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GLOBALIZAÇÃO E 
GOVERNANÇA 
AULA 3 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Thaíse Kemer 
 
 
 
 
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CONVERSA INICIAL 
Nesta aula, abordaremos as perspectivas de algumas das principais 
correntes teóricas das RI referentes à proposta da governança global. O conceito 
de governança global não chegou a formar uma corrente teórica própria em 
contraposição às escolas das relações internacionais, tampouco participou dos 
grandes debates característicos do desenvolvimento teórico das RI (Nogueira e 
Messari, 2005). Embora a ideia de atores não estatais influenciando as relações 
internacionais anteceda a década de 1990, é a partir desse momento que a 
centralidade das organizações internacionais e do direito internacional, presente 
nas teorias tradicionais, passou a ser criticada – daí a relevância do conceito de 
governança global, que se origina nesse período. 
 
TEMA 1 – DESENVOLVIMENTOS INICIAIS SOBRE O CONCEITO DE 
GOVERNANÇA GLOBAL 
James Rosenau e Ernst-Otto Czempiel foram os primeiros a utilizarem o 
termo governança, em 1992. De acordo com os autores, governança é um 
fenômeno mais amplo do que governo, pois engloba não apenas as instituições 
governamentais, mas também mecanismos informais, os quais fazem pessoas 
e organizações seguirem condutas determinadas (Rosenau e Czempiel, 2000). 
Para Hoffenberth (2014), o contexto da globalização da década de 1990 
influenciou os debates sobre a governança, pois, com a globalização, surgiu a 
percepção de que os Estados não eram mais capazes de garantir a segurança 
e o bem-estar de seus cidadãos e houve um aumento dos atores não estatais 
com influência internacional. 
Em 1995, a Comissão sobre Governança Global, órgão fundado com 
apoio do ex-Secretário-Geral Boutros-Boutros Ghali, propôs que governança é a 
soma dos meios pelos quais indivíduos e instituições lidam com os seus 
assuntos comuns, um processo contínuo que possibilita a acomodação de 
interesses conflitantes e ações cooperativas (Commission on Global 
Governance, 1995). 
A governança preocupa-se não somente com a descrição do arranjo 
institucional da ordem mundial (característica analítica), mas também com a 
propositura de uma nova governança possível e necessária para solução dos 
 
 
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problemas comuns da sociedade internacional (característica normativa). Logo, 
a governança global é tanto um recorte teórico que visa compreender as 
mudanças na arquitetura decisória mundial no fim do século XX quanto a 
mudança em si nessa arquitetura. 
 
Leitura complementar 
Para refletir a respeito do conceito de governança global, recomendamos a 
leitura do artigo “Sociedade internacional e governança global”, de Andrew 
Hurrell, disponível em: 
. 
 
TEMA 2 – GOVERNANÇA GLOBAL E NEORREALISMO 
É possível identificar diferentes posturas realistas quanto ao conceito de 
governança global. Com Kenneth Waltz, da década de 1970, por exemplo, o 
realismo aceita a ideia de uma categoria de análise acima dos Estados nacionais 
(Waltz, 1979), a qual é uma estrutura que limita a ação dos agentes estatais e 
confere ordem à realidade internacional. 
A corrente realista contemporânea, no entanto, difere dessa abordagem. 
John Mearsheimer, um dois maiores expoentes do realismo, afirmou que as 
instituições não são importantes para a causa da paz, mas que elas têm uma 
importância apenas marginal (Mearsheimer, 1994). Portanto, para os realistas 
contemporâneos, a balança de poder ainda é o único método verificável a 
garantir a paz (Mearsheimer, 2014). Além disso, a crença no poder das 
instituições pode levar os tomadores de decisão a ponderar de maneira 
equivocada os resultados de determinadas ações. Logo, para os realistas 
neoclássicos, a governança global, além de ser incompatível com o sistema 
internacional vigente, é indesejável, por possibilitar interpretações equivocadas 
da realidade internacional. 
 
Saiba mais 
Para saber mais a respeito da interrelação entre governança e realismo no caso 
do Brasil, recomendamos a leitura do artigo “A visão brasileira da futura ordem 
global”, de Daniel Lemes, disponível em: 
 
 
4 
. 
 
TEMA 3 – GOVERNANÇA GLOBAL E NEOLIBERALISMO 
Diferentemente dos realistas, os liberais institucionalistas tiveram uma 
visão mais aderente à governança global. Antes do surgimento desta, o 
liberalismo já estudava a formação de redes de tomada de decisão entre Estados 
(Keohane e Nye, 1987) e a formação de regimes internacionais. Os regimes são 
definidos como “princípios, normas, regras e processos de tomada de decisão 
em torno dos quais convergem as expectativas dos atores em uma dada área 
temática” (Krasner, 1982). A governança difere do conceito de regimes, pois se 
refere aos entendimentos prevalecentes quando surgem interesses conflitantes 
entre regimes distintos (Rosenau e Czempiel, 2000). 
No que se refere ao institucionalismo liberal, os teóricos da governança 
global criticam essa teoria por sua atribuição de centralidade às organizações 
intergovernamentais, pois a compreensão da governança global inclui, também, 
um vasto conjunto de atores, instituições e mecanismos. 
O liberalismo contemporâneo ocupa-se mais com buscar compreender o 
mundo como ele é do que como ele deve ser. A governança global, por sua vez, 
tende a adotar uma postura mais propositiva, incluindo a busca da superação do 
caráter estadocêntrico dos arranjos institucionais atuais (Mani, 2015). 
 
Saiba mais 
Para saber mais a respeito de governança global e de liberalismo, 
recomendamos a leitura do artigo “Sobre o poder global”, de José Luís Fiori, 
disponível em: . 
 
TEMA 4 – GOVERNANÇA GLOBAL: AS PERSPECTIVAS DO 
CONSTRUTIVISMO E DA ESCOLA INGLESA 
Construtivismo e governança global têm similaridades, pois ambos 
surgiram nos anos 1990 e mostraram insatisfação com as correntes tradicionais. 
Os construtivistas entendem que agente e estrutura são coconstitutivos – não 
apenas o agente contribui para a formação da estrutura, a estrutura também 
 
 
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contribui para a formação do agente. Assim, para Hofferberth (2014), o 
construtivismo abriu espaço para que abordagens alternativas, como a 
governança global, pensem a realidade contemporânea. 
A Escola Inglesa, por sua vez, possui elementos em comum com a 
proposta de governança global. Ainda que reconheça a centralidade dos Estados 
e a predominância destes na arena internacional, a Escola Inglesa pauta-se, 
também, pelo compartilhamento de valores e de regras de conduta comuns entre 
os partícipes da “sociedade internacional”, que é, por definição, anárquica 
(Nogueira e Messari, 2005). 
 
Leitura complementar 
Para aprofundamento do debate teórico acerca de governança global, leia o 
artigo “Governança ambiental global: atores e cenários”, de Julia Vaz Lorenzetti 
e Rosinha Machado Carrion, disponível em: 
. 
 
TEMA 5 – GOVERNANÇA PÓS-HEGEMÔNICA E LEGITIMIDADE 
O conceito de governança global pós-hegemônica (Haas, 2015) 
reconhece que a governança global é moldada por fatores extraestatais, como: 
(1) atores e temas internacionais interconectados, que inviabiliza uma 
abordagem tradicional fundamentada no Estado e no conceito de hegemonia; (2) 
normas internacionais, pois elas podem levar à criação de instituições capazes 
de orientar o comportamento coletivo; (3) o crescente conhecimento acerca de 
questões internacionais, pois, com maior conhecimento a respeito de 
determinados temas, novas práticas são adotadas, como podemos observar no 
tema ambiental. Além disso, Haas (2015) aponta três tipos denormas que 
estruturam a governança global: normas geradoras, normas principiológicas e as 
normas procedimentais. As normas geradoras constituem a governança global, 
estabelecendo os parâmetros de governança. Já as normas principiológicas 
moldam os comportamentos dos atores, e as normas procedimentais, por sua 
vez, estabelecem os processos legítimos da tomada de decisão coletiva. 
Na ausência de uma autoridade hegemônica que garanta as regras de 
conduta, a legitimidade torna-se um componente importante da governança 
global, pois indica os processos decisórios mais passíveis de serem aceitos 
 
 
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pelos atores internacionais. Porém, a tarefa de identificar processos legítimos 
torna-se complexa na ausência de princípios e regras internacionalmente 
aceitos. Assim, o aumento do número de atores não estatais na governança 
amplia as normas que são aceitas como legítimas (Haas, 2015). 
 
Saiba mais 
Para acessar um tema atual para reflexão, recomendamos a leitura de 
“Governança global e transferência de política: influências do Protocolo de 
Cartagena na Política Nacional de Biossegurança”, de Yuna Fontoura e Ana 
Lucia Guedes, disponível em: 
. 
 
NA PRÁTICA 
Peter Haas desenvolveu o conceito de governança global pós-
hegemônica (Haas, 2015) com base na análise do contexto dos Estados Unidos. 
Segundo esse autor, os Estados Unidos, nos últimos anos, tiveram sua 
capacidade para induzir a ordem internacional significativamente limitada. Esses 
limites relacionaram-se tanto a desafios materiais crescentemente 
intransponíveis, como o combate ao terrorismo, quanto a alguns atos unilaterais 
norte-americanos que fragilizaram a ordem internacional, como a Guerra do 
Iraque. Assim, o contexto norte-americano evidencia a necessidade de pensar a 
governança internacional como um fenômeno que vem sendo crescentemente 
moldado por fatores que extrapolam o âmbito dos Estados. 
 
FINALIZANDO 
A governança global é uma resposta da academia e das instâncias 
decisórias internacionais às limitações das correntes teóricas hegemônicas e 
das mudanças da sociedade internacional advindas com o fim da Guerra Fria. A 
governança global é uma proposta tanto analítica quanto normativa, pois sua 
vocação é não apenas descrever a realidade internacional vigente, mas também 
apresentar propostas às principais pautas da agenda internacional. Conforme 
Hofferberth (2014), a governança global distingue-se de outras abordagens 
teóricas das RI por possuir: (1) uma escala potencialmente global de governança 
de problemas e soluções; (2) o envolvimento de outros atores para além do 
 
 
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Estado; (3) a ideia de ordem como requisito básico para garantir governança. 
Esses três componentes fazem com que o conceito de governança global 
represente uma nova perspectiva para a compreensão das relações 
internacionais contemporâneas. 
 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
COMMISSION on global governance. Our Global Neighbourhood. The Report 
of the Commission on Global Governance, Oxford: Oxford University. 
HAAS, P. M. Post Hegemonic Global Governance. Japanese Journal of 
Political Science, v. 16, p. 435-441, 2015. 
HOFFERBERTH, M. Mapping the meanings of global governance: a 
conceptual reconstruction of a floating signifier, 2014. 
KEOHANE, R. O.; NYE, J. S. Power and Interdependence Revisited. 
International Organization, v. 41, n. 4, 1987. 
KRASNER, S. Structural causes and regime consequences: regimes as 
intervening variables". International Organization, vol. 36, nº 2, 1982, p. 185-
205. 
MANI, R. From ‘dystopia’ to ‘Ourtopia’: charting a future for global governance. 
International Affairs, v. 91, n. 6, 2015. 
MEARSHEIMER, J. J. The false promisse of international institutions. 
International Security, v. 19, n.3, 1994. 
ROSENAU, J. N.; CZEMPIEL, Ernst-Otto (Orgs). Governança sem governo: 
ordem e transformação na política mundial. Brasília: Editora UnB, 2000. 
WALTZ, K. N. Theory of international politics. Massachusetts: Addison-
Wesley, 1979. 
WEISS, T. G.; WILKINSON, R. Change and continuity in global governance. 
Ethics & International Affairs, 2015.

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