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GLOBALIZAÇÃO E GOVERNANÇA AULA 6 Profª Thaíse Kemer 2 CONVERSA INICIAL O objetivo da presente aula é aprofundar o conhecimento sobre a governança global no contexto dos sistemas comercial e financeiro internacional. Nesse sentido, a Organização Mundial do Comércio é explorada em maiores detalhes, com vistas a conhecer tanto suas origens e pilares quanto o debate contemporâneo que se desenvolve em torno de sua rodada atual de negociações: a Rodada Doha. Além disso, a aula trata do sistema financeiro internacional, com foco na atuação do G20 Financeiro, grupo formado em 1999 que, com a crise financeira internacional de 2008, ganhou maior proeminência global. Por fim, a aula traz um estudo de caso prático sobre o Banco dos BRICS, o qual evidencia o impacto da governança global nas sociedades contemporâneas. TEMA 1 – SURGIMENTO DA OMC O regime do comércio internacional contemporâneo tem um importante marco no contexto pós-Segunda Guerra. De fato, em 1948, no contexto da Conferência de Havana, foram empreendidos esforços para a criação de uma Organização Internacional de Comércio. No entanto, naquele momento, as divergências entre os participantes da conferência impediram o surgimento dessa organização. Assim, o regime comercial internacional passou a funcionar em conformidade com o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (cujo acrônimo em inglês é GATT), que havia sido criado em 1947, com o intuito de dar as diretrizes e os princípios que guiariam o comércio internacional a partir de então. Em 1994, com as mudanças do pós-Guerra Fria, o resgate da proposta institucional original resultou na fundação da Organização Mundial do Comércio (OMC). Desde então, a OMC tornou-se a principal instância da governança do comércio internacional. A OMC chega aos dias atuais com a maior parte dos Estados da sociedade internacional como membros. 3 Saiba mais Para refletir sobre a OMC, sugerimos: RAMANZINI JUNIOR, H.; VIANA, M. T. Países em desenvolvimento em uma ordem internacional em transformação: coalizões e soluções de disputas na OMC. Disponível em: . Acesso em: 22 jul. 2017. TEMA 2 – PILARES DA OMC A atuação da OMC baseia-se em três pilares: (1) as negociações multilaterais de liberalização do comércio internacional, (2) os mecanismos de revisão periódica das políticas comerciais nacionais e; (3) o sistema de solução de controvérsias. O primeiro pilar, o das negociações multilaterais, encontra-se bastante aquém de suas pretensões iniciais. De fato, o primeiro acordo no âmbito da OMC, o Acordo de Facilitação de Comércio, foi atingido somente em 2013. O segundo pilar refere-se aos mecanismos de revisão periódica das políticas comerciais nacionais, medida que visa identificar se os países membros estão atuando em conformidade com as normativas da OMC. O terceiro pilar, o sistema de solução de controvérsias da OMC, é bastante efetivo, tendo, em pouco mais de 20 anos, resolvido litígios comerciais das mais diversas ordens (PEREIRA, 2012). Além disso, esse pilar evidencia o grau de aderência das regras da governança global no tema do comércio internacional: mesmo Estados com grandes recursos de poder, como os EUA, devem aceitar as decisões da OMC, as quais são pautadas por critérios técnicos. A ascensão econômica dos países emergentes, portanto, ocorre em meio a um contexto institucional comercial cujas regras apresentam elevada capacidade de executoriedade (PEREIRA, 2012). Saiba mais Para saber mais sobre a solução de controvérsias da OMC, sugerimos: VARELLA, M. D. Efetividade do Órgão de Solução de Controvérsias da Organização Mundial do Comércio: uma análise sobre os seus doze primeiros anos de existência e das propostas para seu aperfeiçoamento. Disponível em: . Acesso em: 22 jul. 2017. 4 TEMA 3 – A RODADA DOHA As negociações da OMC são organizadas em rodadas de negociação, que são intervalos de tempo nos quais os Estados membros da OMC debatem temas específicos. A atual rodada de negociação é a “Rodada Doha”, que recebeu esse nome por ter sido iniciada na cidade de Doha, capital do Catar, em 2001. Em particular, a Rodada Doha tem como objetivos reformar o sistema internacional de comércio por meio da introdução de tarifas de comércio mais baixas e regras de comércio revisadas (WTO, 2017). Essa Rodada também é conhecida como “Rodada de Doha para o Desenvolvimento”, pois um de seus objetivos fundamentais é o de melhorar as perspectivas de comércio dos países em desenvolvimento (WTO, 2017). Em 2003, os países membros da OMC reuniram-se na cidade de Cancún, no México. Havia muita expectativa em torno dessa reunião, pois se esperava alcançar um acordo sobre temas bastante sensíveis, como agricultura, bens industrializados, comércio e serviços. A negociação entrou em uma situação de impasse, pois os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento não chegaram a um acordo sobre esses temas. É importante ressaltar que o Brasil assumiu grande protagonismo naquele contexto, pois, junto com outros países em desenvolvimento, como a Índia, liderou a formação do grupo G20 comercial. Esse grupo é composto por países em desenvolvimento de América Latina, Ásia e África e busca o cumprimento do mandato agrícola da Rodada Doha, que inclui a redução de tarifas e a eliminação dos subsídios à exportação e a redução dos subsídios internos (MRE, 2017). O impasse segue até hoje, com muitos avanços e recuos desde então. Na ausência de uma autoridade coercitiva capaz de impor a observância das regras internacionais, a legitimidade das decisões passa a ser um componente muito importante (MANI, 2015). Caso os membros partícipes do processo decisório entendam que o resultado obtido não seja legítimo, há uma grande probabilidade de eles não acatarem essa decisão. Este é o caso da “Rodada Doha”. As rodadas de negociação da OMC foram percebidas por um conjunto de países como um sistema enviesado, em que os países desenvolvidos deliberavam entre si e apresentavam aos países periféricos o resultado a ser acatado. A partir do momento em que países como Índia e Brasil ganharam proeminência nas negociações internacionais, a condução da Rodada 5 Doha passou a ser objeto de questionamentos por parte dos países emergentes, os quais desejam maior voz nessas negociações. Assim, a Rodada Doha evidencia os limites de um regime internacional que não observe elementos como legitimidade e participação. Saiba mais Para saber mais sobre a Rodada Doha, sugerimos a leitura de: CESAR, S. E. M.; SATO, E. A Rodada Doha, as mudanças no regime do comércio internacional e a política comercial brasileira. Disponível em: . Acesso em: 22 jul. 2017. TEMA 4 – O SISTEMA ECONÔMICO-FINANCEIRO INTERNACIONAL O sistema financeiro internacional consolidou-se no contexto internacional desde, pelo menos, o fim da Segunda Guerra. Esse sistema conta com uma grande variedade de regras e atores, como: (1) grandes centros financeiros, como os EUA; (2) as organizações internacionais do setor, como FMI e Banco Mundial e (3) agentes privados de alcance internacional, como bancos comerciais transnacionais. Todas essas instituições foram implementadas com base no liberalismo econômico, no qual as regras de mercado assumem um papel de destaque. Essas regras, no entanto, não foram capazes de prevenir a crise financeira de 2008. De fato, a ausência de regulações mais efetivas foi a responsável por ela. Assim, a crise é o exemplo mais dramático da insuficiência das regrasde governança financeira para a solução dos problemas comuns da humanidade. Nesse contexto, o G20 Financeiro surgiu com o propósito de pensar mudanças estruturais para o sistema da governança financeira internacional. Saiba mais Para saber mais sobre o sistema financeiro internacional, sugerimos: FILHO, E. T. T. (2014). A crise do sistema financeiro globalizado contemporâneo. Disponível em: . Acesso em: 22 jul. 2017. 6 TEMA 5 – O G-20 FINANCEIRO O grupo de países denominado G20 Financeiro foi criado, inicialmente, como uma reunião em nível ministerial, em 1999, com o conjunto das vinte economias mais representativas do mundo, entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, como resposta à crise que havia ocorrido nos mercados emergentes. Em 2008, o G20 Financeiro ganhou relevância devido à sua atuação para mitigar a crise financeira mundial. Assim, o G20 Financeiro ganhou relevância internacional, e o que era uma reunião de Ministros de Estado se tornou uma reunião de Chefes de Estado e de Governo, os quais se reúnem periodicamente para tratar da reforma do sistema financeiro internacional. Ainda em 2010, houve uma proposta de reforma do FMI, com vistas a promover maior equilíbrio na distribuição dos votos entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Essa reforma, no entanto, somente foi aprovada em 2015, pois o Congresso dos EUA tardou em aprová-la. No contexto dessa demora, os BRICS criaram novas instituições, como o Banco de Desenvolvimento dos BRICS e o Arranjo Contingencial de Reservas. Ainda que elas estejam associadas a uma perspectiva estadocêntrica, essas instituições tornam o sistema financeiro mais plural. Saiba mais Para saber mais sobre o assunto, sugerimos: RAMOS, L. et al . A governança econômica global e os desafios do G-20 pós-crise financeira: análise das posições de Estados Unidos, China, Alemanha e Brasil. Disponível em: . Acesso em: 22 jul. 2017. NA PRÁTICA O Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS demonstra a importância, para o âmbito financeiro internacional, da governança global contemporânea. Segundo Lima (2015, p. 17), existe, atualmente, um grande déficit de oferta de recursos financeiros para projetos de infraestrutura no mundo em desenvolvimento. Nesse contexto, os BRICS criaram o “Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS”, por meio de um acordo entre seus membros que entrou em vigor em 3 de julho de 2015. O objetivo desse banco é o de promover o financiamento de projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável 7 tanto nos BRICS quanto em outros países em desenvolvimento. Para tanto, o banco oferece apoio a projetos públicos e privados, por meio de empréstimos, garantias e investimentos. Os membros do Banco dos BRICS são os BRICS, mas a adesão está aberta a outros países da ONU. O capital inicial do banco é de US$ 50 bilhões, havendo autorização para chegar a US$ 100 bilhões (MRE, 2017b). Dessa forma, o Banco dos BRICS fortalece a governança global financeira, na medida em que passa a ser mais uma alternativa com a qual os países podem contar para financiar seus projetos de infraestrutura, como no setor das energias renováveis. Assim, o Banco dos BRICS demonstra que a governança global financeira pode ter efeitos diretos na vida interna das sociedades contemporâneas, pois pode oferecer novas possibilidades para seu desenvolvimento. FINALIZANDO A noção de governança global apresenta flexibilidade para entender a realidade internacional, a qual é formada por um conjunto muito diverso de níveis de tomada de decisão e de atores. A conectividade em escala global é, geralmente, analisada pela perspectiva da globalização; contudo, é importante considerar, também, a perspectiva jurídico-política trazida pela governança global. Além disso, a governança global pode ser vista como um projeto: seu aspecto normativo aponta não somente a realidade como ela é, mas como ela deveria ser. Assim, a governança global pode ser compreendida como a face política da globalização. 8 REFERÊNCIAS LIMA, J. A. G. (2015). VI Cúpula do BRICS: perspectivas e resultados. Disponível em: . Acesso em: 22 jul. 2017. MANI, R. (2015). From ‘dystopia’ to ‘Ourtopia’: charting a future for global governance. International Affairs 91: 6. MRE (2017) Rodada Doha da OMC. Disponível em: . Acesso em: 22 jul. 2017. MRE (2017b). O Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS. Disponível em: . Acesso em: 22 jul. 2017. PEREIRA, M. Y. B. (2012). O esvaziamento institucional da OMC e o papel dos foros de solução de controversias emergentes: o caso Mercosul. Recife. 166f. : Dissertação (mestrado) – UFPE – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de Ciências Políticas, Recife, 2012. WTO (2017). The Doha Round. Disponível em: . Acesso em: 22 jul. 2017.