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GLOBALIZAÇÃO E GOVERNANÇA AULA 1 Profª Thaíse Kemer 2 CONVERSA INICIAL A proposta da presente disciplina é a de refletir sobre os impactos da globalização nas suas mais diversas formas – social, ambiental, econômica e cultural – e, também, sobre as funções do Estado nos planos local, nacional e internacional. Assim, a disciplina analisa os conceitos de globalização e de governança, utilizando, como fundamentação, os argumentos presentes na teoria de Relações Internacionais (RI). Nesse contexto, a presente aula tem por objetivo compreender o que é interdependência complexa e o que é globalismo, os quais constituem importantes fundamentos teóricos para que a ideia de globalização seja explorada em profundidade nas aulas seguintes. Além disso, serão apresentados os conceitos de sensibilidade e de vulnerabilidade, os quais permitem a reflexão sobre os impactos do globalismo em nossas vidas. TEMA 1 – INTERDEPENDÊNCIA COMPLEXA O conceito de interdependência complexa remonta aos trabalhos de Joseph Samuel Nye Júnior e de Robert Keohane. Esses trabalhos foram desenvolvidos na década de 1970 e consistiram, inicialmente, (1) em uma coletânea de artigos intitulada Transnational Relations and World Politics, publicada em 1971, e (2) na obra Power and Interdependence: World Politics in Transition, publicada em 1977 (Nogueira; Messari, 2005). Nesse contexto, segundo Nye Jr. (2009), a interdependência complexa relaciona-se a contextos nos quais os protagonistas ou os acontecimentos em diferentes partes de um sistema afetam-se de forma mútua. Keohane (2002), por outro lado, estabelece que a Interdependência Complexa relaciona-se a situações caracterizadas pela existência de efeitos custosos e recíprocos entre seus atores. A característica central do conceito de interdependência é a existência de custos nas relações entre agentes. Assim, para saber se uma determinada relação apresenta benefícios para seus agentes, é necessário avaliar se os benefícios dessa relação superam seus custos. Portanto, a interdependência não implica, necessariamente, uma mutuamente benéfica entre atores, pois os custos de cada relação devem ser ponderados. 3 TEMA 2 – INTERDEPENDÊNCIA COMPLEXA: CARACTERÍSTICAS E PROCESSOS POLÍTICOS O conceito de interdependência apresenta três características centrais: I) Canais múltiplos de relação entre os agentes das RI: na interdependência complexa, considera-se não apenas a interação entre Estados Nacionais, mas, também, a interação entre outros atores, como indivíduos, empresas, cidades, organizações internacionais e agentes da sociedade civil; II) Ausência de hierarquia entre os assuntos internacionais: diversos temas ganham relevância internacional, por exemplo, a proteção do meio ambiente e dos direitos humanos, o que desconstrói a predominância da segurança nacional como objetivo prioritário das RI; III) Redução do papel da força militar na condução das interações internacionais: ao considerar a interação de outros atores em âmbito internacional, a Interdependência Complexa relativiza o papel da força militar nas RI. Em decorrência dessas características, quatro processos políticos são relevantes para a interdependência complexa: (1) Estratégia pluralista de articulação: as estratégias de negociação dos Estados devem considerar não apenas o poder militar dos atores, mas também a pluralidade de atores e de temas existentes em cada contexto. (2) Formação da agenda: é a capacidade de direcionar a opinião pública e os demais Estados do sistema para que um determinado tema seja abordado nas RI; (3) Relações transgovernamentais e transnacionais: as relações entre atores nacionais de um país e outro, como as relações entre uma agência de inteligência nacional e uma estrangeira, são relevantes para as RI e; (4) as organizações internacionais constituem um novo ator do sistema, uma vez que têm a capacidade de induzir a formação da agenda internacional (Keohane, 2002, p. 32). TEMA 3 – CONCEITO DE GLOBALISMO De acordo com Keohane (2002), o termo globalismo indica as redes de interdependência entre continentes, formadas por meio de meio de fluxos de capitais, de informações, de ideias, de pessoas e de força, entre outros Ainda que o globalismo mantenha-se atrelado a “situações caracterizadas por efeitos recíprocos entre países ou entre atores em distintos países” (Keohane, 2002, p. 229), tal como a definição de interdependência sugere, o termo dá um passo adiante, em direção a uma escala extracontinental de interação. Nesse 4 sentido, é possível afirmar que o globalismo representa um tipo avançado e espacialmente mais abrangente de interdependência. Duas características são constitutivas do globalismo: a. redes de inter-relações, e não relações únicas ou bilaterais; b. redes multicontinentais, e não apenas redes regionais. TEMA 4 – TIPOS DE GLOBALISMO Keohane (2002) identifica quatro tipos de globalismo: econômico, militar, ambiental e cultural. O globalismo econômico contempla não apenas trocas de bens, capital, investimentos, transferência de tecnologia e commodities, mas também inclui a organização das relações econômicas entre as empresas e os demais agentes nacionais e internacionais. O globalismo militar, por sua vez, “refere-se às redes de interdependência de longa distância nas quais a força e a ameaça ou promessa de força são empregadas” (Keohane, 2002, p. 231). O globalismo ambiental foi definido como “o transporte de longa distância de materiais na atmosfera ou oceanos, ou de substâncias biológicas tais como patógenos ou materiais genéticos, que afetam a saúde humana e o bem-estar” (Keohane, 2002, p. 232). Por fim, o globalismo cultural “envolve movimento de ideias, informação, e imagens, e de pessoas, as quais, com certeza, carregam ideias e informações” (Keohane, 2002, p. 232). TEMA 5 – CONCEITOS DE SENSIBILIDADE E DE VULNERABILIDADE Para ampliar a compreensão sobre o significado do globalismo, dois conceitos instrumentais foram desenvolvidos. São eles a sensibilidade e a vulnerabilidade. De acordo com Keohane (2002), a sensibilidade relaciona-se aos custos gerados pelos fluxos transfronteiriços de sociedades e governos. Cada tipo de globalismo pode gerar um tipo diferente de efeito e, portanto, de sensibilidade. Nesse contexto, a sensibilidade econômica pode ser representada pelo impacto imediato que fatos sociais geram no mercado financeiro internacional. Um exemplo da sensibilidade econômica foi o atentado terrorista às torres gêmeas, no dia 11 de setembro de 2001, que causou oscilações no preço das ações no mercado financeiro internacional. A sensibilidade militar, por sua vez, pode ser ilustrada pelo jogo estratégico que ocorre entre os Estados em relação ao potencial militar que cada 5 ator detém. O exemplo histórico da Guerra Fria, devido à corrida nuclear entre EUA e URSS, evidenciou a sensibilidade militar entre ambos. A sensibilidade ambiental pode ser exemplificada pela influência internacional de decisões e ações das economias com matriz energética baseada no carbono. São exemplos dessas sensibilidades o aumento da temperatura média do planeta, a elevação do nível dos oceanos e os deslocamentos populacionais. Por fim, a sensibilidade cultural refere-se aos efeitos gerados no âmbito internacional pela difusão de ideias, informações e imagens (Keohane, 2002). Um exemplo de sensibilidade cultural ocorre, por exemplo, quando organizações terroristas utilizam a propagação de imagens para atrair voluntários. Enquanto a sensibilidade indica os efeitos do globalismo, a vulnerabilidade representa a capacidade de adaptação de um determinado ator a esse fenômeno. Segundo Keohane (2002), a vulnerabilidade dá um passo à frente da sensibilidade, na medida em que se refereaos custos necessários para que um determinado ator se adapte aos efeitos do globalismo. Assim, para que se compreenda o significado técnico da vulnerabilidade, deve-se investigar a capacidade de resposta e de recuperação dos atores. NA PRÁTICA Para ilustrar o conceito de globalismo, é relevante destacar os casos do Fórum de Cooperação Econômica entre Ásia e Pacífico (APEC) e da Associação dos Países do Sudeste Asiático (ASEAN). O Fórum de Cooperação Econômica entre Ásia e Pacífico (APEC) pode ser considerada um arranjo globalista, na medida em que congrega Estados de diferentes continentes. A APEC é um arranjo estabelecido em 1989, com o objetivo de tornar mais próspera e integrada a economia dos estados-membros. Atualmente, conta com 21 membros, entre eles, Austrália, Canadá, Chile, China, Indonésia, Japão, Peru, Rússia, Tailândia e Estados Unidos. A Associação dos Países do Sudeste Asiático (ASEAN), ao contrário, é um arranjo que pode ser considerado um exemplo de interdependência, mas que, por ser limitado ao âmbito regional, não pode ser considerado globalista. A ASEAN tem objetivos similares à APEC, como acelerar o crescimento econômico e promover a cooperação entre os membros, que, atualmente são os seguintes: 6 Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura, Tailândia, Brunei, Vietnam, Laos, Mianmar e Camboja (Keohane, 2002). FINALIZANDO Em vias de síntese, o globalismo pode ser expresso mediante duas características básicas: (1) uma rede de múltiplos atores e; (2) o fato de não ser limitada a uma região do planeta. O globalismo tem quatro dimensões: econômica, militar, ambiental e cultural. Os efeitos dos fenômenos em cada uma destas dimensões, tanto individualmente, quanto em conjunto, são mensurados mediante duas categorias: a sensibilidade e a vulnerabilidade. Enquanto a sensibilidade limita-se à avaliação do grau de impacto, a vulnerabilidade refere- se à capacidade de adaptação e de resposta dos atores. 7 REFERÊNCIAS KEOHANE, R. O. Power and Governance in a Partially Globalized World. London: Routledge 2002. NOGUEIRA, J. P.; MESSARI, N. Teoria das Relações Internacionais: correntes e debates. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005. NYE, Jr. J. S. Cooperação e conflito nas relações internacionais. São Paulo: Gente, 2009.