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GLOBALIZAÇÃO E 
GOVERNANÇA 
AULA 5 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Thaíse Kemer 
 
 
 
 
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CONVERSA INICIAL 
 Nesta aula vamos analisar as mudanças ocorridas no cenário 
internacional com a ascensão dos países periféricos, em particular Brasil, 
Rússia, Índia, China e África do Sul (BRICS). Ainda que, por um lado, a 
desconcentração do poder global em favor desses países reforce uma 
perspectiva estadocêntrica das relações internacionais, por outro, o fenômeno 
da ascensão econômica e política de grandes nações periféricas é, certamente, 
um ponto de inflexão na ordem global. Além disso, uma maior diversificação dos 
atores responsáveis pela tomada das decisões em âmbito internacional condiz 
com a perspectiva da governança global, que afirma a insuficiência dos 
mecanismos tradicionais para lidar com os problemas comuns da humanidade. 
Embora a ascensão dos BRICS constitua apenas uma das mudanças dos 
regimes internacionais contemporâneos, essa ascensão representa uma 
oportunidade para que a governança seja inovada. Assim, as discussões sobre 
a governança global devem considerá-la no contexto de suas análises. 
 
TEMA 1 – A FORMAÇÃO DO BRICS 
 A denominação BRIC foi utilizada, pela primeira vez, em 2001,em um dos 
relatórios publicados pela instituição financeira Goldman Sachs, segundo o qual, 
até o final da década de 2000, o grupo de países Brasil, Rússia, Índia e China 
iria ampliar, significativamente, sua participação no Produto Interno Bruto 
mundial (de 8% para 23%). Assim, recomendava-se uma reavaliação dos fóruns 
globais, em particular o G7, grupo das sete maiores economias do mundo 
(Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido), de 
modo a incorporar, nessas instâncias decisórias, representantes desses países 
emergentes (O’NEILL, 2001). 
 Durante alguns anos, o acrônimo BRIC restringiu-se a uma categoria de 
análise de alcance limitado, uma vez que, como apontado por alguns analistas, 
as discrepâncias entre Brasil, Rússia, Índia e China (a África do Sul somente foi 
incorporada em 2011) eram muito mais acentuadas do que suas congruências. 
Ademais, cada um desses países parecia ter-se engajado em arranjos de 
cooperação periférica distintos, conforme suas pretensões regionais específicas, 
ou em outras coalizões de geometria variável, como o IBAS (coalizão formada 
por Índia, Brasil e África do Sul). 
 
 
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 A partir da crise financeira de 2008, no entanto, os países do BRIC 
perceberam que a ordem internacional tradicional abria uma janela de 
oportunidade para que outras nações pudessem ampliar seu espaço de atuação, 
pois a crise financeira global necessitava do apoio dos países emergentes para 
sua mitigação. Naquele ano, às margens da reunião da Assembleia Geral das 
Nações Unidas, os chefes de Estado de Brasil, Rússia, Índia e China 
organizaram um encontro em 2009, que ocorreu na cidade russa de 
Ecaritemburgo. A partir daquele momento, os BRIC deixaram de ser uma 
categoria de análise econômica e passaram a ser um arranjo de cooperação 
mais ambicioso (STUENKEL, 2015). 
Em 2011, houve a adesão da África do Sul; consequentemente, o 
acrônimo foi modificado de BRIC para BRICS (S advém do nome do país em 
inglês, South Africa). A inclusão da África do Sul foi motivada pela 
representatividade do continente africano, o que constitui um componente crucial 
para o discurso do BRICS de construção de uma ordem global mais 
diversificada. 
 
Saiba mais 
Para refletir sobre o papel do Brasil nos BRICS, sugerimos: FLEMES, D. 
O Brasil na iniciativa BRIC: soft balancing numa ordem global em mudança? 
Disponível em: . Acesso em: 22 jul. 2017. 
 
TEMA 2 – CONSOLIDAÇÃO INSTITUCIONAL DO BRICS E CRISE NOS 
EMERGENTES 
Na segunda década do século XXI, os países emergentes demandam a 
reforma das instituições financeiras internacionais, o que pode ampliar o poder 
decisório dos países emergentes e dotar essas instâncias de maior capacidade 
de resposta a crises. Diante da inércia dos países desenvolvidos para 
implementar essas reformas, o BRICS empreendeu a criação de instituições 
complementares nesse campo, como o Arranjo Contingencial de Reservas e o 
Banco de Desenvolvimento do BRICS. O objetivo dessas novas instituições é o 
de oferecer um complemento aos mecanismos financeiros atuais, de forma que 
países em desenvolvimento tenham mais possibilidades para obter apoio 
econômico e financeiro. Assim, esses novos mecanismos não visam à 
 
 
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confrontação do regime financeiro internacional vigente, mas, sim, à busca de 
novos caminhos para que países em desenvolvimento obtenham apoio e 
acessem recursos financeiros internacionais. 
 Por outro lado, no campo da economia, a década de 2010 vem se 
mostrando bastante severa para boa parte do BRICS. Ainda que a China 
mantenha seu nível de crescimento na ordem dos 7%, esse crescimento não é 
comparável com o padrão de dois dígitos presente nas décadas anteriores 
(WORLD BANK, 2015). A demanda internacional havia recuado 
significativamente com a crise de 2008, o que afetou as exportações chinesas. 
Por consequência, a demanda chinesa por insumos primários foi reduzida. Com 
a redução da demanda chinesa, houve a diminuição do preço de commodities 
internacionais, como ferro e petróleo, os quais estão entre as principais pautas 
de exportação de Rússia e Brasil. Assim, verificou-se que a redução da demanda 
chinesa impactou negativamente as economias russa e brasileira. Além dessas 
instabilidades econômicas, Rússia e Brasil passaram a enfrentar instabilidades 
políticas no âmbito interno, o que ampliou as incertezas sobre o processo de 
ascensão até então presenciado por esses países. 
 
Saiba mais 
Para saber mais sobre a criação do Banco de Desenvolvimento dos 
BRICS, sugerimos a leitura de: COOPER, A. F.; FAROOQ, A. B. Testando a 
cultura de clube dos BRICS: a evolução de um novo banco de 
desenvolvimento. Disponível em: 
. Acesso em: 22 jul. 2017. 
 
TEMA 3 – PERSPECTIVAS PARA O FUTURO DA CHINA 
No campo econômico, consolida-se o entendimento de que a ascensão 
da China continuará em ritmo acelerado, ainda que menor ritmo em relação às 
décadas anteriores. No campo geopolítico, por sua vez, a China possui sua 
própria estratégia de modificação da arquitetura da ordem internacional. Para 
além das disputas regionais em torno de pretensões territoriais conflitantes, 
como no caso do Mar do Sul da China, a China pôs em prática uma estratégia 
de expansão de sua influência regional e global por meio da integração física e 
de investimentos em infraestrutura. Os casos mais conhecidos são as duas 
 
 
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“novas rotas da seda”, uma marítima, outra terrestre. Por meio dessas iniciativas, 
o governo chinês pretende integrar a região eurasiática, a mais populosa e 
dinâmica do mundo. 
 Além disso, as ambições de investimento em infraestrutura da China 
ganham contornos cada vez mais extrarregionais, a partir do momento em que 
observamos uma presença maciça de capitais chineses no continente africano, 
bem como uma estratégia semelhante na América Latina. Nesses contextos, os 
investimentos chineses podem ser compreendidos como uma estratégia de 
ampliação da influência chinesa no cenário mundial. 
 
Saiba mais 
Para saber mais sobre a China e os BRICS, recomendamos: NIU, H. A 
grande estratégia Chinesa e os BRICS. Disponível em: 
. Acesso em: 22 jul. 2017. 
 
TEMA 4 – RÚSSIA, ÍNDIA E SEUS ENTORNOS REGIONAIS 
Assim como a China, que busca estabelecer relações estratégicas em seu 
entorno geográfico, é importante observar que a Rússia também está atenta ao 
seu entorno regional,a Eurásia. A derrocada da União Soviética abriu espaço 
para que outras potências passassem a exercer maior influência no entorno 
russo, como a União Europeia e a China. A China, por exemplo, expande sua 
influência por meio das Rotas da Seda para o oeste da Rússia, que é uma região 
de baixa densidade demográfica. 
No caso da Índia, observa-se que as pretensões da Índia em seu entorno 
regional vão de encontro ao projeto chinês. Isso pode ser observado, por 
exemplo, na persistência de algumas disputas fronteiriças entre Índia e China na 
região do Himalaia. No entanto, ao contrário do que os críticos do conceito de 
BRICS afirmaram no início da década de 2000, essas disputas regionais não 
impediram a cooperação entre esses países. 
 
Saiba mais 
Para saber mais sobre a Rússia nos BRICS, sugerimos: PANOVA, V. V. 
Rússia nos BRICS: visão e interpretação prática. Semelhanças e diferenças. 
Coordenação dos BRICS dentro das estruturas de instituições multilaterais. 
 
 
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Disponível em: . Acesso em: 22 jul. 2017. 
 
TEMA 5 – O REGIME AMBIENTAL INTERNACIONAL E OS PAÍSES 
EMERGENTES 
 O regime ambiental internacional é o regime-síntese da governança global 
que está em construção na contemporaneidade, tanto por ser um tema 
internacionalmente relevante quanto pelo crescente envolvimento de um grupo 
mais plural de atores, que extrapola os Estados e alcança a sociedade civil 
internacional. 
 Nesse contexto, Brasil, África do Sul, Índia, e China entendem que seu 
crescimento econômico demanda o comprometimento com a questão do 
aquecimento global e com medidas adaptativas para mudança climática. A 
China, por exemplo, tornou-se o maior investidor em energia renovável, ainda 
que sua matriz dependa muito de fontes poluentes, como o carvão. 
 No entanto, os países emergentes também entendem que há uma dívida 
histórica por parte dos países desenvolvidos, cujo processo de industrialização 
é mais antigo. Esse fato torna-os os maiores responsáveis pelo acúmulo dos 
gases de efeito estufa na atmosfera ao longo dos anos. Esse “princípio das 
responsabilidades comuns, porém diferenciadas” é o que determina a 
legitimidade das decisões a serem tomadas e efetivamente acatadas pelas 
nações participantes, na medida em que se demanda um esforço conjunto e na 
medida da capacidade de cada Estado. 
 Há um lapso entre os países desenvolvidos, mais capazes de adaptarem-
se às mudanças climáticas, e as nações periféricas, que dispõem de menos 
recursos técnicos e financeiros. A despeito desse fato, os países emergentes 
buscam consolidar sua posição de líderes do mundo periférico, de modo a 
estabelecer as pautas das nações em desenvolvimento na agenda internacional. 
 
Saiba mais 
Para saber mais sobre o caso da China na ordem ambiental internacional, 
sugerimos: MOREIRA, H. M.; RIBEIRO, W. C. A China na ordem ambiental 
internacional das mudanças climáticas. Disponível em: 
 
 
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. Acesso em: 22 jul. 2017. 
 
NA PRÁTICA 
Embora o caso das disputas regionais entre Índia e China evidencie 
algumas das rivalidades geopolíticas entre integrantes de um mesmo bloco, 
observa-se que essas rivalidades não conformaram um empecilho para a 
constituição dos BRICS. Nesse sentido, observa-se que, além dos BRICS, 
diversos outros arranjos de cooperação regional ocorrem a despeito de disputas 
geopolíticas regionais. Entre esses arranjos, podemos mencionar, por exemplo, 
a Organização de Cooperação de Xangai, um exemplo bem-sucedido de 
concentração política e cooperação para o desenvolvimento na Ásia Central. 
Além disso, é importante observar que as instituições internacionais 
contemporâneas não devem, necessariamente, ter membros pertencentes ao 
mesmo entorno geográfico, como é o caso das Nações Unidas, dos BRICS e, 
ainda, do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, instituição que 
conta, também, com aportes de atores extrarregionais, como o Brasil e a 
Alemanha (AIIB, 2016). 
 
FINALIZANDO 
A ascensão dos países BRICS é, provavelmente, uma das mudanças 
estruturais mais significativas no cenário internacional do início do século XXI. 
Do ponto de vista normativo da governança global, é possível afirmar que esse 
agrupamento visa modificar as normas e instituições internacionais 
contemporâneas, para que essas sejam capazes de lidar com as demandas 
globais atuais. No entanto, a governança global deve observar, também, sua 
vocação analítica, de modo a verificar a extensão das mudanças trazidas pela 
ascensão dos BRICS. Nesse sentido, uma possível crítica a essa ascensão é o 
fato de seus países atuarem, em certa medida, em nome de agendas nacionais. 
Isso reforça a concepção de que os Estados são agentes privilegiados na 
composição da ordem global contemporânea. Dessa forma, a análise dos BRICS 
com a noção de governança global oferece novas perspectivas para pensar 
criticamente as relações internacionais contemporâneas. 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
AIIB (2016) Asian Infrastructure Investment Bank. Disponível em: 
. Acesso em: 22 jul. 2017. 
O’NEILL, J. Building Better Global Economic BRICs. Goldman Sachs 
Economic Research Group. Global Paper. n. 66, 2001. 
STUENKEL, O. The BRICS and the future of global order. Lexington Books, 
2015. 
WORLD BANK (2015) China. Disponível em: 
. Acesso em: 22 jul. 2017.

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