el que se amplía un repertorio simbólico de la vida cotidiana con los otros, del sentimiento de autonomía, autoafirmación y autoestima que los individuos conquistan, con las nuevas oportunidades de viajar, la contribución económica del sustento personal y el sustento familiar. Las interacciones en espacios de frontera generan convencionalizaciones, espacios comunes de negociación, diversifican las actividades interhistóricas orientadas a la permanencia en los cursos de pregrado. La universidad pública y gratuita, producida sobre el trípode docencia-investigación-extensión, promueve el sentimiento de pertenencia. La enseñanza, entendida como la apropiación de saberes científicos y tradicionales históricamente sistematizados, y las actividades formativas que implican estudio, reflexividad y acciones agentivas, en equipos de investigación y extensionistas con becas, con responsabilidades de representación, ofrecen herramientas para la transformación de sí mismo y del mundo, y son determinantes para la producción del sentimiento de “ser parte de la universidad”. En las producciones de significados interhistóricos sobre las trayectorias educativas, los estudiantes amazónicos producen caminos de permanencia en el curso de pregrado trazados en el entrelazamiento con las políticas públicas de asistencia estudiantil y la generación de espacios interhistóricos de negociación en el campus, para la promoción de sentimientos de pertenencia. REFERENCIAS: BAKHTIN, M.M. Speech genres and other essays. Austin: Texas University Press, 1996. BAKHTIN, M.M. Towards a philosophy of the act. 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Realizou- se uma pesquisa qualitativa de caráter exploratório, com 3 participantes. As histórias trazidas pelos entrevistados mostraram a pluralidade dos arranjos familiares que ocorrem a partir das separações conjugais, mas, também, aspectos comuns às três narrativas, onde questões relacionadas ao contexto amazônico se destacam. Aspectos relativos à estrutura e realidade socioeconômica das famílias, ausência de aparatos sócio-jurídicos, papéis de gênero e suas manifestações, a centralidade das figuras femininas nas famílias e a influência das mulheres nas trajetórias de escolarização dos filhos, foram elementos em comum que surgiram durante as narrativas dos universitários, ampliando o olhar sobre a complexidade das transformações familiares e suas repercussões. Palavras-chave: XXXXXX Introdução O fim de uma relação, independentemente de sua natureza, é uma ocorrência tão frequente quanto seu início. A efemeridade das relações humanas constitui um elemento intrínseco a elas. Contudo, nas sociedades onde predomina o modelo ocidental judaico-cristão, ao abordar o encerramento de certos tipos de vínculos como o casamento, seja ele formal ou informal, é inevitável deparar-se com questões complexas que, por longo período, foram consideradas imorais e intocáveis. O debate sobre a família, conforme aborda Reis (2012), é carregado de emoções e ideologias. A família é objeto de muitas áreas do conhecimento, daí o fato de sua compreensão 7 Mestrando da linha de Processos Psicossociais do Programa da Pós-Graduação em Psicologia da UFAM. Email: psi.sanderfirmo@gmail.com 8 Doutora. Professora da Faculdade de Psicologia da UFAM e Coordenadora do Laboratório de Intervenção Social e Desenvolvimento Comunitário (LABINS/FAPSI). Email: claudiasampaio@ufam.edu.br 9 Doutora. Professora Adjunta da UEA e Analista Judiciário - Psicologia - do TJAM. Email: munique.therense@tjam.jus.br mailto:psi.sanderfirmo@gmail.com mailto:claudiasampaio@ufam.edu.br mailto:munique.therense@tjam.jus.br 44 englobar diversos sentidos, indo do biológico ao cultural, do econômico ao sagrado. Dessa forma, defini-la e, sobretudo, abordar as mudanças pelas quais passa, implica necessariamente em adentrar campos de embate difíceis. A separação conjugal - uma das mudanças que ocorrem nesta instituição -, foi, por muito tempo, encarada como uma afronta à família, entidade concebida como natural e defendida pelos preceitos religiosos como indissolúvel. O divórcio – modalidade sociojurídica da separação conjugal – além de ser uma afronta religiosa, foi visto como sinônimo de falha individual (falta conjugal) ou problema social (Rapizo, 2020). Coube às ciências sociais, entre elas a Psicologia, adentrar nesse campo para investigar a complexidade desse fenômeno e suas repercussões, ampliando, assim, os modos de compreendê-lo. Entende-se por separação conjugal o rompimento dos diversos tipos de relações conjugais, sendo esta dissolução informal ou oficializada juridicamente através do divórcio ou dissolução de união estável. No presente texto, separação conjugal e divórcio serão tratados como termos correlatos, diferenciados apenas enquanto a ligação do termo divórcio às esferas jurídicas, assim como utilizado por Brito (2007; 2008), Brito e Peçanha (2006), Sousa (2014) e Rapizo (2020). Muitas pesquisas sobre separação conjugal têm sido desenvolvidas nos últimos anos no escopo da Psicologia, sobretudo no âmbito da Psicologia Jurídica. A temática vem sendo abordada com fins diversos, seja com o intuito de investigar os desdobramentos da separação conjugal em pais e filhos, seja para oferecer ferramentas para a redução de conflitos durante o processo de separação, seja para alertar sobre possíveis perigos do divórcio, seja para discutir o exercício da parentalidade no pós-divórcio, seja para avaliar as atuações de psicólogos em varas de família. Enfim, as mais variadas pesquisas partem de diferentes posições, de forma que não há consensos sobre os temas relacionados ao divórcio. Contudo, frequentemente, opiniões políticas e jurídicas são embasadas em argumentos psicológicos, o que, por si só, justifica a necessidade de discutir o tema sob uma lente psicossocial. Não somente os estudos sobre divórcio e sua implicação na vida dos filhos, mas também a prática em Psicologia Jurídica no Direito de Família se restringe quase exclusivamente aos filhos menores, e principalmente na infância. Isso remete à ideia de que o impacto da separação só recai sobre os mais novos. Cardoso (2008) apresenta estudo sobre a escola diante da família 45 pós-divórcio, destacando como em geral é no segmento da educação infantil que há maior participação ou interesse da escola no tema. E muitas vezes, segundo a autora, a queixa é apresentada por parte da figura parental que não exerce a guarda ou tem menor contato com a criança, pois se sente afastada ou privada do acompanhamento da vida dos filhos. Porém, as repercussões da separação conjugal se estendem para além da infância, sendo necessário, portanto, ampliar o olhar a fim de uma melhor compreensão dos arranjos gerados por esse tipo de transformação familiar. Desde 2018, um Programa de Cooperação Acadêmica entre a Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Universidade Federal de Rondônia (UNIR) e Universidade de Brasília (UnB) iniciou uma pesquisa envolvendo universitários amazônidas a partir de vários recortes. O projeto intitulado “Trajetórias de Escolarização de Jovens Estudantes Amazônidas” (Silva, Pedroza & Urnau, 2018) vem ouvindo sobre experiência de migração, pandemia, racismo, homofobia, trabalho e estudo, maternidade e formação universitária entre jovens. As questões familiares, ainda que não constituíssem o foco da pesquisa em seus muitos recortes, foram frequentes nos relatos, dada a sua centralidade nos processos do desenvolvimento, na escolarização e nos diferentes ciclos de vida, incluindo a formação superior. A partir dos resultados sobre as trajetórias de universitários amazônidas, organizou-se um subprojeto cujo objetivo consistiu em compreender as repercussões da separação conjugal dos pais na trajetória de universitários oriundos de municípios do interior do Amazonas. Uma busca nos repositórios das universidades federais dos estados da região Norte mostra que os temas da separação conjugal e do divórcio no contexto regional ainda são pouco discutidos. Apesar de existirem trabalhos que abordam temas relacionados à família amazônica, quando se trata do divórcio, a pouca produção disponível tende a focar em aspectos jurídicos ou em temas relacionados ao divórcio, como a alienação parental. Assim, o trabalho de campo vinculado à esta pesquisa, visou também, uma oportunidade de ampliação do olhar sobre o tema e incentivo para discussões no âmbito da família amazônida. Este texto apresenta um recorte da pesquisa de campo realizada com três participantes. Os participantes integraram o estudo através do método “bola de neve”, definido por Vinuto (2014) como “uma forma de amostra não probabilística, que utiliza cadeias de referência” (p. 46 203). Foi feito convite para responder a pesquisa por meio de cartões virtuais e preenchimento de formulário na plataforma Google. Os critérios para participação incluíram: 1. ser estudante universitário; 2. ser oriundo de município do interior do Estado do Amazonas; 3. ter passado por processo de separação conjugal dos pais. Os instrumentos utilizados no campo foram: entrevista narrativa e entrevista semiestruturada. A entrevista narrativa foi escolhida por ser, conforme Jovchelovich e Bauer (2002), um instrumento não estruturado, orientado para a busca de profundidade em aspectos específicos, onde são empregadas ferramentasdestinadas a evocar narrativas de vida. A entrevista semiestruturada foi escolhida por permitir o aprofundamento de algumas questões que apareceriam durante a entrevista narrativa. Nela, concentra-se em eventos, personagens ou trechos de entrevista que são identificados como mediadores da continuidade na produção de significados e na interpretação dos sentidos atribuídos pelos participantes, conforme observado por Guazi (2021), possibilitando assim trazer questões relacionadas ao tema da pesquisa que podem ser exploradas a partir da narração anterior. Foi realizada a gravação das entrevistas e sua subsequente transcrição, visando viabilizar a análise dos dados coletados. A análise das entrevistas coletadas foi conduzida utilizando o método de Análise Temática, o qual se dedica a investigar os sentidos presentes em textos concretos, levando em consideração tanto a esfera oral quanto a escrita. Esse método examina os textos sob a ótica das relações dialógicas estabelecidas com outros discursos, bem como das interações entre sujeitos sócio-históricos (Minayo, 2008). Parte de um pressuposto de que as categorias não são pré-definidas pelo pesquisador, mas que surgem durante o processo de análise. 47 ALGUMAS NOTAS E INQUIETAÇÕES SOBRE A SEPARAÇÃO CONJUGAL, DIVÓRCIO E FAMÍLIA NA REGIÃO NORTE DO BRASIL Um dos modos de compreender a magnitude das separações conjugais é através dos registros oficiais (dados demográficos, relatórios de tribunais, etc.). Tendo como foco a região Norte, buscamos por identificar, a partir do recorte regional, como se expressam as características dos arranjos e transformações familiares nos dados estatísticos do IBGE. Na mais recente Pesquisa Estatísticas do Registro Civil10, publicada em 2023 com dados referentes ao ano de 2021, podemos verificar que a região norte, apresenta o menor número de casamentos em números brutos no período entre 2019 e 2021, porém apresenta a terceira maior taxa de nupcialidade11. Ao se tratar do divórcio, a região apresenta a menor taxa geral de divórcios12, porém apresenta também o maior índice de divórcios ocorridos antes dos 10 anos de casamento, onde mais da metade das separações (55,7%) ocorrem durante esse período, revelando números acima da média nacional (48,8 %) (IBGE, 2023). Ainda que estes dados por si só não sejam suficientes para análises mais complexas sobre as características regionais de divórcios e separações conjugais, chama a atenção que a região norte apresenta dados localizados nos extremos, quase sempre sendo o menor ou o maior índice comparado às outras regiões. Cabe destacar que a Lei do Divórcio no Brasil foi pensada como um dispositivo de controle, na forma que entende Foucault (2005), das manifestações das relações familiares em defesa de um modelo de família tradicional. Assim, é de se refletir em que grau as concepções amazônicas sobre famílias teriam sido alcançadas por este dispositivo jurídico formal, principalmente nas regiões fora das capitais, pois como vemos em algumas pesquisas (Silva, 2006; Santos, Silva e Pontes, 2011) há uma prevalência de uniões, separações e recasamentos informais em comunidades tradicionalmente constituídas na região norte. 10 Pesquisa que compila dados sobre registros oficiais de nascimentos, óbitos, casamentos e divórcios no país, a partir de dados de cartórios, varas e tabelionatos. 11 Calculada a partir do número de casamentos a cada mil habitantes com 15 anos ou mais. A região norte registrou, em 2021, 5,4 casamentos para cada 1 mil habitantes, valor próximo à média nacional (5,5). (IBGE, 2023). 12 159 divórcio a cada 100 mil habitantes. 48 Convém destacar que estes dados possuem em si uma fragilidade a ser considerada, pois levam em consideração registros oficiais e não as outras formas de constituir vínculo conjugal que não implicam na formalização das mesmas. Este aspecto também foi apontado por Soares (2013), ao levantar dados de organização familiar no país. Tal qual a autora, entendemos que o IBGE fornece uma limitada visão sobre o dado, o que nos leva a acreditar que os números de uniões e separações são maiores que o divulgado. No entanto, mesmo sem serem tomados como absolutos, os dados nos permitem pensar em questões significativas. Não é objetivo aqui aprofundá-las e discuti-las em exaustão. Entretanto, entende-se a importância de registrá-las, já que podem ser ‘faíscas’ para pesquisas futuras. Uma das observações a partir dos dados do IBGE refere-se às influências que a distância e o desamparo que estas regiões sofrem em relação às ações do poder público. Este desamparo gera consequências nas dinâmicas familiares em contextos remotos e de grande precariedade de serviços. Em se tratando das questões que envolvem o amparo judicial e assistencial, por exemplo, de que modo o poder público se faz presente para estas famílias? E, na ausência destes dispositivos, quais arranjos e acordos foram surgindo nestes cenários? A esse respeito, Silva et al. (2011a) já haviam feito a seguinte observação: O casamento na comunidade estudada, antes de ser um contrato social civil ou religioso, parece ser uma vinculação do casal quando se relaciona de forma estável e gera filhos nessa união. Essa forma de matrimônio é socialmente legítima na comunidade e provavelmente evoluiu da história de desassistência do poder público ao lugarejo. (p.56). Outra questão emerge ao considerar aspectos relevantes no contexto da região amazônica, sobretudo na realidade concreta dos municípios menores e comunidades mais remotas, em que os modos de organização de vida possuem especificidades em relação às capitais. Se para Reis (1987, p. 101), uma das bases do casamento moderno seria “a de garantir a transmissão da herança a filhos legítimos”, como este fator, aspecto central nas pautas do Direito de Família, figura nas uniões conjugais em regiões que prevalecem relações baseadas na subsistência? Pensão alimentícia, disputa de bens, dentre outros temas que assumem posição central nos processos judiciais nas separações conjugais nos grandes centros, podem ocupar 49 outros lugares ou encontrarem diferentes soluções em municípios de menor envergadura e distintos modos de organização de vida. Tem-se, portanto indicadores estatísticos que apontam para aspectos que tornam diferentes os modos de organização familiar e seus processos transformativos na região, corroborando a necessidade de ampliar a compreensão sobre suas especificidades. A SEPARAÇÃO CONJUGAL NA FAMÍLIA AMAZÔNIDA A PARTIR DE NARRATIVAS DE UNIVERSITÁRIOS Como citado anteriormente, no trabalho de campo foram realizadas entrevistas com 3 universitários oriundos de municípios do interior do Amazonas. Visando preservar a identidade dos participantes, estes serão referidos através de nomes fictícios, os quais foram escolhidos pelos mesmos. Apresentaremos então Luz, Rosa e Baião. Luz tem 22 anos, natural de um município localizado na região central do Estado do Amazonas, às margens do rio Purus. Vive em Manaus, entre idas e vindas, desde os seus 15 anos e é discente do curso de Pedagogia em uma instituição privada. Luz tem em seu histórico familiar dois processos de separação conjugal, a dos pais biológicos - ocorrida antes do seu nascimento -, e a de sua mãe e de seu pai-padrasto, como se refere - ocorrida há cerca de três anos. Rosa tem 21 anos, natural de um município localizado na região sul do Estado do Amazonas, às margens do rio Madeira. Vive em Manaus desde os 3 anos de idade e é discente do curso de Enfermagem em uma universidade pública. No mesmo período da migração para Manaus, quando tinha por volta de 3 anos, seus pais passaram pelo processo de separação conjugal e, mesmo com a separação, a mesma conviveu de maneira constante com ambos até cerca de seus 15 anos de idade. Baiãotem 24 anos, é indígena da etnia Kokama e natural de uma comunidade localizada na região rural no Alto Solimões. Vive na sede do município e é discente do curso de Licenciatura Intercultural Indígena. Baião vivenciou o processo de separação conjugal dos pais aos cinco anos de idade e mostra em sua trajetória vários momentos onde viveu com familiares diferentes. 50 A despeito de buscar conhecer aspectos específicos presentes nas separações conjugais em contextos familiares amazônicos, não objetivamos encontrar um tipo único de família amazônida, com características definidas. As abordagens tradicionais da Psicologia buscam generalizações e, com isso, costumam referir-se a abstrações que não correspondem aos sujeitos concretos em suas vidas concretas. Se buscarmos construir um único modelo que represente a família amazônida, nos afastaremos dos movimentos concretos e de suas contradições. Na perspectiva histórico-cultural, compreende-se a importância de lidar com os sujeitos concretos, suas experiências, e, assim, encontrar famílias concretas que produzem sentido sobre elas próprias, compreendendo estas em uma constituição na relação dialética entre o universal-particular-singular. As narrativas de Luz, Rosa e Baião têm em comum alguns aspectos, mas evidenciam a pluralidade e complexidade das histórias familiares. Identificamos nas narrativas, três movimentos de transformações familiares que têm em comum, os atravessamentos da realidade Amazônica, mas que revelam arranjos e negociações únicas. Assim, apresentaremos a seguir, um recorte das análises feitas sobre as entrevistas, focando especificamente em costurar conjecturas sobre semelhanças nas narrativas. Apesar de serem três histórias únicas, é possível estabelecer alguns paralelos entre as histórias dos participantes, levando a alguns pontos. Um deles é: a realidade amazônica se impõe nas narrativas, ainda que a princípio não pareça haver uma intencionalidade dos participantes de assim o fazer. Durante a entrevista semiestruturada foi perguntado aos entrevistados a respeito das diferenças percebidas entre as dinâmicas familiares dos seus locais de origem e dos locais onde passaram a viver. A vida está diretamente implicada no modo de produção, na concreta necessidade da existência. E quanto mais vinculados à vida nos municípios ou comunidades remotas, mais ligados a atividades como a pesca, em locais onde os serviços e políticas públicas são escassos. Neste aspecto, a separação conjugal, que em contextos mais urbanos característicos dos grandes centros leva à divisão de bens e recursos, nas falas apresentadas fica evidente de que a ruptura não implicou em um empobrecimento, mas sim um novo modo de vivenciar as dificuldades na luta pela sobrevivência. Problemas como falta de pagamento de pensão alimentícia, ameaças e disputas acirradas em torno da posse de bens ou guarda de filhos não foram retratados nas narrativas. No entanto, ausências são descritas, alianças são 51 construídas, rupturas são vividas, sempre expressando as diferenças de arranjos os quais estas famílias puderam fazer. Outro aspecto comum nas narrativas foi a ausência de referência às instituições do aparato sócio-jurídico, tão presentes nas capitais e em algumas poucas sedes de municípios amazonenses. Tribunais, fóruns, Ministério Público, advogados, equipes técnicas socioassistenciais estão ausentes nas narrativas no que se refere ao acompanhamento do processo de separação conjugal. Por outro lado, a vivência que os entrevistados têm de suas comunidades para além da família nuclear, é maior, sobretudo quando o entrevistado relata ter vivido por mais tempo nos municípios e/ou comunidades do interior. Dentre as principais percepções se destaca a noção de comunidade que as famílias de origem possuem, que foi mencionado tanto por Luz quanto por Baião: Lá eles são mais unidos, aqui já não são, cada um no seu lugar. Lá não, a gente convive todo dia, vai para casa, vai tomar um café, coisa e tal, lá é mais unido. Aqui não, já é meio que separado, só se encontra no final de semana. Essa é a diferença, não são unidos aqui, na comunidade já é. Todo dia tem aquela união, almoço junto, tomo café junto, aqui não, é mais final de semana que se encontra. (Baião) A família da minha mãe costuma compartilhar tudo. Tudo, tudo, tudo, tudo mesmo. No caso, onde a gente morava era na casa da vovó. Então é praticamente casa de vó. Sempre quando o pessoal vinha do interior, eles ficavam na casa da vovó. Então a casa estava sempre cheia. Sempre, sempre cheia mesmo. E a gente não costumava negar nada. Fazia, tipo, comida, era bastante comida, bastante coisa. (Luz) No caso, comida a gente costuma dividir bastante. Quando tem dia das mães, a gente costuma fazer um churrasco na frente de casa. Aí juntava o vizinho, juntava a vizinha da frente. [...] Ficava lá brincando com as outras crianças. [...] Ano Novo, Natal, enfim. (Luz) Aí quando eu vim pra casa da minha tia, percebi que cada um tem uma geladeira no seu quarto. Aí tipo, na geladeira só tinha os básicos. [...] Eles não jantavam. Isso porque eles sempre pediam alguma coisa e comiam. A minha tia, no caso, a minha tia costuma realmente dividir as coisas dela porque ela vem do interior, né? Mas os outros não. Os outros, como foram todo mundo criado na cidade, então eles costumam ter essa mão fechada, assim. (Luz) Esses relatos mostram que na percepção de Luz e Baião, não só é nítida essa diferença, como o fato ser do “interior” ou da “cidade” é visto como um marcador para possuir essas características de relacionadas a solidariedade de um lado e egoísmo do outro, mesmo que 52 posteriormente nas narrativas eles afirmarem que não é necessariamente uma regra. Podemos ver mais um exemplo disso quando Luz atribui aos avós a noção de comunidade: Então, eles sempre foram do interior, então sempre teve essa coisa de família maior. Então... A minha avó, conforme ela conhecia, ela, tipo, ela já considerava da família. Então, tinha vezes que lá em casa não era nem família, família mesmo que tava lá, era, às vezes, tipo, conhecido da minha tia, que ia pra lá e a minha avó já recebia. Então, tem tantos tios e primas que eu tenho que não tem realmente laço sanguíneo. É mais, tipo, conhecidos, que eu considero tio e considero primo por a gente ter esse convívio como família. (Luz) Na história de Luz, é perceptível um conflito que aparece nesse sentido, quando ela narra que durante o momento que morou na casa dessa tia em Manaus, que após ela começar a fazer refeições, os outros membros começaram a querer participar da refeição, mesmo sem contribuir. Isso era algo que chateava Luz, porém ela não negava dividir a refeição com os demais devido a sua característica – ser do interior: Eu comia agora, só era eu chegar, aí chegavam os outros lá pra comer junto comigo. Eu ficava... Eu não negava porque eu fui criada assim, mas eu ficava, tipo, “não pega, não pega”. Eu ficava com raiva, mas eu acabava dando. (Luz) A narrativa de Luz pode indicar que existam afetos considerados negativos por ela, mas que a mesma aprendeu a manejá-los de uma forma diferente. Algo similar aparece numa história que conta sobre sua infância na casa de sua avó, onde apesar de gostar do ambiente com muitas pessoas, afirmou na época sentir ciúmes dos seus brinquedos e não gostava quando outras crianças brincavam com eles. Outro aspecto que se destaca nas narrativas é a presença e importância que as figuras das avós possuem na estrutura familiar, algo que também pode ser visto nas famílias estudadas na pesquisa de Santos, Silva e Pontes (2011). Na história de Rosa, a avó aparece como a figura central da família atualmente, porém afirma que isso aconteceu após o falecimento do avô, que antes era considerado o esteio familiar. Já na de Baião,ambas as avós têm lugar de importância na criação dele, tendo vivido com ambas em momentos diferentes e sempre sendo referenciadas positivamente, já seus avôs não são citados por ele. Na história de Luz a avó materna é uma figura central, sendo referência familiar quando aborda a questão do convívio comunitário e motivando uma das suas vindas, já que quando a avó adoece, Luz, junto com sua mãe e suas 53 irmãs, saem do sítio onde moravam com o seu pai-padrasto para voltar ao município de origem e ajudar nos cuidados. O que acaba reverberando num evento marcante para Luz, que foi o falecimento da avó dias depois de seu aniversário. "A minha avó foi praticamente uma segunda mãe para mim, né? Porque ela me criou por um bom tempo. Pelo tempo que a minha mãe não estava perto. Então, ela que me criava.” (Luz). O avô é citado por Luz, porém ela afirma ter tido uma menor proximidade com ele, que era mais próxima de sua irmã. Um ponto importante que aparece de forma diferente nas narrativas é a relação das avós com as trajetórias de estudo. Tanto na história de Baião quanto na de Luz, as avós aparecem como rede de apoio e cuidado em momentos em que precisam se afastar dos pais, seja em momentos onde os pais não puderam estar acompanhando de perto os estudos devido aos seus trabalhos, seja quando eles precisaram migrar para conseguir estudar. Já na história de Rosa, a avó aparece como a personificação da mente fechada que ela afirma sentir da sua família do interior e sendo possível obstáculo ao seguimento de carreira acadêmica que a mesma almeja ao desejar que a neta volte ao município de origem. Porém, a mesma destaca que essas concepções talvez sejam projeções de sua mãe e tias, já que parte da sua concepção são das histórias que ouviu e observou da criação delas, mas na relação direta com a avó, ela alega ser boa, inclusive citando que ao ingressar na universidade, ambos os avós ficaram muito felizes e a apoiaram. Além dos avós, outros membros familiares do que é considerado família extensa também estiveram bastante presentes nas narrativas. Principalmente nas histórias de Luz e Rosa temos a participação de tias e primas. Foi notável a prevalência de figuras femininas nas histórias, e mesmo quando apareciam figuras masculinas, pareciam ter menos destaques nas narrativas. Ao ser perguntada sobre a prevalência de mulheres na sua história, Rosa responde que até tem contato com dois tios, mas que não é próxima a eles, e afirma que “não tem muito homem na minha família. Acaba que, tipo, por ser mulher, a gente acaba, assim, se aproximando delas e por tem muita mulher na família mesmo.” (Rosa) Na pesquisa de Silva, Pontes e Silva (2011) no contexto da região Norte, vemos que devido à divisão mais rígida entre os papéis sociais, os meninos costumam ser mais próximos das figuras masculinas e as meninas mais próximas das figuras femininas. 54 A prevalência de figuras femininas, porém, pode também indicar outra questão envolvendo gênero. Como vemos em Souza (2000) e Brito (2007, 2008), nos casos de separação conjugal, na grande maioria dos casos os cuidados dos filhos ficam sob responsabilidade da mãe. O maior número de mulheres nas histórias pode apontar que tanto essas figuras acabam tendo maior papel na participação familiar e por isso seriam mais marcantes, quando para que o número de mulheres nas famílias sejam maioria na suposição de que os homens teriam uma tendência maior a sair dos núcleos familiares. Contudo, nossos dados não são suficientes para discutir com maior propriedade essa questão, ficando este como mais um ponto que pode ser explorado em pesquisas futuras. Algo também relacionado a estrutura familiar que é vista nas três histórias e que também foi identificada por pesquisas com filhos de pais divorciados e que, após a separação conjugal, além de perder contato com o genitor com o qual se deixou de conviver, também pode haver uma quebra na relação com o núcleo familiar deste (SOUZA, 2000 E BRITO, 2007, 2008). Todos os três participantes apontam que após as separações que vivenciaram, perderam ou reduziram consideravelmente o contato com os familiares paternos. Mesmo no caso de Baião, que chegou a ser criado pela avó paterna em algum momento, relata que hoje em dia só mantém contato por telefone. Rosa em um momento cita essa perda do contato: [...] Da família do meu pai eu não tive mais contato com ninguém também[...] Antes de ele desaparecer, eu tinha muito contato com eles, acho que perto de quando isso aconteceu, eu ia uma vez na semana, assim, mas eu via sempre eles. (Rosa) Ainda se tratando dos papéis, a divisão social do trabalho, e por consequência suas atividades, também são coisas que tem efeito sobre as relações familiares e as separações conjugais narradas. Como vemos tanto na história de Luz quanto de Baião, o fato de os pais serem pescadores dificultava a relação deles, já que eram poucos os momentos que eles estavam presentes fisicamente. Luz narra que durante a infância em seu município de origem, via seu pai biológico cerca de duas vezes por ano, quando durante seu trajeto de pesca ele passava pelo município. Isso aponta para uma possível característica regional das separações conjugais: devido à natureza das atividades de subsistência, o contato com os pais após a separação conjugal pode ser menor ainda comparado a aqueles que trabalham em atividades numa cidade, por exemplo. 55 Além disso, algo interessante surge a partir das características do trabalho e da importância da comunidade para formação da identidade de Luz que reverbera em sua trajetória de escolarização. Devido ao período que passou viajando no barco de pesca com o pai-padrasto, Luz começou seus estudos formais em idade avançada, com cerca de 8 anos. Ela relata ter tido dificuldades com leitura e escrita no começo, porém afirma que tinha facilidade em matemática: Eu já sabia um pouco de matemática quando eu entrei lá [na escola], porque os pescadores sempre me ensinavam, né? Os pescadores (...) eram bons de matemática. Porque eles têm que lidar com dinheiro, assim, né? Então, eles sempre me ensinavam. Então, quando eu entrei, a parte da matemática eu já sabia. (Luz) A relação entre os papéis sociais também reflete nas trajetórias de escolarização de outra maneira. Como destacado em algumas pesquisas que abordaram as trajetórias de universitárias amazônidas (Lemos, 2021; Cardoso, 2021), vimos a potência do feminino relacionada ao ato de estudar, à escolarização, tanto nas próprias estudantes, mas principalmente nas suas redes de apoio que são formadas majoritariamente por suas mães e avós, fazendo da trajetória universitária uma culminação de várias gerações de mulheres. Essa questão tem relevância nas três trajetórias narradas. Na história de Luz, esta foi morar com sua avó quando começou a estudar. Quando veio para Manaus viveu numa casa que, apesar de seu parente de referência mais direto ser o tio paterno, ela destaca a importância da tia. Na história de Rosa, vemos a mãe como principal apoio, tanto emocional quanto financeiro, em sua trajetória escolar. Além disso, ela menciona que é a segunda da família a ingressar numa universidade, sendo a primeira uma tia. Chega a mencionar também as primas que devem prestar vestibular em breve. Nestas duas histórias, quando o assunto é escolarização, é perceptível a predominância de figuras femininas. Na história de Baião, podemos inferir que foi a quebra com os papéis de divisão social do trabalho que possibilitou a oportunidade de seguir sua trajetória de estudos. Tal quebra se deu com a ruptura dos laços com aquele que socialmente reproduzia o papel da manutenção deste lugar – do gênero masculino e da função social paterna -, que era seu pai. A história de Baião nos faz levantar o questionamento de, se nesses cenários, osmeninos, devido ao engessamento de papéis, possuem tendências de descontinuação dos estudos, sendo a 56 escolarização um atributo ou trajetória direcionada às meninas (filhas e netas) por outras mulheres (mães e avós). Outro paralelo nas três histórias é a relação entre a migração e as trajetórias de escolarização. Luz e Baião vieram para as cidades onde vivem por conta do estudo, e no caso de Rosa, apesar do estudo não ter sido a motivação da migração, é dito por ela como a motivação da permanência em Manaus. Essa relação entre migração e o estudo é algo amplamente reconhecido nas realidades de acadêmicos amazonenses, e suas implicações na permanência destes estudantes já foram abordados em pesquisas como a de Resende el al. (2022), que conclui sobre a necessidade da ampliação, para este público, de políticas públicas, programas, projetos e processos de criação de oportunidades de aprendizagem e de desenvolvimento por meio do acesso, permanência e conclusão da formação pessoal, acadêmica e profissional com qualidade humana, técnica e ética. (p.158). Por fim, um último paralelo que pode ser destacado relaciona-se com o fato já mencionado da ausência de referências aos aparatos sócio-jurídicos. Mas além das referências, cumpre destacar que nas três histórias de separação conjugal narradas não houve judicialização. Quando questões jurídicas eram citadas, apareciam ligadas à possibilidade de conflitos. Como podemos ver na história de Rosa: Ele já tinha ameaçado de me tomar da minha mãe, minha mãe ficou transtornada, mas enfim, acho que nunca aconteceu. Eles nunca foram pra justiça mesmo, esse negócio de pensão, porque ele nunca deixou de pagar. (Rosa) Por um lado, isto mostra uma potência dos atores sociais que vão fazendo acontecer, de alguma forma, os arranjos familiares diante dos movimentos de transformações, a despeito da ausência dos equipamentos do Estado. Por outro lado, revela a desassistência que as famílias no interior do Amazonas que vivenciam transformações familiares estão submetidas, o que certamente contribui para que direitos constitucionais deixem de ser assegurados a todos os implicados, e situações de injustiça e desigualdade sejam perpetuadas. 57 CONSIDERAÇÕES FINAIS Voltar a atenção às questões familiares ao longo da história de vida de universitários do interior do Amazonas, permitiu acessar aspectos não contemplados comumente nas pesquisas sobre divórcio. Temas como separação conjugal e formação universitária não tendem a aparecer como questões mutuamente associadas. No entanto, constatou-se que há uma considerável repercussão da separação de pais na trajetória de escolarização, segundo universitários amazônidas. “Bordados únicos” ou “costuras”, representam a história de cada processo de transformação familiar estudado, revelando arranjos onde vínculos foram mantidos e onde vínculos sofreram rupturas drásticas, mas que, inexoravelmente, impactaram profundamente a relação com a educação formal. As histórias de Luz, Rosa e Baião enquanto bordados intrincados únicos, permitiram corroborar a pluralidade dos arranjos familiares que ocorre a partir das separações conjugais, tal como aponta a literatura sobre divórcios em outras regiões do país (Souza, 2014; Brito, 2007, 2008), Por outro lado, são as histórias destes mesmos jovens que nos permitiram identificar aspectos próprios à região amazônica que atravessam a história de suas famílias, fazendo ver a importância de compreender estes processos sob uma lente que considere as especificidades locais, incluindo a geografia (fator amazônico), organização da família, papéis de gênero, território rural e urbano, aspectos socioeconômicos, a distribuição desigual da presença e ação do Estado nos municípios do Amazonas, dentre outros. Chamou atenção o fato de que a presença feminina foi determinante em todas as histórias para uma valorização da Educação, incentivo e apoio (material, afetivo, etc.) para que Rosa, Luz e Baião tivessem a trajetória de escolarização que tiveram, incluindo o ingresso no curso superior. A relação escolarização e gênero se mostra nítida no cenário trazido pelos participantes, onde a dificuldade de manutenção da vida em termos da subsistência, compele de certo modo as figuras masculinas não somente a um distanciamento maior do cotidiano dos filhos, mas da própria escolarização. Perseguir a escolarização parece ser possível neste contexto através do movimento feminino – mães, tias e avós – impulsionando outras mulheres (filhas, netas ou sobrinhas) à 58 conquista da Educação. O caso de Baião mostra que são mulheres também que impulsionam filhos, quando a estes é possível, de algum modo, não seguir a repetição dos papéis de gênero nitidamente marcados nas comunidades mencionadas, o que aponta como através de transformações familiares, engendra-se novas dinâmicas que permitem superar papéis engessados. Nas histórias narradas, observamos também que os participantes não vislumbravam, na maioria das vezes, a potência que revelavam diante das transformações familiares vividas. Estes, em vários momentos, a despeito de terem vivido inseridos em contextos nos quais diversas formas de manifestações familiares eram identificadas, ainda compreendiam a família a partir de uma visão abstrata e idealizada. Este aspecto nos levou a questionar o quanto a família idealizada vem influenciando não só a atuação de psicólogos, assistentes sociais, operadores do direito e tantas outras profissões que lidam diretamente com famílias singulares. Uma ideia de família abstrata parece influenciar os próprios integrantes destas famílias, não reconhecendo aspectos que podem ser próprios dos modos de constituição subjetiva dos contextos histórico-culturais o qual partilham. Outro aspecto que merece destaque mas que não traz, necessariamente, um dado novo em se tratando do conhecimento da realidade amazônica, é a ausência dos equipamentos sociojurídicos para determinados segmentos populacionais, no caso, habitantes de, provavelmente, a maioria dos municípios do Amazonas. Para os que não vivem na capital ou nos poucos municípios onde tal aparato se faz presente, a ação da Justiça não se traduz como justiça social. Longe de esgotar as complexas questões que o material levantado na pesquisa possibilitou acessar, entendemos que a realidade da região abriga muitos aspectos singulares que demandam urgência no movimento de produção de um saber mais articulado às vidas concretas que ali se produzem cotidianamente. Consideramos ter levantado pontos importantes a serem pensados pela Psicologia, Direito, Assistência Social, Educação, Sociologia, entre outros campos cujos saberes e práticas se entremeiam às histórias dos arranjos e transformações familiares, que impactam de modo único, a construção dos modos de vida no território amazônico diante de suas especificidades. 59 REFERÊNCIAS: BRITO, Leila Maria Torraca. Família pós-divórcio: a visão dos filhos. Psicologia: ciência e profissão, v. 27, p. 32-45, 2007. BRITO, Leila Maria Torraca. Alianças desfeitas, ninhos refeitos: mudanças na família pós- divórcio. In: ______. (Org.). Famílias e separações: perspectivas da psicologia jurídica. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 2008p.17-48. BRITO, Leila Maria Torraca; Peçanha, Raphael Fischer. Separação conjugal e relações familiares: debates recentes. Interações, n. 22, p. 87-104, 2006. GUAZI, Taísa Scarpin. Diretrizes para o uso de entrevistas semiestruturadas em investigações científicas. Revista Educação, Pesquisa e Inclusão. Boa Vista, v. 2, n. 1, p. 1-20, 2021. JOVCHELOVICH, S.; BAUER, M.W. Entrevista Narrativa. In: BAUER M. W.; GASKELL G. Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático. Petrópolis: Vozes, 2002. p. 90-113. MINAYO, M. C.S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo: Hucitec, 2008. RAPIZO, Rosana. Separações e divórcios: desafio contemporâneo. In: ______. Entre laços e nós: conversando sobre divórcio. Editora Appris, 2020. REIS, José Roberto Tozoni. Família, emoção e ideologia. In: Lane, S.T. M.; Codo W. (Orgs.). Psicologia social: o homem em movimento. São Paulo, Brasiliense, 1984. p. 99-124. SILVA, Iolete Ribeiro da; PEDROZA, Regina Lucia Sucupira; URNAU, Lílian Caroline. Os significados das trajetórias de escolarização de jovens estudantes amazônidas. Projeto de Pesquisa financiado pelo Programa Nacional de Cooperação Acadêmica na Amazônia, Edital nº 21/2018. BRASIL/CAPES, 2018. SOUSA, Analicia Martins. Síndrome da alienação parental: um novo tema nos juízos de família. Cortez Editora, 2014. VINUTO, Juliana. A amostragem em bola de neve na pesquisa qualitativa: um debate em aberto. Temáticas. Campinas, v. 22, n. 44, p. 203-220, 2014. 60 DIREITOS SEXUAIS E REPRODUTIVOS DE MULHERES NO BRASIL: REVISÃO INTEGRATIVA SOBRE AUTONOMIA REPRODUTIVA MONIQUE EVELYN SANTOS CALDAS13 ADRIA DE LIMA SOUSA14 BRENO DE OLIVEIRA FERREIRA15 Resumo: O presente artigo tem como objetivo analisar as evidências científicas sobre a autonomia reprodutiva de mulheres no Brasil. Foi realizada uma análise integrativa nas bases de dados: PubMed, LILACS, Medline, Scopus e Google Acadêmico, resultando em treze estudos selecionados e submetidos à análise temática por meio do software Atlas.ti. A análise temática identificou os tópicos: perfil da saúde sexual da mulher; vulnerabilidades e contracepção; aspectos institucionais; e autonomia pessoal, além da aplicabilidade para políticas públicas. As limitações ressaltam estudos centralizados em profissionais de saúde; a escassez de estudos realizados com populações vulneráveis e em relação ao aporte metodológico. Percebeu-se que o perfil da saúde sexual da mulher no Brasil não é homogêneo e está estreitamente ligado às questões relacionadas aos marcadores sociais e à própria questão territorial. A autonomia reprodutiva de mulheres brasileiras requer uma compreensão dos direitos humanos, com uma abordagem complexa, histórico-crítica e contextualizada dos seus diferentes aspectos e dimensionalidades. Palavras-chave: saúde reprodutiva; saúde sexual; autonomia reprodutiva; saúde da mulher; INTRODUÇÃO Os direitos sexuais e reprodutivos (DSR) são princípios fundamentais para a garantia da autonomia das mulheres, envolvendo o exercício livre e responsável da sexualidade e reprodução. No Brasil, esses direitos enfrentam desafios significativos devido a fatores sociais, culturais e institucionais, que afetam o acesso das mulheres a serviços de saúde e métodos contraceptivos. A despeito de um debate impulsionado por conferências internacionais, como 13Psicóloga, Mestranda em Psicologia na Universidade Federal do Amazonas – UFAM. Pós-graduada em Neuropsicologia CEUNI-FAMETRO. E-mail: psimoniquec@gmail.com 14Psicóloga, Professora Adjunta da Faculdade de Psicologia -UFAM, Doutora em Psicologia – UFSC. Mestra em Psicologia – UFAM. E-mail: adria.sousa@ufam.edu.br. 15 Psicólogo. Doutor em Saúde Coletiva. Professor da graduação e pós-graduação em Psicologia na Universidade Federal do Amazonas. E-mail: breno@ufam.edu.br. mailto:adria.sousa@ufam.edu.br mailto:breno@ufam.edu.br 61 a de População e Desenvolvimento (CIPD) no Cairo em 1994, e a Conferência Mundial sobre a Mulher em Beijing em 1995 (Citeli, 2005; Gomes, 2021), o foco deste estudo será sobre a realidade brasileira, onde as políticas de controle populacional, precarização do Sistema Único de Saúde (SUS) e a criminalização do aborto limitam as opções reprodutivas das mulheres. O conceito de DSR tornou-se alvo de tensões ao longo dos anos, principalmente em relação ao impacto que as políticas populacionais têm sobre as mulheres, especialmente as mais vulneráveis (Amaral, 2019). No Brasil, a esterilização feminina tem sido amplamente utilizada como método contraceptivo, muitas vezes por falta de alternativas viáveis, reforçando um contexto de controle populacional que restringe a autonomia reprodutiva das mulheres (Corrêa; Petchesky, 1996; Gomes, 2021). As decisões reprodutivas das mulheres são influenciadas por interseccionalidades de gênero, raça, classe e território, além de pressões familiares e sociais. Esses fatores tornam necessário compreender o contexto social e estrutural que limita as escolhas das mulheres e identificar as barreiras impostas pelo desfinanciamento dos serviços de saúde pública e pela falta de políticas que garantam o acesso a métodos contraceptivos seguros e reversíveis (Silva; Leme, 2023).Nos diferentes níveis de atenção do SUS, a saúde sexual e reprodutiva é uma questão prioritária, mas enfrenta obstáculos significativos (Brasil, 2005, 2013). A ausência de uma discussão aprofundada sobre o aborto e a prevalência de esterilizações cirúrgicas evidenciam a necessidade de políticas públicas mais inclusivas, que garantam de fato a autonomia reprodutiva das mulheres brasileiras. O objetivo deste estudo é analisar as evidências científicas sobre a autonomia reprodutiva das mulheres no Brasil, com foco na relação entre a esterilização feminina e os direitos reprodutivos. A pauta dos direitos sexuais e reprodutivos (DRS) precisa ser compreendida no âmbito da complexidade e garantia dos direitos humanos de mulheres para além de uma discussão abstrata e genérica. Em meio a tensões e agências de disputas históricas e epistemológicas, o debate a respeito dos DRS teve início há mais de duas décadas, provavelmente de base norte- americana, influenciado pelas Conferências Internacionais sobre População e Desenvolvimento (CIPD) no Cairo, em 1994 e pela IV Conferência Mundial sobre a Mulher, em Beijing, Pequim, em 1995 (Citeli, 2005; Gomes, 2021). Apesar de serem recentes, foi nesse período que o primeiro documento oficial, em nível mundial, foi aprovado, definindo direitos 62 sexuais específicos das mulheres. Embora seja considerado um marco histórico, o texto apresenta uma lógica que se baseia em uma ordem biologicista, sofrendo críticas por revelar uma linguagem que expressa discriminação, coerção e violência, sem se adequar ao espaço de pensar a sexualidade como um exercício de autonomia (Corrêa, 2012). Os DSR são princípios e normas de direitos humanos que garantem o exercício individual, livre e responsável da sexualidade e reprodução humana. Sendo assim, toda pessoa tem o direito subjetivo de escolher o número de filhos/as e os intervalos entre os nascimentos, bem como ter acesso aos meios necessários para exercer a sua autonomia reprodutiva, sem sofrer discriminação, coerção, violência ou qualquer outra restrição (Brasil, 2005). As decisões reprodutivas das mulheres não refletem somente interesses pessoais estreitos, já que as conformações sociais e antropológicas demonstram que tais decisões são geralmente tomadas com pressão da família, comunidade e sociedade (Corrêa; Petchesky, 1996; Gomes, 2021). As influências de interseccionalidades de gênero, raça, classe, etnicidade, religião e idade sobre as escolhas das mulheres podem ser exercidas de diversas maneiras. Não se deve negligenciar que as mulheres tomem decisões sem levar em conta os desdobramentos do seu contexto social e estrutural. Em cada caso, deve-se considerar diversos fatores sociais, econômicos e culturais que influenciam as diferentes tomadas de decisões entre as mulheres (Silva; Leme, 2023). Dessa forma, é preciso considerar o caráter social do direito, como os referentes à saúde, educação e segurança, com o objetivo de proporcionar condições e meios necessários para a prática livre, saudável e segura das decisões reprodutivas. Essasque o Estado passa a operar com mínima ambivalência e coloca em relevo a dúvida sobre sua capacidade de garantir a supremacia da vida. Em cenários que humanidades conflitam com interesses capitalistas, a ação regulatória do Estado tende a relativizar direitos, mesmo sob o risco do aumento de tensão social (Queiroz, 2016). Sua conduta repactua os acordos coloniais que fundaram a modernidade e instrumentaliza a violação de direito, muitas vezes tendo apenas como recurso retórico a concepção de um futuro altamente utilitarista para o sistema capitalista, novamente reafirmado como meio primordial para o desenvolvimento e sucesso humano (Quijano, 2005). O enredo de toda essa problemática evidencia a resiliência com que as desigualdades têm se mostrado nas sociedades modernas, encorajando-nos, ao entendimento de que o Estado sustenta a crise humanitária que paira sobre as nações modernas, ou seja, a falência dos DH não se deve ao enfraquecimento do Estado, ou mesmo um descuido moral de seus interlocutores, mas é justamente o contrário, trata-se de uma dimensão estruturante que sustenta os Estados capitalistas e atua na modulação dos DH, tendo em perspectiva os valores e necessidades do sistema capitalista. Tomemos como fundamento a essa ideia dois fatos históricos. A Revolução Haitiana, a principal revolta social já acontecida nas Américas, foi mobilizada pelos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, da Revolução Francesa de 1789. O fato é que os haitianos, apenas dois anos depois da revolta francesa, iniciaram sua heroica campanha pela liberdade. Contudo, a mesma França, orgulhosa de seus ideais humanitários, agiu com imensa brutalidade e repressão à sua colônia, colocando em relevo que nem todos são humanos a ponto que os ideais humanitários não se estendam a qualquer pessoa. Outro fato histórico foi a lei de 1850, conhecida como Lei de Terras, marco jurídico que lançou o país no caminho da concentração e mercantilização da terra. Com aquele dispositivo a terra só seria reconhecida mediante o contrato capitalista da compra e venda, ou seja, as posses indígenas e quilombolas que natural e tradicionalmente já eram ocupadas por essas populações, passaram a necessitar de regulamentação fundiária, economicamente custosa. Evidente que essas populações, mantidas às margens do sistema econômico nacional, não 5 possuíam recursos financeiros para viabilizar os documentos que lhes garantiriam o reconhecimento das terras milenar e secularmente pertencentes aos seus povos. Em volto a essa problemática, o então senador, Costa Ferreira (MA) disse em discurso no parlamento no ano de 1850: Existem nas províncias muitas terras, mas algumas não se acham demarcadas nem são beneficiadas porque estão infestadas de gentios [indígenas]. Nas minhas fazendas já tenho tido alguns prejuízos por essa causa em gado, escravos etc. A maior parte dos [pequenos] lavradores da minha província não lavra para o interior porque o gentio não os deixa. Mas um lavrador poderoso, logo que entra, pode beneficiar as terras. Muito lucra, pois, a nação em se venderem as fazendas nacionais a particulares que as cultivem (Westin, 2020, parágrafo 05). O discurso do senador maranhense aponta os indígenas como obstáculo ao desenvolvimento, e remete a agricultura familiar a uma espécie de atividade primitiva de pouca lucratividade. Em sua perspectiva, a solução resplandece no latifúndio, cuja possibilidade passa pela expansão da brutalidade contra aqueles que se opuserem ao projeto capitalista de dominação da terra. Saltemos no tempo, precisamente 173 anos, agora o país é outro, trata-se de uma democracia constitucionalista, em que os direitos são ponderados por dispositivos jurídicos nacionais e internacionais em que a máxima é a garantia da vida dos concidadãos. Neste cenário o tema é o marco temporal das terras indígenas (TI). Já era madrugada do dia 24 de maio de 2023, nessa noite a Câmara dos Deputados colocou em urgência de votação o projeto de lei sobre o marco temporal das TI. Entre os alvoroços das discussões parlamentares, o deputado Zé do Trovão (PL-SC) disse: “É um projeto audacioso, que acabaria com a guerra entre os indígenas e os produtores, e faz justiça àqueles que produzem e levam sustento” (Agência Câmara de Notícias, 2023, parágrafo 04). Compare a narrativa do deputado Zé do Trovão com a do senador Costa Ferreira, mais de um século e meio depois, ambas atribuem aos indígenas o impasse ao “desenvolvimento”, consideram a agricultura de latifúndio como progresso e atuam como se a terra tivesse como principal finalidade produzir e movimentar o capital burguês. Zé do Trovão recupera essa memória colonizada e a reativa para promover o mesmo modus operandis usado pelos colonizadores do passado. Fez isso porque essa memória está entranhada na carne da nação e 6 possui para esses grupos opressivos valor pedagógico e disciplinar. Os congressistas usaram a mesma linguagem e isso não é coincidência, estão conectados com os mesmos sentidos de exploração que reduz a terra a um bem destinado a quem possui capital, não existe função social, a não ser a sustentação e operação do sistema capitalista. Como podem perceber, DH como a liberdade, igualdade, fraternidade, acesso à terra, à moradia, reconhecimento das culturas locais, entre outros, foram historicamente violados pelo próprio Estado que em disputas entre a vida dos povos vulnerabilizados a viabilidade do sistema capitalista, manifestou-se alinhado às causas daquele sistema de poder. Para tanto, a própria realidade impele à compreensão de que a noção de DH é problemática em sua própria concepção, uma vez que: a) a humanidade é uma categoria política e social afirmada a partir de referências que se organizam dentro dos sistemas de opressão, inviabilizando uma manifestação estatal radical na defesa universal dos direitos humanos; b) A concepção de DH está engendrada nos sentidos e necessidades capitalistas, sendo, nas sociedades modernas, um meio de garantir a operatividade desse sistema; c) DH na modernidade não expressa uma concepção sistêmica que insira as inúmeras formas de vida planetária na gama de direitos essenciais para a existência transgeracional. Portanto, somos compelidos a compreender que a noção de DH é uma categoria política com funcionalidade expressa por dinâmicas de poder, reguladas pelo Estado que, por sua vez, tende a variar sua atuação na modulação de DH a depender dos riscos que a implementação desses direitos implicam ao sistema capitalista. DIREITOS À VIDA COMO RESPOSTA AO MUNDO QUE NECESSITAMOS SER É certo que, mesmo que minimamente, a estruturação de sociedades com abertura aos direitos humanos pode ser vista como avanço social, haja vista as evidências de que quanto maior o exercício de direitos por parte dos cidadãos, melhores são suas condições de vida (Júnior, 2007). Todavia, é duvidoso atestar que o puro indicador de alta escolaridade, moradia, saúde e trabalho, por exemplo, são suficientes para afirmar que essa sociedade vive harmonicamente com a Natureza. O outro lado dos DH diz respeito justamente ao 7 antropocentismo moderno que concebe a vida humana longe da Natureza, sendo soberanas as necessidades humanas sobre as das demais espécies planetárias. Todavia, quando se parte para considerações fora a esse antropocentrismo, é improvável que se ateste algo semelhante. Por tal razão, proponho a superação jurídica, filosófica, antropológica, social e científica de uma noção de direitos humanos, vista a uma de “direitos à vida”. Qualquer pessoa com um pouco de sensibilidade poderá constatar que o mundo vai mal, estamos cercados por destruição, a Natureza há muito não suporta o nosso modo de vida. O que antes pareciam promessas futuristas, engendradas em um pessimismo científico, hoje são as certezascondições são a base dos direitos sexuais e reprodutivos, de modo a alcançar o que ativistas e teóricas feministas denominam autonomia feminina. Ou seja, as mulheres são agentes capazes de tomar decisões sobre reprodução e sexualidade - como pessoas, e não como objetos, ou como fins, e não apenas como instrumentos para as políticas de planejamento familiar e populacional (Corrêa; Petchesky, 1996). A base para os direitos sexuais e reprodutivos consistem em quatro princípios éticos: 1) integridade corporal - direito à segurança e ao controle sobre o próprio corpo; 2) autonomia pessoal - diz respeito a autonomia pessoal, moral e legal das mulheres, seu direito à autodeterminação como agentes capazes de tomar suas decisões reprodutivas e não meramente enquanto agências de controle; 3) igualdade - se aplica aos direitos sexuais e reprodutivos em 63 esferas que englobam gênero, condições de classe, idade, nacionalidade e outros marcadores nas relações entre homens e mulheres e na mitigação das diferenças entre as mulheres e 4) diversidade - requer o respeito pelas diferenças entre as mulheres, como valores, culturas, religião, orientação sexual, identidade de gênero, condições médicas ou familiares, e outros (Corrêa; Petchesky, 1996). Cada um dos quatro princípios apontados acima – e seus diferentes arranjos - pode ser violado de forma tácita ou explícita, seja por familiares, oficiais do Estado, e inclusive, profissionais de saúde. Nos diferentes níveis de atenção do Sistema Único de Saúde (SUS), a saúde sexual e reprodutiva é uma questão prioritária, o que, por sua vez, é crucial para a implementação de diretrizes que garantam os direitos sexuais e reprodutivos. De forma prática, as políticas públicas de saúde - que estão relacionadas aos direitos à saúde sexual e reprodutiva - consistem em um conjunto de ações e estratégias que visam garantir o direito à saúde das mulheres, bem como a sua autonomia e proteção. Isso inclui o acesso a métodos contraceptivos, prevenção e tratamento de infecções sexualmente transmissíveis, acompanhamento gestacional, assistência ao parto e puerpério, entre outras (Brasil, 2005, 2013). A saúde reprodutiva é definida como um estado de bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou estado de saúde, em relação ao sistema reprodutivo, suas funções e processos. A saúde sexual, por sua vez, é a integração dos aspectos somáticos, emocionais, intelectuais e sociais do ser humano, para enriquecer a personalidade, a capacidade de comunicação com outras pessoas e o amor. Com isso, o objetivo dos cuidados com a saúde sexual e reprodutiva deveria ser o melhoramento da vida e das relações interpessoais, e não apenas a orientação e os cuidados relacionados à procriação e às infecções sexualmente transmissíveis (Brasil, 2013). A Estratégia de Saúde da Família (ESF), por sua vez, tornou-se uma referência para as demandas relacionadas à saúde sexual e reprodutiva da mulher no Brasil e entre suas prioridades, está o planejamento reprodutivo, a fim de garantir a autonomia reprodutiva da mulher (Telo; Witt, 2018). A autonomia reprodutiva é o conceito referido ao direito de escolher livremente sobre a contracepção, a gravidez e o parto. A capacidade de tomar decisões informadas e conscientes em relação à saúde sexual e reprodutiva, incluindo o direito de escolher quando e como ter filhos/as, os métodos contraceptivos mais adequados e seguros, bem como receber um 64 tratamento respeitoso e de qualidade durante o parto e outras experiências relacionadas à reprodução (Ávila, 2003). A partir disso, não basta que os serviços de saúde apenas ofertem os métodos, mas também ofereçam um atendimento de qualidade e que seja capaz de orientar, cuidar e informar, em especial as próprias mulheres, sobre todas as opções contraceptivas reversíveis e irreversíveis disponíveis, no que se refere à eficácia, aos efeitos colaterais, às vantagens e desvantagens, de modo acessível às diferentes realidades (Franco et al., 2020). Isso significa dizer que as mulheres precisam ser ouvidas e representadas em sua amplitude, respeitando sua autonomia reprodutiva. No âmbito das políticas de saúde no Brasil, a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher e, principalmente, a Política Nacional dos Direitos Sexuais e dos Direitos Reprodutivos são os principais documentos responsáveis por orientar as ações em saúde sexual e reprodutiva (Brasil, 2013). Para tanto, o objetivo deste estudo foi analisar as evidências científicas tecidas na literatura disponível acercada autonomia reprodutiva de mulheres no Brasil. MÉTODO Este estudo trata de uma revisão integrativa da literatura, que reúne e resume os resultados de pesquisas sobre um tema específico, aprofunda os conhecimentos e identifica lacunas, resultando em debate mais qualificado para o campo da saúde sexual e reprodutivas de mulheres (Mendes; Silveira; Galvão, 2008). Buscou-se identificar as principais evidências científicas acerca da autonomia reprodutiva de mulheres no Brasil, tendo como questão norteadora: como a esterilização de mulheres no Brasil relaciona-se com a autonomia reprodutiva? Foram utilizadas as seguintes bases de dados: PubMed, LILACS, Medline, Scopus, e Google Acadêmico. O acesso às bases de dados deu-se por meio do acesso CAFe do portal de Periódicos CAPES. Os critérios de inclusão foram: artigos nacionais e internacionais que abordassem a autonomia reprodutiva de mulheres brasileiras, de todos os tipos/abordagens metodológicas, nos idiomas inglês, português e espanhol, com restrição de tempo de 65 publicação nos últimos cinco anos, a partir de 2018. Foi estabelecida essa restrição temporal visando mapear as produções científicas mais recentes, que respondessem à questão de pesquisa, e que estivessem incutidas nos debates e arenas atuais de disputas no campo dos direitos sexuais e reprodutivos de mulheres. Foram excluídos artigos duplicados e que não abordavam diretamente o tema proposto. Para assegurar a precisão da pesquisa e a confiabilidade dos resultados, duas pesquisadoras independentes buscaram os dados, evitando possíveis erros ou vieses nas etapas da revisão. A seleção dos artigos da amostra foi realizada através da leitura do título-resumo e da leitura do texto completo. Em caso de divergência, as duas revisoras conversaram para chegar a um acordo; não houve necessidade de avaliação por uma terceira pesquisadora. Os achados foram inseridos no aplicativo Rayyan, de modo que pudessem ser analisados os títulos, resumos e palavras-chave de todos os artigos. Em seguida, deu-se início a leitura dos resumos e dos textos completos, visando aplicar os critérios de inclusão e exclusão em todo o banco de dados. Inicialmente, foram selecionados 61 artigos na PubMed, 50 LILACS, 13 na Medline, 151 na Scopus e 10 no Google Acadêmico, totalizando 285 artigos. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, obteve-se uma amostra de 15 artigos, os quais foram lidos e analisados na íntegra, resultando na exclusão de 02 artigos que não respondiam à pergunta de pesquisa, totalizando então a amostra final de 13 artigos para análise de síntese qualitativa. A análise iniciou de modo bibliométrico, e um banco de dados do estudo foi elaborado previamente no Microsoft Office Excel 2010. Em sequência, realizou-se uma análise qualitativa e descritiva dos estudos incluídos. Com o auxílio do Software Atlas.ti, versão 2023, para análise detalhada do material, foi realizada uma análise do tipo temática. Diferentes aportes metodológicos são beneficiados com o uso do Atlas.ti como recurso de investigação científica. O Software oferece a possibilidade de classificar e categorizar os dados, fornecendo a possibilidade de sistematizar e organizá-los e, posteriormente, elaborarum relatório com os resultados finais do estudo. Os achados foram discutidos conforme a literatura disponível sobre o tema, incluindo dados oficiais, políticas, programas, portarias, dentre outros estudos disponíveis fora do escopo temporal, e que são entendidos como uma literatura cinzenta. 66 RESULTADOS E DISCUSSÃO Os estudos foram caracterizados conforme os dados de identificação: (a) autores; (b) revista; (c) área do estudo; (d) região onde foi realizado o estudo; (e) ano de publicação; (f) ano de coleta de dados (se houvesse); (g) teoria (se houvesse); (h) desenvolvimento substantivo; (i) metodologia (abordagem e procedimentos); (j) aplicações práticas e (k) limitação de estudos. As publicações selecionadas apresentam-se em diversas áreas do conhecimento, a partir de diferentes abordagens metodológicas. Foram identificadas como qualitativas, quantitativas ou mistas (quando abrangiam aspectos qualitativos e quantitativos em conjunto). Na maioria das publicações, empregou-se técnicas qualitativas, sugerindo uma abordagem mais exploratória (Tabela 1). Tabela 1. Frequência quanto à área e abordagem metodológica dos artigos selecionados Área Qualitativ a Mista Quantitativa N Antropologia 1 1 Demografia 1 1 Direito 2 2 Saúde 4 2 2 8 Sociologia 1 1 Total Geral 8 2 3 13 Fonte: As autoras (2023) Dentre os artigos incluídos, a maioria dos estudos de base empírica (5) foram desenvolvidos na região Sudeste, dois na região Nordeste, dois na região Norte, um na região Centro-Oeste e os demais foram pesquisas documentais que não especificaram o local. Os 67 estudos incluídos estavam publicados entre 2018 e 2022, sendo os anos de 2020 e 2022 apresentaram maior concentração de publicações, totalizando cinco estudos consecutivamente. Conforme as informações extraídas, as principais áreas de estudo das autorias estavam no campo da saúde, compreendendo enfermagem (5), medicina (2) e saúde pública/coletiva (3). No âmbito do direito foi observado dois estudos. Também foi possível observar o caráter interdisciplinar, que reunia autorias de áreas distintas de formação, como por exemplo a demografia, antropologia e sociologia. Em conformidade com os objetivos do estudo que ambicionou compreender o campo da autonomia reprodutiva de mulheres no Brasil, a seguir foi realizada a apresentação da análise temática, que permitiu identificar os seguintes aspectos relacionados aos estudos em questão: a) Desenvolvimento substantivo refere-se aos principais tópicos e assuntos abordados nos estudos; b) Aplicação refere-se aos apontamentos para possibilidades de ação prática sobre a temática; e c) Limitações do estudo, que abarca as lacunas e fragilidades presentes. No que se refere ao desenvolvimento substantivo dos artigos identificados, observou- se a presença dos seguintes tópicos: perfil da saúde sexual da mulher; vulnerabilidades e contracepção; aspectos institucionais; e autonomia pessoal. O primeiro tópico - perfil da saúde sexual da mulher – foi composto por estudos que apresentaram aspectos sociais, culturais e econômicos com dados relacionados à saúde sexual de mulheres no contexto brasileiro, em específico à anticoncepção. A análise do comportamento reprodutivo das mulheres brasileiras revela um declínio na taxa de fecundidade desde meados do século XX, que ocorreu mediante o aumento do acesso à educação, a participação no mercado de trabalho, a independência financeira e o advento dos métodos contraceptivos que permitiram-na exercer maior controle sobre suas decisões reprodutivas, incluindo o número e o espaçamento gestacional (Cabral; Cella; Freitas, 2021). Historicamente, a primeira pesquisa nacional realizada em 1986 constatou que 43% das mulheres com idade entre 15 e 44 anos, praticavam anticoncepção, demonstrando que neste período a adesão concentrava-se na utilização de dois métodos distintos: a esterilização feminina (27%) e a pílula (25%). A pesquisa nacional de demografia e saúde, realizada em 1996, viria a mostrar o aumento da prevalência da anticoncepção no Brasil para 76% das mulheres com 15 a 44 anos vivendo em união, com maior concentração nos dois contraceptivos 68 referidos, decorrente da elevação da porcentagem de mulheres esterilizadas, que alcançou 38,5% (Lago et al., 2020). Ainda nesse cenário, o Congresso Nacional aprovou a Lei regulamentadora do planejamento familiar e o acesso à esterilização, como uma forma de desencorajar cirurgias precoces. Vale ressaltar que a esterilização cirúrgica, nas décadas de 1980 e 1990, era o principal método contraceptivo, pouco ou nada regulamentado, com picos em campanhas eleitorais, muitas vezes justificado por cesáreas eletivas (Diniz; Cabral, 2020). Somente em 2006 foram atualizados esses dados por meio de um novo levantamento populacional, revelando um aumento na utilização de métodos anticoncepcionais e surpreendendo ao constatar que a prevalência da esterilização feminina caiu para 25,9% entre mulheres casadas com idade entre 15 e 44 anos, além de uma maior diversificação na utilização de métodos anticoncepcionais (Trindade et al., 2021). No recorte acerca do tema, três estudos trouxeram dados específicos de estados brasileiros: Amazonas, Rondônia e São Paulo, apresentando diferentes perfis de anticoncepção entre as mulheres. No estudo desenvolvido no Amazonas, 25% das participantes da pesquisa informaram ter realizado a laqueadura como opção própria para ter famílias menores (Cabral; Cella; Freitas, 2021). O estudo desenvolvido em Rondônia apontou como resultado que a falta de acesso a outros métodos contraceptivos, faz com que as mulheres optem por meios permanentes de anticoncepção, sugerindo então a alta proporção de laqueadura (Diniz; Cabral, 2022). Já o estudo aplicado em São Paulo, em síntese, demonstra que o perfil de práticas contraceptivas indica uma menor busca pela esterilização feminina, uma vez que a preferência contraceptiva passou a ser o uso da pílula e preservativo masculino, seja em uso isolado ou combinado, refletindo a preocupação de uma parcela das mulheres com a dupla proteção e aumento da participação masculina (Lago et al., 2020). Um olhar interseccional sob esses dados revela que as escolhas reprodutivas das mulheres brasileiras são determinadas por um conjunto complexo de fatores socioeconômicos, raciais e territoriais, que limitam o acesso a métodos contraceptivos e interferem na sua autonomia. . Mulheres de regiões mais vulneráveis, como o Amazonas e Rondônia, muitas vezes optam pela esterilização como única forma disponível de controle reprodutivo, em contraste com as mulheres de São Paulo, que têm maior acesso a alternativas reversíveis. A desigualdade estrutural demonstra a influência das interseccionalidades de raça e classe nas 69 escolhas reprodutivas, o que indica a necessidade de políticas públicas que garantam acesso equitativo a métodos contraceptivos. No país, o uso dos métodos anticoncepcionais (MAC) demonstra um impacto na diminuição das taxas de aborto (Diniz; Medeiros; Madeiro, 2023), no entanto, deve-se considerar que a falta de discussão e acesso ao aborto seguro força muitas mulheres a optem pela esterilização como um método definitivo para evitar gestações indesejadas. A criminalização do aborto compromete ainda mais a autonomia reprodutiva, impondo limites às escolhas das mulheres, especialmente as mais vulneráveis. Os achados desses estudos também corroboram com as problematizações levantadas há décadas acerca da justiça social enquanto cerne dos direitos sexuais e reprodutivos, indicando a urgência em considerar o papel das autoridades públicas na garantia da cidadania e no fortalecimento de políticas públicas intersetoriais, uma vez que é preciso de uma série de condições - que nãoestão acessíveis - para que todas as mulheres possam livremente escolher e decidir sobre o seu corpo (Silva; Leme, 2023). O segundo tópico - vulnerabilidades e contracepção- aponta que o contexto das mulheres brasileiras não é homogêneo e que a compreensão das diferenças sociais é importante para romper com a abordagem fragmentada de questões relacionadas à autonomia reprodutiva. As discrepâncias entre as mulheres em relação às regiões do país, raça e anos de escolaridade reforçam um cenário desfavorável para aquelas em situação de maior vulnerabilidade social (Diniz; Cabral, 2022). Os fatores sociais, culturais, econômicos, educacionais, bem como as dificuldades de acesso aos serviços de saúde, privam muitas mulheres, principalmente as menos favorecidas de seus direitos sexuais e reprodutivos. Estudo com mulheres negras e quilombolas destaca que as desigualdades raciais se revelam fortemente na utilização dos serviços de saúde preventivos, tanto no acesso quanto na limitação do atendimento, e quando comparadas às mulheres brancas, apresentam maior percentual para acesso ruim aos serviços (Fernandes et al., 2020). Além disso, é importante destacar sobre a tendência que pesquisadores tem a se concentrar na influência das desigualdades de gênero na estruturação da tomada de decisão contraceptiva das mulheres, enquanto o gênero e a raça têm gerado menos preocupação (Edu, 2019). Esses dados apontam para o fato de ser indispensável um olhar interseccional, que favoreça ações efetivas e representativas de mulheres atravessadas por diferentes marcadores sociais e que interferem, 70 cotidianamente, em condições de desigualdade no que se refere a garantia dos direitos sexuais e reprodutivos. A interseccionalidade, segundo Akotirene (2019), abarca uma articulação teórico-prática proposta pelo feminismo negro ao reivindicar a urgência de compreender as diferentes opressões estruturantes que perpassam raça, classe, gênero e território, sem negar ou hierarquizar diferenças em graus de sofrimento, mas reconhecendo toda a complexidade que evita essencialismos. A temática corrobora ainda para a análise de que escolaridade, ocupação e renda estão estreitamente relacionadas ao acesso a bens e oportunidades, favorecendo a melhoria nas ações de saúde, como no planejamento reprodutivo, evidenciando assim, que as preferências e comportamentos reprodutivos são pautados nas condições estruturais e experiências de vida (Edu, 2019; Barros; Wong; Barbieri, 2021). Considera-se no escopo dos aspectos institucionais, terceiro tópico identificado, estudos que abordaram barreiras enfrentadas pelas mulheres ao acessar aos serviços de saúde, especialmente quando se trata da atenção e cuidados sexuais e reprodutivos. Pesquisa recente desenvolvida no Norte do país aponta que o comportamento reprodutivo se relaciona também à infraestrutura de serviços de saúde sexual e reprodutiva e às condições socioeconômicas individuais, demonstrando que nessa região as mulheres têm preferência por ter menos filhos/as, mas enfrentam dificuldades para acessar métodos contraceptivos e informações sobre saúde sexual e reprodutiva (Barros; Wong; Barbieri, 2021). Esses obstáculos ficam ainda mais evidentes quando se trata de populações específicas. Em exemplo, estudo realizado com mulheres em situação de rua demonstra que as estratégias de cuidado são insuficientes e isoladas. Especialistas reconhecem as vulnerabilidades presentes na abordagem dessas mulheres, a violência e a opressão que elas enfrentam, além de questões relacionadas à saúde sexual e reprodutiva, como a gravidez, o puerpério e a maternidade em situação de rua, representando uma violação dos direitos humanos, sexuais e reprodutivos das mulheres (Barbosa et al., 2022). Profissionais de saúde também podem ser considerados enquanto uma barreira institucional, uma vez que o nível de familiaridade e conhecimento sobre a saúde sexual e direitos reprodutivos pode ser um fator limitante no processo saúde-doença-cuidado de mulheres, comumente identificado face às fragilidades na formação profissional em saúde 71 (Telo; Witt, 2018). Com isso, estudos apontam a necessidade de ações de educação permanente no próprio local de trabalho, utilizando situações e exemplos cotidianos como uma estratégia para que temáticas relacionadas aos direitos sexuais e reprodutivos tenha mais concretude e reconhecimento nos serviços e que assim sejam incorporadas às práticas de saúde (MISKOLCI; PEREIRA, 2022). Houve pesquisas que mostrou uma maior familiaridade com a saúde sexual e reprodutiva e com os direitos associados, sobretudo entre médicos e enfermeiros (Amaral, 2019; Cruz, 2023). No entanto, gestores com formação superior se mostraram menos informados, indicando a necessidade da formação não só na construção de boas práticas de cuidado, como também na promoção, proteção e garantia dos direitos sexuais e reprodutivos na gestão (Amaral, 2019). No que se refere à autonomia pessoal, quarto tópico analisado, destaca-se como um dos eixos fundamentais das teorias bioéticas. A análise das interferências na autonomia sob a perspectiva da desigualdade de gênero evidencia que há diversas dificuldades enfrentadas diariamente pelas mulheres, como violência doméstica, psicológica, sexual e física, desigualdades sociais (gênero, raça e classe) e privações de espaços públicos, limitando o conhecimento e a disponibilidade sobre métodos contraceptivos, e interferindo em sua autonomia reprodutiva (Cruz, 2023). A autonomia reprodutiva, intrínseca à liberdade individual, pressupõe o acesso a informações claras, precisas e compreensíveis sobre os diversos métodos contraceptivos, incluindo a esterilização. A capacidade de tomar decisões informadas e conscientes sobre o próprio corpo é fundamental para o exercício pleno da cidadania. No entanto, estudos como os de Corrêa e Petchesky (1996) e Trindade (2021) demonstram que a autonomia reprodutiva das mulheres é frequentemente limitada pela falta de acesso a informações adequadas e por pressões sociais e culturais. A pesquisa de Brandão e Pimentel (2022) e Amaral (2019) reforça a necessidade de políticas públicas e ações educativas que promovam a conscientização sobre os direitos sexuais e reprodutivos, garantindo que as mulheres possam escolher livremente e de forma informada o método contraceptivo que melhor atenda às suas necessidades e projetos de vida. As pesquisas de Arteiro (2017) e Zanello (2016) demonstram como a maternidade, historicamente vinculada à condição feminina, é influenciada por fatores sociais e econômicos. 72 A falta de oportunidades e as condições de vida precárias, apontadas por Correa (2012), limitam a autonomia reprodutiva de muitas mulheres, especialmente aquelas com menor escolaridade e renda. Essa realidade reforça a ideia de que a maternidade, embora biológica, é também um construto social que se molda às desigualdades de gênero e classe. Estudo realizado na capital baiana apontou que a predominância de baixa escolaridade, baixa renda e certa dependência financeira do companheiro dificulta o controle do corpo pela mulher, uma condição essencial para exercer sua a autonomia reprodutiva (Fernandes et al., 2020). Esses resultados mostram que a exigência do cônjuge para a utilização de métodos contraceptivos reversíveis ou não é uma forma de violência sexual institucionalizada contra as mulheres (Araújo; Wenceslau, 2022). A partir disso, faz-se necessário destacar que apesar das discussões acerca da saúde sexual e direitos reprodutivos percorrem uma longa trajetória de conquistas, apenas em 2 de março de 2023 passou a vigorar a Lei 14.443/2022, que alterou a Lei de Planejamento Familiar (Lei 9.263/1966) para determinar prazo para oferecimento de métodos e técnicas contraceptivas e disciplinar condições para esterilizaçãovoluntária, no âmbito do planejamento familiar (Brasil, 2022). Esta atualização possibilita que homens e mulheres com mais de 21 anos ou pelo menos com dois filhos/as vivos/as, realizem procedimentos de laqueadura ou vasectomia sem a necessidade de autorização do parceiro ou parceira, desde que estejam com plena capacidade civil de expressar suas vontades de forma livre e informada (Covalchuk; Vieira; Alfonzo, 2023) No que se refere às possibilidades de aplicações dos artigos analisados, identificou-se como possibilidade primordial o fortalecimento e integração de políticas públicas ancoradas em mudanças sociais que deem autonomia às diferentes mulheres brasileiras. Os estudos explicitaram que diante às especificidades, dificuldades e desigualdades enfrentadas pelas mulheres ao que se relaciona à sua saúde sexual, é necessário desenvolver e consolidar políticas públicas e programas de saúde que visem ampliar o acesso aos serviços de saúde sexual e reprodutiva, gerando mais informações sobre métodos contraceptivos e promovendo a autonomia das mulheres nesse processo de escolha. Destaca-se como proposta a inclusão da educação reprodutiva enquanto tema transversal e afirmativo nas escolas da rede básica de ensino, bem como a importância da criação de programas e iniciativas de saúde com ênfase 73 nos direitos humanos e que possam contribuir para a sensibilização das mulheres sobre seus direitos reprodutivos e a necessidade da escolha informada de métodos contraceptivos (Edu, 2019; Cruz, 2020). Corroborando a isso, a fim de garantir os direitos humanos, sexuais e reprodutivos, adotar uma perspectiva inclusiva é uma pré-condição para garantir o princípio da equidade. Sendo assim, é preciso consideraras mulheres em suas diferentes necessidades e especificidades, incluindo as orientações sexuais e identidades de gênero que escapam a lógica binária, o exercício da vivência da diversidade sexual sem constrangimento, da contracepção autodecidida e da maternidade voluntária (Barbosa; Hassimoto; Michelon, 2020). Quanto às limitações das pesquisas realizadas sobre a temática, verificam-se que em sua maioria, estavam centralizadas nas perspectivas de profissionais de saúde, de diferentes níveis de atenção na rede de saúde, e poucas se detiveram na compreensão dos fluxos e dificuldades vividas pelas mulheres-usuárias. Por sua vez, apontam a necessidade de medidas que garantam o acesso ao planejamento reprodutivo, e consideram que é necessário promover investigações que não apenas identifiquem os problemas epidemiológicos das diferentes regiões do país, mas também as lacunas educacionais que afetam a população em geral e profissionais de saúde (Lago et al., 2020; Rodrigues; Carneiro, 2022). Outro ponto trata da escassez de estudos científicos voltados para grupos populacionais negligenciados ou mais vulneráveis, como as populações ribeirinhas. No estado do Amazonas, por exemplo, existe um ambiente atípico, com densa floresta tropical, imensos rios e chuvas torrenciais, restringindo acessos e serviços e interferindo na autonomia reprodutiva de mulheres. Essas fragilidades de informações diminui a possibilidade de empreender análises comparativas mais abrangentes, e que possam indicar dados robustos acerca dos indicadores de saúde sexual e reprodutiva de mulheres em situação de isolamento geográfico (Cabral; Cella; Freitas, 2021). Vale pontuar que pesquisas com populações nestas condições territoriais, em sua maioria, acessam uma amostra da população relativamente pequena e específica para ser comparada com outras regiões do Brasil. Em relação ao aporte metodológico dos estudos, destaca-se como limitação aqueles que não possuem uma representatividade populacional, além do uso de dados estatísticos que não receberam atualizações nacionais ao longo dos anos, como aqueles baseados na análise 74 descritiva de dados brasileiros sobre saúde reprodutiva: a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Mulher e da Criança (PNDS) realizada em 2006. É importante ressaltar que esta foi a última versão da PNDS e que a compreensão integrada dos direitos sexuais e reprodutivos exige uma abordagem complexa, histórico-crítica e contextualizada dos seus diferentes aspectos e dimensionalidades. CONSIDERAÇÕES FINAIS De modo geral, por meio das análises tecidas acerca das evidências da autonomia reprodutiva de mulheres no Brasil, percebeu-se que os estudos compartilhando pressuposto de que seja crucial que os serviços de saúde disponham de informações concisas e coerentes sobre os riscos, vulnerabilidades, vantagens e alternativas disponíveis, antes delas decidirem sobre o seu corpo, e assegurando assim, que as estratégias adotadas sejam feitas de maneira voluntária e informada, ancoradas nas ideias de liberdade, igualdade e dignidade com um elemento basilar do cuidado em saúde. O perfil da saúde sexual da mulher no Brasil não se mostrou homogêneo e está estreitamente ligado às questões relacionadas aos marcadores sociais e à própria questão territorial, justamente por serem esses aspectos que determinam o acesso aos meios e preferências contraceptivas dessas mulheres. No que diz respeito às escolhas reprodutivas, deve-se notar que as circunstâncias de vida e determinadas normas sociais influenciam sua conduta e levam-nas, muitas vezes, a experimentar o planejamento reprodutivo de maneira coercitiva ou imperativa. Isto mostra a importância de ouvir as mulheres, suas necessidades e especificidades, enquanto condição e modo de garantia da autonomia reprodutiva nos serviços de saúde. Os resultados demonstram, ainda, que as mulheres enfrentam diversas dificuldades em relação aos cuidados com a saúde sexual e reprodutiva, seja devido às barreiras institucionais, às fragilidades do serviço público, à falta de conhecimento e o pouco acesso aos métodos contraceptivos disponíveis nesses serviços e, até mesmo, à postura e manejo de profissionais envolvidos. No norte do país, esses desafios podem ser ainda maiores devido as características 75 territoriais que impõe difícil acesso a garantia de direitos dessas mulheres. Isto posto, é preciso atestar que as políticas públicas precisam fortalecer as estratégias interativas e relacionais de tomadas de decisões reprodutivas de mulheres, promovendo acesso integral e equitativo aos serviços de saúde, e garantindo o exercício de sua autonomia. REFERÊNCIAS: AKOTIRENE, C. Interseccionalidade. São Paulo: Pólen Produção Editorial LTDA, 2019. AMARAL, E. F. L. Perfil da esterilização feminina no Brasil. 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Utilizou-se a análise de conteúdo sob o enfoque dos modelos teóricos que dissertam sobre gênero, interseccionalidade e desenvolvimento humano (Bronfenbrenner, 2012). Para tal, foram formulados três eixos temáticos: 1. Estratégias de Parentalidade; 2. Relação Envolvimento Paterno-Desenvolvimento Infantil; 3. Apoio Paterno ao Materno. Constatou-se que os resultados dialogam com as perspectivas teóricas adotadas de maneira que abrem margem para pesquisas futuras que explorem as especificidades da prática da parentalidade. Palavras-chave: XX INTRODUÇÃO A parentalidade é um construto multidimensional constituído por atividades propositais praticadas por figuras parentais, destinadas a garantir a sobrevivência, o crescimento e o desenvolvimento saudável das crianças. No contexto atual, os processos parentais são conceituados como atividades que visam especificamente promover o bem-estar biopsicossocial das crianças (Hoghughi; Long, 2004) . Mães, pais e outros membros da família, que interagem com a criança ao longo da vida, costumam aplicar uma série de práticas, em diferentes contextos, as quais parecem se 16 Renan Vinícius de Freitas Guerra da Costa - Autoria – Graduado em Psicologia pela Universidade Federal do Amazonas. Email: renan.freitas64@gmail.com 17 Iolete Ribeiro da Silva - Autoria – Descrever titulação e vínculo institucional. Email: ioleteribeiro@ufam.com 18 Adria Lima de Sousa - Autoria – Descrever titulação e vínculo institucional. Email: adriapsique@gmail.com 19 Maise Caroline Zucco - Autoria – Descrever titulação e vínculo institucional. Email: maisecz@gmail.com 79 concentrar em três aspectos: 1. cuidado (com necessidades físicas, psíquicas, emocionais, sociais e espirituais de sobrevivência da criança); 2. controle/monitoramento/disciplina (Estabelece limites a partir do nascimento); e, 3. desenvolvimento (conduz para que as crianças realizem o seu potencial em todas as áreas de funcionamento). Tais aspectos abarcam a prevenção da adversidade e de qualquer coisa que possa prejudicar a criança; e a promoção positiva e de qualquer elemento que possa ajudá-la (Hoghughi; Long, 2004). Por sua vez, a coparentalidade compreende uma dinâmica relacional de tríade, onde são levados em conta o trio mãe-pai-filho, atravessada principalmente pela forma como os cuidadores se apoiam, coordenam e dividem mútua e reciprocamente os deveres parentais incubidos à sua condição de responsáveis pela criança (Feinberg, 2003 apud Schmidt, 2022; Pasinato; Pereira, 2016). O conceito se faz pertinente relacionadoà paternidade visto às transformações sociais que caminham em direção de uma divisão mais justa entre tarefas maternas e paternas relacionadas à atividade parental (Schmidt, 2019). Dessa forma, segundo Feinberg (2003) apud Schmidt (2022) a coparentalidade é constituída por quatro componentes principais: divisão de trabalho, acordo nos cuidados, apoio versus depreciação parental e gerenciamento das interações familiares. Compreende-se, assim, que da relação coparental estão excluídos os aspectos legais, românticos, sexuais, emocionais e/ou financeiros do relacionamento dos adultos — independente portanto de estarem ainda em relação conjugal ou não (Feinberg, 2003 apud Pasinato; Pereira, 2016). Para além dos sujeitos, o Estado possui papel relevante na promoção da parentalidade saudável, podendo disponibilizar equipamentos/serviços que ofereçam apoio às figuras parentais e à criança desde a concepção, de diversas formas, potencializando vivências parentais positivas. Por outro lado, contextos sociais e familiares, de vulnerabilidade podem favorecer o exercício de uma parentalidade coercitiva e/ou violenta. A violência, nas suas diversas expressões, nega à criança a oportunidade de crescer e se desenvolver de forma saudável, seja psiquicamente ou fisicamente. Todas as formas de punição corporal, incluindo as palmadas, foram negativamente associadas aos resultados do desenvolvimento da criança. As crianças expostas a castigos corporais têm, em média, entre 24% e 38% menos probabilidade de alcançarem o seu potencial de desenvolvimento, de acordo com o ECDI - The Early Childhood Development (Cuartas, 80 2021). Tais indicadores negativos estão presentes independente de variáveis como a idade e o sexo das crianças, status socioeconômico, exposição a oportunidades de aprendizagem em casa, em centros de educação infantil e exposição a outros métodos punitivos e disciplinares (Cuartas, 2021). Quando as figuras parentais aplicam a disciplina de forma punitiva, dura ou intensa, as crianças deixam de focar em seus próprios comportamentos e focam no quanto acham que essas figuras são más e injustas (Siegel; Bryson, 2016), influenciando na inteligência emocional, bem como na formação do vínculo. Na atualidade, existe uma diversidade de conhecimentos que propõem práticas parentais que promovam o cuidado, a disciplina e o desenvolvimento saudáveis, como por exemplo, a parentalidade consciente, que tem como pilares mindfulness (atenção plena), aprendizagem ao longo da vida, flexibilidade responsiva, mindsight (capacidade de perceber a própria mente e as mentes dos outros) e alegria de viver (Siegel; Hartzell, 2020); e a criação com apego, que se refere a uma parentalidade consciente e ativa, em que o bem-estar da criança é abordado com empatia, possuindo oito princípios: 1 - preparar-se para a gestação, nascimento e maternidade/paternidade; 2 – alimentar com amor e respeito; 3 – responder com sensibilidade; 4 – usar o contato afetivo; 5 – garantir um sono seguro, físico e emocionalmente; 6 – fornecer cuidado consistente e amoroso; 7 – praticar a disciplina positiva; e, 8 – buscar equilíbrio na vida pessoal e familiar (API, 2022). O desenvolvimento humano é multifatorial e permeado pelo ambiente, que por sua vez alimenta e é produzido pelos próprios indivíduos propondo assim uma percepção complexa e dinâmica, que abrange fatores de áreas diversas como a genética, demografia, biologia, psicologia cognitiva, sociologia, estatística, educação e políticas públicas (Bronfenbrenner, 2012). Essa perspectiva leva em conta que os ambientes estão diretamente ligados ao desenvolvimento dos sujeitos e a relação destes constitui o contexto em que o indivíduo se constitui. Vários espaços dialogam, desde os microssistemas, ou âmbito imediato do sujeito, como seu círculo familiar, até espaços relacionais que estão em contato indiretamente com a pessoa, os exossistemas, e os contextos sociais — economia, geopolítica, clima — e temporais de sua época que caracterizam o conceito de macrossistema (Bronfenbrenner, 1996). Inicialmente se faz vital entender a perspectiva pela qual homens e mulheres são 81 compreendidos dentro de um enfoque analítico. Para tal, o termo gênero se faz presente na compreensão desse fenômeno. Segundo Scott (1995) que acompanha o desenvolvimento do conceito pela perspectiva feminista, o termo gênero sofreu diversas mutações ao longo da história, mas recentemente, adotou a ideia de se referir à organização social pela qual se dá a relação entre os sexos. Apesar de primariamente utilizado como termo substituto para definir mulheres, a autora investiga como a palavra acaba por adotar um caráter informativo sobre homens no contexto social, visto o caráter relacional existente entre as dinâmicas de produção de subjetividades e relações sociais presentes no meandro dos estudos sobre ambos os sexos (Scott, 1995). Assim, “gênero” torna-se uma forma de análise e observação das construções sociais que constituem os ideais sociais sobre os papéis adequados a serem desempenhados por homens e mulheres, passando a ser como definição uma categoria social que é imposta, de uma forma ou de outra, sobre um corpo sexuado (Scott, 1995). Sob a ótica de Scott, o conceito de gênero é constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos. O gênero é uma forma de dar significado às relações de poder, ou seja, trata-se de um campo primário, um espaço ou contexto onde o poder é articulado (Scott 1995 apud Medrado; Lyra, 2008) . O poder exercido pelo patriarcado nas relações de gênero, é definido por Terezinha Souza como: “[...] o poder que o homem exerce por meio dos papéis sexuais”, manifestando-se simultaneamente no aspecto cotidiano e diário e ao longo da história, tendo sua operação funcionando nas esferas das relações sociais entre indivíduos e se tornando proeminente quando há diferenças de sexo (2015 apud Campoi, 2022, p. 46). Embasados em pesquisa sobre gênero numa perspectiva feministas, Medrado e Lyra (2008) propõe componentes que auxiliam em uma formulação de crítica do conceito ao se analisar e pesquisar gênero com o foco em homens e masculinidades a partir de quatro eixos: “1) o sistema sexo/ gênero; 2) a dimensão relacional; 3) as relações de poder; e 4) a ruptura da tradução do modelo binário de gênero nas esferas da política, das instituições e das organizações sociais”(p. 2). A compreensão desses fatores leva a um aprofundamento das questões sobre masculinidade, partindo do supracitado aspecto relacional busca-se observar o fenômeno masculinidade como um subgrupo dentro do conceito guarda-chuva de gênero, tendo o interesse em identificar como se constroem as relações visando a transformação do 82 campo das relações sociais generificadas ao invés de se procurar culpados referentes às desigualdades presentes no campo social (Lyra; Medrado, 2000). Essa noção possibilita observar as masculinidades em suas formas hegemônicas e subordinadas que se baseiam no poder social atribuído aos homens, mas que não se findam somente em uma relação linear de opressor-oprimido, mas sim em uma trama complexa onde subjetivamente homens desenvolvem dinâmicas diferentes que podem variar de uma utilização do privilégio individual atribuído aos marcadores de gênero ao mesmo tempo que são produtoras de dor e alienação (Lyra; Medrado, 2000). Dessa forma, é importante se ressaltar o fato de que o patriarcado também fere subjetividades dos homens, visto que, dificilmente homens podem escapar dos papéis histórica e culturalmente a eles impostos, reforçando estereótipos nocivos que apontam em um rebaixamento de suas individualidades em prol de uma lógica do ideal de masculinidade, gerando assim, além de dor, a alienação de si mesmo que engloba seus corpos, sentimentos esofrimentos (Campoi, 2022). Por seguinte, indissociável dos temas apresentados, mostra-se a paternidade, que historicamente vem de um lugar onde homens eram colocados a partir do princípio naturalizado de provedor material e moral, completamente afastados do universo infantil, dos cuidados e afetos implicados no processo, relegando isso às mulheres, que eram tidas como as responsáveis naturais pela reprodução e criação das crianças, baseado em uma noção de um amor materno e de que somente os cuidados da mãe seriam suficientes ao desenvolvimento das infantil (Lyra e Medrado, 2000; Valente; Medrado e Lyra, 2015). Por fim, cabe destacar a importância da interseccionalidade para aprofundar a compreensão sobre aspectos relacionados a parentalidade. Ao utilizar-se a metáfora de Crenshaw (2002 apud Pereira, 2021) temos a noção de que o termo é utilizado como uma forma de dar visibilidade a grupos cuja posição que se encontra no âmbito social é dada a partir do encontro entre dois ou mais eixos de poder, onde o cruzamento destes, permite uma análise das dinâmicas de poder nas quais o sujeito está inserido. Estás relações, sob a perspectiva moderna do conceito, levam em conta diversos marcadores sociais tais como: sexualidade, identidade de gênero, geração, raça, classe social e muitos outros (Assis, 2023). A interseccionalidade oferece uma lente poderosa para analisar as complexas dinâmicas de opressão. Essa perspectiva destaca que: a interseccionalidade não hierarquiza ou 83 soma as diversas opressões, mas sim as considera de forma entrelaçada; e o lugar de fala de cada indivíduo é moldado por uma multiplicidade de experiências (Collins,1998 apud Assis, 2023; Ferreira et al., 2024). Apontar as interseccionalidades à discussão é uma forma multidimensional de conceber as sociedades em sua complexidade, dialogando em teor social crítico as compreensões de Bronfenbrenner sobre os ambientes que e contextos que constroem não somente o desenvolvimento humano infantil, mas também o dos homens envolvidos nesta dinâmica, alinhando-se também à investigação sobre como os pais exercem a parentalidade atualmente. Destarte, o presente estudo tem como objetivo identificar estudos brasileiros que articulem os temas parentalidade, masculinidade e desenvolvimento da criança de 0 a 5 ano e analisar as estratégias de promoção da parentalidade saudável presente nos estudos. METODOLOGIA Para a condução da pesquisa, foi realizada uma revisão de escopo com a finalidade de sintetizar e disseminar os resultados de estudos a respeito de um assunto. A revisão de escopo seguiu seis principais etapas: 1) identificação da questão e objetivo de pesquisa; 2) identificação de estudos relevantes, que viabilizem a amplitude e abrangência dos propósitos da revisão; 3) seleção de estudo, conforme os critérios predefinidos; 4) mapeamento de dados; 5) sumarização dos resultados, por meio de uma análise temática qualitativa em relação ao objetivo e pergunta; 6) apresentação dos resultados, identificando as implicações para política, prática ou pesquisa. Inicialmente, foi definida a seguinte pergunta de investigação: “Quais são as estratégias de promoção da parentalidade entre pais de crianças de 0 a 5 anos identificadas na literatura de pesquisa?” Em seguida, após a elaboração da pergunta, identificamos as palavras- chave que compuseram as buscas dos artigos referentes à temática desta pesquisa, sendo elas: “parentalidade”, “relações familiares”, “práticas parentais”, “práticas educativas” e “educação parental”. Foram utilizadas três bases de dados: Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Scientific Eletronic Library Online (SciELO) e Periódicos de Psicologia (PePsic). As bases de pesquisa foram escolhidas de acordo com o acesso aos artigos 84 completos, a correspondência às áreas de conhecimento desejadas, neste caso a Psicologia e inicialmente as Ciências Sociais e da Saúde. As buscas ocorreram entre outubro e setembro de 2024 e foram realizadas seguindo as normas para estratégias de pesquisa para cada plataforma, filtrando-se os artigos que apresentavam texto ou resumo em português. Optou-se por não utilizar o critério temporal visto que após pesquisa inicial, foram identificados poucos artigos publicados nos últimos cinco anos — como primeiramente havia se pensado para essa pesquisa. O retorno das buscas foi de 270 artigos, que foram importados para o gerenciador de referências gratuito, Mendley. A partir disso, utilizando de ferramentas da plataforma, foram baixados os artigos completos e junto às referências, o material foi exportado para o programa Rayyan, de cunho também gratuito, que consiste em um ordenador de artigos focados na seleção de dados para compor revisões sistemáticas. Através do Rayyan, foram descartados os materiais duplicados (n=73), resultando em 197 artigos sujeitos a leitura de títulos e resumos. Dessa forma, os critérios de inclusão utilizados para a seleção foram: a) artigos empíricos avaliados por pares; b) estudos cujo o foco foi na população de pais de crianças de 0 à 5 anos; c) artigos realizados dentro do território brasileiro; d) estudos publicados na língua portuguesa brasileira; e) estudos que investigam à prática parental, envolvendo vínculo, parentalidade, estilos parentais e comportamentos dos cuidadores; e f) publicações realizadas dentro da àrea do conhecimento de interesse. A aplicação dos critérios de inclusão foi realizada pelo autor e por dois juízes independentes. Após isso, os resultados foram discutidos e comparados, sanando as dúvidas sobre inclusão ou exclusão de materiais, resultando em 22 artigos que foram submetidos à leitura. Após a leitura, dos artigos utilizou-se os critérios de exclusão: a) literaturas cinzentas; b) artigos que não pertencem à área de conhecimento da psicologia; e c) artigos que não tratem de paternidade ou coparentalidade. O que resultou em um n final de 12 artigos. Durante a leitura na íntegra dos materiais foi também identificado um artigo que dentro de sua delimitação não se encaixava no critério de inclusão “b” desta pesquisa, que se refere à faixa etária de 0 à 5 anos, ficando assim, um n final de 11 artigos.Referente ao método de análise dos dados coletados dos artigos incluídos na pesquisa, foi utilizada a metodologia de análise de conteúdo (Bardin, 1977 apud Mendes; Miskulin, 2017), com a base na qual foram 85 propostos três eixos temáticos para os resultados deste estudo: 1. Estratégias de Parentalidade; 2. Relação Envolvimento Paterno-Desenvolvimento Infantil; 3. Apoio Paterno ao Materno. RESULTADOS/DISCUSSÃO Como delimitado pelo estudo, todas as pesquisas ocorreram em território nacional, sendo realizadas em quatro estados: Rio Grande do Sul (n=7), São Paulo (n=1), Pernambuco (n=1) e no Distrito Federal (n=2). Destaca-se o grande número de publicações identificadas no estado do Rio Grande do Sul, sendo 6 delas realizadas na capital, Porto Alegre e uma no interior no município de Erechim. A justificativa para tal amostragem se dá através de um projeto longitudinal ocorrido no estado durante os anos de 1998 e 2012, que leva o nome de Estudo Longitudinal de Porto Alegre: Da Gestação à Escola — ELPA. O público geral das pesquisas foi completamente composto por casais heterossexuais, pais de crianças de 0 a 72 meses. Todos os estudos trabalharam com genitores de crianças abaixo dos 3 anos completos de idade. Três, no entanto, abrangeram uma população que incluía crianças acima dos 3 anos até os 5 anos completos (Marin; Piccinini; Tudge, 2011a, 2011b; Pasinato; Pereira, 2016). No que tange o teor das pesquisas, todas foram de cunho qualitativo, sendo duas, de teor misto quanti-quali (Marin; Piccinini; Tudge, 2011a, 2011b). Cinco estudos possuíram caráter longitudinal (Alvarenga,2009; Castoldi; Gonçalves; Lopes, 2014; Marin; Piccinini; Tudge, 2011a, 2011b; Murta, 2012). Dois tinham em seu objetivo o caráter descritivo (Murta, 2011; Pasinato; Pereira, 2016). Outros quatro, continham em sua metodologia o caráter qualitativo, utilizando como procedimento de coleta de dados entrevistas semidirigidas e questionários sociodemográficos, diferenciando-se entre si através da análise de dados. Referente ao método de análise de dados utilizada pelos artigos, constatou-se que foram utilizados os seguintes: Análise de conteúdo (n=8) (Alvarenga, 2009; Campana; Gomes, 2017; Castoldi; Gonçalves; Lopes, 2014; Marin; Piccinini; Tudge, 2011b; Murta, 2011; Nunes; Salomão, 2016; Pasinato; Pereira, 2016; Schmidt, 2019); Análise Temática Dedutiva (n=1) (Schmidt, 2022); Instrumentos de Avaliação de Necessidades e Processos (n=1) (Murta, 2012); e Análise de Eventos (n=1) (Marin; Piccinini; Tudge, 2011a). 86 1. ESTRATÉGIAS DE PARENTALIDADE Esta categoria versa sobre as práticas relatadas por cuidadores referentes à educação e cuidados com os filhos. Compreende-se que de alguma forma todos os tópicos de análise falam sobre temas que estão inseridos nas estratégias de parentalidade paternas, no entanto, dentro da literatura revisada se destacam interações e métodos adotados por pais para desempenharem no cotidiano essas práticas. Dentro dessa delimitação serão abordados três subcategorias: Aquisição de habilidades parentais; Práticas de cuidado; e Práticas de parentalidades associadas ao masculino. 1.1. AQUISIÇÃO DE HABILIDADES PARENTAIS Em meio às estratégias identificadas, está a aquisição de habilidades parentais. Identificada como uma das formas de enfrentamento no sentido de diminuição de fatores estressores no exercício da parentalidade e como uma forma de proporcionar um ambiente necessário para a promoção do desenvolvimento infantil. A busca por informações confiáveis destaca-se como uma necessidade para os pais, principalmente aqueles que estão em processo de transição para a paternidade (Murta, 2011, 2012). Murta (2011) destaca a necessidade de intervenções psicoeducativas realizadas por equipes interdisciplinares para alcançar este resultado, no entanto, é observado que na prática, os meios para obtenção deste conhecimento vai para além dos ambientes formais para tal. No entanto, outras formas de adquirir conhecimentos sobre o exercício da parentalidade são identificadas, como: a troca de experiências com pares (Murta, 2011; Castoldi; Gonçalves; Lopes, 2014); o contexto intergeracional, na qual muitos pais se apoiam em suas experiências enquanto filhos para construir suas próprias estratégias de parentalidade (Murta, 2012), o que por sua vez pode ir na contramão da promoção de uma parentalidade saudável quando se pensa sobre experiências ruins dentro do contexto familiar dos indivíduos; e o aprendizado através de trocas com a genitora da criança (Schmidt, 2019). 87 1.2. PRÁTICAS DE CUIDADOS BÁSICOS De maneira geral, nota-se no Brasil atualmente a valorização de práticas mais orientadas à promoção de autonomia e bem estar subjetivo da criança, em detrimento práticas mais rígidas envolvendo valores morais e de controle comportamental (Seidl-de-Moura et al., 2013 apud Schmidt, 2022). Muito pais dentro do atual contexto cultural reconhecem a necessidade de oferecer carinho e amor, e a utilização do diálogo como forma de educar crianças, o que envolve a identificação de competências sensoriais da criança enquanto ainda bebê e com ferramentas incipientes de comunicação (Nunes; Salomão, 2016; Murta, 2012). Simultaneamente, identifica-se modelos de paternidade que fogem do modelo tradicional atribuído ao gênero masculino. De acordo com Jager & Bottoli e Arruda & Lima (2011; 2013 apud Nunes; Salomão, 2016) esse modelo contemporâneo, chamado de “novo pai” ainda coexiste com a noção tradicional de paternidade. Assim, o movimento identificado nos estudos leva a crer que a maior participação do pai nos cuidados básicos diários com a criança, a divisão de tarefas parentais e o maior envolvimento afetuoso é um processo em andamento que está diretamente relacionado com o fortalecimento de uma base segura para o desenvolvimento infantil, agindo assim como um fator de proteção e desenvolvimento (Alvarenga, 2009; Castoldi; Gonçalves; Lopes, 2014; Schmidt, 2019). 1.3. PRÁTICAS ASSOCIADAS À PATERNIDADE No que tange às práticas identificadas como mais comuns aos pais, nota-se que em geral o cuidador paterno tende a encorajar mais a criança à exploração do mundo, expondo-a a riscos calculados enquanto oferece proteção através do estabelecimento de limites (Vieira et al., 2017 apud Schmidt, 2022). O que contribui para a autonomia e o autocontrole que favorece o desenvolvimento infantil. Por outro lado, identifica-se que os pais são os mais inclinados a utilizarem punição verbal em detrimento de alternativas como estratégias indutivas, como explicações, de regulação do comportamento (Marin; Piccinini; Tudge, 2011a, 2011b). Segundo Booth & cols. (1992 apud Marin; Piccinini; Tudge, 2011a ) isso se dá principalmente pela menor frequência 88 com que pais estão envolvidos nas tarefas cotidianas que geram conflitos se comparados com as mães. No estudo de Schmidt (2019), a autora identifica na fala de alguns pais a dificuldade de trocar fraudas e dar banho nas filhas do sexo feminimo, por se sentir desconfortáveis com a tarefa. Dessa forma, nota-se que o sexo do bebê também parece ser um fator relevante nos cuidados paternos, visto que segundo Bronte-Tinkew et al. (2009 apud Schmidt, 2019) as diferenças na participação paterna podem ser elabordas através da identificação do pai com filhos do mesmo sexo, ou como identificado o estudo de Schmidt, através do desconforto com o corpo de crianças do sexo oposto. Por fim, parece estar associada a ideia do paterno também a maior participação nas atividades de lazer com a criança, algo que é reconhecido pelos próprios homens e também visualizado na literatura. Assim, os pais tendem a privilegiar esse tipo de interação. (Castoldi; Gonçalves; Lopes, 2014; Schmidt, 2022). 2. Relação Envolvimento Paterno-Desenvolvimento Infantil: Esta categoria consiste na identificação de fatores que contribuem para a visualização dos entrelaces entre como o desenvolvimento infantil altera a forma como a paternidade é executada e serve também como fomentador do desenvolvimento dos homens inseridos nela. A partir disso, foi observado que a participação e o envolvimento paterno é modificado a partir do desenvolvimento infantil. Conforme a criança ganha autonomia, segundo os estudos, os pais passam a se verem mais envolvidos e participando ativamente de seus cuidados básicos (Gabriel et al., 2017 apud Schmidt, 2022; Seabra; Seidl-de-Moura, 2011 apud Campana; Gomes, 2017). Tal fenômeno é identificado também por mães e pais dos próprios estudos (Campana; Gomes, 2017). Vários autores correlacionam o acontecimento com fatores como a aquisições infantis, a exemplo do início do período da fala e atividades motoras mais desenvolvidas da criança, que levam a busca do infante por brincadeiras e passeios com o genitor (Castoldi; Gonçalves; Lopes, 2014; Schmidt, 2022). Ademais, outro ponto que incentiva a troca entre pais e filhos, segundo Krob et al. (2019 apud Nunes; Salomão, 2017) é também o sorriso da criança. Assim, Lamb et al. (1985 apud Castoldi; Gonçalves; Lopes, 2014) definem o envolvimento paterno 89 em três dimensões do comportamento: acessibilidade, que refere-se a disponibilidade do pai para o filho; o engajamento que versa sobre as interações entre a díade, como brincadeiras, atividades de cuidado e lazer; e por fim a responsabilidade que é vista como a garantia de cuidados e recursos para ofilho. Dessa forma, nota-se que para além da correlação desenvolvimento-envolvimento, essa dinâmica está expressa numa lógica de satisfação e prazer no exercício da parentalidade paterna, onde a crescente interação com a criança gera um ciclo retroalimentativo de satisfação e prazer nos homens (Nunes; Salomão, 2016; Schmidt, 2022). 3. Apoio Paterno ao Materno A categoria trata-se da função de apoio que os pais dentro de famílias nucleares podem exercer em prol da outra parte desta dupla parental, especificamente no exercício do suporte paterno ao materno, o que também pode ser considerada uma estratégia de parentalidade que visa o desenvolvimento infantil. Se sobressai na literatura a necessidade do suporte às mães principalmente no período gestacional até os primeiros meses da criança, o que somado ao envolvimento paterno com a gravidez e o filhos recém nascido, é considerado como um fator de proteção dentro desse contexto (Piccinini, et al., 2004 apud Murta, 2012), visto que, dentre muitos outros fatores, quanto mais o pai conhece e está envolvido com o bebê, mais empático e solícito com a mãe ele consegue ser, o que por sua vez reforça a noção de apoio apresentada (Nunes; Salomão, 2016). Os estudos apontam que a responsabilidade pelos cuidados básicos dos filhos, apesar das mudanças no paradigma da paternidade, ainda é majoritariamente exercida pelas mães (Schmidt, 2019; Nunes; Salomão, 2016; Campana; Gomes, 2017). Tal questão é apresentada na literatura revisada como fator de insatisfação por muitas mulheres no que se refere à divisão de tarefas domésticas e cuidados com o filho (Campana; Gomes, 2017; Schmidt, 2019). O acúmulo das atividades parentais sem uma divisão clara de tarefas entre os genitores pode gerar a sobrecarga materna, o que se intensifica na tentativa de conciliação de outros papéis desempenhados pela mulher, como o papel profissional (Castoldi; Gonçalves; Lopes, 2014; Schmidt, 2019). Somado a isso, o tempo dedicado pelas mulheres às crianças as tornam as principais cuidadoras, estabelecendo um vínculo que as permite reconhecer as mais diversas 90 variações emocionais e comportamentais dos filhos (Nunes; Salomão, 2016). Esse fenômeno parece corroborar a insatisfação das mães quanto ao desempenho dos pais no exercício parental (Prado; Fleith, 2010 apud Campana; Gomes, 2017). Campana e Gomes (2017), Schmidt (2019) e Marin, Piccinini & Tudge (2011b), nesse sentido, argumentam que no pensamento tradicional, majoritariamente, o papel e a prática parental paterna dos homens ainda está subjugado à da mulher. Afirmação é corroborada por Castoldi, Gonçalves & Lopes (2014) com o conceito das guardiãs de portal (Jablonski, 1999 apud Castoldi; Gonçalves; Lopes, 2014), onde: “que reconheça a importância da participação do pai e embora necessite da sua ajuda, nem sempre a mãe consegue permitir, facilitar ou estimular o envolvimento do pai com o bebê (p. 3). Conforme o elaborado, cabe aprofundar sobre a constatação de que a figura paterna ainda se encontra em um estado de modificação de suas significações. Muzio (1998 apud Bernardi, 2017) identifica três diferentes momentos referentes à essa evolução. Em um primeiro, no início do século XX, as produções a respeito do pai eram incipientes e voltavam- se ao ideal cristalizado sobre a figura materna e seu fator decisivo para o desenvolvimento infantil. Em um segundo momento, entre as décadas de 1960 e 1980, autores começaram a apontar para como as ausências paterna e a falha no desempenho do papel poderiam resultar em efeitos nocivos aos infantes. E em um terceiro momento — este já contemporâneo mas ainda em mutação —, a literatura científica começa a analisar e expor um debate sobre a reorganização dos papéis relacionados às figuras parentais, visando destacar os benefícios da presença paterna desde o nascimento do bebê. Deste modo, encontra-se um campo onde atualmente a figura do pai adquire mais destaque e passa a ser significada por um outro olhar que foge das noções provedoras associadas ao papel do homem no século passado. A visão que se possui de uma parentalidade responsável por parte de homens — ao menos no campo das pesquisas, saúde e políticas públicas —, agora consiste em uma noção mais afetiva do pai na vida dos filhos (Bernardi, 2017). Simultaneamente, a experiência da paternidade passa a ser produtora dos homens inseridos nelas, tornando o pai contemporâneo mais envolvido nos processos de cuidado e afeto com a prole, contudo, isso não significa que os antigos e tradicionais papéis relegados ao 91 desempenho dessa função por pessoas do gênero masculino tenha sido completamente superado. A partir disso é válido pensar a questão do desenvolvimento humano a partir da proposta de Bronfenbrenner (2012, p. 29) “Dentro da Teoria Bioecológica, o desenvolvimento humano é definido como o fenômeno de continuidade e de mudança nas características biopsicológicas dos seres humanos, como indivíduos e como grupos”, adotando, dessa forma, um caráter processual e em constante mutação. Portanto, nessa perspectiva subentende-se que na díade pai-criança ambos os sujeitos estão em processo contínuo de desenvolvimento de suas subjetividades, visto que ter um filho também é um fator de transição ecológica, algo que modifica os papéis e ambientes dos indivíduos (Bronfenbrenner, 2012). Como constatado, o desenvolvimento das habilidades parentais coincide em grandes casos com o desenvolvimento infantil. Nesse escopo a criança e o pai são fatores determinantes para o desenvolvimento um do outro (Gabriel et al., 2017 apud Schmidt, 2022; Seabra; Seidl-de-Moura, 2011 apud Campana; Gomes, 2017). Sob o olhar social e em diálogo com as perspectivas de gênero é possível notar que em grande parte a divisão igualitária das atividades parentais ainda é realizada de maneira insuficiente entre homens e mulheres (Castoldi; Gonçalves; Lopes, 2014; Schmidt, 2019). Segundo Lamela et al., (2018 apud Schmidt, 2022) isso se dá em sociedades onde há menor igualdade de gênero, sendo o Brasil incluído nesta categoria. Isso nos leva a retomar a ideia de que Scott (1995 apud Medrado; Lyra, 2008) onde o gênero é um palco onde as relações de poder são exercidas. Nesse pensamento ressalta-se como em prol dos ideais de uma masculinidade tradicional, muitos homens relegam as tarefas domésticas às mulheres colocando-se como ajudantes ou suporte até mesmo na prática da parentalidade. Tais papéis de gênero bem definidos são subprodutos de uma cultura patriarcal onde ao se levar em conta o eixo parentalidade, pode-se inferir algumas questões: homens muitas vezes não desempenham e nem são ensinados a desempenhar seus papéis como pais (Nunes; Salomão. 2016; Schmidt, 2019); mulheres são historicamente colocadas através de um determinismo biológico como as principais responsáveis pela educação e cuidados com o filho (Campana; Gomes, 2017); em uma contrapartida, homens são desautorizados e sentem-se diminuídos de suas responsabilidades e deveres parentais (Campana; Gomes, 2017; Nunes; Salomão. 2016; Schmidt, 2019); e homens de maneira geral, inclusive na perspectiva da 92 parentalidade estão presos e subjugados ao papel social imposto a eles (Campoi, 2022). Por fim, compreende-se que o gênero e os papéis sociais incubidos à ele são questões de extrema influência no exercício parental. Partindo de Bronfenbrenner (2012), podemos utilizar a ideia dos sistemas para fundamentar essa afirmação. Pela teoria ecológica do autor, os sistemas nos quais os sujeitos estão inseridos, vão de uma escala proximal até uma escala cultural, sendo essa última referida como macrossistemas. Através dessa ideia, pode-se pensar como cada um dos ambientes onde crianças são criadas está sujeito à interferência de questões econômicas, culturais e sociais de uma sociedade.Tal característica nos remete também à ideia de que, dessa forma, a parentalidade se torna também foco da lente da interseccionalidade ao pensar esse ambiente de desenvolvimento atravessado por interseções de gênero, raça, etnia, classe, geração e território (Ferreira et al., 2024) CONCLUSÃO Objetivou-se através dessa revisão identificar estratégias de parentalidade usadas por homens pais de crianças de 0 a 5 anos completos e práticas que proporcionem a promoção de parentalidade. Através disso observou-se um grande número de pesquisas qualitativas que tratam do tema parentalidade e coparentalidade, olhando majoritariamente para a percepção dos sujeitos envolvidos na parentalidade sob o fundo das teorias que permeiam esse tema. Assim, mostra-se indispensável retomar as percepções que relatam tanto a parentalidade quanto o desenvolvimento humano — neste caso com enfoque maior no infantil — como fenômenos multifacetados dentro de uma rede complexa de possibilidades que se mostra sempre dinâmica e em mutação (Bronfenbrenner, 2012; Hoghughi; Long, 2004). Através do escopo do estudo foi possível observar ainda mais profundamente a dinamicidade e profundidade do tema da parentalidade. Dentro de muitos temas abordados, uma série de outros ficou de fora. Como citada na introdução deste documento, nota-se que diversas práticas e contextos impactaram e impactam o exercício da parentalidade na contemporaneidade (API, 2022; Siegel; Hartzell, 2020), e através da perspectiva de gênero, da teoria bioecológica de Bronfenbrenner e da ótica das interseccionalidades, há a possibilidade 93 de uma inúmera quantidade de enfoques que auxiliam na construção de parentalidades mais saudáveis e responsáveis dentro do contexto da paternidade no Brasil. Dessa forma, quanto aos objetivos propostos, acredita-se que foi possível alcançá-los. No entanto, na pesquisa não foram identificados estudos que abrangesse no seu público, modelo teórico, metodológico, discussão e resultados apontamentos para aspectos relacionados a diversos marcadores de raça, etnia, classe, território e gênero. Tais marcadores sociais seriam importantíssimos para a compreensão de como se dão as especificidades da parentalidade masculina no contexto brasileiro. É preciso destacar o fato de que, em sua maioria, os estudos tratavam de contextos de famílias nucleares que não refletem a gama da diversidade no que refere às dinâmicas familiares presentes na sociedade brasileira. Assim, acredita-se que olhar para paternidades homossexuais, transexuais, monoparentais e de outros contextos também se torna necessário dentro desse tema — o que assim como no apontamento anterior, é um cenário propício para a elaboração de futuras pesquisas — tanto para a construção de políticas públicas adequadas, quanto para o progresso da perspectiva social que se tem de paternidade dentro do território brasileiro. REFERÊNCIAS ALVARENGA, P. et al. Estabilidade e mudanças nas práticas educativas de mães e pais dos 18 para os 24 meses de vida da criança. Interação em Psicologia, v. 13, n. 2, 31 dez. 2009. ASSIS, Dayane N. Conceição. Interseccionalidades. Salvador,BA: UFBA - Instituto de Humanidades, Artes e Ciências. Superintendência de Educação a Distância, 2019. 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Termos como empobrecimento climático, êxodo climático, racismo ambiental, guerras climáticas estão a engrossar o caldo dos velhos conflitos que agora parecem pequenos diante das dificuldades que estamos a enfrentar. Nunca o mundo esteve tão quente, e pela primeira um país tropical como o nosso, teve que lidar com mortalidade em decorrência do calor extremo, o que indica que mesmo os países adaptados às altas temperaturas não estão preparados para lidarem com os eventos térmicos extremos causados pela nossa interferência no sistema climático mundial. Conforme consta na segunda parte do Sexto Relatório de Avaliação do IPCC: Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade (2022), o aumento da temperatura global de 1,1 °C que vivemos hoje já causa perdas e danos, especialmente às populações em situação de vulnerabilidade. Chegamos a um patamar em que a crise do clima provoca consequências cada vez mais irreversíveis. Biomas únicos estão em declínio, corremos o risco que milhares de espécies, sequer catalogados pelos humanos, sejam extintas em decorrência da alta instabilidade planetária. Estamos perdendo a vida. Estamos morrendo coletivamente e a cauda de nossa morte é a estupidez, ganância e injustiça, elementos venenosos a impedir que a vida siga se curso: continuar. 8 Caímos em queda vertiginosa, após termos cruzado os limites anunciados pela própria Natureza. E este cenário certamente resulta da cultura colonial que desde sua implantação curvou à terra às vontades dos colonizadores. Malcom Ferdinand em Uma ecologia colonial (2023), expressa adequadamente a crise material e subjetiva que a colonização impôs a vida planetária. Segundo ele, antes do contato colonial, as sociedades indígenas se pautavam por uma íntima relação de respeito e amor com a Pachamama (Mãe Terra), contudo, a colonização, fez da terra uma commoditie, mercantilizou seus produtos e destruiu a harmônica relação com a Mãe Terra. Desde então, caminhamos no mundo como órgãos de mãe, filhos sem abrigo e pertencimento. O crime cometido contra a Natureza é um crime contra a sacralidade de toda e qualquer vida. Da lógica positivista herdamos o imaginário antropocêntrico em que a supremacia humana figura distante da Natureza, forjamos relações com a Natureza que não nos colocamos em pertencimento à grande teia da vida, o que certamente autoriza a lógica da subalternização da Natureza tal qual imposta a negros e indígenas (Santos, 2023). Na busca por soluções que superem essa ruptura, tem se fortalecido a corrente sociojurídica da Natureza como sujeito de direitos, trata-se de uma mudança paradigmática que altera a linguagem do tratamento jurídico dispensado à Natureza e a concebe como uma personalidade em que os direitos são superiores às necessidades humanas. Recentemente o município de Guajará-Mirim em Rondônia reconheceu um rio como ente vivo e sujeito de direito, sendo a primeira vez que um rio teve seus direitos reconhecidos por lei no país. Este marco legal estabelece: Art. 1º: Ficam reconhecidos os direitos intrínsecos do Rio Laje-Komi-Memen como ente vivo e sujeito de direitos, e de todos os outros corpos d´água e seres vivos que nele existam naturalmente ou com quem ele se inter-relaciona, incluindo os seres humanos, na medida em que são inter-relacionados num sistema interconectado, integrado e interdependente (Guajará-Mirim, 2023, p.02). Em sentido totalmente oposto à lógica capitalista e colonial, o entendimento da Natureza como sujeito de direitos coloca em máxima envergadura a capacidade de se manter viva a ideia de direitos puramente humanos. O econcentrismo proposto pela perspectiva sistêmica da vida não coaduna com a imagem de um humano superior e apartado da Natureza, haja vista que os 9 direitos essenciais da humanidade, como alimentação, saúde, trabalho, escolarização, espiritualidade, etc., passam necessariamente pela proteção e conservação da Natureza. De tal modo, fica cada vez mais evidente que nossa luta não é mais pela demarcação de direitos humanos como uma causa justa a nosso tempo, mas pela promoção dos direitos à vida. Se o século XX foi o tempo dos “direitos humanos”, certamente o século XXI será os dos direitos da Natureza, e nessa intersecção, o que estou chamando aqui de “direitos à vida”. Proponho esse deslocamento narrativo e semântico de direitos humanos para direitos à vida, não por mero avolumentamento teórico, mas por entender que atualmente é este o caminho , ou agimos pela absoluta defesa da Natureza, ou não haverá vida para nenhum de nós, humanos e não humanos. Vale aqui a máxima de Hans Jonas de que toda vida quer viver, não apenas a humana, por tal razão, qualquer projeto político, social e científico que leve a sério o bem-estar humano, partirá da firme consideração que qualquer coisa só será justa para a humanidade, se for justa para com a Natureza. Nós, povos das florestas, filhos e filhas da mãe Amazônica, sentimos pensar sobre nossa geração a responsabilidade de cuidar e proteger do nosso lar. A nós cabe a intensificação das ações que visam o equilíbrio entre Natureza e sociedade, um trabalho gigante que há muito vem sendo feito pelos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pelos movimentos em prol da justa divisão da terra, pelas comunidades tradicionais. Necessitamos estar com aqueles que sabem viver e honrar a sacralidade da Natureza. Mas como fazer isso a partir da ciência? Podemos: 1. Implodir as fronteiras hierárquicas entre pensamento científico e pensamento comunitário; 2. Desenvolver reflexões, teorias e metodologias de pesquisa de cunho interseccional; 3. Recontextualizar e se preciso criar enunciados, categorias analíticas e proposições explicativas da realidade que pensem em perspectiva de direitos à vida; 4. Insistir massivamente no ecocentrismo em detrimento do antropocentrismo; 5. Inspirar os jovens a conhecer e amar a Natureza; 6. Fortalecer a identidade do Norte, com orgulho e pertencimento à Amazônia, somos todos e todas, filhos e filhas das florestas; 7. Financiar pesquisas e projetos de arte, cultura, saberes e tradições amazônicas em prol do nosso aprendizado com os povos de saberes do 10 Bem Viver; 8. Formar ou fortalecer uma Pedagogia do Bem Viver e uma Psicologia do Bem Viver. Evidentemente estes não são os únicos, sequer os melhores caminhos a serem seguidos, são apenas possibilidades que apresento como proposta para nos favorecer no protagonismo que nos cabe, em vista de uma nação cuja centralidade sejam os direitos à vida. Por fim, é mais importante, é necessário que abdiquemos de discussões antropocêntricas, em prol de críticas sistêmicas cuja sensibilidade conduza a ciência, profissão e cidadania em defesa dos direitos da vida. Pois não há DH que não esteja conectado com a vida planetária, se desejamos garantir prosperidade e transgeracionalidade à nossa espécie, é urgente pensar a garantia da vida para todos os seres que conosco partilham da grande casa azul. REFERÊNCIAS: FERDINAND. M. Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho. São Paulo: Ubu, 2022. FOUCAULT, M. Em Defesa da Sociedade. 2 ed. tradução de Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2010. GUAJARÁ-MIRIM. Lei n. 007/2023, de 17 de abril de 2023. Dispõe sobre o reconhecimento dos direitos do Rio Laje - Komi Memen - no município de Guajará-Mirim e seu enquadramento como ente especialmente protegido e dá outras providências. Guajará-Mirim, Diário Oficial do Estado de Rondônia 2023. Disponível em:Scott. Educação & realidade (Porto Alegre). v. 20, n. 2, p. 71-99, jul./dez. 1995. SIEGEL, D.J.; BRYSON, T.P. Disciplina sem drama. São Paulo: nVersos, 2016. SIEGEL, D.J.; HARTZELL, M. Parentalidade consciente: como o autoconhecimento nos ajuda a criar os nossos filhos. São Paulo: nVersos, 2020. VALENTE, Márcio Barra; MEDRADO, Benedito; LYRA, Jorge. Ciência como dispositivo de produção da paternidade: análise de produções científicas brasileiras. Athenea Digital. Revista de pensamiento e investigación social, v. 11, n. 2, p. 57-72, 2011. 96 REFLEXÕES ACERCA DA ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL EM CONTEXTOS EDUCACIONAIS ELISEU MARQUES DA SILVA20 ALVACIR SIQUEIRA DA SILVA JÚNIOR 21 GISELE CRISTINA RESENDE22 Resumo: A escolha profissional é uma das etapas marcantes na vida de um jovem, contudo, é um momento de incertezas que pode ocasionar sofrimento se este jovem não for acolhido e orientado. O acolhimento pode ser realizado em Processos de Orientação Profissional e de Carreira, no qual o jovem pode conhecer seus interesses profissionais, desenvolver a maturidade para a escolha profissional e conhecer as possibilidades de atuação e trabalho na sociedade. O presente trabalho objetivou fazer uma reflexão acerca da literatura sobre a Orientação Profissional em Contextos Educativos. A metodologia foi a revisão narrativa da literatura nos últimos cinco anos na base de dados Scielo, com os termos indexados “Orientação Profissional” ADN “Educação”, a análise ocorreu pelo método de Análise Temática e os resultados foram organizados em categorias: Orientação Profissional em Escolas, Orientação Profissional enquanto Política Pública Educacional. Os achados na literatura indicam que a área de Orientação Profissional e de Carreira se apresenta como uma aérea profícua para o trabalho de psicólogos e educadores na escola, porque poderão auxiliar nos processos de escolhas de profissões e promover desenvolvimento humano, com capacidade crítica para a leitura da sociedade, se implementada como uma política educacional de educação para a carreira e não apenas como intervenções pontuais no final do ciclo educacional. Palavras-chave: Orientação Profissional e de Carreira, Educação, Políticas Públicas. INTRODUÇÃO O processo de escolha profissional é um momento importante na vida de um jovem, e pode ser vivenciado com angústias, indecisões e expectativas, pois é exigida uma escolha de uma profissão futura, mas com embasamento nos interesses e necessidades requerendo a articulação entre presente, passado e futuro em um projeto de vida. O projeto é composto de uma dupla dimensionalidade: a subjetiva e identitária de construção de projeto de vida, isto é, a construção de um projeto identificando-se com ele de modo que tenha um sentido para a própria vida e abarque a escolha profissional; e a dimensão da operacionalidade instrumental, ou seja, com um conjunto de ações para a obtenção dos objetivos traçados (Ribeiro, 2014), o que implicará em conhecimento de si (interesses, valores e habilidades) e do mundo do trabalho 20 Estudante do curso de Psicologia da Universidade Federal do Amazonas – UFAM. E-mail: eliseumarques034@gmail.com 21 Estudante do curso de Psicologia da Universidade Federal do Amazonas – UFAM. E-mail: jralvacir@gmail.com 22 Docente da Faculdade de Psicologia e Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Amazonas – UFAM. E-mail: giseleresende@ufam.edu.br Agradecemos à FAPEAM – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas e ao CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico pelo apoio à Iniciação Científica na Universidade Federal do Amazonas - UFAM por meio de bolsas de pesquisa. mailto:eliseumarques034@gmail.com mailto:jralvacir@gmail.com mailto:giseleresende@ufam.edu.br 97 e da educação, isto é, das e possibilidades de estudos e de formação profissional. Todo esse processo de elaboração de um projeto de vida que integre a profissão, precisa ser desenvolvido no período da adolescência e da escolarização na educação básica, o que pode ocasionar ansiedade e angústia para o jovem, é um momento de incerteza e o jovem precisará de um acolhimento e orientação. Nos dias atuais, escolher uma profissão e futura carreira é um processo desafiador para o jovem, de acordo com Savickas et al., (2009) precisa-se considerar que a sociedade passou por transformações na economia globalizada, houve avanços na tecnologia da informação e comunicação e os séculos XX e XXI ampliaram as possibilidades profissionais e diversidade de empregos influenciados pelos processos de industrialização. Cattani, Teixeira e Ourique (2016) apontam que a subjetividade e as experiências de vida dos jovens podem ser significativas no processo do desenvolvimento da maturidade para a escolha da profissão. Cardoso et al. (2019) argumentam que os avanços tecnológicos e novas profissões apresentam- se como um grande desafio para os jovens, assim como, as influências familiar e da escola interferem de maneira decisiva na escolha da profissão. Ao escolher um curso de graduação em uma universidade, o graduando(a) nem sempre sabe ao certo em qual área pretende atuar dentro da respectiva escolha profissional, mas ao longo da jornada acadêmica, a descoberta dos possíveis interesses na sua futura profissão vão surgindo. Outrossim, é importante destacar que os critérios de escolha profissional e de carreira do graduando(a) perpassam por diversas esferas, dentre elas, identificação com as áreas, aptidões, contexto familiar, social e perspectivas para futuro, tais critérios devem ser apurados pelos profissionais (Noronha; Ambiel, 2006). Diante do exposto, para facilitar as escolhas profissionais, a Orientação Profissional e de Carreira (OPC) surge com a finalidade de orientar os acadêmicos, dando o suporte para a sua escolha profissional de acordo com os seus interesses e possibilidades de estudos, pautando-se em pilares como o autoconhecimento (conhecimento de si, de seus valores, aptidões, interesses) para a elaboração de um projeto de vida e planejamento de ações para conquistar as possibilidades de profissão e carreira (Ribeiro, Uvaldo, Fonçatti, Audi, Agostinho e Malki, 2016). Na mesma linha de trabalho, Pacheco e Silva (2021) consideram que a orientação profissional é tão importante quantos as transformações corporais, que são 98 desencadeadas por um conjunto complexo de mudanças hormonais, que acabam ocorrendo juntamente com as transformações dos aspectos cognitivos, afetivos emocional, moral e social, e a implementação de ações preventivas supostamente inibe o sentimento de insegurança e insatisfação em relação às escolhas profissionais, assegurando o compromisso e o empenho com hábitos de estudo que propiciam o processo de integração e de aprendizagem (Soares et al., 2021). Em razão das características da Orientação Profissional enquanto um processo de conhecimento de si e do mundo, há a necessidade de que existam no contexto educacional o incentivo às atividades individuais ou programas institucionais dotados de informações acerca da escolha da profissão, autoconhecimento e conhecimento da realidade, mas para que esses princípios fossem colocados em prática nos contextos educacionais, a Orientação Profissional e de Carreira precisa ser concebida como um dispositivo educacional e que integre os programas das escolas de educação básica, desde o final do ensino fundamental até a finalização do ensino médio, pois uma escolha profissional e de carreira é um processo que é construído ao longo do desenvolvimento humano (Albanesse, 2016). E as práticas para programas de Orientação para a Escolha Profissional e de Carreira precisam ser contínuos num processo de educação, para avançar à uma educação para a carreira que integre a equipe escolar, acomunidade, os familiares e os estudantes para fomentar políticas públicas educacionais que se voltem para a educação de jovens para o planejamento de um projeto de vida que integre trabalho e carreira (Munhoz, Melo-Silva e Audibert, 2016; Melo-Silva et al., 2019, Freitas e Resende, 2020). A partir deste contexto o presente trabalho objetivou fazer uma reflexão acerca da literatura sobre a Orientação Profissional em Contextos Educativos. METODOLOGIA DE PESQUISA Foi realizada a revisão narrativa (Rother, 2007) de literatura com a busca na base de dados Scielo, adotando-se o termo booleano AND aos seguintes termos indexados: com os termos indexados “Orientação Profissional” ADN “Educação”, Foram incluídos: (a) estudos que versassem sobre o tema, (b) revisados por pares, (c) com texto completo disponível, (d) 99 publicados nos últimos cinco anos, (f) em português, inglês e espanhol. Foram encontrados 10 artigos na base de dados, sem determinação de datas para a seleção, pois os termos indexados focalizaram a busca. A primeira etapa da análise foi realizada a leitura dos resumos e descartaram-se 4 artigos, sendo um da área do esporte; o segundo artigo com o histórico da Psicologia Escolar e Orientação Profissional, mas sem articular enquanto política educacional, o terceiro artigo na área de enfermagem e tratando de uma avaliação do estágio e o ultimo sobre inclusão de pessoas com Síndrome de Down. Na segunda etapa de análise, utilizou-se da Análise Temática de Braun e Clarke (2006), para a interpretação de padrões (temas) diante dos estudos selecionados, e foi possível identificar duas categorias temáticas: i) Orientação Profissional em Escolas: ensino básico (fundamental e médio), superior e ii) Orientação Profissional enquanto Política Pública Educacional. RESULTADOS Na primeira categoria Orientação Profissional em Escolas: ensino básico (fundamental e médio) e superior os três artigos selecionados descreveram o processo de Orientação Profissional em contextos escolares. No artigo “Escolha e orientação profissional de estudantes de curso pré-vestibular popular” (Valore e Cavallet, 2012) investigam os critérios utilizados, as dificuldades encontradas, a quantidade de informação percebida e as contribuições da escola no processo de escolha profissional. Utilizam de metodologia quali-quantitativa e de caráter transversal. Os participantes da pesquisa foram estudantes de um curso pré-vestibular popular, inscritos em um projeto de orientação profissional e a coleta de dados ocorreu em entrevistas individuais e, em seguida, no primeiro encontro grupal foi aplicado o questionário acerca das escolhas profissionais. O perfil da amostra foi majoritariamente feminino, representando 59% do total e a faixa etária variou entre 16 até 55 anos, mas concentrou-se entre 16 e 17 anos em 55% dos participantes. Além disso, verificou-se que a grande maioria dos participantes cursou o ensino fundamental (91%) e médio (96%) em instituições públicas, sendo que apenas 39% estavam concluindo o ensino médio ao mesmo tempo em que frequentavam o cursinho. Os 100 resultados demonstraram que os cursos superiores mais enfatizados foram Direito, Psicologia e Engenharia Química e os menos pensados Letras e Pedagogia. Em relação as dificuldades para a escolha da profissão relataram a necessidade de maior informação sobre as profissões, mercado de trabalho e a si mesmos, o medo de errar na escolha e a dificuldade de renunciar outras possibilidades. Em relação as contribuições da escola no processo de escolha de uma profissão, os participantes consideraram que a escola pode promover mais ações voltadas para a orientação profissional. Embora o aspecto econômico não tenha sido apontado como critério ou dificuldade principal na escolha, os demais resultados corroboraram outros aspectos encontrados na literatura. Destarte, confirmou-se a relevância da orientação profissional nesse contexto, evidenciando-se a necessidade de sua articulação com a ação docente, de modo a aproximar a educação do mundo do trabalho e a incentivar o planejamento de projetos de vida que venham a contemplar o desenvolvimento de uma sociedade mais inclusiva. O segundo artigo da categoria intitulado título “O impacto da mentoria no desenvolvimento pessoal e profissional de diferentes turmas” (Vargens et al., 2021) apresentou um relato de experiência de um programa de mentoria durante a formação médica. Com os objetivos de orientação para o futuro profissional, apoio institucional formal, suporte emocional e compartilhamento de experiências. As temáticas trabalhadas no programa abordaram o desenvolvimento profissional e pessoal do estudante, a saúde mental e a vivência profissional, currículos formais e informais, sobrecarga e rendimento acadêmico. Notou-se mudança na postura de alguns alunos diante do curso e de momentos de lazer, valorizando tempo com a família, exercício físico e hobbies. E os encontros permitiram elucidar dúvidas sobre residência e carreira médica, assim como ajudaram os alunos a se reconectar com o curso. Concluiu-se que o programa de mentoria é efetivo ao oportunizar reflexão sobre as vivências pessoais e o projeto profissional, e estimular a autonomia do pensamento crítico durante a formação. O terceiro artigo “Revisión sistemática: criterios de calidad en el proyecto de programas de orientación vocacional” (Botero-garcía et al., 2022) apresentou uma revisão sistemática relacionada à orientação vocacional e profissional com estudos realizados entre 2007 e 2017 sobre orientação profissional em alunos do ensino secundário. Os resultados identificaram maior tendência à aplicação de programas de orientação profissional durante o ensino médio, 101 com maior foco nas últimas séries de formação, com foco na informação acerca das ofertas acadêmicas em diferentes instituições, os requisitos mínimos para admissão e os perfis de cada curso, sinalizando as habilidades e exigências que o aluno deve ter para garantir o sucesso acadêmico durante seus estudos e, posteriormente, o sucesso no exercício de sua vocação, aspectos importantes para subsidiar a tomada de decisão. Sobre os interesses, aptidões e preferências vocacionais, as pesquisas analisadas enfatizaram a relevância da identificação dos interesses profissionais, do treinamento para tomada de decisão, a importância do vínculo familiar e da maturidade vocacional e autoeficácia, tecnologia, estratégias para a transição, conselheiros presentes e apoio entre pares, para que o jovem estabeleça seu projeto de vida. Nesta primeira categoria os estudos demonstraram a importância de processos de Orientação Profissional em contextos educativos, sejam na educação básica e no ensino superior. Há a concordância sobre a importância de que no processo sejam abordados autoconhecimento e conhecimento da realidade educativa e profissional. Na segunda categoria Orientação Profissional enquanto Política Pública Educacional, três artigos foram selecionados para o estudo. O primeiro é intitulado “Concepções da iniciação científica no ensino médio: uma proposta de pesquisa” de autoria de Cristina Araripe Ferreira (2003), objetivou propor uma análise das formas de participação de pesquisadores de renomadas instituições científicas, como orientadores de jovens que ainda não fizeram suas escolhas profissionais. Tal pesquisa se deu por meio da análise do Provoc, criado em 1986 pela Fiocruz, um modelo educacional na área de iniciação científica que ultrapassa os limites do campus de Manguinhos, no Rio de Janeiro, para difundir-se junto a outras instituições de pesquisa do país. Também foi intenção da autora realizar uma análise sistemática de todos os dados e todas as informações disponíveis sobre as interações e os processos que envolvem os dois principais atoressociais do Provoc: pesquisadores e alunos. Tomando como base tais interações e processos, procuraremos observar a evolução das relações pessoais, afetivas, profissionais, etc. - condicionadas por uma série de atitudes recíprocas - que perpassam habitualmente a união desses atores. A metodologia do estudo se deu por meio de um roteiro de entrevistas, aplicado aos principais protagonistas do Programa de Vocação Científica, cujo objetivo era realizar entrevistas longas com 33 pesquisadores. Os resultados apontaram que o pesquisador e o aluno 102 do Provoc que começam a trabalhar juntos em uma equipe (não apenas em eventos isolados) estão, de certo modo, estabilizando a ideia de que a iniciação científica no Ensino Médio pode ser importante para a introdução de um modelo educacional diferente do que predominou até o momento. Sua pesquisa evidencia que a orientação acadêmica não implica somente o envolvimento "burocrático" de alunos do Ensino Médio em projetos de pesquisa, o processo educacional em questão tem o objetivo de possibilitar aos alunos a vivência dos ambientes de pesquisa e de conhecer o cotidiano de trabalho dos pesquisadores. O Programa se compromete em colocar o aluno face a face com a realidade da vida nos laboratórios de pesquisa. O segundo artigo selecionado tem como título “Preparação para o trabalho na legislação educacional brasileira e educação para carreira”, escrito por Munhoz e Melo-Silva (2012), as autoras buscaram identificar as bases legais da preparação para o trabalho no contexto escolar brasileiro e contribuir para a compreensão da Educação para a Carreira, enquanto modalidade de Orientação Profissional e de Carreira, na preparação para o trabalho dos alunos no contexto da educação básica. Em sua consulta às bases legais da educação brasileira identificaram que a legislação e as recomendações do MEC atuais apontam na direção da infusão da temática do trabalho no currículo da educação básica, como acontece nos programas de Educação para Carreira em vários países, também que a preparação para o trabalho abarca conteúdos e competências básicas para a entrada no mundo do trabalho, como noções e valor do trabalho, por exemplo. Tais competências deveriam ser contempladas no ensino fundamental e médio, de acordo com os documentos legais. As autoras citam que a preparação para o trabalho no ambiente escolar não pode se restringir à aquisição do conhecimento ou de habilidades acadêmicas básicas. Assim, a escola pode ser um espaço privilegiado para o desenvolvimento de hábitos, atitudes, valores, habilidades e pensamento crítico e é, inevitavelmente, um lugar onde projetos de vida são construídos e não pode ser omissa em relação à sua importância nesta questão. Enfatizam que a Educação para a Carreira se apresenta como um modelo de intervenção adequado ao contexto atual da sociedade pós-moderna, tecnológica e globalizada e contempla, com seu enfoque educativo, a possibilidade de abranger um número expressivo de crianças e jovens, atualmente desprovidos de intervenções que ajudem a articular educação e trabalho. Ainda que ao compreender a preparação para o trabalho como dimensão da cidadania, pretende-se contribuir 103 para a preparação dos jovens para um engajamento democrático, ativo e crítico não apenas profissional, mas também pessoal e social. O terceiro artigo “Análise das ementas de orientação profissional em cursos de psicologia: desafios atuais” (Ambiel, Inácio, Galina e Matias, 2022). Trata-se de um estudo documental, uma análise das ementas das disciplinas de Orientação Profissional (OP) oferecidas nos cursos de Psicologia das universidades brasileiras particulares e públicas. Para tal, foi extraída uma planilha em Excel disponibilizada no site do Ministério da Educação (MEC) para levantamento dos cursos de graduação em Psicologia ativos de instituições cadastradas considerando as cinco regiões do país. As ementas foram divididas em unidades de texto, com o objetivo de explorar o conteúdo como unidades de análise, também foram separadas em categorias de acordo com seu assunto, para que fosse possível identificar quais os assuntos mais frequentemente abordados. Entre os resultados obtidos, a região Sudeste representou 40% das ementas analisadas, sendo a carga horária de 60 horas a de maior predominância, também foi constatado que a disciplina é frequentemente ofertada no oitavo semestre. Os resultados indicaram a necessidade de maior aprofundamento no conteúdo das ementas, para que haja uma melhor formação aos orientadores profissionais, além de ser necessário mais incentivo na disciplina de Orientação Profissional, matéria cada vez menos privilegiada nos cursos de graduação em Psicologia. Os três artigos foram selecionados após uma análise criteriosa que levou em consideração o aporte relevante que esses estudos acrescentam à discussão acerca da Orientação Profissional enquanto Política Pública Educacional, abrangendo esferas de responsabilidade do Estado, em prol do desenvolvimento dos elementos preciosos à maturidade vocacional, à orientação e à escolha profissional pautada no auxílio da psicologia ao aluno. Assim como visto na seção anterior, a Orientação Profissional é ampla, rica em conhecimentos e em possibilidades de apoio às pessoas, não estando limitada apenas ao âmbito do ensino fundamental ou apenas ao médio, trata-se de um assunto que deve reverberar em ambas as áreas e também no ensino superior. 104 CONSIDERAÇÕES FINAIS Os conhecimentos advindos dos artigos trazem à tona a necessidade de haver mais investimento na Orientação Profissional desde a educação básica e ensino superior. Demonstraram que a Psicologia pode contribuir para a área enquanto ciência e profissão e que a atuação de um psicólogo orientador pode auxiliar nos processos de escolhas de profissões e promover desenvolvimento humano, para que o jovem possa ter capacidade crítica para a leitura da sociedade. Ressalta-se que se percebeu a importância de orientadores profissionais nas escolas e em contextos educativos e a necessidade de que seja implementada como uma política educacional de educação para a carreira e não apenas como intervenções pontuais no final do ciclo educacional. REFERÊNCIAS ALBANESE, L. Um modelo de orientação profissional em grupo na escola pública. In: LEVENFUS, R. S. (Org.) Orientação vocacional em contextos clínicos e educativos. Porto Alegre: Artmed, 2016. p. 79-98. AMBIEL, R. M.; INÁCIO, A.; GALINA, D.; MATIAS, T. Análise das ementas de orientação profissional em cursos de psicologia: desafios atuais. Psicologia Escolar e Educacional, v. 26, 2022. 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Para falar sobre as articulações entre educação e os processos de resistência dos povos amazônicos, em sintonia com a Psicologia da Libertação de Martin Baró, faremos uma rápida contextualização que traga elementos importantes para uma análise da realidade, mas que também aponte alternativas a ela: “A libertação é, por princípio, universalista, por que não concebe a possibilidade de uma liberdade individual em uma sociedade de opressão” (Lacerda 23 Trabalho encomendado pelo Grupo de Trabalho 03 - GT03 – Movimentos sociais, sujeitos e processos educativos para apresentação na 41ª Reunião Nacional da ANPED - “Educação e Equidade: Bases para Amar- zonizar o país” em 23/10/2024 Manaus 24 Professora da Universidade Federal do Amazonas. 25 Professora da Universidade Federal de Brasília 108 Júnior e Guzzo, 2011 p. 18). Entendemos que é necessário superar o passado escravista e o epistemicídio – processo de exclusão e silenciamento de formas tradicionais e não acadêmicas de saber, para avançar nas políticas de educação na Amazônia. A universidade pode contribuir para a produção de subjetividades que rompam com a lógica colonial estabelecida e reconheçam o poder de agência dos que insurgem, lutam e resistem defendendo o viver, o habitar territórios amazônicos, o inventar novas perguntas e assim reafirmam existências dissidentes. Com essas perspectivas sobre o contexto amazônico e sua complexidade em termos geopolíticos, discute-se neste trabalho o acesso à educação superior e a importância das insurgências dos povos amazônidas nas lutas por direitos. Este trabalho está organizado em três seções, além desta introdução e das considerações finais. Na primeira seção é apresentado um panorama geral da evolução do pensamento geopolítico brasileiro sobre a Amazônia e discutida a relação entre os modelos de desenvolvimento, desigualdades sociais, políticas públicas e o ensino superior na Amazônia. Na segunda seção discute-se as estratégias de resistência e incidência política dos movimentos sociais amazônicos na luta por uma educação que considere as dimensões socioculturais, o reconhecimento das culturas e as formas de viver dos povos amazônicos. Na terceira seção são analisadas as políticas de formação científica e perspectivas para que as universidades na Amazônia se convertam em universidades Amazônidas. Pensamento geopolítico sobre a Amazônia, políticas públicas e educação A Amazônia desperta interesse mundial e tem sido discutida a partir de várias perspectivas e a geopolítica, disciplina que estuda as relações entre poder e espaço geográfico, tem sido muito utilizada explicar os fundamentos das políticas aplicadas à região. Becker (2005) afirma que até a década de 80 prevalecia o modelo de economia de fronteira conforme definição proposta por Kenneth Boulding (1966). Neste modelo, o crescimento econômico é visto como linear, infinito e mantido pela incorporação de terras e recursos naturais infinitos. 109 A economia de fronteira sofreu pressão na segunda metade do Sec XX quando se passou a defender um uso não predatório dos recursos naturais e se volta o olhar para o saber das populações tradicionais da Amazônia que possuem conhecimento secular de como lidar com o trópico úmido (Becker, 2005). Entretanto, esse interesse sobre os saberes tradicionais surge na mesma perspectiva predatória, só que agora o discurso predominante passa a ser o do desenvolvimento sustentável. Os efeitos das mudanças climáticas cada vez mais intensos fazem reverberar a defesa da proteção ao bioma Amazônia embora ainda não tenha se alcançado uma proteção suficientepara barrar as ações predatórias. Os ciclos naturais de seca e cheia com intervalos cada vez mais curtos e efeitos cada vez mais intensos e extremos geram enormes prejuízos à população local. Denúncias de queimadas e desmatamento estão presentes constantemente nos noticiários sobre a Amazônia. O contexto geral de ataques aos territórios, lideranças, ativistas e comunidades indígenas intensificado nos últimos cinco anos está relacionado a uma série de medidas tomadas pelos poderes executivo e legislativo, que favoreceram a exploração e a invasão das terras indígenas e promoveram o desmonte das políticas de proteção constitucional dos povos indígenas e podem ser constatados no crescimento dos garimpos ilegais, assassinato de indígenas e mortes por causas evitáveis. Pesquisas realizadas no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Mataveli et al, 2023) e movimento indígena Yanomami (Hutukara Associação Yanomami; Associação Wanasseduume Ye’kwana, 2022) apontam crescimento de 1.217% dos garimpos ilegais em um período de 35 anos, 95% estão localizados em terras indígenas Kaiapó, Munduruku e Yanomami e 90% estão na Amazônia Legal. Os garimpos, a pesca e caça ilegais, as invasões às terras indígenas, a desassistência pelas políticas públicas são sintoma do genocídio dos povos indígenas. De acordo com o relatório do Conselho Indigenista Missionário CIMI (2022), em 2021, 176 indígenas foram assassinados no país. Esse número é subestimado porque não foram computadas as mortes de indígenas residentes nas cidades. Quase metade desses assassinatos ocorreram na Amazônia, sendo o Amazonas, o estado que ocupa o primeiro lugar em número de assassinatos (38), seguido pelo Mato Grosso do Sul (35). O assassinato do Jornalista Dom Phillips e do 110 Indigenista Bruno Pereira ganhou repercussão internacional e alguma atenção para as tensões existentes no Vale do Javari que exigem ação coordenada com os países vizinhos para o seu enfrentamento demonstrando que há muito por fazer. Tanto nas narrativas sustentadas por preocupações com a segurança nacional quanto na defesa do uso sustentável da floresta, os modelos de desenvolvimento adotado pelo país para a região amazônica, excluem as populações locais dos espaços deliberativos e do foco de preocupação. No modelo da economia de fronteira a prioridade era o Estado e no modelo sustentável disputa-se a influência no processo de tomada de decisão do Estado, exercendo-se o que Becker (2005) chama de coerção velada. Um exemplo dessa coerção é a relação que as indústrias estrangeiras instaladas no Polo Industrial de Manaus estabelecem com o governo local quando barganham a permanência na Zona Franca em troca de incentivos fiscais e oferta de empregos. A mercantilização da natureza avançou sob o discurso da sustentabilidade com a criação de mercados fictícios que geram mercados reais, com é o caso do mercado do carbono. Aqui cabe destacar que os avanços tecnológicos e ampliação das possibilidades de deslocamento e comunicação na Amazônia geraram processos de transnacionalização tanto no sistema financeiro e disputa de poder entre as grandes potências mundiais, quanto nos movimentos sociais. São vários agentes sociais, instituições, corporações, organizações religiosas e movimentos sociais com suas próprias territorialidades e geopolíticas que desenham uma situação mundial complexa (Becker, 2005). Na Amazônia todos esses elementos estão presentes e é a partir deles que podemos compreender as desigualdades sociais presentes na região. Torres, Silva e Ferreira (2023) lembram que não podemos perder de vista o sofrimento ético, político e econômico vivenciado na pandemia causada pelo COVID-19 intensificado por imensas desigualdades que em conjunto com a política de morte transformou o Amazonas em um campo experimental que normalizou o uso de medicamentos e tratamentos não científicos promovendo extermínio, em que indígenas e quilombolas foram os mais afetados. Esse conjunto de iniquidades nos lembram que precisamos superar o que Álvaro Maia afirmou na década de 40, ao se referir ao modo de vida dos ribeirinhos "essa gente (...) vive sem esmorecer e cresce sem gemer. ( ... ) Aqui não há política, não há remédios, não há professores, não há médicos" (Silva, 2018). 111 A desigualdade social sustenta a produção de disparidades entre a Amazônia e o restante do país. Um indicador importante nesta análise é a taxa de informalidade no mercado de trabalho. A informalidade esta diretamente ligada à vulnerabilidade social por gerar instabilidade de renda, falta de assistência em caso de adoecimento ou desemprego. De acordo com o IBGE (2023), o Pará tem a pior taxa de informalidade no mercado de trabalho do país, um pouco mais de 60% dos trabalhadores e trabalhadoras não têm carteira assinada e não tem garantidos os seus direitos básicos. Nos demais estados da região a informalidade é superior a 50% e a maioria dos informais são mulheres e pessoas pretas e pardas. Em contextos de informalidade no mercado de trabalho, a população mais vulnerável sofre com as limitações no atendimento à saúde, acesso à educação, moradia de qualidade. A Pandemia estampou essa realidade em Manaus quando a falta de acesso a serviços de saúde pública, trabalho e renda tornaram mais drásticos os impactos do novo coronavírus (Belforte et al, 2020). As secretarias de educação não consideraram os impactos da pandemia na vida das pessoas, os esforços centraram-se em manter a transmissão de conteúdo desconsiderando a importância da mediação pedagógica, sem diálogo com os e as profissionais da educação ou a comunidade escolar. Manaus foi a cidade que primeiro retornou à presencialidade logo após a primeira onda (Silva e Silva, 2021). Lira, Silva e Pinto (2009) ao analisarem o desenvolvimento da Amazônia no final do século XX e início do século XXI, demonstram que “a evolução econômica regional decorreu de um modelo desenvolvimentista desequilibrado em termos espaciais e setoriais, e que por conta disto o desenvolvimento atual se mantém heterogêneo e desigual no espaço intra- regional, com a coexistência de eixos dinâmicos de desenvolvimento e áreas sem perspectivas de desenvolvimento na Amazônia” (p.153). Em 2020 ficou em 5º lugar no ranking de municípios brasileiros com maior PIB (91 bilhões) concentrando quase 80% do PIB do Estado do Amazonas. A cidade em segundo lugar é Itacoatiara com um PIB de um poucos mais que 2 bilhões. A “profusão de discursos que associam sustentabilidade e Amazônia, produzidos em universos conceituais diversos, que alicerçam um processo de modernização que desconsidera a organização de grupos sociais, a presença de etnias e de saberes tradicionais ancorados em outras visões de mundo” (Castro, 2012, p. 10). Esses processos têm levado à oferta de políticas 112 públicas frágeis e pouco universais, que não chegam a todos os Amazônidas, como é o caso da educação. O acesso educacional, na educação infantil e no ensino médio em comparação ao restante do país, ainda enfrenta dificuldades na Amazônia. No ensino médio a taxa de escolarização bruta está 10 pontos percentuais abaixo da média nacional e apresenta uma alta distorção idade-série, 31,2% dos alunos têm idade acima da esperada para o ano em que estão matriculados e as taxas de evasão escolar são altas (10%). No ensino superior, além da baixa tendência de cursar esta etapa, com uma taxa de escolarização de 31,7%, os jovens da região amazônica têm baixa probabilidade de se formar (Cruz e Portella, 2021). São muitos obstáculos relacionados à oferta, permanência e terminalidade. É necessário ampliar a oferta, a qualidade e construir diálogos interculturais. Esses dados reforçam a necessidade de adoção de políticas que respondam aos desafios produzidos pelas desigualdades presentes nas diversas Amazônias e pelocompromisso com as demandas por uma educação socialmente referenciada que contribua para o fortalecimento étnico cultural. É com a construção de modelos de desenvolvimento que coloquem os povos amazônicos na centralidade do debate que poderemos avançar no cuidado com o meio ambiente e com as outras formas de vida. Todo esse cenário de violações de direitos dos povos amazônicos poderia ser muito maior se não fossem as estratégias de resistência empreendidas desde a colonização, como veremos na próxima seção. Estratégias de resistência e incidência política dos povos amazônicos A Amazônia nem sempre pertenceu ao Brasil. O estado do Grão-Pará e Maranhão, território onde hoje estão os estados do Ceará, Piauí, Maranhão, Pará e Amazonas, foi criado em 1621, como independente do Brasil estando diretamente subordinado a Portugal: “por mais de 200 anos, a Amazônia permaneceu separada do Brasil (...) Isso quer dizer que a Amazônia, enquanto espaço luso-colonial, desenvolveu dinâmicas próprias, desde a economia ao funcionamento das instituições” (Sampaio, 2020). 113 A construção do Brasil enquanto nação se inicia somente no Século XIX, portanto foram mais de 200 anos para que esse sentido fosse ganhando força. Ricci (2007) associada esse processo com o fato de o povo da Amazônia ter se tornou quase invisível fora da região Norte. Com a incorporação da Amazônia ao Brasil a ideia de integração se associa à narrativa de que há um vazio populacional na Amazônia, como se aqui fosse uma terra sem gente, que deveria ser ocupada, desenvolvida de fora para dentro, por grandes projetos de mineração, agricultura, exploração madeireira. Se estamos diante de um cenário complexo e tremendamente desigual, a Amazônia também é território de muitas lutas de movimentos sociais. Conhecemos muito pouco a história das lutas populares na Amazônia, “a história local e seus agentes quase foram esquecidos. É preciso mudar este quadro, enfatizando a presença constante de um povo local” (Ricci, 2007, p. 30). As resistências e lutas por respeito e dignidade foram imensas. A de maior envergadura foi a Cabanagem (1835 e 1840) no Grão-Pará, mas a Balaiada (1838 - 1841) no Maranhão também é importante marco de resistência. Cabanagem e Balaiada têm em comum o fato de serem revoltas lideradas por populares, negros, indígenas, caboclos. Na Cabanagem, os rebeldes chegaram ao poder e nele permaneceram durante um ano e meio, em Belém do Pará. Félix Malcher, Francisco Vinagre e Eduardo Angelim presidiram o movimento cabono e a partir de Belém a Cabanagem se alastrou pela Amazônia até as fronteiras com o Peru, Colômbia e Venezuela (Ricci, 2007). “A Cabanagem ensina que a rebeldia é essência dos povos desse território, e a história prova isso, mas é preciso entender a região em toda sua complexidade, das tantas comunidades rurais indígenas, negras e outras” (Tavares, 29 de janeiro de 2021). Sobre o aparecimento e multiplicação dos movimentos sociais na Amazônia, Milhomens e Gohn (2018) atribuem à presença do governo civil-militar a partir do golpe dos anos 1960. Esse governo defendia que a Amazônia era fundamental para a integração e o desenvolvimento econômico do Brasil. Esses projetos desenvolvimentistas mudaram radicalmente a dinâmica da vida local e “agravaram substancialmente as contradições existentes na região” (p. 245) impulsionando a construção de resistências e movimentos sociais na Amazônia. 114 O segmento da Igreja Católica que optou pela Teologia da Libertação a partir dos anos 60 foi muito importante para criar espaços-tempos que possibilitaram a organização popular com a criação da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Conselho Missionário Indigenista (Cimi). Essas comissões foram importantes, dentre outros fatores para a formação de Comunidades Eclesiásticas de Base (CEBs), comunidades reunidas geralmente em função da proximidade territorial e necessidades comuns. Em sintonia com esse movimento progressista, nos anos 70, grupos políticos de esquerda impulsionaram o surgimento de resistência armada, como a Guerrilha do Araguaia. Nesse contexto surgem também um “movimento pan-indígena de organização pluriétnica em defesa de direitos” (Ortolan Matos, 2006, p. 34 citado por Milhomens e Gohn, 2018, p. 255) que levaram à organização de diversas organizações indígenas como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). Milhomens e Gohn (2018) identificam seis diferentes grupos de movimentos sociais: (1) Movimento Católico Progressista; (2) Movimento(s) e Organizações Indígenas; (3) Organizações Político-Partidárias de Esquerda; (4) Organizações e Entidades Não Governamentais (ONGs); (5) Movimento de Luta por Direitos; (6) Movimentos Sociais no Contexto de Grandes Projetos. Nesse contexto, o Movimento da Educação do Campo afirmou-se como espaço de resistência e construção de novas formas de sociabilidades, semeando a re-existência. No bojo desse movimento defende-se a Amazônia como território de direitos que deve protejer as várias formas de vida. A concepção de desenvolvimento no bojo dessa atuação é de “desenvolvimento autônomo, soberano e que enfrente as desigualdades de renda e o desmonte dos direitos humanos e sociais” (Hage e Corrêa, 2019). A participação das mulheres nessas lutas por respeito, igualdade e políticas públicas na Amazônia merece destaque. São mulheres que trazem, na sua ancestralidade, a luta pela floresta, a luta pela preservação da vida, a luta por afirmação de identidades. Os movimentos de mulheres nos convocam a pensar outros modelos econômicos que respeitem os povos da região Norte. Grandes obras na região amazônica, como as hidrelétricas, provocam um “des- envolver” afastando as populações tradicionais das suas relações particulares com a natureza. 115 Nesse contexto é importante colocar no debate a construção de um feminismo amazônida. Uma vez que o feminismo brasileiro do sul e sudeste do país não compreende a complexidade dos problemas existentes na realidade amazônica e as múltiplas opressões vivenciadas pelas mulheres negras, quilombolas, indígenas e das periferias dos centros urbanos da Amazônia, por não considerar o debate sobre territorialidade e regionalidade, interrelacionados ao afeto, ancestralidade e subsistência. Observar as diferenças regionais e as lutas pelo território para a sobrevivência de mulheres negras urbanas, ribeirinhas, quilombolas e as vivências e diferenças das mulheres indígenas é imprescindível para se construir uma teoria feminista que também seja amazônida. Fala-se hoje de diversos feminismos, dada a diversidade de composições e condições sociais femininas. Uma das principais pautas da luta por direitos das mulheres na Amazônia tem sido a defesa dos territórios e a reinvindicação em prol de acesso a educação. A universidade precisa se posicionar política, ética e epistemologicamente a favor da equidade e justiça social. Respeitar e valorizar as diferenças, combater as desigualdades, dar voz aos povos amazônicos é um começo. Podemos aprender com os povos indígenas os caminhos de promoção do bem viver atuando em prol da busca coletiva de soluções e do respeito à autonomia dos povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, trabalhadores do campo, populações periféricas dos grandes centros urbanos da Amazônia. A universidade amazônida precisa se aliar aos movimentos sociais e reconhecer as insurgências como possibilidade de produção da vida e de defesa do direito à diferença. De universidades na Amazônia a universidades Amazônidas Foi durante os tempos áureos da borracha que as primeiras universidades na Amazônia foram criadas. Em 1902 a Faculdade Livre de Direito do Estado do Pará e em 1909 a Escola Universitária Livre de Manáos em 1909, considerada“a primeira universidade fundada e instalada na antiga América portuguesa” (Tuffani, 2009, p. 65). A partir daí, foram criados cursos superiores nos dois estados. Alguns desses cursos foram descontinuados e outros, mais 116 tarde, deram origem à Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e à Universidade Federal do Pará (UFPA) no final dos anos 50. Nos demais estados da Região Norte do Brasil, a implantação das universidades federais ocorreu somente a partir dos anos 1970: Universidade Federal do Acre – UFAC (1974); Núcleos da UFPA no Amapá e em Rondônia (1970); Universidade Federal de Rondônia – UNIR (1982); Universidade Federal do Amapá – UNIFAP (1990); Universidade Federal de Roraima – UFRR (1985); Universidade Federal do Tocantins – U FT (2000). O Pará conta ainda com a Universidade Federal Rural da Amazônia – UFRA (2002), a Universidade Federal do Oeste do Pará – UFOPA (2009), a Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará – Unifesspa (2013), e Universidade Federal do Norte do Tocantins – UFNT (2019). Novas universidades federais estão sendo reivindicadas. Essas universidades, ainda em número pequeno se considerarmos que a Amazônia ocupa mais da metade do território brasileiro, enfrentam desafios para consolidação e expansão da oferta de ensino superior na região para mais jovens tenham acesso a oportunidades de formação e atuação profissional. Ainda não há políticas que corrijam as distorções que impõe obstáculos às universidades da região. Reitores reunidos na ANDIFES Norte (2023) sistematizaram as principais reinvindicações das universidades em busca de consolidação e ampliação: o orçamento das Universidades da Amazônia deve considerar o custo diferenciado por estudante, tendo em vista as características, condições e distâncias da região; há defasagens de funções gratificadas visando suprir as necessidades atuais e de expansão; ampliar os recursos de pesquisa e extensão, considerando a importância da região na política nacional e internacional; recuperar os investimentos do PNAES para a garantia da permanência dos estudantes de baixa renda; criar vagas de servidores para as universidades novíssimas e supernovas; estimular fixação de servidores docentes e Técnicos administrativos na região Amazônica; fortalecer as políticas de ações afirmativas na Amazônia; garantir a fixação do percentual de investimento de, pelo menos, 10% para as Universidades da região Amazônica em todos os editais das agências de fomento; desenvolver ações efetivas para implantação e consolidação de Programas de Pós-Graduação na Amazônia, em especial, nas regiões em que há IFES com menor densidade de PPGs; criar editais priorizando associação de universidades amazônicas com outras universidades do Brasil ou da própria Amazônia; lançar Edital de 117 Internacionalização exclusivo para a Amazônia; priorizar investimentos para integração da região com redes de conexão de internet de alta velocidade; promover ações efetivas visando o financiamento de projetos de pesquisas das Universidades da Amazônia com fundos constitucionais e instituições internacionais; garantir investimentos para a manutenção das ações dos serviços de saúde, democratizando o acesso por meio da saúde digital. Essas reinvindicações podem contribuir para superar a baixa taxa de escolarização universitária (19,1%), garantir uma oferta satisfatória de vagas, ampliar a diversidade de cursos oferecidos, criar políticas de permanência que ampliem a quantidades de concluintes que ainda é mais baixa (1/3) que a média nacional. Mais da metade dos estudantes tem mais de 24 anos, portanto fora da faixa etária considerada adequada e quase metade das matrículas são em cursos EAD. Há programas de pós-graduação em educação em todos os estados da Amazônia, são 15 cursos de mestrado e cinco de doutorado cadastrados na Plataforma Sucupira (2022). Os primeiros programas foram o da UFAM, implantado em 1986 e o da UFPA, em 1993. A oferta de vagas na pós-graduação precisa ser ampliada com investimentos políticas de incentivo à produção científicas e pesquisas. Pesquisas continuamente tentam traçar a amplitude da diversidade biológica da Amazônia, mesmo assim, há consenso de que pouco se conhece desta inigualável biodiversidade. Em relação a sociodiversidade a escassez de estudo é bem maior, dada a pouca disponibilidade de financiamento de pesquisas nas ciências sociais e humanas. As cidades amazônicas, as políticas territoriais, seus povos tradicionais e modos de vida constituem processos sobre os quais os cientistas devem se debruçar. O processo de ocupação da amazônica envolveu fluxos migratórios de outros países e outras regiões do país construindo uma diversidade de grupos populacionais, conhecimentos e práticas culturais. São muitas Amazônias dentro da Amazônia. Os povos indígenas sobreviventes a um longo processo de extinção em curso há mais de 500 anos, ainda representam uma parcela importante da população amazônica. Mais de 180 etnias vivem na Amazônia, além dos povos isolados ou de recente contato representando segundo o último censo do IBGE (2022) quase metade da população indígena do país. Parte desses povos é falante de suas línguas nativas e tem o português como segunda língua. A região Norte tem 118 31,3% da população quilombola residindo em territórios delimitados, a maior proporção entre as cinco grandes regiões. São 52.012 pessoas, ou 31,1% do total de quilombolas que vivem em territórios delimitados formalmente no país. Tanto os territórios indígenas quanto os Quilombos são escudos de proteção, conservando a floresta, impedindo o avanço do desmatamento e a entrada de invasores. Diante desse cenário como construir universidades amazônidas? Antes de tudo é preciso reconhecer a autodeterminação dos povos e comunidades tradicionais amazônicos com um direito. A oferta de uma formação em nível graduação e pós-graduação que contribua para reverter o processo de colonização de conhecimento a que foram historicamente submetidos. Movimentos indígenas e quilombola, têm reivindicado a garantia do direito à educação e muito mais. Mais respeito, mais horizontalidade, mais diálogo intercultural com uma educação que atue pelo fortalecimento étnico cultural desses povos. As políticas de formação científica devem abrir espaço para a compreensão de sociedades complexas, como a amazônica. A formação de nível superior deve considerar tanto o conhecimento científico quanto os saberes e conhecimentos das populações indígenas e comunidades tradicionais amazônicas. Se a ciência tem o papel de explicar melhor o mundo que nos cerca, o desafio de educar a população e formar recursos humanos altamente qualificados deve considerar o contexto local para consolidar uma política de ciência e educação. Considerações Finais: apontamentos para uma educação orientada para o diálogo intercultural Diante desse cenário, como construir universidades amazônidas? Antes de tudo é preciso reconhecer a autodeterminação dos povos e comunidades tradicionais amazônicos como um direito. A oferta de uma formação em nível graduação e pós-graduação que contribua para reverter o processo de colonização de conhecimento a que foram historicamente submetidos. Movimentos indígenas e quilombola, têm reivindicado a garantia do direito à educação e muito mais. Mais respeito, mais horizontalidade, mais diálogo intercultural com uma educação que atue pelo fortalecimento étnico cultural desses povos. 119 As políticas de formação científica devem abrir espaço para a compreensão de sociedades complexas, como a amazônica. A formação de nível superior deve considerar tanto o conhecimento científico quanto os saberes e conhecimentos das populações indígenas e comunidades tradicionais amazônicas. Se a ciência tem o papel de explicar melhor o mundo quenos cerca, o desafio de educar a população e formar recursos humanos altamente qualificados deve considerar o contexto local para consolidar uma política de ciência e educação. É importante que se considere o lugar das Américas, especialmente a América do Sul, no processo de surgimento e consolidação de uma nova organização do mundo. Segundo Quijano (2005), a instauração histórica da colonização permitiu a convergência de dois processos: o colonialismo e o capitalismo, que se conectaram e se reforçaram mutuamente. A colonização criou a codificação da diferença entre dominadores e dominados em termos de raça, e articulou todas as formas de controle do trabalho em torno do mercado mundial, já que com a descoberta das Américas, o capitalismo se tornou mundial. Isso fez com que a distribuição do trabalho e a raça se identificassem mutuamente, isto é, as “raças inferiores” não deveriam ser destinadas ao trabalho assalariado, mas ao trabalho escravo. A identidade geo-cultural das Américas formou-se, assim, constituindo-se como base para a formação da identidade geo-cultural da Europa, como mutuamente constituídas: o mundo moderno, civilizado, e o mundo colonial, “não moderno”. Nesse contexto de colonização material, surge a noção de “eurocentrismo”, a dimensão cognitiva, ou colonização do saber, calcada na colonização do ser, marcada pela codificação em termos de raça. O eurocentrismo, como perspectiva hegemônica, caracteriza-se como “colonização do poder” , fundamentada na ideia de história como trajetória evolutiva, num movimento desde as colônias, não civilizadas, até a etapa civilizatória mais evoluída, a Europa, processo que tem como eixo central a raça. Esse processo histórico marcado pela relação entre Europa e países colonizados por ela, não se restringiu à época da colonização propriamente dita, estendendo-se desde o início do colonialismo/modernidade/capitalismo, ao longo da história, até os dias de hoje, em que temos vivido, segundo Quijano (2005) a colonialidade do poder, do saber e do ser. Nesse sentido, nossas relações com continuam pautadas pelo racismo epistêmico, político e psicológico. 120 A colonialidade, entretanto, caracteriza-se, na atualidade, por estar presente, consciente ou inconscientemente, imiscuída em nossas percepções, ideias, vivências, ações e relações com os outros, no cotidiano, e por estruturar nossas identidades, instituições, produções simbólicas ou materiais. Dessa forma, estamos comprometidos com a condição histórico- cultural herdada do colonialismo e cultivada na contemporaneidade. Penna (2014), em seu artigo “Paulo Freire no pensamento decolonial: um olhar pedagógico sobre a teoria pós-colonial latino-americana”, aponta convergências entre as ideias de Paulo Freire e o pensamento decolonial de Frantz Fanon, Aimé Cesaire, Aníbal Quijano, Enrique Dussel, Walter Mignolo. Sustenta a autora Camila Penna que, assim como em “Pedagogia do Oprimido” (1968) Freire propõe formas de desconstrução do mito da estrutura opressora (relação oprimido/opressor), os autores da perspectiva decolonial apresentam estratégias para a desconstrução do mito do eurocentrismo. As estratégias objetivavam desconstruir os mitos da estrutura opressiva e do eurocentrismo e reverter, assim, a colonização (hoje colonialidade) - do poder, do saber e do ser. As estratégias propostas tanto na obra de Freire como nas dos autores decoloniais citados são: revolução; objetivação da mitologia opressora ou eurocêntrica; deslocamento do lugar de fala; e valorização do conhecimento fronteiriço. Aqui, consideramos importante, para repensarmos a Universidades Amazônicas como Universidades Amazônidas, olharmos para a Educação Superior como parte do sistema educacional brasileiro desde a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, que antecede o Ensino Universitário. Parece paradoxal que tenhamos no Brasil níveis de precariedade tão grandes em relação ao direito à educação, às condições de permanência dos estudantes até a conclusão do eu curso e de modo geral no que diz respeito à educação de sua população, em um país que tem a honra de ter sido berço do grande pensador e educador Paulo Freire (1921-1997), cujas ideias e práticas, desenvolvidas a partir dos anos 1950, foram responsáveis por mudanças na educação de pessoas e comunidades vivendo em condições de desigualdades sócioeconômica e cultural. Desenvolveu um processo de alfabetização de adultos e práxis de educação cidadã e emancipação política. Ainda que tenha sido exilado no Chile pela Ditadura Civil-Militar (1964- 1985), transformou seu exílio em oportunidade de trocar conhecimento e experiência com 121 intelectuais revolucionários de toda a América Latina, consolidando suas ideias e práticas e escrevendo livros que espalharam seu pensamento e propostas pedagógicas pela América Latina, América Central e do Norte, África, Europa e Ásia. Seu legado faz parte de nossa cultura e vem transformando historicamente a prática educativa em salas de aula, em contextos educacionais alternativos nos movimentos sociais, em comunidades e em práticas de formação de educadores. Propõe o desenvolvimento da prática democrática em ambientes educacionais e uma relação professor-alunos horizontalizada, com uma pedagogia contextualizada, dialógica, que valorize a pergunta, a tolerância, a autonomia da/o aluna/o. Critica o ensino tradicional e a “Educação Bancária”, em que o professor, hierarquicamente superior ao aluno, é detentor do conhecimento, aquele que sabe, e o aluno, aquele que não sabe. O professor ‘deposita’ o conhecimento no aluno e este o recebe passivamente. Ensinar é depositar seu conhecimento no outro: daí se origina a expressão educação ‘bancária’, em que o professor é o sujeito que conhece e deposita o conhecimento nos alunos, como se eles fossem ‘vasilhas’, objetos que contêm, memorizam o que foi depositado neles. Assim, os estudantes são alienados e buscam se adaptar, ajustarem-se às determinações dos opressores. Este tipo de educação nega a eles, enquanto humanos, a sua vocação ontológica e histórica de se humanizarem. Em contraposição, Paulo Freire propõe a “Educação Libertadora”, ou “Educação Emancipadora”, que é forjada ‘com’ o estudante e não ‘para’ ele, ‘com’ o coletivo e não ‘para’ o coletivo, ‘com’ os povos e não ‘para’ os povos. Esse processo de ‘conhecer com’, em colaboração, consiste em uma luta constante de recuperação da humanidade, dos estudantes e de sua condição de sujeitos ativos, criadores. Este tipo de educação “servindo à libertação, funda-se na criatividade e estimula a reflexão e a ação verdadeiras dos homens sobre a realidade, responde à sua vocação, como seres que não podem autenticar-se fora da busca e da transformação criadora.”(Freire, 2005, p. 72) Em seu livro “Pedagogia do Oprimido”, escrito no Chile em 1968 e publicado em Inglês em 1970, e no Brasil em 1974, Paulo Freire analisa a relação entre o opressor e o oprimido. Lança mão da analogia hegeliana do senhor e do escravo para demonstrar como a classe opressora e a classe oprimida se constituem mutuamente, e como a permanência de uma 122 depende da outra. Segundo o autor, a existência de uma realidade opressora implica a existência dos que oprimem e dos que são oprimidos, numa relação de contradição. Isso faz com que o oprimido desenvolva uma “consciência colonizada” (Memmi apud Freire,2005, p. 56) que o faz, paradoxalmente, sentir repulsa e admiração pelo opressor. Repulsa por ele o submeter a humilhações e explorá-lo no trabalho, e admiração, por julgá-lo superior e por almejar seu modo de vida, tendo o ideal de chegar a ser como o patrão. Em “Pedagogia do Oprimido”, Paulo Freire não apenas faz uma denúncia do regime de exploração do trabalhador no capitalismo, da estrutura opressora da relação opressor/oprimido,mas, especialmente, da superação dessa relação, pela descolonização da consciência ou conscientização - da libertação do humano, que se torna livre para prosseguir em seu processo de humanização criadora. No caso do colonialismo, temos as teorias decoloniais, que sustentam que a existência da colonizacão implica na existência do país/da pessoa que é colonizado/a e daquele/a que é colonizador/a. Uma relação entre dois polos opostos e dependentes, em uma relação de contradição: o colonizado contém características do colonizador, que são internalizadas no primeiro, ao longo do processo de educação e socialização no contexto da estrutura colonizadora. Quijano (2005) sustenta que a colonialidade cria um novo padrão de poder pautado na ideia de “raça”, forjada com a ‘descoberta’ das Américas, que classifica a população mundial. Trata-se da “colonialidade do poder.” Entretanto, o colonialismo (e a colonialidade que decorre dele), é visto como a outra face da modernidade, já que, sem o processo de exploração das colônias, não seria possível a construção ideológica do outro, do colonizado, como atrasado, selvagem, primitivo (Dussel, 1993), em oposição ao qual a Europa poderia se classificar como moderna, civilizada, evoluída. A partir da crítica dos autores decoloniais ao processo histórico do colonialismo/capitalismo/modernidade, podemos compreender que a colonialidade se alimenta de epistemologias eurocêntricas, forjadas no norte, a partir da sustentação de que o movimento de progresso se constitui desde regiões e povos selvagens, primitivos, incivilizados, em direção à Europa, região considerada o pico da civilização ocidental. As Américas e a África miram- se no modo de vida europeu, no ser humano de raça branca educada, pretendendo se identificar 123 com o colonizador que as coloniza, sob o pretexto de civilizarem, colocando-as em um lugar de inferioridade e exploração. Considerando as reflexões críticas construídas pelo pensamento decolonial e a visão freireana da estrutura opressora presente em nossas relações sociais como um dos países do sul, como podemos olhar criticamente a questão de nossas universidades amazônicas, ampliando assim nossa denúncia às condições da educação indígena e quilombola? Além disso e, principalmente, como podemos oferecer um anúncio que possa superar a condição de universidades europeizadas, que vem assumindo a superioridade e a homogeneização epistêmica calcada no pensamento moderno eurocêntrico, elaborado e assumido por pessoas que habitam o norte, baseado na sua experiência como superiores e vencedoras no embate colonizador? Certamente, nosso anúncio deverá ser construído com os não brancos do Sul, com os habitantes e sujeitos sociais da Amazônia: o anúncio de universidades nascidas das experiências de resistência à opressão, ao imobilismo, ao silenciamento; nascidas do embate social amplo contra a visão de mundo que nos reconhece como inferiores, dependentes, e nos incite a falar nossa palavra, a exibir nossa arte, a cultivar e divulgar nossos sonhos, a exercitar nosso diálogo – nós, que partilhamos com indígenas, negros, quilombolas, o compromisso de construir processos interculturais, em que nos unamos em processos de resgate de nossas línguas, de nossas histórias, de nossos fracassos, de nossos lugares, e que desenvolvamos a capacidade de escuta mútua e possamos nos reconhecer como nosotros! Dois conceitos que invocam saberes ancestrais indígenas e africanos podem inspirar o diálogo intercultural no campo educacional: o Dabacuri e o Aquilombamento. O Dabacuri é um ritual indígena milenar na região do Alto Rio Negro que celebra a fartura e a união entre diferentes povos. Durante a cerimônia, ocorrem trocas de saberes e conhecimentos que envolve cantos, música, dança, bebida, alimentos, histórias, ornamentos, ritos de passagens, momentos de aliança política social e arranjos matrimoniais. Nestas ocasiões, os oferecedores se dirigem à aldeia do grupo que será ofertado munidos de grandes quantidades de peixes, frutas ou produtos artesanais enquanto os anfitriões os recebem com caxiri (licor extraído de mandioca fermentada). O que se espera é que a oferta seja posteriormente retribuída, fortalecendo as relações de reciprocidade e aliança. Já "Aquilombamento" implica no ato de assumir uma 124 posição de resistência contra-hegemônica a partir de um corpo político, o corpo negro. Aquilombar é buscar estar em um coletivo de lutas, de trocas de afetos, de afirmação de identidades. O combate ao racismo epistêmico gerado por matrizes curriculares e práticas de pesquisa que não contemplam saberes negros, indígenas e a construção de políticas afirmativas pode ser estratégia indutora de pesquisas, ensino e extensão que considerem as cosmopercepções negras e cosmovisões indígenas e suas ancestralidades. Para tal, propõe-se enegrecer e aldear a pós-graduação, ou seja pensar junto e como comunidade, ensinar, aprender e pesquisar como vivências e encontros com diversidade que impliquem em caminhar na construção de conhecimentos científicos com estudantes negras, negros, negres e indígenas. Compreende-se que a prática da pesquisa implica em conhecer e produzir conhecimento junto, e aquilombando-se, dessa forma constrói-se movimentos férteis de produção de conhecimento que dialogam uma perspectiva afro-indígena assumindo-se uma posição de resistência contra-hegemônica a partir de um corpo político - corpos negros e indígenas. Uma educação e universidade Amazônida deve se inspirar na força do Dabacuri e do Aquilombamento e oferecer espaço-tempo para em diálogo com coletivo de lutas, possibilitar afirmação de identidades e pertencimento. Referências: Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes Norte). Carta de Roraima – RR. 2023. Disponível em https://www.andifes.org.br/?p=96911 Associação Yanomami; Associação Wanasseduume Ye’kwana. Yanomami. Sob Ataque: Garimpo Ilegal na Terra Indígena Yanomami e Propostas Para Combatê-lo. Disponível em: http://acervo.socioambiental.org/acervo/documentos/yanomami-sobataque-garimpo-ilegal- na-terra-indigena-yanomami-e-propostas-para acessado em 5 Junho 2022. Becker, B. K.. (2005). Geopolítica da Amazônia. Estudos Avançados, 19(53), 71–86. https://doi.org/10.1590/S0103-40142005000100005 Belforte, L. C. M., Reis, R. S. P., Paulino da Silva, G., Cavalcante, M. M. A. (2020). 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Palavras-chave:Educação Ambiental; Psicologia; Sustentabilidade. A crise ambiental contemporânea, de acordo com Tassara (2008), é caracterizada como um momento crítico de coexistência entre um velho paradigma hegemônico e um novo paradigma ainda em processo de configuração. A autora prossegue que há distintas formas válidas de conhecimento e de práticas sociais que as geram e sustentam, não hegemônicas e silenciadas, que se configuram como alternativa possível aos problemas mundiais contemporâneos. Nesse sentido, os problemas ambientais têm gerado infindáveis discussões e reflexões na busca da compreensão das causas e caminhos a serem tomados pela humanidade. O ponto de chegada nesse caminho é a sustentabilidade. Um caminho possível é a ressignificação das relações pessoa-ambiente que conta com a colaboração da Psicologia e da Educação Ambiental. Diante disso, este capítulo apresenta parte das reflexões trazidas durante a mesa redonda “Sustentabilidade e Educação Ambiental”. Abordaremos esses dois elementos, demonstraremos qual sua ligação com a crise ambiental e porque ambas são colocadas como caminho de resolução. 26Instituo Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Email: higuchi.mig@gmail.com 27Universidade Federal de Roraima (UFRR). Email: daniele.rosa@ufrr.br 28Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Email: mcalegare@ufam.edu.br mailto:daniele.rosa@ufrr.br mailto:mcalegare@ufam.edu.br 128 Sustentabilidade Apesar deste termo estar na pauta do cotidiano mundo afora, é necessário se perguntar o que se entende por sustentabilidade. Este é um conceito sistêmico que emerge no contexto da globalização e crise ambiental e aponta para a necessidade de reorientar o nosso processo civilizatório e modelo de produção e consumo vigentes (Leff, 2001). Esse conceito perpassa todas as áreas do conhecimento e, na Psicologia, o termo sustentabilidade aborda dimensões psicológicas que estão na base da conduta sustentável (Kuhnen, 2011). Para Corral-Verdugo (2010), sustentabilidade é um princípio de equilíbrio ecológico e igualdade social que requer do indivíduo a compreensão do mundo, seus problemas e possíveis soluções. O termo sustentabilidade, embora já tenha tido uma trajetória de décadas, ainda está em construção. Ao voltamos na história o termo sustentabilidade ganha seus primeiros fundamentos nos anos de 1960 e 1970. Nessa década, o modo econômico vigente da sociedade contemporânea começou a mostrar sinais de degradação ambiental, junto com a crescente queima de combustíveis fósseis advinda da industrialização. Outros problemas como o consumo exacerbado e descartes de resíduos inadequados passam a ser visíveis junto com a poluição do ar, dos rios e dos mares. Além disso, o crescimento desordenado das cidades, a má gestão hídrica, a destruição de florestas e tantos outros acontecimentos, formaram um longo cordão de preocupações que clamou por maior atenção dos ambientalistas. Nessa trajetória de alerta, em 1973, Maurice Strong propõe o termo “ecodesenvolvimento”, como uma alternativa para o crescimento e desenvolvimento considerando a demanda ecológica. Logo a seguir, na década de 1980 surge, com maior veemência, o termo “desenvolvimento sustentável” o qual problematiza de forma mais incisiva a incompatibilidade do ritmo do desenvolvimento planetário e os padrões de consumo em ação (Calegare; Silva Jr., 2011). De forma explicita, se refere ao desenvolvimento que “satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras satisfazerem suas próprias necessidades” (WCED, 1987). Apesar de inicialmente ser revolucionário,http://files.harmonywithnatureun.org/uploads/upload1415.pdf. Acesso em: 15 de fevereiro de 2024. HEGEL, G. W. F. Fenomenologia do espírito.Tradução de Paulo Meneses. Petrópolis: Vozes, 2008. HONNETH, A. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. Tradução de Luiz Repa. 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Tal negação fala da tutela e da presunção de incapacidade generalizada às pessoas com deficiência, sobretudo quando atravessadas por outras dimensões de opressão. Portanto, é necessário expandir a compreensão de interseccionalidade para além das dimensões de raça, classe e gênero, abarcando também a condição de deficiência. Nesta pesquisa, nosso objetivo é refletir, a partir de um ponto de vista interseccional, sobre qual direito à sexualidade possuem as pessoas com deficiência. Exploramos relatos iniciais de pessoas com deficiência sobre expressões de gênero e sexualidade, a fim de debater as implicações para a escola. Concluímos ser crucial que a psicologia e a educação adotem uma perspectiva interseccional que inclua a dimensão da deficiência a fim de melhor compreender a vivência de pessoas com deficiência e expressões de gênero diversas na escola. Palavras-chave: Pessoa com deficiência; escola; sexualidade; gênero; interseccionalidade. Abordar de forma crítica a sexualidade das pessoas com deficiência tem o intuito de desafiar estigmas associados às experiências e desafios enfrentados por esse público. Uma reflexão sobre como a sociedade molda as percepções da identidade e sexualidade desses sujeitos contribui para uma compreensão mais profunda das experiências dessa parcela da população, contrariando estereótipos quanto às suas relações afetivas. Além disso, não podemos ignorar a importância do olhar interseccional, que alerta para a forma como a vivência da sexualidade pela pessoa com deficiência – dentre outras – é atravessada por dimensões como raça, classe e gênero. Avançar na compreensão e na promoção de uma perspectiva mais inclusiva e justa das experiências das pessoas com deficiência em relação à sua sexualidade revela-se como uma questão de direitos humanos. A maneira como a sociedade enxerga esse tema adentra a escola e tem aí consequências para todas as pessoas envolvidas nesse espaço. Nesse sentido, o objetivo deste texto é o de analisar como normas de gênero e sexualidade impactam a educação e o desenvolvimento de pessoas com deficiência na escola, a partir de um olhar interseccional. 3 Cândida Beatriz Alves é doutora em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) e professora da Faculdade de Educação da UnB. Email: atendimento@gmai.com mailto:atendimento@gmai.com 13 CAPACITISMO E A INFANTILIZAÇÃO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA: RELAÇÕES COM A SEXUALIDADE Capacitismo é um conceito relativamente recente no Brasil, mas que se refere a um fenômeno antigo e estrutural. Ele diz respeito às atitudes, crenças, práticas sociais e estruturas institucionais que excluem e marginalizam pessoas com deficiência, com base em uma hierarquização de corpos (Mello, 2019). Trata-se de discriminação fundamentada na noção de que existem parâmetros corretos a respeito de como o corpo humano deve funcionar, física e mentalmente – a corponormatividade. Desseesse 129 termo acaba por atrair muitas críticas a respeito das premissas contidas na definição, uma vez que ainda haveria uma forte tendência econômica embutida nele. Pouco tempo depois, a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio 1992) da ONU inaugura um marco histórico da discussão sobre as problemáticas socioambientais e muitas mudanças passam a se iniciar como propostas normativas nos países signatários (https://antigo.mma.gov.br/responsabilidade- socioambiental/agenda-21/agenda-21-global.html). A partir daí o termo “sustentabilidade” ganha espaço tentando se liberar da agenda desenvolvimentista, mas mantendo a economia como dimensão do mundo atual. Como reflexo dessa proposição surge a Agenda 21 que propõe diretrizes conciliando de forma objetiva o tripé: proteção ambiental, justiça social e eficiência econômica. Mais adiante, em 2008, ainda pressionado pelos aspectos econômicos e industriais, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA, emplaca o termo “Economia Verde” como significativo eixo para a preservação ambiental, a erradicação da pobreza e das desigualdades. Recentemente, em 2015, a campanha da ONU lança mais uma iniciativa para promover mudanças positivas para o futuro intitulada “Transformando Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável”. A Agenda 2030 consiste em uma Declaração, 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e 169 metas, uma seção sobre meios de implementação e de parcerias globais e um arcabouço para o acompanhamento e revisão. Três eixos governam a proposta, onde esta clama por ser UNIVERSAL – INTEGRADA – INCLUSIVA (https://brasil.un.org/sites/default/files/2020-09/agenda2030-pt-br.pdf). Observa-se que a importância dos ODS da ONU está na criação e fortalecimento de uma cultura de sustentabilidade e responsabilidade na humanidade, nos governos e nas empresas, mas sobretudo nas pessoas. Já vemos inúmeras iniciativas sendo discutidas e implementadas, mesmo que os resultados ainda estejam aquém do necessário. Por isso, ao falarmos em COLETIVOS, é necessário ter um foco no INDIVÍDUO, como unidade representativa e singular, cuja adição representa um complexo comportamental. Nesse sentido, é um destaque para as ciências humanas e em especial para a Psicologia. Esse aspecto equivale à introdução de um compromisso inovador que requer localização e territorialização das metas (contextualização em nível de municípios). https://antigo.mma.gov.br/responsabilidade-socioambiental/agenda-21/agenda-21-global.html https://antigo.mma.gov.br/responsabilidade-socioambiental/agenda-21/agenda-21-global.html https://brasil.un.org/sites/default/files/2020-09/agenda2030-pt-br.pdf 130 Em cada um dos 17 objetivos em suas 169 metas está a PESSOA COMO CÉLULA FORMATIVA dessa desejada responsabilidade coletiva. Resta à Psicologia adentrar e fortalecer, com seu saber e atuação, a melhor forma de conseguirmos alcançar tais objetivos lá na base dessa cadeia, sempre aderindo à INTERDISCIPLINARIDADE e/ou TRANSDICIPLINARIDADE como um aspecto importante quando considerando questões socioambientais (Calegare; Silva Jr., 2012). Apesar de todas essas iniciativas terem contribuído, a seu modo e num determinando contexto histórico, a devastação ambiental e os bolsões de pobreza pouco diminuíram mundo afora. Há evidências que os processos decisórios e os modelos econômicos de desenvolvimento se sobrepõem às dimensões ambientais e sociais, revelando a incapacidade de atingir mudanças que são emergentes e urgentes para o equilíbrio socioambiental. Questiona-se, portanto, depois de tantas propostas, convenções e expectativas, o que é necessário para que a ideia de sustentabilidade se torne real? Ethos insustentável Inicialmente é crucial considerar a crise ambiental como uma crise social, ou seja, ambas as dimensões, são uma face da outra. São as pessoas que dão sentido ao mundo material, e este mundo material é fundamental para a existência das pessoas. Portanto, aplica-se aqui o sentido da recursividade e unidade universal. A forma como os humanos pensam e agem sobre o mundo ao seu redor nos indica possibilidades de transformação da crise ambiental. Dessa maneira a chave está no comportamento humano na relação com o ambiente Para tanto, revelar os caminhos que levam à insustentabilidade é um degrau necessário. O ETHOS AMBIENTAL que alimenta a insustentabilidade está presente nos humanos e se revela a partir de ideias e práticas tais como: IR AO INFINITO E ALÉM (é preciso um crescimento e desenvolvimento ilimitado); ISSO NUNCA ACABA (crença na infinitude dos recursos naturais); ELES VÃO INVENTAR (delegação de um poder absoluto da ciência e tecnologia na busca de soluções para os problemas). 131 Atrelado ao ethos ambiental está o ETHOS SOCIAL que alimenta a insustentabilidade do MELHOR TER (acumulação e abundância material); do SOU MAIS EU (direitos individuais acima dos coletivos), do ESTAR AQUI E ACOLÁ (incerteza do que é presencial e virtual), do TEMPO INSTANTÂNEO (o agora em relações não duradouras), do TEMPO VELOZ (o futuro é efêmero e intangível) por isso deve-se VIVER O AGORA (para isso precisa-se mais de 24 horas/dia). Esse ETHOS SOCIOAMBIENTAL produz atitudes insustentáveis que diante de um determinado problema, há um entendimento de que: a) não existe problema, há um exagero; b) o problema existe, mas está sendo resolvido por outrem; c) o problema existe, mas não sou eu que o causo; d) o problema existe, mas não sei o que nem como fazer; e) o problema existe, mas eu só posso mudar alguns hábitos entre todos Então está tudo perdido? Se agirmos adequadamente e de modo rápido, a mitigação ocorre. A resposta é clara e otimista e ela vem de várias formas mostrando possibilidades de responsabilidades compartilhada, porém diferenciadas. O ideal de uma sociedade sustentável está não apenas no empenho de governos e grandes corporações, mesmo que a eles se delegue uma responsabilidade expressiva, mas principalmente no empenho de cada um dos indivíduos deste planeta. Uma CONDUTA SUSTENTÁVEL requer MUDANÇAS básicas de comportamento e valores em cada UM DE NÓS. Ações que têm como finalidade o cuidado com os recursos naturais e socioculturais são necessárias para garantir o bem-estar presente e futuro da humanidade. A ética ecológica exige valores de respeito, igualdade e justiça socioambiental. Ao assumir uma conduta sustentável a pessoa se envolverá não apenas no cuidado consigo mesmo, mas no do outro e do planeta. Dessa forma, é possível buscar equidade social, qualidade de vida, equilíbrio ambiental e desenvolvimento com respeito à capacidade de suporte dos ecossistemas. Educação Ambiental Nesse aporte tem-se a EDUCAÇÃO AMBIENTAL como uma importante ferramenta para novos modos de ser e agir. A Educação Ambiental deve ser individual e coletiva, é 132 essencialmente um ato político de transformação social que estimula a solidariedade e cooperação, preconizando igualdade de direitos, valorização da diversidade racial, de credos, de gênero, de classe social, de saberes. Portanto, a Educação Ambiental deve integrar aptidões, atitudes e ações. Para isso, alguns pensadores defendem a Educação Ambiental como um processo educativo transformador constituído de momentos específicos e complementares (Higuchi; Azevedo, 2004; Sauvé, 1994; Sato, 2002). As práticas constituintes da Educação Ambiental incluem 5 dimensões de igual importância, cuja ordem é contextualizada diante do problema, da situação ou do público que se quer engajado (Figura 1). Figura 1: Processo de educação ambiental transformador O primeiro momento é a SENSIBILIZAÇÃO, que é um processo de “chamamento”, de olhar numa direção antes distante do campo de motivação. Éum dos primeiros momentos do processo educativo que insere o educando num mundo que se quer ver (re)descoberto, ou simplesmente notado. É um alerta que ao encontrar suporte cognitivo e afetivo promove os primeiros passos para uma reelaboração da conduta. No entanto, não é suficiente para mudança efetiva. Nesse sentido, há que SE INFORMAR sobre o tema, ou acontecimento, ou problema. Ter informação científica acurada e precisa. Essas duas dimensões já movem terras, mas ainda precisam de outros aspectos. Nesse caso, é necessário se CRIAR COMPETÊNCIAS de enfrentamento da situação, mostrar caminhos, técnicas que visem a construção de capacidades de avaliar e agir de forma proativa no ambiente, ou seja, se imbuir de um empoderamento como cidadão. Com estas quatro práticas processuais o horizonte já começa a se delinear para uma transformação, mas esta precisa de um elemento fundamental, o compromisso, a RESPONSABILIDADE socioambiental. Esse processo de reflexão é no sentido de colocar-se como membro 133 constituinte do ecossistema e protagonista da transformação, modificação, organização, manutenção, preservação do ecossistema seja em nível de micro ou macro abrangência. Todas essas ações colocam o indivíduo como protagonista do processo de transformação, e que em muitos momentos, este não se sente forte o bastante para as mudanças necessárias. Para isso, buscar REDES DE APOIO é mais uma garantia de travessia para o despertar de um novo repertório de compreensão e sensibilidade sobre as práticas com o entorno e as consequências para a qualidade da vida e para o futuro da humanidade. O despertar da CONSCIÊNCIA AMBIENTAL se manifesta tanto como conhecimento da realidade quanto no desencadeamento de ações, atitudes e sentimentos na relação dos seres humanos entre si e destes com o ambiente. Traz uma nova ética comportamental que busca um relacionamento que transcende necessidades individuais e utilitaristas, próprias do modelo atual de desenvolvimento. Imprime nas sociedades atuais um modo coletivo de bem comum, responsabilidade distintas, mas complementares e uma visão da indivisibilidade e indispensabilidade entre sociedade e ambiente. Caminhos para a ética do cuidado: evidências, desafios e proposições A Educação Ambiental como já exposto neste texto é uma proposta educativa fundamental que busca promover uma consciência local e planetária, desenvolvendo uma compreensão mais profunda das interações entre os seres humanos e o meio ambiente (Loureiro, 2004). Ela se baseia na ideia de que todos os saberes são valiosos e complementares, reconhecendo a diversidade de perspectivas culturais e de conhecimento em relação ao meio ambiente. Ao preconizar o respeito a todos os saberes, a educação ambiental busca promover mudanças nos modos de pensar e vivenciar o cotidiano das relações ambientais, estimulando uma atitude mais responsável e consciente em relação ao meio ambiente (Jacobi, 2001). Aproximadamente 50 anos após o reconhecimento da proposta da Educação Ambiental enquanto caminho viável, muito foi discutido e construído entre avanços e retrocessos no estudo e intervenção da relação pessoa-ambiente. Portanto questiona-se quais evidências temos acerca da efetividade das propostas de Educação Ambiental e de outras áreas dedicadas a 134 compreender as relações pessoa-ambiente? Em uma análise de conjuntura acerca das questões pessoa-ambiente podemos apontar que: • Ainda que programas em EA não mudem de fato o comportamento, funcionam como reforçadores dos comportamentos pró-ambientais já realizados (Bell et al., 1996). • Dispomos de uma rede teórica em constante expansão como modelos explicativos para os diversos tipos de comportamentos pró-ambientais, vide a título de exemplo jornais internacionais de destaque na área como Journal of environmental Psychology e Environment and Behavior e nacionais como Ambiente & Sociedade, Psicologia: Teoria e Pesquisa, Estudos de Psicologia, que trazem muitos artigos sobre a temática (Santos et al. 2019). • Uma ampla base metodológica está acessível para compreensão dos diversos contextos vivenciados inclusive com propostas específicas para análise da relação pessoa ambiente com publicação em português (Pinheiro; Gunther, 2008). • Os ambientes têm recebido cada vez mais destaque nos espaços da Psicologia e outros saberes evidenciando sua importância enquanto categoria de análise e possibilidade de intervenção coletiva nas mazelas fundamentais que vivenciamos enquanto espécie (Cavalcante; Elali, 2018). • O acesso ao ambiente saudável é um direito fundamental atrelado ao direito à vida e o cuidado ambiental indissociável do cuidado com as pessoas pode ser observado, por exemplo, nos objetivos globais de desenvolvimento sustentável acordados pelas Nações Unidas (ONU, 2023). • Indicadores de consenso teórico aceitável acerca das bases de um perfil ecológico que é composto por experiências afetivas na natureza com tempo de exposição suficiente para contemplação e que ocorram preferencialmente na primeira infância (Corral- Verdugo et al., 2009; Dutcher et al., 2007; Rosa et al., 2021). Neste sentido, com o arcabouço teórico-metodológico disponível seria correto inferir que é simples garantir e desenvolver uma sociedade onde o cuidado com a natureza faça parte dos valores e experiências mais fundamentais, porém, os desafios são grandes quando se busca garantir acesso à natureza e principalmente acesso mediado e significativo à natureza na infância. 135 Cabe destacar inicialmente que vivenciamos uma desigualdade profunda de acesso à natureza, estar na natureza e desfrutar de ambientes limpos, acessíveis e seguros acaba sendo reservado a quem pode arcar com os custos deste acesso. Associada a esta dimensão percebe- se um cerceamento da infância, de forma que uma organização social adultocêntrica prevalece na organização do tempo, dos espaços e até do brincar, usualmente dirigido e controlado. Esta forma de lidar com as infâncias está presente também no formato e currículo das escolas cuja estrutura tradicional exige que as crianças, seres de movimento que são, fiquem paradas em salas fechadas por períodos maiores que sua condição de desenvolvimento permite (Tiriba et al., 2023). Estas mesmas instituições sugerem diagnósticos e tratamentos que apontam a infância viva que explora como desajustada, opositiva ou desatenta. Em suma percebe-se cada vez mais paredes e cada vez menos contato com a natureza privando as crianças de oportunidades valiosas de desenvolvimento (Louv, 2005). Consideramos ainda que uma barreira está presente nos critérios avaliativos de políticas públicas e de projetos de fomento ao não apontarem de maneira explícita medidas de bem- estar, participação coletiva e tempo na natureza como indicadores de sucesso ou campos de atuação de políticas públicas que envolvem sustentabilidade. Portanto, depara-se com um impasse entre um formato de vida e organização social que exige pressa e produtividade e uma possibilidade de ressignificar as relações com a natureza que exigem calmaria, contemplação e atenção para viabilizar que estas infâncias atuais não percam seu potencial de conexão com a natureza e possam expressar este afeto em forma de cuidado. Diante deste impasse entende-se que o caminho é a resistência através do apoio parental, da proposição e avaliação de políticas públicas e da priorização inegociável da infância. Orientar os pais e cuidadores, sensibilizar e formar professores e principalmente oferecer espaços verdes públicos que possam ser frequentados com segurança pelos cidadãos e escolas com natureza disponível são ações que podem sustentar uma nova ética de cuidado local e planetária. Referências: BELL, P. A.; GREENE, T. C.; FISHER, J. D.; BAUM, A. Environment psychology. Fort Worth:Harcourt College Publishers, 1996. 136 CALEGARE, M. G. 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WCED [Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento – CMMAD] (1987). Relatório Brundtland – Nosso Futuro comum. 138 A PSICOLOGIA E OS GRANDES PROJETOS NA AMAZÔNIA: DAS EMERGÊNCIAS E DESASTRES À PRODUÇÃO DE ATINGIDOS ROBERT DAMASCENO MONTEIRO RODRIGUES29 JUREUDA DUARTE GUERRA30 Resumo: O objetivo deste texto é apresentar um debate na psicologia, que problematize a noção de atuação em situações de emergências e desastres, considerando os acúmulos no campo da regulamentação da profissão, mas também propondo um deslocamento para uma atuação junto às populações atingidas por grandes projetos. Deste modo, discutimos sobre as definições de grandes projetos e atingidos, considerando o contexto amazônico e afirmando a necessidade de uma atuação profissional da psicologia comprometida com a garantia de direitos das populações atingidas. Palavras-chave: psicologia das emergências e desastres; amazônia; grandes projetos; atingidos. Introdução A psicologia brasileira já tem mais de 60 anos desde a sua regulamentação como profissão, mas o debate sobre a sua atuação profissional em situações de risco, emergências, desastres e calamidades públicas é relativamente recente. Por outro lado, se olharmos para a Amazônia, os grandes projetos, sejam eles minerais, hidrelétricos, portuários, hidroviários ou ferroviários, começam a ser implementados ainda na década de 1970, pela Ditadura Civil- Militar, tendo como suas marcas, por exemplo, o Projeto Ferro Carajás, a Hidrelétrica de Tucuruí e o Complexo Industrial-Portuário de Vila do Conde, no Pará. Estes grandes projetos, dentre muitos outros que os sucederam, por sua vez, produziram e ainda produzem centenas milhares de pessoas como atingidas por seus impactos sociais, ambientais e econômicos, populações ribeirinhas, camponesas, indígenas, quilombolas, trabalhadores extrativistas e nas periferias dos centros urbanos. 29 Doutorando em Psicologia no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFPA. Email: robertdr.psi@gmail.com 30 Doutoranda em Psicologia no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFPA. Email: jureuda@gmail.com mailto:robertdr.psi@gmail.com mailto:jureuda@gmail.com 139 Nestes marcos, este texto visa discutir o papel da psicologia e das(os) psicólogas(os) neste contexto, retomando o acúmulo dos debates e diretrizes nacionais sobre atuação da psicologia em situações de riscos, emergências e desastres, principalmente a partir das iniciativas do Conselho Federal de Psicologia (CFP) e das elaborações de alguns profissionais/pesquisadores. Em seguida, discutiremos sobre as definições de grandes projetos no contexto da Amazônia e sobre o conceito de atingido para, na sequência, apresentar alguns apontamentos sobre a atuação da psicologia junto aos atingidos por grandes projetos na Amazônia. O lugar de onde falamos é o da psicologia e, mais especificamente, da Psicologia Social Crítica, considerando as especificidades da formação do ser social a partir dos pressupostos teórico-metodológico-políticos do materialismo histórico-dialético. Um campo que se desenvolve na psicologia, criticando-a e propondo uma abordagem crítica da realidade, concebendo a produção dos sujeitos na perspectiva da unidade, sem dissociar as suas dimensões subjetivas e objetivas, individuais e coletivas, econômicas e ideológicas, macro e microestruturais (VAISMAN, 2009; CHAGAS, 2013). Nosso objetivo, portanto, é propor um deslocamento para a prática profissional, aproximando-a de uma posição para atuação junto às populações atingidas por grandes projetos na Amazônia. Este posicionamento, está alinhado à tarefa histórica da psicologia de analisar criticamente a realidade objetivando transformá-la a fim de superar as estruturas sociais fundadas na exploração e na opressão de classe. Deste modo, não nos furtamos também ao papel político desempenhado pela psicologia, afirmando a necessidade de uma profissão comprometida com a defesa e garantia de direitos das populações amazônicas. Atuação da psicologia em situações de risco, emergências e desastres O Código de Ética Profissional do Psicólogo (CEPP) – Resolução CFP nº 010/2005 – estabelece, em seu Art. 1º, alínea “d”, que é dever da(o) psicóloga(o) “prestar serviços profissionais em situações de calamidade pública ou emergência, sem visar benefício pessoal” (CFP, 2005). Até este momento, porém, da publicação do CEPP, o debate sobre este campo de 140 atuação profissional ainda era incipiente no Sistema Conselhos de Psicologia, sendo este dispositivo da resolução um importante marco para o avanço dessas discussões a nívelnacional. Até o momento, era comum encontrar profissionais de psicologia dispersos pelo Brasil, prestando serviços voluntários de atendimento a vítimas de incêndios, alagamentos, enchentes e deslizamentos de terra. Na maioria das vezes, estes atendimentos estavam pautados no caráter paliativo ou remediativo frente às perdas e abalos emocionais provocados como consequência das situações de emergência. Destaca-se, também, a atuação de psicólogas(os) junto às políticas de Defesa Civil no atendimento às pessoas e famílias afetadas pelos acontecimentos. Visando, ao mesmo tempo, valorizar e sistematizar essas práticas, mas também refletir sobre diretrizes para este fazer profissional, o CFP propôs a realização de um encontro nacional para reunir estes profissionais, pesquisadores e estudantes na área. Deste modo, nos anos de 2006 e 2011, o CFP realizou o I e o II Seminário Nacional de Psicologia das Emergências e dos Desastres. Em ambos os Seminários, um dos principais pontos de discussão esteve relacionado ao caráter preventivo da atuação da psicologia, considerando o papel da(o) psicólogo na gestão dos riscos e na construção de planos de prevenção para o cuidado às pessoas afetadas. Como proferiu o psicólogo Marcos Vinícius na mesa de abertura do I Seminário: Lastimavelmente, a tradição ao tema das emergências e desastres tem sido de negligência em relação aos aspectos relativos à prevenção. Costumamos dizer que Deus é brasileiro, e que isso nos garantiria em várias circunstâncias. Efetivamente, para romper essa inércia, essa atitude cultural, que é a de se desprevenir, de se desproteger diante dos eventos e que tem produzido tantas perdas, não somente materiais, mas principalmente humanas, gostaríamos de colocar a Psicologia das emergências e desastres como um recurso fundamental na área do conhecimento e na área profissional para que possamos transformar esse aspecto cultural (CFP, 2006). Dos dois Seminários foram produzidos cadernos de textos com as discussões das mesas de debates e, ainda em 2011, o CFP publicou o livro Psicologia de emergências e desastres na América Latina: promoção de direitos e construção de estratégias de atuação. Na sequência, em 2013, foi publicada a Nota Técnica Sobre Atuação de Psicólogas(os) em Situações de Emergências e Desastres, relacionadas com a Política de Defesa Civil e, em 2016, esta foi atualizada sob a forma da Nota Técnica Sobre Atuação da Psicologia na Gestão Integral de 141 Riscos e Desastres, relacionadas com a Política de Proteção e Defesa Civil. Evidentemente, o CFP estava preocupado com a atuação das(os) profissionais na interface com as políticas públicas, tanto que, em 2021, através do Centro de Referências Técnicas em Psicologia e Políticas Públicas (CREPOP/CFP), foram publicadas as Referências Técnicas para atuação de psicólogas(os) na Gestão Integral Riscos, Emergências e Desastres. Este processo revela o amadurecimento das discussões na categoria e comprometimento do CFP com o tema, tendo em vista a transição de uma posição centrada na atuação profissional tão somente nas situações emergenciais para a perspectiva preventiva, considerando a gestão integral dos riscos associados aos acontecimentos. Do mesmo modo, o papel político da psicologia neste processo também passou a ser pautado, corroborando para um deslocamento da prática profissional voltada ao questionamento das motivações das situações de emergências e desastres e a defesa dos direitos humanos violados por estas situações e seus agentes, como figura nas Referências Técnicas: É preciso questionar o que caracterizamos como riscos, emergências e desastres, compreendendo que no Brasil situações de extrema vulnerabilidade social são naturalizadas a tal ponto, que deixamos de tratá-las e nomeá-las como desastrosas e emergenciais. É fundamental que o fazer da Psicologia não normalize situações violadoras dos direitos humanos, pelo contrário, promova o enfrentamento constante das injustiças e desigualdades sociais. Para tanto, é necessário que as(os) profissionais se integrem intersetorialmente às políticas públicas de Saúde, Assistência Social, Educação, Defesa Civil etc. Nessa direção, essa Referência Técnica é um instrumento potente para demarcação do compromisso ético-político da Psicologia com a sociedade brasileira (CFP, 2021). No campo acadêmico, por sua vez, existem diversos pesquisadores que vêm se dedicando ao tema da atuação da psicologia em situações de riscos, emergências e desastres, com destaque para ao trabalhos de Trindade & Serpa (2013), Weinstraub et al (2015) e Silva, Silva & Bafuri (2023). Por outro lado, vêm crescendo, ao longo dos anos, as pesquisas dedicadas aos impactos na saúde mental de pessoas e comunidades atingidas por grandes projetos, sejam por barragens hidrelétricas ou rompimentos de barragens de rejeitos minerais, como as de Marques et al (2018), Pozzebon & Ferreira (2018) e Noal, Rabelo & Chachamovich (2019). 142 Destaco, também, os estudos na psicologia que buscam investigar os impactos e transformações provocadas pelos grandes projetos a nível da subjetividade dos atingidos por grandes projetos, tanto no âmbito individual quanto coletivo, tais como os de Morais & Monteiro (2019), Silva, Bucher-Maluschke & Mori (2021) e Rodrigues (2022). É neste sentido, mas fazendo um recorte para o contexto dos grandes projetos na Amazônia, que pretendemos contribuir com o que já vem sendo acumulado, em uma perspectiva crítica, deslocando o entendimento para uma posição voltada à atuação da psicologia junto às populações atingidas. Grandes projetos e o conceito de atingido São inúmeros os trabalhos, nos mais variados campos do conhecimento, dedicados ao tema dos grandes projetos. Não obstante que, dentre estes estudos, alguns acabem se limitando aos seus impactos ambientais (SILVA & SILVA, 2011), não são poucos os que buscam compreendê- los e problematizá-los de maneira multidimensional, sem ignorar suas especificidades no que diz respeito ao meio ambiente, mas tomando-as como indissociáveis de suas dimensões sociais, econômicas e políticas e suas consequências sobre os atingidos. Historicamente, avolumam-se trabalhos referentes aos efeitos sociais da Usinas Hidrelétricas (UHEs) no Brasil, como os de Sigaud (1986) e Magalhães (2007), com destaque para as investigações voltadas às especificidades das barragens na Amazônia (Fearnside, 2015) e os desafios impostos ao campo da definição e reconhecimento dos atingidos por estes grandes projetos (Estronioli, 2021). É importante destacar, também, estudos como os de Porto- Gonçalves (2017) e Marques (2019), que buscam compreender os grandes projetos a partir de uma visão integrativa, articulada e intermodal, tomando a inter-relação e a complementariedade de grandes projetos, como hidrelétricas, indústrias minerárias, estradas, ferrovias, hidrovias e portos como constitutivas da realidade amazônica e de seu papel na acumulação capitalista. Recentemente, sobressaem-se importantes pesquisas sobre as grandes tragédias decorrentes da exploração mineral no Brasil, como os de Zhouri (2019) e Laschefski (2020), com importantes análises sobre os efeitos sociais, econômicos, políticos e ambientais acarretados por estes crimes. Por fim, destacamos a importância da compressão do que são os 143 grandes projetos a partir de seus efeitos como transformações nos modos de vida dos atingidos, onde se considere, a partir de suas realidades, de suas compreensões, concepções e análises, o que são os grandes projetos, como realizado por Rodrigues (2022). A partir deste acúmulo, portanto, para fins de conceituação, trazemos uma das definições mais gerais, como síntese teórica do que são os grandes projetos – segundo Castro (2019), eles: 1) constituem-se em enclaves, dos pontos de vista dosfluxos, do jogo global de concorrência e dos espaços de interconectividade, para além, portanto, da região de produção. Por isso, evidenciam um processo de desconexão com as estruturas locais/regionais, ou a sua não integração, o que tem levado a um valor agregado ínfimo, sem maior responsabilidade pela apropriação privada de riquezas públicas;2) impõe uma dinâmica expansionista, processo contínuo de apropriação de novos territórios e de seus recursos naturais, para atender a produção de commodities – minerais, florestais e do agronegócio; 3) têm dinâmicas frequentemente acompanhadas de crimes relacionados à terra, como a grilagem, expulsão da terra de famílias de moradores (deslocamentos forçados e desterritorialização), assassinato de lideranças locais, inviabilidade de reproduzir a vida e o trabalho devido o desmatamento, a contaminação de mananciais, entre outros; 4) produzem alto grau de externalidades, não reconhecidas pelos empreendimentos como passivos, pois os mesmos não se vêm como produtores de danos sociais e ambientais;5) e, por serem megaempreendimentos com produção intensiva, contém um componente de alto risco, e imprevisibilidade, cujo controle humano pela gestão e pela tecnologia, tem se revelado inconsistente, inseguro e ineficaz (p. 17). Sobre o conceito de atingido, por sua vez, de acordo com o que já foi demonstrado pela Comissão Mundial de Barragens (CMB/ONU, 2000) e de estudos do Conselho Nacional de Direitos da Pessoa Humana (CNDH, 2010), as violações aos direitos das populações atingidas estão intimamente relacionadas ao conceito de atingido. Do mesmo modo, segundo Vainer (2005) e MAB (2019) a noção de atingido é um conceito em disputa, que diz respeito à legitimação de direitos e de seus detentores. Entretanto, a história demonstra que, de um lado, é só a luta que garante os direitos dos atingidos e, de outro, esta é uma luta desigual, onde as forças políticas e econômicas em disputa são também determinantes e, na maioria das vezes, corroboram para um esvaziamento da amplitude necessária da noção de atingidos e a consequente violação de seus direitos. Deste modo, Vainer (2005), ao propor uma abordagem sobre o conceito de atingido que supere a definição de “alagados” ou “expropriados da terra” e, extraindo suas considerações a partir das prescrições de organismos internacionais para a garantia dos direitos dos atingidos 144 por hidrelétricas, ajuda-nos a pensar em uma concepção de atingido com caráter amplo e que possibilita sua aplicação a um conjunto de outros grandes projetos. Entre as recomendações do International Financial Corporation (IFC), do Banco Mundial (BM) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BIRD), a noção de atingido remete ao conjunto de processos econômicos, sociais, culturais e ambientais deflagrados pelos grandes projetos “e que possam vir a ter efeitos perversos sobre os meios e modos de vida da população” (VAINER, 2005, p. 08). Mas é a partir das experiências dos atingidos com os grandes projetos e, mais especificamente, de suas experiências de enfrentamento, que emergem as concepções sobre a noção de atingido efetivamente voltadas a garantia de seus direitos. Destacamos, deste modo, a experiência do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que na ampliação de sua formulação estratégica, enquanto movimento social nacional, também alargou a sua base social e, consequentemente, a sua concepção de atingido. O movimento considera a totalidade dos atingidos pelos grandes projetos, desde os moradores das “barrancas dos rios” até os trabalhadores dos centros urbanos “atingidos pelo preço da luz” (FOSCHIERA, 2009). Ao mesmo tempo, organiza atingidos pelo conjunto dos grandes projetos em todo o Brasil, não mais apenas de hidrelétricas, mais também de projetos minerários e das diversas ordens de infraestrutura. Conclusão: Atuação da pscologia junto às populações atingidas A evolução da concepção e direcionamento das ações do Sistema Conselhos de Psicologia no campo da atuação profissional da psicologia em situações de risco, emergências e desastres acompanhou as transformações políticas na sociedade brasileira e, principalmente, as ações do capital na construção de grandes projetos no Brasil. O debate sobre o que são os grandes projetos e os atingidos que são produzidos, no entanto, ainda se encontra pouco difundido na psicologia, ainda estando pautado, na maioria dos casos, à atenção psicossocial às pessoas e comunidades atingidas. 145 Por outro lado, Martín-Baró (1996), ao chamar a atenção àquelas(es) que exercem a profissão da psicologia na América Latina, considera que está na hora “de definir a nossa identidade profissional e o papel que devemos desempenhar em nossa sociedade” (p. 7). Para ele, esse papel está profundamente ligado à compreensão sobre as problemáticas sociais desde o ponto de vista das “maiorias atingidas” – que são as classes sociais mais vulnerabilizadas pela exploração econômica – visando transformar a condições materiais na socidade que produzem os processos de exploração, dominção e violação de direitos. Nessa perspectiva, ressaltamos a importância do comprometimento das(os) piscólogas(os) brasileiras(os) para uma atuação junto aos atingidos, o que siginifica, dentre outras coisas: 1. Analisar criticamente o contexto da atuação profissional, considerando a produção dos atingidos como uma totalidade que envolve fatores sociais, políticos, econômicos, ideológicos e subjetivos, mas que são determinados, primordialmente, pelo modo atual de estruturação do capitalismo no mundo, conforme demonstrado por Rodrigues (2022); 2. Pautar, em sua atuação, tanto junto aos atingidos quanto junto às instituições garantidoras de direito, a efetivação da Política Nacional de Segurança de Barragens (Lei Nº 12.334, de 20 de setembro de 2010) e da Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas por Barragens (PNAB – Lei Nº 14.755, de 15 de dezembro de 2023); 3. Aliar-se às lutas, mobilizações e organizações pelos direitos dos atingidos, contribuindo, também, para a elaboração teórico- conceitual sobre a noção de atingido a partir dos referenciais e instrumentos da psicologia. No caso da Amazônia, é fundamental também à psicologia reconhcer as determinantes de sua formação social e econômica, sabendo que, em muitos casos, as populações atingidas também são ribeirinhos, indígenas, quilombolas, estravistas, migrantes, refugiados e trabalhadores das periferias dos centros urbanos. Dessa forma, à condição de atingido, somam- se outras violações de direitos aos grupos historicamente vulnerabilizados na região amazônica. Do mesmo modo, a Amazônia, atualmente, é a principal região do Brasil onde são estudados, projetados e implementados novos grandes projetos, ao lado do avanço do agronegócio, do garimpo ilegal e da violência no campo, o que impõe ainda mais desafios para a prática profissional na região. 146 Referências: CFP. Resolução CFP nº 010/2005, aprova Código de Ética Profissional do Psicólogo (CEPP). Brasília: CFP, 2005. CFP. Cartilha do I Seminário Nacional Psicologia das Emergências e Desastres: Contribuições para a Construção de Comunidades mais Seguras. Brasília: CFP, 2006. CFP. Referências Técnicas para atuação de psicólogas(os) na Gestão Integral Riscos, Emergências e Desastres. Centro de Referências Técnicas em Psicologia e Políticas Públicas (CREPOP). Brasília: CFP, 2021. CMB/ONU. Barragens e desenvolvimento: um novo modelo para tomada de decisões. 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Através de breve levantamento teórico, observação e experiência das autoras foi possível identificar contradições quanto a presença e permanência de mulheres nesses espaços, que apesar de serem maioria, constantemente são alvos de violações e sexismos que se cruzam às estruturas já consolidadas desses ambientes e interferem diretamente na vivência dessa jogadoras. Palavras-chave: Plataformas Digitais; Jogos Virtuais; Mulheres LBTQIA+; Gênero e sexualidade. A discussão em torno da presença de mulheres em espaços virtuais está ligada a atravessamentos interseccionais como sexismo, violência de gênero e raça. Recentemente, os dados da Pesquisa Game Brasil (2023) apontaram que, com mais de 70% dos brasileiros envolvidos em jogos virtuais, as mulheres têm mostrado um crescimento significativo na participação, superando 50% da audiência por sete anos, tornando-se a maioria no universo dos jogos. Essa mudança reflete uma reconfiguração dentro desse espaço, que era visto majoritariamente como um ambiente masculino, embora possua historicamente em suas bases de desenvolvimento e esforços os trabalhos de mulheres, como Roberta Williams, Rebecca 31 Aline de Lima Sousa – Mestranda em Psicologia na linha de Processos Psicossociais (PPGPSI/UFAM). E-mail: alinelima.ls@hotmail.com 32 Karolayne Rodrigues Silva – Mestranda em Psicologia na linha de Processos Psicossociais (PPGPSI/UFAM). E-mail: karol_gois@live.com 33 André Luiz Machado das Neves - Professor titular da Universidade Federal do Amazonas (UEA). E-mail: almachado@uea.edu.br 150 Heineman e Carol Shaw, atuando como designers e criadoras de jogos (Zimmermann Neto et al., 2023). Observa-se que apesar das mulheres terem desempenhado papeis importantes na indústria dos jogos e hoje serem maioria nesses espaços como jogadoras, elas enfrentam diversas barreiras quanto à presença e permanência. Fica evidente a dificuldade em experienciar o próprio gênero, a sexualidade e raça além dos limites impostos pela hegemonia masculina, sexista e racista predominante nessas plataformas, desde o momento em que se propõe o homem heterossexual, branco e nerd como perfil de jogador (Shaw, 2014). A ênfase em um aspecto tecnológico para discutir gênero, sexualidade e raça surge como uma ideia de destacar um contexto atual no qual todos enquanto sociedade, acadêmicas ou não, estamos diretas ou indiretamente envolvidas cotidianamente, mas também se alinha a um interesse de uma das autoras, enquanto mulher jogadora e atenta ao tema, quando das potencializações ou apagamentos que estes podem exercer sob corpos não masculinos. Buscaremos cruzar os caminhos que pesquisadoras como Maria (2021), Collins e Bilge (2021), Shaw (2014) e outras que se debruçaram em pesquisas sobre gênero, plataformas virtuais e jogos, enfatizando nosso olhar e aproximando observações e vivências em plataformas de jogos virtuais e redes sociais que propiciem discussões a respeito do tema. Propomos, para além disso, uma reflexão e problematizaçãode como as mulheres enfrentam a estrutura cisgênero, patriarcal, colonial e racista que alimenta e se retroalimenta nas plataformas de jogos virtuais, se amplificando em outros espaços da internet e nas redes sociais, de modo sistemático e sorrateiro, por vezes sob aval e silenciamento desses próprios meios e de nós, usuárias (os). Com essa reflexão, busca-se também uma inquietação e um questionar a si sobre os olhares que temos, o cuidado e a sensibilidade para perceber quando, mesmo sem querer, sustentamos essas estruturas e quais enfrentamentos queremos fazer. Para isso, é inerente partir de algum lugar comum, o que já mostra complexo, vez que o lugar comum não existe para todas as mulheres, apesar da condição de gênero em uma sociedade marcadamente machista. Para mulheres negras, não afeminadas, da periferia, da zona rural, dos quilombos, das encruzilhadas, o lugar comum é o que tem que ser construído e reconstruído diariamente, e esse lugar é desafiador, é empecilho, é íngreme, tem cheiro de violência e pouco espaço para a justiça. É entendendo esse não lugar comum que partimos. 151 É na certeza de que para falarmos de mulheres, o único lugar comum é o plural e interseccional, considerando os desiguais atravessamentos do gênero, da sexualidade e da raça. Ao discutir a interseccionalidade, Crenshaw (2002, p. 177), afirma que esta “é uma conceitualização do problema que busca capturar as consequências estruturais e dinâmicas da interação entre dois ou mais eixos de subordinação”, e modo com o que as estruturas racistas, classistas, patriarcais e demais discriminações constroem desigualdades que são basilares na definição dos lugares ocupados e destinados a mulheres, negros, povos étnicos, quilombolas e àquelas economicamente desfavorecidas. Assim, o objetivo deste ensaio é explorar como as violências de gênero, o sexismo e o racismo se manifestam e influenciam as interações “dentro e fora” das plataformas de jogos virtuais. Embora existam debates acadêmicos fervorosos e movimentos digitais que abordam a presença e a permanência das mulheres nesses espaços, criando canais para denúncias e redes de apoio mútuo, a segurança e a liberdade das jogadoras ainda não estão garantidas. Nesse sentido, o problema que norteia tal discussão ancora-se na seguinte questão: De que maneira as manifestações de violência de gênero, sexismo e racismo em plataformas virtuais afetam a experiência de mulheres enquanto jogadoras? Perspectivas de gênero e raça: Um panorama das plataformas virtuais As mulheres representam hoje a maior parcela da população brasileira, com 51,5%, em comparação aos 48,5% dos homens, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2023). Contudo, elas enfrentam majoritariamente condições inferiores de acesso a direitos, resultado de desigualdades históricas de classe, raça e gênero, sendo as principais vítimas de violências. As consequências dessa desigualdade se apresentam nos dados levantados pelo Atlas da violência, evidenciando ainda que mulheres negras correm 1,7 vezes mais riscos de serem vítimas de violência que mulheres brancas (Cerqueira et al., 2021). Esses dados elucidam como tais violências, no caso de mulheres negras, também reflexo de um modelo de sociedade que instituiu historicamente o racismo, ou seja, um modo sistemático de discriminação com base no grupo racial ao qual um sujeito pertence (Almeida, 2020). 152 Tal violências, físicas, psicológicas e/ou simbólicas podem ser observadas nas dificuldades de acesso a cargos de trabalho, silenciamento, não reconhecimento de potencialidades e apagamento social, inclusive nos espaços ou mídias virtuais. São violações que acabam se perpetuando através de normas sociais e culturais, e encontram nas plataformas virtuais espaço propício para se solidificarem, sejam através de ofensas, humilhações, agressões verbais, assédio, perseguição, exposição de fotos íntimas, extorsão e ameaças de estupros (Mota et al., 2018; Guimarães; Stefanini, 2023). Para Nyland (2023), nossa relação com as mídias virtuais têm um impacto decorrente da globalização e da transformação dos meios de comunicação, facilitando nossas vidas à medida em que permite interação social virtual, nos apresenta e possibilita a reprodução de conteúdos e ideias. Esses espaços virtuais, como já afirmado, não fogem a regra da sociedade concreta e cotidiana, tendo no entanto, armadilhas e problemáticas que podem torná-los perversos e contraditórios. Isso quer dizer que ao mesmo tempo em que as plataformas virtuais são meios de perpetuação de violações às mulheres, também podem se configurar como espaços de articulação, discussões e combate contra o estado de vulnerabilização. Collins e Bilge (2021) alertam para o perigo das contradições existentes nesse campo em razão dos jogos de poder que grupos conservadores ou com maior aporte financeiro podem apresentar, influenciando, interferindo e prejudicando a percepção do público. Essas interferências mostram-se por vezes mediados por um olhar curioso, mas que carrega heranças estrangeiras, colonialistas, machistas e racistas sobre quem são as mulheres, questionando o local ocupado por seus corpos, desqualificando, silenciando seus discursos e apagando suas verdadeiras histórias em detrimento de uma postura hegemônica patriarcal. Guimarães e Stefanini (2023) atentam-se às redes sociais, por exemplo, que como plataforma virtual, podem facilitar a propagação de discursos de ódio, misoginia e incitação à violência contra as mulheres, tornado-se um ambiente hostil que contribui para a perpetuação de estereótipos prejudiciais e desigualdades de gênero. Ao mesmo tempo as autoras percebem como a internet também pode ser uma ferramenta valiosa para as mulheres ao oferecer acesso a recursos de apoio, informações sobre seus direitos, comunidades de suporte e serviços de assistência. Há organizações e grupos de ativistas online dedicados a combater a violência contra as mulheres e a fornecer suporte às vítimas, assim como a cooperação entre as mesmas, 153 como afirmam Mota et al. (2018), com a existência de grupo feminino formado na plataforma do facebook contendo relatos em comum sobre relacionamentos abusivos, violências sofridas e compartilhamento de estratégias de denúncia, combate e apoio mútuo. Assim, ao discutirem sobre as mídias virtuais, Collins e Bilge (2021) afirmam que estas vêm tendo um papel importante à medida em que se apresentam como palco para a interseccionalidade, sendo rede que possibilita encontros e debates entre indivíduos, grupos, ativistas e representantes de movimentos sociais. São também nesses espaços que mulheres, através de perfis individuais ou coletivos, mobilizam-se e veem possibilidade de ampliar suas vozes, de serem mais ouvidas e percebidas. É o caso da vereadora e ativista Marielle Franco, assassinada em 2018 vítima de uma articulação política e da necropolítica do Estado, que levou às plataformas digitais pautas pouco faladas socialmente, abrindo caminhos para maiores discussões sobre racismo, sexismo, patriarcalismo e colonialismo, utilizando esse espaço para construção do saber e reivindicações de direitos sociais. Trilhando caminhos como Marielle, outras jovens e mulheres (feministas, ativistas, influencers, comunicadoras, professoras, pesquisadoras, filósofas) passaram a apropriar-se dos espaços digitais, propagando conhecimentos, causas e mobilizando outras mulheres (Collins; Bilge, 2021). A contradição se revela nos espaços virtuais quando os mecanismos de compartilhamento, curtidas e comentários abrem espaço tanto para reações positivas e que engajam os conteúdos, como também para reações negativas, violação de direitos, a opressão, o racismo e o sexismo. Esses mecanismos aliam-se ao fato de que vivemos na era das Fake News e dos ditosalgoritmos sexistas e racista, que funcionam na manutenção e replicação dessas violências. Os algoritmos sexistas e racistas, como considera Nyland (2023, p. 2), é ‘‘uma forma de discriminar qualquer conteúdo digital produzido por figuras negras ou femininas, fornecendo mais recursos a pessoas com a pele de cor branca e minimizando recursos a pessoas de cor negra’’. Destaca-se que a utlização dos algoritmos é um reflexo da estrutura machista e racista, visto que são treinados com conjuntos de dados historicamente enviesados, existindo o risco de reproduzir e amplificar preconceitos existentes na sociedade, resultando em discriminação injusta e impactos desproporcionais sobre determinados grupos étnicos e de gênero (Ferreira, 2024). 154 Um exemplo recente desses construtos algorítmicos ocorre nas plataformas do TikTok, Instagram e Youtube Shorts quando conteúdos misóginos sobre o lugar e papel da mulher são resumidos a conteúdos ofensivos, piadas sobre feminicídio e apelos a violência são entregues aos usuários. É o que mostra a pesquisa feita no TikTok pela Comunidade Contente (2024), plataforma brasileira de bem-estar com foco no mundo virtual, ao criarem e simularem um perfil adolescente nessa plataforma, e observarem em pouco tempo o bombardeamento desses conteúdos, que se mostram revestidos de linguagem acessível e “humorística”. Tudo isso ocorre a partir de uma lógica tecnológica de Inteligência Artificial, que sistematiza e compara atividades realizadas pelos usuários e seus gostos para então recomendá- los novas atividades, conteúdos similares e de seu interesse. Assim, há a problemática do processo conhecido como Machine Learning, ou seja, quando a inteligência artificial visa o aprendizado da máquina a partir do comportamento humano e dos eventos históricos da sociedade, para replicá-los e criar padrões de engajamento. Nesse modo operacional e tecnológico, deixa-se a critério dos algoritmos a filtragem e escolha do que é ou não relevante replicar, de acordo com o interesse da sociedade e dos discursos produzidos historicamente – quer sejam racistas, machistas e sexistas -, o que tende a potencializar violações, evidenciando além de um racismo algorítmico, uma necropolítica algorítmica, em que as máquinas influenciam e contribuem na escolha de quem deve ou não ser ouvido e visto, de quem tem ou não lugar, quem vive e quem morre (Nyland, 2023). Presença e Permanência de Mulheres em Jogos Virtuais Ao introduzirmos uma discussão em torno das plataformas virtuais de modo geral, é importante pontuar a história das relações sociais, em que a figura feminina foi instituída como uma função auxiliar, se apresentando como suporte à figura masculina. Quando levamos essa mesma perspectiva aos jogos, esse contexto se mostra como um reflexo do contexto não virtual, visto que o protagonismo histórico em jogos é masculino, desde o jogador, na figura de um homem cisgênero, branco, hétero, norte americano e “nerd” (Shaw,2014) ao personagem, o 155 herói que precisa salvar a personagem secundária, a mulher, quase um personagem invisível (Rodrigues; Sabbatini, 2016). Bristot et al., (2017) tecem essa discussão ao afirmar que a maioria dos jogos historicamente tem apresentado mulheres de maneira estereotipada, muitas vezes em papeis secundários ou de suporte, e com características que reforçam ideias de fragilidade e dependência em relação aos personagens masculinos. Essa abordagem reflete e perpetua uma visão de mundo que exclui e marginaliza as mulheres, tanto como personagens quanto como jogadoras, reforçando uma lógica heteronormativa e machista, de mulher passiva e a ser cuidada pelo homem forte, poderoso e dominante (Scott, 1995). Tal realidade se apresenta ao olharmos para jogos conhecidos e que abarcam ampla comunidade de crianças, jovens e adultos, em diferentes nichos, como Super Mario e “The legend of Zelda”. Ambas franquias adotam personagens masculinos, a exemplo de Mario, Luigi e Link, herois protagonistas lutando ou passando de fases para salvar a princesa, Peach e Zelda, respectivamente. Além do papel de coadjuvante, as personagens têm seus corpos sexualizados, formas e volumes, além de uma construção idealizada e fetichizada das figuras femininas em jogos como Lara Croft, Samus Aran, Bayonetta, o que revela uma falsa representatividade (Bistrot et al., 2017). Sobre as condições de gênero e sexualidade nos jogos, Rodrigues e Merkle (2017) afirmam que a personalização de avatares reflete ideias sobre gênero e normas baseadas no sexo biológico. As autoras examinam como jogos voltados para meninas, focados em vestuário e maquiagem, influenciaram outros jogos virtuais e suas ferramentas: a personalização de roupas, características, uso de maquiagem e acessórios considerados masculinos ou femininos, o que corrobora nestes uma lógica já predominante de gênero. Para além das figuras femininas, a presença de jogadoras mulheres também pode ser problematizada, especialmente pela reação de jogadores homens, comumente de espanto e desconfiança, ataques ou questionamentos sobre sua capacidade, disposição e habilidades para com o jogo. Em relação a quantidade de jogadoras, falas como “maioria só (joga) se for no Candy Crush”, “E as louças na pia?” podem ser vistas em fóruns, comentários em redes sociais ou em conversas nos jogos. De modo geral, o machismo, a discriminação e a invisibilização de mulheres nos jogos surgem através de ofensas, assédios, ameaças e ataques virtuais sendo utilizados por jogadores homens cisgêneros. Isso se manifesta quando os jogadores afirmam 156 que o espaço não é adequado para mulheres, quando elas são avaliadas de forma injusta quanto às suas habilidades e agredidas verbalmente com comentários misóginos e de conotação sexual, sendo cortejadas como par amoroso, assediadas com menções ou simulações de estupro (Fortim; Grando, 2012; França et al., 2019). Tais violações acontecem, pois se encontram instituídas histórica e culturalmente nas relações cotidianas, na base das construções digitais, quando papeis e ideais femininos contemplam a fragilidade, fofura e irracionalidade (Scott, 1995). Observa-se aqui que a representação histórica da figura feminina nas mídias, nos quadrinhos e na literatura contribui para a perpetuação de padrões estereotipados, machistas e sexistas ali presentes (França et al., 2019). Nessas condições, as jogadoras adotam estratégias como utilizar avatares masculinos, suprimindo suas reais identidades, evitando o uso de microfones durante o jogo, ou ainda sendo mais habilidosas que os jogadores homens, visando escapar das violências, vulnerabilização e sentirem-se pertencentes a esses espaços (Fortim; Grando, 2012). Em relação aos próprios jogadores, a criação dos jogos vem abrindo mais espaços para as mulheres, que buscam contornar os obstáculos ligados a pensamentos sexistas dos outros jogadores homens, como “incapaz, irracional, não competitiva’’ que são estigmas em cima da figura feminina sustentada pelas raízes de empresas de tecnologia que criam jogos, em grande parte, de autoria masculina, caracterizando o mundo dos jogos como algo feito de meninos para meninos (Gasoto; Vaz, 2018). De acordo com uma pesquisa conduzida pela Game Brasil, em 2020, cerca de 53,8% das usuárias de jogos eletrônicos são mulheres, e ao contrário dos estereótipos de que mulher não pensa e gosta de futilidade, a categoria preferida de jogos para mulheres é de estratégia, seguido pelo de aventura (Santana et al. 2022). Entretanto, com jogos criados especialmente para o público masculino atendendo a seus interesses, com gráficos e personagens que representam seus jogadores homens, esse ambiente consequentemente afasta a outra parcela do público feminino, cristalizando o estigma quando estas se inserem no mundo de jogos (Gasosto; Vaz,2018). A questão sobre os ‘‘interesses masculinos’’ e ‘‘interesses femininos’’ está associada a configuração social em que mulheres e homens devem agir e se comportar, performando o que é ser homem e o que é ser mulher, segundo o ponto de vista da sociedade patriarcal e binária (Santana et al., 2022). 157 Considerando a realidade, é preciso atentar-se aos fatores que possibilitam a presença e permanência de mulheres em espaços de jogabilidade. É possível entender, tal como França, Stengel e Assunção (2019), que sendo os jogos virtuais reflexos dos contextos reais que são substituídos por contextos lúdicos, os jogadores e essa socialização virtual torna-se importante para a formação da personalidade para adolescentes, pessoas LGBTQIA+, bem como para o desenvolvimento de mulheres, que se experimentam primeiramente no lúdico, seja por meio de recursos como os jogos ou por outras artes. Considerações finais O presente ensaio acadêmico abordou a complexa intersecção entre sexismo, machismo e racismo nas plataformas de jogos virtuais, destacando como esses sistemas de opressão são promovidos e reproduzidos estruturalmente nesses espaços. Através de uma análise teórica e empírica, foi possível evidenciar as contradições e desafios enfrentados pelas mulheres nesses espaços, apesar de sua crescente participação e presença. Observamos que apesar das mulheres serem maioria nos jogos, elas ainda enfrentam entraves que vão desde a sexualização e a objetificação de personagens femininas até a agressão e assédio por parte de jogadores. Esses desafios estão enraizados em estruturas históricas e sociais que perpetuam estereótipos de gênero e raça, refletindo e amplificando as desigualdades existentes em todo eixo social. Além disso, a presença de algoritmos e sistemas de recomendação que reproduzem preconceitos raciais e sexistas só agrava essa situação, evidenciando uma necessidade urgente de reformulação das práticas e políticas dessas plataformas para garantir um ambiente mais inclusivo e seguro para todas as jogadoras. Assim, é indispensável adotar uma perspectiva interseccional ao examinar a presença e a experiência das mulheres em jogos virtuais. É reconhecer que para promover uma verdadeira equidade e inclusão, a luta contra as violações deve ultrapassar os ambientes virtuais, considerando dinâmicas sociais mais amplas, confrontando as estruturas de opressão que sustentam essas interações, on-line e off-line. 158 Referências: ALMEIDA, S. D. Racismo estrutural. São Paulo: Editora Jandaíra. 2020. BRISTOT, P. C.; POZZEBON, E.; FRIGO, L. B. A representatividade das mulheres nos games. Proceedings of SBGames. Curitiba, p. 862-871, 2017. 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Acesso em 11 de março de 2024. 161 REFLEXÕES SOBRE A DEPRESSÃO NOS DIAS ATUAIS CAROLINE STEFANY MARQUES DE SOUSA34 AMANDA CAROLINA DOS SANTOS ZANETTI35 GISELE CRISTINA RESENDE36 Resumo: O termo depressão tem ganhado grande conotação popular, e além disso se tornado cada vez mais, temática de discussão em vários contextos educacionais e de saúde, envolvendo principalmente a formação de profissionais para a atuação. Este trabalho buscou refletir a partir da compreensão psicanalítica acerca da depressão os aspectos fenomenológicos do conceito e de sua aplicação nos contextos psicossociais. O método adotado foi de uma pesquisa de revisão integrativa nas bases de dados: Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), LILACS e BVS entre os anos de 2018 a 2023. Foram encontrados 52 trabalhos e após aplicados critérios de inclusão e exclusão foram selecionados 6 como referências nas discussões. A pesquisa demonstrou que a medicina ocupa um saber hegemônico sobre o entendimento dos fenômenos e acaba por nortear as práticas de cuidado e práticas de saúde mental de modo geral e que carece de reflexões que envolvam os direitos humanos que podem ser violados em uma prática hegemônica e pautada apenas em uma visão biomédica. Palavras-chave: Depressão; Práticas Profissionais; Direitos Humanos. Introdução O termo depressão tem ganhado grande conotação popular, e se tornado frequentemente uma temática de discussão em vários contextos, dentre eles o acadêmico, através de trabalhos e pesquisas cada vez mais relevantes: Christian Dunker (2021); Byung-Chul Han (2017); Aparecida Conceição de Souza, Rodrigo Euripedes da Silveira, Álvaro da Silva Santos e 34 Psicóloga e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Amazonas – UFAM. E-mail: caroline.stefanym@gmail.com 35 Psicóloga, mestre em Psicologia e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica e Cultura da Universidade de Brasília – UnB. E-mail: psi.amandazanetti@gmail.com 36 Psicóloga, Dra. em Psicologia pela Universidade de São Paulo. Docente no no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Amazonas – UFAM. E-mail: giseleresende@ufam.edu.br Agradecimentos: "O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES)” e da Universidade Federal do Amazonas pela Pró-reitoria de Pesquisa e Pós- Graduação – PROPESP. mailto:caroline.stefanym@gmail.com mailto:psi.amandazanetti@gmail.com mailto:giseleresende@ufam.edu.br 162 Araceli Albino (2020), e Florência Cavalcante de Sousa Ferreira (2020). A era da informação que vigora desde o início dos avanços tecnológicos e amplamente difundida nas mídias sociais, possui um notável papel na propagação do referido termo. Segundo Campos (2016, apud Ferreira, 2020) a depressão enquanto psicopatologia contemporânea tomou espaço nas discussões tanto no âmbito científico, quanto no social do senso comum, tornando-se uma das expressões de sofrimento psíquico de maior amplitude. Contudo, este fenômeno é conhecido desde a Antiguidade e muda de semblante de acordo com cada cultura e cada época (Starobinski, 2016 apud Dalgalarrondo, 2019). Em tempos remotos, a depressão já atravessava a experiência humana, porém recebia outra nomenclatura: melancolia. De acordo com Peres (2010, apud GOMES, 2018) o grande poema da Grécia Antiga da Ilíada de Homero (versos 200-203), o personagem de Belerofonte, condenado pelos deuses a vagar atormentado pela solidão e desespero, padece de melancolia. Assim, como Hipócrates, afirmou: “Si metus et tristitia multo tempore perseverant melancholicum hoc ipsum” (Quando o medo e a tristeza persistem por muito tempo, constituem a melancolia) (Hipócrates, Aforismos, VI, 23, p. 147, apud Dalgalarrondo, 2019, p. 344). Atualmente, há várias concepções a respeito do que é a depressão, contudo, a pertencente ao modelo biomédica tornou-se a mais difundida. Nesta perspectiva, a depressão é abordada como condição de adoecimento, possuindo critérios diagnósticos presentes nos grandes manuais CID e DSM, e tratamento pautado, sobretudo em intervenções medicamentosas a fim de obstruir de maneira acelerada os sintomas gerados. Contudo, a depressão também foi classificada de diversas formas por outros autores cujo suas interpretações abrem caminhos para diferentes leituras e discussões inéditas, como “a epidemia psíquica das sociedades democráticas” (Roudisnesco, 2000, apud Borges, 2018, p. 344); a doença do discurso capitalista (Soler, 2006, apud, Borges, 2018, p. 344); a metáfora do mal-estar na contemporaneidade (Barbosa, 2008, apud Borges, 2018, p. 344); “o mal do século XXI” (OMS). De acordo com as últimas estimativas da OMS (Organização Mundial de Saúde), mais de 300 milhões de pessoas de todas as idades e ao redor do mundo foram diagnosticadas com depressão. No Brasil, de acordo com a OMS, cerca de 5,8% da população possuem este transtorno, ou seja, um total de 11,5 milhões de brasileiros. Tal índice é o maior da América 163 Latina e o segundo maior nas Américas, ficando apenas atrás dos Estados Unidos, que possui cerca de 5,9% da população, com um total de 17,4 milhões de casos de depressão (Laboissière, 2017). Ao observar os números estimados torna-se necessário repensar as abordagens a respeito da saúde mental, produzir conhecimento sobre os fatores que englobam os sintomas e o que hoje é a chamada depressão. Para Innocencio (2021, p. 16), “é possível correlacionar a alta prevalência dos transtornos mentais na atualidade com o aumento da exploração e opressão advindas do capitalismo”. Junto a isso, o neoliberalismo ocupa um lugar nesta temática como modelo socioeconômico e como gestor do sofrimento psíquico onde categorias psicológicas são pressupostos silenciosos da ação econômica (Safatle; Silva Junior; Dunker, 2020). Diante desse cenário, esta pesquisa buscou investigar o fenômeno da depressão a partir da teoria psicanalítica, que se distancia consideravelmente da visão médica psiquiátrica. Campos (2016, apud Rigotti, 2020, p. 7) afirma que a discussão psicanalítica sobre a depressão busca trazer o sujeito para o centro do debate, saindo do reducionismo biológico e médico- centrado, para debruçar-se sobre a experiência do sujeito. Este tipo de abordagem tem o objetivo de contribuir para o enriquecimento no debate sobre a depressão e as práticas de cuidado e tratamento em Saúde Mental. Metodologia Esta pesquisa utilizou como método a revisão integrativa da literatura, reunindo as pesquisas existentes com relação ao campo investigado e permitindo observar lacunas do conhecimento que necessitam de novos estudos (Mendes, Silveira, Galvão, 2008). Assim, as seguintes etapas metodológicas foram adotadas: Identificação do tema e seleção da questão de pesquisa; estabelecimento de critérios para inclusão e exclusão de estudos; definição das informações a serem extraídas dos estudos selecionados; avaliação dos estudos incluídos; interpretação dos resultados e apresentação da revisão (Ercole, Melo e Alcoforado, 2014). Para início desta pesquisa, formulou-se a seguinte questão: como a clínica psicanalítica tem abordado a psicopatologia da depressão? Com a questão posta, foram definidos apenas 164 dois descritores,modo, são excluídas aquelas pessoas com características ou corpos que divergem dessa norma. “Capacitismo assume a interpretação de estrutura. Isto é, que opera como uma lógica, uma gramática de usos e sentidos que, na chave corponormativa, desqualifica as pessoas com deficiência e também pessoas intersexo, travestis, transexuais, as crianças e os adolescentes” (Moreira; Dias; Mello; York, 2022, p. 3950). O capacitismo pode manifestar-se de várias maneiras, entre elas a estigmatização, a exclusão social e as várias barreiras encontradas por pessoas com deficiência em seu dia a dia: arquitetônicas, atitudinais, comunicacionais, educacionais etc. Perpetua-se, assim, a falsa noção de que pessoas com deficiência são incapazes e inferiores, o que resulta em exclusões nas diversas dimensões da vida em sociedade. Por se tratar de algo estrutural, o combate ao capacitismo envolve, além da conscientização, também o desenvolvimento tanto de políticas públicas quanto de práticas focadas na promoção da inclusão, da acessibilidade e do respeito às diferenças de corpos e de maneiras de ser e estar no mundo (Di Marco, 2021). Quando entramos no domínio da sexualidade, o capacitismo também se faz presente. Alain Giami, autor da obra O anjo e a fera: sexualidade, deficiência mental, instituição (2004), apresenta duas formas como a sociedade lida com a sexualidade da pessoa com deficiência: como anjo, ou seja, alguém assexual, ou como fera, ou seja, alguém incontrolável sexualmente. Por um lado, se são vistas como anjos ou eternas crianças, independentemente de sua idade cronológica, pessoas com deficiência são restringidas com relação à participação plena 14 na sociedade, o que afeta sua vivência de relacionamentos e da relação com o próprio corpo e com a sua sexualidade (Maia; Ribeiro, 2010; Abreu; Pederiva, 2023). Há uma tendência de relacionar a deficiência com fragilidade e dependência, muitas vezes ignorando a ampla diversidade de experiências dentro dessa comunidade. Essas percepções criam obstáculos para o desenvolvimento saudável da identidade sexual e limitam o acesso a informações sobre relacionamentos e sexualidade. Além das restrições relacionadas à expressão da sexualidade, isso torna as pessoas com deficiência mais susceptíveis à violência, incluindo a violência sexual (Paula; Regen; Lopes, 2005; Wanderer, Pedroza, 2015). Durante a adolescência, um momento crucial de autodescoberta e exploração, as pessoas com deficiência frequentemente se deparam com atitudes e expectativas que as menosprezam. Familiares, conhecidos e até mesmo profissionais, como professores, parecem frequentemente surpresos ou desconfortáveis quando adolescentes com deficiência expressam interesses sexuais ou exploram identidades de gênero distintas da heteronormatividade. Essa surpresa pode resultar em uma repressão injustificada, que vai além do tratamento dado a uma pessoa sem deficiência na mesma fase da vida. Por outro lado, a dificuldade em, por vezes, controlar a expressão dessa sexualidade cria a falsa ideia de que as pessoas com deficiência seriam dotadas de uma sexualidade exacerbada, descontrolada ou até mesmo agressiva (Giami, 2004; Pieczkowski, 2007; Maia; Ribeiro, 2010). Conhecer um pouco da história da sexualidade e refletir acerca dessa dimensão carregada de tabus e preconceitos em pessoas que fogem da norma permite entender por que para as famílias os filhos com deficiência mental são vistos sempre como crianças mesmo na vida adulta e na velhice. É mais confortante para os pais imaginá-los “anjos do bom Deus”, “seres assexuados” e não ter que enfrentar desafios sociais, causadores de constrangimentos (Pieczkowski, 2007, p. 6). Parte essencial da experiência humana é a vivência da sexualidade, a formação de laços íntimos e a busca por conexões afetivas que vão além dos laços familiares. Desconsiderar ou rejeitar esses aspectos é negar o direito de pessoas com deficiência de participarem plenamente da variedade de experiências que compõem a vida humana (Pieczkowski, 2007; Maia; Ribeiro, 2010). 15 SEXUALIDADE E DEFICIÊNCIA A PARTIR DE UM OLHAR INTERSECCIONAL Pessoas com deficiência são vulneráveis à violência sexual e essa realidade exige uma compreensão complexa (Paula; Regen; Lopes, 2005; Wanderer, Pedroza, 2015). Em levantamento feito em 2021 com base em dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), a associação de mídia independente Gênero e Número observou que: • Em 2020, 86% das vítimas de violência sexual entre as pessoas com deficiência foram mulheres. • Nesse mesmo ano, sete mulheres com deficiência sofreram violência sexual por dia. • Na maior parte dos casos, os homens foram os autores (91%). • As mulheres negras são a maioria das vítimas (54%). • Em 47% dos casos, tratou-se de alguém conhecido ou da família da vítima. Esses dados mostram como estão entrecruzados gênero e raça quando o assunto é vulnerabilidade à violência sexual entre pessoas com deficiência – o que se aplica também aos casos de pessoas sem deficiência. Nesse sentido, não é possível ignorar o impacto da sobreposição de diferentes dimensões de opressão na vivência das pessoas em uma mesma sociedade. É justamente isso que destaca o conceito de interseccionalidade, estabelecido por Kimberlé Crenshaw e continuado por autoras como Patricia Hill Collins (2022) e Carla Akotirene (2019). O contexto de surgimento do termo é o do fortalecimento do feminismo negro. Mulheres negras, ao não se verem reconhecidas nas experiências e demandas de mulheres brancas, sobretudo as da elite, mostram que não basta ser mulher para falar por todas as mulheres. Para Carla Akotirene, A interseccionalidade visa dar instrumentalidade teórico-metodológica à inseparabilidade estrutural do racismo, capitalismo e cisheteropatriarcado produtores de avenidas identitárias em que mulheres negras são repetidas vezes atingidas pelo cruzamento e sobreposição de gênero, raça e classe, modernos aparatos coloniais (Akotirene, 2019, p. 14). Visando uma expansão do conceito, vários autores têm demandado que a deficiência também seja compreendida como uma das dimensões de opressão que, juntamente com gênero, raça e classe social, agravam a exclusão e a vulnerabilidade dos sujeitos (Clímaco, 2020). Por 16 essa ótica, podemos compreender que pessoas com deficiência possivelmente vão compartilhar algumas experiências de marginalização, em função do capacitismo estrutural que organiza a sociedade; entretanto, um homem branco de classe social economicamente favorecida com deficiência e uma mulher negra pobre com deficiência certamente terão diferenças expressivas em suas vivências. Isso ocorre em função de o sexismo e o classismo também serem estruturais, marginalizando ainda mais a mulher negra. Quando voltamos para o nosso foco, que é a vivência da sexualidade por pessoas com deficiência, podemos concluir que se, por um lado, há elementos comuns, por outro, há inegavelmente outros que são diferentes e agravados para mulheres negras com deficiência, o que está patente nos dados apresentados. SEXUALIDADE E EDUCAÇÃO SEXUAL NAS ESCOLAS A educação sexual nas escolas enfrenta desafios consideráveis em função dos tabus e estigmas que assolam a sociedade brasileira. Quando esse tema é discutido, limita-se com frequência a uma abordagem puramente biológica e preventiva, concentrada exclusivamente nos aspectos físicos da sexualidade, como a anatomia reprodutiva, as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e os métodos contraceptivos (Furlanetto et. al., 2018; Abreu; Pederiva, 2023; Silva; Guimarães, 2023). Essa abordagem restrita negligencia aspectos essenciais relacionados à sexualidade humana, como o desenvolvimento emocional, os laços afetivos, o respeito mútuo e a diversidade dea fim de filtrar as buscas de acordo com os objetivos que se pretende com esta pesquisa, sendo estes: “depressão”; “psicanálise”. Por fim, foram estabelecidos como critérios de inclusão estudos realizados entre os anos de 2018 a 2023, sendo teses, dissertações, monografias e artigos completos em português indexados nas seguintes bases de dados: Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). A escolha destas bases de dados se deu pelo fato de conterem abrangência de publicações e por serem referências técnico-científicas brasileiras em psicologia. Resultados A primeira parte da pesquisa consistiu na aplicação dos descritores “depressão e psicanálise” para a busca realizada em 14 de março de 2023. Foram encontrados 15 trabalhos na BDTD, 18 no LILACS e 21 na BVS (Tabela 1). Destes, foram excluídos trabalhos que não apresentassem resumos sobre o tema e que tratassem de outros fenômenos que não fosse depressão ou que não tivesse relação com a teoria psicanalítica nas bases de dados e nas bibliotecas pesquisadas. Assim, restaram 4 trabalhos na BDTD; 2 no LILACS e 2 na BVS, ambos os trabalhos também encontrados e selecionados nas bases anteriormente citadas. Tabela 1: Distribuição dos trabalhos encontrados e selecionados por base de dados Base de dados Encontrados Selecionados e Analisados BDTD 15 4 LILACS 18 2 BVS 21 0 Total 52 6 Fonte: elaboração das autoras (2024). O Quadro 1 apresenta o t´tiluod do trabalho, os auotres, ano de publicação e a modalidade de pesquisa. Foram avaliados os resumos e as produções que atenderam aos critérios preestabelecidos, os quais foram selecionados para este estudo e lidos na íntegra. 165 Quadro 1: Distribuição dos trabalhos incluídos na revisão integrativa Título Autores Ano de Publicação Tipo de pesquisa Porque meu avô chorava: a clínica da depressão. Freitas, Roziliane Oesterreich de 2018 Tese O luto, a depressão e a psicanálise: contribuições do olhar psicanalítico acerca do sofrimento depressivo na atualidade. Madrucci, Giovanna Fonseca 2019 Dissertação O sujeito silenciado pelo discurso médico: considerações psicanalíticas acerca do diagnóstico de depressão na contemporaneidade. Herculano, Lívia Freire de Menezes 2020 Dissertação A depressão em Freud: uma análise do conceito a partir da teoria freudiana da libido. Medeiros, Alberto Antunes; Calazans, Roberto 2021 Artigo A depressão como posição subjetiva: contribuições lacanianas. Medeiros, Alberto Antunes; Calazans, Roberto 2018 Artigo A depressão como marca do mal- estar contemporâneo e sua relação com a experiência do tempo e da transitoriedade. Araújo, Anderson Barbosa de 2021 Dissertação Fonte: elaboração das autoras (2024). Após a conclusão da leitura integral dos trabalhos selecionados, organizou-se a discussão acerca da temática, com o objetivo de descrever e classificar os resultados obtidos, e avaliar o conhecimento produzido sobre o tema pesquisado. Discussão A partir das análises realizadas, é possível afirmar que existe concordância entre os atuais autores de que a concepção que impera sobre a depressão é a biomédica, de tal modo que é denominado pela Organização Mundial de Saúde como problema de saúde pública, 166 devido ao crescente número de diagnósticos. A partir dos documentos da Associação Médica Brasileira, é notável como os tratamentos só podem ser administrados por médicos na medida em que eles se dão quase que exclusivamente por via medicamentosa (Medeiros e Calazans, 2021). Ou seja, a depressão é tomada como doença, ou transtorno, que precisa ser diagnosticada e tratada, prioritariamente com medicamentos. Na busca da psiquiatria por um status científico, há um distanciamento progressivo do entendimento dos sofrimentos humanos dos contextos sociais e culturais. Com as atualizações do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM), em sua terceira edição há um desligamento da teoria psicanalítica e suas considerações quanto aos fatores dinâmicos na constituição do sofrimento, e o manual intitula-se a-teórico e inaugura um sistema multiaxial de classificações (Dunker e Neto, 2011). É possível notar que, a partir desse desligamento com a teoria psicanalítica, os manuais se distanciaram consideravelmente de qualquer perspectiva crítica e filosófica e assumiram um caráter pretensamente biológico (Martinhago & Caponi, 2019). Assim, a depressão ao ser tomada como problema médico acaba produzindo sujeitos que se tornam objeto da psiquiatria, sendo o psiquiatra o profissional que possuirá um saber sobre o fenômeno (Medeiros e Calazans, 2021). Este saber, no entanto, concebe como um adoecimento mental em que há desequilíbrios químicos, disfunções comportamentais e alterações cerebrais e, portanto o tratamento, visa ‘reequilibrar a normalidade’. Com o advento das neurociências e da farmacologia, na década de 70, o fármaco passa a ser operador e definidor do eixo de atuação da psiquiatria (Herculano, 2020). Nesta lógica, a clínica psiquiátrica torna-se submissa da farmacologia e alcança, assim, o tão esperado status científico, mas, ao mesmo tempo, perde a sua autonomia (Coser, 2003 apud Herculano 2020). A indústria farmacêutica estabelece-se de tal modo, e traça caminhos para se constituir como único modo de enfrentar, como descrito por Maria Rita Kehl, as diversas manifestações da dor de viver (Kehl, 2009 apud Madrucci, 2019). Neste sentido, a incidência de pessoas que tomam antidepressivos e outros tipos de medicação aumentam substancialmente, e seu uso fica cada vez mais comum socialmente (Madrucci, 2019). A leitura do fenômeno da depressão a partir do discurso médico, em que considera fatores estritamente biológicos, afeta não só as práticas de tratamento mas, como os próprios 167 sujeitos vão constituindo as suas formas de lidar com o sofrimento, que é inerente à vida humana. Inseridos na configuração de mundo atual em que há um culto à produtividade, ao consumo e à busca constante por felicidade e a evitação de qualquer mal-estar, os sujeitos naturalizam no discurso social uma aceleração e robotização impostas pelo capitalismo (Madrucci, 2019). Tendo isso em vista, a problemática se instaura a medida que, inseridos numa sociedade que cobra aceleração e produção em massa, os depressivos apresentam uma experiência que difere dessa lógica, uma temporalidade contra hegemônica, uma lentidão que denuncia a pressa desenfreada do mundo neoliberal (Araújo, 2021). O neoliberalismo, para além de um modelo sócio econômico, também possui lugar nesta temática. Não se é permitido sofrer pois há uma culpabilização do sujeito em não conseguir ser produtivo e adaptar-se às exigências neoliberais (Abras, 2011 apud Herculano, 2020). De acordo com Araújo (2021) a lógica neoliberal preconiza que cada sujeito seja ativo, e queira aperfeiçoar-se cada vez mais, tornando-se a versão mais produtiva de si mesmo. Como consequência direta disso, o que é negativo, o que é lento precisa ser evitado. Como resultado, a mesma sociedade que incita por meio de seus discursos a euforia e a excitação constante, com diversas oportunidades de, supostamente, alcançar a fruição completa, contribui para o aumento, de maneira avassaladora, dos casos de depressão (Kehl, 2009 apud Herculano, 2020). Neste sentido, a depressão nos denota como uma marca da expressão do mal-estar contemporâneo (Araújo, 2021). Há exigência aos sujeitos de uma determinada postura, e quando esta não é correspondida, a depressão surge como resposta do sujeito frente ao que lhe é cobrado, a saber: produtividade, felicidade, positividade, deste modo,identidades sexuais e de gênero, entre outros aspectos para uma vivência sexual saudável. Os tabus envolvendo a sexualidade frequentemente impedem a implementação de uma educação sexual abrangente nas escolas. Alguns pais, educadores e até mesmo instituições religiosas resistem à discussão aberta desses temas com os estudantes, contribuindo para a manutenção de um ambiente de silêncio e desconforto em relação à sexualidade. Soma-se a isso a ausência de formação dos professores para lidar com assuntos sensíveis ligados à sexualidade (Oltramari; Gesser, 2019). Muitos docentes não sabem como proceder diante das questões e angústias que acossam estudantes e acabam por evitar o tema 17 ou abordar as dúvidas com respostas superficiais ou mesmo equivocadas (Garbarino, 2021). O que se espera dos docentes, ao contrário, é que sejam capazes de acercar o tema da sexualidade de pessoas com ou sem deficiência de forma aberta e embasada, de modo a promover um espaço acolhedor e inclusivo (Abreu, Pederiva, 2023). Fornecer informações sobre saúde sexual e reprodutiva a pessoas com deficiência revela-se como garantia de um direito humano. Por esse motivo, deve-se pensar em recursos acessíveis – como materiais em múltiplos formatos e em linguagem simples – e em uma abordagem sensível às diferenças humanas. Promover a autonomia e a autodeterminação desses sujeitos no que diz respeito à sua sexualidade é fundamental e envolve respeitar suas escolhas e oferecer espaço para que expressem suas necessidades, desejos e limites de forma consciente e informada. Como vimos, pessoas com deficiência, sobretudo mulheres e pessoas negras, são mais vulneráveis à violência sexual, o que ocorre, dentre outros pontos de vulnerabilidade, pela ausência de informação. Os estigmas relacionados ao capacitismo, a frequente dependência em relação a cuidadores e a falta de autonomia deixam essas pessoas mais vulneráveis a abusos (Wanderer, Pedroza, 2015). Dessa forma, ainda que sejam essenciais políticas públicas abrangentes, não se pode negar a importância da educação sexual para prevenir e combater a violência, possibilitando que pessoas com deficiência reconheçam formas de abuso, compreendam seus direitos e desenvolvam capacidade de se autoproteger e fazer denúncias, sempre que necessário. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este texto teve o objetivo de analisar como normas de gênero e sexualidade impactam a educação e o desenvolvimento de pessoas com deficiência na escola, a partir de um olhar interseccional. Quisemos reforçar a importância de promover o diálogo aberto e o respeito à diversidade, assegurando que as escolas sejam ambientes seguros e inclusivos para todos os alunos, independentemente de suas características pessoais, como deficiência, gênero, orientação sexual, raça, classe ou outra. 18 Estigmas devem ser desafiados, promovendo uma visão mais inclusiva e que não perpetue preconceitos em relação à pessoa com deficiência – ou seja, uma postura anticapacitista. Isso envolve reconhecer sua autonomia, possibilidade de tomar decisões informadas e o direito a uma vida sem discriminação em todas as fases do desenvolvimento. Ao contrário da visão infantilizada das pessoas com deficiência, deve-se reconhecer que, como qualquer outra pessoa, elas podem desfrutar de vínculos saudáveis e gratificantes para além dos laços familiares diretos, além de explorar sua identidade de gênero de maneira plena. Ao retratar as pessoas com deficiência como indivíduos especiais, muitas vezes separados de suas experiências emocionais e sexuais, perpetua-se um ciclo de exclusão que não só restringe suas oportunidades, mas também prejudica o entendimento coletivo sobre a diversidade e complexidade da experiência humana. O desafio, portanto, está em desfazer esses estereótipos e promover uma visão que reconheça a plenitude e a singularidade de cada pessoa, independentemente de suas capacidades ou impedimentos físicos. REFERÊNCIAS: ABREU, Fabrício Santos Dias de; PEDERIVA, Patrícia Lima Martins. Educação em Sexualidade e Deficiência Intelectual: produção da pós-graduação brasileira (2000-2020). Revista Exitus, v. 13, p. e023001-e023001, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.24065/2237-9460.2023v13n1id1745. Acesso em: 15 de janeiro de 2025. AKOTIRENE, Karla. Interseccionalidade. São Paulo: Polém, 2019. CLÍMACO, Júlia Campos. 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Los estudiantes participaron en un grupo focal cuyos temas se relacionaron con sus experiencias educativas. De estos, dos estudiantes indígenas de la nación Kokama participaron en estudios de casos con cuatro entrevistas: abiertas, semiestruturadas, mediadas por objetos y entrevistas móviles. Se usó el análisis temático-dialógico. Los resultados indicaron que las narrativas y explicaciones se centran en el presente de las experiencias, con referencias a las trayectorias pasadas y a la formulación de planes de futuro profesional. Fueron identificados dos temas en estas trayectorias: 1. comparaciones entre la Educación Media y Superior; 2. Estudios de pregrado. Se concluye que las políticas públicas de asistencia estudiantil y la generación de espacios de negociación promueven la permanencia en la universidad. Palavras-chave: Amazonia; trayectorias educativas; educación superior; Política gubernamental; transiciones INTRODUCCIÓN En la Amazonía brasileña, las identificaciones se tejen en las relaciones entre la tierra y la vida. Ser amazónico implica múltiples identidades culturales, regionales, étnicas y raciales, en referencias geográficas o en actividades laborales de subsistencia (pesca, extracción, 4 Professor Adjunto do Instituto de Ciências Exatas e Tecnologia-ICET/ UFAM - Universidade Federal do Amazonas, Professor do Programa de Pós-graduação em Sociologia -PPGS/UFAM, professor permanente do Programa de Pós-graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia- PPGSCA /UFAM. Pós Doutor em Políticas Públicas e Governança na Educação pela UNIVERSO - Universidade Salgado de Oliveira, Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito da Faculdade de Direito da UFF,, Doutor em Ciências da Educação pela Università di Roma Tor Vergata, Itália (2014), Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais (2012), Mestre em Antropologia, Criminologia Aplicada e Análise Forense pela PUC- Pontificia Universitá Cattolica di Roma, Itália (2013), Especialista em Organização e Gestão de Serviços Sócio Sanitários em Contextos Diferenciados pela Faculdade de Sociologia da Università di Bologna, Itália (2009) e Graduado (licenciado) em Pedagogia e Psicologia pela Universidade Pedagógica de Moçambique (2007). https://vocabularies.unesco.org/browser/thesaurus/en/page/concept5185?clang=es https://vocabularies.unesco.org/browser/thesaurus/en/page/concept5185?clang=es 21 agricultura), basadas en prácticas históricas (Bolaños, 2010) y socioculturales (Bonomo, Souza, & Zandonade, 2020). Estos pueblos habitan bosques, riberas y áreas rurales, enfrentan la desigualdad socioeconómica, las largas distancias que se recorren, usualmente por río, y la sensación de estar en otro país. Como parte de minorías que viven en una amplia región, lejana de los grandes centros, estas comunidades interactúan en tensiones asimétricas con poblaciones regionales, grupos nacionales e internacionales que, generalmente, son ajenos y contrarios a los suyos, y que interfieren en su vida y supervivencia. La marginalización de sus identidades y prácticas culturales reverberan en en significados históricos de no-pertenencia, aislamiento, discriminación, invisibilización, aniquilamiento, con la conquista de sus territorios desde el periodo colonial. A lo largo de la historia de la ocupación territorial en la región amazónica, las primeras naciones brasileñas, autodenominadas indígenas (Brasil, 2023), sufrieron diferentes procesos de exterminio, mestizaje y blanqueamiento con matrimonios obligados y violaciones (Souza, 2014; Fernandes, 2015). El interés en sus riquezas naturales promovió, además, avances en la deforestación y la minería ilegal, procesos violentos de desterritorialización y desaparición de grupos enteros. Los pueblos indígenas que habitan la tríplice frontera Brasil, Perú, Colombia son heterogéneos, poseen diferentes vivencias en relación a la región que habitan, el idioma hablado y las prácticas culturales: hay aquellos quienes todavía son hablantes de la lengua nativa y aldeanos; los citadinos que reconocen sus raíces, a pesar de no ser aldeanos o haber perdido su lengua nativa; y los llamados emergentes, que, tras años de dominación y opresión cultural, experimentan una gradación en su reafirmación étnica (Lemos, 2015). Los procesos violentos modifican esos pueblos, producen interacciones desiguales en diferentes esferas que involucran contactos con personas no indígenas, políticas de salud, educación y difícil acceso a los servicios gubernamentales. En busca de educación y trabajo migran a zonas urbanas, y alternan territorios. Estos eventos modifican modos de vivir, experimentados pública y colectivamente, desencadenan rupturas comunicativas que llevan a negociaciones de significados con actualizaciones y transformaciones en las formas de sentir, expresarse y actuar de las personas. 22 El contacto con otros pueblos y naciones, cronotopos, o intersecciones espaciotemporales en grounds (tejidos semióticos estructurantes) histórico-culturales, se transforman en interhistoricidades (Segato, 2012), en espacios de inbetween (Buber, 1937). Los cronotopos indican relaciones espaciotemporales en la experiencia humana, que reverberan en sentidos para orientar la producción de significados (Volosinov, 2017), formando y siendo formados por esos grounds. Estos se interrelacionan con creencias y valores, reflexividades y actuaciones, en una época, situación y actividad. Así, implican producciones de significados que pueden extenderse a lo largo de las interacciones en el ámbito de estudio, más allá de la proximidad dada en el tejido lingüístico y de actuación. En los flujos interaccionales, las voces de los interlocutores se tocan; producen significados polifónicos en temporalidades (Bakhtin, 1996). Al posicionarse a sí mismos y posicionar al otro en situaciones socio- comunicativas producidas polifónicamente, es decir, por voces colectivo-personales en interlocución (nuevo- conocido), se iluminan un conjunto de significados y prácticas, acciones-palabras relevantes para un grupo o en las fronteras entre grupos, en territorios específicos y en desplazamientos. Así, se producen polifonías en tensiones entre lo público-privado, lo colectivo-individual, que posibilitan la identificación de significados enunciados entre prácticas conocidas y nuevas. Las dinámicas cronotópicas (Gonzalez & Barbato, 2023) promueven avances en la comprensión de cómo las personas se interpretan a sí mismas, al otro y al mundo. Estar en las fronteras genera rupturas comunicativas y crisis que desencadenan las negociaciones de significados en las transiciones. Para avanzar en la comprensión de los procesos de transición en las tensiones dadas en territorios complejos donde interactúan dos o más grupos, en las fronteras donde las culturas dialogan, se establecen relaciones entre los conceptos de dialogismo e interhistoricidad. En este proceso relacional con el Otro, nuevas posibilidades de identificación generan nuevas convencionalizaciones (Bartlett, 1995), que resultan de las negociaciones de significados y prácticas culturales en las que algunos elementos permanecen y otros se actualizan en los espacios de contacto. En los espacios de fronteras entre diferentes naciones se elaboran y crean semiosis comunes en divergencias-convergencias (Gamsakhurdia, 2020). 23 EL DERECHO A LA EDUCACIÓN El acceso y permanencia de estudiantes amazónicos a la educación básica y superior se constituyen en acciones de resistencia, que favorecen-restringen trayectorias personales y comunitarias. Aún con el procesode colonización, a lo largo de la historia, los discursos no- hegemónicos forzaron el cambio. En 1975 en Perú (Marín, 2010) y a finales de la década de 1980 en Brasil (Silva, 2019), la lucha por la educación pasó a ser protagonizada y reivindicada por los pueblos amazónicos. Con la búsqueda de una educación intercultural y descolonizadora (Rodríguez & Sicchar, 2017), esa perspectiva busca redefinir y superar patrones epistémicos de la lógica colonial (Mignolo, 2017), que impone el control epistemológico en el que sólo ciertos cuerpos, conocimientos e historias son válidos, tanto en el ejercicio legal del poder estatal como en la psique (Ferreira et al, 2019). En tensión con el saber hegemónico que sostiene el control, las políticas educativas para los pueblos indígenas se convierten en instrumentos para que los estudiantes construyan oportunidades para reclamar sus derechos, vivir a su manera, y disponer de sus saberes tradicionales (Baniwa, 2013). La garantía de los derechos de educación superior de estudiantes de estos pueblos es un desafío para las políticas públicas de derechos humanos y educación en Brasil. En 2012 se promulgó la Ley de Cuotas que reserva, en cada concurso de admisión a carreras de pregrado, al menos el 50% de las vacantes para estudiantes que hayan terminado la educación media en escuelas públicas y que se autodeclaren negros, pardos e indígenas, en proporción igual a la de minorías en la población del estado federal en el que se encuentra ubicada la institución educativa, de acuerdo con el último censo del Instituto Brasileño de Geografía y Estadística (IBGE). La presencia de la universidad federal en el interior de Amazonia avanzó en las ciudades geográficamente estratégicas para la inclusión del mayor número de personas (Fernandes, 2015). Sin embargo, la necesidad de los estudiantes de tener que migrar para estudiar, el distanciamiento del núcleo familiar de las comunidades organizadas en colectivos fuertes, sumado a las dificultades económicas, reduce posibilidades de ingresar y permanecer en sus carreras (Lima, 2018). 24 La región del río Javari, ubicada en el suroeste del Estado del Amazonas, es heterogénea en identidades multifacéticas, habitada por pueblos indígenas que se mueven, independientemente de las fronteras políticas de los estados-nación, en la Amazonía brasileña, peruana y colombiana. La figura 1 muestra la ubicación geográfica donde el estudio fue llevado a cabo, en el campus de la Universidade Federal do Amazonas (UFAM), específicamente, en la ciudad Benjamin Constant, ciudad ubicada en el Alto del rio Solimões, a 1.638 km de Manaus, fronteriza con Perú y Colombia. Figura 1 - Estado del Amazonas, municipio Benjamin Constant y fronteras Perú y Colombia. El locus de educación intercultural es multilingüe (portugués de Brasil, español, lenguas indígenas y variantes lingüísticas). Las políticas públicas permitieron el ingreso y permanencia de un gran número de estudiantes en la universidad, fomentando la positivización identitaria de esos pueblos, la superación de la marginalización, el reconocimiento de la ciudadanía y la garantía de derechos básicos fuertemente combatida, especialmente en la Constitución de 1988. En particular, la implementación de la Ley de Cuotas provocó cambios en la autodeclaración de estudiantes como de pueblos originarios. Principalmente, por la implementación de la Ordenanza 389 de 2013- Programa de Becas de Permanencia, se abrieron 25 posibilidades de ayuda estudiantil para egresados de institutos federales en situación de vulnerabilidad económica, en especial a las etnias indígenas. Las interpretaciones de estos grupos sobre sus trayectorias educativas en situaciones de interhistoricidad, que habitan pueblos en cronotopos (Bakhtin, 2003) diferenciados en interacción en un mismo territorio, poco conocidos y muy complejos culturalmente, requieren de estudios que privilegien el acceso a la producción de significados en fronteras comunicativas, como es el caso de estudios narrativos y explicativos. Así, el objetivo de este trabajo es analizar las producciones de significados sobre las trayectorias educativas en las fronteras interhistóricas de universitarios amazónicos en el campus universitario de la tríplice frontera Brasil-Perú-Colombia. MÉTODO Esta investigación es de carácter exploratorio e incorpora el uso de multimétodos cualitativos para la producción de informaciones empíricas desde diferentes perspectivas. El contacto con los participantes fue hecho por la primera autora. Para ser seleccionados, los estudiantes debían tener entre 18 y 29 años, provenientes de diferentes grupos culturales y haber cursado, al menos, un periodo completo de pregrado. Seis estudiantes, cinco del sexo masculino (tres de la etnia Kokama P1, P5, P6; dos del área rural P2, P3) y una del femenino, del área rural (P4), de los cursos de pedagogía, biología y química, participaron del grupo focal. Dos Kokama5 (P1, P5) también participaron en entrevistas individuales. Todos firmaron consentimiento informado. El proyecto fue aprobado por el consejo de ética de la UFAM. El grupo focal, con duración de una hora, fue conducido por un profesor y la primera autora, y tuvo el propósito de conocer las trayectorias educativas de los estudiantes, sus movimientos de migración para estudiar y condiciones de estudio durante el pregrado. Las entrevistas narrativas individuales, orientadas por la primera autora y un investigador adjunto. P1 y P5 participaron de cuatro modalidades de entrevistas, con un total 5 Kokama es una etnia indígena distribuida por comunidades localizadas en el alto y medio rio Solimões, en el estado del Amazonas. La población de esta etnia tiene mayor presencia en Perú (Povos Indígenas no Brasil, 2024). 26 de 101 minutos de grabación en audio. La primera sesión inició con una narrativa abierta: cuéntame la historia de tu vida; seguida de una entrevista semiestructurada, con preguntas dirigidas a las trayectorias de escolarización. Al final, se les pidió traer, al segundo encuentro, imágenes u objetos relacionados con sus trayectorias educativas y/o experiencias universitarias. En la segunda sesión se realizó entrevista mediada, en la que el participante comentaba sobre el objeto elegido, y entrevista móvil, en la que el participante eligió lugares importantes en la trayectoria escolar, en cuanto narraba y caminaba con la investigadora. Se aplicó análisis temático-dialógico a las transcripciones de las entrevistas y al grupo focal. Las informaciones en audio fueron transcritas y organizadas en secuencias, en un texto único. Cada una de las autoras analizó las informaciones y, posteriormente, fueron discutidas entre autoras para acuerdos en la tematización, consistencia y claridad en la descripción de los temas. La transcripción en un texto único secuencial garantiza el establecimiento del análisis de cada sesión, de las contribuciones individuales y de las interrelaciones entre las informaciones obtenidas de la aplicación de cada método y de los diferentes niveles de análisis, como se muestra en la figura 2. El enunciado se definió como unidad de análisis, tanto en el grupo focal, como en las entrevistas, para la secuencia de producción de significado. Este análisis requiere avanzar sobre la secuencia de transcripción y retornen para verificación, establecimiento de relaciones y diferenciación de los detalles, con el fin identificar los temas, posicionamientos y significados y establecer relaciones (flechas internas y externas de la figura 2). Primeramente, se producen parafrases, sobre lo que fue dicho por los participantes, se identifican los significados, sentidos y sus matices. Así, se establece la posibilidad de identificación de sentidos diferenciados a un mismo significado,o un mismo significado relacionado a diferentes significantes y sus polifonías. Las lecturas intensivas y horizontales posibilitan un análisis cuidadoso de cada sesión en la secuencia en que ocurren. En caso de ser necesario, se escuchan los audios para aclarar dudas. El análisis dialógico rompe los análisis tradicionales que identifican temas solo en pares adyacentes, pues se extiende al conjunto de interacciones individuales y focales, sin descontextualizarlos. 27 Para los posicionamientos Yo, otro, mundo se aplican principios del análisis pragmático del discurso, atendiendo a la fuerza con que aparecen, su disponibilidad y frecuencia, la coherencia (secuencia lógica de ideas) y la cohesión (marcadores gramaticales), con la identificación de marcadores temporales y espaciales. Figura 2 – Pasos del análisis dialógico-temático. RESULTADOS Las tensiones históricas y ambientales alteran la organización social de los pueblos y transforman las identidades en negociaciones que reverberan entre lo conocido y lo nuevo, para generar espacios comunes en las fronteras. El cronotopo amazónico genera trayectorias educativas de migración. En el cronotopo interhistórico del campus universitario, las narrativas y explicaciones se centran en el presente de las experiencias, con referencias a las trayectorias pasadas y a la formulación de planes futuros. Se identificaron dos temas: 1. Comparaciones entre la Educación Media y Superior, y 2. Estudios de pregrado. El tema 1 se basa en las experiencias de la autonomía de aprender, con enfoque en la diferencia entre las interacciones más restringidas y autoritarias en la escuela básica y la ampliación de posibilidades en la 28 educación superior. El tema 2 en la construcción el pregrado existe énfasis en la creación de espacios interhistoricos de negociaciones, que son posibles por las políticas culturales y lingüísticas en el campus universitario, como narraron los estudiantes sobre sus constantes cambios de lugar y como personas en sus trayectorias educativas y de vida. Se observó la comparación en los dos temas en polifonía, con énfasis en el momento presente, en las diferencias entre la tierra de origen y las ciudades en que vivieron y viven, mediadas por el valor de la responsabilidad de ser el único de la comunidad que puede salir para continuar sus estudios. Las polifonías aparecen en relación con las pérdidas de convivencia de la familia y las económicas, por la pobreza, así también como en el proceso educativo, la perdida de carreras que deseaban. Esto, porque ante la política de interiorización de las universidades públicas, la creación de cursos como medicina, otras áreas de la salud e ingenierías es costosa. Las ganancias son referentes, en la escuela básica, al acceso al aprendizaje del portugués, para algunos, y en el pregrado, a la convivencia con los colegas de las mismas naciones y de otras etnias, así también como con los profesores que generan posibilidades de nuevos aprendizajes. A estos procesos se articularon vivencias de inclusión y exclusión, en experiencias conocidas y diferentes. En espacios interhistoricos hay cambios de puntos de vista, que crean nuevos colectivos y concretan sentidos de pertenencia. Estos espacios, con el apoyo económico recibido a través de becas de estudio, ofrecen soporte para la continuidad en el pregrado. Las polifonías se producen también en los objetos presentados. P1 presentó un libro y relató que éste marca su trayectoria desde su municipio de origen hasta Benjamin Constant, de la educación media a la educación superior. Después de las dificultades financieras, de haber pasado hambre, el libro destaca algo bonito en su trayectoria y representa el conocimiento que adquirió, pero, principalmente, la posibilidad de transmitir ese conocimiento para otras personas. Por su parte, P5 presentó la foto de su madre con el sentido de motivación, de recordar las razones por las cuales estaba en la universidad, y así, motivarse a permanecer a pesar de las dificultades para lograr el objetivo de graduarse. 29 TRAYECTORIAS EDUCATIVAS EN EL CRONOTOPO AMAZÓNICO Figura 3 – Resultados centrales 30 En la figura 3, las flechas internas indican las tensiones entre los temas principales y significados con énfasis en el momento actual en educación superior. Las flechas externas indican las polifonías. Las experiencias de migración intermunicipal atraviesan sus trayectorias educativas (y de vida) en el acceso desde la educación básica a la universitaria. Provenientes de comunidades colectivistas, los estudiantes relatan sentirse afectados por dejar temprano su hogar, aldea y localidad natal. Migrar para estudiar produjo sentidos de abandono de la convivencia familiar, para trazar sus propias trayectorias. Viven solos y tienen más responsabilidades, sienten la diferencia y el impacto de una ciudad con relación a sus comunidades, con el deseo de volver a casa, después de concluir la educación superior. En la migración, experimentan cambios fuertes en las condiciones de socialización y desarrollo: […] no ha sido fácil ¿no? porque la gente cambia de ciudad, nuestra vida cambia completamente, nuestros hábitos cambian diariamente, cambia nuestro pensamiento, es. . . ¡la madurez! Hoy vivo solo, entonces tengo que tener una responsabilidad conmigo mismo (P4). Las actualizaciones de significados se dan por comparación y por generalización con descripción del impacto afectivo. P1 utiliza repetidamente el verbo “sufrir” y marcadores de lugar para enfatizar las diferencias. Describe el lugar donde vive y el esfuerzo por producir el espacio común urbano, comparándolo con el lugar de origen, en el que tenía prácticas de baño en el río, al aire libre. También, diferencia las expectativas de acogida en espacios como la plaza, pues en su comunidad de origen es el lugar de encuentro, mientras que en la ciudad existen restricciones por la violencia. P1 relata la dificultad de adaptación, indica el potencial abandono de la educación superior, debido al choque producido entre lo que conocía antes y lo que vive actualmente: Aquí no hay ningún lugar donde te diviertas, lo único que te divierte aquí es ir a fiesta, tú para ir a la plaza estás sujeto a que te asalten, pero donde vivo no, vas a la plaza y sigues hablando, jugando en la plaza y no está sujeto a ser asaltado. Ahora aquí no, hay estas cuestiones, como dije, no me robaron en Tonantins y vine a ser asaltado aquí, nunca pensé que sufriría esta realidad, pero sufrí aquí [...] en cuestión medio ambiental también ... el baño, aquí no tienes donde ir al baño. En Tonantins no, hay a dónde ir, baño para divertirse y entre otras cosas también [...] Al final del período viene ese deseo de tomarlo todo, dejarlo todo y volver a casa [...] Traté de adaptarme un poco a la ciudad, no me adapté mucho, yo tengo como 3 años aquí, pero no fue aquella cuestión de decir que la ciudad es esa ciudad acogedora [...] no 31 tiene ese gusto de: voy a terminar, pero me voy a quedar por aquí. ¡No! Quiero terminar e irme, mi verdadero deseo es volver a mi ciudad (P1). El proceso migratorio se extiende al cambio de cronotopo, en el que un suelo semiótico conocido lleva a transformaciones en nuevas experiencias, en cómo los dos cronotopos, el de la comunidad de origen y el de la ciudad, se producen en las interpretaciones de sí mismos, el otro y el mundo en transición. Los factores que restringen y amplían las posibilidades de sentido reflejan percepciones de sí mismo como sujeto, miembro de la comunidad, frente al desplazamiento, realizado por río en viajes de hasta 6 días. Estar lejos de casa y la pobreza se develan en el desplazamiento a la ciudad, orientando los enfrentamientos