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CRIANÇAS E CULTURA ESCRITA Ana Maria de Oliveira Galvão 1. Iniciando o diálogo Desde o início da história da humanidade, homens e mulheres usaram dife- rentes formas de linguagem em seu cotidiano. Registros encontrados em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil, indicam que, há pelo menos trinta mil anos, os seres humanos, além dos gestos, dos sons, dos rituais e das palavras orais, usavam desenhos, grafismos e outros modos de inscrição mais perenes, possivelmente para se comunicar, para explicar fenômenos, para resolver problemas, para conferir sentido à sua presença no mundo e também para documentar e transmitir para as novas gerações aspectos do dia a dia e dos modos como significavam a vida. É somente muito recentemente, se considerarmos a história na longa dura- ção, que a escrita propriamente dita surgiu na trajetória da humanidade. Por volta do século IV a.C., são encontrados os primeiros registros do que se con- vencionou denominar como linguagem escrita. A escrita alfabética foi inven- tada cerca de dois mil anos depois. Mas a invenção da escrita não significou que ela fosse, de imediato, aceita como uma dimensão da linguagem neces- sariamente benéfica e positiva. Em seus primeiros séculos de existência, e mesmo muito tempo depois, em determinadas sociedades/comunidades e para certos grupos sociais, a escrita foi alvo de muitas polêmicas. No século IV a.C., Platão, por exemplo, considerava que ela poderia trazer impactos negativos para a cultura grega, pois, ao não cultivar a memória, como fazia a tradição oral, provocaria o esquecimento (REALE, 1994). Muito tempo depois, no século XIX, em países como o Brasil, em que a maior parte da população não tinha contato com o escrito a instalação da imprensa e a expansão da escola são acontecimentos relativamente recentes em nos- sa história -, encontramos muitos registros nos quais o analfabetismo não se associava a uma suposta dificuldade que teria o indivíduo, por exemplo, de 15