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CURSO NACIONAL DE ESPECIALIZAÇÃO EM AUDITORIA DO SUS Unidade 2 Aplicação dos recursos financeiros no SUS Francisco das Chagas Teixeira Neto ORÇAMENTO E FINANCIAMENTO DO SUS UNIDADE 2 – APLICAÇÃO DOS RECURSOS FINANCEIROS NO SUS Nesta Unidade, estaremos conhecendo as formas de captação dos recursos no SUS, quais os caminhos percorridos entre a fonte e o destino, como esse fluxo é realizado pelos Fundos de Saúde e, por fim, conheceremos o atual cenário de financiamento realizado por cada ente federado nesse grande Pacto Federativo de financiamento do sistema público de saúde brasileiro. Aula 1 – Captação e Transferências intergovernamentais de recursos financei- ros na área da saúde Aula 2 - Gastos públicos em Saúde por esfera de governo no Brasil AULA 1 – Captação e Transferências intergovernamentais de recursos financeiros na área da saúde As formas de captação de recursos e como são repassados para o financiamento das ações e serviços de saúde, conforme os dispostos legais, serão os conteúdos explorados nesta aula. A captação ocorre atualmente no SUS, principalmente na Atenção Primária, que é a porta de entrada preferencial do sistema no Brasil. Dados do IBGE mostraram que, em 2019, o consumo final de bens e serviços de saú- de no Brasil foi de R$ 711,4 bilhões, equivalente a 9,6% do PIB. Porém, os maiores responsáveis por esses gastos foram as famílias e instituições a serviço dessas famí- lias, não foram gastos públicos. Elas responderam por R$ 427,8 bilhões do total, o que corresponde a 5,8% do PIB, enquanto R$ 283,6 bilhões (3,8% do PIB) foram despesas de consumo do governo (IBGE, 2023). A participação das famílias e dessas instituições nos gastos com a saúde vem cres- cendo desde 2011, enquanto a do governo, que havia crescido entre 2013 e 2016, permaneceu estável após uma queda em 2017 (IBGE, 2023). Como podemos ver, o sustento de um sistema de saúde com acesso universal envolve valores sempre fora do alcance da previsibilidade orçamentária. Existem, inclusive, algumas teorias que tentam comprovar tal conclusão. EQUAÇÃO DE EVANS Essa equação expressa uma lei e diz que, em qualquer sociedade e em qualquer tempo, o total das receitas disponíveis para a atenção à saúde deve ser igual ao total de rendas recebidas pelos prestadores de serviços e, ambas, devem ser iguais ao valor total de bens e serviços utilizados na atenção à saúde. Em outros termos: total de receitas = total de rendas = total de despesas (Evans, 1996 apud Mendes, 2019). As receitas podem provir de impostos e taxas (T), de prêmios de seguros (R) e de encargos diretos para os usuários dos serviços (C). Essas receitas financiam a pres- tação de serviços (Q), que têm preços explícitos ou implícitos (P). Entretanto, os pro- fissionais de saúde fazem jus a rendas que dependem dos tipos e das quantidades dos serviços que eles ofertam (Z) e dos índices de pagamentos daqueles recursos (W). O custo total da atenção à saúde será o produto do volume de serviços ofer- tados (Q) e o preço desses serviços (P). Todavia, eles serão iguais às rendas totais recebidas pelos que ofertam serviços para a atenção à saúde (Evans, 1996 apud Mendes, 2019). A LEI DE WILDAVSKY A Lei de Wildavsky, conhecida como a lei da despesa médica, foi formulada da seguinte forma: Os gastos dos sistemas de atenção à saúde vão aumentar até atingir o nível dos recursos disponíveis, de modo que esse nível deve ser limitado para manter os custos controlados. Em uma linguagem mais popular, poderia ser denominada de lei do saco sem fundo dos sistemas de atenção à saúde. Ela decorre do fato de que esses sistemas não dispõem de mecanismos internos de equilíbrio e tendem a crescer, sem limites, se permitidos. Essa propensão ao crescimento incontrolado dos gastos dos serviços de saúde deriva da constatação de que as necessidades em saúde são potencialmente infinitas (Mendes, 2019, p. 59). Todas essas teorias tentam demonstrar que, naturalmente, se a despesa consome qualquer valor orçado para a saúde, o desafio de arrecadação para garantir a sus- tentabilidade se mostra como um desafio maior ainda. Portanto, tão importante como captar os recursos é o zelo no gasto com eles. Sabidamente, a definição do que são as ASPS é o principal pressuposto para se garantir que os recursos disponí- veis sejam gastos especificamente com o que deve ser gasto. A LC nº 141/2012 disciplinou o que são ASPS: ações e serviços voltados para a promo- ção, proteção e recuperação da saúde, financiados com recursos movimentados por meio dos respectivos fundos de saúde, que atendam, simultaneamente, aos princí- pios estatuídos no art. 7º da Lei nº 8.080/1990 e às seguintes diretrizes: sejam desti- nadas às ASPS de acesso universal, igualitário e gratuito; estejam em conformidade com objetivos e metas explicitados nos Planos de Saúde de cada ente da Federação; sejam de responsabilidade específica do setor da saúde, não se aplicando às despe- sas relacionadas a outras políticas públicas que atuam sobre determinantes sociais e econômicos, ainda que incidentes sobre as condições de saúde da população. Sabemos que a legislação vigente exige percentuais de aplicações mínimas da RCL dos entes federados com ASPS. Para que ações e serviços sejam definidos como ASPS, eles devem estar disponíveis a toda a população de forma gratuita, constar do plano de saúde, ser de responsabilidade do setor de saúde e ser fiscalizadas e aprovadas pelo Conselho de Saúde, sendo os recursos financeiros movimentados até sua destinação final por meio dos fundos de saúde (Conasems, 2021). A Lei n° 141/2012 também especifica em seu art. 4º, para fins de cumprimento do mínimo constitucional, os gastos que não são considerados como ASPS. Logo, tais despesas não devem ser consideradas para efeitos de cumprimento de índices legais. Nesse caso, não são consideradas como ações e serviços de saúde: • pagamento de aposentadorias e pensões, inclusive dos ser- vidores da saúde; • pessoal ativo da área de saúde quando em atividade alheia à referida área; • assistência à saúde que não atenda ao princípio de acesso universal; • merenda escolar e outros programas de alimentação, ainda que executados em unidades do SUS, ressalvando-se o disposto no inciso II do art. 3º; • saneamento básico, inclusive quanto às ações financiadas e mantidas com recursos provenientes de taxas, tarifas ou preços públicos instituídos para essa finalidade; • limpeza urbana e remoção de resíduos; • preservação e correção do meio ambiente realizadas pelos órgãos de meio ambiente dos entes da Federação ou por enti- dades não governamentais; • ações de assistência social; • obras de infraestrutura, ainda que realizadas para beneficiar direta ou indiretamente a rede de saúde e; • ASPS custeados com recursos distintos dos especificados na base de cálculo definido nessa Lei Complementar ou vinculados a fundos específicos distintos daqueles da saúde (Conasems, 2021). As transferências de recursos federais aos demais entes federados pressupõem a exigência dos seguintes fatores conforme a Lei n° 141/2012: alimentação e atuali- zação regular dos sistemas de informações que compõem a base nacional de infor- mações do SUS; Conselho de Saúde instituído e em funcionamento; Fundo de Saúde instituído por lei, categorizado como fundo público em funcionamento e Instrumen- tos de Gestão – Plano de Saúde (PS), Programação Anual de Saúde (PAS) e Relatório de Gestão (RAG) submetidos ao respectivo Conselho de Saúde. Os recursos que compõem cada Bloco são transferidos, fundo a fundo, de forma regular e automática, em conta corrente específica e única para cada Bloco e man- tidas em instituições financeiras oficiais federais. O Fundo Nacional de Saúde (FNS) divulga, em seu sítio eletrônico, informações sobre os recursos federais transferi- dos aos estados, ao Distrito Federal e municípios por Bloco de Financiamento, orga- nizando-as por Grupo de Identificação das Transferênciasrelacionadas ao nível de atenção ou à finalidade da despesa na saúde (Conasems, 2023). Importante esclarecer que a vinculação entre o escopo das programações orçamen- tárias que financiam os repasses federais e a aplicação dos recursos por estados, Distrito Federal e municípios têm origem no disposto no inciso VI do art. 167 da Constituição Federal, o qual veda “a transposição, o remanejamento ou a transfe- rência de recursos de uma categoria da programação para outra ou de um órgão para outro, sem prévia autorização legislativa”. Assim, tendo em vista o texto cons- titucional, entende-se que não pode o Poder Executivo aprovar aplicação pelo ente subnacional em objeto diverso daquele especificado na Lei Orçamentária Anual que autorizou a despesa (Conasems, 2023). No período pré-SUS, a captação dos recursos era exclusivamente por produção, ou seja, os estabelecimentos de saúde conveniados com o Inamps executavam o rol de procedimentos e, ao final do período de execução, que geralmente funcionava em rotina mensal, era elaborado o Boletim de Produção Ambulatorial (BPA), no qual eram descritos todos os procedimentos realizados como também as quantidades de cada um deles; e ao final, esse BPA era apresentado como fatura de cobrança a ser paga por meio de transferência bancária para a Unidade executante. Esse modelo de captação se perpetua até os dias atuais com algumas adequações nos níveis hospitalares com o faturamento das denominadas Autorização de Inter- nação Hospitalar (AIH) e também de procedimentos de MAC. Ressalta-se que, atu- almente, esse faturamento deve estar em consonância com uma programação pré- via de estrutura e capacidade instalada registrada em um documento denominado Ficha de Programação Orçamentária (FPO). A FPO, por sua vez, deve estar em consonância com os cadastros profissionais e de estrutura descritos e informados no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), no qual estão descritos todos os recursos, sejam operacionais, sejam humanos, sejam de serviços ofertados por cada estabelecimento de saúde cadas- trado no SUS. Também é importante lembrar que as quantidades físicas e orçamen- tárias disponíveis para cada serviço da FPO devem atender ainda aos denominados tetos físicos e financeiros (limites prudenciais) calculados a partir dos perfis popula- cionais e estruturais de cada município e/ou ente federado. Quanto à Atenção Primária, a captação é feita com um formato diferente, um sis- tema conhecido como captação de resultados, organizado pelo sistema denomi- nado Previne Brasil, que foi instituído pela Portaria nº 2.979, de 12 de novembro de 2019. O novo modelo de financiamento altera algumas formas de repasse das transferências para os municípios, que passam a ser distribuídas com base em três critérios: capitação ponderada, pagamento por desempenho e incentivo para ações estratégicas. A proposta tem como princípio a estruturação de um modelo de financiamento focado em aumentar o acesso das pessoas aos serviços da Aten- ção Primária e o vínculo entre população e equipe, com base em mecanismos que induzem à responsabilização dos gestores e dos profissionais pelas pessoas que assistem (Brasil, 2023b). O Previne Brasil equilibra valores financeiros per capita referentes à população efe- tivamente cadastrada nas equipes de Saúde da Família (eSF) e de Atenção Primária (eAP), com o grau de desempenho assistencial das equipes somado a incentivos específicos, como ampliação do horário de atendimento (Programa Saúde na Hora), equipes de saúde bucal, informatização (Informatiza APS), equipes de Consultório na Rua, equipes que estão como campo de prática para formação de residentes https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/previne-brasil/arquivos/portaria-no-2-979-de-12-de-novembro-de-2019.pdf https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/previne-brasil/arquivos/portaria-no-2-979-de-12-de-novembro-de-2019.pdf https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/estrategia-saude-da-familia/ https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/saude-na-hora https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/informatiza-aps/ na APS, entre outros tantos programas (Brasil, 2023b). É calculado com base em quatro componentes: captação ponderada; pagamento por desempenho; incentivo financeiro com base em critérios populacionais e incentivos para ações estratégicas como demonstrado na Figura 07. Figura 1 - Diagrama do novo modelo de financiamento da Atenção Primária à Saúde Financiamento de Custeio da APS Pagamento por desempenho Capitação Ponderada Incentivo para ações estratégicas Repasse financeiro vinculado ao nº de pessoas cadastradas por equipe, aplicando os pesos de vulnerabilidade socioeconômica, perfil demográfico e classificação geográfica. Denominado Valor Cheio da Capitação; Vinculado aos resultados dos indicadores alcançados pelas equipes de Saúde da Família e de Atenção Primária* Destinado ao custeio de ações, programas e estratégias específicos** Fonte: https://www.portalsus.com.br/index.php/business-intelligence/ Como podemos observar, as formas de captação dos recursos no SUS avançaram bastante ao longo da história, sempre na tentativa de se ajustarem os valores com as reais demandas do sistema em busca de uma equação de sustentabilidade. Nes- sa execução, é muito importante atualmente a observância dos valores repassados e sua correlação com os perfis populacionais e assistenciais do ente beneficiado para que possamos corrigir distorções e mitigar o uso indevido dos recursos públi- cos na área da saúde. https://www.portalsus.com.br/index.php/business-intelligence/ Aula 2 – Gastos públicos em Saúde por esfera de governo no Brasil Nesta aula, falaremos sobre o pacto federativo tripartite para o financiamento do SUS conforme estabelecido na Lei n° 8.080/1990. Analisaremos como funciona esse pacto e como cada ente federado participa atualmente do rateio dos gastos de manutenção e serviços de saúde. Nas aulas anteriores, conhecemos as regras de financiamento do SUS, sabendo que a manutenção de todo o sistema é feita pela divisão das despesas entre os entes federados: União, estado e municípios. Sabemos ainda que existem responsabili- dades distintas para cada um destes entes conforme o nível de atenção ofertado e também da capacidade operacional, estrutural e logística, como também do perfil populacional. Já estudamos também que existem limites mínimos regulamentados pela Lei n° 141/2012 das receitas da União, estados e municípios que devem ser gastos com ASPS e que esses limites mínimos, em hipótese alguma, devem ser considerados como fato- res restritivos para a oferta de procedimentos e serviços de saúde para a população. Sabedores de tudo isso, passaremos a conhecer como está a participação de cada um dos membros desse pacto federativo na sustentação do SUS. Segundo o Jornal Correio Braziliense, em notícia publicada em abril de 2023, atualmente, o comprometimento do PIB brasileiro com ASPS se aproxima de 10%. Nesse sentido, o documento mais recente, publicado em 2022, mostra a evolução dos gastos na última década. “Desse total, R$ 283,6 bilhões (o equivalente a 3,8% do PIB) foram despesas de consumo do governo e R$ 427,8 bilhões (5,8% do PIB) despesas de famílias e instituições sem fins de lucro a serviços das famílias”, detalha a publicação (Correio Braziliense, 2023). Segundo a Confederação Nacional dos Municípios (CNM), em Nota publicada em setembro de 2022, as políticas públicas estão, ao longo do tempo, sendo cada vez mais executadas por meio de programas e convênios entre a União, os estados e os municípios. A transferência de responsabilidades, principalmente quando essa é da União em direção aos municípios, vem configurando um cenário de sobrecarga desses últimos no que diz respeito à divisão de responsabilidades do setor público na prestação de serviços básicos à população (CNM, 2023). Segundo a própria CNM, o pacto federativo brasileiro apresenta-se desigual e cen-tralizador. Enquanto a Carga Tributária Bruta Brasileira é uma das maiores do mun- do, conforme estudo da CNM, chegando a 33,90% do Produto Interno Bruto em 2021, a divisão desses recursos entre os três Entes da Federação, após todas as transferências, é extremamente centralizada na União, que fica com 51%, os Esta- dos com 30% e os Municípios somente com 19% do total (CNM, 2023). Os dados do Conass, que representa a gestão estadual do SUS, é similar ao que já foi apontado pela CNM. Como podemos observar na Figura 2, a seguir, ao longo dos anos, segundo dados do Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Saúde (Siops), os entes subnacionais vêm aportando mais recursos em ações e serviços públicos em saúde do que a União. Figura 2 - Dimensionamento do Gasto público em ASPS por esfera – 2002 a 2021 22,1% 24,0% 26,0% 25,5% 26,3% 26,9% 27,6% 25,8% 26,9% 26,0% 25,3% 26,7% 26,5% 26,0% 25,5% 25,7% 26,5% 26,5% 24,0% 24,0% 24,0% 24,0% 24,0% 26,3% 27,0% 27,3% 29,0% 27,6% 28,4% 28,8% 29,4% 30,7% 31,1% 31,0% 31,7% 31,1% 30,9% 31,5% 28,5% 29,7% 47,6% 49,5% 50,7% 51,8% 53,3% 54,2% 56,6% 53,4% 55,3% 54,7% 54,7% 57,4% 57,6% 57,0% 57,2% 56,8% 57,4% 58,0% 52,5% 53,7% 52,4% 50,5% 49,3% 48,2% 46,7% 45,8% 43,4% 46,6% 44,7% 45,3% 45,3% 42,6% 42,4% 42,8% 43,2% 42,6% 42,0% 47,5% 46,3% 43,0% 2002 0,0% 10,0% 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020 2021 União Estados Municípios Estados e Municípios 20,0% 30,0% 40,0% 50,0% 60,0% 70,0% Fonte: Conass (2023). A proposta do Conass para corrigir essa distorção seria revogar a Emenda Constitu- cional n° 95, contemplar um crescimento progressivo do orçamento do Ministério da Saúde, passando dos atuais 1,7% para 2,9% do PIB em gasto público federal em saúde até o ano de 2026, totalizando 5% do PIB com vista a alcançar a meta de 6% no plano decenal, conforme definido pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) para os países das regiões das Américas. O Conasems informa ainda que, nos anos de 1980, a participação da União chegou a ser superior a 75%, mas, nos últimos 20 anos, a média do dispêndio federal caiu, alcançando 45%, de participação no gasto público seguida pelos municípios com 29% e estados com 26%. Considerando dados desde 2002, uma projeção para os próximos três anos indica que tal composição em 2024 será de 41%; 33%; 26%. Significa dizer que, mantendo o mesmo crescimento do gasto, estados e municípios que hoje são responsáveis por 55% dos gastos, em 2024, passarão a ser por 59%, com aporte predo- minantemente dos municípios, como podemos observar na Figura 3 (Conasems, 2022). Figura 3 - Composição percentual do Gasto Público em Ações e Serviços Públicos em Saúde por esfera de gestão do SUS, Brasil (2001-2021) Fonte: Conasems (2022). Conforme aponta o Conasems, em 2019, a União foi responsável apenas por 42% do financiamento total. Em 2020, esse percentual foi elevado a 48% da despesa pública total, considerando um aporte substancial de recursos extraordinários, des- tinados às necessidades de saúde provocadas pela pandemia de covid-19. Em 2021, após a ampliação temporária no primeiro ano da pandemia e a finalização do apor- te financeiro derivado dos créditos extraordinários, a União voltou a reduzir sua participação na composição dos gastos (Conasems, 2022). Retornando novamente aos preceitos da EC 29/2000, os valores mínimos a ser apli- cados em ações e serviços públicos de saúde devem ser, no mínimo, 12% dos recur- sos próprios dos estados. No caso dos municípios, o mínimo a ser aplicado é de 15% dos recursos próprios. Em 2021, em conjunto, os estados ultrapassaram esse míni- mo em mais de R$ 11 bilhões, por sua vez, em média, nos últimos 10 anos, o con- junto dos municípios tem se distanciado significativamente da aplicação do mínimo constitucional. No ano de 2021, o valor atingiu o percentual de 23%, representando um volume total de recursos acima do estabelecido pela Constituição Federal da ordem de R$ 40 bilhões (Conasems, 2022). Enquanto estados e municípios assumem o protagonismo quanto ao financiamento do SUS, a cada ano, a União vem reduzindo sua participação nesse rateio, alcan- çando apenas 1,9% de participação no ano de 2021, segundo dados do Conasems. A fim de corrigir essa distorção, a proposta do conselho que representa a gestão municipal é a Implantação do critério de rateio, estabelecido pela Lei Complementar n° 141/2012 para os repasses do Ministério da Saúde aos entes subnacionais, e a revogação da obrigatoriedade do cumprimento de objetos e compromissos pac- tuados e/ou estabelecidos em atos normativos específicos que regulamentaram o repasse à época do ingresso dos recursos no fundo de saúde do estado, do Distrito Federal ou do município (Portaria de Consolidação nº 6/2017, art. 3º, § 2º, inciso III). Em síntese, é nítido que existe atualmente um desequilíbrio no cumprimento do pacto federativo para o financiamento do SUS entre os seus partícipes e que a Lei n° 141/2012, que regulamenta essa divisão, é leniente com esse desequilíbrio na medida em que estabelece regras distintas para a União em relação aos estados e municípios. Para corrigir essas desproporções e evitar um subfinanciamento do sistema, vimos que existem propostas tanto do Conass, que sugere um aumento do comprometimento dos percentuais orçamentários da União, como do Conasems, que recomenda o comprometimento de limites mínimos da arrecadação também para a União para que sejam investidos em saúde, assim como hoje já ocorre com os demais entes federados. O fato é que é indiscutível que precisamos debater esse regramento para que possamos fortalecer o SUS no cumprimento das garantias legais de assistência à saúde ao povo brasileiro como preceito constitucional.