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GLOBALIZAÇÃO E GOVERNANÇA AULA 4 Profª Thaíse Kemer CONVERSA INICIAL Nesta aula, será analisado o papel dos arranjos decisórios para três temas internacionais: a segurança internacional, o desenvolvimento e o meio ambiente, os quais possuem normas e arranjos institucionais próprios. No que se refere à segurança internacional, as ameaças tornaram-se mais difusas e imprevisíveis, o que dificulta seu combate por meio de mecanismos pautados no conceito de soberania estatal. O desenvolvimento, por sua vez, ganhou importância na agenda internacional a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, com a criação Banco Mundial. Com o passar do tempo, o desenvolvimento deixou de assumir uma perspectiva exclusivamente econômica para englobar, também, a justiça social e a sustentabilidade ambiental. A questão ambiental, por fim, é a síntese dessas preocupações internacionais e da evolução do pensamento de que um novo arranjo institucional é não somente viável como necessário. TEMA 1 – GOVERNANÇA GLOBAL E SEGURANÇA INTERNACIONAL O fim da Guerra Fria trouxe efeitos diretos para a segurança internacional. Nesse contexto, fatores como a ameaça difusa do terrorismo e a ascensão de potências emergentes demonstraram a inviabilidade da governança com base em apenas um ator hegemônico (Zakaria, 2008). Nesse contexto, em 1992, o secretário-geral da ONU, Boutros-Boutros Ghali, lançou a Agenda para a Paz (ONU, 1992). Nesse documento, propunha- se uma atualização do modo como a ONU deveria atuar em casos de ameaça à paz, por meio da diplomacia preventiva, do peacekeeping, do peacemaking, do peace enforcement e do peacebuilding (ONU, 1992). A diplomacia preventiva tem o objetivo de evitar a ocorrência de conflitos. As operações de manutenção de paz (peacekeeping operations) prestam apoio ao processo de paz, garantindo a proteção da população civil e ajudando na reconstrução da região conflagrada. A promoção da paz (peacemaking), por sua vez, inclui ações diplomáticas posteriores ao início do conflito e têm o objetivo de levar as partes litigantes a suspender as hostilidades e a negociarem (Fontoura, 2005). Já a imposição da paz (peace enforcement) inclui o uso de força armada para manter a paz e requer autorização do Conselho de Segurança da ONU. Por fim, a construção da paz (peacebuilding) envolve a melhoria das condições estruturais para que a paz prospere na região conflagrada, como a 3 facilitação da população à saúde e à educação. A despeito dos avanços conceituais da Agenda para a Paz, o processo decisório nas principais instituições para a segurança internacional, como o Conselho de Segurança, continua vinculado à ideia de Estados soberanos (Mani, 2015). Saiba mais Para refletir a respeito da segurança internacional, recomendamos a leitura do artigo “Segurança internacional: novos desafios para o Brasil”, de Celso Amorim, disponível em: . TEMA 2 – GOVERNANÇA GLOBAL E DESENVOLVIMENTO O regime jurídico internacional para a cooperação ao desenvolvimento tem início com as conferências internacionais no fim da Segunda Guerra Mundial. Naquele contexto, além das conferências que resultaram na criação das Nações Unidas, em 1945, destacou-se a conferência de Bretton Woods, em 1944. Nessa ocasião, foram criados o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, responsável por financiar os esforços de reconstrução dos países atingidos pela guerra (Baylis; Smith; Owens 2011). Além dessas conferências, o processo de descolonização dos países da África e da Ásia impulsionou o tema do desenvolvimento. De fato, os países periféricos participaram de diversas iniciativas que questionaram sua posição subalterna no sistema internacional, são elas: a Conferência Afroasiática de Bandung, em 1955, a Conferência de Belgrado dos Países não Alinhados, em 1962 (Lowe, 2011), e a primeira Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), em 1964. No entanto, o regime mais ambicioso no tocante ao desenvolvimento foi o Objetivos do Milênio das Nações Unidas, criado em 2000, um conjunto de oito compromissos para o desenvolvimento que devem orientar as políticas públicas de todos os países em temas como saúde e educação. Em 2015, esse regime foi substituído por outro, o Metas de Desenvolvimento Sustentável, que amplia o conjunto para 17 metas para o desenvolvimento e tem validade até 2030. O regime para o desenvolvimento é bastante complexo e não se resume às Nações Unidas. Além da ONU, há significativa participação de membros da 4 sociedade civil internacional. Assim, a governança para o desenvolvimento apresenta diversas instâncias decisórias que, ao se entrelaçarem em arranjos formais e informais, extrapolam uma visão tradicional centrada em Estados. Saiba mais Para aprofundar seus estudos a respeito de governança global e desenvolvimento, leia o artigo “Sobre a governança da cooperação internacional para o desenvolvimento: atores, propósitos e perspectivas”, de Claire Gomes dos Santos e Rosinha da Silva Machado Carrion, disponível em . TEMA 3 – REGIME INTERNACIONAL DO MEIO AMBIENTE: PRIMEIRAS INICIATIVAS A preservação ambiental ganhou impulso na agenda internacional com a criação da ONU, a qual, além de ser a instituição responsável pela preservação da paz, é também um espaço comum de deliberação, em que os Estados podem debater temas relevantes. A questão ambiental restringia-se, inicialmente, à garantia de acesso a recursos naturais, em particular alimentos, no âmbito da agência responsável pela agricultura e segurança alimentar, a FAO (Ribeiro, 2008). Esse enfoque se modificou a partir da década de 1960, com a realização de conferências, como a Conferência Intergovernamental de Especialistas sobre as Bases Científicas para Uso e Conservação Racionais dos Recursos da Biosfera, em 1968. Organizada pela Unesco, tinha um caráter mais técnico e político, com participação da comunidade acadêmica. Um importante resultado dessa conferência foi a consolidação do entendimento da indivisibilidade entre as sociedades humanas e os sistemas naturais (Ribeiro, 2008). Na esteira dessa conferência, o tema da preservação do meio ambiente ganhou importância política, o que motivou a realização da Conferência de Estocolmo, em 1972. Saiba mais Para saber mais acerca do regime internacional do meio ambiente, leia o artigo “Meio ambiente e relações internacionais: perspectivas teóricas, respostas institucionais e novas dimensões de debate”, de Ana Flávia Barros-PlatiauI, 5 Marcelo Dias VarellaII e Rafael T. Schleicher, disponível em: . TEMA 4 – CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE O MEIO AMBIENTE HUMANO (ESTOCOLMO, 1972) A Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, em 1972, elevou a temática ambiental a um nível geralmente reservado a temas de longa tradição diplomática (Lago, 2006), como a segurança internacional. Nessa Conferência, houve uma grande participação de atores internacionais, como mais de 100 chefes de Estado e centenas de organizações intergovernamentais e não governamentais. Em Estocolmo, foram formulados princípios importantes para o regime ambiental: o princípio da preservação do meio ambiente para as gerações futuras e a importância do desenvolvimento econômico e social para essa preservação. Além disso, formulou-se o conceito de ecodesenvolvimento – embrião do conceito de desenvolvimento sustentável –, que associou o desenvolvimento ao meio ambiente. A Conferência de Estocolmofoi caracterizada por uma polarização de posições Norte-Sul, pois países desenvolvidos e em desenvolvimento apresentaram discordâncias entre si. O impasse em Estocolmo iniciou-se a partir da proposta do Clube de Roma, um conjunto de intelectuais, cientistas, acadêmicos e tomadores de decisão majoritariamente provenientes de países desenvolvidos. Em 1972, o Clube publicou um artigo intitulado “Limites para o crescimento”, em que se afirmava que o desenvolvimento demandaria o esgotamento dos recursos naturais, em defesa do crescimento zero da economia global. Assim, a proposta do Clube de Roma opôs-se aos interesses dos países em desenvolvimento (Lago, 2006). Entre os resultados da Conferência de Estocolmo, destacam-se o lançamento do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e as primeiras iniciativas para o combate de poluentes como o CFC, cujo uso seria banido por meio do Protocolo de Montreal, de 1987. Assim, as bases para uma agenda internacional para o meio ambiente foram consolidadas nessa conferência. 6 Saiba mais Sugerimos a leitura do artigo “Além dos humanos: reflexões sobre o processo de incorporação dos direitos ambientais como direitos humanos nas conferências das Nações Unidas”, de Carlos Alberto Steil e Rodrigo Toniol, disponível em: . TEMA 5 – A CNUMAD 1992 E A RIO+20 A Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (Cnumad) ocorreu no Rio de Janeiro, em 1992. Nos trabalhos que antecederam a conferência, consolidou-se a ideia de que meio ambiente e desenvolvimento são indissociáveis. De fato, em 1987, o relatório “Nosso Futuro Comum” lançou o conceito de desenvolvimento sustentável, pautado em torno dos pilares social, econômico e ambiental e fundamentado na ideia de que o atendimento às necessidades da geração presente não deve comprometer as gerações futuras. Os trabalhos da conferência podem ser considerados exitosos nos aspectos principiológicos e institucionais. Do ponto de vista principiológico, a Declaração do Rio e a Declaração para o Manejo Sustentável das Florestas reuniram princípios para preservar o patrimônio natural da humanidade. Do ponto de vista institucional, houve a assinatura das Convenções-Quadro sobre Mudanças Climáticas e sobre Biodiversidade, as quais fundamentam os principais documentos internacionalmente vinculantes sobre as mudanças climáticas e a biodiversidade, respectivamente. Assim, a Convenção-Quadro sobre Mudanças Climáticas permitiu o lançamento, em 1997, do Protocolo de Quioto, cujo objetivo foi limitar a emissão de gases de efeito estufa. A Convenção sobre Biodiversidade, por sua vez, permitiu o lançamento, em 2010, do Protocolo de Nagoia, que visa ao acesso e à preservação de recursos genéticos. Além desses arranjos, foi adotada, em 1992, a Agenda XXI, que conjuga um conjunto de medidas de desenvolvimento sustentável a serem internacionalmente adotadas. A Conferência Rio+20, por sua vez, marcou os vinte anos da realização da Cnumad e ocorreu em 2012, no Rio de Janeiro, trazendo a consolidação do conceito de desenvolvimento sustentável para a agenda ambiental internacional. 7 Um exemplo desse fato é que o regime substituto dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio veio a se chamar Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Saiba mais: Sugerimos a leitura do artigo “Desenvolvimento sustentável na Rio+20: discursos, avanços, retrocessos e novas perspectivas”, de Roberto Guimarães e Yuna Fontoura, disponível em: . NA PRÁTICA O debate acerca da reforma das Nações Unidas é uma constante na atualidade dessa organização. Em 2005, por iniciativa do secretário-geral Kofi Annan, foi organizada a Cúpula Mundial, cujo objetivo era discutir os rumos da ONU. Na esteira desse debate, houve uma reforma institucional que resultou na criação da Comissão de Construção da Paz e, em 2006, do Conselho de Direitos Humanos. O Conselho de Direitos Humanos acompanha a situação dos direitos humanos, de maneira periódica, em todos os membros da ONU. A Comissão de Construção da Paz, por sua vez, apoia países recém-egressos de situações de conflito. Além disso, uma proposta de reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, apresentada em 2005 pelo G4 – grupo composto de Brasil, Índia, Japão e Alemanha, envolveu a ampliação do número de membros do Conselho de Segurança de cinco para 11 membros permanentes e de 10 para 14 membros não permanentes (ONU, 2005). Os debates a respeito das reformas da ONU evidenciam que, embora o mundo contemporâneo apresente uma crescente participação de atores não estatais, a perspectiva estadocêntrica faz-se ainda bastante presente nas relações internacionais contemporâneas FINALIZANDO Os temas da agenda internacional desconhecem as fronteiras nacionais e, portanto, não podem ser resolvidos exclusivamente por meio de mecanismos tradicionais de caráter estadocêntrico. Assim, pudemos perceber, nesta aula, 8 que os regimes internacionais estão abrindo espaços para uma participação maior de atores não tradicionais, bem como reconhecendo que os desafios do século XXI demandam soluções inovadoras. O regime ambiental internacional é um bom indicativo da forma pela qual a governança global tem-se estabelecido nesses últimos vinte anos. Nesse regime, há a compreensão de que os temas internacionais são transversais e precisam ser abordados por um conjunto de regras e de instâncias decisórias diversificadas, que se relacionem com a pluralidade de agentes e interesses no contexto internacional 9 REFERÊNCIAS ANNAN, K. In Larger Freedom: Report of the Secretary-General of the United Nations for decision by Heads of State and Government in September 2005. United Nations. Disponível em: . Acesso em: 18 jul. 2017. BAYLIS, J.; SMITH, S.; OWENS, P. The Globalization of World Politics: an Introduction to International Relations. United Kingdom: Oxford University Press, 2014. FONTOURA, P. R. C. T. da. O Brasil e as operações de manutenção da paz das nações unidas. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2005. KRAUTHAMMER, C. The Unipolar Moment. Foreign Affairs, v. 70, n. 1, America and the World 1990/1991, p. 23-33. LAGO, A. A. C. do. Estocolmo, Rio, Joanesburgo: o Brasil e as três conferências ambientais das Nações Unidas. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2006. LOWE, N. História do mundo contemporâneo. Porto Alegre: Penso, 2011. MANI, R. From ‘Dystopia’ to ‘Ourtopia’: Charting a Future for Global Governance. International Affairs, v. 91, n. 6, 2015. ONU – ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. An Agenda for Peace. 1992. Disponível em: Acesso em: 21 jul. 2017. ONU – ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. A/59/L.64 Security Council Reform. Disponível em: . Acesso em: 21 jul. 2017. RIBEIRO, W. C. A Ordem ambiental internacional. São Paulo: Contexto, 2008. ZAKARIA, F. The Post-American World. W. W. Norton & Company: 2008.