Prévia do material em texto
1 EDUCAÇÃO ESPECIAL E INCLUSIVA 2 Sumário INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 3 UNIDADE I – FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA ................. 4 1.1. Educação Especial como modalidade transversal .................................................................. 4 1.2. Educação inclusiva e direitos humanos .................................................................................. 6 1.3. Concepções históricas da deficiência e da surdez .................................................................. 8 1.4. Marco legal da Educação Especial no Brasil ......................................................................... 11 1.5. Política Nacional de Educação Especial Inclusiva ................................................................. 14 UNIDADE II – ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO (AEE) E ORGANIZAÇÃO ESCOLAR17 2.1. Finalidade e princípios do Atendimento Educacional Especializado (AEE) .......................... 17 2.2. Estudo de caso e avaliação pedagógica ................................................................................ 19 2.3. Plano de Atendimento Educacional Especializado (PAEE) .................................................... 22 2.4. Plano Educacional Individualizado (PEI) ............................................................................... 24 2.5. Profissionais do AEE e apoio escolar .................................................................................... 26 UNIDADE III – ACESSIBILIDADE, TECNOLOGIA ASSISTIVA E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS ................ 29 3.1. Acessibilidade educacional ................................................................................................... 29 3.2. Tecnologia Assistiva na educação ......................................................................................... 31 3.3. Adaptações razoáveis e Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA)............................ 34 3.4. Avaliação inclusiva da aprendizagem ................................................................................... 36 3.5. Articulação entre AEE e sala comum .................................................................................... 38 UNIDADE IV – DIVERSIDADE, CULTURA E PÚBLICO-ALVO DA EDUCAÇÃO ESPECIAL ................... 41 4.1. Deficiência, Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Altas Habilidades/Superdotação ....... 41 4.2. Cultura, identidade e educação inclusiva ............................................................................. 43 4.3. Família, escola e rede de apoio ............................................................................................ 45 4.4. Instituições especializadas e redes colaborativas ................................................................ 48 4.5. Perspectivas contemporâneas da Educação Especial Inclusiva ............................................ 49 CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................................................. 52 REFERÊNCIAS ............................................................................................................................... 53 3 INTRODUÇÃO A Educação Especial na perspectiva da educação inclusiva constitui-se como um campo fundamental das políticas educacionais contemporâneas, orientado pelos princípios dos direitos humanos, da equidade e do reconhecimento da diversidade como elemento constitutivo da sociedade. No Brasil, esse campo vem sendo progressivamente fortalecido por marcos legais que reafirmam o direito de todas as pessoas à educação em classes comuns da rede regular de ensino, com a oferta dos apoios necessários à participação, à permanência e à aprendizagem. O presente material propõe uma abordagem sistematizada e aprofundada da Educação Especial Inclusiva, articulando fundamentos históricos, conceituais, legais e pedagógicos. Ao longo das unidades, são discutidos temas centrais como a Educação Especial enquanto modalidade transversal, o Atendimento Educacional Especializado (AEE), a acessibilidade educacional, a Tecnologia Assistiva, as adaptações razoáveis, o Desenho Universal para a Aprendizagem, a avaliação inclusiva, bem como a articulação entre escola, família, instituições especializadas e redes colaborativas. Essa organização visa oferecer subsídios teóricos e práticos para a compreensão da inclusão como processo contínuo e coletivo, que exige mudanças estruturais, pedagógicas e culturais no contexto educacional. Alinhado às diretrizes da Política Nacional de Educação Especial Inclusiva e aos Decretos nº 12.686/2025 e nº 12.773/2025, o material busca contribuir para a formação crítica dos profissionais da educação, fortalecendo práticas pedagógicas comprometidas com a justiça social, a eliminação de barreiras e a garantia do direito à educação para todos os estudantes, especialmente aqueles que compõem o público-alvo da educação especial 4 UNIDADE I – FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA INCLUSIVA 1.1. Educação Especial como modalidade transversal A Educação Especial, na perspectiva inclusiva, é compreendida no ordenamento jurídico e pedagógico brasileiro como uma modalidade de ensino transversal, que perpassa todos os níveis, etapas e modalidades da educação, desde a educação infantil até a educação superior. Essa concepção rompe com modelos segregadores historicamente consolidados e reafirma o direito das pessoas com deficiência, com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e com altas habilidades/superdotação à escolarização em classes comuns da rede regular de ensino, conforme assegurado pela Constituição Federal de 1988. A Constituição da República Federativa do Brasil, em seu artigo 208, inciso III, estabelece como dever do Estado a garantia do atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino. Tal dispositivo constitucional inaugura uma compreensão de que a Educação Especial não deve constituir um sistema paralelo, mas sim integrar-se ao sistema educacional comum, oferecendo os apoios necessários à participação plena dos estudantes público-alvo da educação especial. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996), especialmente nos artigos 58 a 60, consolida essa perspectiva ao definir a Educação Especial como modalidade transversal, reafirmando sua oferta 5 preferencial na rede regular e estabelecendo que os sistemas de ensino devem assegurar currículos, métodos, recursos e organização específicos para atender às necessidades desses estudantes. Essa transversalidade implica que a Educação Especial não se limita a um espaço físico específico, como a sala de recursos multifuncionais, mas se articula continuamente com o currículo comum. Autores como Mantoan (2003) destacam que a transversalidade da Educação Especial é condição essencial para a efetivação da educação inclusiva, pois desloca o foco da deficiência para as barreiras existentes no contexto escolar. Nessa perspectiva, não é o estudante que deve se adaptar à escola, mas a escola que deve se reorganizar para acolher a diversidade humana, reconhecendo as diferenças como constitutivas do processo educativo. A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008) já apontava para essa compreensão ao afirmar que a Educação Especial atua de forma complementar ou suplementar ao ensino comum, jamais substitutiva. Esse princípio é reafirmado e fortalecido pelos Decretos nº 12.686/2025 e nº 12.773/2025, que atualizam e consolidam a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva, enfatizando a organização de um sistema educacional inclusivo em todos os níveisrazoáveis e DUA é estratégica para a educação inclusiva. Enquanto as adaptações respondem a necessidades específicas identificadas no contexto educacional, o DUA atua de forma preventiva, reduzindo barreiras estruturais do currículo e promovendo maior flexibilidade pedagógica desde o planejamento. É fundamental que essas práticas estejam integradas ao Projeto Político- Pedagógico (PPP) da escola e às ações do Atendimento Educacional Especializado (AEE), garantindo coerência entre as propostas pedagógicas e os princípios inclusivos. Essa integração fortalece a cultura institucional da inclusão e evita práticas fragmentadas ou improvisadas. Por fim, as adaptações razoáveis e o DUA representam instrumentos pedagógicos potentes para a efetivação do direito à educação. Ao respeitar as singularidades dos estudantes e promover práticas flexíveis, essas abordagens contribuem para a construção de uma escola inclusiva, equitativa e comprometida com os direitos humanos, em consonância com a Lei nº 13.146/2015 e o Decreto nº 6.949/2009. 3.4. Avaliação inclusiva da aprendizagem A avaliação da aprendizagem, na perspectiva da educação inclusiva, deve ser compreendida como um processo contínuo, formativo e processual, voltado para o acompanhamento do desenvolvimento global do estudante. Diferentemente das abordagens tradicionais, centradas em resultados padronizados e classificatórios, a avaliação inclusiva busca compreender como o estudante aprende, quais são suas potencialidades e quais barreiras interferem em seu percurso educacional. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996) estabelece que a avaliação do rendimento escolar deve observar os critérios de 37 continuidade e cumulatividade, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos. Esse princípio legal oferece base sólida para práticas avaliativas inclusivas, que valorizam o processo de aprendizagem e não apenas o desempenho em provas ou testes padronizados. O Decreto nº 12.773, de 8 de dezembro de 2025, reforça essa concepção ao orientar que os sistemas de ensino adotem práticas avaliativas compatíveis com a educação especial na perspectiva inclusiva. O decreto enfatiza que a avaliação deve considerar as condições de acessibilidade, os recursos utilizados e as estratégias pedagógicas adotadas, evitando a responsabilização individual do estudante por barreiras que são de natureza institucional ou pedagógica. A avaliação inclusiva deve estar articulada ao currículo comum, respeitando os objetivos de aprendizagem, mas reconhecendo que os estudantes podem demonstrar seus conhecimentos de diferentes formas. Essa flexibilidade é fundamental para assegurar equidade, permitindo que cada estudante tenha oportunidades reais de expressar o que aprendeu, conforme suas características e necessidades. Autores como Hoffmann (2012) defendem que a avaliação inclusiva deve assumir caráter diagnóstico e mediador, contribuindo para a reorganização das práticas pedagógicas. Nesse sentido, avaliar não é apenas medir resultados, mas interpretar evidências de aprendizagem e utilizá-las para planejar intervenções pedagógicas mais adequadas e eficazes. No contexto da educação especial, a avaliação não deve ser utilizada como instrumento de exclusão, retenção ou encaminhamento indevido para serviços segregados. Ao contrário, ela deve orientar a oferta de apoios pedagógicos, adaptações razoáveis e recursos de acessibilidade, fortalecendo o direito à permanência e ao sucesso escolar. A articulação da avaliação inclusiva com o Plano Educacional Individualizado (PEI) e com o Plano de Atendimento Educacional Especializado (PAEE) é essencial. Esses documentos permitem registrar os critérios avaliativos, os instrumentos utilizados e os avanços observados, assegurando acompanhamento sistemático do percurso educacional do estudante. A avaliação inclusiva também exige diversificação de instrumentos, como observações, portfólios, produções individuais e coletivas, autoavaliações e registros descritivos. Essa diversidade amplia as possibilidades de compreensão 38 do desenvolvimento do estudante e reduz a centralidade de provas padronizadas, que frequentemente desconsideram a diversidade de estilos de aprendizagem. Outro aspecto fundamental é a necessidade de garantir condições de acessibilidade durante os processos avaliativos. Isso inclui tempo ampliado, uso de recursos de Tecnologia Assistiva, tradução e interpretação em Libras, formatos acessíveis de prova e adaptações nos procedimentos, sempre que necessário. A avaliação inclusiva também desempenha papel formativo para os professores, ao possibilitar reflexão crítica sobre as práticas pedagógicas e sobre a eficácia das estratégias utilizadas. Ao analisar os resultados de forma contextualizada, o professor pode identificar barreiras pedagógicas e promover ajustes no planejamento, fortalecendo a qualidade do ensino. Por fim, a avaliação inclusiva da aprendizagem constitui elemento central para a efetivação da educação especial na perspectiva inclusiva. Ao valorizar o processo, respeitar a diversidade e promover a equidade, essa abordagem avaliativa contribui para a construção de uma escola mais justa, democrática e comprometida com o direito à educação, em consonância com a LDB nº 9.394/1996 e o Decreto nº 12.773/2025. 3.5. Articulação entre AEE e sala comum A articulação entre o Atendimento Educacional Especializado (AEE) e a sala de aula comum constitui um dos pilares da educação especial na perspectiva inclusiva, sendo condição essencial para a efetividade das práticas pedagógicas voltadas ao público-alvo da educação especial. Essa articulação assegura que os apoios educacionais ofertados não ocorram de forma isolada ou paralela ao ensino regular, mas integrados ao currículo e às práticas pedagógicas da escola. O Decreto nº 12.773, de 8 de dezembro de 2025, reforça que o AEE deve ter caráter complementar e suplementar à escolarização, não substituindo o ensino regular. Nesse sentido, a atuação do professor do AEE deve estar alinhada ao trabalho desenvolvido pelo professor regente, de modo a favorecer 39 a eliminação de barreiras e a promoção da aprendizagem e da participação dos estudantes nas atividades da sala comum. A articulação pedagógica pressupõe uma compreensão compartilhada sobre os objetivos educacionais do estudante, os conteúdos trabalhados e as estratégias de ensino adotadas. Para isso, é fundamental que haja comunicação sistemática entre os profissionais envolvidos, permitindo o planejamento conjunto e o acompanhamento contínuo do percurso educacional do estudante. Autores como Glat e Pletsch (2012) destacam que a inclusão efetiva exige práticas colaborativas, nas quais o professor da classe comum e o professor do AEE atuem como parceiros no processo educativo. Essa parceria rompe com a lógica de responsabilização individual do AEE e fortalece a corresponsabilidade institucional pela aprendizagem do estudante. A equipe pedagógica e a gestão escolar desempenham papel estratégico na mediação dessa articulação, criando condições organizacionais para o trabalho colaborativo. Isso inclui a previsão de momentos de planejamento coletivo, reuniões pedagógicas, formação continuada e espaços de diálogo entre os profissionais. A articulação entre AEE e sala comum também se materializa por meio do Plano Educacional Individualizado (PEI) e do Plano de Atendimento Educacional Especializado (PAEE). Esses documentos devem ser construídos de forma integrada, refletindo as práticas desenvolvidas na sala comum e no AEE, e orientando ações pedagógicas coerentes e alinhadas aos objetivos de aprendizagem do estudante. No cotidiano escolar, essa articulação permite que os recursos de Tecnologia Assistiva, as adaptações razoáveis e as estratégiaspedagógicas diferenciadas sejam utilizadas de forma consistente, tanto no AEE quanto na sala comum. Dessa forma, evita-se a fragmentação do atendimento e garante- se continuidade nas experiências de aprendizagem do estudante. É importante ressaltar que a atuação articulada não implica transferência de responsabilidades do professor regente para o professor do AEE. O ensino do currículo comum permanece sob responsabilidade do professor da sala regular, enquanto o AEE atua no suporte pedagógico, na eliminação de barreiras e na orientação para o uso de recursos e estratégias acessíveis. 40 A articulação entre AEE e sala comum também contribui para a avaliação inclusiva da aprendizagem, pois permite que os profissionais compartilhem informações sobre o desenvolvimento do estudante e ajustem as práticas pedagógicas conforme necessário. Essa avaliação conjunta fortalece a compreensão do processo de aprendizagem e favorece intervenções pedagógicas mais eficazes. O envolvimento da família e de outros profissionais da escola pode potencializar essa articulação, ampliando a rede de apoio ao estudante. O Decreto nº 12.773/2025 incentiva a participação da família no processo educativo, reconhecendo sua importância na construção de práticas inclusivas e no acompanhamento do percurso escolar. A formação continuada dos profissionais é outro fator determinante para a efetividade da articulação entre AEE e sala comum. A compreensão dos princípios da educação inclusiva, do modelo social da deficiência e das práticas pedagógicas acessíveis fortalece o trabalho colaborativo e qualifica as intervenções educacionais. Por fim, a articulação entre AEE, sala comum e equipe pedagógica representa um compromisso institucional com a educação inclusiva. Ao garantir coerência no processo educativo e integração entre as diferentes instâncias da escola, essa articulação contribui para a efetivação do direito à educação. 41 UNIDADE IV – DIVERSIDADE, CULTURA E PÚBLICO-ALVO DA EDUCAÇÃO ESPECIAL 4.1. Deficiência, Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Altas Habilidades/Superdotação O público-alvo da educação especial, na perspectiva da educação inclusiva, é composto por pessoas com deficiência, estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e estudantes com altas habilidades/superdotação, conforme definido pela legislação educacional brasileira. O reconhecimento desses grupos representa um avanço histórico no campo das políticas públicas educacionais, ao assegurar o direito à escolarização em classes comuns da rede regular de ensino, com a oferta dos apoios necessários à aprendizagem e à participação. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996), em seus artigos 58 a 60, estabelece a Educação Especial como modalidade transversal, destinada a atender educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento — atualmente compreendidos no âmbito do TEA — e altas habilidades ou superdotação. Essa definição legal consolida o entendimento de que a educação especial não constitui um sistema paralelo, mas integra o sistema educacional comum. O Decreto nº 12.773, de 8 de dezembro de 2025, reafirma e atualiza essa concepção ao fortalecer a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva, detalhando o público-alvo e orientando os sistemas de ensino quanto à organização dos apoios educacionais. O decreto destaca que o atendimento a esses estudantes deve ser pautado por avaliações pedagógicas e pelo respeito às especificidades educacionais, culturais e sociais de cada grupo. As pessoas com deficiência são compreendidas, à luz do modelo social da deficiência, como aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, intelectual, sensorial ou múltipla, que, em interação com barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. Essa concepção, consagrada pela Lei nº 13.146/2015 e incorporada ao campo educacional, desloca o foco da limitação individual para a responsabilidade coletiva na eliminação das barreiras. 42 No contexto educacional, reconhecer as pessoas com deficiência como sujeitos de direitos implica garantir acessibilidade arquitetônica, comunicacional, pedagógica e atitudinal, bem como a oferta de recursos de Tecnologia Assistiva, adaptações razoáveis e Atendimento Educacional Especializado (AEE). Os estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) integram o público-alvo da educação especial e apresentam necessidades educacionais específicas relacionadas à comunicação, à interação social e aos padrões de comportamento. A legislação brasileira reconhece o TEA como condição que demanda apoios educacionais individualizados, respeitando a diversidade de manifestações do espectro e evitando abordagens homogêneas ou estigmatizantes. No âmbito da educação inclusiva, o atendimento aos estudantes com TEA deve priorizar estratégias pedagógicas estruturadas, comunicação acessível, previsibilidade das rotinas e apoio ao desenvolvimento socioemocional. O Decreto nº 12.773/2025 reforça que a definição dos apoios necessários deve ocorrer por meio de estudo de caso pedagógico, sem exigência de laudo médico como condição para o acesso aos serviços educacionais. As altas habilidades/superdotação referem-se a estudantes que demonstram desempenho significativamente superior à média em áreas como intelectual, acadêmica, artística, psicomotora ou de liderança, associadas à criatividade e ao envolvimento com a aprendizagem. Embora historicamente invisibilizados nas políticas educacionais, esses estudantes integram oficialmente o público-alvo da educação especial, conforme a LDB nº 9.394/1996. A educação inclusiva para estudantes com altas habilidades/superdotação demanda estratégias pedagógicas diferenciadas, enriquecimento curricular, flexibilização de tempos e percursos formativos, e estímulo ao desenvolvimento pleno de suas potencialidades. O Decreto nº 12.773/2025 reafirma a necessidade de atendimento educacional especializado também para esse grupo, rompendo com a ideia de que a educação especial se destina exclusivamente às deficiências. Autores como Renzulli (2014) e Alencar (2016) destacam que o atendimento educacional aos estudantes com altas habilidades deve promover desafios intelectuais e oportunidades de aprofundamento, evitando tanto o 43 desinteresse quanto a subutilização de suas capacidades. Nesse sentido, a educação inclusiva reconhece a diversidade de talentos como elemento enriquecedor do ambiente escolar. A compreensão integrada do público-alvo da educação especial exige o reconhecimento da diversidade humana como princípio educativo. Cada estudante apresenta características singulares, que demandam respostas pedagógicas contextualizadas e flexíveis. As políticas educacionais devem evitar classificações rígidas e priorizar práticas pedagógicas centradas no desenvolvimento e na participação. A organização escolar inclusiva deve assegurar que o Atendimento Educacional Especializado, os planos educacionais individualizados e as estratégias pedagógicas estejam alinhados às necessidades de cada estudante, independentemente de sua condição. Essa organização fortalece o direito à educação e promove ambientes escolares mais equitativos e democráticos. Por fim, reconhecer pessoas com deficiência, estudantes com TEA e com altas habilidades/superdotação como público-alvo da educação especial representa um compromisso ético, político e pedagógico com a justiça social. Ao garantir acesso, permanência, participação e aprendizagem, conforme a LDB nº 9.394/1996 e o Decreto nº 12.773/2025, a educação inclusiva consolida-se como política pública de Estado e como expressão do direito humano fundamental à educação 4.2. Cultura, identidade e educaçãoinclusiva A educação inclusiva está intrinsecamente relacionada à valorização da diversidade cultural e identitária, reconhecendo que os sujeitos que compõem o espaço escolar possuem trajetórias, pertencimentos e modos de existir diversos. Nesse sentido, compreender a relação entre cultura, identidade e educação é fundamental para a construção de práticas pedagógicas inclusivas, comprometidas com a equidade, o respeito às diferenças e o combate às diversas formas de discriminação, entre elas o capacitismo. A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU, incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro pelo Decreto nº 6.949/2009, estabelece que as pessoas com deficiência são sujeitos de direitos e integrantes 44 legítimos da diversidade humana. A Convenção reconhece que a deficiência resulta da interação entre impedimentos e barreiras sociais, culturais e atitudinais, reforçando a necessidade de transformar os contextos educacionais para garantir a participação plena e efetiva desses sujeitos. A Lei nº 13.146/2015 (Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência) aprofunda essa perspectiva ao afirmar que a inclusão social da pessoa com deficiência pressupõe o reconhecimento de sua identidade, dignidade e autonomia. No campo educacional, essa legislação orienta práticas pedagógicas que respeitem as singularidades dos estudantes e promovam o pertencimento, combatendo estigmas e estereótipos historicamente associados à deficiência. A cultura pode ser compreendida como um conjunto de significados, valores, práticas e símbolos produzidos socialmente. Conforme Stuart Hall (2006), a cultura é um campo de disputas simbólicas no qual identidades são construídas, negociadas e transformadas. No contexto escolar, essas disputas se manifestam nas formas como a diferença é percebida, aceita ou rejeitada, influenciando diretamente as práticas pedagógicas e as relações interpessoais. A identidade, por sua vez, não é fixa nem homogênea, mas construída social e historicamente a partir das interações com o outro e com o meio. No caso das pessoas com deficiência, as identidades são frequentemente atravessadas por narrativas capacitistas, que associam deficiência à incapacidade, dependência ou inferioridade. A educação inclusiva tem o papel de desconstruir essas narrativas e promover identidades positivas e afirmativas. O capacitismo configura-se como forma de discriminação baseada na ideia de que pessoas com deficiência são menos capazes ou menos produtivas. Essa lógica se manifesta de maneira explícita ou velada no cotidiano escolar, por meio de expectativas reduzidas, práticas excludentes ou negação de oportunidades de participação. Combater o capacitismo exige mudanças culturais profundas, que vão além da oferta de recursos ou adaptações pedagógicas. A valorização da diversidade cultural e identitária no ambiente escolar implica reconhecer e respeitar as diferentes formas de comunicação, expressão e aprendizagem dos estudantes. No caso da comunidade surda, por exemplo, a valorização da Língua Brasileira de Sinais (Libras) e da cultura surda constitui 45 elemento fundamental para a construção de práticas educacionais inclusivas e para o fortalecimento da identidade surda. Autores como Skliar (2015) e Perlin (2003) destacam que a educação inclusiva deve considerar as identidades culturais dos sujeitos, evitando abordagens assimilacionistas que buscam normalizar ou padronizar as diferenças. Nesse sentido, a escola inclusiva deve ser espaço de diálogo intercultural, no qual as diferenças sejam reconhecidas como fonte de aprendizagem e enriquecimento coletivo. A promoção de uma cultura escolar inclusiva demanda ações intencionais, como a revisão do currículo, a adoção de materiais didáticos representativos, a formação continuada dos profissionais da educação e a criação de espaços de escuta e participação dos estudantes. Essas ações contribuem para a construção de ambientes educacionais que respeitam a diversidade e fortalecem o sentimento de pertencimento. A educação inclusiva também se articula aos princípios dos direitos humanos, ao afirmar que todas as pessoas têm direito à educação em condições de igualdade e sem discriminação. O Decreto nº 6.949/2009 e a Lei nº 13.146/2015 reforçam que a promoção da diversidade e o respeito às identidades são condições indispensáveis para a efetivação desses direitos no contexto educacional. No âmbito das práticas pedagógicas, valorizar a diversidade cultural e identitária implica adotar metodologias que favoreçam a participação de todos, reconhecendo os saberes e experiências dos estudantes. Essa abordagem contribui para a construção de aprendizagens significativas e para o desenvolvimento de relações mais justas e solidárias no espaço escolar. Por fim, a articulação entre cultura, identidade e educação inclusiva representa um compromisso ético e político com a transformação social. Ao valorizar a diversidade e combater o capacitismo, a escola cumpre seu papel na promoção da cidadania, da justiça social e da dignidade humana, em consonância com os princípios estabelecidos pelo Decreto nº 6.949/2009 e pela Lei nº 13.146/2015. 4.3. Família, escola e rede de apoio 46 A articulação entre família, escola e rede de apoio constitui um elemento central para o desenvolvimento integral do estudante público-alvo da educação especial. A educação inclusiva reconhece que o processo educativo ultrapassa os limites da sala de aula e se constrói a partir da interação entre diferentes contextos e atores sociais, que compartilham responsabilidades na garantia do direito à educação. A família desempenha papel fundamental no percurso educacional do estudante, sendo o primeiro espaço de socialização, cuidado e construção de vínculos. No contexto da educação inclusiva, a participação ativa da família contribui para o fortalecimento do processo educativo, possibilitando maior compreensão das necessidades, potencialidades e interesses do estudante. Essa participação deve ser pautada pelo diálogo, pelo respeito mútuo e pela corresponsabilidade. O Decreto nº 12.773, de 8 de dezembro de 2025, reforça a importância da participação da família na organização e no acompanhamento das ações da educação especial inclusiva. O decreto orienta que os sistemas de ensino promovam estratégias de comunicação e envolvimento das famílias, reconhecendo-as como parceiras no processo educativo e não como meras receptoras de informações. A escola, enquanto espaço institucional de aprendizagem, tem o dever de criar condições para a participação efetiva da família no cotidiano escolar. Isso implica garantir canais de comunicação acessíveis, reuniões pedagógicas inclusivas e oportunidades de participação nos processos decisórios relacionados ao planejamento educacional, como a elaboração do Plano Educacional Individualizado (PEI). A relação entre família e escola deve ser construída com base na confiança e na cooperação, evitando práticas que responsabilizem a família pelas dificuldades enfrentadas pelo estudante ou que desconsiderem seus saberes e experiências. Conforme destacam Dessen e Polonia (2007), a parceria entre família e escola potencializa o desenvolvimento acadêmico, social e emocional dos estudantes. A rede de apoio compreende o conjunto de serviços e políticas públicas que atuam de forma articulada para atender às necessidades do estudante e de sua família. Essa rede inclui, entre outros, os serviços de saúde, assistência 47 social, cultura, esporte e direitos humanos, cuja atuação integrada contribui para o atendimento das múltiplas dimensões do desenvolvimento humano. O Decreto nº 12.773/2025 enfatiza a articulação intersetorial como diretriz da Política Nacional de Educação Especial Inclusiva. Essa articulação visa assegurarque as ações educacionais estejam alinhadas às políticas de saúde, assistência social e demais áreas, evitando sobreposições, lacunas e práticas fragmentadas que possam comprometer o atendimento ao estudante. No contexto da educação especial, a articulação intersetorial não implica subordinação da educação a diagnósticos clínicos ou pareceres externos, mas sim cooperação entre os setores, respeitando a autonomia pedagógica da escola. O estudo de caso pedagógico permanece como referência central para a definição dos apoios educacionais, conforme orienta o Decreto nº 12.773/2025. A rede de apoio também desempenha papel relevante no acesso a recursos de Tecnologia Assistiva, serviços especializados e orientações às famílias. Essa atuação integrada contribui para a promoção da autonomia, da participação social e da qualidade de vida do estudante, ampliando suas oportunidades de desenvolvimento dentro e fora do ambiente escolar. A participação da família na construção e no acompanhamento do PEI fortalece o alinhamento entre as ações pedagógicas e as vivências do estudante em outros contextos. Esse acompanhamento conjunto possibilita ajustes mais precisos nas estratégias educacionais e favorece a continuidade do processo educativo em diferentes espaços. É importante destacar que a diversidade de configurações familiares deve ser respeitada no contexto da educação inclusiva. A escola deve reconhecer e acolher diferentes arranjos familiares, evitando práticas normativas ou excludentes, e garantindo que todas as famílias tenham acesso às informações e oportunidades de participação. A formação dos profissionais da educação para o trabalho com famílias e redes de apoio é outro aspecto relevante. Essa formação deve contemplar habilidades de comunicação, mediação de conflitos e compreensão das políticas públicas intersetoriais, fortalecendo a atuação colaborativa e ética dos profissionais. 48 4.4. Instituições especializadas e redes colaborativas As instituições especializadas sem fins lucrativos historicamente desempenharam papel relevante no atendimento educacional às pessoas com deficiência no Brasil. No contexto da educação inclusiva contemporânea, essas instituições passam a ser compreendidas não mais como espaços substitutivos da escolarização regular, mas como instâncias complementares, integradas aos sistemas de ensino e articuladas às políticas públicas educacionais. O Decreto nº 12.686/2025, ao dispor sobre a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva, reafirma que a escolarização do público-alvo da educação especial deve ocorrer prioritariamente em classes comuns da rede regular de ensino. Nesse sentido, as instituições especializadas devem atuar de forma complementar e colaborativa, oferecendo apoio técnico, pedagógico e formativo às redes públicas e privadas de ensino, sem substituir o papel da escola comum. O Decreto também aprofunda as diretrizes ao estabelecer parâmetros mais claros para a atuação das instituições especializadas, destacando que sua participação deve estar integrada às políticas educacionais e aos sistemas de ensino. O decreto orienta que essas instituições contribuam com a produção de conhecimento, formação continuada de profissionais, desenvolvimento de recursos de acessibilidade e Tecnologia Assistiva, bem como apoio técnico- pedagógico às escolas. A atuação complementar das instituições especializadas pressupõe uma mudança paradigmática em relação às práticas segregadoras do passado. Conforme apontam Mantoan (2015) e Mendes (2010), a educação inclusiva exige a superação de modelos assistencialistas e a construção de redes colaborativas, nas quais diferentes atores compartilham responsabilidades na garantia do direito à educação. As redes colaborativas configuram-se como arranjos institucionais que articulam escolas regulares, serviços de Atendimento Educacional Especializado (AEE), instituições especializadas, universidades e demais políticas públicas. Essa articulação favorece a troca de saberes, a formação continuada dos profissionais e o fortalecimento das práticas pedagógicas inclusivas, evitando a fragmentação do atendimento educacional. 49 No âmbito pedagógico, as instituições especializadas podem contribuir com assessoria técnica às escolas, auxiliando na identificação de barreiras, no planejamento de estratégias pedagógicas acessíveis e no uso de recursos de Tecnologia Assistiva. Essa atuação deve respeitar a autonomia pedagógica da escola e estar alinhada ao Projeto Político-Pedagógico (PPP) e aos planos educacionais individualizados. A integração das instituições especializadas às redes colaborativas contribui para a ampliação do acesso a recursos e serviços especializados, especialmente em contextos nos quais os sistemas de ensino enfrentam desafios estruturais. No entanto, essa integração não pode justificar a transferência de responsabilidades do poder público para entidades privadas, devendo ocorrer sob regulação e acompanhamento dos sistemas de ensino. A formação continuada dos profissionais da educação é um dos campos nos quais as instituições especializadas podem atuar de forma significativa, oferecendo cursos, assessorias e materiais formativos alinhados às diretrizes da educação inclusiva. Essa formação deve enfatizar o modelo social da deficiência, os direitos humanos e as práticas pedagógicas inclusivas. A construção de redes colaborativas também fortalece a articulação intersetorial, integrando educação, saúde, assistência social e outras políticas públicas. Essa articulação amplia as possibilidades de atendimento às necessidades dos estudantes, respeitando a centralidade da escola no processo educativo. Por fim, a atuação das instituições especializadas em redes colaborativas representa uma estratégia relevante para a consolidação da educação inclusiva. Ao atuar de forma complementar, integrada e regulada, essas instituições contribuem para o fortalecimento dos sistemas de ensino e para a efetivação do direito à educação em uma perspectiva inclusiva e democrática. 4.5. Perspectivas contemporâneas da Educação Especial Inclusiva As perspectivas contemporâneas da Educação Especial Inclusiva estão fundamentadas no reconhecimento da educação como direito humano fundamental e como dever do Estado, da família e da sociedade. Essa compreensão resulta de um processo histórico de lutas sociais e avanços 50 normativos que consolidaram a inclusão como princípio ético, pedagógico e político das políticas educacionais. A Constituição Federal de 1988 estabelece, em seu artigo 208, o dever do Estado de garantir o atendimento educacional especializado às pessoas com deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino. Esse dispositivo constitucional inaugura um marco normativo que rompe com práticas segregadoras e orienta a construção de sistemas educacionais inclusivos, baseados na igualdade de direitos e oportunidades. A Lei nº 13.146/2015 (Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência) aprofunda essa perspectiva ao afirmar que a educação inclusiva deve assegurar acesso, permanência, participação e aprendizagem, em todos os níveis e modalidades de ensino. A LBI consolida o modelo social da deficiência no ordenamento jurídico brasileiro, deslocando o foco da limitação individual para a responsabilidade coletiva na eliminação de barreiras. O Decreto nº 12.773, de 8 de dezembro de 2025, representa um avanço significativo nas políticas contemporâneas de Educação Especial Inclusiva, ao atualizar e fortalecer a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva. O decreto reafirma a centralidade da escola comum como espaço de escolarização, convivência e aprendizagem, e orienta os sistemas de ensino a organizarem apoios educacionais de forma integrada e pedagógica. As políticas atuais reforçam que a educaçãoinclusiva não se restringe ao acesso físico à escola, mas envolve a transformação das práticas pedagógicas, dos currículos, das avaliações e das culturas institucionais. Conforme destaca Booth e Ainscow (2011), a inclusão é um processo contínuo de identificação e remoção de barreiras à aprendizagem e à participação. A equidade emerge como princípio central das perspectivas contemporâneas, reconhecendo que tratar de forma igual sujeitos desiguais aprofunda as desigualdades. Nesse sentido, a educação inclusiva orienta a adoção de estratégias diferenciadas, adaptações razoáveis e recursos de acessibilidade, garantindo condições justas de aprendizagem para todos os estudantes. As abordagens contemporâneas também enfatizam o papel da avaliação inclusiva, da articulação entre AEE e sala comum e da formação continuada dos profissionais da educação. 51 Outro aspecto relevante das perspectivas atuais é o fortalecimento da participação dos estudantes e das famílias nos processos educacionais. A educação inclusiva contemporânea valoriza o protagonismo dos sujeitos, reconhecendo-os como agentes ativos na construção de seus percursos educacionais e no fortalecimento das políticas públicas. As políticas contemporâneas também dialogam com a agenda internacional dos direitos humanos, reafirmando compromissos assumidos pelo Brasil em tratados e convenções internacionais. Essa articulação fortalece a educação inclusiva como política de Estado, e não como ação pontual ou dependente de governos específicos. Do ponto de vista pedagógico, as perspectivas atuais incentivam práticas baseadas no Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), no uso de Tecnologias Assistivas e na construção de currículos flexíveis e acessíveis. Essas práticas contribuem para a ampliação das oportunidades de aprendizagem e para a valorização da diversidade como princípio educativo. 52 CONSIDERAÇÕES FINAIS A análise desenvolvida ao longo deste material evidencia que a Educação Especial Inclusiva não se limita à matrícula de estudantes público-alvo da educação especial em classes comuns, mas exige a reorganização intencional dos sistemas de ensino, das práticas pedagógicas e das culturas institucionais. A inclusão educacional, conforme demonstrado, é um compromisso ético, político e pedagógico, fundamentado nos direitos humanos e na responsabilidade coletiva pela eliminação de barreiras que historicamente produziram exclusão. Os marcos legais apresentados, com destaque para a Constituição Federal de 1988, a Lei nº 9.394/1996, a Lei nº 13.146/2015 e, mais recentemente, o Decreto nº 12.773/2025, reafirmam a educação inclusiva como política pública de Estado. Esses dispositivos consolidam o modelo social da deficiência e orientam a construção de práticas educacionais baseadas na equidade, na acessibilidade e na oferta de apoios pedagógicos fundamentados em avaliações educacionais, e não em critérios clínicos ou medicalizantes. O Atendimento Educacional Especializado, os planos pedagógicos individualizados, a acessibilidade educacional, a Tecnologia Assistiva e o Desenho Universal para a Aprendizagem revelam-se instrumentos estratégicos para a efetivação da inclusão, desde que articulados ao Projeto Político- Pedagógico da escola e desenvolvidos de forma colaborativa entre os diferentes profissionais da educação. Do mesmo modo, a participação da família, a atuação das redes colaborativas e o papel complementar das instituições especializadas reforçam a necessidade de ações intersetoriais e integradas. Conclui-se que a consolidação da Educação Especial Inclusiva demanda investimentos contínuos na formação dos profissionais da educação, no fortalecimento das políticas públicas e na transformação das práticas escolares. Mais do que cumprir dispositivos legais, trata-se de construir uma escola comprometida com a dignidade humana, com a valorização das diferenças e com a promoção de oportunidades reais de aprendizagem para todos. Nesse sentido, a educação inclusiva afirma-se como caminho indispensável para a construção de uma sociedade mais justa, democrática e socialmente responsável. 53 REFERÊNCIAS ALENCAR, Eunice M. L. S. Criatividade e educação de superdotados. Petrópolis: Vozes, 2016. BERSCH, Rita. Introdução à Tecnologia Assistiva. Porto Alegre: Assistiva Tecnologia e Educação, 2017. BOOTH, Tony; AINSCOW, Mel. Index para a inclusão: desenvolvendo a aprendizagem e a participação na escola. Bristol: CSIE, 2011. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. BRASIL. Decreto nº 6.949, de 25 de agosto de 2009. Promulga a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). BRASIL. Decreto nº 12.686, de 20 de outubro de 2025. Institui a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva e a Rede Nacional de Educação Especial Inclusiva. BRASIL. Decreto nº 12.773, de 8 de dezembro de 2025. Atualiza e altera dispositivos da Política Nacional de Educação Especial Inclusiva. CARVALHO, Rosita Edler. Educação inclusiva: com os pingos nos “is”. Porto Alegre: Mediação, 2019. DESSEN, Maria Auxiliadora; POLONIA, Ana da Costa. A família e a escola como contextos de desenvolvimento humano. Paideia, Ribeirão Preto, v. 17, n. 36, 2007. GALVÃO FILHO, Teófilo Alves. Tecnologia assistiva: favorecendo o desenvolvimento e a aprendizagem. São Paulo: Cortez, 2019. GLAT, Rosana; BLANCO, Leila de Macedo Varela. Educação especial no contexto da educação inclusiva. In: GLAT, Rosana (org.). Educação inclusiva: cultura e cotidiano escolar. Rio de Janeiro: 7Letras, 2007. GLAT, Rosana; PLETSCH, Márcia Denise. Inclusão escolar de alunos com necessidades educacionais especiais. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2012. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. HOFFMANN, Jussara. Avaliar para promover: as setas do caminho. Porto Alegre: Mediação, 2012. 54 MANTOAN, Maria Teresa Eglér. Inclusão escolar: o que é? por quê? como fazer? São Paulo: Moderna, 2003. MANTOAN, Maria Teresa Eglér. O desafio das diferenças nas escolas. Petrópolis: Vozes, 2015. MENDES, Enicéia Gonçalves. A radicalização do debate sobre inclusão escolar no Brasil. Revista Brasileira de Educação, v. 15, n. 45, 2010. PERLIN, Gladis. Identidade surda. Porto Alegre: Mediação, 2003. QUADROS, Ronice Müller de. Educação de surdos: a aquisição da linguagem. Porto Alegre: Artmed, 2004. RENZULLI, Joseph S. The schoolwide enrichment model. Mansfield Center: Creative Learning Press, 2014. ROSE, David H.; MEYER, Anne. Teaching every student in the digital age: Universal Design for Learning. Alexandria: ASCD, 2002. SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão: construindo uma sociedade para todos. Rio de Janeiro: WVA, 2010. SKLIAR, Carlos. A surdez: um olhar sobre as diferenças. Porto Alegre: Mediação, 1998. SKLIAR, Carlos. Educação & exclusão: abordagens socioantropológicas em educação especial. Porto Alegre: Mediação, 2015. STROBEL, Karin Lilian. As imagens do outro sobre a cultura surda. Florianópolis: UFSC, 2008.de ensino. O Decreto nº 12.686/2025 institui a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva e a Rede Nacional de Educação Especial Inclusiva, reforçando que a Educação Especial deve ser organizada de forma articulada aos sistemas de ensino, garantindo acessibilidade, apoios pedagógicos, tecnologia assistiva e profissionais qualificados. Já o Decreto nº 12.773/2025 promove ajustes significativos, reafirmando a inclusão como direito subjetivo do estudante e detalhando mecanismos pedagógicos para sua efetivação. Nesse sentido, a transversalidade da Educação Especial implica a corresponsabilidade de todos os profissionais da educação. O professor regente da classe comum, o professor do Atendimento Educacional Especializado (AEE), a equipe gestora e os demais profissionais da escola devem atuar de forma integrada, planejando coletivamente estratégias que assegurem a aprendizagem, a participação e a permanência dos estudantes público-alvo da educação especial. A literatura contemporânea, representada por autores como Carvalho (2019) e Glat e Blanco (2007), reforça que a transversalidade exige mudanças 6 estruturais e culturais nas instituições escolares. Não se trata apenas de inserir o estudante com deficiência na escola regular, mas de promover transformações no currículo, nas práticas pedagógicas, nos processos avaliativos e na organização do trabalho escolar, de modo a eliminar barreiras e promover a equidade. Outro aspecto fundamental da Educação Especial como modalidade transversal diz respeito à avaliação educacional. A avaliação, nessa perspectiva, deve ser contínua, formativa e contextualizada, considerando o desenvolvimento global do estudante e não apenas resultados padronizados. Essa orientação encontra respaldo tanto na LDB quanto nos princípios da educação inclusiva reafirmados pelo Decreto nº 12.773/2025, que enfatiza práticas pedagógicas centradas no estudante. Por fim, compreender a Educação Especial como modalidade transversal significa reconhecer que a inclusão educacional é um compromisso ético, político e pedagógico do Estado e da sociedade. Essa compreensão está alinhada à Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro com status constitucional pelo Decreto nº 6.949/2009, e reafirmada pelas legislações mais recentes, que consolidam a educação inclusiva como direito humano fundamental. 1.2. Educação inclusiva e direitos humanos A educação inclusiva constitui-se como um desdobramento direto dos direitos humanos, fundamentando-se no princípio da dignidade da pessoa humana e no reconhecimento da diversidade como característica inerente à condição humana. Nessa perspectiva, a educação deixa de ser concebida como privilégio ou concessão e passa a ser afirmada como direito universal, devendo ser garantida a todos, sem discriminação de qualquer natureza, inclusive em razão de deficiência, transtornos do desenvolvimento ou altas habilidades/superdotação. O paradigma dos direitos humanos promove uma mudança significativa na compreensão da educação, ao deslocar o foco do indivíduo para o contexto social e institucional. Conforme afirmam Sassaki (2010) e Mantoan (2015), a exclusão educacional não decorre das limitações do sujeito, mas das barreiras 7 impostas pelos ambientes físicos, pedagógicos, comunicacionais e atitudinais. Assim, a educação inclusiva assume como princípio central a identificação e a eliminação dessas barreiras, assegurando condições equitativas de acesso, participação e aprendizagem. A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro pelo Decreto nº 6.949/2009 com status de emenda constitucional, representa um marco fundamental nesse processo. O artigo 24 da Convenção estabelece que os Estados Partes devem assegurar um sistema educacional inclusivo em todos os níveis, garantindo que as pessoas com deficiência não sejam excluídas do sistema educacional geral sob alegação de deficiência. Esse dispositivo reafirma a educação inclusiva como direito humano inalienável. A partir da Convenção, consolida-se o entendimento de que a igualdade não se traduz em tratamento idêntico, mas em equidade, isto é, na oferta de apoios diferenciados conforme as necessidades específicas de cada estudante. Essa concepção rompe com práticas homogeneizadoras e legitima a adoção de estratégias pedagógicas flexíveis, adaptações razoáveis e recursos de acessibilidade, como forma de promover justiça educacional. No contexto brasileiro, a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) reforça essa compreensão ao estabelecer que a deficiência resulta da interação entre impedimentos de longo prazo e barreiras que limitam a participação plena e efetiva na sociedade. A LBI amplia o conceito de acessibilidade, incluindo dimensões arquitetônicas, comunicacionais, tecnológicas, metodológicas e atitudinais, todas diretamente relacionadas ao ambiente escolar. A educação inclusiva, sob a ótica dos direitos humanos, exige que os sistemas de ensino adotem práticas pedagógicas comprometidas com o respeito às diferenças e com a promoção da autonomia dos estudantes. Conforme destacam Glat e Pletsch (2012), a inclusão não se resume à matrícula em classes comuns, mas envolve a construção de práticas pedagógicas que reconheçam as singularidades dos estudantes e favoreçam o desenvolvimento de suas potencialidades. Outro aspecto central da educação inclusiva é o combate ao capacitismo, entendido como forma de discriminação baseada na ideia de incapacidade ou 8 inferioridade das pessoas com deficiência. O capacitismo manifesta-se, muitas vezes, de forma sutil nas expectativas reduzidas em relação ao desempenho escolar desses estudantes. A abordagem dos direitos humanos contribui para desconstruir essas concepções, reafirmando o potencial de aprendizagem de todos. A promoção da educação inclusiva também demanda a formação ética e política dos profissionais da educação, para que compreendam a inclusão como compromisso coletivo e não como responsabilidade exclusiva de especialistas. Nesse sentido, a legislação vigente orienta que a educação inclusiva seja incorporada aos projetos político-pedagógicos das instituições, fortalecendo práticas colaborativas e interdisciplinares. A perspectiva dos direitos humanos reforça ainda a importância da participação da família e da comunidade no processo educacional. A escola inclusiva deve estabelecer relações de parceria com os diferentes atores sociais, reconhecendo que a construção de uma cultura inclusiva extrapola os limites da sala de aula e envolve transformações mais amplas na sociedade. Por fim, a educação inclusiva, fundamentada nos direitos humanos, consolida-se como instrumento de promoção da cidadania e da justiça social. Ao assegurar igualdade de oportunidades educacionais, contribui para a redução das desigualdades históricas e para a construção de uma sociedade mais democrática, plural e solidária. Tal perspectiva encontra respaldo tanto na Convenção da ONU quanto na Lei Brasileira de Inclusão, que orientam a formulação de políticas públicas e práticas pedagógicas comprometidas com a efetivação dos direitos educacionais de todos os estudantes. Assim, a articulação entre educação inclusiva e direitos humanos reafirma que garantir o acesso, a permanência e a aprendizagem dos estudantes público- alvo da educação especial não é apenas uma opção pedagógica, mas uma obrigação legal, ética e social, que deve orientar as ações do Estado, das instituições educacionais e da sociedade como um todo. 1.3. Concepções históricas da deficiência e da surdez A compreensão da deficiência e da surdez ao longo da história passou por profundas transformações conceituais, epistemológicas e sociais.Durante 9 séculos, predominou uma visão marcada por estigmas, preconceitos e práticas de exclusão, nas quais a deficiência era associada à incapacidade, à anormalidade ou mesmo à punição divina. Essas concepções influenciaram diretamente as formas de tratamento social e educacional dispensadas às pessoas com deficiência e às pessoas surdas. No contexto da modernidade, consolidou-se o chamado modelo clínico- terapêutico, também conhecido como modelo médico da deficiência. Nessa perspectiva, a deficiência é entendida como um problema individual, localizado no corpo ou na mente do sujeito, devendo ser tratado, corrigido ou reabilitado por meio de intervenções médicas, terapêuticas e educacionais especializadas. A educação, nesse modelo, assume um caráter compensatório, buscando normalizar o indivíduo para que se aproxime dos padrões considerados “adequados” pela sociedade. No caso específico da surdez, o modelo clínico-terapêutico manifestou-se de forma intensa por meio do oralismo, abordagem educacional que defendia o desenvolvimento exclusivo da língua oral e da leitura labial, proibindo o uso das línguas de sinais. Conforme destacam Skliar (1998) e Quadros (2004), essa concepção desconsiderava a língua de sinais como sistema linguístico legítimo e negligenciava os aspectos culturais e identitários da comunidade surda. 10 A partir da segunda metade do século XX, emergem críticas contundentes ao modelo clínico, impulsionadas por movimentos sociais de pessoas com deficiência e por estudos acadêmicos nas áreas da sociologia, da educação e dos estudos culturais. Nesse contexto, desenvolve-se o modelo social da deficiência, que desloca o foco da limitação individual para as barreiras físicas, comunicacionais, pedagógicas e atitudinais presentes na sociedade. A deficiência passa a ser compreendida como resultado da interação entre impedimentos e ambientes excludentes. No âmbito da surdez, essa mudança conceitual dá origem à abordagem socioantropológica, que reconhece as pessoas surdas como integrantes de uma comunidade linguística e cultural específica, com identidade própria, valores compartilhados e uma língua visual-gestual legítima. Autores como Perlin (2003) e Strobel (2008) destacam que a surdez, nessa perspectiva, não é uma deficiência a ser corrigida, mas uma diferença cultural que deve ser respeitada e valorizada. O avanço dessas concepções encontra respaldo jurídico na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, promulgada no Brasil pelo Decreto nº 6.949/2009. A Convenção afirma que a deficiência resulta da interação entre pessoas com impedimentos e as barreiras que impedem sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. Esse entendimento rompe definitivamente com a ideia de deficiência como atributo exclusivamente individual. A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) aprofunda essa concepção ao incorporar o modelo social da deficiência ao ordenamento jurídico brasileiro. A LBI define a pessoa com deficiência a partir da relação entre impedimentos de longo prazo e barreiras, reforçando a necessidade de políticas públicas voltadas à eliminação dessas barreiras, especialmente nos campos da educação, do trabalho e da participação social. No campo educacional, a adoção do modelo social e socioantropológico implica a revisão das práticas pedagógicas, dos currículos e das formas de avaliação. A escola deixa de ser um espaço de adaptação do estudante à norma e passa a assumir o compromisso de se reorganizar para atender à diversidade humana. Esse princípio orienta a construção de sistemas educacionais 11 inclusivos, conforme preconizado pela Convenção da ONU e pela legislação brasileira vigente. É importante destacar que essas concepções não se substituem de forma linear ou homogênea. Ainda coexistem, na prática social e educacional, resquícios do modelo clínico-terapêutico, especialmente quando se exige laudo médico como condição para o acesso a direitos educacionais. Nesse sentido, a legislação atual atua como instrumento normativo para orientar a superação dessas práticas excludentes. No caso da surdez, a perspectiva socioantropológica fortalece a defesa do bilinguismo, reconhecendo a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como primeira língua das pessoas surdas e a Língua Portuguesa, na modalidade escrita, como segunda língua. Essa abordagem contribui para a valorização da identidade surda e para a construção de práticas educacionais mais equitativas e culturalmente sensíveis. Assim, compreender as concepções históricas da deficiência e da surdez é fundamental para analisar criticamente as práticas educacionais contemporâneas e para fundamentar a construção de políticas públicas inclusivas. A transição do modelo clínico para o modelo social e socioantropológico representa um avanço significativo na garantia de direitos, na promoção da equidade e na consolidação de uma educação comprometida com a diversidade e com os direitos humanos. 1.4. Marco legal da Educação Especial no Brasil O marco legal da Educação Especial no Brasil consolida-se como um conjunto articulado de normas constitucionais, infraconstitucionais e regulamentares, que fundamentam a educação inclusiva como política pública de Estado e como direito fundamental. Esse arcabouço normativo reflete avanços históricos no reconhecimento das pessoas com deficiência, com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e com altas habilidades/superdotação como sujeitos de direitos, assegurando-lhes acesso, permanência, participação e aprendizagem em igualdade de condições no sistema educacional. A Constituição Federal de 1988 representa o marco inaugural desse processo ao estabelecer, no artigo 208, inciso III, o dever do Estado de garantir 12 o atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino. Tal dispositivo constitucional rompe com a lógica assistencialista e segregadora que marcou períodos anteriores e introduz o princípio da inclusão como diretriz estruturante da política educacional brasileira. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB nº 9.394/1996 aprofunda essa concepção ao dedicar os artigos 58 a 60 à Educação Especial. A LDB define a Educação Especial como modalidade transversal, ofertada preferencialmente na rede regular de ensino, e estabelece que os sistemas educacionais devem assegurar currículos, métodos, recursos e organização específicos para atender às necessidades dos estudantes público-alvo da educação especial. A lei reafirma, assim, a responsabilidade do poder público na promoção de condições equitativas de escolarização. O fortalecimento do marco legal inclusivo ocorre de forma significativa com a incorporação da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, promulgada pelo Decreto nº 6.949/2009, com status de emenda constitucional. A Convenção estabelece, em seu artigo 24, o direito a um sistema educacional inclusivo em todos os níveis, vedando a exclusão de pessoas com deficiência do ensino regular sob qualquer justificativa. Esse instrumento internacional influencia diretamente a formulação das políticas educacionais brasileiras contemporâneas. A promulgação da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015), também conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência, representa um avanço decisivo na consolidação do marco legal da educação inclusiva. A LBI adota explicitamente o modelo social da deficiência, definindo-a como resultado da interação entre impedimentos e barreiras, e estabelece deveres claros ao poder público quanto à acessibilidade, às adaptações razoáveis e à oferta de apoios educacionais adequados. No campo específico da educação, a LBI determina que o sistema educacional deveser inclusivo em todos os níveis e modalidades, assegurando recursos de acessibilidade, tecnologia assistiva, profissionais de apoio escolar e práticas pedagógicas que promovam a autonomia e a participação dos estudantes. Essa lei reforça a compreensão de que a Educação Especial não se configura como espaço separado, mas como conjunto de serviços e apoios articulados ao ensino comum. 13 Mais recentemente, o Decreto nº 12.686, de 20 de outubro de 2025, institui a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva e a Rede Nacional de Educação Especial Inclusiva, reafirmando o compromisso do Estado brasileiro com a construção de um sistema educacional inclusivo. O decreto organiza diretrizes, princípios e objetivos voltados à garantia do direito à educação do público-alvo da educação especial, fortalecendo a articulação entre os sistemas de ensino e as instituições especializadas sem fins lucrativos. O Decreto nº 12.773, de 8 de dezembro de 2025, promove alterações relevantes no Decreto nº 12.686/2025, consolidando e detalhando mecanismos para a efetivação da educação especial inclusiva. Entre as atualizações mais significativas, destacam-se o reforço da matrícula em classes comuns, a explicitação do caráter pedagógico do estudo de caso, a obrigatoriedade do Plano de Atendimento Educacional Especializado (PAEE) e do Plano Educacional Individualizado (PEI), bem como sua integração ao Projeto Político- Pedagógico da escola. Esse decreto também avança ao estabelecer parâmetros para a formação dos profissionais que atuam no Atendimento Educacional Especializado e no apoio escolar, além de reforçar que a oferta de apoios educacionais não deve estar condicionada à apresentação de laudos médicos. Tal orientação representa um alinhamento direto com o modelo social da deficiência e com os princípios da Convenção da ONU, evitando práticas excludentes e burocráticas. Do ponto de vista das políticas públicas, o marco legal vigente consolida a Educação Especial Inclusiva como responsabilidade compartilhada entre União, estados, Distrito Federal e municípios. A legislação prevê apoio técnico e financeiro, inclusive por meio de recursos do Fundeb, para garantir a implementação das ações necessárias à efetivação do direito à educação inclusiva em todo o território nacional. Autores como Mantoan (2015), Carvalho (2019) e Glat (2020) destacam que a consolidação desse marco legal exige não apenas normativas avançadas, mas também mudanças culturais e institucionais profundas. A efetividade das leis depende da formação dos profissionais da educação, do compromisso das equipes gestoras e da participação ativa da comunidade escolar na construção de uma cultura inclusiva. 14 1.5. Política Nacional de Educação Especial Inclusiva A Política Nacional de Educação Especial Inclusiva constitui um dos principais instrumentos normativos e orientadores da organização dos sistemas de ensino no Brasil, ao estabelecer diretrizes, princípios e estratégias voltadas à garantia do direito à educação do público-alvo da educação especial. Essa política reafirma a educação inclusiva como política pública de Estado, fundamentada nos direitos humanos, na equidade e no reconhecimento da diversidade como elemento constitutivo da sociedade. A formulação da Política Nacional de Educação Especial Inclusiva está ancorada em compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, especialmente a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, que orienta os Estados Partes a assegurarem sistemas educacionais inclusivos em todos os níveis. Nesse sentido, a política nacional traduz esses compromissos em diretrizes concretas para a organização dos sistemas educacionais, superando práticas excludentes e segregadoras historicamente presentes na educação especial. O Decreto nº 12.686, de 20 de outubro de 2025, institui formalmente a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva e a Rede Nacional de Educação Especial Inclusiva, estabelecendo como princípio central a matrícula do público-alvo da educação especial em classes e escolas comuns da rede regular de ensino, com a oferta dos apoios necessários à participação, 15 permanência e aprendizagem. Esse decreto reforça a educação inclusiva como eixo estruturante das políticas educacionais brasileiras. A política nacional orienta os sistemas de ensino a estruturarem redes colaborativas, envolvendo União, estados, Distrito Federal e municípios, bem como instituições especializadas sem fins lucrativos, de forma complementar. Essa articulação em rede busca garantir a capilaridade das ações, o compartilhamento de responsabilidades e a otimização de recursos humanos, pedagógicos e financeiros, fortalecendo a implementação da educação inclusiva em todo o território nacional. Outro eixo fundamental da Política Nacional de Educação Especial Inclusiva é a acessibilidade, entendida de forma ampla, abrangendo dimensões arquitetônicas, comunicacionais, pedagógicas, tecnológicas e atitudinais. A política reconhece que a eliminação de barreiras é condição indispensável para a efetivação do direito à educação, devendo os sistemas de ensino adotar medidas que assegurem ambientes escolares acessíveis e acolhedores para todos os estudantes. No âmbito pedagógico, a política enfatiza o papel do Atendimento Educacional Especializado (AEE) como serviço complementar e suplementar ao ensino comum. O AEE é concebido como espaço de planejamento, organização e oferta de recursos e estratégias que favoreçam o acesso ao currículo, sem substituir a escolarização na classe comum. Essa concepção reafirma o caráter transversal da Educação Especial e a centralidade do ensino regular no processo educativo. A política nacional também reforça a articulação intersetorial como estratégia para o atendimento integral dos estudantes público-alvo da educação especial. Educação, saúde, assistência social e demais políticas públicas devem atuar de forma integrada, respeitando as competências de cada área, mas evitando a fragmentação das ações e a responsabilização exclusiva da escola por demandas que extrapolam o campo pedagógico. Outro aspecto relevante diz respeito à formação dos profissionais da educação. A Política Nacional de Educação Especial Inclusiva orienta a garantia de formação inicial e continuada para professores, gestores e profissionais de apoio escolar, com foco na educação inclusiva, na acessibilidade e no uso de tecnologias assistivas. Essa formação é condição essencial para a efetivação 16 das diretrizes da política e para a superação de práticas excludentes no cotidiano escolar. A política também estabelece parâmetros para o financiamento da educação especial inclusiva, prevendo a utilização de recursos públicos, inclusive do Fundeb, para assegurar a implementação das ações necessárias à oferta do AEE, da acessibilidade e dos apoios educacionais. Esse aspecto reforça o compromisso do Estado com a sustentabilidade das políticas inclusivas e com a garantia do direito à educação em condições de igualdade. Do ponto de vista teórico, autores como Mantoan (2015), Glat e Pletsch (2012) e Carvalho (2019) destacam que a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva representa um avanço ao deslocar o foco da deficiência para o contexto educacional, promovendo uma lógica de corresponsabilidade entre os diferentes atores envolvidos no processo educativo. A política, nesse sentido, não se limita a normatizar práticas, mas busca induzir transformações culturais nas instituições escolares. 17 UNIDADE II – ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO (AEE) E ORGANIZAÇÃO ESCOLAR 2.1. Finalidade e princípios do Atendimento Educacional Especializado (AEE) O Atendimento Educacional Especializado (AEE) constitui-se como um dos principaisinstrumentos pedagógicos da Educação Especial na perspectiva inclusiva, assumindo papel estratégico na garantia do direito à educação do público-alvo da educação especial. Conforme estabelece a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996), o AEE deve ser ofertado de forma complementar e suplementar à escolarização, jamais substituindo o ensino regular, reafirmando a centralidade da classe comum como espaço prioritário de aprendizagem. A finalidade primordial do AEE é identificar, elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade que eliminem ou minimizem as barreiras que dificultam a participação plena e a aprendizagem dos estudantes. Essas barreiras podem ser de natureza física, comunicacional, pedagógica, tecnológica ou atitudinal, e sua superação é condição indispensável para a efetivação da educação inclusiva, conforme orientam os princípios dos direitos humanos e da equidade educacional. Do ponto de vista conceitual, o AEE está diretamente vinculado ao modelo social da deficiência, adotado pela legislação brasileira contemporânea. Nesse 18 modelo, a deficiência não é compreendida como atributo individual do estudante, mas como resultado da interação entre impedimentos de longo prazo e barreiras impostas pelo ambiente escolar. Assim, o AEE direciona suas ações para o contexto educacional, buscando transformá-lo de modo a torná-lo acessível e inclusivo. A LDB nº 9.394/1996, em seu artigo 58, define a Educação Especial como modalidade transversal e estabelece que o AEE deve ocorrer, preferencialmente, na rede regular de ensino. Essa orientação reforça a compreensão de que o AEE não se configura como espaço paralelo ou segregado, mas como serviço pedagógico articulado ao currículo comum, contribuindo para a construção de práticas educativas mais equitativas. Entre os princípios fundamentais do AEE destaca-se o princípio da complementaridade, segundo o qual o atendimento especializado complementa o ensino regular ao oferecer recursos e estratégias que favoreçam o acesso ao currículo. Esse princípio implica que o conteúdo trabalhado no AEE não substitui nem antecipa o currículo comum, mas apoia o estudante no enfrentamento das barreiras que dificultam sua aprendizagem no contexto da sala de aula regular. O princípio da suplementaridade, por sua vez, refere-se à oferta de recursos específicos que ampliam as possibilidades de desenvolvimento do estudante, especialmente no que diz respeito à autonomia, à comunicação e ao uso de tecnologias assistivas. Esses recursos podem incluir materiais adaptados, sistemas de comunicação alternativa, softwares acessíveis, entre outros, sempre definidos a partir de avaliação pedagógica contextualizada. Outro princípio central do AEE é o da individualização do atendimento, que reconhece a singularidade de cada estudante. Conforme orienta o Decreto nº 12.773/2025, o planejamento do AEE deve basear-se em estudo de caso pedagógico, considerando as potencialidades, necessidades e contextos do estudante, sem a exigência de laudos médicos como condição para a oferta dos apoios educacionais. O AEE também se fundamenta no princípio da articulação pedagógica. Isso significa que o trabalho desenvolvido no atendimento especializado deve estar em constante diálogo com o professor da classe comum, a equipe pedagógica e a gestão escolar. Essa articulação é essencial para garantir 19 coerência entre as estratégias adotadas no AEE e as práticas pedagógicas do ensino regular, evitando a fragmentação do processo educativo. Autores como Mantoan (2015) e Glat e Pletsch (2012) destacam que a efetividade do AEE depende da superação de uma lógica assistencialista e da compreensão de seu caráter eminentemente pedagógico. O AEE não se destina à reabilitação clínica nem à correção de déficits, mas à promoção da aprendizagem e da participação, por meio da reorganização do ambiente escolar e das práticas educativas. Outro princípio relevante do AEE é o da equidade, que orienta a oferta de apoios diferenciados conforme as necessidades específicas de cada estudante. Diferentemente da igualdade formal, a equidade reconhece que tratar desigualmente os desiguais é condição para a justiça educacional, assegurando que todos tenham oportunidades reais de aprendizagem e desenvolvimento. O AEE também deve observar o princípio da acessibilidade universal, promovendo condições que garantam a participação dos estudantes em todas as atividades escolares. Esse princípio está alinhado à Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) e é reforçado pelo Decreto nº 12.773/2025, que incentiva o uso de tecnologias assistivas e adaptações razoáveis no contexto educacional. Por fim, a finalidade e os princípios do AEE reafirmam que a educação inclusiva não se efetiva apenas por meio da matrícula em classes comuns, mas exige a organização de serviços pedagógicos especializados que apoiem o estudante em seu percurso educacional. O AEE, nesse sentido, constitui elemento estruturante da organização escolar inclusiva, orientando práticas pedagógicas comprometidas com a diversidade, a equidade e os direitos humanos, em consonância com a legislação vigente e com os princípios fundamentais da educação brasileira. 2.2. Estudo de caso e avaliação pedagógica O estudo de caso constitui-se como instrumento pedagógico central no âmbito da Educação Especial na perspectiva inclusiva, assumindo papel fundamental na identificação das necessidades educacionais dos estudantes público-alvo da educação especial. Diferentemente de práticas tradicionais baseadas em diagnósticos clínicos, o estudo de caso tem natureza 20 eminentemente educacional, orientando a tomada de decisões pedagógicas a partir da análise contextualizada do processo de ensino e aprendizagem. A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) estabelece que a deficiência resulta da interação entre impedimentos e barreiras, reforçando que a avaliação das necessidades educacionais deve considerar o contexto e não apenas as características individuais do estudante. Nesse sentido, o estudo de caso desloca o foco da deficiência para o ambiente escolar, permitindo identificar quais barreiras estão interferindo na participação e na aprendizagem. O Decreto nº 12.773/2025 consolida esse entendimento ao explicitar que o estudo de caso é o fundamento pedagógico para a definição dos apoios educacionais, do Atendimento Educacional Especializado (AEE) e da necessidade de profissional de apoio escolar. O decreto reforça que a oferta desses serviços não depende da apresentação de laudo clínico ou diagnóstico médico, rompendo com práticas burocráticas que historicamente limitaram o acesso aos direitos educacionais. Do ponto de vista conceitual, o estudo de caso pode ser compreendido como um processo sistemático de investigação pedagógica, que envolve a coleta, a análise e a interpretação de informações sobre o estudante, seu contexto escolar, familiar e social. Conforme destacam Glat e Blanco (2007), trata-se de um instrumento que permite compreender a singularidade do estudante sem reduzi-lo a rótulos diagnósticos, valorizando suas potencialidades e trajetórias de aprendizagem. A avaliação pedagógica, nesse contexto, assume caráter processual, formativo e contínuo, diferindo das avaliações classificatórias ou meramente quantitativas. Ela busca compreender como o estudante aprende, quais estratégias favorecem sua participação e quais adaptações são necessárias para garantir o acesso ao currículo comum. Essa abordagem está alinhada aos princípios da educação inclusiva e aos direitos humanos. O estudo de caso deve ser construído de forma coletiva e interdisciplinar, envolvendo o professor da classe comum, o professor do AEE, a equipe pedagógica e, sempre que possível, a famíliado estudante. Essa construção coletiva favorece uma visão ampliada do processo educativo, evitando decisões isoladas e promovendo corresponsabilidade entre os diferentes atores da escola. 21 Entre os elementos que compõem o estudo de caso, destacam-se: o histórico escolar do estudante, suas experiências de aprendizagem, as estratégias pedagógicas já utilizadas, as barreiras identificadas no ambiente escolar, os recursos disponíveis e as necessidades de acessibilidade. Esses elementos subsidiam a elaboração de planos pedagógicos individualizados, como o Plano de Atendimento Educacional Especializado (PAEE) e o Plano Educacional Individualizado (PEI). É importante ressaltar que o estudo de caso não tem caráter estático. Ao contrário, ele deve ser constantemente revisitado e atualizado, acompanhando o desenvolvimento do estudante e as mudanças em seu contexto educacional. A dispensa da exigência de laudo clínico para a oferta de apoios educacionais representa um avanço significativo no campo da educação inclusiva. Conforme apontam Mantoan (2015) e Carvalho (2019), a centralidade do laudo médico reforça uma visão clínica da deficiência e pode resultar em práticas excludentes. O estudo de caso, ao contrário, valoriza a avaliação pedagógica como base legítima para a organização do atendimento educacional. No âmbito da avaliação pedagógica, destaca-se também a importância da avaliação das barreiras e não apenas das dificuldades do estudante. Essa mudança de perspectiva contribui para a construção de práticas pedagógicas mais inclusivas, ao responsabilizar a escola pela criação de condições adequadas de ensino e aprendizagem, conforme orienta a legislação vigente. Outro aspecto relevante é que o estudo de caso deve respeitar os princípios da ética, da confidencialidade e do respeito à dignidade do estudante. As informações coletadas devem ser utilizadas exclusivamente para fins pedagógicos, evitando exposições desnecessárias ou estigmatizantes. Essa orientação está em consonância com os princípios da Lei Brasileira de Inclusão e com os direitos fundamentais assegurados pela Constituição Federal. Por fim, o estudo de caso e a avaliação pedagógica, enquanto instrumentos centrais do AEE, contribuem para a efetivação da educação inclusiva ao orientar decisões fundamentadas, contextualizadas e comprometidas com a equidade. Ao substituir a lógica classificatória pela lógica pedagógica, esses instrumentos fortalecem a autonomia da escola, promovem práticas educativas mais justas e asseguram que os apoios educacionais sejam 22 ofertados com base nas reais necessidades dos estudantes, em consonância com o Decreto nº 12.773/2025 e com a Lei nº 13.146/2015. 2.3. Plano de Atendimento Educacional Especializado (PAEE) Fonte: Sandra Schmittel - Linkedin O Plano de Atendimento Educacional Especializado (PAEE) configura-se como um instrumento pedagógico central no âmbito da Educação Especial na perspectiva inclusiva, sendo responsável por organizar, sistematizar e orientar as ações do Atendimento Educacional Especializado oferecido aos estudantes público-alvo da educação especial. Sua finalidade é assegurar que os apoios, recursos e estratégias pedagógicas sejam planejados de forma intencional, coerente e articulada ao ensino regular. 23 O Decreto nº 12.773, de 8 de dezembro de 2025, ao atualizar a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva, confere ao PAEE um papel normativo explícito, estabelecendo sua obrigatoriedade como documento pedagógico permanente. O decreto determina que o PAEE seja elaborado com base no estudo de caso pedagógico e que esteja integrado ao Projeto Político- Pedagógico (PPP) da escola, reforçando seu caráter institucional e coletivo, e não apenas individual ou setorial. Do ponto de vista conceitual, o PAEE pode ser compreendido como um plano de ação pedagógica que define quais estratégias, recursos, serviços e tecnologias assistivas serão utilizados no AEE para eliminar barreiras que dificultam o acesso, a participação e a aprendizagem do estudante. Ele não substitui o currículo comum, mas atua de forma complementar e suplementar, apoiando o estudante em seu percurso educacional na classe regular. A elaboração do PAEE deve partir de uma avaliação pedagógica contextualizada, fundamentada no estudo de caso, conforme orienta o Decreto nº 12.773/2025. Esse estudo considera não apenas as características do estudante, mas também as condições do ambiente escolar, as práticas pedagógicas adotadas e as barreiras existentes. Assim, o PAEE assume uma perspectiva relacional, alinhada ao modelo social da deficiência e aos princípios da educação inclusiva. Autores como Glat e Pletsch (2012) destacam que o planejamento pedagógico individualizado, quando integrado ao projeto coletivo da escola, contribui para a superação de práticas fragmentadas e assistencialistas. O PAEE, nesse sentido, não deve ser entendido como um documento isolado do trabalho escolar, mas como parte integrante da organização pedagógica da instituição, dialogando com o currículo, a avaliação e as práticas da sala comum. Um dos princípios fundamentais do PAEE é a flexibilidade. O plano deve ser continuamente revisado e atualizado, acompanhando o desenvolvimento do estudante, as mudanças em suas necessidades educacionais e as transformações no contexto escolar. A construção do PAEE deve ocorrer de forma colaborativa, envolvendo o professor do AEE, o professor da classe comum, a equipe pedagógica e, sempre que possível, a família do estudante. Essa construção coletiva favorece a coerência entre as ações desenvolvidas no AEE e as práticas pedagógicas da 24 sala regular, promovendo a corresponsabilidade pelo processo educativo e fortalecendo a cultura inclusiva da escola. No que se refere ao conteúdo do PAEE, este deve contemplar, entre outros elementos, a descrição das barreiras identificadas, os objetivos educacionais do atendimento, as estratégias pedagógicas a serem utilizadas, os recursos de acessibilidade e tecnologia assistiva necessários, bem como os critérios de acompanhamento e avaliação das ações implementadas. Esses elementos garantem que o atendimento seja planejado de forma sistemática e orientada por objetivos claros. A integração do PAEE ao Projeto Político-Pedagógico da escola confere legitimidade institucional ao atendimento educacional especializado e assegura que as ações do AEE estejam alinhadas às diretrizes, valores e objetivos educacionais da instituição. Essa integração também favorece o monitoramento das práticas inclusivas e a avaliação contínua das políticas implementadas no âmbito escolar. Do ponto de vista ético e pedagógico, o PAEE deve ser orientado pelos princípios da equidade, da autonomia e do respeito à dignidade do estudante. O plano não deve reduzir o estudante às suas dificuldades, mas reconhecer suas potencialidades, interesses e formas singulares de aprender, contribuindo para o desenvolvimento integral e para a ampliação de sua participação no contexto escolar. Por fim, o Plano de Atendimento Educacional Especializado constitui um instrumento estratégico para a efetivação da educação inclusiva, ao articular planejamento pedagógico, legislação e práticas educacionais. Ao organizar de forma sistemática as ações do AEE e integrá-las ao projeto coletivo da escola, o PAEE contribui para a construção de ambientes educacionais mais acessíveis, equitativos e comprometidos com os direitos humanos, em consonância com as diretrizes estabelecidas pelo Decreto nº 12.773/2025. 2.4. Plano Educacional Individualizado (PEI) O Plano Educacional Individualizado (PEI) configura-se como um instrumento pedagógico essencial na organização da Educação Especial na perspectiva inclusiva, orientando o percurso educacional do estudante público- 25 alvoda educação especial. O PEI tem como finalidade assegurar que o processo de ensino e aprendizagem considere as singularidades do estudante, suas potencialidades, necessidades educacionais específicas e objetivos de aprendizagem, com foco na autonomia, na participação e no desenvolvimento integral. O Decreto nº 12.773, de 8 de dezembro de 2025, atribui ao PEI caráter normativo explícito, estabelecendo-o como documento pedagógico obrigatório no contexto da educação especial inclusiva. O decreto determina que o PEI seja elaborado a partir do estudo de caso pedagógico e articulado ao Plano de Atendimento Educacional Especializado (PAEE) e ao Projeto Político- Pedagógico (PPP) da escola, reforçando sua função estratégica na organização das práticas educacionais. A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) fundamenta juridicamente o PEI ao afirmar que a educação deve garantir a participação plena e efetiva das pessoas com deficiência em igualdade de condições com as demais. Nesse sentido, o PEI materializa o princípio da equidade ao orientar a adoção de estratégias pedagógicas diferenciadas, adaptações razoáveis e recursos de acessibilidade que viabilizem o acesso ao currículo comum. Do ponto de vista conceitual, o PEI não se limita a um registro de adaptações curriculares, mas constitui um plano pedagógico dinâmico, que orienta o trabalho educativo de forma contínua e processual. Conforme destacam Glat e Pletsch (2012), o planejamento individualizado deve ser compreendido como estratégia para ampliar oportunidades de aprendizagem, e não como mecanismo de segregação ou redução das expectativas educacionais. A elaboração do PEI deve considerar uma avaliação pedagógica ampla, baseada no estudo de caso, que identifique as barreiras presentes no contexto escolar e as estratégias necessárias para superá-las. Essa avaliação inclui aspectos cognitivos, comunicacionais, sociais, emocionais e funcionais do estudante, sempre em diálogo com as práticas pedagógicas da sala de aula comum e com as ações do AEE. Um princípio fundamental do PEI é a centralidade do estudante. O plano deve partir das potencialidades e interesses do aluno, e não apenas de suas 26 dificuldades, promovendo o protagonismo e a participação ativa no processo educativo. Essa orientação está alinhada ao modelo social da deficiência e aos princípios da educação inclusiva, que reconhecem o estudante como sujeito de direitos e de aprendizagem. A construção do PEI deve ocorrer de forma colaborativa, envolvendo o professor da classe comum, o professor do AEE, a equipe pedagógica, a gestão escolar e, sempre que possível, a família e o próprio estudante. Essa colaboração favorece a coerência entre as ações planejadas e as práticas efetivamente desenvolvidas no cotidiano escolar, fortalecendo a corresponsabilidade pelo processo educacional. O PEI deve contemplar objetivos educacionais claros, definidos a curto, médio e longo prazo, bem como estratégias pedagógicas específicas, recursos de acessibilidade e critérios de acompanhamento e avaliação. Esses elementos permitem monitorar o desenvolvimento do estudante e realizar ajustes no planejamento sempre que necessário, garantindo a flexibilidade do plano. O Decreto nº 12.773/2025 reforça que o PEI deve ser continuamente atualizado, acompanhando o percurso educacional do estudante e as transformações em suas necessidades e contextos. Essa atualização contínua evita a cristalização de práticas e assegura que o planejamento permaneça pertinente e eficaz ao longo do tempo. É importante destacar que o PEI não depende da apresentação de laudo clínico para sua elaboração ou implementação. Essa orientação representa um avanço significativo na superação da lógica médico-clínica na educação especial, valorizando a avaliação pedagógica como base legítima para a organização do ensino e para a oferta de apoios educacionais. No contexto da organização escolar, o PEI contribui para a articulação entre o currículo comum e as ações do AEE, promovendo práticas pedagógicas inclusivas e evitando a fragmentação do processo educativo. Ao orientar o trabalho pedagógico de forma integrada, o PEI fortalece a construção de uma escola comprometida com a diversidade e com a equidade. 2.5. Profissionais do AEE e apoio escolar 27 A atuação dos profissionais no Atendimento Educacional Especializado (AEE) e no apoio escolar constitui elemento central para a efetivação da educação especial na perspectiva inclusiva. Esses profissionais desempenham papel estratégico na organização dos apoios pedagógicos, na eliminação de barreiras e na promoção da participação e da aprendizagem dos estudantes público-alvo da educação especial, exigindo formação adequada, compromisso ético e atuação articulada com o projeto pedagógico da escola. O Decreto nº 12.773, de 8 de dezembro de 2025, ao atualizar a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva, estabelece parâmetros mais claros quanto à formação, às atribuições e à atuação dos profissionais que integram o AEE e o apoio escolar. O decreto reafirma que esses profissionais devem atuar de forma pedagógica, evitando a reprodução de práticas assistencialistas ou de caráter clínico-terapêutico no contexto educacional. O professor do AEE é reconhecido como profissional da educação responsável por planejar, executar e avaliar as ações do atendimento educacional especializado. Sua atuação não se limita ao atendimento direto ao estudante, mas envolve a organização de recursos pedagógicos, o uso de tecnologias assistivas, a orientação aos professores da classe comum e a participação ativa na elaboração do Plano de Atendimento Educacional Especializado (PAEE) e do Plano Educacional Individualizado (PEI). De acordo com o Decreto nº 12.773/2025, a atuação no AEE exige formação inicial docente, acrescida de formação continuada específica em educação especial inclusiva, acessibilidade e tecnologias assistivas, conforme parâmetros definidos pelo Ministério da Educação. Essa exigência reforça a compreensão de que o AEE é um campo de atuação pedagógica especializada, que demanda conhecimentos teóricos e práticos específicos. Autores como Mantoan (2015) e Glat e Pletsch (2012) ressaltam que a formação dos profissionais do AEE deve estar orientada pelo modelo social da deficiência e pelos princípios da educação inclusiva. Isso implica compreender a deficiência como resultado da interação entre impedimentos e barreiras, e não como atributo individual do estudante, direcionando a atuação profissional para a transformação do contexto escolar. Além do professor do AEE, o profissional de apoio escolar desempenha função relevante no processo de inclusão educacional. Esse profissional atua no 28 suporte às atividades de alimentação, higiene, locomoção, comunicação e participação do estudante nas atividades escolares, sempre com foco na promoção da autonomia e da independência, e não na substituição do estudante em suas ações. No que se refere à formação do profissional de apoio escolar, o decreto estabelece a exigência de formação mínima e de formação continuada, conforme diretrizes do Ministério da Educação. Essa exigência reconhece que o apoio escolar não se trata de função meramente operacional, mas de atuação integrada ao processo educativo, que requer conhecimentos básicos sobre inclusão, acessibilidade e desenvolvimento humano. A atuação articulada entre professor do AEE, profissional de apoio escolar e professor da classe comum é condição essencial para a efetividade da educação inclusiva. Essa articulação favorece o alinhamento das estratégias pedagógicas, evita a fragmentação do atendimento e fortalece a corresponsabilidade pelo processo educativo, conforme orientam as diretrizes da Política Nacional de Educação Especial Inclusiva.Do ponto de vista ético, a atuação desses profissionais deve ser orientada pelo respeito à dignidade, à autonomia e à singularidade do estudante. O apoio escolar não deve gerar dependência excessiva nem limitar a interação do estudante com seus pares, mas promover condições para sua participação ativa nas atividades escolares e sociais. Outro aspecto relevante diz respeito à inserção desses profissionais no Projeto Político-Pedagógico (PPP) da escola, garantindo coerência entre as práticas inclusivas e as diretrizes pedagógicas da escola como um todo. A formação continuada dos profissionais do AEE e do apoio escolar deve ser entendida como processo permanente, que acompanhe as transformações nas políticas públicas, nas concepções de deficiência e nas práticas pedagógicas. Essa formação deve contemplar temas como educação inclusiva, direitos humanos, acessibilidade, tecnologias assistivas, avaliação pedagógica e trabalho colaborativo. 29 UNIDADE III – ACESSIBILIDADE, TECNOLOGIA ASSISTIVA E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS 3.1. Acessibilidade educacional Fonte: CIVIAM A acessibilidade educacional constitui princípio estruturante da educação inclusiva, sendo compreendida como o conjunto de condições que possibilitam o acesso, a permanência, a participação e a aprendizagem de todos os estudantes no ambiente escolar. Trata-se de um conceito amplo e multidimensional, que ultrapassa a eliminação de barreiras físicas e envolve transformações pedagógicas, comunicacionais, tecnológicas e atitudinais, de modo a garantir igualdade de oportunidades educacionais. No âmbito das políticas públicas, a acessibilidade educacional está diretamente vinculada ao modelo social da deficiência, segundo o qual as limitações enfrentadas pelas pessoas com deficiência decorrem, em grande medida, das barreiras impostas pelo meio. Assim, promover acessibilidade significa reorganizar o ambiente escolar para que ele se torne responsivo à diversidade humana, reconhecendo que as diferenças fazem parte da condição humana e não devem ser motivo de exclusão. A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) define acessibilidade como a possibilidade e condição de alcance, percepção e uso, com segurança e autonomia, de espaços, mobiliários, equipamentos urbanos, edificações, transportes, informação e comunicação. No 30 contexto educacional, essa definição implica a necessidade de ações planejadas e contínuas para eliminar barreiras que dificultam o processo educativo dos estudantes público-alvo da educação especial. As barreiras arquitetônicas referem-se aos obstáculos físicos presentes nas edificações escolares, como escadas sem rampas, ausência de elevadores, sanitários não adaptados e mobiliário inadequado. A eliminação dessas barreiras é condição básica para garantir o acesso e a circulação dos estudantes, mas não é suficiente, por si só, para assegurar a inclusão educacional. A acessibilidade arquitetônica deve ser compreendida como parte de um conjunto mais amplo de ações inclusivas. As barreiras comunicacionais dizem respeito às dificuldades de acesso à informação e à comunicação no ambiente escolar. Essas barreiras afetam, por exemplo, estudantes surdos, cegos ou com deficiência intelectual, quando não há oferta de recursos como Língua Brasileira de Sinais (Libras), materiais em braille, textos ampliados, comunicação alternativa ou tecnologias assistivas. A superação dessas barreiras é essencial para garantir a participação efetiva dos estudantes nas atividades pedagógicas. As barreiras pedagógicas estão relacionadas às práticas de ensino, aos currículos rígidos, às metodologias homogêneas e aos processos avaliativos excludentes. Conforme apontam Mantoan (2015) e Carvalho (2019), a acessibilidade pedagógica exige a flexibilização do currículo, o uso de estratégias diversificadas de ensino e a adoção de avaliações que considerem os diferentes ritmos e estilos de aprendizagem dos estudantes. As barreiras atitudinais, por sua vez, são frequentemente as mais difíceis de identificar e superar, pois estão associadas a preconceitos, estigmas e expectativas reduzidas em relação às capacidades dos estudantes com deficiência. O capacitismo, entendido como forma de discriminação baseada na suposta inferioridade da pessoa com deficiência, manifesta-se no cotidiano escolar por meio de atitudes que limitam a participação e o desenvolvimento dos estudantes. A promoção da acessibilidade educacional implica, portanto, a transformação das atitudes e das culturas institucionais. O Decreto nº 12.773, de 8 de dezembro de 2025, ao atualizar a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, reafirma a acessibilidade como eixo estruturante da organização dos sistemas de ensino. 31 O documento estabelece que a acessibilidade deve ser assegurada de maneira integrada, contemplando recursos físicos, pedagógicos, comunicacionais e tecnológicos, com o objetivo de promover ambientes educacionais inclusivos em todas as etapas e modalidades da educação. Nesse contexto, a acessibilidade educacional mantém relação direta com o Projeto Político-Pedagógico (PPP) da escola. As iniciativas destinadas à eliminação de barreiras precisam estar incorporadas ao planejamento institucional, orientando a estruturação do currículo, das práticas pedagógicas e da gestão escolar. Essa articulação garante que a acessibilidade seja compreendida como um princípio permanente da organização escolar, e não como uma ação isolada ou circunstancial. Sob a perspectiva pedagógica, assegurar acessibilidade implica reconhecer que a diversidade dos estudantes demanda respostas educacionais diferenciadas. A escola inclusiva deve adotar práticas que ampliem a participação de todos, por meio do uso de recursos didáticos acessíveis, estratégias colaborativas de ensino e tecnologias assistivas, em articulação contínua com o Atendimento Educacional Especializado (AEE). A formação dos profissionais da educação constitui outro aspecto fundamental para a efetivação da acessibilidade educacional. Professores, gestores e demais trabalhadores da educação precisam compreender as múltiplas dimensões da acessibilidade e desenvolver competências para identificar e superar barreiras presentes no cotidiano escolar. Por fim, a acessibilidade educacional deve ser entendida como processo contínuo e dinâmico, que exige monitoramento, avaliação e aprimoramento constantes. Ao eliminar barreiras e promover condições equitativas de ensino e aprendizagem, a escola contribui para a efetivação do direito à educação, para a promoção da justiça social e para a construção de uma sociedade mais inclusiva, plural e comprometida com os direitos humanos. 3.2. Tecnologia Assistiva na educação A Tecnologia Assistiva (TA) constitui um campo interdisciplinar fundamental para a efetivação da educação inclusiva, sendo compreendida como o conjunto de recursos, serviços, estratégias e práticas que visam ampliar 32 a funcionalidade, a autonomia e a participação das pessoas com deficiência, transtornos do espectro autista e altas habilidades/superdotação nos diferentes contextos sociais, especialmente no ambiente educacional. De acordo com a Lei nº 13.146/2015 (Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência), a Tecnologia Assistiva é definida como uma área do conhecimento, de característica interdisciplinar, que engloba produtos, equipamentos, dispositivos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade relacionada à atividade e à participação, visando à autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social. Essa definição reforça o papel central da TA na garantia do direito à educação. No contexto escolar, a Tecnologia Assistiva assume caráter eminentementepedagógico, pois se destina a eliminar ou minimizar barreiras que dificultam o acesso ao currículo, à comunicação, à informação e à interação social. Dessa forma, a TA não deve ser compreendida apenas como instrumento tecnológico sofisticado, mas como qualquer recurso ou estratégia que favoreça a aprendizagem e a participação do estudante, desde materiais de baixo custo até tecnologias digitais avançadas. O Decreto nº 12.773, de 8 de dezembro de 2025, ao atualizar a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva, reafirma a Tecnologia Assistiva como eixo estruturante da organização do Atendimento Educacional Especializado (AEE). O decreto estabelece que os sistemas de ensino devem garantir a oferta de recursos de TA de forma articulada às práticas pedagógicas da sala de aula comum, evitando a fragmentação do processo educativo e assegurando a complementaridade do AEE. A utilização da Tecnologia Assistiva deve estar baseada em avaliação pedagógica, realizada por meio do estudo de caso, que identifique as necessidades educacionais específicas do estudante e as barreiras presentes no contexto escolar. Essa avaliação orienta a seleção, a adaptação ou o desenvolvimento dos recursos de TA mais adequados, respeitando as características, potencialidades e interesses do estudante. Entre os recursos de Tecnologia Assistiva utilizados na educação, destacam-se os recursos de acessibilidade comunicacional, como a Língua Brasileira de Sinais (Libras), sistemas de comunicação alternativa e aumentativa, 33 leitores de tela, softwares de voz, materiais em braille e textos ampliados. Esses recursos são fundamentais para garantir o acesso à informação e à comunicação, especialmente para estudantes surdos, cegos ou com deficiência intelectual. Também são amplamente utilizados os recursos de acessibilidade pedagógica, como pranchas de comunicação, materiais concretos adaptados, jogos acessíveis, aplicativos educacionais inclusivos e tecnologias digitais que permitem a personalização do ensino. Conforme apontam Bersch (2017) e Galvão Filho (2019), esses recursos favorecem a participação ativa do estudante e ampliam suas possibilidades de aprendizagem. A Tecnologia Assistiva desempenha papel relevante na promoção da autonomia e da independência do estudante, contribuindo para o desenvolvimento de habilidades funcionais e para a participação nas atividades escolares em igualdade de condições com os demais alunos. Essa perspectiva está alinhada ao princípio da educação inclusiva, que valoriza o protagonismo do estudante e sua inserção plena no ambiente escolar. A implementação da Tecnologia Assistiva exige formação específica dos profissionais da educação, especialmente dos professores do AEE e da classe comum. O Decreto nº 12.773/2025 reforça a necessidade de formação inicial e continuada voltada ao uso pedagógico da TA, assegurando que os recursos não sejam subutilizados ou utilizados de forma inadequada, o que poderia comprometer seu potencial inclusivo. Outro aspecto relevante é a articulação da Tecnologia Assistiva com o Plano Educacional Individualizado (PEI) e com o Plano de Atendimento Educacional Especializado (PAEE). Esses documentos pedagógicos devem registrar os recursos e estratégias de TA utilizados, bem como os objetivos educacionais associados ao seu uso, garantindo coerência e continuidade nas práticas pedagógicas. É fundamental destacar que a Tecnologia Assistiva não substitui o trabalho pedagógico, mas o potencializa. O recurso, por si só, não garante a aprendizagem; é a mediação pedagógica qualificada que possibilita ao estudante apropriar-se do conhecimento. Nesse sentido, a TA deve ser integrada às práticas pedagógicas cotidianas, e não utilizada de forma isolada ou exclusivamente no espaço do AEE. 34 Por fim, a Tecnologia Assistiva na educação representa um instrumento estratégico para a promoção da equidade, da acessibilidade e da justiça social. Ao ampliar as possibilidades de participação e aprendizagem dos estudantes público-alvo da educação especial, a TA contribui para a construção de uma escola inclusiva, comprometida com os direitos humanos e com os princípios estabelecidos pela Lei nº 13.146/2015 e pelo Decreto nº 12.773/2025. 3.3. Adaptações razoáveis e Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) Fonte: InfoApren As adaptações razoáveis e o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) constituem fundamentos pedagógicos essenciais para a consolidação da educação inclusiva, orientando práticas flexíveis que respeitam as singularidades dos estudantes e asseguram o direito à aprendizagem em igualdade de condições. Ambos os conceitos estão alinhados ao paradigma dos direitos humanos e ao modelo social da deficiência, ao reconhecer que é o contexto educacional que deve se adaptar à diversidade humana, e não o contrário. A Lei nº 13.146/2015 (Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência) define adaptações razoáveis como modificações e ajustes necessários e adequados que não acarretem ônus desproporcional ou indevido, quando requeridos em um caso concreto, para assegurar às pessoas com deficiência o gozo ou exercício de direitos em igualdade de oportunidades. No 35 contexto educacional, essas adaptações assumem caráter pedagógico e organizacional, incidindo sobre metodologias, recursos, tempos e formas de avaliação. As adaptações razoáveis não devem ser compreendidas como concessões individuais ou privilégios, mas como instrumentos de equidade, que visam compensar desigualdades produzidas pelas barreiras existentes no ambiente escolar. Conforme destaca Mantoan (2015), adaptar é garantir condições justas de aprendizagem, respeitando os diferentes modos de aprender e participar, sem reduzir expectativas ou empobrecer o currículo. No campo pedagógico, as adaptações razoáveis podem envolver flexibilizações curriculares, uso de recursos acessíveis, ajustes no tempo para realização de atividades e avaliações, bem como a diversificação das estratégias de ensino. Essas medidas devem estar fundamentadas em avaliação pedagógica contínua e registradas em documentos como o Plano Educacional Individualizado (PEI), assegurando coerência e intencionalidade pedagógica. O Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) amplia essa perspectiva ao propor que o currículo seja planejado, desde sua concepção, para atender à diversidade de estudantes, reduzindo a necessidade de adaptações posteriores. Inspirado no conceito de desenho universal da arquitetura, o DUA busca criar ambientes de aprendizagem acessíveis para todos, reconhecendo a variabilidade humana como regra, e não como exceção. O DUA estrutura-se em três princípios fundamentais: múltiplas formas de representação, múltiplas formas de ação e expressão e múltiplas formas de engajamento. Esses princípios orientam a oferta de diferentes maneiras de apresentar os conteúdos, de permitir que os estudantes demonstrem suas aprendizagens e de promover a motivação e o envolvimento no processo educativo. Ao adotar o DUA, o professor amplia as possibilidades de acesso ao currículo, favorecendo não apenas os estudantes público-alvo da educação especial, mas todos os alunos. Essa abordagem rompe com práticas pedagógicas homogêneas e contribui para a construção de ambientes educacionais mais democráticos e inclusivos, conforme defendem Rose e Meyer (2002), principais teóricos do DUA. 36 A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU, incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro pelo Decreto nº 6.949/2009, reforça a obrigação dos Estados de assegurar sistemas educacionais inclusivos em todos os níveis, o que inclui a adoção de adaptações razoáveis e de abordagens pedagógicas que promovam a acessibilidade e a participação plena dos estudantes com deficiência. A articulação entre adaptações