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Aperfeiçoamento da Prática em Coordenação do Cuidado a partir da Atenção Primária à Saúde - APS Saúde Digital e Tecnologias Inovadoras na Atenção à Saúde MÓDULO IV | USO DE SISTEMAS DE INFORMAÇÃO NA GESTÃO CLÍNICA DISCIPLINA 11 Brasília (DF) 2026 Saúde Digital e Tecnologias Inovadoras na Atenção à Saúde DISCIPLINA 11 Tiragem: 1ª edição – 2026 – versão eletrônica 2026 Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde. A.C Camargo Câncer Center. Esta obra é disponibilizada nos termos da Licença Creative Commons – Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional. É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte. A coleção institucional da Oferta de Aperfeiçoamento da Prática em Coordenação do Cuidado a partir da Atenção Primária à Saúde pode ser acessada, na íntegra, na Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde: http://bvsms.saude.gov.br Elaboração, distribuição e informações: MINISTÉRIO DA SAÚDE Secretaria de Atenção Primária à Saúde - SAPS Esplanada dos Ministérios Bloco G, Edifício Sede CEP: 70058-900 – Brasília/DF CONSELHO NACIONAL DE SECRETARIAS MUNICIPAIS DE SAÚDE - CONASEMS Esplanada dos Ministérios, Bloco G, Anexo B, Sala 144 Zona Cívico-Administrativo CEP: 70058-900 – Brasília/DF A.C CAMARGO CANCER CENTER R. Prof. Antônio Prudente, 211 – Liberdade CEP: 01509-010 - São Paulo/SP - Brasil Colaboração: Adélia Delfina da Motta Silva - SEIDIGI/MS Adriana Mallet Toueg - SEIDIGI/MS Anderson Sales Dia - SAPS/MS Joselio Emar de Araújo Queiroz - SEIDIGI/MS Julia Chaves do Nascimento - SAPS/MS Kessia Pereira Duarte Lopes - SAPS/MS Ricardo da Silva Kaminski - SEIDIGI/MS Robson Willian de Melo Matos - SEIDIGI/MS Tarssio Brito Barreto - SEIDIGI/MS Wesley Sousa Moura - SAPS/MS Designer educacional: Fabiana Guimarães Coelho - CONASEMS Samuel Rubens - CONASEMS Coordenação de desenvolvimento gráfico: Cristina Perrone - CONASEMS Diagramação e projeto gráfico: Luciana Monteiro Campello - CONASEMS Júlia Gutierrez Souza Carmo - CONASEMS Revisão Linguística: Keylla Manfili Fioravante - CONASEMS Fotografias e ilustrações: Biblioteca do Banco de Imagens do Conasems Imagens: Fototeca do CONASEMS Flickr Ministério da Saúde Flickr CONASEMS Flickr Secretaria de Saúde do Distrito Federal Envato Elements https://elements.envato.com Freepik https://br.freepik.com Pexels https://www.pexels.com/pt-br/ Coordenação-geral: Ana Cláudia Cardozo Chaves - SAPS/MS Ana Luiza Ferreira Rodrigues Caldas - SAPS/MS Ana Paula Neves Marques de Pinho - A.C. Camargo Cristiane Martins Pantaleão - CONASEMS Hisham Mohamad Hamida - CONASEMS Mauro Junqueira - CONASEMS Patricia da Silva Campos - CONASEMS Verônica Savatin Wottrich - CONASEMS Organização: Núcleo Pedagógico do CONASEMS Coordenação técnica e pedagógica: Beatriz Zocal da Silva - SAPS/MS Danylo Santos Silva Vilaça - SAPS/MG Jacirene Gonçalves Lima Franco - SAPS/MS Kelly Cristina Santana - CONASEMS Maria da Penha Marques Sapata - CONASEMS Marta de Sousa Lima - CONASEMS Patricia da Silva Campos - CONASEMS Soane Cristina Almeida dos Santos - CONASEMS Thais Coutinho de Oliveira - SAPS/MS Elaboração de conteúdo: Alexandre Chater Taleb Revisão técnica de conteúdo: Beatriz Zocal da Silva - SAPS/MS Jacirene Gonçalves Lima Franco - SAPS/MS Maria da Penha Marques Sapata - CONASEMS Michael Luiz Diana de Oliveira - CONASEMS Patricia da Silva Campos - CONASEMS Soane Cristina Almeida dos Santos - CONASEMS Thais Coutinho de Oliveira - SAPS/MS Stanley Mendes Fonseca - CONASEMS COMO NAVEGAR NESTE E-BOOK Antes de iniciar a leitura do material, veja, aqui, algumas dicas para aproveitar ao máximo os recursos disponíveis. SUMÁRIO: uma forma rápida de acessar facilmente as temáticas. Quer retornar à lista das temáticas? Basta clicar no ícone, no canto superior da página. Sempre que surgir o QR CODE, aponte a câmera do seu celular para acessar o conteúdo. Você também pode clicar sobre ele, com o botão direito do mouse, para abrir em uma nova aba ou navegador. QR CODE Caso tenha dificuldade para visualizar os elementos visuais, utilize a função de zoom do PDF. ZOOM Este é o e-book da Disciplina 11: Saúde Digital e Tecnologias Inovadoras na Atenção à Saúde, Módulo IV – Uso de Sistemas de Informação na Gestão Clínica. Ao longo dos seus estudos, você vai compreender como as tecnologias digitais estão transformando a forma como os serviços de saúde são organizados e como o cuidado é oferecido na Atenção Primária à Saúde (APS). Veremos como ferramentas tecnológicas (como testes rápidos, prontuários eletrônicos, inteligência artificial e dispositivos vestíveis) ampliam as possibilidades de diagnóstico, acompanhamento e tomada de decisão clínica, contribuindo para uma assistência mais resolutiva, integrada e centrada nas necessidades das pessoas. BEM-VINDO! Entretanto, incorporar novas tecnologias ao cotidiano da APS vai muito além da adoção de equipamentos ou sistemas digitais. É fundamental compreender seus benefícios, limites e desafios, garantindo que seu uso esteja fundamentado em evidências científicas, princípios éticos, proteção de dados e respeito ao julgamento clínico dos profissionais de saúde. Nesse contexto, a tecnologia deve ser entendida como uma ferramenta de apoio ao cuidado, e não como um substituto da atuação humana. Nesta disciplina conheceremos as principais tecnologias digitais aplicadas à APS, refletiremos sobre critérios para sua incorporação nos serviços de saúde e discutiremos aspectos relacionados à ética, à inteligência artificial, à interoperabilidade e à responsabilidade profissional. Ao final deste estudo, espera-se que você seja capaz de analisar criticamente essas ferramentas e utilizá-las de forma segura, ética e alinhada aos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS). AAS | Agentes de Ação Social ACE | Agentes de Combate às Endemias ACS | Agente Comunitário de Saúde APS | Atenção Primária à Saúde CIAP | Classificação Internacional de Atenção Primária CFM | Conselho Federal de Medicina CFO | Conselho Federal de Odontologia CFP | Conselho Federal de Psicologia CFN | Conselho Federal de Nutrição CID | Classificação Internacional de Doenças CRM | Conselho Regional de Medicina DPOC | Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica EBIA | Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial ECG | Eletrocardiograma eMulti | Equipes Multiprofissionais na APS ESD28 | Estratégia de Saúde Digital para o Brasil 2020–2028 FM UFG | Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás HIPAA | Health Insurance Portability and Accountability Act (Lei de Portabilidade e Responsabilidade de Seguros de Saúde) HIV | Vírus da Imunodeficiência Humana HL7 FHIR | Fast Healthcare Interoperability Resources (Recursos de Interoperabilidade Rápida em Saúde) IA | Inteligência Artificial IST | Infecção Sexualmente Transmissível LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS INMSD | Índice Nacional de Maturidade em Saúde Digital IoT | Internet das Coisas LGPD | Lei Geral de Proteção de Dados LLM | Large Language Model (Grande Modelo de Linguagem) MGI | Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos MS | Ministério da Saúde NUTT | Núcleo de Telemedicina e Telessaúde OMS | Organização Mundial da Saúde OPAS | Organização Pan-Americana da Saúde PA | Pressão Arterial PEP | Prontuário Eletrônico do Paciente POC | Point of Care (Ponto de cuidado) RA | Realidade Aumentada RNDS | Rede Nacional de Dados em Saúde RV | Realidade Virtual SAPS | Secretaria de Atenção Primária à Saúde SEIDIGI | Secretaria de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde SNOMED CT. | Nomenclatura Médica Sistematizada SUS | Sistema Único de Saúde TACS | Técnico em Agente Comunitário de Saúde TDICs | Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação TRM-TB | Teste Rápido Molecular para Tuberculose UBS | Unidade Básica de Saúde VPN | Virtual Private Networknas amostras de treinamento, o julgamento do profissional de saúde que atende ao paciente é fundamental. 94 SA IB A M A IS Atualmente, a incorporação de Inteligência Artificial (IA) no SUS ocorre, predominantemente, por meio de projetos-piloto, parcerias universitárias e soluções adotadas por secretarias municipais e estaduais de saúde. Alguns exemplos: IA Serena Utilizada em Secretarias de Estado de Saúde (como no Rio de Janeiro), atua na triagem e na classificação de gravidade, para agilizar exames, internações e consultas, auxiliando o médico regulador sem substituir a decisão clínica. Clique aqui ou escaneie o QR Code, ao lado, para conhecer a IA Serena. 1295 https://www.rj.gov.br/noticias/secretaria-de-estado-de-saude-apresenta-serena-assistente-virtual-do-sistema-estadual-de-regulacao-ser-em-evento-de-inovacao-tecnologica8848 https://www.rj.gov.br/noticias/secretaria-de-estado-de-saude-apresenta-serena-assistente-virtual-do-sistema-estadual-de-regulacao-ser-em-evento-de-inovacao-tecnologica8848 12 ChatBot da Ouvidoria-Geral do SUS Geral do SUS: melhoram a resolução dos questionamentos feitos à Central 136 e colaboram para combater a disseminação de informações falsas Clique aqui ou escaneie o QR Code, ao lado, para conhecer o ChatBot da Ouvidoria-Geral do SUS. ACESSE O QR CODE SA IB A M A IS 96 https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2024/agosto/whatsapp-e-chatbot-ja-atendem-usuarios-da-ouvidoria-geral-do-sus https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2024/agosto/whatsapp-e-chatbot-ja-atendem-usuarios-da-ouvidoria-geral-do-sus VESTÍVEIS (WEARABLES) Para ser considerado um dispositivo médico, um vestível (wearable) precisa estar registrado como dispositivo médico na ANVISA, e, até o momento, não deve ser utilizado de forma isolada para a tomada de decisão clínica. Os wearables são dispositivos que podem ser vestidos (como relógios, faixas, luvas, camisetas), capazes de monitorar, de forma continuada, parâmetros fisiológicos, como frequência cardíaca, distância de caminhada, glicemia intersticial, gasto calórico, padrão de sono e armazenar e transmitir esses dados para sistemas de informação ou diretamente para profissionais de saúde. Os usos mais frequentes dos smartwatches (relógios com sensores) são para monitoramento de frequência cardíaca, oxigenação sanguínea, atividade física, padrão de sono, e, até mesmo, eletrocardiograma. 97 12 Os sensores de glicemia intersticial são capazes de “realizar leituras frequentes, em intervalos de poucos minutos, e têm duração variável, conforme o modelo”, permitindo não só o monitoramento da variação glicêmica ao longo do dia, como a construção de padrões de variabilidade individual para cada paciente. Revisões sistemáticas mostram que os sensores de glicose funcionam, também, como educadores, uma vez que o paciente percebe as variações glicêmicas ocorridas após cada alimentação, atividade física, situações de estresse, e alterações de sono, contribuindo para uma melhor compreensão individual do papel do paciente no seu manejo clínico (Alfadli et at., 2025). 98 No processo de tomada de decisão sobre a incorporação, ou não, de uma nova tecnologia ou de uma nova ferramenta digital, algumas questões devem ser levadas em consideração: AVALIAÇÃO DA INCORPORAÇÃO DE NOVAS TECNOLOGIAS Evidência clínica Existem estudos publicados que validam essa tecnologia para a população e a condição clínica em que se pretende aplicar? Registro regulatório O dispositivo ou software está registrado na ANVISA para uso clínico no Brasil? Acurácia Quais são a sensibilidade, a especificidade e o valor preditivo para a tecnologia em avaliação? 99 Interoperabilidade A ferramenta está integrada ao e-SUS APS, ao sistema ou ao PEP local? É possível exportar dados para a RNDS? Responsabilidade clínica Está claro que o responsável pela decisão final é o profissional de saúde e não o dispositivo ou o algoritmo? Suporte e manutenção Existe suporte técnico disponível? Qual é a contingência para quando o sistema falhar? Viés de dados (no caso de utilização de IA) O algoritmo foi treinado e validado em populações que incluem pessoas indígenas, negras e de baixa renda (similaridade territorial)? Proteção de dados A ferramenta é compatível com a LGPD? Onde os dados dos pacientes serão armazenados? Quem terá acesso? 100 Toda vez que uma nova tecnologia for apresentada para adoção no serviço público, cabe ao profissional de saúde e/ou ao gestor fazer perguntas que possam nortear a identificação da real utilidade da aplicação dessa ferramenta. Em paralelo ao entusiasmo da incorporação de novas tecnologias, deve andar a responsabilidade da identificação da real necessidade e aplicabilidade no serviço proposto. 12 Equidade de acesso Todos os pacientes do território conseguem usar ou se beneficiar dessa tecnologia ou ela amplia desigualdades? Custo-efetividade O benefício clínico justifica o custo, seja ele direto ou indireto (tempo de treinamento, adaptação de fluxo, manutenção)? 101 04 Ética Digital e Interoperabilidade em Saúde Os princípios éticos da bioética clássica são autonomia, beneficência, não maleficência e justiça. Esses princípios continuam sendo o referencial, que devemos aplicar na utilização das tecnologias em saúde. Quando falamos de tecnologias digitais em saúde, algumas novas questões devem ser avaliadas. Vamos conhecer cada um dos princípios: ÉTICA NO USO DAS TECNOLOGIAS EM SAÚDE Refere-se à capacidade do paciente de tomar decisões informadas sobre a sua saúde. Essa autonomia pode ser violada por algoritmos, que tomam decisões pelos pacientes ou que usam dados sem consentimento informado. O ideal é que o consentimento digital seja uma descrição completa e compreensível da assistência que será oferecida, e que seja ofertado tempo para a leitura, a análise e a interpretação pelo paciente, ou seus responsáveis, quando for o caso, e não apenas um clique em "Aceito". 103 Autonomia Beneficência Beneficência está ligada à ação no melhor interesse do paciente. Ferramentas de inteligência artificial que funcionam bem para a maioria dos pacientes podem ser prejudiciais para pacientes que fogem ao perfil do treinamento do algoritmo. Beneficência Não maleficência significa, literalmente, não causar dano. Algoritmos treinados com dados pouco representativos ou que reproduzem desigualdades históricas podem apresentar vieses relacionados, por exemplo, a raça/cor, sexo, idade, deficiência, condição socioeconômica ou território. Esses vieses podem resultar em menor precisão diagnóstica, subdiagnóstico ou tratamento inadequado para determinados grupos populacionais. Por isso, é fundamental identificar, monitorar e corrigir possíveis vieses nos dados e nos algoritmos, pois os danos podem não ser percebidos inicialmente, mas podem se acumular e atingir muitas pessoas quando a tecnologia é utilizada em larga escala. Justiça é o princípio da distribuição equitativa dos benefícios e riscos da medicina. Tecnologias digitais, que só funcionam em internet de alta qualidade, telefones modernos, ou em determinadas línguas, podem excluir populações vulneráveis, ampliando desigualdades em saúde. 104 Não maleficência Justiça A seguir, vamos aplicar esses princípios éticos em uma situação hipotética. N A P R Á TI CA Imagine a situação em que uma médica da APS de UBS localizada na região Nordeste recebe, da Secretaria Municipal de Saúde, a oferta da utilização de um algoritmo de IA. Esse algoritmo tem a capacidade de: 1. acessar dados do prontuário eletrônico; 2. identificar automaticamente o paciente com risco de não aderir adequadamente ao tratamento de hipertensão arterial; 3. enviar uma mensagem automática para esses pacientes. O sistema parece eficiente,mas a médica percebe que o algoritmo foi treinado com dados de municípios da região Sul do Brasil, muito diferentes do perfil da sua UBS, localizada na região Nordeste. Ela nota, também, que as mensagens enviadas não têm a assinatura de nenhum profissional. 105 v A autonomia não é garantida, uma vez que as mensagens automáticas não identificam quem é o profissional responsável. Assim, o paciente não sabe com quem está interagindo. Beneficência e não maleficência podem ser comprometidas por um algoritmo treinado em população diferente daquela em que está sendo aplicado, o que pode gerar classificações de risco erradas, recomendando intervenções desnecessárias, ou excluindo pacientes que precisariam de suporte. Quanto à justiça, é importante observar que se o algoritmo funcionou bem no Sul, não quer dizer que irá funcionar bem no Nordeste, podendo distribuir benefícios de forma desigual, especialmente, para populações que podem necessitar de mais de cuidado equitativo. 01 02 03 Quais seriam os possíveis problemas éticos nessa situação? 106 E qual deve ser a conduta da médica frente a essa situação? Como profissional de saúde responsável pela atenção da população, ela tem a responsabilidade ética de questionar a adoção do algoritmo antes da sua implementação. Para isso, ela pode solicitar a validação do algoritmo para a população local antes de aceitar a sua adoção, exigir que as mensagens automáticas sejam identificadas com o nome e o registro profissional do responsável. Propor que casos classificados como de alto risco sejam revisados pela profissional antes de qualquer ação automatizada, e documentar as suas preocupações formalmente, encaminhando para a gestão local, e, se necessário, para o Conselho de Saúde. ATENÇÃO Nesse exemplo, não há nenhum intuito de evitar ou atrasar a aplicação de novas tecnologias em prol da população. A preocupação reside em termos a capacidade de escolher, de forma consciente e responsável, algoritmos e ferramentas que possam, efetivamente, trazer benefícios adequados à população que queremos atender. 107 Uma questão que se coloca com frequência e que passaremos a analisar, a seguir, é: RESPONSABILIDADE ÉTICA O profissional de saúde é o responsável final pela decisão clínica, independente da utilização de qualquer ferramenta que possa ter apoiado essa decisão. Isso é o que está determinado pelas resoluções dos conselhos profissinais sobre telemedicina e sobre inteligência artificial. Não importa se for utilizado um algoritmo de inteligência artificial ligado ao prontuário eletrônico ou outra ferramenta de IA, acessada pela internet – a utilização de qualquer tecnologia não retira a responsabilidade do médico, enfermeiro, odontólogo ou qualquer outro profissional de saúde, transferindo-a para o algoritmo. Quando um algoritmo de apoio à decisão clínica comete um erro e um paciente é prejudicado, quem deve ser responsável? Quais são as responsabilidades de cada um dos atores envolvidos na saúde digital? 108 O fabricante de um equipamento ou o desenvolvedor de uma ferramenta responde pela precisão declarada, pela ausência de defeitos e pela adequação do produto ao uso determinado. Ambos estão sujeitos à regulamentação da Anvisa para dispositivos médicos com inteligência artificial. O gestor, seja ele da rede pública ou da instituição, responde pela decisão de adotar a ferramenta, pelo treinamento adequado dos profissionais que irão utilizá-la e pela supervisão do seu uso. Adotar uma tecnologia sem validação adequada é uma decisão institucional que pode ter consequências éticas e legais. Já o Estado, assim como órgãos reguladores, responde pelo marco regulatório, pela definição de quais tecnologias podem ser utilizadas, em quais condições e com quais garantias para o cidadão. Vamos ver um caso prático! 109 N A P R Á TI CA Um paciente chega à UPA referindo dor torácica. Ao passar pela triagem automatizada, um algoritmo de apoio à decisão clínica, instalado no prontuário eletrônico, classifica esse paciente como baixo risco e sugere que ele seja conduzido ambulatorialmente. O médico segue a recomendação do algoritmo e dá alta para o paciente sem realizar eletrocardiograma (ECG). O paciente evolui para infarto. Neste caso, o médico é responsável pela decisão tomada. A sugestão do sistema deve ser vista, sempre, como apoio, e não como substituição ao julgamento clínico. O fato de o algoritmo ter recomendado uma conduta não exime o médico de realizar uma avaliação completa, que o caso clínico demanda. Ferramentas de apoio à decisão são suporte e podem ser de grande auxílio no cotidiano assistencial, mas não são responsáveis delegados. 110 Sempre que se for realizar qualquer ato ou procedimento com um paciente, é necessária a coleta de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Esse documento pode ser coletado de forma física ou digital, e deve permanecer armazenado junto do prontuário eletrônico do paciente. O consentimento informado é um direito do paciente, que permanece e se torna um pouco mais complexo, quando estamos em um contexto digital. É fundamental, do ponto de vista ético, que os pontos, a seguir, sejam adequadamente compreendidos e seguidos: CONSENTIMENTO INFORMADO O paciente deve ser informado quando será atendido ou monitorado por sistema automatizado, seja de forma parcial ou total. Termos de consentimento, que são muito longos ou em linguagem técnica, podem não ser considerados como consentimento informado real, especialmente, para populações com menor escolaridade. 111 O paciente tem o direito de recusar o uso de ferramentas digitais e ser atendido por outro meio, sem que isso penalize o seu acesso ao cuidado. Consentimento não é burocracia, é respeito! Segurança digital não é detalhe técnico, é dever moral! Privacidade não é obstáculo à inovação, é condição para que a inovação seja legítima. O consentimento deve ser assinado, de preferência pelo próprio paciente, ou, quando não possível, pelo responsável por ele. Dados coletados para telemonitoramento não podem ser utilizados para qualquer outra finalidade, sem que haja um novo consentimento específico para isso. 112 Interoperabilidade é a capacidade de sistemas de informação diferentes se comunicarem e trocarem dados de forma segura, padronizada e compreensível, sem que o usuário precise fazer isso de forma manual. A interoperabilidade possibilita a troca de informações entre instituições diferentes, permitindo que dados do paciente (sejam eles de anotações clínicas, de imagem, de exames complementares) possam ser compartilhados e acessados por profissionais de diferentes instituições. 12 INTEROPERABILIDADE DE DADOS 113 O cenário mais comum, ainda hoje, na maioria dos municípios, é, por exemplo, um paciente ser atendido na UBS com diagnóstico de diabetes e ter os seus dados armazenados no Prontuário Eletrônico e-SUS APS. Quando, porventura, esse paciente precisa ser internado em um hospital, como o Hospital Municipal, o sistema hospitalar não acessa o prontuário daquela UBS. A equipe médica e de enfermagem não tem acesso aos medicamentos em uso, às alergias ou ao histórico prévio de complicações desse paciente. O paciente precisa relatar tudo novamente, de memória, se puder. Com a interoperabilidade ativa (através da RNDS – Rede Nacional de Dados em Saúde), qualquer ponto da rede de atenção do SUS pode ser capaz de acessar o histórico clínico relevante do paciente, respeitando a segurança dos dados e as autorizações adequadas. 114 A RNDS é a plataforma do Ministério da Saúde, que conecta os diferentes sistemas de saúde do Brasil (veja a Figura 08, a seguir). Dados sobre sumários de alta, vacinas, atendimentos, resultados de exames e dispensação de medicamentos já podem serconsultados (e a cada dia, novas capacidades são acrescentadas à RNDS). Para que esses dados possam ser trocados entre sistemas diferentes, é crucial que seja utilizada uma linguagem padronizada. O HL7 FHIR é o padrão internacional para troca de dados em saúde. Esse padrão define como as informações clínicas, os sinais vitais, os diagnósticos, os medicamentos e os exames são estruturados e transmitidos entre os sistemas. 113115 Fonte: elaborada pelo autor com apoio de IA (ChatGPT, 2026). Figura 08 ─ Ilustração de como funciona a interoperabilidade mediada pela RNDS RNDS (Rede Nacional de Dados em Saúde) RNDS CENTRAL HUB HOSPITAL PRIVADO INTEROPERABILIDADE FHIR HL7 HEALTH TECHS & CONSULTORIA FONTE PÚBLICA FONTE PRIVADA GESTÃO ESTADUAL & MUNICIPAL REDUÇÃO DE CUSTOS & ERROS MEU SUS DIGITAL (PACIENTE) QUALIDADE DO DADO É FUNDAMENTAL LABORATÓRIO DE EXAMES UNIDADE BÁSICA DE SAÚDE (UBS) A interoperabilidade depende da utilização adequada de terminologia padronizada. São exemplos de terminologia padronizada o CID (Código Internacional de Doenças), o CIAP (Classificação Internacional de Assistência Primária) e o SNOMED (Nomenclatura Médica Sistematizada, do inglês: "Systematized Nomenclature of Medicine"). O CIAP e o SNOMED são mais aplicados na assistência ao paciente, enquanto o CID oferece uma classificação estatística, utilizada para agrupar doenças em categorias epidemiológicas. A qualidade dos dados que o profissional registra no Prontuário Eletrônico e-SUS APS, quando do atendimento na UBS ou domiciliar, afeta diretamente a qualidade da informação disponível em toda a rede. Essa informação fica disponível tanto para os profissionais de saúde, quanto para os gestores e para o próprio cidadão, através do MEU SUS DIGITAL – plataforma que dá acesso ao próprio cidadão para acessar o seu histórico de saúde. 116 Governança de dados em saúde é o conjunto de políticas, processos e responsabilidades, que garantem que os dados de saúde sejam coletados, utilizados e compartilhados de forma segura, ética e útil. É um equívoco considerar que a governança de dados em saúde seja somente um assunto dos trabalhadores da TI. O profissional da APS tem um papel central em todo o processo, porque é ele quem produz a maior parte dos dados clínicos que precisam ser registrados nos sistemas do SUS. Cada atendimento registrado no Prontuário Eletrônico e-SUS-APS, cada vacina notificada, cada diagnóstico corretamente codificado, contribui para um ecossistema de dados estruturado, que alimenta a vigilância epidemiológica, o planejamento em saúde, as pesquisas em saúde pública e, acima de tudo, o cuidado de cada indivíduo. É por meio da coleta e registro adequado de dados estruturados, que a vigilância epidemiológica pode identificar surtos, monitorar doenças crônicas e avaliar as coberturas vacinais. São os mesmos dados que permitem aos gestores alocar corretamente os recursos, definir prioridades e avaliar programas no planejamento de saúde de cada município. GOVERNANÇA DE DADOS 117 Uma base de dados bem estruturada permite estudos populacionais, geração de evidências e avaliação de intervenções através de pesquisas em saúde pública, visando à melhoria de todo o Sistema Único de Saúde. Cabe ao profissional da saúde registrar os atendimentos com qualidade e de forma completa, uma vez que dados incompletos ou incorretos do prontuário vão gerar informações incorretas para toda a rede. Caso o CID não seja especificado, e isso for repetido em múltiplos prontuários, a vigilância epidemiológica do município será comprometida. Deve-se utilizar a terminologia padronizada (CID, CIAP, SNOMED). A padronização é o fundamento da interoperabilidade. Diagnósticos que são registrados em linguagem livre não podem ser cruzados com dados de outros sistemas. Caso os dados sejam registrados inicialmente em meios físicos, como papel, é fundamental que eles sejam digitados com a mesma qualidade. A ausência temporária de conectividade por internet não justifica registros incompletos. 118 05 Finalizando Nesta disciplina, percorremos um caminho que vai do conceito à prática. Compreendemos o que é a Saúde Digital, identificamos quais são as modalidades de telessaúde e aprendemos a utilizá-las com segurança. Aqui também desenvolvemos um olhar crítico para as tecnologias emergentes, atentando para a importância das dimensões éticas e de governança que moldam o uso responsável de dados em saúde. E agora? 120 PARA REFLETIR Qual será o seu papel nessa transformação digital? Passivo ou ativo? Você será um espectador das tecnologias que chegam prontas, ou será um profissional capaz de questionar, avaliar e contribuir efetivamente com dados de qualidade, defendendo os direitos do seu paciente no mundo digital? O convite que fazemos não é apenas para a adoção tecnológica, mas para o engajamento crítico. Seja um agente ativo na defesa dos direitos do paciente, na ética algorítmica e na construção de um SUS cada vez mais conectado, resolutivo e humano. 121 06 Bibliografia ALFADLI S.F. et al. Effectiveness of continuous glucose monitoring systems on glycemic control in adults with type 1 diabetes: A systematic review and meta-analysis. Metabolim Open. v.27, 100382, Set 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.metop.2025.100382. Acesso em: 24 jul 2026. BRASIL. Ministério da Saúde. Meu SUS Digital. Brasília, 2024. Disponível em: https://meususdigital.saude.gov.br/login. Acesso em: 24 jul. 2026. BRASIL. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro. Portaria GM/MS nº 589, de 20 de maio de 2015. Institui a Política Nacional de Informação e Informática em Saúde (PNIIS). Brasília: Ministério da Saúde, 2015. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2015/prt0589_20_ 05_2015.html. Acesso em: 24 jul. 2026. BRASIL. Ministério da Saúde. Plano Nacional de Saúde 2016-2019. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/plano_nacional_saude _2016_2019_30032015_final.pdf. Acesso em: 24 jul. 2026. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria-Executiva. Departamento de Informática do SUS. Estratégia de Saúde Digital para o Brasil 2020-2028. Brasília: Ministério da Saúde, 2020. 128 p. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/estrategia_saude_digit al_Brasil.pdf. Acesso em: 24 jul. 2026. BRASIL. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). Brasília: Presidência da República, 2018. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13 709.htm. Acesso em: 14 abr. 2021. 123 https://doi.org/10.1016/j.metop.2025.100382 https://doi.org/10.1016/j.metop.2025.100382 https://meususdigital.saude.gov.br/login https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2015/prt0589_20_05_2015.html https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2015/prt0589_20_05_2015.html https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/plano_nacional_saude_2016_2019_30032015_final.pdf https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/plano_nacional_saude_2016_2019_30032015_final.pdf https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/estrategia_saude_digital_Brasil.pdf https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/estrategia_saude_digital_Brasil.pdf https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13709.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13709.htm BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Inovação e Saúde Digital. Apresentação de Saúde Digital. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. 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Ela representa um campo amplo, que utiliza as Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICs) para transformar o cuidado, a gestão e a produção de informações em saúde. Diferentemente de termos mais restritos, como e-Saúde, a Saúde Digital incorpora avanços tecnológicos recentes e disruptivos, como a Inteligência Artificial (IA), a Internet das Coisas (IoT), a realidade aumentada e virtual, para conectar cidadãos, profissionais e gestores em um ecossistema de dados mais confiável e eficiente. Para a Atenção Primária à Saúde (APS), essa transição é estratégica. Por ser a porta de entrada preferencial do Sistema Único de Saúde (SUS), a APS ocupa uma posição central na adoção dessas tecnologias, que facilitam desde o registro clínico e o acompanhamento longitudinal dos pacientes até o acesso a suporte especializado, sem a necessidade de encaminhamentos desnecessários. 14 Quando bem utilizada, a tecnologia amplia o acesso, qualifica o monitoramento de condições crônicas e torna a gestão mais eficiente, liberando tempo para o que é essencial: o cuidado direto ao usuário. Com o intuito de aprofundar o entendimento sobre o assunto, torna-se necessário definir e delimitar o alcance de outros conceitos frequentemente utilizados, tais como: Telessaúde Termo amplo, que engloba todas as áreas de saúde que podem ser exercidas a distância, através do uso das tecnologias de informação e comunicação para transferir informações de dados e serviços clínicos, administrativos e educacionais em saúde, por profissionais de saúde, respeitadas suas competências legais (Brasil, Ministério da Saúde, SEIDIGI, 2023). Telemedicina É o exercício remoto da medicina, mediado por Tecnologias Digitais de Informação e de Comunicação, para fins de assistência, educação, pesquisa, prevenção de doenças e lesões, gestão e promoção de saúde (Wen CL, 2022; CFM, 2022). A Telemedicina, de acordo com o Prof. Alexandre Taleb (2022), apresenta-se como um novo modo de cuidar. O paciente pode ser cuidado clinicamente (na maioria dos casos), cirurgicamente (em quadros específicos) ou virtualmente (quando conveniente e seguro). 15 A Atenção Primária à Saúde (APS) é a porta de entrada preferencial do SUS e o ponto mais frequente de contato entre os usuários com o Sistema Único de Saúde. POR QUE É IMPORTANTE CONHECER A SAÚDE DIGITAL? Isso faz com que os profissionais da APS atuem em uma posição central na adoção de tecnologias digitais, seja para registrar informações, coordenar o cuidado, monitorar o cuidado longitudinal de pacientes a distância, ou acessar suporte especializado sem, necessariamente, ter que encaminhar o paciente para outras Unidades. 16 E-saúde É a utilização de ferramentas eletrônicas e internet para auxiliar os processos da saúde, oferecer serviços e divulgar informações sobre o setor. São exemplos de e-saúde: Prontuário eletrônico (e-SUS APS, e-SUS Território, e-SUS Vacinação, e-SUS Atividade Coletiva, e-SUS AD e Gestão, agendamento on-line) (Brasil, Ministério da Saúde, SEIDIGI, 2023). M-saúde É a utilização de dispositivos móveis (vestíveis, celulares, tablets) para a Saúde. São exemplos de m-saúde: relógios com sensores (smart watches), aplicativos de monitoramento de glicemia ou pressão arterial, lembretes de consultas ou agendamentos por mensagens eletrônicas. (Brasil, Ministério da Saúde, SEIDIGI, 2023). Aqui, usaremos com maior frequência o termo Saúde Digital. 17 Estudos indicam que o uso adequado das ferramentas digitais na APS pode: reduzir encaminhamentos desnecessários para especialistas (Flodgren et al., 2015); melhorar o monitoramento de condições crônicas (hipertensão arterial, diabetes, saúde mental etc.), (OMS, 2021); ampliar o acesso ao cuidado de populações em territórios remotos ou com dificuldade de locomoção (Katz et al. 2020); aumentar a eficiência da gestão, permitindo que haja mais tempo para o cuidado direto ao usuário. Somente é possível aproveitar os benefícios da tecnologia se soubermos utilizá-la com segurança, conhecendo e respeitando os seus limites e entendendo o contexto regulatório, assunto que abordaremos, a seguir. ATENÇÃO! 18 A transformação digital na saúde brasileira ganhou força nos últimos anos, especialmente, com a criação da Estratégia de Saúde Digital do Brasil 2020–2028 (ESD28). Instituída pelo Ministério da Saúde, por meio da Portaria GM/MS nº 3.632, de 21 de dezembro de 2020. Essa estratégia passou a orientar a modernização do sistema de saúde em todo o país, organizando-a em três eixos principais e sete prioridades, que estruturam o avanço da saúde digital. ESTRATÉGIA DE SAÚDE DIGITAL BRASIL 2020-2028 (ESD28) MARCOS REGULATÓRIOS DE SAÚDE DIGITAL 19 01 Ações do Ministério da Saúde para o SUS. 02 03 Definição de critérios e diretrizes regulatórias de cooperação. Implantação de um ecossistema propício para a colaboração integrada. A Figura 01, a seguir, ilustra, detalhadamente, o conjunto de sete prioridades que orientam o desenvolvimento da saúde digital no país e têm impacto prático na Atenção Primária à Saúde (APS): A ESD28 veio para sistematizar e consolidar o trabalho realizado na década anterior pela Política Nacional de Informação e Informática em Saúde, PNIIS (Brasil, 2015), que já propunha as bases da saúde digital integradas às diretrizes do Plano Nacional de Saúde (Brasil, 2016). A visão estratégica que orienta a ESD28 estabelece que, até 2028, a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) estará consolidada e amplamente reconhecida como a principal plataforma nacional de inovação, informação e serviços de saúde. Essa plataforma deverá beneficiar diretamente cidadãos, pacientes, comunidades, equipes de saúde, gestores e instituições, ao permitir que dados circulem de maneira segura, padronizada e integrada em toda a rede do SUS. A atuação está organizada sob três grandes eixos: 20 Fonte: Estratégia de Saúde Digital para o Brasil 2020-2028. Figura 01 ─ As sete prioridades do plano de ação Garantir que a ESD28 seja desenvolvida sob a liderança do Ministério da Saúde, mas que, ao mesmo tempo, seja capaz de incorporar a contribuição ativa dos atores externos que participem das plataformas de colaboração. Induzir a implementação de políticas de informatização dos sistemas de saúde, acelerando a adoção de sistemas de prontuários eletrônicos e de gestão hospitalar como parte integradora dos serviços e processos de saúde. Fazer com que a RNDS ofereça suporte às melhores práticas clínicas, por meio de serviços, como telessaúde, e Apps desenvolvidos no MS, e, também, outras aplicações que sejam desenvolvidos pela plataforma de colaboração. Engajamento de pacientes e cidadãos, para promover a adoção de hábitos saudáveis e o gerenciamento de sua saúde, da sua família e da sua comunidade, além de auxiliarna construção dos sistemas de informação que irão utilizar. Capacitar profissionais de saúde em Informática em Saúde e garantir o reconhecimento da Informática em Saúde como área de pesquisa e o especialista em Informática em Saúde. Permitir que a Rede Nacional de Dados em Saúde potencialize o trabalho colaborativo em todos os setores da saúde para que tecnologias, conceitos, padrões, modelos de serviços, políticas e regulações sejam postos em prática. Garantir que exista um Ecossistema de Inovação, que aproveite ao máximo o Ambiente de Interconectividade em Saúde, estabelecendo-se como um grande laboratório de inovação aberta, sujeito às diretrizes, normas e políticas estabelecidas na da prioridade 1. 21 Destacamos algumas das sete prioridades do Plano de ação (cf. Quadro 01), que possuem relevância e aplicação prática direta no cenário da Atenção Primária à Saúde: Fonte: elaborado pelo autor, 2026. Quadro 01 ─ Aplicações de alguns eixos do Plano de Ação ESD28 na APS Saúde Digital para o Cidadão Portais, aplicativos e serviços digitais para o usuário. Exemplo: Meu SUS Digital. Saúde Digital para Profissionais Ferramentas de apoio ao trabalho clínico e apoio à decisão. Exemplo: Prontuário eletrônico (e-SUS APS), telessaúde, Meu SUS Digital Profissional. Governança e Análise de Dados Uso de dados para vigilância, gestão e pesquisa, com privacidade e segurança. Exemplo: painéis epidemiológicos do CONASS/CONASEMS, SUS Digital Gestor, Painéis do DEMAS, Projeto de Federalização da RNDS. Infraestrutura e Conectividade Computadores, equipamentos de telediagnóstico, garantia de acesso à internet e sistemas nas Unidades de Saúde (especialmente, em regiões vulneráveis). EIXO APLICAÇÃO NA APS 22 A Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) não se configura como um sistema de informação isolado, mas, sim, como uma plataforma nacional com plena capacidade de interoperar dados de saúde de diversas origens. Por meio dela, é possível receber e disponibilizar informações clínicas desde que sejam seguidos os padrões e modelos estabelecidos. Essa estrutura permite superar barreiras históricas, como limites geográficos, fragmentação de setores e a falta de integração entre sistemas informatizados. REDE NACIONAL DE DADOS EM SAÚDE (RNDS) 23 De forma prática, assegura-se a cidadãos, profissionais e gestores o acesso integral a dados de saúde, o que fomenta a continuidade do cuidado e o engajamento da população. Interoperar dados significa viabilizar informações oportunas e completas, para fundamentar decisões e promover um cuidado centrado no cidadão. Instituída pelo Ministério da Saúde, com foco em segurança e padronização, a RNDS viabiliza o compartilhamento de registros clínicos para que possam ser consultados em qualquer ponto da rede do SUS. Adicionalmente, a plataforma atua mitigando assimetrias, inequidades e divisões geradas por processos desiguais de digitalização nos variados territórios do país. Isso significa, na prática, que se um paciente realizar exames, receber vacinas ou passar por internações em municípios distintos, todo o seu histórico estará acessível para o médico na Unidade Básica de Saúde (UBS), sem que o cidadão precise carregar documentos físicos. Esses fluxos ocorrem sob estrito respeito a diretrizes legais e de segurança da informação, como as dispostas na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). 24 Figura 02 ─ Rede Nacional de Dados em Saúde Fonte: Brasil, 2020, p. 21. Nesta figura, relembre a representação gráfica da Rede Nacional de Dados em Saúde: 25 O SuperAPP Meu SUS Digital é a interface da RNDS para o cidadão, agregando todos os dados de saúde do usuário disponíveis na RNDS. Dessa maneira, o cidadão tem acesso a todo o seu histórico vacinal, atendimentos clínicos, prescrições e dispensações de medicamentos, atestados médico-odontológicos, entre outros. Além disso, oferece uma série de serviços voltados para o cidadão, tais como: emissão de autorizações para obtenção de absorventes no Programa Farmácia Popular do Brasil, alteração de dados cadastrais no SUS, consultas georreferenciadas à rede assistencial e inclusão de informações pessoais (alergias e contatos). PLATAFORMAS DE ACESSO E ECOSSISTEMA DIGITAL Meu SUS Digital 26 Constituído por mini aplicativos integrados, aproxima-se das necessidades cotidianas do cidadão em áreas como doação de sangue, informações específicas para a primeira infância, gestantes, adolescentes e idosos, serviços de transplante de órgãos, entre outros. O Meu SUS Digital é uma plataforma de comunicação direta com o cidadão, por meio da publicação contínua de conteúdos atualizados sobre o SUS e envio de notificações com conteúdos informativos de interesse do cidadão. Está disponível tanto na internet quanto para download nas lojas de aplicativos. Ele reúne todas as suas informações de saúde em um único lugar. Fonte: Meu SUS Digital, 2026. Disponível em: https://meususdigital.saude.gov.br. Acesso em: 21 jul. 2026. Figura 03 ─ Aplicativo Meu SUS Digital 27 https://meususdigital.saude.gov.br/ Para os profissionais de saúde, o Sistema SUS Digital Profissional permite o acesso ao histórico clínico dos pacientes proveniente da RNDS (atendimentos, exames, vacinas, prescrições, dispensação, atestados, regulação assistencial e internações) diretamente, no momento da assistência. Integrado a prontuários eletrônicos como o e-SUS APS, garante a visão longitudinal da saúde independentemente do sistema de coleta utilizado. SUS Digital Profissional SUS Digital Gestor No âmbito da gestão, o SUS Digital Gestor consome os dados da RNDS para fornecer visões consolidadas, integradas e executivas do território. Disponível para gestores federais, estaduais, municipais e de estabelecimentos de saúde, a plataforma oferece um conjunto de informações robusto, a fim de subsidiar a tomada de decisão baseada em evidências. 28 12 IMPORTANTE 104 29 Para assegurar a plena interoperabilidade e permitir que dados gerados em diferentes ecossistemas conversem entre si, as informações inseridas nos sistemas de saúde precisam ser estruturadas conforme padrões internacionais reconhecidos, a exemplo do HL7 FHIR, adotado pelo Ministério da Saúde no escopo da RNDS. Esses referenciais padronizam globalmente a organização de dados de diagnósticos, medicamentos e exames. No dia a dia da Atenção Primária à Saúde (APS), isso significa que um registro bem preenchido e qualificado no e‑SUS APS não fica restrito à unidade onde foi realizado. Ele passa a estar imediatamente disponível para outros pontos da rede assistencial, contribuindo para a continuidade do cuidado, e para que cada profissional tenha acesso às informações necessárias para atender o cidadão de forma integral. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), regulamentada pela Lei nº 13.709/2018, dita as normas para o tratamento, armazenamento, coleta e compartilhamento de informações pessoais, com rigor especial sobre os dados sensíveis da área da saúde. Para os profissionais que atuam na Atenção Primária à Saúde, é indispensável compreender os limites e as autorizações regulamentares estabelecidos por essa legislação. LEI GERAL DE PROTEÇÃO DE DADOS (LGPD) NO ÂMBITO DA SAÚDE Fonte: elaborado pelo autor, 2026. Quadro 02 ─ Permissões segundo a LGPD ● Usar dados do paciente para o seu cuidado direto. ● Compartilhar dados com a equipe responsável pelo cuidado, resguardados os princípios éticos de cada categoria profissional. ● Enviar dados à RNDS, conforme regras normativas. ● Fotografar prontuário e enviar por WhatsApp. ● Compartilhar dados com terceiros sem consentimento do paciente. ● Usar dados de pacientes em redes sociais. É PERMITIDO NÃO É PERMITIDO 30 Adverte-se que o uso de ferramentas de mensagens instantâneas comuns (como o WhatsApp) em dispositivosparticulares configura um canal de vulnerabilidade e potencial violação dos preceitos da LGPD, apesar de sua ampla adoção cotidiana. Por se tratar de informações sensíveis, os dados assistenciais requerem rigorosos mecanismos de proteção digital, tais como controle de acessos, criptografia robusta e ferramentas antivírus de padrão institucional. Recomenda-se evitar esses canais informais para o manuseio de dados de pacientes. Para a articulação e comunicação entre a equipe de saúde, o e-SUS APS disponibiliza o módulo dedicado de compartilhamento de cuidado. O protocolo ideal exige a utilização contínua de plataformas institucionais devidamente homologadas e protegidas por camadas complementares de segurança, incluindo auditoria de acessos (logs), antivírus corporativo e o uso de redes virtuais privadas (VPN). 31 Além da LGPD, o país avança na estruturação de marcos regulatórios específicos para a incorporação de soluções de Inteligência Artificial no setor público. Destacam-se, nesse cenário, a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (EBIA) e o Framework de Autoavaliação de Impacto Ético em Inteligência Artificial no Setor Público Federal, sob coordenação do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI). Esses dispositivos legais preconizam que qualquer tecnologia baseada em IA aplicada ao setor de saúde incorpore, desde sua modelagem inicial, a proteção irrestrita de dados pessoais, a transparência dos algoritmos e o princípio da equidade. Para a APS, isso significa que ferramentas de IA, sejam de apoio à decisão clínica ou de gestão, devem ser usadas com consciência de seus limites e do contexto regulatório em formação. 32 ESTRATÉGIAS GLOBAIS DE SAÚDE DIGITAL Haddad e Lima (2024) apontam que, no cenário internacional, a Estratégia Global de Saúde Digital da Organização Mundial da Saúde (OMS) consolida-se em apoio aos esforços dos sistemas de saúde voltados ao alcance da cobertura universal de saúde. Sob essa perspectiva, a saúde digital é definida como o campo do conhecimento e da prática associado ao desenvolvimento e ao uso de tecnologias digitais para melhorar a saúde. Em consonância, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) lançou, em 2019, o Plano de Ação para o Fortalecimento dos Sistemas de Informação para a Saúde, estruturado por meio de metas e indicadores, que respondem a quatro linhas principais: 01 Gestão e governança dos sistemas de saúde. 02 Gestão de dados e tecnologias de informação. 03 Informação e gestão de conhecimentos. 04 Inovação, integração e convergência. 33 Essas ações internacionais somam-se às iniciativas do Ministério da Saúde (MS) do Brasil, como a Estratégia de Saúde Digital 2020-2028 e as ações de telemedicina e telessaúde, iniciadas em 2007, com o Programa Nacional Telemática em Apoio à Atenção Primária à Saúde no Brasil, conduzido pelo MS em conjunto com nove universidades públicas brasileiras, que evoluíram para o Programa Nacional Telessaúde Brasil Redes, e que, atualmente, está integrado ao Programa SUS Digital e a ação estratégica SUS Digital – Telessaúde. A criação da Secretaria de Informação e Saúde Digital (SEIDIGI), no Ministério da Saúde, em 2023, formalizou o reconhecimento institucional da Saúde Digital como política pública de Estado para a população brasileira. A Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS), também, atua no fortalecimento das ações de saúde digital na APS, a partir de coordenações técnicas e estratégias ampliadas. A seguir, trataremos sobre a Saúde Digital na UBS. 34 O Brasil é um país continental, no qual convivemos com acentuadas disparidades econômicas, sociais e educacionais que repercutem diretamente no acesso à infraestrutura tecnológica. Essa realidade varia enormemente entre as grandes regiões do país, no interior dos municípios, e, até mesmo, entre diferentes Unidades de Saúde de uma mesma localidade. Enquanto determinados serviços já operam com recursos avançados de saúde digital, como prontuário eletrônico plenamente integrado, teleconsultoria estruturada, suporte por telediagnóstico e monitoramento clínico remoto, outras localidades ainda enfrentam barreiras básicas, como a falta de conectividade, a insuficiência de computadores e a necessidade de capacitação de recursos humanos, trabalhando, essencialmente, com registros em papel. SAÚDE DIGITAL NA UBS 35 É importante reconhecer o estado de maturidade digital de cada município e de suas respectivas Unidades Básicas de Saúde. MATURIDADE DIGITAL EM SAÚDE O conceito de maturidade digital em saúde reconhece essas diferenças e propõe que cada serviço evolua de maneira gradual e contínua, respeitando a realidade local e evitando tanto a estagnação quanto a imposição de metas incompatíveis com a infraestrutura disponível. Em 2024, por meio da Portaria GM/MS 3.727 (21/05/2024), o Ministério da Saúde criou o Índice Nacional de Maturidade em Saúde Digital (INMSD). Vinculada ao programa SUS Digital, essa ferramenta visa diagnosticar o estágio da transformação digital dos municípios, estados e do Distrito Federal. A sua aplicação se dá por meio de um questionário, com 42 questões, focado em 7 domínios: 01 Gestão e governança em saúde digital. 02 Formação e desenvolvimento profissional. 36 03 Sistemas e plataformas de interoperabilidade. 04 Telessaúde e serviços digitais. A partir dos resultados obtidos por meio desse índice (INMSD), foram elaborados planos de ação para melhoria da transformação digital em saúde pública, que serão acompanhados e monitorados pelo Ministério da Saúde, buscando equidade e ampliação de acesso (cf. Figura 04, a seguir). 05 Infoestrutura. 06 Monitoramento, avaliação e disseminação de informações. 07 Infraestrutura e segurança. Para acessar a Portaria GM/MS nº 3.727/2024, clique aqui ou escaneie o QR Code. 37 https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2024/prt3727_22_05_2024.html https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2024/prt3727_22_05_2024.html Fonte: Haddad, 2024. Figura 04 ─ Domínios do Índice Nacional de Maturidade Digital em Saúde Digital 38 Antes de avançarmos para as ferramentas e modalidades de saúde digital, é de suma importância mapear os recursos tecnológicos já implantados e avaliar sua efetividade no cotidiano da Unidade Básica de Saúde em que você trabalha. Acompanhe exemplos de ferramentas digitais, que já estão incorporadas à rotina de trabalho de muitas UBSs: MAPEANDO A REALIDADE DO TEU SERVIÇO Ecossistema digital voltado para o registro estruturado das informações clínicas dos cidadãos atendidos no âmbito da APS. Disponibiliza tecnologias seguras, que apoiam a atuação das equipes profissionais e qualificam a gestão assistencial, fornecendo recursos como o prontuário eletrônico do cidadão, fichas de atendimento individualizado e o registro eletrônico das visitas domiciliares efetuadas por ACS e TACS. Para conhecer o e-SUS APS, clique aqui ou escaneie o QR Code. e-SUS APS 39 https://sisaps.saude.gov.br/sistemas/esusaps/ https://sisaps.saude.gov.br/sistemas/esusaps/ Aplicativo móvel destinado à gestão e monitoramento do território. Otimiza as atividades práticas dos ACS, ACE e AAS, assegurando um registro rápido e confiável das ações diretamente em campo, com capacidade de funcionamento off-line durante as coletas de dados. Aplicativo que auxilia no registro de dados de imunizações realizadas em ações de vacinação fora do estabelecimento de saúde. Aplicativo para documentar de forma centralizada as ações coletivas realizadas pelas equipes de profissionais da APS. e-SUS Território e-SUS Vacinação e-SUS Atividade Coletiva 40 Ferramenta analítica para aperfeiçoar o acompanhamento dos dados gerados pelos serviços de saúde. Permite um acesso rápido e prático às informações, fortalecendo a tomada de decisão estratégica de gestores locaise municipais. Aplicativo projetado para auxiliar os Serviços de Atenção Domiciliar, viabilizando o preenchimento de dados assistenciais no próprio local do atendimento ao paciente. Para acessar essas ferramentas, clique aqui ou escaneie o QR Code. e-SUS AD Gestão SUS APS 41 https://sisaps.saude.gov.br/sistemas/esusaps/ https://sisaps.saude.gov.br/sistemas/esusaps/ https://sisaps.saude.gov.br/sistemas/esusaps/ Plataforma eletrônica direcionada ao cidadão, permitindo acesso direto a: cartão de vacinação, resultado de exames, medicamentos retirados, carteira do idoso e caderneta do recém-nascido. Oferece a todo cidadão brasileiro um “espelho” do trabalho registrado pelas equipes de saúde. Ambientes digitais voltados para teleconsultorias e telediagnósticos, englobando os sistemas operados pelos núcleos estaduais de telessaúde e soluções privadas. Adicionalmente, o e-SUS APS conta com recursos nativos integrados para suporte em telessaúde. Meu SUS Digital, sistemas municipais ou estaduais, integrados ou não ao e-SUS. Meu SUS digital Plataformas de telessaúde Sistemas de agendamento eletrônico 42 Utilização institucional de canais (como WhatsApp ou Telegram) para o envio de lembretes de consultas, avisos gerais e orientações posteriores ao atendimento. Devem possuir uso rigorosamente restrito e administrativo, exigindo vigilância máxima, para evitar o compartilhamento de dados sensíveis ou informações clínicas dos usuários, visando garantir a segurança da informação e a conformidade com a LGPD. Para aprofundar seus conhecimentos sobre essas ferramentas, assista à teleaula da disciplina em nosso Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA)! DICA! 39 Aplicativos de Mensagens Instantâneas 43 A G O R A É S U A V EZ Considerando o contexto específico da sua Unidade de Saúde, faça uma análise crítica e reflita: Vamos refletir! Quais ferramentas digitais você usa na sua prática profissional diária? Quais soluções digitais apresentam um desempenho satisfatório? Quais são os contratempos técnicos enfrentados com maior frequência? Em quais situações práticas a tecnologia acaba gerando entraves, ou atrasando a assistência direta ao usuário? Em quais momentos os recursos tecnológicos otimizam ou agilizam as linhas de cuidado do usuário? ATENÇÃO Anote suas respostas. Voltaremos a elas, em breve! 44 02 Telessaúde 42 MARCOS REGULATÓRIOS DE TELESSAÚDE A Telessaúde consiste na utilização de tecnologias digitais de informação e comunicação para a prestação de serviços de saúde de forma remota. No Brasil, a Telessaúde dispõe de marcos normativos consolidados. Foi regulamentada, inicialmente, em 2002, com limitações, pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), e, posteriormente, pelo Ministério da Saúde, desde 2007, com a criação do Projeto Piloto de Telemática em apoio à Atenção Primária à Saúde. Foi durante a pandemia de COVID-19 que novos marcos regulatórios foram editados, e posteriormente consolidados, gerando o atual arcabouço legal da telessaúde. 46 Atualmente, os principais instrumentos são: Lei n˚ 14.510, de 27 de Dezembro de 2022 Regulamenta a telemedicina em caráter permanente, no Brasil. Resolução CFM n˚ 2314/2022 Regulamenta a telemedicina Portaria GM/MS n˚ 3.232/2024 Institui o Programa SUS Digital. Portaria GM/MS n˚ 3.691/2024 Institui a Ação Estratégica SUS Digital, Telessaúde. 59 Há, ainda, as resoluções dos conselhos profissionais (CFM, COFEN, CFO, CFP, CFN etc.) sobre as permissões e limitações de cada profissional de saúde quanto à telessaúde e à saúde digital. 47 Agora, saiba quais são os principais pontos da Lei 14.510/2022, que permite a prática da telemedicina e da telessaúde em todo o território nacional: A teleconsulta é permitida para qualquer situação clínica em que o profissional julgue que o atendimento remoto é adequado. O paciente deve sempre consentir e esse consentimento deve ser documentado (preferencialmente, por escrito ou meio eletrônico registrável). O profissional deve registrar o atendimento em prontuário. A telessaúde não elimina a responsabilidade clínica - o vínculo e a responsabilidade pelo cuidado continuam sendo do profissional que atende. Os atendimentos devem respeitar a privacidade, confidencialidade dos dados e as normas da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A seguir, trataremos sobre as modalidades de telessaúde. 48 A Portaria GM/MS nº 3.691/2024 estruturou a Ação Estratégica SUS Digital e definiu suas modalidades. Abaixo, apresentamos essas modalidades, com destaque para as cinco que são consideradas centrais para a organização da telessaúde no contexto do SUS: MODALIDADES DE TELESSAÚDE Cada uma possui objetivos específicos, públicos envolvidos e regras próprias. Conhecer e saber distinguir essas modalidades é fundamental, para evitar erros comuns, com sérias consequências práticas. 1. Teleconsultoria 2. Teletriagem 3. Teleconsulta 4. Telediagnóstico 5. Telemonitoramento 6. Teleinterconsulta 7. Teleducação 8. Telerregulação 9. Teleorientação SUS 49 A partir desse conhecimento somos capazes de escolher a adequada modalidade de atendimento, evitando situações como estas: ● realizar uma teleconsultoria quando o paciente necessita de uma teleconsulta; ● tentar fazer o telemonitoramento em resposta a valores de exames alterados sem um protocolo definido, quando a real necessidade é um telediagnóstico. Também é imprescindível saber identificar as limitações dessas ferramentas digitais e indicar a consulta presencial sempre que a situação exigir. Agora, vamos aprofundar nas cinco modalidades mais usadas no contexto do SUS: 1. Teleconsultoria 2. Teleconsulta 3. Telediagnóstico 4. Telemonitoramento 5. Telerregulação SUS 50 TELECONSULTA O QUE É Atendimento clínico direto ao paciente realizado à distância, por profissional de saúde, por meio de tecnologia digital. QUEM PARTICIPA? Profissional de saúde habilitado, paciente com ou sem cuidador. QUANDO USAR? Queixas sem necessidade de exame físico presencial, segmento de condições já diagnosticadas, retorno de exames solicitados, Renovação de receitas com a avaliação do profissional. 51 QUANDO NÃO USAR Usuários com condições crônicas, que requeiram acompanhamento de longo prazo, devem ser avaliados de forma presencial, a cada 180 dias. Quando o paciente demandar uma consulta presencial (Resolução CFM nº 2.314/2022). São exemplos de quando não realizar uma teleconsulta: EXEMPLOS NA APS ● Paciente com hipertensão se queixa de cefaleia para o ACS, em visita domiciliar. O ACS aciona a UBS e oportuniza uma consulta com a médica da equipe que avalia, por vídeo chamada, e decide se há urgência. ● Seguimento pós-parto de puérperas por enfermeira. 52 ● Presença de sinais de urgência e emergência, como dor torácica aguda, déficit neurológico súbito ou dificuldade respiratória intensa. 44 A teleconsulta não é um substituto à consulta presencial. Ela deve ser inserida de forma organizada na agenda de atendimento da equipe, com pactuação e treinamento prévios. Não deve ser usada em urgência, quadros de dor aguda com dor intensa ou necessidade de exame físico detalhado. LIMITE IMPORTANTE ● Necessidade de exame físico detalhado para o diagnóstico. ● Necessidade de realização de procedimentos, como curativos suturas ou coleta de material. ● Situações em que o paciente não tem habilidade para acesso, nem condições para lidar com a tecnologia necessária para uma teleconsulta. 53 N A P R Á TI CA Teleconsulta na prática Dona Teresa, 62 anos, hipertensa, em acompanhamento na UBS, há 6 anos, liga para a Unidade, às 11h, de uma segunda-feira, relatando cefaleia, iniciada 2 horas antes, com intensidade 6/10, sem déficit neurológico, sem alterações visuais e sem vômitos. Havia aferido sua pressão arterialem casa, que estava em 148x92 mmHg. Pergunta se precisaria ir à Unidade de Saúde ou se poderia continuar em casa. A enfermeira Carla passa o caso para o Dr. César, médico de família e comunidade, que decide realizar uma teleconsulta com dona Teresa, via o módulo integrado de videochamada do Prontuário Eletrônico e-SUS APS. 54 Na condução do caso, o Dr. César seguiu o roteiro preconizado: 01 Confirmou a identidade da paciente e obteve consentimento verbal (que ele registrou no prontuário eletrônico). 02 Explorou a queixa da paciente, identificando o início, intensidade, irradiação, fatores de melhora ou piora e sintomas associados. 03 Verificou se sinais de alerta estavam presentes: déficit motor, alteração visual, confusão, intensidade da dor, forma de início. Como o início não havia sido súbito, a dor não era de máxima intensidade e os outros sinais de alerta não estavam presentes, não havia necessidade de encaminhamento para a urgência. 04 Orientou a aferição da Pressão Arterial (PA) no domicílio, ou em uma farmácia próxima, caso a paciente não pudesse vir aferir na UBS, pedindo que o resultado fosse informado. 05 Decidiu-se pela orientação domiciliar, ajustou-se a medicação por teleconsulta e solicitou retorno presencial, que já foi agendado no momento do término do atendimento. 55 06 Registrou a teleconsulta, preenchendo adequadamente o SOAP no Prontuário Eletrônico e-SUS APS. Registrando as orientações, prescrições e demais informações pertinentes ao atendimento. Se Dona Teresa houvesse relatado cefaleia súbita, de máxima intensidade, acompanhada de confusão mental, e/ou alteração visual como perda de campo visual ou de acuidade, presença de algum déficit neurológico focal, como redução da força de um membro ou dificuldade de fala, somente a teleconsulta não seria suficiente. Seriam necessários o acionamento do SAMU e a orientação para atendimento de urgência presencial imediato. ATENÇÃO 56 TELECONSULTORIA O QUE É Consulta entre profissionais, na qual o profissional da APS busca orientação de uma especialista sem encaminhar o paciente. Pode ser utilizada para sanar dúvidas clínicas e questões relacionadas à organização dos processos de trabalho. QUEM PARTICIPA? Profissional solicitante (APS) e especialista ou equipe de referência. QUANDO USAR? Segunda opinião em casos de dúvidas diagnósticas ou terapêuticas complexas, a fim de qualificar a avaliação, evitando encaminhamentos desnecessários. 57 EXEMPLOS NA APS Um especialista orienta o profissional da APS sem atender o paciente diretamente. A teleconsultoria fortalece o papel da APS como coordenadora do cuidado e ordenadora da Rede de Atenção à Saúde, preservando a longitudinalidade do cuidado e o vínculo entre a equipe e o usuário. LIMITE IMPORTANTE ● Enfermeiro discute caso de condução de ferida com enfermeiro estomaterapeuta de referência. ● Médico aciona dermatologista, via plataforma de dermatologia para lesão de pele suspeita. ● Médico discute conduta em criança com febre prolongada com o pediatra da referência. ● Enfermeira tem dúvidas sobre a organização de grupo para cessação de tabagismo. ● ACS tem dúvida sobre uso do e-SUS Território. 58 N A P R Á TI CA Teleconsultoria na prática Daniel, 7 anos, é trazido pela mãe à UBS com manchas avermelhadas no tronco, iniciadas há 5 dias. A Dra. Débora identifica lesões papuloeritematosas de bordos irregulares, sem febre e sem relato de prurido. Na dúvida se o caso se tratava de uma dermatite, ou de hanseníase em estágio inicial, ou outra condição, e sabendo que o encaminhamento ao dermatologista levaria, na estimativa da médica, entre 4 e 6 meses, a Dra. Débora decide acionar a plataforma de teleconsultoria em teledermatologia disponível na sua UBS. Ao optar pela modalidade de teleconsultoria a Dra. Débora permite que sua dúvida clínica possa ser resolvida com orientação especializada, sem a necessidade de encaminhamento imediato do paciente. 59 01 02 03 04 05 Para otimizar a teleconsultoria, a Dra. Débora seguiu um roteiro pré-estabelecido: fotografou as lesões, com boa iluminação, em diferentes ângulos (visão geral, foto com zoom, luz lateral). preencheu o formulário com descrição clínica completa, suas hipóteses diagnósticas, tratamentos já tentados e a pergunta específica, que gostaria de resposta do especialista. registrou no prontuário de Daniel qual matéria de consultoria foi solicitada, citando a data e a plataforma. informou à mãe que o caso seria avaliado por especialista e que ela seria contactada assim que a resposta fosse dada. ao receber a resposta, analisou a conduta orientada, e, tendo concordado, chamou a mãe e o Daniel, prescreveu os medicamentos orientados e registrou, no prontuário eletrônico, o desfecho. enquanto aguardava, optou por não prescrever tratamento empírico que pudesse mascarar a lesão. 06 60 52 ATENÇÃO O Especialista que responde à teleconsultoria não faz atendimento direto ao Daniel. Ele orienta a Dra. Débora, que é quem mantém o vínculo e a responsabilidade pelo cuidado e pelo paciente. Caso a teleconsultoria indique a necessidade de avaliação presencial com especialista, caberá à Dra. Débora realizar os procedimentos para a regulação da consulta especializada, porém, agora, com mais dados e informações, que possam auxiliar na priorização, ou não, do atendimento. 61 O QUE É Acompanhamento contínuo de sinais e dados clínicos do paciente a distância. QUEM PARTICIPA? Equipe de saúde, paciente e/ou cuidador. Pode incluir o ACS. QUANDO USAR? Pessoas com condições crônicas, como hipertensão arterial e diabetes mellitus, saúde mental, gestação de risco, pacientes com dificuldade de locomoção ou em territórios remotos. TELEMONITORAMENTO 62 44 EXEMPLOS NA APS Não substitui a consulta. Valores alterados exigem protocolos com precisão de resposta – quem aciona, quem deve ser acionado, com que prazo e com qual conduta. LIMITE IMPORTANTE ● O ACS registra glicemia semanal de paciente diabético em aplicativo e a equipe acompanha a tendência. ● O usuário com hipertensão informa os valores aferidos em sua casa por telefone, aplicativo institucional ou durante contato de telemonitoramento. 63 N A P R Á TI CA Telemonitoramento na prática Durante a pandemia de COVID-19, o Núcleo de Telemedicina e Telessaúde (NUTTs), da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (FM UFG), realizou telemonitoramento de pacientes com diagnóstico de COVID-19. Os pacientes que haviam testado positivo para COVID 19, em algum ponto de testagem da SMS de Goiânia, eram notificados por meio do VigiSUS. O NUTTs recebia, diariamente, os casos notificados e entrava em contato telefônico com os pacientes. Para cada paciente era enviado um oxímetro de pulso (através de motoboy). Os pacientes eram orientados a monitorar sua frequência cardíaca e oximetria ao longo do dia. Os pacientes eram contactados, diariamente, por 5 a 10 dias, a depender dos sintomas relatados, até receber alta do telemonitoramento. 64 Os dados coletados pelos oxímetros eram utilizados como parâmetros ( junto com os dados clínicos), para definir quem deveria ir para uma avaliação médica nas UPA ou Hospitais – que eram previamente contactados e recebiam os dados clínicos do paciente que estava a caminho. Ao longo dos anos de 2021 e 2022 foram telemonitorados mais de 220 mil pacientes em Goiânia. (Rezende et al., 2023). O Sr. João, 65 anos, morador da periferia de uma grande cidade, possui diabetes do tipo 2 e está sendo acompanhado pela equipe de saúde da família. Ele recebe, regularmente, a visita domiciliar da ACS Lúcia, que monitora, semanalmente, sua glicemia capilar. Agora, propomos uma situação de telemonitoramento que ainda não é uma realidade no SUS: 65 ORIGINALComo o Sr. João vinha apresentando irregularidade nas medidas da glicemia capilar, recebeu um dispositivo de monitoramento de glicemia (adesivo colado no braço), que capta dados de glicemia intersticial, a cada 5 minutos, e envia para um aplicativo instalado em seu celular. Na quinta-feira, às 18h, o sistema emitiu um alerta que a glicemia registrada do paciente estava em 380 mg/dl. Como o aplicativo permite que mais de uma pessoa possa ser cadastrada para receber alertas, esse alerta foi enviado, também, para o celular institucional da ACS Lúcia. Neste cenário, o que a ACS deveria fazer? O que aconteceria se um alerta chegasse, mas quem o recebeu não tivesse segurança de um protocolo preestabelecido ou não soubesse o que fazer? Esse caso nos mostra que todo telemonitoramento deve ser estabelecido a partir de um protocolo clínico validado, e com treinamento adequado de toda a equipe. Assim, a conduta correta depende de um fluxo preestabelecido, acordado e treinado. Vejamos, a seguir: 66 Um exemplo de conduta para o caso do Sr. João seria: A ACS Lúcia entra em contato com o paciente, para verificar seus sintomas. Caso sejam identificados sinais e sintomas, que indiquem necessidade de atenção de urgência (dificuldade respiratória, alteração do nível de consciência ou vômitos), o SAMU deve ser acionado imediatamente. O enfermeiro e/ou médico da equipe de saúde da família devem ser avisados, para acompanharem o andamento do caso. Deve-se registrar, no prontuário eletrônico, o alerta recebido e a ação tomada. A enfermeira da equipe pode ficar como responsável em acompanhar a evolução clínica do paciente e orientar nova avaliação médica com a médica da equipe, para redefinir conduta clínica, ajustar a dose de medicamentos, e demais orientações pertinentes. 01 02 03 04 05 67 52 ATENÇÃO Telemonitoramento sem protocolo de resposta pode ser um risco para todos os envolvidos: paciente, equipe de saúde e gestão municipal. Antes de implantar qualquer sistema de monitoramento remoto, é fundamental que todos os protocolos e fluxos estejam definidos, considerando diferentes cenários. Saber quem recebe o alerta, qual o prazo de resposta, quais as condutas a serem tomadas e qual a responsabilidade de cada trabalhador e de cada Unidade de Saúde são itens que precisam estar previamente estabelecidos. 68 TELEDIAGNÓSTICO O QUE É Realização de laudos remotos para exames capturados na APS. QUEM PARTICIPA? Equipe de saúde, previamente capacitada, capta o exame de paciente sob cuidado da APS. QUANDO USAR? Realização mais rápida e cômoda de exames rotineiros sem que o paciente tenha que ser encaminhado para Unidade de referência. 69 EXEMPLOS NA APS Devem ser evitados exames de urgência, nos quais o atendimento presencial deve ocorrer de forma imediata. É fundamental que a utilização do telediagnóstico esteja alinhada a protocolos e fluxos previamente pactuados entre a APS, os serviços de telessaúde e os demais pontos da Rede de Atenção à Saúde, garantindo o encaminhamento oportuno dos usuários, conforme suas necessidades. LIMITE IMPORTANTE ● Telecardiologia: realização de exame de ECG na UBS, com o laudo pela equipe de cardiologia referência. ● Teleoftalmologia: realização de exame de retinografia, com o laudo pela equipe de oftalmologia de referência. ● Teledermatologia: captura de fotos de lesões de pele suspeitas, com o laudo pela equipe de dermatologia de referência. ● Telepneumologia: realização de exame de espirometria, com o laudo pela equipe de referência. 70 N A P R Á TI CA Telediagnóstico na prática O Sr. Raimundo, 46 anos, diabético insulinodependente há 25 anos, vem para a reunião mensal do grupo de hipertensos e diabéticos relatando que tem notado um embaçamento visual progressivo. A enfermeira Solange solicita ao Sr. Raimundo que compareça na semana seguinte, para a realização de uma retinografia, uma vez que a Unidade será contemplada com a presença de um retinógrafo portátil do Combo de Equipamentos para a triagem das principais causas de cegueira. Ao optar pela modalidade de telediagnóstico, a enfermeira Solange possibilita ao Sr. Raimundo a oportunidade de ter uma avaliação do fundo de olho para o rastreamento de retinopatia diabética, sem que ele precise aguardar a regulação e a fila de encaminhamento para oftalmologia. 71 Durante a semana de prevenção à cegueira, realizada na UBS, o Sr. Raimundo passa por avaliação de acuidade visual e retinografia (fotografia do fundo do olho), realizada em retinógrafo digital, sem a necessidade de dilatação de pupila. O resultado da retinografia evidencia a presença de retinopatia diabética não proliferativa de grau moderado, que necessita de tratamento especializado, mas que apresenta bom prognóstico visual. O Sr. Raimundo é, então, encaminhado para a clínica de olhos de referência em seu município, podendo ser tratado em um quadro mais precoce, com melhor prognóstico visual. São agendadas, também, revisões nutricionais e consulta com o médico de família e comunidade, para melhorar o controle glicêmico. As imagens são automaticamente enviadas para o Telessaúde Goiás (núcleo de referência do Ministério da Saúde para a teleoftalmologia). 72 52 ATENÇÃO O telediagnóstico oportuniza o diagnóstico precoce de doenças cardiovasculares, pulmonares, dermatológicas e oftalmológicas, estando disponível através do componente Telessaúde do Programa SUS Digital, para todas as Unidades Básicas de Saúde do Brasil. Apesar de não substituir a avaliação presencial do médico especialista, o telediagnóstico permite a identificação precoce de doenças crônicas não transmissíveis, antecipando a oportunidade de tratamento adequado para os pacientes que necessitarem. 73 TELERREGULAÇÃO O QUE É Uso de tecnologia digital para apoiar o processo de regulação do acesso, organizando, classificando e priorizando solicitações de encaminhamentos, exames ou procedimentos entre a APS e os serviços especializados. QUEM PARTICIPA? Profissional regulador (médico regulador ou equipe da central de regulação) e profissional da APS solicitante. O paciente não participa diretamente do ato regulatório. Pode haver a participação de médico especialista na qualificação da fila (por teleconsulta ou teleinterconsulta). QUANDO USAR? Encaminhamento para especialidades, exames ou procedimentos. Classificação de risco e definição de prioridades das solicitações. Qualificação de pedidos ou devolução de pedidos incompletos ou inadequados. Organização das filas de espera de forma transparente e baseada em critérios clínicos. 74 EXEMPLOS NA APS A telerregulação organiza e prioriza o acesso, mas não substitui a avaliação clínica, nem a decisão terapêutica do profissional assistente. O regulador atua sobre a solicitação e os critérios de acesso, não sobre o atendimento direto do paciente. O vínculo e a responsabilidade pelo cuidado permanecem com a equipe da APS. LIMITE IMPORTANTE ● Médico da APS encaminha paciente com nódulo de tireoide, e o regulador classifica a prioridade a partir dos dados clínicos enviados. ● Regulador prioriza criança com sopro cardíaco para avaliação mais rápida pela cardiologia pediátrica. ● Solicitação de exame de imagem devolvida ao solicitante, para complementação de informações antes de ser autorizada. 75 SA IB A M A IS Por iniciativa do Ministério da Saúde, Unidades Básicas de Saúde de todo o Brasil estão recebendo Kits de Multimídia de Telessaúde, com a finalidade de estruturar Pontos de Telessaúde no âmbito do SUS Digital. Cada Kit é composto por um notebook, uma smart TV de 43 polegadas e uma câmera de videoconferência. São fornecidos materiais de identidade visual para profissionalizar o ambiente de atendimento. É uma iniciativa que buscaampliar a capacidade de atendimento remoto no Sistema Único de Saúde (SUS), reduzir filas e otimizar os encaminhamentos para a atenção especializada. 76 Outras 10.000 UBSs receberão, ainda, um combo com até 17 equipamentos importantes para ampliar a capacidade de atendimento, modernizar a Atenção Primária e contribuir para reduzir filas de consultas e exames no Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo Retinógrafo portátil, Espirômetro digital, Dermatoscópio, Eletrocardiógrafo digital, entre outros. Além disso, a iniciativa amplia a capacidade resolutiva das equipes da Estratégia Saúde da Família e das equipes multiprofissionais na Atenção Primária à Saúde (eMulti), contribuindo para reduzir desigualdades e democratizar o acesso ao cuidado de qualidade por meio da incorporação do Combo de Equipamentos nas UBS. 77 Independentemente da modalidade de telessaúde, existem boas práticas comuns a todas elas. Confira algumas: 12 Garanta um ambiente adequado e silencioso, com boa iluminação e conexão estável. Confirme, sempre, a identidade do paciente, realizando o devido registro do atendimento no prontuário eletrônico. Obtenha o consentimento do paciente (ou responsável) antes de iniciar qualquer modalidade de telessaúde, garantindo que esteja documentado. Lembre-se: consentimento não é burocracia, é respeito! Priorize o atendimento presencial, em caso de qualquer dúvida sobre a gravidade da situação. Assegure que imagens, áudios, mensagens e demais registros produzidos durante o atendimento remoto, sejam integrados ao prontuário do usuário e protegidos em conformidade com as normas institucionais e a LGPD. 78 Muitos profissionais de saúde simplificam erroneamente a realização de uma teleconsulta, acreditando, de forma equivocada, que o processo se resume apenas ao ato de efetuar uma videochamada. Porém, para que uma teleconsulta ocorra em conformidade com as boas práticas e garanta a segurança necessária, ela depende de múltiplos fatores indispensáveis. O passo inicial desse procedimento consiste na identificação rigorosa dos envolvidos. Por um lado, o paciente necessita da certeza de estar se comunicando com um profissional de saúde habilitado, como um médico, que possua seu diploma devidamente registrado no Conselho Regional de Medicina (CRM), e esteja autorizado a exercer a profissão no Brasil. Por outro lado, o médico deve certificar-se de que está atendendo o paciente real, evitando situações de falsa identidade. Logo após essa validação correta, inicia-se a etapa da comunicação segura. 79 Nesse contexto, as videochamadas não devem ocorrer por meio de plataformas genéricas. É indispensável a utilização de aplicativos que estejam em estrita conformidade com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), e que atendam, quando couber, a normativas internacionais de segurança em saúde, a exemplo do HIPAA (Health Insurance Portability and Accountability Act), requisitos esses que não são preenchidos, por exemplo, pelo WhatsApp. Essa conformidade é crucial para resguardar a inviolabilidade da transmissão. Adicionalmente, todos os procedimentos clínicos realizados como anamnese, histórico de saúde, monitoramento de dados por dispositivos domiciliares, análise de exames e emissão de receitas ou pedidos, devem ser minuciosamente documentados no prontuário eletrônico. 80 Fonte: Taleb A. C., 2022. Figura 05 ─ Etapas de uma teleconsulta O prontuário eletrônico deve estar protegido por diversas camadas de segurança de dados, incluindo autenticação biométrica ou por senhas, firewalls, antivírus atualizados e VPN (Virtual Private Network). Por fim, todas as movimentações e acessos aos dados precisam ser devidamente mapeados e rastreados via logs. Só assim, com identificação adequada, comunicação segura, registro adequado, segurança de dados e rastreabilidade podemos dizer que estamos realmente fazendo uma teleconsulta (Taleb, 2022), conforme esquematizado, abaixo, na Figura 05: Identificação (paciente e médico) Comunicação segura (videochamada) Registro adequado (prontuário eletrônico, arquivo, documentos digitais) Segurança de dados (senhas, VPN, firewall, antivírus…) Rastreabilidade (registro de logins) Identificação (paciente e médico) Comunicação segura (videochamada) Registro adequado (prontuário eletrônico, arquivo, documentos digitais) Segurança de dados (senhas, VPN, Firewall, Antivírus) Rastreabilidade (registro de logins) 81 03 Tecnologias Emergentes O “adensamento tecnológico na APS” precisa ser compreendido como a ampliação da capacidade clínica, diagnóstica, terapêutica e assistencial das equipes, por meio da incorporação racional de tecnologias, equipamentos, dispositivos digitais e ferramentas de apoio à decisão. Essa incorporação de tecnologias: ● tem papel estratégico na ampliação da resolutividade; ● contribui para coordenação do cuidado; ● impacta na ordenação da Rede de Atenção à Saúde (RAS); ● incide na redução de filas e encaminhamentos especializados; ● amplia o acesso em territórios vulneráveis; ● qualifica do cuidado longitudinal. O fortalecimento tecnológico da APS contribui, diretamente, para consolidá-la como porta de entrada preferencial e coordenadora do cuidado no SUS. É importante compreender, que a tecnologia não é apenas um equipamento, e que o uso qualificado dessas ferramentas modifica a capacidade de resposta clínica da APS. 83 O avanço tecnológico na área da saúde vai muito além da comunicação remota convencional. Nesta abordagem, analisaremos como inovações do ecossistema digital, incluindo a Inteligência Artificial, os dispositivos vestíveis (wearables) e as tecnologias de Ponto de Cuidado (Point of Care), estão transformando a prática clínica e a capacidade de diagnóstico no âmbito da Atenção Primária à Saúde. Para compreender a dinâmica prática dessas inovações no cotidiano da APS, bem como seu impacto na melhoria da qualidade da assistência oferecida à população, é fundamental conhecer mais de perto as especificidades e aplicações de cada uma dessas tecnologias. Abordaremos, a seguir, a tecnologia de Ponto de Cuidado (Point of Care). Quais estratégias utilizar para incorporar tais recursos à rotina de trabalho das equipes, de maneira resolutiva, ética e segura, mantendo uma postura analítica sobre a real necessidade e a aplicabilidade dessas ferramentas no contexto do SUS? 84 As tecnologias ponto de cuidado, ou Point of Care (POC), são tecnologias de monitoramento e diagnóstico que podem ser utilizadas no local onde o paciente está sendo atendido, sem que o paciente ou o material coletado precisem ser encaminhados para um centro especializado. O resultado, geralmente, é obtido, instantaneamente, em minutos ou poucas horas. Na perspectiva do “adensamento tecnológico da APS”, abordado anteriormente, as tecnologias ponto de contato são um exemplo de como este adensamento tecnológico pode ser alcançado, especialmente, ampliando o acesso à saúde para populações em territórios de alta vulnerabilidade. São grandes as implicações da utilização das “tecnologias ponto de cuidado” na APS, contribuindo para uma melhor coordenação do cuidado, uma vez que torna possível reduzir o tempo entre a suspeita clínica e o início do tratamento, permitindo ao médico da Unidade Básica de Saúde tomar a decisão clínica necessária, reduzindo ou qualificando encaminhamentos e exames, especialmente, em áreas de acesso limitado. TECNOLOGIA PONTO DE CUIDADO (POINT OF CARE) 85 Além de reduzir os encaminhamentos, mantendo o cuidado do paciente na APS, quando ainda for necessário encaminhar, a qualificação desses encaminhamentos tem impacto positivo na ordenação da Rede de Assistência à Saúde (RAS), permitindo priorizar os casos mais relevantes. Entre os exemplos práticos de tecnologiasPOC atualmente incorporadas e disponíveis no âmbito do SUS, encontram-se: Glicemia capilar Permite o acompanhamento sistemático de pacientes com diabetes e a triagem de quadros hiperglicêmicos, sendo comumente encontrado na maioria das UBSs. Teste de gravidez através da urina Permite a confirmação rápida de gravidez, permitindo a instauração imediata do acompanhamento pré-natal regular na própria Unidade. 86 Oximetria de pulso Permite a avaliação da saturação de oxigênio e da frequência cardíaca, melhorando a avaliação de pacientes com dispneia, especialmente, portadores de DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica), pneumopatias e síndrome respiratória aguda. Testes rápidos para HIV, sífilis e hepatites B e C Permitem a realização de triagem de ISTs, podendo ser utilizado em consultas de pré-natal e populações vulneráveis. Teste rápido molecular (TRM-TB) Para o diagnóstico de tuberculose pulmonar: esse teste é distribuído pelo Ministério da Saúde para a UBS e permite o diagnóstico de tuberculose pulmonar, em menos de 2 horas. 87 ECG portátil Permite a realização de eletrocardiograma, para a triagem de precordialgia, arritmias e síndrome coronariana. Laudos remotos são disponibilizados pelo Telessaúde Brasil (o núcleo de referência é o da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG). Retinógrafo portátil Permite a realização de fotografias de fundo de olho, para a detecção precoce das principais causas de cegueira (catarata, glaucoma, retinopatia diabética e degeneração macular relacionada à idade). Laudos remotos são disponibilizados pelo Telessaúde Brasil (o núcleo de referência é o da Universidade Federal de Goiás - UFG). Figura 06 ─ Retinógrafo Portátil não midriático Fonte: Medical Expo, 2026. 88 https://www.medicalexpo.com/pt/pr od/medimaging-integrated-solution/ product-91117-1054932.html @lucianamonteirocampello@gmail.com, foi necessário alterar a figura. Pode aplicá-la aqui, sem fundo, por favor?https://drive.google.com/file/d/1TdFty3 CKQbQu0fjOXbsfbBjT90H1ohn7/view?usp=sha ring https://www.medicalexpo.com/pt/prod/medimaging-integrated-solution/product-91117-1054932.html https://www.medicalexpo.com/pt/prod/medimaging-integrated-solution/product-91117-1054932.html https://www.medicalexpo.com/pt/prod/medimaging-integrated-solution/product-91117-1054932.html https://drive.google.com/file/d/1TdFty3CKQbQu0fjOXbsfbBjT90H1ohn7/view?usp=sharing https://drive.google.com/file/d/1TdFty3CKQbQu0fjOXbsfbBjT90H1ohn7/view?usp=sharing https://drive.google.com/file/d/1TdFty3CKQbQu0fjOXbsfbBjT90H1ohn7/view?usp=sharing Ultrassonografia POC Permite a realização de ultrassom, através de sonda conectada sem fio a um celular ou tablet, com transmissão de imagens para um centro de referência. Propicia o acompanhamento de gestantes em pré-natal, alterações cardiovasculares e abdominais. Ainda pouco disseminado nas UBSs. Figura 07 ─ Ultrassom POC Fonte: Butterfly Network, 2026. 89 82 IMPORTANTE As soluções tecnológicas de ponto de cuidado possuem limitações técnicas intrínsecas. Desse modo, a obtenção de um resultado laboratorial negativo em pacientes que manifestem uma suspeita clínica robusta não deve ser interpretada como motivo para descartar a hipótese diagnóstica. A continuidade da investigação médica, incluindo a eventual solicitação de exames repetidos ou complementares, permanece integralmente sob o julgamento e a responsabilidade do profissional de saúde assistente. 90 12 A inteligência artificial aplicada à saúde pode ser definida como a utilização de qualquer inovação tecnológica, através de métodos e dispositivos que utilizem algoritmos de análise de dados, com o objetivo de interpretação diagnóstica ou exploração preditiva de uma condição de saúde. A popularização da utilização da IA contribuiu para criar-se a ideia de que ela seria capaz de resolver qualquer problema. Há, entretanto, limites e desafios que não podem ser ignorados (Oliveira Junior et al, 2026). INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA APS 8591 As formas mais frequentes de utilização da inteligência artificial na APS são por meio de consulta direta de uma dúvida a um grande modelo de linguagem (LLM), como, por exemplo, o ChatGPT, o Gemini, o Claude, o OpenEvidence, o Perplexity, ou através de acesso a softwares de leitura de exames de imagem (radiologia, oftalmologia, dermatologia). O grande problema nesse tipo de consulta é garantir a privacidade dos dados (que não podem ser compartilhados), ao mesmo tempo em que se avalia a pertinência e a aplicabilidade das respostas obtidas no caso e na situação em particular. Nesse sentido, o Conselho Federal de Medicina publicou a Resolução nº 2.454, em 11 de fevereiro de 2026, que normatiza o uso da IA na medicina. A regra de ouro da resolução é que a Inteligência Artificial apoia, mas não deve tomar decisão, devendo ser avaliada, com critério, pelo profissional de saúde. Ao utilizar dados de saúde provenientes de múltiplas fontes (dados clínicos, imagens de exames, resultados laboratoriais, perfis genéticos, dados fisiológicos), a inteligência artificial tem o potencial de contribuir de forma definitiva para a melhoria das condições de saúde do indivíduo e da população em geral. Ao mesmo tempo, seu uso traz riscos que precisam ser conhecidos e evitados. 92 A IA deve ser sempre tratada como apoio técnico auxiliar. Pode ajudar a organizar informações, resumir literatura, sugerir hipóteses diagnósticas, alertar interações medicamentosas, apoiar a leitura de exames e gerar minutas de documentos. Entretanto, a resolução reafirma que o ato médico continua submetido ao julgamento clínico humano, às normas éticas do CFM e à responsabilidade profissional. Os pontos principais dessa resolução podem ser vistos no Quadro 03, a seguir: Fonte: elaborado pelo autor, 2026. Quadro 03 ─ Pontos principais da resolução nº 2.454 Usar IA para resumir literatura médica Permitida Verificar fontes, atualidade e aplicabilidade ao caso concreto. Usar IA para sugerir hipóteses diagnósticas Permitida como apoio Confrontar com quadro clínico e evidências antes de qualquer conduta. Seguir recomendação sem análise própria Inadequada Revisar criticamente; se não puder revisar, não usar para decisão relevante. Delegar comunicação de diagnóstico grave à IA Vedada na prática assistencial Comunicação sensível deve ter mediação humana, empatia e responsabilidade médica. Rejeitar recomendação da IA Permitida e esperada quando necessário Registrar a justificativa, quando a recomendação tiver sido relevante. CONDUTA COMO PROCEDERAVALIAÇÃO PRÁTICA 93 Outras formas frequentes de utilização da inteligência artificial são no apoio à decisão clínica, na interpretação de exames complementares laboratoriais, na avaliação de interações medicamentosas e no apoio à gestão local como ferramenta de otimização de processos. Uma das habilidades mais importantes, ao se usar a inteligência artificial, é poder discernir se a resposta recebida está correta e pode ser aplicada ao caso clínico ou ao cenário específico daquela realidade. Chamada de critical thinking (ou pensamento crítico), o desenvolvimento dessa habilidade deve ser estimulado. Na utilização da inteligência artificial para a prática de cuidados à saúde dos pacientes, é importante que o profissional de saúde saiba para qual população um determinado algoritmo foi validado (mesmo que ele não entenda como o algoritmo funciona), pois precisa avaliar se a resposta recebida funciona para a população que ele atende. A inteligência artificial bem utilizada como ferramenta de apoio à decisão clínica, pode identificar padrões, auxiliando na definição diagnóstica, nunca como substituta aos médicos e enfermeiros. Sabendo que os algoritmos de inteligência artificial cometem erros, especialmente, quando analisam dados de populações sub-representadas